Mostrando postagens com marcador Aleksandr Dugin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aleksandr Dugin. Mostrar todas as postagens

12/07/2026

Aleksandr Dugin - O Tempo de Lyapunov

 por Aleksandr Dugin

(1995)


Na física moderna, que explora principalmente “as condições não controladas” e os sistemas caóticos, há um termo técnico para se referir a isto – “o tempo de Lyapunov”. Este termo designa um momento, quando em um certo processo (físico, mecânico, quântico, e inclusive biológico) se ultrapassa seus limites precisos (ou probabilísticos) de previsibilidade e se entra em uma etapa caótica. Em outras palavras, a trajetória de um certo processo está subordinada a leis estritas apenas durante um certo momento em tempo real. Além deste momento, a “normalidade” se acaba e o “tempo de Lyapunov” paradoxalmente se apodera dele (ou para ser mais preciso, o “tempo positivo de Lyapunov”). As características deste “tempo” são muito curiosas. Ao contrário do tempo físico-mecânico normal, o qual é visto pela física clássica como uma quantidade essencialmente reversível (isto quer dizer que o tempo é fundamentalmente um eixo estático, adicionando uma quarta dimensão às três dimensões do espaço; em referência ao modelo educacional de Einstein), o “tempo de Lyapunov” flui irreversível, apenas em uma direção, e, consequentemente, não consiste em uma trajetória definitiva (em um espaço de quatro dimensões), mas em eventos, movimentos completamente imprevisíveis, alguns dos quais são arbitrários, acidentais, irregulares. Os processos que ocorrem durante o “tempo de Lyapunov” são caóticos em contraste com os da mecânica clássica.

18/06/2026

Aleksandr Dugin - À Espanha Negra

 por Aleksandr Dugin

(2018)



Prefácio à edição espanhola de A Quarta Teoria Política


“Ser” local vs “não ser” universal


A Quarta Teoria Política não tem um destinatário sociocultural definido. Ela se dirige a cada pessoa desgostosa com o estado das coisas neste mundo, a cada pessoa suficientemente profunda para tentar buscar as causas e razões deste estado. Duvidamos que os temas tratados no livro despertem o interesse das pessoas que estão contentes com tudo, que estão satisfeitas com as alternativas atuais em política, cultura, sociedade, ou que estão preocupadas apenas com sua adaptação individual ao status quo ou correção de certos tecnicismos. Mas para os profundamente descontentes este livro pode ser útil. Nesta ocasião não há grande diferença entre um europeu e um latino-americano, entre um muçulmano e um russo, entre um asiático e um africano: em todos os continentes e em todas as sociedades há aqueles que tomam consciência e sabem que hoje tudo se joga em uma carta e que todos nós devemos responder à pergunta principal – ser ou não ser. Claro que cada sociedade e cada cultura dá ao conceito “ser” (igualmente ao “não ser”) seu próprio sentido. No entanto, a Modernidade (contemporaneidade) tem um traço característico: ela está apresentando seu paradigma universal. Por isso sua estrutura é global. Esta estrutura da contemporaneidade global está nos atacando em todas as sociedades. É um desafio para todos. Antes de propor alternativas (que podem ser locais ou universais), é preciso discernir sua essência. Podemos dizê-lo de outra forma: o sujeito do conceito “ser” muda segundo o contexto cultural, enquanto que “não ser” pode ser total. O modelo global da ordem mundial nos propõe “não ser”. Aceitando-o nós estamos entrando na zona de padronização. Rejeitando-o (mas isso seria possível apenas depois que tomássemos consciência de tudo o que decidimos rejeitar) estamos reconquistando o direito de ser em toda a extensão da palavra, o direito de ser nós mesmos (salvar nossa identidade) e fazer-nos a nós mesmos (ou seja, ganhar, criar essa identidade).

30/05/2026

Aleksandr Dugin - Sobre Stálin

 por Aleksandr Dugin

(2025)


A sua enorme popularidade na Rússia contemporânea é um fenômeno complexo. A avaliação positiva de Stálin pela maioria do povo está associada a uma série de fatores:


  1. Os sucessos óbvios da URSS sob sua liderança – o salto econômico, a igualdade material, a Vitória na guerra, as aquisições territoriais, a crueldade em relação às elites governantes (que o povo tradicionalmente odeia).
  2. A comparação com outros líderes da URSS – o caos e a violência da Revolução e da Guerra Civil, onde a romântica heroica desvaneceu-se consideravelmente, tornando Lênin menos unívoco, a insensatez e a estupidez de Khrushchov, a estagnação e a gradual degradação senil de Brezhnev. Em contraste com eles, Stálin sai-se magnificamente. Um verdadeiro Imperador.
  3. O fato de que os que mais atacavam Stálin eram liberais da perestroika e dos anos 90, completamente repulsivos para o povo, insignificantes, russófobos e venais. Em comparação com esses insetos vis, que apenas destruíram tudo, traíram, venderam e ridicularizaram, Stálin parecia divino. A elevação de Stálin foi facilitada pela baixeza de seus críticos (vide a extinta e proibida na Rússia, por extremista e terrorista, "Eco de Moscou").

14/03/2026

Aleksandr Dugin - Os Indo-Europeus

 por Aleksandr Dugin

(2018)



Vamos falar dos indo-europeus. Por que isto é importante? Porque, durante os últimos milênios, os povos indo-europeus, tanto no Ocidente – na Europa – como no Oriente – no Irã e na Índia –, estiveram no centro de todos os acontecimentos e processos mais significativos à escala planetária. Longe de todos estes acontecimentos terem sido engraçados ou maravilhosos, mas os altos e baixos dos últimos milénios não são obra de nenhum outro senão dos indo-europeus. Hoje, como o destino dos povos e culturas indo-europeias é cada vez mais problemático com cada dia que passa, e como uma crise de identidade, uma catástrofe demográfica e, em geral, uma espécie de obscurecimento evidente da consciência encaram os indo-europeus de frente, é hora de colocar a questão: quem são os indo-europeus? O que os une, se é que algo os une? O que eles enfrentam neste momento crítico da sua história e do seu destino?

14/11/2025

Aleksandr Dugin - A Significância de Heidegger e de sua História da Filosofia para a Rússia

 por Aleksandr Dugin

(2025)



A possibilidade da filosofia russa


Hoje, as questões sobre o que é a filosofia russa, se ela existiu, se existe agora e se existirá no futuro são prementes. Mas há uma questão ainda mais profunda: a filosofia russa é sequer possível? A pergunta soa estranha e paradoxal, mas não raro nos deparamos com fenômenos que existem de facto, embora seu sentido, conteúdo, justificação e estrutura orgânica permaneçam problemáticos. Sob análise mais atenta, tais fenômenos revelam-se não como aquilo que aparentam ser, mas como simulacros, falsificações, obscuras “cópias sem originais” (Baudrillard)[1]. Eles “são”, mas são impossíveis. Sua ontologia está enraizada no mal-entendido, na falsificação, num deslocamento desarmonioso. Pitirim Sorokin descreveu fenômenos semelhantes nos sistemas sociais como uma “sociedade de despejo”[2]. Oswald Spengler recorreu, em situações análogas, à figura da “pseudomorfose”[3] (em geologia, o nome de uma formação mineral em que fatores heterogêneos interferem inesperadamente durante o processo de cristalização, como a lava de um vulcão em erupção, etc.).

Assim, a questão da possibilidade da filosofia russa é plenamente legítima. O que costumamos chamar por esse nome pode revelar-se justamente um simulacro ou uma pseudomorfose. Ou pode não ser. De qualquer forma, para fundamentar seriamente a possibilidade da filosofia russa, é necessário um certo esforço. Esse esforço é ainda mais necessário porque mesmo a visão mais otimista da filosofia russa não pode ignorar seu surgimento tardio na história russa e a grave interrupção em sua existência no século XX, quando, se não desapareceu completamente (não tendo tido tempo de realmente começar), foi profundamente distorcida pela dogmática marxista. Se a filosofia russa, enquanto tal, existe, está historicamente danificada e precisa de reanimação. Se existe em esboço, é ainda mais necessário recorrer aos seus pressupostos, ao domínio de sua possibilidade. Além disso, há uma demanda por sua fundamentação e retorno às posições iniciais, a partir das quais pode começar o processo complexo e não tão óbvio da filosofia no contexto da cultura autóctone russa [4].

16/03/2025

Aleksandr Dugin - Sobre o Neopaganismo e o Satanismo da Ciência Moderna

 por Aleksandr Dugin

(2024)


 

O conceito de "pagão" tem origem no Antigo Testamento. Em russo, os "gentios" eram chamados de povos. Os judeus antigos usavam o termo "am" (עם) para descrever a si mesmos e "goy" (גוי) para descrever outras nações. Judeus = o povo, sendo um (escolhido), enquanto as “línguas” das nações são muitas. Assim, os judeus adoravam um único Deus e acreditavam que todas as outras nações (línguas) adoravam muitos deuses. Daí a identificação do termo “língua” (goy) com os politeístas idólatras (os gregos têm uma palavra semelhante, ειδολολάτρης). Em latim, o termo correspondente é gentilis, derivado de gēns, "povo", "clãs", "nações". Esse significado foi adotado pelos cristãos, e agora a oposição não era entre os judeus e todos os outros, mas entre as nações cristãs, que representavam a Igreja de Cristo, a "nação santa" (ὁ ἱερὸς λαὸς), e os povos e culturas que adoravam muitos deuses, chamados "pagãos". Na verdade, as próprias nações cristãs eram pagãs até aceitarem Cristo. E aquelas nações que não o aceitaram continuaram adorando muitos deuses (ειδολολάτρης).

02/01/2025

Aleksandr Dugin - A Revolução Conservadora Russa

 por Aleksandr Dugin

(2004)


 

1. A Rússia conservadora-revolucionária


Os autores que estudavam a Revolução Conservadora alemã ou a Revolução Conservadora de modo geral (Armin Mohler, Alain de Benoist, Luc Pauwels, Robert Steuckers, etc.) sempre destacaram o papel da Rússia no desenvolvimento do pensamento conservador-revolucionário e até mesmo no uso original deste termo. -- Yuri Samarin “Revolutsionnyi conservatism”. Não se pode duvidar também da "Ostorientirung" e de certa russofilia quase obrigatória desse movimento intelectual dos jovens conservadores até os nacionais-bolcheviques alemães, passando pelos geopolíticos da escola de Haushofer. Nesse sentido, as célebres ideias radicais de Jean Thiriart sobre "o império euro-soviético de Vladivostok a Dublin" e o famoso aforismo de Alain de Benoist sobre a preferência pela boina do Exército Vermelho em vez do boné verde americano permanecem dentro dos quadros tradicionais da lógica conservadora-revolucionária mais estrita.

Mas um estudo sério e suficientemente documentado neste domínio ainda está por fazer para apreciar todo o valor intelectual e geopolítico do pensamento conservador-revolucionário dos próprios autores russos. Esta tarefa é extremamente difícil devido à falta de traduções dos escritos dos representantes do pensamento conservador-revolucionário russo para as línguas europeias. Por outro lado, este movimento permanece quase inteiramente ignorado até mesmo na própria Rússia, porque os comunistas de ontem consideravam oficialmente este movimento como "pequeno-burguês" e "nacionalista", e os democratas de hoje pensam que se trata de "chauvinistas", "patriotas" e "antissemíticos", ou até mesmo "nazistas". Apesar de tudo, o interesse pelos autores russos da tendência conservadora-revolucionária na Rússia está crescendo cada vez mais, e pode-se esperar que suas obras e ideias sejam redescobertas e repensadas pela intelligentsia russa, que começa a despertar de um longo sono ideológico. Já se pode notar que o processo intelectual de descoberta do patrimônio nacional no domínio da cultura ainda hoje possui na Rússia vários traços conservadores-revolucionários, embora muitas vezes isso ocorra de maneira espontânea, inconsciente e natural. Pode-se até ousar dizer que a Rússia em si, em sua essência, é naturalmente conservadora-revolucionária, abertamente ou secretamente conforme as circunstâncias externas.

13/11/2024

Aleksandr Dugin - Pós-Antropologia

 por Aleksandr Dugin

(2017)

 


Sociedade Humana após a Crise: O Inferno na Terra pela Lente da Sociologia das Profundezas


Sociologia das profundezas


Uma sociedade concreta (fenomênica) sempre consiste em duas partes – a superfície e o subterrâneo. A parte da superfície é o que normalmente chamamos de "sociedade", significando uma esfera de atividade racional onde o logos (λόγος) prevalece. Este é o domínio do "diurno". A parte subterrânea é a ilha escura e submersa do inconsciente coletivo, a região da noite social (o “noturno”), onde o mito (μύθος) governa.

Por um tempo, a ciência progressista acreditou que essas duas partes estavam situadas em ordem diacrônica. Nos tempos antigos (e entre os povos "primitivos", o infeliz "resíduo" dos tempos antigos), o mito predominava. Mas o progresso da civilização gradualmente suplantou a ordem mitológica e a substituiu por uma ordem baseada no logos. A comunidade, ou Gemeinschaft, foi superada pela sociedade, ou Gesellschaft (F. Tönnies). Mas essa exaltação otimista não durou muito. Enquanto a fé cega no progresso suposto reinava quase indiscutivelmente na Europa Ocidental dos séculos XVIII e XIX, o subconsciente, onde as leis eternas e imutáveis do mito predominam, foi descoberto no início do século XX.

09/10/2024

Aleksandr Dugin - Notas sobre o Pensamento

 por Aleksandr Dugin

(2019)


Todo mundo “acha” que pode pensar e que o que estão normalmente fazendo é chamado de “pensar”. Isso é um equívoco.

Aqueles que possuem uma certa cultura de pensamento e são capazes de autorreflexão entram (espero que de maneira consciente e responsável) no que são virtualmente processos mecânicos de circulação por certas escolas, trajetórias e sistemas. Eles residem ali, seguindo as principais regras e cânones semânticos. No melhor dos casos, podem modificar, acrescentar, corrigir ou emendar algo nesse sistema, mas certamente nada fundamental. É assim que as dissertações ensinam a “pensar” – isto é, claro, quando são honestamente, minuciosamente e independentemente concebidas e escritas. Mas isso ainda não significa “pensar”. Este é um estágio preparatório, às vezes importante, mas está longe do objetivo final. Além disso, isso não leva necessariamente ao pensamento. Em vários casos, isso pode até se tornar um bloqueio para o nascimento do pensamento. Ademais, é possível pensar sem isso.

27/09/2024

Aleksandr Dugin - O Príncipe Nikolai Trubetskoy e a sua Teoria do Eurasianismo

 por Aleksandr Dugin

(2016)


Em 16 de abril de 1890, nasceu Nikolai Sergeevich Trubetskoy, o grande pensador russo, linguista e fundador do movimento ideológico do Eurasianismo. A principal ideia de Trubetskoy era que a Rússia não é simplesmente um país europeu, como insistiam os ocidentalizadores russos, mas uma civilização particular e separada, o Mundo Russo. Este é o ponto mais importante.

22/09/2024

Aleksandr Dugin - Pensar o Caos e o "Outro Começo" da Filosofia

 por Aleksandr Dugin

(2018)


 

O caos não fazia parte do contexto da filosofia grega. A filosofia grega foi construída exclusivamente como uma filosofia do Logos e, para nós, tal estado de coisas é tão normal que (provavelmente corretamente do ponto de vista histórico) identificamos a filosofia com o Logos. Não conhecemos outra filosofia e, em princípio, se acreditarmos em Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger junto com a filosofia pós-moderna contemporânea, teremos que reconhecer que a própria filosofia descoberta pelos gregos e construída em torno do Logos esgotou completamente seu conteúdo hoje. Ela se encarnou na techne, na topografia sujeito-objeto que se revelou evidenciária por apenas dois ou três séculos até a nota final, crepuscular, da filosofia da Europa Ocidental. Na verdade, hoje estamos na linha ou no ponto final desta filosofia do Logos.

17/09/2024

Aleksandr Dugin - Hegel e o Salto Platônico

 por Aleksandr Dugin

(2024)


 

No dia 14 de novembro de 1831, faleceu Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), o maior filósofo romântico na história do pensamento. Heidegger, junto com Nietzsche, acreditava que Hegel foi aquele que completou a história da filosofia do Logos Ocidental e o ápice da história da filosofia e da filosofia em geral. Se Platão foi o filósofo do início, então Hegel e Nietzsche foram os filósofos do fim. Nesse sentido, Hegel foi o filósofo somativo.

27/08/2024

Aleksandr Dugin - Conosco ou Nada

 por Aleksandr Dugin

(1995)


É possível dividir o fenômeno bolchevique em duas partes. Por um lado, o campo doutrinário de vários socialismos pré-marxistas, visões e teorias comunistas que existiram paralelamente e continuaram a existir como motivos intelectuais mesmo depois que o marxismo foi imposto como ideologia oficial. Essa primeira etapa pode ser chamada de "projeto bolchevique". A segunda etapa é a encarnação desse projeto em uma realidade histórica concreta na forma da social-democracia russa, depois no Partido Comunista e, finalmente, na história do Estado soviético e do partido único. A primeira parte é indiscutivelmente mais vasta que a segunda e, como qualquer plano, ultrapassa a segunda. Mas é impossível compreender uma sem a outra. A realidade concreta não tem sentido se não conhecemos o plano, e um plano sem realidade concreta é um plano abstrato, possível de ser concretizado em várias circunstâncias com maior ou menor sucesso.

14/05/2024

Aleksandr Dugin - Por Uma Nova Idade Média

 por Aleksandr Dugin

(2024)


2024 foi proclamado o Ano da Família na Rússia, mas hoje não podemos falar sobre a saúde da família. Os números de divórcios, abortos e queda nas taxas de natalidade são catastróficos, portanto, se quisermos levar o Ano da Família a sério, teremos de recorrer aos clássicos russos e deixar de lado tanto os liberais quanto os comunistas, que só aceleraram a desintegração da família. É necessário dar um passo à frente e voltar às nossas raízes, porque, do ponto de vista histórico, sociológico e antropológico, a família é um conceito que está intrinsecamente ligado ao campesinato. Na sociedade russa, por "família" entendia-se, em primeiro lugar, a família camponesa unida pelo casamento e que vivia em uma casa comum com todos os seus filhos batizados. Às vezes, a família incluía o gado pequeno (ou grande, conforme o caso), a casa, o campo, os pomares, as ferramentas agrícolas e outros implementos, bem como os "trabalhadores" (as palavras rebenok, criança, e rab, escravo, têm a mesma raiz e significam "trabalhadores menores" porque o dever das crianças é ajudar o pai e a mãe). Nos povos nômades, há, é claro, diferenças em relação à organização do território habitado pela família: cada tribo, clã ou linhagem distribuía o território para pastoreio de maneira fixa, daí as tamgas que separavam os pastos nos diferentes clãs que habitavam as estepes da Eurásia.

06/11/2023

Aleksandr Dugin - Escatologias do Mundo Multipolar

 por Aleksandr Dugin

(2023)


BRICS: A criação da multipolaridade

 

A XV Cúpula do BRICS: Estabelecimento de um mundo multipolar


A XV Cúpula do BRICS tomou uma decisão histórica de admitir mais seis países na organização: Argentina, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Isso efetivamente completou a formação do núcleo de um mundo multipolar.

Embora o BRICS, antigo BRIC, fosse uma associação condicional de países semiperiféricos (de acordo com Wallerstein) ou do "segundo mundo", o diálogo entre esses países, que não fazem parte da estrutura do Ocidente coletivo (OTAN e outras organizações rigidamente unipolares dominadas pelos Estados Unidos), delineou gradualmente os contornos de uma ordem mundial alternativa. Se a civilização ocidental se considera a única, e essa é a essência do globalismo e da unipolaridade, os países do BRICS representavam civilizações soberanas e independentes, diferentes do Ocidente, com uma longa história e um sistema de valores tradicionais completamente original.

Inicialmente, a associação BRIC, criada em 2006 por iniciativa do presidente russo Vladimir Putin, incluía quatro países - Brasil, Rússia, Índia e China. O Brasil, a maior potência da América do Sul, representava o continente latino-americano. A Rússia, a China e a Índia têm, por si só, escala suficiente para serem consideradas civilizações em escala real. Eles são mais do que simples Estados-nações.

09/08/2023

Aleksander Dugin - Paradigmas Sociológicos e o Gênero Russo

 por Aleksander Dugin

(2023)


Russos da Internet e Russos da TV


O objetivo específico da realização desta pesquisa é descrever a opinião dos "netizens", os "russos da Internet". Há muitos deles? Sim, são muitos. Em termos sociológicos, os russos podem ser divididos em duas categorias: "russos da TV" e "russos da Internet", que diferem significativamente em suas atitudes. Atualmente, um número significativo de pessoas, especialmente a geração mais jovem, não assiste à televisão e, provavelmente, muitos nem sabem o que é isso. A televisão se tornou um nicho bastante limitado para a transmissão de informações. Não se pode dizer que os espectadores de televisão são russos em si, mas também não se pode dizer que os russos da Internet são todos russos. Há ambos, e a opinião de ambos os grupos é importante. Provavelmente há uma categoria mista: Russos da TV-Internet que sabem o que é a TV, assistem a ela de vez em quando, mas se informam principalmente pelas redes sociais.

24/04/2023

Aleksandr Dugin - Heartland Distribuído: Rumo a uma Geopolítica Multipolar

 por Aleksandr Dugin

(2019)


Hoje devemos começar a discutir um problema geopolítico que, em minha opinião, é central para a construção de um mundo multipolar. Quem conhece geopolítica, sabe que uma das principais leis ou conceitos de geopolítica é a noção de Heartland. Todas as escolas clássicas de geopolítica - incluindo os modelos de Mackinder, Spykman, Haushofer, Brzezinski, etc. - reconhecem um profundo dualismo entre o Heartland - o Continente, a Civilização da Terra - e a Civilização do Mar, encarnada hoje no mundo anglo-saxão, antes de tudo os EUA e sua política marítima. A Civilização do Mar, ou Potência Marítima, tenta cercar Heartland - o Continente, Eurásia - a partir do mar e controlar seus territórios costeiros. A Potência Marítima esforça-se para impedir o desenvolvimento do Heartland e, assim, realizar seu domínio em escala global. Como disse Mackinder, "quem controla a Europa Oriental, controla o Heartland, e quem controla o Heartland, controla o mundo". Esta ideia foi posteriormente desenvolvida por Spykman: "Aquele que controla a Rimland (a zona costeira da Europa até a China e o Sudeste Asiático), controla o Heartland, e aquele que controla o Heartland, controla o mundo".

08/12/2022

Aleksandr Dugin - Kemi Seba: Esperança Africana de um Mundo Multipolar

 por Aleksandr Dugin

(2019)


Até alguns anos atrás, a África estava em um impasse. Após a primeira onda de descolonização na década de 1960, os novos regimes africanos tentaram todas as ideologias políticas da chamada era “moderna”. Esse processo levou ao surgimento de sociedades liberais, nacionalistas, comunistas ou socialistas em países pós-coloniais.

Infelizmente, a aplicação rigorosa desses paradigmas políticos exógenos arrastou dramaticamente as nações africanas para um inevitável declínio, com cada ideologia político-social dependente de um contexto matricial específico. Ao impor os princípios da modernidade ocidental na vida cotidiana das massas, embora tão distantes dessas correntes epistemológicas, as elites africanas destruíram e perverteram as profundas identidades dos povos, enquanto pensavam, paradoxalmente, em adensá-las. Eles se libertaram do colonialismo físico, mas não do colonialismo mental.

01/12/2022

Aleksandr Dugin - A Impotência dos Patriotas Russos

 por Aleksandr Dugin

(2018)


Um número específico de nossa população nutre uma nostalgia fundamental pelo período soviético. Aqueles que não vivenciaram esse período, projetam a imagem patriótica e positiva de um Estado social e justo, de progresso tecnológico, de novos horizontes, de relações morais entre as pessoas e de disciplina, de modo que pode se dizer um certo afeto neo-soviético permanece vivo em nossa sociedade – nos idosos, como algo natural, e em pessoas jovens e de meia-idade, como algo polêmico (inserido dentro do viés dos liberais modernos da oposição a Stálin).

O Estado, ao verificar que, na nostalgia soviética, há algo de patriotismo, bem como um certo continuum com o modelo totalitário, cultiva-a em parte, da maneira que lhe é conveniente (se antes havia o totalitarismo ideológico, agora há o administrativo).

01/07/2022

Aleksandr Dugin - A Doutrina Tradicional dos Elementos (Lição VII) - A Matéria vista da Direita

 por Aleksandr Dugin

Transcrição da comunicação do VIIº Encontro do Clube dos 5 Elementos


Pensar a matéria vista da Direita é pensar uma crítica do atomismo dogmático, que só é capaz de conceber matéria descontínua

Primeiramente, precisamos compreender que a vontade de poder, tal como descrita por Nietzsche, se aplica perfeitamente às ciências naturais onde há um domínio e poder epistemológico que não é menor do que nas ciências humanas. 

A crítica do conceito de matéria é a raiz da Revolução Conservadora. Sem a revisão desse conceito central das ciências, das ideologias, das epistemologias não podemos libertar nossa mente dessa hegemonia da ideologia dominante. A ideologia dominante se projeta no conceito de matéria, que é o fundamento de todas as construções científicas.

Essa ideia de observar a matéria como continuidade é fundamental. Essa ideia é própria da física quântica, por exemplo, que é uma abordagem interessante mais ou menos pós-moderna. Aqui, apesar de ter mencionado um conceito pós-moderno de matéria é importante que o conceito de Quarta Teoria Política em sua crítica busca fazer coincidir uma perspectiva pré-moderna e uma pós-moderna.