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18/11/2016

Eugene Montsalvat - Precursores Iranianos da Quarta Teoria Política

por Eugene Montsalvat



Os antepassados intelectuais da Revolução Iraniana, Ahmad Fardid, Jalal Al-e-Ahmad e Ali Shariati, partilham de muitos pontos em comum com a Quarta Teoria Política. Bebendo da herança intelectual comum de Martin Heidegger, eles desenvolveram uma crítica da hegemonia ocidental. Em muitos casos, as ideias expostas por estes pensadores iranianos prefiguram a Quarta Teoria Política, ainda que em uma aplicação especializada ao Irã. O Irã apresenta um exemplo de uma revolta política e intelectual contra a hegemonia liberal ocidental que está fora das categorias da segunda e terceira teorias políticas (comunismo e fascismo), mas ainda assim puxa influências importantes delas e as recontextualiza na estrutura singular da essência histórica iraniana.

Os antepassados intelectuais da Revolução Iraniana fundiriam com sucesso o pensamento mais radical do século XX com a tradição islâmica do Irã para desenvolver uma síntese autenticamente revolucionária. Como na Quarta Teoria Política, Heidegger desempenha um papel fundamental, como o filósofo de um novo começo, que anuncia o retorno a uma essência autêntico. A fundação do pensamento heideggeriano iraniano foi estabelecida por Ahmad Fardid, como Ali Mirsepassi nota em “Islã Político, Irã e o Iluminismo”:

“O pensador cujo trabalho mais contribuiu para estabelecer as bases para um discurso político heideggeriano no contexto iraniano foi Ahmad Fardid (1890=1994). Ele foi a principal autoridade em filosofia alemã e particularmente em Heidegger da década de 50 em diante. Finalmente, ele contribuiu bastante para a evolução dos discursos intelectuais que culminaram na Revolução Iraniana de 1979. Sua obra envolvia revestir o par Oriente-Ocidente em uma linguagem de concepções filosóficas emprestadas de Heidegger. Em uma veia historicista, ele defendia que a ‘verdade’ dominante da era havia sido, desde o século XVIII, a de uma civilização ocidental que roubou todos os ‘países islâmicos’ e ‘nações orientais’ de suas ‘memórias culturais’ e de sua própria ‘confiança histórica’. Essa posição é constituída primeiramente por uma afirmação anti-iluminista de que o crescimento da vazia e externalista civilização ocidental é uma ameaça direta à vitalidade de culturas locais não-ocidentais, e em segundo lugar a afirmação de que essa ameaça deve ser confrontada pela reivindicação do que é uma memória cultural apagado e pela tomada de um passado roubado” (pg. 30-31)

Como na Quarta Teoria Política, Fardid usa Heidegger para desafiar a dominação unipolar da ideologia ocidental clamando por um retorno a um modo “autêntico” de ser. Este grande retorno do Ser no momento em que a história é mais sombria, no momento em que passamos através da escuridão do “niilismo ocidental”, recebe uma interpretação iraniana particular de Fardid. Citando Mirsepassi novamente:

“Em um remodelamento do relato de Heidegger sobre o declínio ocidental e a necessidade de recuperar a experiência grega do ‘ser’, Fardid relocaliza a experiência espiritual original e autêntica da humanidade em um Islã/Oriente nebuloso. Em efeito, as modificações de Fardid transferem o papel da ‘nação espiritual no meio’ da Alemanha ao Irã, dentro da mesma problemática do cerco da Guerra Fria e da modernidade secular ‘universal’. Neste dilema é necessário abandonar Gharb (o Ocidente) tanto enquanto ontologia como enquanto modo de vida. Curiosamente, de modo a fazê-lo, é primeiro necessário descobrir a ‘essência do Ocidente’ como pré-requisito para uma vez mais resgatar a autêntica essência islâmica. Isso, naturalmente, não é diferente da ideia de Heidegger de uma ponte para de volta ao Ser através de uma desconstrução da tradição dominante. Os termos da necessidade de uma obediência espiritual socialmente embasada mudaram, mas a necessidade permanece a ideia determinante”. (pg. 119)

É precisamente este retorno do Ser, chamado Ereignis por Heidegger, que jaz no coração da Quarta Teoria Política, como Dugin afirma:

“Heidegger usou um termo especial Ereignis, o ‘evento’, para descrever este súbito retorno do Ser. Ele ocorre exatamente à meia-noite da noite do mundo, no momento mais sombrio na história. O próprio Heidegger vacilava constantemente sobre se este ponto já havia sido alcançado, ou ‘ainda não’. O eterno ‘ainda não’.

A filosofia de Heidegger pode se provar como o eixo central ligando tudo ao seu redor, indo da reconcepção da segunda e terceira teorias políticas ao retorno da teologia e da mitologia.

Assim, no coração da Quarta Teoria Política, em seu centro magnético, está a trajetória da aproximação do Ereignis (o ‘Evento’), que incorporará o retorno triunfante do Ser, no exato momento em que a humanidade esquecê-lo, de uma vez por todas, ao ponto em que os seus últimos traços desapareçam”. (“A Quarta Teoria Política”, pg. 29)

Para Fardid, o Ser iraniano, seu controle sobre sua própria narrativa histórica e destino, estava se perdendo sob as influências intelectuais perniciosas do Ocidente, que ele chamaria de “Ocidentoxicação”. Outro grande pensador iraniano, Jalal Al-e-Ahmad, definiria essa “Ocidentoxicação” assim: “o agregado de eventos na vida, cultura, civilização e modo de pensamento de um povo sem apoio em tradição, sem continuidade histórica, e sem gradiente de transformação”. O livro de Al-e-Ahmad “Ocidentoxicação”, se provaria um guia intelectual para a crescente resistência. Ele estava respondendo ao regime modernizante pró-ocidental do Xá, que viu uma cultura iraniana enraizada sendo destruída pelos valores do Ocidente, que se apresentavam como valores universais para toda a humanidade. A “ocidentoxicação” traria a obliteração do passado iraniano e do futuro se não fosse impedido. Como na Quarta Teoria Política, há uma crítica comum da pretensão ocidental a uma civilização global, que seria equivalente à morte do Ser, como Dugin aponta:

“Globalização é equivalente ao fim da história. Ambos caminham juntos. Os dois estão semanticamente ligados. Sociedades diferentes tem histórias diferentes. Isso significa diferentes futuros. Se nós vamos criar um ‘amanhã’ comum a todas as sociedades existentes no planeta, se vamos propor um futuro global, então primeiro precisamos destruir a história daquelas outras sociedades, destruir seus passados, aniquilar o momento contínuo do presente, virtualizando as realidades que são construídas pelo conteúdo do tempo histórico. Um ‘futuro comum’ significa deletar as histórias particulares. Mas isso significa que não haverá quaisquer histórias, nem seus futuros. O futuro comum é futuro nenhum. A globalização é a morte do tempo. A globalização cancela a subjetividade transcendental de Husserl ou o Dasein de Heidegger. Não haveria mais nem tempo, nem ser”. (Quarta Teoria Política, pg. 165)

De modo a desenvolver seu ataque contra a modernidade ocidental, Al-e-Ahmad puxou influências da Revolução Conservadora alemã, particularmente de Ernst Jünger, cuja obra ele traduziu ao persa e de quem ele diria, “Jünger e eu estávamos ambos explorando mais ou menos o mesmo tema, mas de duas perspectivas diferentes. Estávamos abordando a mesma questão, mas em dois idiomas”. Al-e-Ahmad buscou transfigurar a modernidade, reconhecendo a presença inevitável da tecnologia, mesmo que destrutiva, mas utilizando-a a serviço de um Estado xiita revitalizado. Como os conservadores revolucionários alemães, Al-e-Ahmad não recuou à mera reação, ele percebeu que era impossível fugir para um passado pré-tecnológico, ao contrário ele apontou a uma terceira posição entre subjugação pelo poderio técnico do Ocidente e um recuo ao primitivismo, questionando “Devemos permanecer os meros consumidores que somos hoje ou fecharemos nossas portas à máquina e à tecnologia e recuaremos às profundezas de nossos caminhos antigos, ou haverá uma terceira possibilidade?”. A “terceira possibilidade” implicada seria canalizar a modernidade para destruir seus efeitos tóxicos. Al-e-Ahmad afirmou sua vontade de “colocar (na máquina) um arreio como se fosse um animal de carga... e imprimir nela a vontade humana”. A tecnologia deveria estar subordinada, não mais uma força de atomização social e degeneração cultural, mas um instrumento de construção. As forças titânicas da modernidade seriam capturadas para dissolver a modernidade e retornar à essência da civilização iraniana. Neste contexto, Al-e-Ahmad se torna um conservador revolucionário iraniano. Conservadores, que seriam defensores da cultura islâmica no contexto iraniano, liderarão a revolução, ao invés de se opor a ela. O projeto continental da Eurásia assume uma posição conservadora revolucionária similar ao fundir revolução e tradição, como afirma Dugin:

“Eu estou convicto de que a história política bem logo nos forçará a esclarecer nossas posições e polir nossa retórica para torna-la mais precisa. Não temos escolha além do conservadorismo: nós seremos empurrados em sua direção desde fora, bem como de dentro. Mas do que faremos com o espírito da revolução, a vontade, a chama abrasadora de rebelião que secretamente jaz no coração russo e perturba nosso sono, nos convidando a segui-la até terras distantes? Eu penso que devemos investir nossa força continental em um novo projeto conservador. E que seja esta a nova edição de nossa Revolução, a Revolução Conservadora, a Revolução Nacional em nome de um grande sonho...” (“Putin vs. Putin”, pg.157)

Outro grande pensador iraniano que articulou uma visão de revolução fundindo influências do Islã xiita, do Terceiro Mundismo e Heidegger foi Ali Shariati. Shariati adaptou as ideias de “Ocidentoxicação”, afirmando em “Shieh, Yek Hezb-e Tamam” (Xiismo, um Partido Completo), “Eles [o Ocidente (farang)] poluíram nosso mundo com seu capitalismo e nossa religião com suas igrejas! Eles ensinam a nossos modernistas o dandismo [gherti-bazi], danças, coquetéis e meras liberdades sexuais em nome da civilização... Eles lentamente insuflaram as profundezas de nossos corações e mentes e nossa fé racional e religião progressiva, prática e humana. Eles escureceram e arruinaram tudo que previamente considerávamos caro a nós: a alma [ruh], a intercessão [shefaat], a invocação [tavasol], a confiança [velaayat], e o martírio”. Para combater as influências tóxicas do Ocidente, Shariati iria expor um xiismo de libertação, chamado de “Xiismo Vermelho”, assim chamado pelo sangue dos mártires. Assim, Shariati invoca a herança revolucionária dos xiitas que resistiram à ocupação mongol do Irã:

“Este foi o início da explosão, bem simples e rápido! A hoste vai ao povo e chamando as massas xiitas, exclama que o governante mongol está pedindo suas mulheres. Qual é sua resposta? Eles dizem ‘Nós preferimos morrer a sermos assim tão aviltados! Nossas mulheres para nossos inimigos serão nossas espadas’. O resultado é inevitável. As massas se decidiram. Eles matam todo o grupo de uma só vez. Como eles sabem que não há como voltar atrás, como eles sabem que já escolheram a morte, eles param de titubear. A escolha da morte lhes dá tamanha energia que sua pequena aldeia se revolta contra aquele regime sanguinário e vence. Os aldeões tomam a cidade, lutando contra o exército mongol e os decretos dos pseudo-clérigos da religião do Estado. Eles são vitoriosos. Seu grito: ‘Salvação e Justiça!’ e ‘A destruição do poder dos governantes mongóis e da influência dos sacerdotes da religião dos governantes e dos grandes proprietários da classe governante’. As vítimas da ignorância do pseudo-clero e os prisioneiros da opressão dos mongóis continuam se unindo às fileiras dos rebeldes. Sabzevar se torna um centro de poder; como um fogo que se espalha por arbustos secos, os guardas revolucionários xiitas, que desfrutam do apoio de guerreiros rurais e campões das massas, e tem a ideologia do Sheikh Khalifeh a do Sheikh Hassan e de tipos similares de homens missionários justos, bem informados e de saber, engolem todo o Khorasan e o norte do Irã e inflamam até o sul do país. E pela primeira vez, um movimento revolucionário baseado no xiismo alavita, contra a dominação estrangeira, a enganação interna, o poder de senhores feudais e ricos proprietários, teve um levante armado, liderado por camponeses há sete séculos, sob a bandeira da justiça e a cultura do martírio, pela salvação da nação escravizada e das massas despossuídas.

E esta foi a última onda revolucionária do xiismo alavita, o xiismo vermelho, que continuou por sete séculos a ser a chama do espírito da revolução, da busca pela liberdade, e pela justiça, sempre se inclinando para o povo comum e lutando impiedosamente contra a opressão, a ignorância e a pobreza”. (Xiismo Vermelho vs. Xiismo Negro)

Shariati deu uma essência explicitamente religiosa à posição de libertação nacional. Enquanto ele adotou muito da retórica e ideologia da libertação terceiro-mundista da esquerda, Shariati se recusou a ser aprisionado pela dicotomia capitalista/comunista, condenando concepções econômicas da vida como insuficientes, afirmando:

“Ambos estes sistemas sociais, capitalismo e comunismo, apesar de diferirem em configuração exterior, consideram o homem como um animal econômico... a humanidade está a cada dia mais condenada à alienação, mais afogada neste louco vendaval de velocidade compulsiva. Não só não há mais ócio para o cultivo de valores humanos, grandeza moral, e aptidões espirituais (mas isso também) fez com que os valores morais tradicionais declinassem e desaparecessem também”.

Ao invés ele deu precedência a uma força apocalíptica unindo povo, ideologia e Deus em um poder coerente de renascimento espiritual, assim ligando libertação nacional e refundação espiritual. Mirsepassi resume a crítica de Shariati à modernidade, citando suas afinidades com Heidegger:

“A principal crítica da modernidade em sua obra é o ataque ao que ele chamou de ‘cosmo materialista’, onde ‘o homem se torna um objeto’. Em contraste, o Islã mostra ‘um laço fundamental, uma relação existencial (entre o homem e o mundo), ao considerar os dois como surgindo de uma ‘única origem (sublime)’.’ Isso reproduz quase palavra por palavra a filosofia central de Heidegger, que também sentia que um pano-de-fundo religioso onipresente, havia esvanecido e deixado as pessoas atomizadas em relação a seu elo ontológico com sua comunidade. O propósito de Shariati, então, era trazer este elo explicitamente ao quotidiano político das vidas dos iranianos, como uma recuperação da sociedade islâmica ideal e unificada. Ele objetivava superar o desenraizamento cultural na vida quotidiana infligida pela existência moderna. Pensando nessa linha, ele representava a dominação do Irã pelo Ocidente menos em um sentido político ou econômico e mais em termos de uma infestação ocidental na sociedade iraniana. Novamente, então, foi necessário dividir a sociedade contemporânea entre a autêntica e a inautêntica, ou Gharbzadegi”. (“Islã Político, Irã e Iluminismo”, pg. 127)

Ao buscarem um retorno a uma unidade espiritual entre homem e Deus, Shariati partilha de uma afinidade com Tradicionalistas como Evola ou Guénon, mas ele se aproxima deles em um contexto bastante revolucionário, que parece partilhar mais com os proponentes da libertação terceiro-mundista entre a esquerda. A recusa de Shariati em aceitar as barreiras impostas pela dicotomia “esquerda-direita” ocidental pressagia a Quarta Teoria Política. Tal como Shariati fundiu tradição islâmica e revolução, assim o faz a Quarta Teoria Política, que busca “unir direita, a esquerda e as religiões tradicionais em uma luta comum contra o inimigo comum. Justiça social, soberania nacional e valores tradicionais são os três principais princípios da Quarta Teoria Política”. Ao articular uma resposta que toma influências do Islã e do pensamento radical do século XX ao colonialismo e exploração ocidental, conduzidos com a aquiescência de uma elite iraniana cosmopolita, Shariati e outros criaram um precursor da Quarta Teoria Política para o Irã, afirmando a essência espiritual do Irã contra a dominação da ideologia unipolar.

À época da Revolução Iraniana de 1979, apenas Fardid permanecia vivo do trio de Fardid, Al-e-Ahmad e Shariati. Porém, suas ideias exerceram uma influência definitiva sobre a oposição ao Xá Reza Pahlavi, sob o qual um regime modernista e ocidentalizante governava, ajudado pelas forças repressivas da brutal polícia secreta SAVAK. A oposição popular e islâmica mobilizou milhões, culminando na expulsão do Xá. Após sua chegada no Irã, o próprio Khomeini visitou o cemitério em que muitas das vítimas do Xá haviam que haviam caído na revolução foram enterrados para prestar tributo a seus sacrifícios. O “xiismo vermelho” do martírio havia conquistado uma vitória crucial. Após a Revolução, o Irã seria reconstituído, não nas bases das ideologias modernas do comunismo ou do capitalismo, mas segundo sua própria tradição islâmica. Em face das disputas por poder da Guerra Fria, o Irã traçaria um caminho independente, pressagiando a visão multipolar da Quarta Teoria Política. Ademais, o Irã eventualmente desenvolveria um programa nuclear, subjugando o poder da tecnologia à vontade do Estado islâmico, um desenvolvimento que Al-e-Ahmad certamente aprovaria.

Intelectuais como Al-e-Ahmad, Fardid e Shariati plantaram as sementes do poder iraniano, um poder baseado em sua essência histórica, em um mundo multipolar. Sua integração orgânica das antigas tradições de seu país com as ideias mais revolucionárias do século XX fornece um mapa para os partidários da Quarta Teoria Política. A obra de Fardid, Al-e-Ahmad e Shariati é um excelente exemplo do que deve ser feito em todo país que busca construir a base intelectual para sua libertação do globalismo ocidental de modo a garantir seu futuro em um mundo multipolar. Eles mostraram o caminho para a renovação das grandes civilizações tradicionais em uma era de forças culturalmente destrutivas emanando do Ocidente.

12/11/2016

Eugene Montsalvat - Degeneração e a Geração Eu: A Decadência da Juventude Revolucionária

por Eugene Montsalvat



Revolução, violência política, de fato toda violência é um jogo para o homem jovem. Jovens rebeldes determinados forjaram nações, como vimos ao longo da história. Mas esses homens foram verdadeiros revolucionários, fanáticos dispostos a sacrificar tudo, eles incorporavam a descrição de Nechaev, "O revolucionário é um homem condenado. Ele não tem interesses pessoais, negócios, emoções, ligações, propriedade ou nome. Tudo nele é completamente absorvido no único pensamento e na única paixão pela revolução".

Tal devoção é rara no Ocidente moderno. Ademais, quando ela vem em formas estrangeiras, tal como o militante islâmico ou o guerrilheiro latino-americano ela se torna o grosseiro "radical chic" de rebeldes universitários que vestem camisetas de Che Guevara ou keffiyehs manufaturados em fábricas capitalistas escravagistas. Todo espírito pseudo-revolucionário juvenil existe hoje inteiramente dentro dos parâmetros do capitalismo, desenraizado, commodificado, certamente não-ameaçador à ordem estabelecida. A parafernália da revolução é apenas um instrumento de marketing por valor de choque. Isso aponta para uma questão maior, que a pose de resistência ao sistema foi já totalmente integrada ao sistema.

Nós devemos perguntar como chegamos a essa sitação. Jean Thiriart oferece uma possível explicação, o RPG juvenil revolucionário tomou o lugar das iniciações à masculinidade em sociedades modernas. A rebelião é apenas uma fase pela qual se passa antes da sua integração plena na sociedade burguesa. Como ele escreve em "Pretorianos Políticos ou o Preço Humano do Poder Militante":

"Aqui lidarei com o culto juvenil.


O adolescente deve passar por uma marca psicológica em cujo curso ele é obrigado a se afirmar para ingressar no mundo dos adultos. Em sociedades primitivas (África e Amazônia, por exemplo) essa passagem é objeto de um ritual preciso, formal, imutável, indisputável. Após passar pelos testes (geralmente testes de coragem e/ou leves mutilações), o adolescente se torna um homem. Uma vez feito isso, seu caráter como adulto não é mais contestado. Sociedades primitivas são melhor organizadas que as nossas, nesse esquema específico. Muito depois, na antiguidade grega por exemplo, os ritos de adolescência eram igualmente bem definidos, bem ritualizados da maneira mais oficial possível.



Hoje, tudo isso é deixado para a iniciativa pessoal. A sociedade plutodemocrática não se preocupa com estes problemas importantes. Assim, os próprios adolescentes criam os ritos: trotes estudantis, pornografia verbal, alcoolismo juvenil e, é aqui que nosso interesse aparece, participação em um culto 'durão'.



O fenômeno neonazista pós-guerra é assombrosamente comum entre jovens. Não há qualquer questão de uma opção filosófica aqui, mas uma cativação por um ritual mágico. Cada maravilhamento assombrado é ligado aos souvenirs da SS e do NSDAP. Assim, certos jovens que passam pela crise obrigatória de afirmação em relação a seus status de adulto, frequentemente criam cultos juvenis.



A máquina de propaganda sio-americana apresenta estes cultos juvenis como cultos políticos. Essa exploração é bastante lucrativa para os sionistas, para os milieus judaicos fanáticos da extrema esquerda. É a perpetuação do mito do 'perigo fascista' justificando suas próprias ações. É o pretexto para demandar mais centenas de milhares de marcos da República Federal Alemã. Todos os pequenos círculos de assim chamados estudantes 'nacionalistas' igualmente se revelam como estes cultos juvenis. É por isso que a população desses grupos é extremamente mutável. A juventude permanece ali no máximo 1 ou 2 anos em geral, o período de sua crise. Uma vez ultrapassada a marca, ele se crê adulto, ele deixa o culto juvenil e se integra bem à sociedade adulta e burguesa...



É necessário se resguardar contra confundir o culto juvenil com o culto político. O primeiro se caracteriza por sua indisciplina interna, o adolescente deve se afirmar e ele ingenuamente sustenta que a indisciplina é uma marca de maturidade, e pela ausência de uma ideologia política nova e original. O culto juvenil é barulhento, sem hierarquia funcional e procurando elementos mágicos em um passado supostamente prestigioso. Ele é feito e desfeito constantemente, seus membros são passageiros efêmeros".



A sociedade plutodemocrática ocidental moderna não fornece quaisquer ritos reais para a passagem à idade adulta, por isso a juventude desenvolve os seus próprios, que geralmente envolvem adotar comportamento pessoalmente arriscado ou ultrajante, os quais apesar de talvez colocarem o participante sob risco através da violência, uso de drogas ou promiscidade, representa risco absolutamente nulo para o regime governante. Uma vez que a juventude se canse dessa fase, eles deixam suas caras universidades onde lhes foi permitido brincar de revolucionário e em troca assumem uma dívida imensa, e ingressam no mundo corporativo para pagá-la.


Ademais, podemos notar o aspecto individualista dessas rebeliões adolescentes. Ao se pavonearem com a camuflagem da extrema-direita ou da extrema-esquerda eles realmente só enfatizam sua separação de seus compatriotas, ao invés de buscarem forjar laços com a sociedade ao seu redor como precursores de uma mudança política, eles se alienam das mesmas massas que eles gostariam de liderar. Na realidade, essa é uma forma de chamar atenção, comum entre jovens ocidentais cujos pais os ignoraram para perseguirem suas carreiras. Essa busca por atenção não raro tem um componente sexual, se torna um "pavonear-se" para atrair uma parceira, como notamos na fetichização do nazismo nas subculturas punk ou gótica.

Ademais, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, nós temos visto movimentos políticos estudantis cujo objetivo preciso é o individualismo radical, disfarçado de comunismo ou socialismo. Assim, encontramos declarações como a do radical dos anos 60 John Sinclair que demandou, "Ataque total contra a cultura por todos os meios necessários, incluindo o rock and roll, drogas, e sexo nas ruas". As raízes desse estilo de pensamento estão no movimento situacionista, que influenciou a subcultura punk (o empresário dos Sex Pistols Malcolm McLaren foi influenciado pelo movimento de forma significativa). O situacionismo emergiu da esquerda anti-autoritária na França para defender atacar o capitalismo através da construção de "situações", para citar Debord, "Nossa ideia central é a construção de situações, quer dizer, a construção concreta de atmosferas momentâneas de vida e sua transformação em uma qualidade passional superior". Essas situações tomam a forma de uma libertação e experimentação individual radical, movimentos artísticos de vanguarda e a celebração do lazer. Enquanto o situacionismo se situava na esquerda comunista, ele replicava o individualismo capitalista, como Kazys Varnelis observa:

"O situacionismo pode ter começado como um movimento antiburguês, mas já que ele era fundamentalmente burguês em sua defesa da experiência individual, quando ele havia finalizado sua crítica tudo o que sobrou foi melancolia. Finalmente, mesmo a ideia da Internacional Situacionista era estranha à ideologia. Organização, mesmo a sua própria, era inaceitável. O fim do situacionismo diz tudo: um alcoólatra solitário se suicidou com um tiro no coração. Raoul Vaneigem uma vez escreveu 'a saciedade de conveniências e elementos de sobrevivência reduz a vida a uma única escolha: suicídio ou revolução'. À época em que o movimento situacionista havia se esgotado, estava claro que a revolução demandava esforço demais.

Enquanto Debord apontava uma arma para seu peito no Loire, a indústria situacionista, liderada por Greil Marcus, estava girando com força total. Como Steven Shaviro escreve em seu excelente comentário sobre a abordagem equivocada de Marcus sobre Michael Jackson:

'O próprio situacionismo, não apesar de, mas precisamente por conta de sua crítica virulenta de toda forma de produto cultural, se tornou um dos 'memes' ou 'marcas' de maior sucesso comercial do final do século XX'.

Deliberadamente obscuro, o situacionismo era legal, e assim a ideologia perfeita para a geração do know-how. O que poderia ser melhor para provocar conversa no Starbucks local ou na cantina da empresa, especialmente uma vez que o livro de Marcus, que traçava um dúbio fio vermelho entre Debord e Malcolm McLaren, chegou às gráficas? Rock n'roll + política neoliberal disfarçada de esquerdismo: uma mistura perfeita. Para a geração que virou a dulta com o situacionismo-via-Marcus e a era ponto.com, trabalhar em escritórios como os da Razorfish ou Chiat/Day era a mais elevada forma de diversão. Bastante pop-tarts para charettes no meio da noite e um bocado de design colorido garantiam que trabalho e vida haviam finalmente se fundido no local de trabalho ponto.com. Ou pelo menos em teoria. A realidade era Como Enlouquecer seu Chefe.

Hoje, o situacionismo parece mais popular do que nunca, servindo como a justificativa mais recente para a cidade neoliberal. Ao invés de uma ideia mais ampla de um coletivo, o situacionismo luta pelo direito de não trabalhar (mas como viveremos? A Amazon fará remessas grátis após a revolução?).

Ao invés de convocatórias cansativas em prol de justiça social, o situacionismo demanda o direito à ludicidade ébria, ao jorro de semen sobre paralelepípedos. Tudo isso sua menos como Utopia e mais como Amsterdã, Dublin, Praga ou qualquer cidade europeua invadida por universitários americanos bêbados no verão.

Se um Debord embriagado teria aprovado, temo dizer que isso não parece liberação para mim, parece inferno".

Na perspectiva geopolítica mais ampla esses grupos da Nova Esquerda influenciados pelo situacionismo na verdade ampliaram o poder do capitalismo americano na Europa. O maio de 1968 quebrou a força do governo gaullista, que vinha afirmando sua independência em relação a OTAN e perseguindo políticas econômicas dirigistas que solapavam a força do capitalismo internacional. Devemos notar, de passagem, que o líder neoesquerdista David Cohn-Bendit tinha ligações com a CIA também. Como Alain de Benoist notou o maio de 68, longe de instilar disciplina revolucionária, promoveu a atomização individualista e a satisfação mercadológica de desejos hedonistas:

"O grande erro foi crer que ao atacar valores tradicionais eles poderiam lutar melhor contra a lógica do capital. Havia sido ignorado que estes valores, bem como o que restava de estruturas sociais orgânicas, constituía o último obstáculo para a expansão planetária dessa lógica. O sociólogo Jacques Julliard fez uma observação bastante correta sobre isso quando ele escreveu que os militantes de maio de 68, quando denunciavam valores tradicionais 'não notaram que estes valores (honra, solidariedade, heroísmo) eram, de forma bem próxima, os mesmos que os do socialismo, e ao suprimi-los, eles abriram caminho para o triunfo de valores burgueses: individualismo, cálculo racional, eficiência'.

Mas houve também outro maio de 68, de inspiração estritamente hedonista e individualista. Longe de exaltar uma disciplina revolucionária, seus partidários queriam acima de tudo 'proibir o proibir' e 'desfrute sem impedimentos'. Mas, eles rapidamente perceberam que isso não fazia uma revolução nem 'satisfazer estes desejos' os colocaria a serviço do povo. Ao contrário, eles compreenderam rapidamente que estes seriam mais garantidamente satisfeitos em uma sociedade liberal permissiva. Assim, todos eles naturalmente se bandearam para o capitalismo liberal, o que não foi, para a maioria deles, ausente de vantagens materiais e financeiras".

De modo geral, a Nova Esquerda continuou o trabalho do capitalismo ao reforçar os valores individualistas do Ocidente e removeu as últimas barreiras no caminho da dominação de desejos consumistas em todas as esferas da vida. Nas instâncias em que a Nova Esquerda ocidental se apaixonou por revolucionários do Terceiro Mundo, isso tomou a forma de um escapismo orientalista rumo a fantasias exóticas que não tinham nada em comum com as perspectivas de stalinistas convictos como Che Guevara ou Mao Zedong. A solidariedade de hippies americanos para com revolucionários camponeses vietcongues parece patentemente absurda. O Vietnã foi vencido em nome do coletivismo radical, da virtude militar ascética e da libertação nacional, não do libertinismo sexual e do ofender os próprios pais. É claro, pode-se notar exceções legítimas no meio da Nova Esquerda, como a Fração do Exército Vermelho, da Alemanha Ocidental, que realmente incorporou a disciplina exaltada por guerrilheiros até a morte.

Concluindo, podemos dizer que o espírito revolucionário da juventude foi sabotado pelos valores ocidentais contra os quais ele deveria estar travando um conflito revolucionário, nomeadamente individualismo, egoísmo, hedonismo, a recusa da autêntica disciplina revolucionária. O potencial revolucionário da juventude foi transformado em mais um mercado. O sofrimento e sacrifício de combatentes ao redor do mundo se tornaram acessórios para jovens alienados pavonear seu "individualismo", que na realidade não é nada além de conformismo à vasta gama de opções oferecidas pelo capitalismo. Outro sinal da degeneração da "Geração Eu". A verdadeira revolta vindoura deve necessariamente varrer essa falsa rebelião que satura a juventude ocidental, junto a todos os outros falsos valores do Ocidente. 

03/03/2016

Eugene Montsalvat - A Direita Alternativa: Uma Autópsia

por Eugene Montsalvat



Quando o amplo movimento agora chamado "direita alternativa" pareceu surgiu por volta de 2010, as esperanças eram bem elevadas. O então editor do Occidental Quarterly afirmou que ele esperava que isso introduziria jovens conservadores a coisas como a Nova Direita europeia, a Terceira Posição, a Revolução Conservadora, o Tradicionalismo, e o anticapitalismo de direita. O objetivo de ampliar suas mentes e afastar conservadores americanos das picuinhas partidárias usuais na direção de questões mais radicais e importantes não foi atingido. Ao invés, ela levou a uma solidificação dos piores elementos do conservadorismo americano, agora repaginado como algo vanguardista. Ao invés de se tornar ponta-de-lança para o pensamento de figuras conservadoras revolucionárias ou novo-direitistas como Oswald Spengler, Alain de Benoist ou Aleksandr Dugin entrar no discurso político americano, ela se tornou um foco de atração para aqueles que querem defender o capitalismo contra populações de QI baixo, todas as suas teorias estando embasadas na terminologia mais imatura retirada dos esgotos da internet. Ao invés de levar a um novo movimento revolucionário nos EUA, simplesmente recuperou algumas das ideias conservadoras americanas mais retrógradas do passado com uma estética mais "vanguarda" projetada para atrair os elementos mais juvenis da sociedade. A direita alternativa falhou em articular as críticas necessárias à ordem atual, deixando o campo da ideologia populista nacional vazio de uma alternativa real e desesperadamente necessária. A direita alternativa em seu estado atual não tem futuro. Ela deve ser reformada com o poder de olhar para além das barreiras artificiais de esquerda e direita, barreiras definidas pela elite hostil da política americana.

Talvez o traço mais unificador das várias correntes na direita alternativa americana é seu foco nas definições biológicas de raça. Certamente, a compreensão científica das diferenças humanas possui seu lugar. Porém, uma definição meramente materialista é na melhor das hipóteses insuficiente, na pior delas contraprodutiva. No melhor caso, é um passo no longo processo de tirar uma pessoa do paradigma do igualitarismo liberal na direção de uma concepção filosófica das diferenças humanas. Nesse sentido, uma compreensão biológica da desigualdade humana deve ser vista como uma fase transitória. Sim, humanos são realmente diferentes biologicamente, porém essa concepção biológica da diferença é apenas uma compreensão superficial das diferenças humanas essenciais. Para uma compreensão mais profunda da desigualdade humana, devemos avançar para além do materialismo biológico, que replica uma compreensão racionalista e iluminista do mundo, e adentrar na doutrina Tradicionalista sobre raça, como compreendida por Julius Evola. Há um aspecto biológico, realmente, porém nós devemos também transcender na direção de um entendimento da "raça da alma" e uma "raça do espírito".

Com "raça da alma", nós podemos falar sobre as várias características espirituais que definem um certo povo. Assim, se alguém segue uma moralidade judaica, essa pessoa pode ser membro da "raça judaica da alma" ao mesmo tempo sendo inteiramente gentia em sentido biológico. Quanto à "raça do espírito", ela define como diferentes pessoas em uma sociedade se relacionam com o divino. Nas civilizações antigas, diferentes sexos e classes sociais adoravam diferentes deuses. Os patrícios romanos representam uma "raça do espírito" diferente dos plebeus romanos, e os brâmanes hindus representam uma "raça do espírito" diferente dos ksatriyas. As mulheres representam uma "raça do espírito" diferente dos homens. Certamente, nessa concepção tripartite de raça, os três aspectos de biologia, alma e espírito estão entrelaçados. Porém, isso não pode ser simplesmente reduzido à biologia da qual todas as coisas fluem. Essa obsessão com distinções científicas entre raças e a necessidade de mensurar cada diferença biológica (e eu realmente me refiro a cada diferença) está muito longe de um entendimento profundo, filosófico, das distintas essências espirituais dos povos que caracterizavam as raízes antigas de nossa civilização. Ademais, isso é patentemente pouco inspirador, já que homem algum vai atacar uma metralhadora para defender um estudo sobre QI. Os homens morrem por visões superiores e transcendentes do ser. É melhor falar sobre o espírito da nação do que entediar pessoas comuns até as lágrimas com tabelas demonstrando diferentes medições cranianas.

Na pior das hipóteses, a concepção biológica de raça leva a uma reiteração de preconceitos iluministas liberais. Ela assume, tal como os neo-ateístas representados por tipos como Richard Dawkins fazem, que todas as questões podem ser reduzidas a meras explicações racionais, científicas. Isso pode levar ao que é geralmente chamado de "elitismo cognitivo". Ela assume que o QI é o árbitro final de valor humano. Isso é absolutamente desastroso para qualquer ideologia política que busque afirmar a identidade livre e única de povos. Se um certo povo possui um QI maior, por que deveríamos ver como imoral se ele conquistar os menos inteligentes? Se este é o caso, então Hong Kong deveria governar o mundo, e nenhuma outra nação deveria se impôr. Ao invés de afirmar diferenças, o elitismo cognitivo afirma a dominação de um povo em detrimento de outros. Ao invés de afirmar o direito de todos os povos de cultivarem sua identidade étnica e cultura tal como a ideologia etnopluralista defendida pela Nova Direita europeia faz, ela involui em um tipo de triunfalismo branco onde o fato de que brancos possuem um QI maior que alguns outros povos significa que eles são superiores, e estão assim justificados em destruir outras culturas. Isso é essencialmente similar ao darwinismo social vitoriano que foi usado para justificar o domínio do Império Britânico. Enquanto alguns possam olhar para essa era como o ponto alto da civilização europeia, ele deve ser visto pelo que é: um período de exploração, tanto dos povos colonizados, como dos trabalhadores pobres das próprias nações coloniais, que lideraram o caminho para a globalização da sociedade e para a emergência do capitalismo internacional como o paradigma econômico dominante, questões que continuam a nos afetar hoje. Este tipo de raciocínio vitoriano ainda encontra ressonância nas visões econômicas da direita alternativa americana.

Entre as grandes falhas da direita alternativa americana tem sido sua incapacidade de criticar o sistema capitalista. Ele é visto como um sistema justo, suas falhas e erros ou são ignorados ou a culpa é colocada em algum outro grupo racial. Eles citarão, de modo darwiniano, que pessoas com QI mais alto ganham mais, e que nações com QI médio alto são mais ricas, então os ricos merecem tudo o que tem, e qualqeur tentativa de redistribuir riqueza é "disgênica", ainda que a vasta maioria das pessoas patrióticas, trabalhadoras e medianas se beneficiasse com um retorno, mesmo que parcial, ao Estado de Bem-Estar da América de Eisenhower, um período para o qual eles ironicamente olham com nostalgia por causa de seus valores sociais sadios. Ainda assim, o período de dominação branca europeia pelo capitalismo é visto como uma marca de orgulho europeu e o zênite da civilização europeia. Eles consideram o sofrimento da vasta maioria dos brancos sob o capitalismo antes da emergência do Estado de Bem-Estar no século XX, como narrado por autores clássicos como Charles Dickens, Jack London, Upton Sinclair ou Louis-Ferdinand Céline, como ou merecido ou irrelevante, se é que eles dão alguma consideração.

Ademais, essa combinação de fetichismo com QI e ideologia de mercado leva a uma defesa contraditória e confusa das fronteiras nacionais. Direitistas alternativos americanos reconhecem que comunidades imigrantes de países com baixo QI médio tendem a votar em favor do Estado de Bem-Estar; portanto, nós devemos controlar nossas fronteiras para salvar o capitalismo. Essa análise é ruim em vários níveis. Primeiro e mais importante, são os capitalistas americanos que trazem os imigrantes, legalmente ou ilegalmente, para cortar os salários de trabalhadores nascidos nos EUA. A mais forte oposição a propostas de fechar a fronteira ou limitar a imigração vem da própria classe capitalista americana. A liderança de companhias famosas como eBay, Google, PayPayl e Yahoo liderou esforços para convencer o Congresso a aprovar leis ampliando a imigração. A direita alternativa não consegue compreender que a oposição à interferência no fluxo de trabalho e capital entre países tem sido uma faceta fundamental do capitalismo desde a época de Adam Smith e Bastiat, que se opunham ao protecionismo mercantilista. Como o importante pensador da Nova Direita europeia, Alain de Benoist, afirmou em seu clássico ensaio, "Imigração: O Exército de Reserva do Capital": "Quem criticar o capitalismo, ao mesmo tempo que aprova a imigração, sendo o proletariado sua primeira vítima, é melhor silenciar. Quem criticar a imigração, ao mesmo tempo que silencia sobre o capitalismo, deve fazer o mesmo". Capitalismo e imigração em massa são dois lados da mesma moeda. Eles não conseguem entender que o capitalismo não aceita fronteiras, seja fisicamente ou mentalmente, no que concerne a busca pelo lucro. Se o Estado-Nação, a família tradicional, ou a religião ficarem no caminho, eles devem ser descartados. Citando Alain de Benoist novamente, em "Essa Direita que não se importa com seu povo":

"Eles ainda não entendem que o capitalismo é intrinsecamente globalista, porque ele demanda a abolição de fronteiras ('laissez faire, laisser passer!'). Por razão de sua propensão à ilimitação, ele não pode existir sem revolucionar constantemente as relações nacionais, ou sem ver as identidades nacionais como estando entre tantos outros obstáculos para a expansão do mercado globalizado. O modelo antropológico que ele leva, que é o de um indivíduo que está sempre buscando a maximização de seu próprio interesse, está tanto em funcionamento no liberalismo econômico como no liberalismo social, e os axiomas do interesse e o maquinário do lucro são pilares da ditadura dos valores mercantis".


Foi sob o capitalismo, não sob o socialismo, que o feminismo, o multiculturalismo, a teoria de gênero, e a liberação sexual encontraram suas mais poderosas expressões. Porém, ao invés de reconhecer este fato, a direita alternativa recorre à teoria do "marxismo cultural".


"Marxismo cultural" pode significar muitas coisas. Em uma interpretação extrema, é uma perspectiva altamente conspiratória que propõe que os soviéticos infiltraram vários órgãos governamentais, acadêmicos e empresariais nos EUA com o objetivo de enfraquecer os valores morais da sociedade para torná-la mais adequada para uma revolução comunista guiada pelos soviéticos. Em outra, ela pode significar a influência dos pensadores da Escola de Frankfurt na sociedade. Nós podemos rapidamente descartar a primeira, considerando que coisas como homossexualidade eram punidas severamente na URSS, e que, após uma fase inicial de liberação sexual, Stálin reprimiu essa lassidão moral, limitando o divórcio e o aborto. No Bloco Oriental, o "movimento hippie", onde existisse, era visto com suspeitas e sujeito a repressão por suas raízes americanas. As origens dessa teoria da conspiração tendem a voltar ao testemunho do dissidente soviético Yuri Bezmenov, que se tornou uma figura popular em círculos anticomunistas americanos, onde ele frequentemente coletava taxas para repetir em palestras o que as pessoas já acreditavam. Curiosamente, a direita alternativa toma as afirmações de um imigrante preenchendo um nicho no mercado americano a sério. Em contraste, não foi a KGB, mas a CIA que apoiou a arte moderna como um desafio ao "realismo socialista" de inspiração clássica na URSS, e contratou a radical Gloria Steinem como agente para este fim. De fato, a CIA recebeu muitos comunistas anti-stalinistas em seu "Congresso para a Liberdade Cultural", que foi estabelecido em 1950 para atrair esquerdistas para uma posição anti-soviética. Ademais, nós devemos notar que muitas figuras da Escola de Frankfurt culpadas pelo "marxismo cultural" em versões menos conspiratórias encontraram um refúgio do nazismo não na URSS, mas nos EUA.

A Escola de Frankfurt é considerada como uma das principais bases para o desenvolvimento da ideologia freudo-marxista, particularmente por seu notável membro, Herbert Marcuse. Outro é o pensador judeu-alemão Wilhelm Reich, que também encontrou refúgio nos EUA após perseguição nazista. No livro de Marcuse Eros e Civilização, a liberação sexual está misturada com ideias sobre libertação da alienação econômica também. Porém, Marcuse modifica a base fundamental do marxismo. A história não é mais explicada pela luta de classes, mas como uma luta contra a repressão, com o capitalismo moderno sendo o tipo mais repressivo de sociedade. Esse desvio da teoria marxista clássica mostra o motivo pelo qual a Escola de Frankfurt não foi bem recebida na URSS. Ao invés de demandarem um socialismo no qual os desejos individuais estivessem sujeitos aos objetivos de um planejamento central pelo benefício da nação, ele defende uma plena liberalização dos desejos humanos. Essa crítica provou ser popular nos campi universitários americanos e influenciou os radicais da década de 60, que defendiam uma revolução através do "rock n' roll, drogas e sexo nas ruas", em uma frase notável de John Sinclair. Porém, a ideologia da gratificação sensorial total foi completamente assimilada pelo capitalismo. Depravação na música, nos filmes e na televisão alimentou os cofres das grandes corporações midiáticas, sem mencionar a ascensão simultânea da indústria pornográfica. Na verdade, essa ideologia se encaixa perfeitamente com o capitalismo: o cliente sempre tem razão, e os desejos hedonistas se tornam ainda mais escolhas de consumo para serem satisfeitas pelo mercado. Certamente, a ideologia da gratificação sensorial ilimitada criou novos campos vastos de exploração para o capitalismo.

Ademais, essa ideologia radical da nova esquerda demonstrou um efeito maligno sobre a centro-esquerda hegemônica, que, apesar de não ser marxista, trabalhava no domínio clássico da política classista, lutando por um Estado de Bem-Estar maior e pelos direitos do proletariado (deve-se notar a imensa ironia de alguns elementos da direita alternativa olharem com saudades para os "bons e velhos dias" da América pré-1968, quando o Estado de Bem-Estaro e o poder sindical estavam em seu ápice). Abandonando preocupações caras aos corações do trabalhador médio, a esquerda hegemônica gradualmente adotou ideologias como o feminismo, o pró-imigracionismo e a libertação homossexual. Enquanto a classe trabalhadora padece com dificuldades cada vez maiores, e valores tradicionais são apagados, o capitalismo é mais forte do que nunca. Porém, a direita alternativa permanece proximamente ligada ao capitalismo, apesar de críticas a várias facetas do capitalismo, tal como a usura, desde uma perspectiva europeia tradicional vindo desde Aristóteles e dos antigos gregos, dos Pais da Igreja, e Tomás de Aquino. De fato, a história do anticapitalismo conservador é muito mais longa e profunda, mesmo nos EUA quando olhamos para figuras como Ezra Pound e Padre Coughlin, do que a história da defesa conservadora do capitalismo. Essa contradição aparente passa desapercebida pela direita alternativa.

Essa falta de vontade de transitar além da perspectiva capitalista americana trouxe algumas consequências geopolíticas para a direita alternativa. Ainda que ela ocasionalmente demonstre uma postura menos belicista que o conservadorismo americano hegemônico, normalmente tendendo a um não-intervencionismo paleoconservador, ela ainda expressa uma certa paranoia da Guerra Fria em relação ao socialismo. Em uma nota positiva, a atitude tóxica em relação a Rússia foi razoavelmente moderada, ainda que por razões do aparente masculinismo de Putin mais do que por uma consideração séria de sua política externa. E ainda assim, essa russofobia não desapareceu. Há muitos no milieu que foram enganados pela propaganda do banderismo em se alinharem com a UE e a OTAN contra a Nova Rússia. Ademais, a atitude da direita alternativa em relação ao socialismo na América do Sul ainda é uma de hostilidade e neocolonialismo. Figuras como Hugo Chávez e Juan Perón são demonizadas, e a ideologia do socialismo, ao invés do capitalismo neocolonial americano, é culpada pelos sofrimentos da América Latina. Eles exaltam aquele lacaio da CIA, Augusto Pinochet, enquanto fantasiam sobre arremessar "comunistas" de helicópteros para salvar o capitalismo. É grosseiramente hipócrita para um movimento que afirma ser nacionalista elogiar um homem que derrubou o governo de seu próprio país com apoio estrangeiro e que então entregou bens públicos para corporações multinacionais sem qualquer lealdade para com qualquer nação.

Ademais, enquanto rejeitam as tentativas mas egrégias de neocolonialismo neoconservador no Oriente Médio, eles em sua maioria subscrevem às teses oferecidas por Samuel Huntington em O Choque de Civilizações, que reduz os problemas no Oriente Médio a um choque de civilizações entre Europa e Islã. Isso ignora completamente os papeis que o colonialismo europeu, e o neocolonialismo sionista e americano posterior, desempenharam em desestabilizar a região. A maioria dos muçulmanos não estão imigrando para a Europa em prol da jihad, mas porque eles foram desenraizados pelo capitalismo, pelo colonialismo e por guerras importadas do Ocidente, e são recebidos como uma fonte de mão-de-obra pelos capitalistas ocidentais. Isso, por sua vez, leva a direita alternativa a abraçar figuras como Geert Wilders ou movimentos como a Liga de Defesa Inglesa, que atacam o Islã sem dizer uma única palavra sobre o sionismo ou o capitalismo. Eles saboreiam perversamente relatos extravagantes de estupros e assassinatos por imigrantes. Eles confundem os sintomas do problema, fundamentalmente a imigração, com suas causas raízes: a interferência americana e sionista no Oriente Médio. Alguns, ainda que certamente não todos, na direita alternativa tem chegado ao ponto de afirmar que Israel é um Estado nacionalista étnico modelo e um bastião da civilização ocidental contra o Islã. Porém, eles nem consideram por um momento o que a civilização ocidental significa hoje. Eles se aliariam a feministas, homossexuais, liberais e sionistas contra o Islã meramente porque o Islã condena esses traços que se permitiu enraizar no Ocidente. Nesse caso, eu recomendaria que eles consultassem o pensador italiano radical Giorgio Freda, que disse aos nacionalistas que quisessem defender a "civilização europeia":

"Temos falado em termos de 'civilização europeia', sem nem mesmo arranhar a superfície dessa expressão e sem verificá-la, indo às profundezas do problema: se existe, em realidade, uma civilização europeia homogênea, e quais são os coeficientes autênticos de seu significado à luz de uma situação histórica global na qual a guerrilha latino-americana adere muito mais proximamente a nossa visão de mundo do que o espanhol vassalo de padres e dos EUA; onde o povo guerreiro do Vietnã do Norte, com um estilo heróico, sóbrio, espartano está muito mais perto de nossa concepção da existência do que o trato digestivo italiano, ou o francês ou alemão do Ocidente; onde o terrorista palestino está muito mais perto de nossos sonhos de vingança do que o inglês judaizado (europeu? eu duvido)".

Dançando ao som dos slogans neoconservadores e sionistas de "defender valores ocidentais", a direita alternativa se alinhou com os elementos mais tóxicos dentro da civilização ocidental, os elementos emblemáticos da própria decadência cultural que eles atacam. É absurdo que a direita alternativa subitamente passe de atacar essas coisas para defendê-las quando são atacados por outra cultura. Ao invés de atacarem as raízes do problema, eles atacam apenas seus sintomas, e preparam o palco para mais caos no Oriente Médio e Europa.

E para coroar isso tudo, todas essas posições da direita alternativa são articuladas das maneiras mais imaturas e cruas imagináveis. O influxo maciço de pessoas de fóruns virtuais, como o /pol/ do 4chan, no milieu da direita alternativa deu uma coloração de "calouro" a seu discurso. Ao invés de bons argumentos, memes e slogans abndam, muitas vezes de péssimo gosto. Eles ridicularizam negros usando os estereótipos mais banais, ao invés de tentarem instilar um senso de nacionalismo negro que ajudaria na revolta nacionalista contra o liberalismo. Eles se referem a políticos que eles consideram insuficientemente conservadores como "cornos" ou "cornoservadores", se referindo de maneira bastante freudiana a esse fenômeno sexual. A terminologia sexual grosseira continua com referências a esquerdistas como "consolos" e afirmando que pessoas que passaram para o lado liberal foram "carimbadas", se referindo à infecção por HIV por via anal. Isso, é claro, tem apelo com crianças rebeldes, e amplia sua base de apoio entre elas, já que ler livros sérios e desenvolver ideias plenamente articuladas tem apelo entre uma porção cada vez menor da população. Porém, nenhum intelectual sério pode entreter uma ideologia baseada em piadas internas subculturais virtuais, sem contar a vasta maioria da população em geral. Como pode um trabalhador desempregado que teve seu ganha-pão destruído pela globalização e pela imigração pensar que a ideologia dessa claque virtual tem algo a lhe oferecer? É risível que a direita alternativa afirme ser a voz do populismo nacionalista. Ao contrário, quando a direita alternativa consegue ser mencionada pela mídia hegemônica, ela é usada como uma vara curta por liberais para atacar as preocupações legítimas de trabalhadores, que obviamente não tem nada a ver com isso, em relação a imigração associando-os com uma subcultura tão quixotesca quanto essa. As preocupações há muito ignoradas dos trabalhadores e patriotas merecem supostos porta-vozes melhores do que capitalistas adolescentes pueris que estão preocupados com que a imigração ameace seu neoliberalismo.

A direita alternativa não conseguiu desenvolver ideias novas e revolucionárias. No pior dos cenários, ela ameaça macular a causa do populismo nacionalista e se tornar um bicho-papão usado por liberais apenas para deslegitimar preocupações com imigração, identidade nacional e globalização. Nós devemos nos perguntar como podemos melhorar a qualidade do discurso. Em um nível bastante básico nos EUA, nós podemos ampliar o conhecimento sobre a verdadeira herança populista nacional, aquela que desafiou tanto o liberalismo social quanto o liberalismo econômico. Nós podemos nos referir aos velhos líderes sindicais que se opunham à imigração tal como Denis Kearney, e o autor socialista clássico americano Jack London. Nós podemos olhar para figuras da década de 30 como Ezra Pound e o Padre Charles Coughlin, que se opunham à usura. Ademais, nós podemos ampliar nossas mentes lendo a obra de figuras nacionalistas anticapitalistas ao longo da história do planeta, que podem ser encontradas entre movimentos como a Revolução Conservadora e a Noda Direita europeia. Também, nós podemos ousar até fazer análises nacionalistas de movimentos tipicamente considerados de esquerda, desenvolvendo sínteses ideológicas e buscando bases comuns, assim ampliando nosso apelo para esquerdistas que similarmente sentem o chamado da identidade nacional.

Finalmente, nós devemos começar a construir movimentos sérios e desenvolver think-tanks que produzam ideias sérias ao invés de memes. Precisamos começar a olhar para fora do sistema e dos confis do conservadorismo simplista americano e da regurgitação de ideias defuntas. Precisamos ver que a restauração da soberania nacional implica a restauração do controle econômico para o povo, não para corporações globais ou grandes empresários que podem voar para algum paraíso fiscal. Precisamos nos tornar autenticamente, intransigentemente revolucionários. Precisamos desenvolver a coragem de atravessar barreiras ideológicas impostas pela classe governante, encontrar a coragem de cruzar o abismo e a vontade de encarar ideias verdadeiramente radicais. Libertar a nação não é uma tarefa fácil. É uma tarefá que demandará imenso sacrifício, uma disciplina espartana, e um desprezo pela política convencional. Certamente, haverá os negadores que estarão contentes em pular na última campanha eleitoral na esperança de poderem resolver todos os nossos problemas com legislação. Haverá as massas de ideólogos perplexos enfeitiçados nas falsas dicotomias do sistema que reagirão com ira incoerente quando fronteiras ideológicas forem apagadas. Ainda assim, nossa grande tarefa está aí, e nós não vamos ser abalados.

Eu gostaria de convidá-los para participarem de uma nova iniciativa: a formação do Instituto para Estudos Nacional-Revolucionários. Por todo o mundo, a ideologia de revolução nacional, onde uma sede por justiça econômica e um senso profundo de identidade nacional se encontram, tem assumido muitas formas, mas essa corrente permanece ignorada no mundo anglófono. É agora, neste momento, quando a sobrevivência de nosso povo está sob risco, que essa luta deve começar. O futuro será nosso, ou não teremos futuro.