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23/10/2023

Dominique Venner - Aristocracias Secretas

 por Dominique Venner

(2010)


Jean-Paul Sartre disse certa vez sobre Ernst Jünger: "Eu o odeio, não como um alemão, mas como um aristocrata. . ."

Sartre tinha alguns defeitos graves. Em seus impulsos políticos, ele se enganava com uma rara obstinação. Bastante covarde durante a ocupação, ele se transformou em um aiatolá de denúncias depois que o perigo passou, castigando seus colegas que não se comprometeram com toda a cegueira necessária com Stalin, Mao ou Pol Pot. Junto com um instinto infalível para o erro, ele tinha um senso aguçado para qualquer elevação de espírito que o horrorizava e, inversamente, para qualquer baixeza que o atraía.

09/10/2022

Dominique Venner - Por uma Leitura da Ilíada e da Odisseia, a "Bíblia" dos Europeus

 por Dominique Venner

(2009)


"Quando eu estava no khâgne", lembra François Jullien, uma das mentes mais aguçadas de nosso tempo, "um amigo e eu fomos chamados de homeristas... E me convenci cada vez mais de que, se você está procurando as categorias decisivas do pensamento europeu (as categorias de 'ação', como as categorias do 'conhecimento'), é em Homero ou Hesíodo que você tem que fazê-lo, bem antes de Platão... Vincule [a Ilíada e a Odisseia] e você obtém as orientações decisivas da filosofia grega[1]."

Os poemas fundadores também contêm a primeira expressão do pensamento histórico. No início da Guerra do Peloponeso, Tucídides se refere à Ilíada para esboçar a história antiga dos gregos, dando assim crédito a Homero por ter lançado as bases. Mas este mérito era pequeno em comparação com o resto. Inspirado pelos deuses e pela poesia, o que é o mesmo, Homero nos legou a fonte esquecida de nossa tradição, a expressão grega de toda a herança indo-europeia, celta, eslava ou nórdica, com uma clareza e perfeição formal sem igual. É por isso que Georges Dumézil relê a Ilíada em sua totalidade a cada ano.

23/04/2021

Dominique Venner – Evola: Filosofia e Ação Direta

 por Dominique Venner

(2008)


Considerado por alguns como "o maior pensador tradicionalista do Ocidente", Julius Evola (1898-1974) sempre teve uma relação difícil com o MSI e ao mesmo tempo exerceu uma influência definitiva nos círculos mais radicais, as FAR (Fasci di Azione Rivoluzionaria) em seu tempo e depois a Ordine Nuovo ou Avanguardia Nazionale. Evola esteve à margem do fascismo durante o Ventennio (1922-1943). Apesar de suas críticas, porém, ele quis se solidarizar com o RSI depois de 1943. Tomando como exemplo tanto Nietzsche quanto Guénon, ele cultivava à maneira do primeiro o desprezo por tudo que era plebeu e o louvor do super-homem autoconstruído. Mas ele se unia a René Guénon em sua interpretação da história como um processo de decadência e involução que levou, segundo a tradição hindu, ao Kali-Yuga, a era demoníaca que antecedia o retorno ao caos original. Ele estava preparado, entretanto, para reconhecer que certas formas políticas, mais ou menos de acordo com sua ideia hierática da Tradição, poderiam retardar o declínio. Esta foi sua interpretação do fascismo, na medida em que ele, através de sua tentativa de reabilitar valores heroicos, constituiu um desafio à sociedade moderna e ao homem massificado e sem rosto.

27/11/2013

Dominique Venner - A Tríade Homérica

Por Dominique Venner


Para os antigos, Homero era “o começo, o meio e o fim.” Uma visão do mundo e até mesmo uma filosofia estão implicitamente contidas em seus poemas. Heráclito resumiu seu alicerce cósmico com uma frase bem colocada: O universo, o mesmo para todos os seres, não foi criado por nenhum deus ou homem qualquer; mas sempre foi, é, e será eternamente fogo vivo...”


1. Natureza como Base


Em Homero, a percepção de um cosmos ordenado e incriado é acompanhada por uma visão mágica transmitida por mitos antigos. Os mitos não são crenças, mas sim a manifestação do divino no mundo. As florestas, as rochas, os animais selvagens têm uma alma que Ártemis (Diana para os romanos) protege. Toda natureza funde-se com o sagrado, e os homens não são excluídos disso. Mas a natureza não está destinada a satisfazer os nossos caprichos.

Por outro lado, na natureza em sua imanência, aqui e agora, encontramos respostas para nossa angústia: “As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores, que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam na primavera, de novo, por toda floresta viçosa. Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.”(Ilíada, VI, 146-149). A roda das estações e da vida, cada uma transmitindo algo de si para aqueles que seguirão, garantindo assim uma certa eternidade.

A certeza fortalecida pela consciência de deixar uma lembrança na mentalidade futura, como Helena diz na Ilíada: “Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates” (VI, 357-358). Talvez, mas a glória de um nome nobre é esquecida como o resto.

O que não morre é interior, dentro de si mesmo, na verdade da própria consciência: ter vivido nobremente, sem abjeções, ter-se mantido de acordo com o modelo estabelecido.


2. Excelência como Objetivo


Na imagem dos heróis, os homens verdadeiros, nobres e talentosos (kalos kai agathos) buscam na coragem da ação a medida de sua excelência (arete), assim como as mulheres procuram no amor ou na doação de si a luz que as torna reais . A única coisa que importa é o que é bonito e forte. 

“Seja sempre o melhor,” Peleu diz ao seu filho Aquiles, “melhor do que todos os outros” (Ilíada, VI, 215).

Quando Penelope é atormentada pelo pensamento de que seu filho Telêmaco poderia ser morto pelos “pretendentes” (usurpadores), o que ela teme é que ele poderia morrer “sem glória”, antes de fazer o que é preciso para se tornar um herói igual a seu pai (Odisséia, IV, 539).

Ela sabe que os homens não devem esperar pelos deuses e ter esperanças de qualquer ajuda além deles próprios, como Heitor disse ao rejeitar um mau presságio: “Há um presságio melhor: a luta por sua pátria” (Ilíada, XII, 250).

Na batalha final da Ilíada, compreendendo que é condenado pelos deuses ou pelo destino, Heitor dilacera-se longe do desespero por uma onda de heroísmo trágico: “Ah, bem! Não, eu não pretendo morrer sem luta nem glória, nem sem algum grande feito que será recontado pelos homens que estão por vir”(XXII, 330-333).


3. Beleza como Horizonte


A Ilíada começa com a ira de Aquiles e termina com ele acalmando a dor de Príamo. Os heróis de Homero não são modelos de perfeição. Eles são propensos a erros e excessos na proporção de sua vitalidade. Por essa razão, eles caem sob os golpes de uma lei imanente que constitui a fonte do mito e da tragédia Grega. Cada falha traz punição, tanto a de Agamenon quanto a de Aquiles. Mas para Homero, inocentes também podem ser subitamente atingidos pelo destino, como Heitor e tantos outros, porque ninguém está a salvo do trágico destino.

Essa visão de vida é estranha à ideia de uma justiça transcendente punir mal ou pecado. Em Homero, nem o prazer, nem o gosto pela batalha, nem a sexualidade são comparados ao mal. Helena não é culpada por uma guerra desejada pelos deuses (Ilíada, III, 170-175). Somente os deuses são culpados pelos destinos que se abatem sobre os homens.

As virtudes consagradas por Homero não são morais, mas estéticas. Ele acredita na unidade do ser humano definida por seu estilo e seus atos. Então, os homens definem-se com referência ao belo e o feio, o nobre e o vil, não bem ou mal. Ou, dito de outra forma, o esforço pelo belo é a condição de bem.

Mas a beleza não é nada sem lealdade ou bravura. Sendo assim, Paris não pode ser realmente belo, porque é um covarde. Ele é apenas um vaidoso que engana o seu irmão Heitor e até mesmo Helena, a quem ele seduziu por magia. Por outro lado, Nestor, apesar da idade, mantém a beleza de sua coragem.

Uma vida bela, o objetivo final de excelência na filosofia Grega, da qual Homero foi a expressão suprema, supõe a adoração da natureza, o respeito da modéstia (Nausicaa ou Penélope), a benevolência do forte para os fracos (exceto em combate), o desprezo pela baixeza e a feiúra, a admiração pelo herói condenado.

Se a observação da natureza ensinou os gregos a moderar suas paixões, para limitar seus desejos, então não há nada de idiota na ideia de que eles eram sábios antes de Platão. Eles sabiam que a sabedoria era associada com as harmonias fundamentais surgidas a partir de oposições: masculino e feminino, violência e gentileza, instinto e razão. Heráclito tinha ido à escola de Homero quando ele disse: “A natureza gosta de opostos: através deles, produz harmonia.”

21/05/2013

Dominique Venner - Os Protestos de 26 de Maio & Heidegger

por Dominique Venner



Nota do blog: Eis o último texto do blog Dominique Venner, datado do mesmo dia de seu suicídio.

Manifestantes no 26 de maio [contra a recém aprovada lei do "casamento gay" na França] berrarão em sua impaciência e ira. Uma lei infame, uma vez aprovada, sempre pode ser repelida.

Eu acabo de ouvir a um blogueiro argelino: "De qualquer maneira", ele disse, "em 15 anos os islamistas estarão no poder na França e removerão esta lei". Não para nos agradar, eu imagino, mas porque é contrária à Sharia (lei islâmica).

Esse é o único ponto superficialmente comum entre a tradição europeia (que respeita as mulheres) e o Islã (que não as respeita). Mas a árida afirmação do argelino é de dar calafrios. Essas consequências serão muito maiores e mais catastróficas do que a detestável lei Taubira.

Deveria ser claro que a França bem pode cair nas mãos dos islamistas. Por 40 anos, políticos e governos de todos os partidos (com exceção da Frente Nacional), bem como funcionários públicos e a Igreja, tem acelerado ativamente a imigração afromagrebina por todos os meios possíveis.

Por um longo tempo, grandes escritores tem soado o alarme, começando com Jean Raspail em seu profético Campo dos Santos, cuja nova edição tem sido recebida com recordes de vendas.

Os manifestantes de 26 de maio não podem ignorar essa realidade. Sua luta não pode se limitar à rejeição do casamento gay. A "grande substituição" da população da França e da Europa, denunciada pelo escritor Renaud Camus, é um perigo muito mais catastrófico para o futuro.

Não é o suficiente organizar protestos de rua educados para impedir isso. Essa é uma "reforma moral e intelectual" real, como Renan disse, e deve ser conduzida como tal desde o início. Ela deve tornar possível a recuperação da memória francesa e europeia de nossa identidade, cuja necessidade ainda não é claramente percebida.

Isso certamente demandará gestos novos, espetaculares e simbólicos para comover nossa sonolência, abalar nossas consciências anestesiadas, e despertar a memória de nossas origens. Nós estamos entrando em um tempo em que palavras devem ser autenticadas por atos.

Nós devemos também lembrar, como brilhantemente formulado por Heidegger em Ser e Tempo, que a essência do homem está em sua existência e não em "outro mundo". É aqui e agora que nosso destino é apostado até o último segundo. E esse segundo final é tão importante quanto o resto de uma vida. É por isso que é necessário ser você mesmo até o último momento. É ao decidir, ao verdadeiramente querer o próprio destino, que se conquista o nada. E não há escapatória dessa demanda, porque nós só temos essa vida, na qual é nosso dever sermos plenamente nós mesmos - ou sermos nada.

Dominique Venner - As Razões para uma Morte Voluntária

Nota do blog: No dia de hoje, 21 de maio de 2013, o historiador dissidente Dominique Venner deu fim a sua vida com um tiro na boca no altar da Catedral de Notre Dame. Seu gesto heroico e corajoso foi um último grito de desafio contra a pós-modernidade, cujos tentáculos se estendem por toda a Europa e cujo domínio se torna mais total a cada dia. 

Ao camarada Venner nossas saudações.

Presente!

por Dominique Venner



Eu estou sadio em mente e corpo, e estou repleto de amor por minha esposa e filhos. Eu amo a vida e não espero nada além, senão a perpetuação de minha raça e minha mente. Porém, no entardecer de minha vida, me deparando com imensos perigos para minha pátria francesa e europeia, eu sinto o dever de agir enquanto eu ainda tenho forças. Eu creio ser necessário me sacrificar para romper a letargia que nos empesteia. Eu entrego o que resta de vida em mim de modo a protestar e fundar. Eu escolho um local altamente simbólico, a Catedral de Notre Dame de Paris, que eu respeito e admiro: ela foi construída pelo gênio de meus ancestrais no local de cultos ainda mais antigos, reclamando nossas origens imemoriais.

Enquanto muitos homens são escravos de suas vidas, meu gesto corporifica uma ética de vontade. Eu me entrego à morte para despertar consciências adormecidas. Eu me rebelo contra o destino. Eu protesto contra venenos da alma e os desejos de indivíduos invasivos de destruir as âncoras de nossa identidade, incluindo a família, a base íntima de nossa civilização multimilenar. Enquanto eu defendo a identidade de todos os povos em seus lares, eu também me rebelo contra o crime da substituição de nosso povo.

O discurso dominante não pode deixar para trás suas ambiguidades tóxicas, e os europeus devem lidar com as consequências. Carecendo de uma religião identitária para nos ancorar, nós partilhamos de uma memória comum que volta até Homero, um repositório de todos os valores nos quais nosso futuro renascimento será fundado uma vez que rompamos com a metafísica do ilimitado, a fonte dolorosa de todos os excessos modernos.

Eu peço desculpas antecipadamente a qualquer um que venha a sofrer com a minha morte, primeiramente e mais importantemente a minha mulher, meus filhos, e meus netos, bem como a meus amigos e seguidores. Mas uma vez que a dor e o choque se dissipem, eu não duvido que eles compreenderão o significado de meu gesto e transcenderão seu pesar com orgulho. Eu espero que eles resistam juntos. Eles encontrarão em meus escritos recentes intimações e explicações de minhas ações.

05/05/2013

Dominique Venner - Maquiavel e a Revolução Conservadora

por Dominique Venner



Nascida junto à Primavera Francesa, a Revolução Conservadora está na moda. Um de seus teóricos mais brilhantes merece ser lembrado, mesmo que seu nome há muito tenha sido amaldiçoado. De fato não é muito lisonjeiro ser descrito como "maquiavélico". Isso pode ser visto como uma acusação caluniosa de cinismo e falsidade.

E porém o que levou Nicolau Maquiavel a escrever o mais famoso e mais polêmico de seus livros, O Príncipe, foi amor e preocupação com sua pátria, a Itália. Ele foi publicado em 1513, exatamente 500 anos atrás, tanto quanto O Cavaleiro, a Morte e o Diabo de Albrecht Dürer. Uma época fértil! Nos primeiros anos do século XVI, Maquiavel não obstante era o único a se preocupar com a Itália, a "entidade geográfica", como Metternich disse depois. Até então, preocupava-se com Nápoles, Gênova, Roma, Florença, Milão, e Veneza, mas ninguém se importava com a Itália. Isso teve que esperar por uns bons três séculos. O que prova que nunca devemos nos desesperar. Os profetas sempre pregam na desolação antes que seus sonhos alcancem as imprevisíveis massas em espera. Nós e alguns outros acreditamos em uma Europa que existe apenas em nossa memória criativa.

Nascido em Florença em 1469, morto em 1527, Nicolau Maquiavel foi um oficial de alto escalão e um diplomata. Suas missões o introduziram à grande política de seu tempo. O que ele aprendeu, e o que ele sofreu por seu patriotismo, o levaram a refletir sobre a arte de conduzir os negócios públicos. A vida o matriculou na escola das grandes reviravoltas. Ele tinha 23 anos de idade quando Lorenzo o Magnífico morreu em 1492. No mesmo ano, o ambicioso e voluptuoso Alexandre VI Bórgia se tornou Papa. Ele rapidamente produziu um filho, Cesare (à época, os Papas não se importavam muito com a castidade), um cardeal bastante jovem e então Duque de Valentinois graças ao Rei da França. Esse Cesare, acometido por uma terrível ambição, não se importava muito com os meios. Apesar de seus defeitos, seu ardor fascinava Maquiavel.

Mas eu me antecipo. Em 1494 veio um enorme evento que mudaria a Itália por um longo tempo. Carlos VIII, o jovem e ambicioso Rei da França, realizou sua famosa "descida", ou seja, uma tentativa de conquista que modificou o equilíbrio da península. Após ser bem recebido na Florença, em Roma e em Nápoles, Carlos VIII então se deparou com resistência e foi forçado a recuar, deixando para trás um terrível caos. Não acabou. Seu primo e sucessor, Carlos XII, retornou em 1500, dessa vez por mais tempo, até que Francisco I se tornou rei. Enquanto isso, Florença foi lançada em uma guerra civil, e a Itália foi devastada por condottieri gananciosos por saques.

Abismado, Maquiavel observou o dano. Ele ficou indignado com a impotência dos italianos. A partir de suas reflexões surgiu O Príncipe em 1513, o famoso tratado político escrito graças à desgraça de seu autor. O argumento, com uma lógica convincente, busca converter o leitor. O método é histórico. Se baseia no confronto entre o passado e o presente. Maquiavel afirmava sua crença de que os homens e as coisas não mudam. É por isso que o conselheiro florentino continua a falar a nós, europeus.

Seguindo os Antigos - seus modelos - ele acredita que a Fortuna (acaso), representado por uma mulher se equilibrando sobre uma roda instável, governa metade das ações humanas. Mas ela deixa, ele diz, a outra metade governada pelas virtudes (qualidades de ousadia masculina e energia). Maquiavel pede por homens de ação e os ensina como governar bem. Simbolizada pelo leão, a força é o meio primário de conquistar ou manter um Estado. Mas é necessário também possuir a inteligência da raposa. Na realidade, é necessário ser tanto leão como raposa. "Devemos ser uma raposa para evitar armadilhas e um leão para assustar os lobos" (O Príncipe, cap.18). Daí seu elogio, desprovido de qualquer preconceito moral, a Alexandre VI Bórgia, que "jamais fez nada, e nunca pensou em fazer nada, além de enganar pessoas e sempre encontrou uma maneira de fazê-lo" (O Príncipe, cap.18). Porém, é no filho desse curioso Papa, Cesare Bórgia, que Maquiavel viu a encarnação do Príncipe segundo seus desejos, capaz de "vencer por força ou fraude" (O Príncipe, cap.7).

Colocado no Index pela Igreja, acusado de impiedade e ateísmo, Maquiavel na verdade possuía uma atitude complexa em relação a religião. Certamente não devoto, ele não obstante compactuava com suas práticas mas sem abdicar de sua liberdade crítica. Em seus Discursos aos Dez Primeiros Livros de Tito Lívio, tirando lições da história antiga, ele questionava que religião se adequaria melhor à saúde do Estado: "Nossa religião colocou o bem maior na humildade e no desprezo pelos negócios humanos. A outra [a religião romana] o colocava na grandeza da alma, na força física e em todas as outras coisas que tornam os homens fortes. Se nossa religião demanda que tenhamos força, é apenas para que sejamos mais capazes de suportar grandes sofrimentos. Esse modo de vida parece ter enfraquecido o mundo, tornando-o presa fácil para homens malignos" (Discursos, Livro II, cap.2). Maquiavel não se arrisca à reflexão religiosa, mas apenas a uma reflexão política da religião, concluindo: "Prefiro minha pátria a minha alma".

29/03/2012

Para uma Nova Aristocracia

por Dominique Venner



Seus nomes continuam a identificar os boulevards de uma capital única ainda que desfigurada: Berthier, Murat, Jourdan, Masséna, Soult, Brune, Bessières, e outros. Através de seu decreto de 19 de maio de 1804 Napoleão critou os primeiros catorze marechais do império, aos quais ele acrescentaria dez mais. Sim, seus nomes ainda permanecem no perímetro de uma Paris que mal aprecia sua glória.

Bonaparte não ficou ocioso. A decisão de restaurar o posto de marechal veio vinte e quatro horas depois da consulta senatorial que deu a ele o título de Imperador dos Franceses.

Os títulos nobiliárquicos do Antigo Regime haviam sido abolidos em 1790. A partir de sua ascensão ao trono, Napoleão desejou instituir uma nobreza imperial, o que ele fez em diversos passos, até o decreto de 1 de março de 1808 estabelecendo uma hierarquia de títulos hereditários. Como distinção social, a nobreza era então concedida pelo Estado para recompensar seus apoiadores. É claro, um título jamais garante a nobreza de caráter ou alma.

Napoleão obviamente tentou recuperar a tradição monárquica, mas também uma tradição bem mais antiga. Em uns poucos anos ofuscantes, imitando a Roma antiga, a França passou de uma República a um Império. Porém, ela diferia de seu modelo pela ausência da base de um senado aristocrático de patrícios. Teria o Imperador desejado corrigir essa deficiência? O destino não ratificou sua decisão.



Ele não foi o sucessor dos imperadores romanos, mas ele foi o primeiro dos Césares modernos. Seu poder foi construído sobre as ruínas da monarquia, mas mais ainda daquela velha nobreza que, por pelo menos dois séculos, havia lentamente perdido seu propósito, tendo sido despossuída de suas funções sociais e políticas pela voracidade da monarquia administrativa. Essa monarquia não apoiava uma nobreza livre e vigorosa. Ela queria funcionários públicos dependentes e submissos. Ela morreu morreu por isso, diferentemente da Inglaterra e de outras grandes monarquias europeias que sempre apoiaram-se em nobrezas ativas até as vésperas de 1914.

Então, no vácuo criado pela catástrofe da Grande Guerra, os Césares multiplicaram-se. Mas, apesar de várias tentativas, nenhuma nova nobreza pôde ser constituída. Simplesmente não se cria uma nobreza com funcionários públicos, mesmo de uniforme. Spengler havia definido a velha nobreza prussiana por duas qualidades morais que parecem pouco compatíveis: "liberdade e serviço". É difícil dizer mais em menos palavras.

Eu abordei esse assunto em outro artigo, "Aristocracias Secretas". Vários leitores perguntaram: "Por que 'secretas'?"

Era uma imagem. E o que imagens sugerem não raro possui mais escopo do que qualquer argumento. Talvez teria sido mais exato falar de uma aristocracia "implícita", mas isso teria tido menos força. Inicialmente eu queria evitar qualquer confusão com os delírios de falsas cavalarias usados pelos mistificadores e seus crédulos. Eu queria também deixar de lado os sonhos daqueles que estão enfeitiçados por romantismos políticos. Finalmente, eu queria sugerir que hoje existe uma elite, invisível e autonomeada, para além de qualquer distinção de classe. Eles são homens e mulheres que, através da busca pela excelência pessoal, silenciosamente suportam deveres superiores. É possível encontrá-los em muitos contextos. Nenhum elo os liga e nenhum sinal aparente os distingue aos olhos das pessoas normais.

Os japoneses dizem que é precisamente por sinais invisíveis que primeiro se reconhece um "Mestre", ou seja, alguém que alcançou uma certa perfeição em sua existência ou em uma "arte" que não é necessariamente marcial. Fundar uma aristocracia "secreta" foi um dos objetivos do brilhante criador do escotismo. Ele tinha a experiência da velha aristocracia britânica, não obstante sua decrepitude, e também a experiência de um exército ainda penetrado pelo espírito de nobreza que remetia à Ilíada. Seu objetivo permanece viável, com a ressalva de se expurgá-lo de todo "bom mocismo".

02/11/2011

O Guerreiro e a Cidade

por Dominique Venner


Em 1814, ao final das guerras Napoleônicas, Benjamin Constant escreveu com alívio: “Nós chegamos à era do comércio, à era que deve necessariamente substituir a da guerra, como a da guerra necessariamente tinha que precedê-la”. Ingênuo Benjamin! Ele tomou generalizada idéia de progresso indefinido, como promotora do advento da paz entre homens e nações.

A era do doce comércio substituindo a da guerra... Nós sabemos o que o futuro tem feito de tal profecia! A era do comércio certamente se impôs, mas por múltiplas guerras. Sob a influência do comércio, ciência e indústria – em outras palavras, o “progresso” – as guerras até mesmo tomaram proporções monstruosas, que ninguém poderia ter imaginado.

Havia, contudo, alguma verdade na falsa previsão de Benjamin Constant. Se as guerras continuaram e até mesmo prosperaram, por outro lado, a figura do guerreiro perdeu seu prestigio social em benefício da dúbia figura do comerciante. Esta é a nova era na qual nós ainda vivemos, mesmo que temporariamente.

A figura do guerreiro foi destronada e a instituição militar ainda tem resistido mais do que qualquer outra na Europa após 1814. Ela tem resistido desde o tempo da Ilíada – trinta séculos – enquanto que se transformando, se adaptando a todas as mudanças de épocas, sociedades e regimes políticos, mas ainda preservando sua essência, que é a religião do orgulho, dever e coragem. Esta permanência na mudança é comparável somente àquela de outra instituição imponente, a Igreja (ou igrejas). O leitor pode estar chocado. Uma comparação surpreendente! E ainda...

O que é o exército desde a Antiguidade? É uma instituição quasi-religiosa, com sua própria história, heróis, guerras e ritos. Uma instituição muito antiga, ainda mais antiga que a Igreja, nascida de uma necessidade tão antiga quanto a humanidade e que está longe de cessar. Entre os Europeus, nasceu de um espírito que é específico a eles e que – diferentemente da tradição Chinesa, por exemplo – faz da guerra um valor em si. Em outras palavras, nasceu de uma religião cívica decorrente da guerra, cuja essência, em uma palavra, é a admiração pela coragem em face da morte.

Esta religião pode ser definida como aquela da cidade no sentido Grego ou Romano do mundo. Em linguagem moderna, é uma religião da pátria, grande ou pequena. Como Heitor aponta 30 séculos atrás no Livro XII da Ilíada, para desviar um mau presságio: “Não é por um bom resultado que lutamos, nós lutamos por nossa pátria” (XII, 243). Coragem e pátria estão conectadas. Na última batalha da guerra de Tróia, sentindo-se sitiado e condenado, o mesmo Heitor cai em lagrimas com um grito de desespero: “Oh bem! Não, eu não pretendo morrer sem lutar, não sem glória e nem sem uma grande façanha que seja recontada pelo homem em tempos vindouros” (XXII, 304-305). Pode-se encontrar este grito de orgulho trágico em todas as épocas da história em que se glorifique o herói mal-fadado, engrandecido por uma derrota épica: Termópilas, a Canção de Roland, Camerone, ou Dien Bien Phu.

Cronologicamente, a instituição guerreira precede a do estado. Rômulo e seus companheiros de guerra primeiro traçaram os limites futuros da Cidade e estabeleceram sua lei inflexível. Por tê-la transcendido, Remo foi sacrificado por seu irmão. Então, e somente então, os fundadores tomam as mulheres Sabinas para garantir sua descendência. Na fundação do estado Europeu, a ordem de guerreiros livres precede àquela das famílias. É por isto Platão viu em Esparta um modelo mais completo de cidade grega do que o de Atenas [1].

Por mais fracos que possam ser os exércitos Europeus de hoje, eles constituem ilhas de ordem em um ambiente que desmorona, onde estados fictícios promovem o caos. Mesmo que diminuído, um exército permanece uma instituição baseada em uma forte disciplina e participante na disciplina cívica. É por isso que esta instituição carrega consigo uma semente genética de restauração, não pela toma de poder ou militarização da sociedade, mas pela reafirmação da primazia da ordem sobre a desordem. É o que as guildas de espada fizeram após a desintegração do Império Romano e muitos outros após isto.
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Fonte: Dominique Venner

[1] Em Les métamorphoses de la cité, essai sur la dynamique de l’Occident (Paris: Flammarion, 2010), baseado na leitura de Homero, Pierre Manent evidencia o papel das aristocracias guerreiras na fundação da cidade antiga.

12/05/2011

Vida e Tradição

"Viver de acordo com a tradição é abraçar os ideais que ela encarna, é cultivar a excelência em relação à sua natureza, reencontrar as suas raízes, transmitir uma herança, ser solidário com os seus. Isto também significa expulsar de nós próprios o niilismo, mesmo que nos sacrifiquemos em aparência às normas práticas de uma sociedade que está escravizada pelo desejo. Isto implica uma certa sobriedade com vista a uma libertação das cadeias da consumação. Isso significa encontrar a poética percepção do sagrado na natureza, no amor, na família, no divertimento e na acção. Viver de acordo com a tradição significa também dar uma forma à sua vida, tornando-se um juíz exigente em cada momento, assim como olhar para a beleza redescoberta do seu coração, do que para a fealdade de um mundo em decadência."
(Dominique Venner)



19/01/2011

Por uma nova Teoria Revolucionária

"Antes mesmo de pensar em definir qualquer coisa construtiva, essa crítica das falhas dos 'nacionais' é indispensável. Alguns, por falta de maturidade política, não serão capazes de compreender isso. Aqueles que aprenderam as lições a partir da própria experiência, por outro lado, reconhecerão sua necessidade. Revolução não é o ato de violência que às vezes acompanha a tomada do poder. Nem é uma simples mudança de instituições ou de um clã político. Revolução é menos sobre a tomada de poder do que seu uso para a construção de uma nova sociedade. Essa imensa tarefa não pode ser visualizada em meio ao pensamento e ação desordenadas. Ela demanda um vasto aparato de preparação e formação. O combate 'nacional' está preso nas velhas rotinas de meio século. Antes de tudo mais, uma nova teoria revolucionária deve ser desenvolvida."
(Dominique Venner)

09/12/2010

Os Valores Homéricos

por Dominique Venner

Para os antigos, Homero era "o começo, o meio e o fim" Deduzia-se implicitamente dos seus poemas uma visão do mundo e mesmo uma filosofia. Heráclito resumiu-lhe o fundamento cósmico com uma frase bem própria: "O universo, o mesmo para todos os seres, não foi criado por nenhum deus nem por nenhum homem, mas sempre foi, é, e será fogo eternamente vivo…"

A natureza como fundamento

Em Homero a percepção de um Cosmos incriado e ordenado é acompanhada de uma visão encantada do mundo, sustentada pelos antigos mitos. Os mitos não são uma crença, mas a manifestação do divino no mundo. As florestas, as rochas, os animais selvagens, têm uma alma que protege Ártemis (Diana para os romanos). Toda a natureza se confunde com o sagrado e os homens não estão aí isolados. Mas ela não está destinada a satisfazer-lhes os caprichos. Nela, na sua imanência, aqui e agora, eles aprendem, pelo contrário, a resposta às suas angústias:

"As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores que umas os ventos atiram no solo sem vida; outras brotam na Primavera de novo por toda a floresta viçosa. Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira." (Ilíada VI). Gira a roda das estações e da vida, cada um transmitindo algo de si aos que vêm a seguir, seguro assim de ser uma parcela de eternidade. Certeza reforçada pela consciência da lembrança a deixar na memória do futuro, como diz Helena na Ilíada: "Duro destino Zeus nos deu para que nos celebrem nas gerações porvindouras os cantos excelsos dos vates" (Ilíada, VI). Talvez, mas a glória de um nobre nome apaga-se como o resto. O que não se apaga é interior, perante nós mesmos, na verdade da nossa consciência: termos vivido de forma nobre, sem baixeza, termos conseguido mantermo-nos em coerência com o modelo que estabelecemos para nós próprios. 

A excelência como objectivo

À imagem dos heróis, os verdadeiros homens, nobres e realizados (kalos agatos) procuram na coragem da ação a medida da sua excelência (aretê), da mesma forma que as mulheres procuram no amor ou na entrega de si a luz que as faz existir. A uns e outros importa apenas o que é belo e forte. "Ser sempre o melhor", recomenda Peleu ao seu filho Aquiles (Ilíada VI). Quando Penélope se atormenta pela idéia de que o seu filho Telêmaco pudesse ser morto pelos "pretendentes" (usurpadores), o que ela teme é que ele morra "em glória", antes de ter atingido o que faria dele um herói como o seu pai (Odisseia, IV). Ela sabe que os homens nada devem esperar dos deuses e não contar com outro recurso para além deles próprios, como diz Heitor rechaçando um presságio funesto: "Combater pela pátria, não há melhor presságio!" (Ilíada, XII). No combate final da Ilíada, compreendendo que está condenado pelos deuses ou pelo destino, Heitor eleva-se do desespero por um sobressalto de heroísmo trágico: "Não morrerei, então, sem luta e sem glória, nem sem um feito grandioso que seja recitado pelos homens que virão!" (Ilíada XXII)

A Beleza como horizonte

A Íliada começa com a cólera de Aquiles e termina com o seu apaziguamento face à dor de Príamo. Os heróis de Homero não são modelos de perfeição. Estão sujeitos ao erro e à desmesura relativamente inclusive à sua vitalidade. Por esta razão caem sob o golpe de uma lei imanente que é a força dos mitos gregos e da tragédia. Toda a falta implica castigo, a de Agamenon como a de Aquiles. Mas também o inocente pode subitamente ser atingido pelo azar, como Heitor e tantos outros, porque nada está ao abrigo do trágico destino. Esta visão do mundo é estrangeira à ideia de uma justiça transcendente que pune o mal ou o pecado. 

Em Homero, nem o prazer, nem o gosto pela força, nem a sexualidade, são alguma vez associados ao mal. Helena não é culpada da guerra pretendida pelos deuses (Ilíada III). Apenas os deuses são culpados das fatalidades que se abatem sobre os homens. As virtudes cantadas por Homero não são morais mas sim estéticas. Ele acredita na unidade do ser humano que qualifica o seu estilo e os seus atos. Os homens definem-se, portanto, em função do belo e do feio, do nobre e do vil, não do bem ou do mal. Ou, para dizer as coisas de outro modo, o esforço em direção à beleza é a condição do bem. Mas a beleza não é nada sem lealdade e valentia. Assim, Páris não é verdadeiramente belo uma vez que é covarde. Não passa de um vaidoso que menospreza o seu irmão Heitor e até Helena, que seduziu por magia. Ao contrário Nestor, apesar da sua idade avançada, conserva a beleza da sua coragem. Uma vida bela, objetivo último do melhor da filosofia grega, de que Homero foi a expressão primordial, pressupõe o culto da natureza, o respeito pelo pudor (Nausica ou Penélope), a benevolência do forte em relação ao fraco (exceto nos combates), o desprezo pela baixeza e a fealdade, a admiração pelo herói infeliz. Se a observação da natureza ensina aos gregos a moderar as suas paixões, a controlar os seus desejos, a idéia que fazem da sabedoria antes de Platão não é insípida. Sabem que está associada aos acordos fundamentais nascidos das oposições superadas: masculino e feminino, violência e doçura, instinto e razão. Heráclito inseriu-se na escola de Homero quando disse: "A natureza ama os contrários: é com eles que produz a harmonia."

15/10/2010

Dominique Venner - Masculinidade

por Dominique Venner


Para dizer as coisas numa palavra, o desaparecimento da guerra do horizonte de nossa história conduziu em todas as sociedades europeias ao desaparecimento da masculinidade e à irrupção da feminilidade. Tentemos compreender. Um homem não é legitimado na sua virilidade senão pela sua função de proteção e de provimento. Do mesmo modo, uma mulher é antes de tudo legitimada pela reprodução e perpetuação da vida. Ouço os protestos indignados. E contudo vou agravar o meu caso. Nada mudou desde as primeiras sociedades de clãs caçadores. O homem enquanto arquétipo é sempre o Sr. Cro-Magnon cuja mulher e os filhos esperam que ele traga uma corça para o jantar e que proteja o lar contra os ladrões. Quanto a mulher, ela é sempre a Sra. Cro-Magnon, que se arruma para receber seu homem, dá-lhe belas crianças e mantém viva a chama do lar.

Quando falo do masculino em oposição ao feminino, não penso, contudo, em pessoas particulares entre as quais figuram todas as exceções. Penso em valores e arquétipos. Como escreveu de forma ligeira um psicólogo americano que não havia perdido o juízo (John Gray), os homens e as mulheres vem de planetas diferentes, os homens de Marte, e as mulheres de Vênus.

No cinema, mundo dos arquétipos, o masculino é encarnado por Jean Gabin, Lino Ventura ou Clint Eastwood. Dão-se bem com o conflito e procuram-no. São silenciosos e firmes. São pais autênticos que sabem punir se necessário.