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16/05/2025

Mircea Eliade - Observações Metodológicas sobre o Estudo do Simbolismo Religioso

 por Mircea Eliade

(1959)



I

Há algum tempo, tem-se notado uma popularidade crescente do simbolismo. (Cf. Mircea Eliade, Images et symboles [Paris, 1952], pp. 9ff.) Diversos fatores contribuíram para que o estudo do simbolismo ocupasse o lugar privilegiado que tem hoje. Em primeiro lugar, houve as descobertas da psicologia profunda, especialmente o fato de que a atividade do inconsciente pode ser apreendida através da interpretação de imagens, figuras e cenários. Estes não devem ser tomados pelo seu valor de face, mas funcionam como "cifras" para situações e tipos que a consciência não deseja ou não consegue reconhecer. (Uma exposição clara das teorias de Freud e Jung sobre o símbolo pode ser encontrada em Yolande Jacobi, Komplex, Archetypus, Symbol in der Psychologie C. G. Jungs [Zurique, 1957], pp. 86 ff).

Em segundo lugar, a virada do século testemunhou a ascensão da arte abstrata e, após a Primeira Guerra Mundial, os experimentos poéticos dos surrealistas, ambos os quais serviram para familiarizar o público educado com mundos não figurativos e oníricos. No entanto, esses mundos só poderiam revelar seu significado na medida em que se conseguisse decifrar suas estruturas, que eram "simbólicas". Um terceiro fator que despertou o interesse pelo estudo do simbolismo foi a pesquisa dos etnólogos em sociedades primitivas e, sobretudo, as hipóteses de Lucien Lévy-Bruhl sobre a estrutura e o funcionamento da "mentalidade primitiva". Lévy-Bruhl considerava a "mentalidade primitiva" pré-lógica, uma vez que parecia ser governada pelo que ele chamava de "participação mística". Antes de sua morte, porém, ele abandonou a hipótese de uma mentalidade primitiva pré-lógica radicalmente diferente e em oposição à mentalidade moderna. (Cf. Lucien Lévy-Bruhl, Les Carnets, ed. Maurice Leenhardt [Paris, 1946]). De fato, sua hipótese não recebeu muito apoio entre etnólogos e sociólogos, mas foi útil como ponto de partida para discussões entre filósofos, sociólogos e psicólogos. Além disso, chamou a atenção da elite intelectual para o comportamento do homem primitivo, para sua vida psíquica e suas criações culturais. O atual interesse dos filósofos pelo mito e pelo símbolo, especialmente na Europa, deve-se em grande parte às obras de Lévy-Bruhl e às controvérsias que provocaram.

12/03/2020

Mircea Eliade - Adão e Eva

por Mircea Eliade

(1942)



O episódio do nascimento de Eva da costela de Adão, como nos foi preservado no capítulo I (26-28) e no capítulo II (21-22) do Gênesis, logo deu origem a exegeses infinitas nos círculos dos estudiosos judeus. Algumas dessas exegese e comentários rabínicos - da era alexandrina em diante - foram-nos transmitidos. De fato, se Eva foi feita da costela de Adão, pode-se assumir que Adão era andrógino; ele reunia ambos os sexos. O "nascimento" de Eva foi, portanto, apropriadamente a ruptura do andrógino primordial em duas partes: masculino e feminino. Parece que este foi o significado dado pela exegese rabínica ao texto bíblico. "Adão e Eva foram criados de costa para costa, presos por seus ombros; então Deus os separou com um golpe de machado ou cortando-os em dois. Outros pensam de forma diversa: o primeiro homem (Adão) era macho do lado direito e fêmea do lado esquerdo; e Deus os dividiu em duas metades" [1].

15/10/2010

Os Mitos e a História

por Mircea Eliade

A realidade se adquire por repetição ou participação, repetição de um arquétipo. Se produz ebulição do tempo profano, da duração, da história e aquele que reproduz o fato exemplar se vê transportado à época mítica na qual sobreveio a revelação dessa ação exemplar. Essa suspensão do tempo profano corresponde a uma necessidade profunda do homem arcaico: não suporta a "história" e se esforça para anulá-la de forma periódica.

Transformação do homem em arquétipo por meio da repetição. Por exemplo, os soberanos se consideram imitadores do heroi primordial. Transfiguração da História em Mito. É também frequente a mitificação dos personagens históricos.

Muitas vezes devem lutar contra dragões ou serpentes porque são identificados como senhores do lugar, representam a modalidade pré-formal do universo. Assim os conquistadores devem formar, criar os territórios ocupados.

Na memória popular, a lembrança de um acontecimento histórico ou de um personagem autêntico não subsiste mais do que dois ou três séculos. Isso se deve a que funciona por meio de categorias em lugar de acontecimentos, arquétipos em vez de personagens históricos.

O personagem histórico é assimilado a seu modelo mítico (heroi) enquanto que o acontecimento se inclui na categoria das ações míticas. A memória coletiva é ahistórica. Poderia dizer-se que a memória popular restitui ao personagem histórico dos tempos modernos sua significação de imitador do arquétipo e de reprodutor das ações arquetípicas.

Às vezes ocorre raramente que se tem a ocasião de presenciar enquanto vivo a transformação de um acontecimento em mito. Recalca o caráter ahistórico da memória popular e a impotência da memória coletiva para reter os acontecimentos e as individualidades históricas sem transformá-los em arquétipos, sem anular suas particularidades históricas e pessoais.

Compare as concepções diferentes da existência depois da morte. A transformação do defunto em antepassado.

Tradução por Raphael Machado