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27/04/2019

Boris Nad – Entrevista com Leonid Savin: Nova Idade das Trevas da Europa

por Boris Nad

(2017)



Leonid Savin é um importante representante da nova escola russa de geopolítica, um membro do movimento neoeurasianista e um associado de Aleksandr Dugin. Savin também é editor-chefe do centro analítico Geopolitika.py e do Journal of Eurasian Affairs, bem como chefe administrativo do Movimento Eurasiano Internacional. Ele é o autor de uma série de livros sobre geopolítica e áreas relacionadas: “Rumo à Geopolítica”, “Guerra de Redes”, “Etnopsicologia”, “De Xerife a Terrorista”, “Novos Métodos de Guerra”...

Segundo Leonid Savin, vivemos na época das mudanças súbitas nos paradigmas (geo)políticos e de mudanças radicais nas relações de poder. O poderio americano tem se enfraquecido em anos recentes, novas divisões e crises aparecem no coração do próprio Ocidente. Além da Rússia e da China, novas potências emergem, impérios em potencial, causando uma série de novos conflitos e renovando antigos, do Oriente Médio aos Bálcãs. A crise da União Europeia, impulsionada por uma crise migratória e pelo terrorismo, marca o fim do mito burguês da prosperidade. Tudo isso cria uma situação completamente singular em um mundo completamente globalizado, onde não há mais regras claras.

25/06/2015

Boris Nad - América Mítica

por Boris Nad



Eventos históricos não podemos explicar apenas pelas intenções conscientes de seus protagonistas. Tampouco somente com suas características e traços pessoais, ainda que, é claro, a estrutura psicológicas de atores históricos importantes e sua disposição ideológica ou filosófica não seja insignificante. À parte fatores puramente quantitativos e quantificáveis (econômicos, sociais, etc.), os eventos da história sempre foram influenciados por modos muito mais sutis e delicados de realidade, que não são menos reais qualitativamente, apesar de estarem fora da observação física (tudo isso, aliás, se aplica plenamente às muitas outras esferas de atividade humana, mais ordinárias que a esfera política). Não foi apenas uma vez que alguma ideia "abstrata", um conceito ou um mito selaram o destino de nações ou civilizações inteiras (como os incas, que nos conquistadores espanhóis "reconheciam" deuses brancos). E a ideologia política, acima de tudo, pertence a uma realidade bastante distinta, majoritariamente independente de qualquer indivíduo (de fato, a ideologia é não raro capaz de subjugar plenamente a pessoa, "absorver" qualquer indivíduo concreto).

Em um nível ainda mais profundo, a realidade política está profundamente enraizada (perpetuada) no inconsciente, afundada em arquétipos esquecidos e reprimidos. Porém, a ativação desses arquétipos - usualmente de forma abrupta e inesperada - pode provocar intrusões ígneas imprevistas às profundidades da energia oculta do inconsciente coletivo, tanto por indivíduos como por nações inteiras, especialmente se esses arquétipos forem mais esquivos à consciência. Um exemplo de uma intrusão súbita do tipo nos é dada pela Alemanha à época do Nacional-Socialismo. A pesquisa individual no campo da "metafísica da história", sugere que nessa ocasião deu-se um despertar do arquétipo de Wotan, o antigo deus pagão dos germânicos e que isso se deu através da personalidade do líder alemão (é claro, de uma forma distorcida, patológica, como resultado de uma supressão excessiva e superficial).

Nós podemos concluir, porém, que é por isso que cada análise política relevante não pode estar limitada estritamente a considerações racionais e empíricas. Ao contrário: ela deve buscar incluir o fenômeno político em sua totalidade, sempre tomando em considerações fatores espirituais, religiosos, filosóficos e fatores da psicologia profunda e da geografia simbólica.

Segredo do Prestígio Americano

A América hoje é um fator geopolítico superior. Ela é um modelo que hoje, intencionalmente ou não, conforma qualquer sociedade moderna, tornando-se mais e mais o paradigma da própria modernidade. Esse é o segredo do prestígio americano. Mas por trás da ilusão da sociedade ultramoderna e ultrarracional, centrada exclusivamente no pragmatismo puro, no qual tudo está subordinado ao "business" e à economia, também pode ser visto o contorno de um continente quase mítico. Sua imagem quase tem força magnética e poucas pessoas podem permanecer indiferentes, causando ressentimento em um momento e desejo de imitação no outro, nos círculos diabólicos de americanismo e anti-americanismo. Esse paradoxo simplesmente não é racionalmente explicável.

O Mito da América

O mito da América ou a "América mítica" realmente existe. Em um nível muito básico, esse é um fato disponível para qualquer habitante do planeta, e isso se dá na forma de um sentimento ainda nebuloso, confuso. Mas, em uma base casuística isso se torna mais concreto e óbvio: em seus símbolos e "ícones", nas telas do cinema, nas figuras das paisagens urbanas e nos enormes espaços vazios do "Novo Mundo". A consciência disso encontra sua expressão nos "mitos" e na ideologia estranha desse país. Como notamos algures, nós já discutimos a identificação da América pós-apocalítica com a "Nova Jerusalém", a "Nova Terra" do Apocalipse, que encontra sua fundação nas formas extremas de religião protestante (puritana). Nesse capítulo, nós novamente nos voltaremos para a equação menos explícita, mas não menos importante, que versa: a América é equivalente à mítica Atlântida. A esse complexo inconsciente, que desperta em outras nações, a América deve uma considerável parcela de seu prestígio e glamour atuais.

América ou Atlântida?

Ligar as Américas a uma Atlântida perdida é natural e até inevitável - e se dá no inconsciente, e na consciência ao mesmo tempo, mesmo entre americanos e entre o povo que foi sujeito à nova colonização do Ocidente. Isso é finalmente confirmado pela facilidade com a qual se enraízam profundamente novos termos, que, de outro modo, não fariam o menor sentido, como "comunidade atlante" - um sinônimo para a "Euroamérica", "integração euro-atlante", ou tão somente o nome da aliança militar do norte do Atlântico. Ademais, o "atlantismo" é um termo universalmente aceito para todas as doutrinas geopolíticas que seguem os EUA contemporâneos, outrora parte do Império Britânico. Ainda, o "atlantismo" é uma marca da mentalidade "imperial", psico-ideologia de potências talassocráticas, mercantilistas e coloniais que, desde tempos antigos, estão ligadas ao Oceano Atlântico. Do Atlântico à Atlântida, porém, a nível simbólico, é só um único passo porque na área norte do Oceano está exatamente a Atlântida mítica.

A identificação simbólica é indubitável, mas a América não é a antiga Atlântida (paleocontinente ocidental), mas sim o continente que, mesmo na era proto-histórica, estava a seu oeste. Tampouco são os americanos atuais o fabuloso povo atlante, mencionado por Platão. A descrição que nos dá o filósofo grego é perfeitamente clara: ele fala no "continente oposto às ilhas cercadas pelo mar", essa terra só se pode reconhecer como o continente americano atual, localizado a oeste das ilhas atlantes.

O Mito de Atlântida

Vamos lembrá-los, nos termos mais básicos, do mito de Atlântida, a qual estava localizada em tempos proto-históricos, segundo a lenda, em algum lugar no Atlântico Norte, a oeste dos pilares de Hércules, hoje o Estreito de Gibraltar. Falando grosseiramente, Atlântida afundou há uns dez mil anos, em um tipo de catástrofe geológica que recaiu sobre a humanidade de então. Um dos testemunhos mais importantes que nos foram deixados, foi por Platão, em seus "Timaeus" e "Critias", onde Platão reporta o que seu professor Sócrates aprendeu do sábio grego Sólon e que este teria ouvido de um sacerdote egípcio.

Resumindo o relato de Platão, podemos ressaltar o seguinte: a Atlântida mítica era efetivamente portadora de uma civilização espiritual superior. Eles foram navegadores chegados das ilhas ocidentais, na qual viviam em prosperidade sem paralelo, também foram os primeiros colonizadores europeus. A catástrofe que recaiu sobre eles - devido à "ira de Deus" - em verdade foi resultado de uma catástrofe espiritual: "O deus dos deuses, Zeus (...)," diz laconicamente Platão, "decide puni-los..."

Como a literatura tardia dedicada à Atlântida hoje inclui dezenas de milhares de bibliografias, mencionaremos a já clássica obra de Otto Muck (Otto Muck, O Segredo de Atlântida), que obteve para esse mito certos argumentos científicos. O autor, na verdade (e não sozinho), identifica o mitológico povo atlante com o homem de Cro-Magnon, portador da agricultura e da navegação, cuja colonização também ocorre na direção noroeste-sudeste.

A obra de Platão é a mais antiga e completa sobre a civilização perdida. Além disso, o relato de Platão, um tanto quanto pequeno em escopo, é rico em detalhes meticulosos e muitas vezes incrivelmente precisos sobre a vida dos atlantes, em relação ao que todos os relatos tardios possuem apenas importância secundária (muitas vezes, se reduzem a meras repetições do que já ouviram de Platão ou simplesmente derivam da imaginação fértil do autor).

América - Portadora do Bem-Estar Atlante

Mas aqui estamos pouco interessados na verdade literal do mito atlante (em geral, os mitos são ambíguos e podem ser interpretados, decifrados com várias chaves, desde cima, relacionada à realidade espiritual, ou do nível mais baixo "naturalista"). Aqui, estamos primariamente interessados na verdade ao nível do inconsciente coletivo e seus arquétipos. Em geral, parece que este mito está profundamente enraizado na estrutura do inconsciente de muitas nações. Sobre isso, afinal, fala claramente o fato de que o mito de Atlântida emerge de novo e de novo, mesmo quando parece ter sido completamente esquecido, tal como sua popularidade (na medida em que, em certos períodos históricos tais como as últimas décadas, é bem possível falar em uma verdadeira "atlantomania").

Os paralelos entre América e Atlântida se impõem por conta própria. A América porta o bem-estar atlante, que enfatiza o mito descrito por Platão (na tradição se indica que a palavra está ligada primariamente a bem-estar espiritual). A América é também portadora de uma civilização "superior", os americanos são também marinheiros e colonizadores da Europa, chegados das "ilhas" do Poente, e daí em diante.

Em toda a América, portanto, efetivamente ergueu-se um mundo há muito morto, perdido sob as ondas do oceano, evocando o tema apocalíptico da "ressurreição dos mortos". Há também o simbolismo da água (mares, oceanos) em seu aspecto negativo, como símbolo da morte, do caos, do não-ser. (Em uma nota positiva seria: regeneração, "purificação dos pecados"). Isso, afinal, está bem de acordo com o simbolismo do Oeste que, em muitas e várias tradições não é apenas uma "face anatemizada do mundo", mas também "a terra dos mortos", "o reino das sombras", para onde vão as almas após a morte.

Porém, a América é uma corporificação falsa e paródica do mito atlante, no qual valores espirituais superiores são sistematicamente reinterpretados e substituídos pelo inferior, material: o bem-estar celestial de Atlântida, autêntica era de ouro é substituído pela riqueza material da América, assim como a pretensa superioridade em relação ao "resto do mundo" se manifesta em benefícios consumistas e na civilização tecnológica. Assim, os colonizadores da Atlântida que portavam a luz de uma civilização espiritual, são transformados em colonizadores-captores, enviados de uma civilização extremamente materialista, que se apresentam sob os sinais grotescos do Mickey Mouse, da Coca-Cola e do McDonald's.

Da Escatologia à Utopia

Nova Jerusalém e Nova Atlântida - em ambos os casos são arquétipos do Éden, do paraíso celestial. Mas isso só pode se dar após o fim do mundo. O Paraíso, a Nova Idade de Ouro se situa no outro lado da história e pertence ao início de um novo ciclo do tempo, ou, na escatologia cristã, à era após a Segunda Vinda de Cristo.

Elas são também, em um período tardio da Europa, temas favoritos para projeções utópicas, espaços imaginários, é claro, como no caso da "Nova Atlântida" de Francis Bacon, em contraste à América que se torna aquilo (Nova Jerusalém) de uma maneira bastante concreta, logo após sua descoberta. A América, assim, foi muito rapidamente moldada para a realização de uma utopia. A escatologia foi reduzida a uma medida modesta de utopia, como resultado da secularização (na verdade, paródia), de uma ideia, em sua base, bastante religiosa.

Até então, a primeira tentativa de estabelecer uma utopia em solo americano ("Cidade de Deus" na Terra) foi posta em prática por seus "pais fundadores" puritanos e maçons. Em solo americano emergiram as primeiras colônias comunistas, tal como, por exemplo, Ikaria, construída em 1848 em Missouri. Assim, desde os primeiros tempos de sua história, se diz que "a história da América é realmente a história de um sonho utópico" (D. Kalajic, "Mapa da Anti-Utopia"). A utopia é, porém, uma paródia da escatologia, que ocorre sempre que o "outro mundo" se torna "este mundo".

América, "Nova Terra" do Apocalipse

A falsa Atlântida e a falsa Jerusalém estão conectadas de uma maneira particularmente "feliz" na superstição sincrética americana, a Nova Era pseudo-religiosa, cujos messias e profetas proclamam a seguinte mensagem: a Nova Era, a Idade de Ouro, a Era de Aquário já se iniciou. Em solo americano, é claro. A América não só salvou o mundo de sua história e da desesperança histórica (à qual os americanos não atribuem nenhum valor), pondo um fim à história, porque a América está em posse do seu significado - a América, tal como acreditavam os "pais fundadores", é a "nova terra" da Revelação de São João Teólogo. E, tal como cristãos participam no mistério do sacrifício de Cristo partilhando da comunhão com pão e vinho, a participação nos mistérios da América se dá bebendo Coca-Cola e comendo no McDonald's.

É interessante, porém, que essa ideia foi pronunciada por Cristóvão Colombo, a primeira figura realmente mítica do "Novo Mundo", seu descobridor lendário: "Deus tornou-me arauto de um novo céu e uma nova terra, das quais fala-se no Apocalipse de São João (...) Ele me mostrou onde encontrá-las".

América - O Reino do Anticristo

Regredindo à mentalidade do Velho Testamento (os americanos, como os antigos israelenses, são o "povo eleito", e nas mentes dos primeiros colonos, fugitivos da Europa - "Egito", a América era sua "Terra Prometida", sua "Nova Canaã"), então transpondo a mentalidade religiosa em termos mundanos, e com a tradução do espaço escatológico em espaço utópico - a América não renunciou a suas pretensões messiânicas. Na verdade, parece que as ambições messiânicas dessa alegre "ilha da Utopia" crescem em proporção direta com a secularização e descristianização do "Novo Mundo", alcançando já proporções grotescas.

Por um lado, o processo de secularização e descristianização na América, parece, é mais veloz e mais radical do que em qualquer outra parte do mundo, e por outro, o fato de que a América ainda é um espaço utópico, talvez hoje mais do que nunca, levando a um resultado paradoxal. O longo curso de muitas utopias culmina com a "Nova Ordem Mundial" (que, pela boca de Fukuyama também remete ao "fim da história") - "ordem" que é, em muitos sentidos, não apenas radicalmente anticristã, mas antitradicional em geral. Ela dá razão àqueles que reconhecem na América hoje o "reino do Anticristo", ou pelo menos a criação que é, entre todas as conhecidas da história humana, a mais próxima. Esse motivo, que cada vez mais se ganha espaço nas mentes de não-americanos e também na América cristã - e que irá, em nossa opinião, aumentar rapidamente em importância no futuro próximo - também encerra essa breve excursão através dos espaços míticos da América "supramundana".

05/04/2014

Boris Nad - A Rússia atravessa o Rubicão ou o Nascimento de um Novo Mundo

por Boris Nad



A América deve aceitar o fato de que após mais de vinte anos, a Rússia retornou como força histórica. Isso é uma questão de realismo político.

A crise na Ucrânia está longe de terminar, mas está claro que ela é o evento mais importante no início do século XXI até agora, muito mais importante do que a Líbia, que a invasão do Afeganistão, ou a questão do futuro do Iraque. Até mesmo a Síria pode ser medida com ela. A crise ainda não está resolvida, mas algumas respostas já são aparentes: a Criméia é russa novamente. O destino do sudeste da Ucrânia agora é quase certo: ele certamente não será parte de uma Ucrânia unitária futura, uma Ucrânia na União Européia e na OTAN. Houve durante a rebelião uma população pró-russa, que articulou suas demandas por muitas "primaveras russas" inesperadas. O sudeste - Novorossiya - pode se tornar parte de uma futura Ucrânia federal ou confederal, Estados independentes parceiros da Federação Russa - mas apenas como solução interna - e em um futuro uma parte integral da Rússia.

A questão da Ucrânia central - Malorossiya e Kiev - para os EUA ainda não foi resolvida. O futuro da junta de Kiev também é questionável. Ela é, afinal, apenas uma "solução" temporária. Para o Ocidente, os conspiradores podem ter algum valor prático se eles conseguirem provocar uma guerra na Ucrânia como resultado. A Ucrânia ocidental (Galícia), em qualquer variação de eventos futuros, indicando uma perspectiva bastante sombria. O mapa geopolítica da Europa e da Eurásia será portanto irreversivelmente modificado. Isso é para a Rússia algo que é alcançado de forma relativamente fácil. E ainda essa não é a coisa mais importante.

Defender Sevastopol

A primeira óbvia vitória russa foi o retorno da Criméia sob soberania russa. Sobre a importância geopolítica e militar da Criméia bem como do porto da Frota russa no Mar Negro, dificilmente precisaríamos falar, e devemos acrescentar que a península da Criméia hoje é de enorme importância simbólica e histórica para a Rússia. Primeiramente, para a fé ortodoxa russa, ela é importante como o berço do Cristianismo Russo, como o "Athos russo".

Relembrem que a Criméia foi anexada à Rússia pela primeira vez em 1783, durante o reinado de Catarina a Grande, poucos anos antes da adoção da Declaração Americana de Independência, e eles lutaram por ela sob líderes militares como Suvorov e Kutuzov, e venceram Napoleão. A Criméia tem sido relatada desde então como um capítulo muito importante na história russa. Então em 1853, e também em 1856, na cena da Guerra da Criméia, quando as potências ocidentais - Grã-Bretanha e França - além do Piemonte e o Império Otomano travaram guerra contra a Rússia foi testemunhada a cena da defesa heróica de Sevastopol.

Sevastopol foi de novo defendida heroicamente na Segunda Guerra Mundial contra as forças alemães, a Wehrmacht e a SS, assim como a chanceler alemã Angela Merkel hoje ameaça que a Rússia pagará um preço alto pela "anexação da Criméia". Que tipo de anexação pode ser discutida aqui, em vistas do fato de que a Criméia russa é indubitavelmente Rússia, e muito provavelmente permanecerá sendo?

Fascismo Liberal

A atual crise ucraniana teve uma longe gênese e vários aspectos, mas ela só pode ser compreendida através da lente fria da geopolítica. É o último, mais profundo e compreensivo nível que abarca todas as outras dimensões (política, cultural, ideológica, histórica, religiosa, étnica...) e as situa no contexto adequado. A crise na Ucrânia é um momento de virada e um teste para todos os seus apostadores, mas também para observadores aparentemente indiferentes ou desinteressados. Em primeiro lugar, é significativa para os EUA, porque o resultado da crise ucraniana, entre outras coisas, determina seu status como superpotência.

A atual crise na Ucrânia formou novas alianças e dita novas divisões. Isso se aplica não apenas para o mapa global e para a geopolítica de países individuais, mas também para uma gama de opções políticas e ideológicas muito diferentes. Algumas dessas alianças são, à primeira vista, inesperadas: por exemplo, aqueles que caem no mesmo campo de antissemitas e neonazistas, junto a liberais pró-americanos e islamistas, eurófilos com os seguidores de de Adolf Hitler, ou Bandera, os chauvinistas e russófobos mais radicais. E isso não parece acontecer apenas na Ucrânia, mas mais ou menos por toda a Europa. Nas ruas de Riga na Letônia (que é membro da União Européia) marcharam colunas nazistas vestidas com uniformes da SS. Nenhum dos funcionários da União Européia reagiu. Um termo bastante adequado para isso é "fascismo liberal".

Porém, em si mesmo este fenômeno não é novo, algo similar já aconteceu durante a guerra na ex-Iugoslávia, quando os EUA e uma série de intelectuais "liberais", "independentes", como Henri-Levy, abertamente apoiaram o nacionalismo étnico primitivo e o radicalismo islâmico da Croácia ao Kosovo, desde que estes fossem dirigidos contra a Sérvia. Liberais e fascistas (na Ucrânia, os seguidores de Bandera) sob certas condições podem ser aliados, tanto quanto liberais e wahhabis (o caso da Bósnia, do Kosovo, do Cáucaso e da Síria). O critério para isso é o das alianças geopolíticas. A América, novamente, não está em uma posição de escolher seus aliados, pois isso seria, especialmente nas circunstâncias atuais, um luxo. Afinal, os EUA já demonstraram que na verdade eles nunca foram muito seletivos.

O Século XXI não será um "século americano"

A divisão básica é agora, obviamente, uma que contraposiciona de forma irreconciliável a Rússia em relação a América e seus satélites ocidentais. Após a Síria e a Ucrânia, é óbvio que o mundo unipolar, um mundo em que a hegemonia americana era inquestionável, não existe mais. A segunda metade é agora a Rússia. Ela era seguida por China, Índia e Brasil (América Latina), e mesmo o mundo islâmico, ainda que ele esteja em profunda tormenta. Mas apenas a Rússia é forte o suficiente para competir com a América em termos militares, e sem ansiedade aguarda pelas sanções econômicas anunciadas pelo Ocidente.

O século XXI, contrariamente às projeções dos estrategistas americanos, não será um "século americano". A elite política americana é incapaz de compreender isso. A transição para uma ordem multipolar não é indolor. Ela se dá por uma série de crises artificialmente induzidas, guerras sempre nos mesmos lugares (por enquanto guerras localizadas, mas amplas em sua importância), ou mesmo com a ameaça de que armas serão utilizadas. Do ponto de vista dos interesses americanos, o golpe de Kiev de 22 de fevereiro - foi um erro. Até mesmo uma nova guerra fira com a Rússia e uma possível tentativa de exaurir economicamente a Rússia não é uma resposta adequada. O que quer que aconteça no futuro, as mudanças serão tectônicas, e o mundo então parecerá muito diferente.

Outros atores menos importantes são assim deixados para aprender lições e começar, inicialmente de forma suave, um realinhamento do cenário global. Ademais, deve ser notado que a aliança com a América não mais fornece segurança para seus aliados. Repúblicas da ex-URSS, e essa é a primeira lição da crise ucraniana, agora veem que apenas a Rússia (não a América, muito menos a fraca União Européia) pode garantir integridade territorial. Finalmente, os EUA não podem mais garantir a segurança nem mesmo de seus aliados europeus pois a ordem no mundo não é mais unipolar ou americanocêntrica. Os EUA, de agora em diante, não ditado por regras, nem são capazes de prescrever o que é permitido e o que não é. Aqueles que falam sobre os perigos do "imperialismo russo em ascensão" devem ser lembrados da história difícil das últimas duas décadas e meia, da primeira Guerra do Golfo, em seus capítulos sangrentos escritos na ex-Iugoslávia, na Bósnia, no Kosovo, no Afeganistão, e então de novo no Iraque. Milhares e milhares de mortos e mutilados, a destruição de países inteiros, uma longa lista de intervenções americanas ao redor do mundo, com napalm e urânio empobrecido, fomentando guerra civil e a incitação à limpezas étnicas ao redor do mundo, seria um balanço da hegemonia global americana, que hoje se aproxima de seu inevitável fim. Seria bom para os estrategistas de Washington compreender essa realidade nesse momento.

A União Européia, independentemente do resultado, será a maior perdedora na crise ucraniana, simplesmente porque os líderes europeus são incapazes de definir claramente sua posição nas novas circunstâncias. Eles continuam em sua inércia seguindo ordens de Washington. Isso empurra a Europa para uma crise mais profunda. O primeiro e talvez menor preço que a União Européia terá que pagar será muito provavelmente o econômico, causado pelas sanções contra a Rússia, que forçarão Bruxelas, ainda que relutantemente, a aceitar o ditador de Washington. Deve ser notado que aqueles países na Europa Oriental se encontrarão em posição ainda mais dificultosa para apenas passivamente seguirem Bruxelas sem sua própria política externa, esperando um dia se unir à União Européia.

Recentemente, por ocasião da Ucrânia no Washington Post foi anunciado "um caso clássico de política americana", por Henry Kissinger. Seu "texto programático da Ucrânia" não é nada além do que uma repetição de velhas teses russofóbicas da Guerra Fria, mas dessa vez impostas por uma linguagem esopiana, com grande cautela e contenção. Nós devemos lembrar aqui de muitas avaliações honestas de Kissinger, que são apresentadas com tato muito menos diplomático: "Ser inimigo da América é perigoso; ser seu amigo é fatal". Na sobra da crise ucraniana, esse reconhecimento soa muito mais fatídico.

Impasse Político

Em 2008, durante a curta guerra com a Geórgia, a Rússia escapou da caixa que lhe foi imposta em 1991. Graças à queda da União Soviética, ela era aproximadamente a fronteira da Federação Russa. De certa maneira, a reação da Rússia foi então deduzida. Um cenário simples da crise georgiana havia sido previamente testada na ex-Iugoslávia. A resposta de Moscou à versão georgiana da "Tempestade", porém, foi eficaz e o papel que a Rússia desempenhou, independentemente do fato de que a Geórgia é retratada pela mídia ocidental como vítima, foi construtivo: a intervenção militar russa impediu um genocídio na Abkhazia e na Ossétia do Sul, e a Geórgia não foi transformada no palco de conflitos étnicos que há muito tem desestabilizado a região.

Em paralelo, Moscou orquestrou diversos movimentos de longo alcance, a mais importante das quais indubitavelmente a decisão importante de estabelecer uma união alfandegária eurasiana (amanhã, uma união econômica eurasiana). Clinton então disse que isso era uma tentativa de reconstruir a União Soviética e que a América faria qualquer coisa para impedir isso, mas quanto a essa "qualquer coisa" como a vemos agora, não é o suficiente. Logo depois: Síria. Esse caso demanda um exame das forças russas mais sério do que o caso georgiano. Não há dúvida de que os EUA estavam então determinados a intervir com uma campanha aérea, já que as forças armadas americanas não são mais capazes de realizar uma invasão terrestre (ela não o pôde mesmo em 1999, na guerra de 78 dias contra a Iugoslávia). Houve uma posição consistente do Presidente Putin de intransigência em relação a ameaças e à retórica dura de Washington, e um apoio bastante concreto a Damasco (em oposição à reação morna de Medvedev durante a crise líbia), o que faz os estrategistas de Washington mudarem de opinião e buscarem um caminho para fora do impasse em que os EUA caíram novamente por causa de sua política míope.

Atravessando o Rubicão

Em 2008, a Rússia pela primeira vez desde o colapso da União Soviética saiu de suas fronteiras impostas, e em 2014 o fez novamente. O presidente russo Vladimir Putin, se dirigindo a tropas na Criméia, atravessou o Rubicão, após o que um recuo russo simplesmente não é uma opção. A OTAN, apesar da introdução ilegal e secreta de unidades individuais na Ucrânia, aparentemente carece da vontade ou do poder de intervir, o que significa que a junta está agora abandonada a si mesma. Seu apoio do Ocidente de qualquer maneira, pelo menos, se provou ambíguo. No sudeste da Ucrânia eles provavelmente darão início a um período de terror contra a população russa, que será implementado não pelo exército ucraniano (representando a estrutura do Estado ucraniano no sudeste, agora desintegrada), mas ao invés gangues militantes do "Setor Direito" e do "Svoboda", disfarçados em uniformes da Guarda Nacional da Ucrânia, possivelmente auxiliados por unidades da OTAN. Porém, a junta de Kiev não pode contar com a força total da OTAN.

Nessas condições, a tarefa agora é construir um novo Estado russo no sudeste, a Nova Rússia, que ligará a Rússia, incluindo a Criméia, com a Transnístria. O Ocidente não veria isso favoravelmente e provavelmente tentará agir de alguma forma, mas essa é tão somente a nova realidade geopolítica: a América tem que aceitar o fato de que após mais de vinte anos a Rússia retornou como força histórica. Essa é uma questão de realismo político. 

11/03/2013

Boris Nad - O Retorno do Mito

por Boris Nad


Os processos contraditórios de desmitologização e remitologização não são desconhecidos para as civilizações antigas, nas quais os velhos mitos são às vezes destruídos (desmitologização) e substituídos com novos mitos (remitologização). Em outras palavras, aqui os processos de desmitologização e remitologização são processos mutuamente causados e interdependentes. Eles não colocam em questão a própria base da comunidade mítica tradicional; ademais, eles a mantém atual e viva.

O mito, nomeadamente - exceto em casos especiais de degradação extrema e secularização da tradição e cultura - para nós, não é uma ficção de povos primitivos, uma superstição ou uma incompreensão, mas uma expressão assaz concisa das verdades e princípios sagrados mais elevados, que são "traduzidos" a uma linguagem específica da realidade terrena, na medida em que seja praticamente possível. O mito é verdade sacral descrita por linguagem popular. Onde as presunções para sua compreensão estão desaparecendo, o conteúdo mítico deve ser descartado para que se coloque em seu lugar um novo.

As Intuições Perigosas

O mito é, nas culturas tradicionais, também uma grande antítese, onde, como demonstrado na obra capital de J.J. Bachofen Direito Materno: Uma Investigação sobre o Caráter Religioso e Jurídico do Matriarcado no Mundo Antigo, os dois princípios maiores e irreconciliáveis são confrontados: o urânico e o ctônico, patriarcal e matriarcal, e isso é projetado para todas as modalidades secundárias do estado e da ordem social através das artes e da cultura.

Com o advento do indo-europeu, invasores patriarcais no solo da velha Europa matriarcal começou o conflito dos dois princípios opostos que é trabalhado no estudo de Bachofen. No caso em questão, os velhos cultos e mitos matriarcais se tornam patriarcais, através dos processos paralelos e alternados de desmitologização e remitologização, e traços desse conflito também são encontrados em alguns temas míticos, que podem ser compreendidos como uma história político-religiosa bastante breve, como Robert Graves os interpretou, em seu livro Os Mitos Gregos.

Em contraste, na Grécia, um processo de desmitologização que alcança seu ápice após Xenófanes (565-470) é completo e radical. Isso não é seguido por qualquer processo de remitologização, é uma consequência de um processo total de dessacralização e profanação da cultura, que resulta na extinção do mítico e no despertar de uma consciência história, quando o homem deixa de ser ver como mítico e começa a se compreender como um ser histórico. Este é um fenômeno que possui analogias com dois momentos na história: primeiro, com um processo de desmitologização causado pelo Cristianismo primitivo. Para os primeiros teólogos cristãos, o mito era o oposto do Evangelho, e Jesus era uma figura histórica, cuja historicidade os Pais da Igreja provavam e defendiam para os descrentes. Como contraste há o processo de remitologização da Idade Média, com toda uma série de exemplos de revitalização do antigo conteúdo mítico, muitas vezes conflituoso e irreconciliável, dos mitos do Graal e de Frederico II aos mitos escatológicos na época das Cruzadas e vários mitos milenaristas. É, sem dúvida, uma reatualização bastante antiga de conteúdo mítico e sua "intuição perigosa", que ultrapassa suas causas e serve como uma evidência da presença de forças míticas do mundo histórico, que processo algum de desmitologização é capaz de destruir ou extinguir.

A Mitologia do Consumidor - O Pesadelo da História

Outro exemplo de processo radical de desmitologização é a desmitologização que começa com a época do Iluminismo até seu ápice experimentado no "universo tecnológico". Ela é (como acima) expressão direta de degradação e declínio do homem moderno, que não mais é um ser mítico ou histórico, mas um mero "consumidor" dentro da "civilização consumista e tecnocrática" ou simplesmente um plugue para o universo tecnológico. O impulso heróico do homem como ser mítico e histórico foi esgotado. Forças destrutivas de desmitologização constantemente limpam e removem os ingredientes míticos da área da civilização consumista e da memória humana em geral, exterminando as "intuições perigosas" que estão contidas aí. Dentro do universo tecnológico, que é apenas uma fase final da queda do homem (moderno), o horizonte humano está finalmente se fechando, porque aqui o homem possui apenas um poder e apenas uma liberdade: o poder de gastar e a liberdade de comprar e vender. Essa liberdade e esse poder, testemunham sobre a morte do homem (conhecida pelo mito e pela história), porque dentro do universo da tecnologia e da civilização consumerista, qualquer coisa que transcende esse "animal de consumo" simplesmente não pode existir. "A Morte da Arte" sobre a qual fala a vanguarda histórica é uma simples consequência da morte do homem, primeiro como ser mítico, e finalmente como ser histórico.

É claro, o processo de desmitologização jamais pode se completar, pela simples razão de que a destruição não toca as próprias forças míticas. Elas continuam a aparecer e retornar através da história, seja sob roupagem "histórica", ou como algo que se opõe à história. Isso também é verdadeiro para o universo unidimensional de uma utopia tecnocrática. Como resultado, os verdadeiros conteúdos míticos da civilização de consumo são substituídos pelo simulacro mítico: ideologias e mitos subculturais, ou mitologia consumerista, crescendo sem controle, cujos heróis são figuras como o Super-Homem.

Mas a exaustão de longos e destrutivos processos de desmitologização não significa um retorno ao tempo mítico.

"Nós estamos na meia-noite da história, o ponteiro marcou as doze e nós olhamos adiante para as trevas onde vemos os contornos de coisas futuras. A essa visão se seguem medo e pesada premonição. Coisas que vemos ou pensamos que podemos ver ainda não tem nome, elas são inomináveis. Se as abordamos, não as afetamos com precisão e elas escapam do laço de nosso domínio. Quando falamos paz pode ser guerra. Planos de felicidade se tornam homicidas, não raro ao longo da noite".

Em resumo: "Incursões ríspidas, que em muitos lugares convertem paisagens históricas em elementais, ocultam mudanças sutis porém do tipo mais agressivo" (Ernst Jünger: No Muro do Tempo).

Na Aurora da História

O escrito No Muro do Tempo pelo autor alemão Ernst Jünger retrata a transição do mito em história, o momento em que a consciência mítica foi substituída pela histórica. A história, é claro, não existe há tanto tempo quanto o homem: a consciência histórica rejeita como ahistóricos os vastos espaços e épocas ("pré-história"), e povos, civilizações e nações, porque "uma pessoa, um evento deve ter características muito específicas que as tornem históricas". A chave para essa transição, segundo esse autor, fornece a obra de Heródoto, através da qual o homem "passa por um país iluminado pelos raios da aurora".

"Antes dele (Heródoto) havia algo mais, a noite mítica. Aquela noite, porém, não era trevas. Era como um sonho, e ela conhecia um meio diferente de conectar pessoas e eventos de consciência histórica e suas forças seletivas. Isso lança os raios da aurora sobre a obra de Heródoto. Ele se situa no topo da montanha que separa o dia da noite: não apenas as duas épocas, mas também dois tipos de épocas, os dois tipos de luz".

Em outras palavras, é o momento da transição de um modo de existência para algo bastante diferente, que chamamos história. Este é o tempo da transição de dois ciclos, que não podemos identificar com a mudança de épocas históricas - o problema em questão é a mudança profunda na existência do homem. O sagrado na maneira das épocas anteriores recua, cultos antigos desaparecem e em seu lugar vem religiões, que logo após, por si mesmas se tornam históricas ou anti-históricas, mesmo quando iniciam eventos e enredos históricos. As guerras cruzadas, convocadas pela Igreja do Ocidente, aprofundaram divisões e cismas e eventualmente deram origem à Reforma, que começou com entusiasmo religioso e um desejo de retorno "aos primórdios bíblicos", e então findou com o movimento histórico que abre o caminho para o desenvolvimento desimpedido da indústria e da tecnologia - incontida pelas normas da tradição (cristã), e livre de esperanças e desejos humanos.

A Careta de Horror

O Mundo da História, cujos contornos já encontramos em Homero, os quais foram moldados por Tucídides, e que experimentou seu zênite em algum momento ao fim do século XIX e início do século XX, com fronteiras incertas no tempo e no espaço, mas com uma consciência clara de suas leis e regulamentos, começou a entrar em colapso; e o vasto edifício da história se torna instável, como um sinal de penetração de forças estranhas até então desconhecidas. Essas forças possuem caráter titânico, elemental, visto pela primeira vez em desastres técnicos, que afetaram centenas de milhares de vítimas e então, nos eventos cataclísmicos do século XX, nas guerras e revoluções mundiais, com milhões de mortos e aleijados. A liberação da energia nuclear, da radiação e da destruição ambiental às quais áreas enormes foram expostas, a taxa diária paga em sangue, seja sacrificado ao "progresso" em tempos de paz, seja como consequência direta de intervenções e conflitos militares, são algo que emerge da moldura estabelecida pelo mundo histórico. É claro, a história não acaba aí, como esperado, por Marx ou Fukuyama. O que é mais notável é a aceleração do tempo histórico, que concentra eventos e reduz a distância entre os pontos de virada da história. Aquilo de que estamos falando é, porém, que aqui não estão apenas operando forças que chamamos históricas, e que o papel do homem nesses eventos fundamentalmente se modificou: ele não é mais capaz de operar igualmente com os deuses, ou segui-los, resistir contra eles ou mesmo subjugá-los, como era representado pelo mito. Ele (o homem) não é mais um participante ativo na história, guiado pelas paixões ou sua própria vontade, como ocorre na época histórica madura. Ele se torna o joguete de algo desconhecido, envolvido em eventos que o ultrapassam, contra sua vontade e fora de suas idéias.

A expressão de confiança alegre está sendo gradativamente substituída por uma careta de horror. O homem, que até ontem se considerava um soberano e mestre, reconhece sua fraqueza. Os meios que eram confiados são demonstrados como fracos ou na hora de decisão se voltam contra seu criador. Sistemas tecnológicos e ordens sociais possuem seus outros lados, seus esquemas automáticos, que não restringem mas encorajam a destruição, que situam o homem na posição de aprendiz de feiticeiro, que liberou forças incontroláveis. Corrupção, crime, violência e terror são mais resultados do que causas. Respostas políticas, independentemente de cor e signo, não oferecem soluções senão ampliam a desintegração. Se ele não se encontrasse em tempo de pânico, o homem poderia adquirir pelo menos uma consciência de seu próprio declínio.

Tudo isso era impensável na era madura da história porque então, o homem ainda era governado por si mesmo, e assim era a história, e portanto a história não podia ter senso de direção além daquela dada pelo próprio homem, seus próprios feitos e pensamentos.

Cada conceito de "sentido da história" é o conceito dos primórdios do homem, enquanto no tempo histórico clássico o homem não é criado, mas ele existe. A questão do "sentido da história" era uma questão sem sentido, e ela de fato não é encontrada nos escritores clássicos, de Heródoto em diante. A questão do "sentido da história", que é sempre encontrado fora do homem, se torna possível apenas quando a história e o foco saem do homem, seja na esfera social, seja na esfera das relações tecnológicas.

O homem moderno está atrasado demais para revelar sua própria fraqueza, mas sua desintegração não acusa o mito ou a história, senão precisamente a fraqueza e covardia do homem moderno. O mundo dos "valores civilizados", o mundo histórico em geral, que ele próprio havia criado, está se mostrando mais fraco do que costumávamos crer - estruturalmente fraco, espiritualmente e eticamente também. Ao primeiro sinal de alarme, ele começa a desintegrar, expondo, na verdade, a prontidão interna do homem moderno de capitular.

Essa é uma "meia-noite da história", que logo será substituída por algo diferente, e este momento é marcado pela difusão de forças titânicas, demandando o sacrifício de sangue.

Rumo à Pós-História: O Despertar do Mito

A história, nós devemos repetir novamente, não dura tanto quanto o homem na Terra. Mas a consciência sobre isso ocorre tardiamente na história, talvez apenas em seu fim, quando as fronteiras do tempo e do espaço estão mudando: por um lado, pela descoberta do passado distante do homem, com civilizações perdidas, então o passado do planeta e do universo, e por outro lado, com a exploração de espaços cósmicos, profundezas de oceanos, ou o interior da própria Terra, através das camadas arqueológicas e geológicas, quase ao modo de Verne. Novas perspectivas causam vertigem. A pré-história e a pós-história ganham em importância apenas quando a história se torna um edifício em ruínas. Mas passar o homem da história para algo que ele ainda não foi capaz de determinar ainda ou perceber claramente rememora agora o voo. 

De uma maneira ou de outra, o universo tecnológico e a civilização do consumo chegarão ao fim, da mesma maneira que a época histórica clássica acaba com a tecnocracia e com uma ordem totalitária em sua forma completa, que não emerge nem da coragem ou da força, mas da covardia, fraqueza e medo. É impossível dizer quanto tempo isso vai durar. É irrelevante se isso vai acontecer devido a atrito interno, uma sobretensão ou um desastre, ou tudo isso junto. Mas em cada um desses casos, o colapso é apenas uma consequência da inabilidade do homem de continuar habitando no mundo histórico e governá-lo como ser supremo e soberano.

O retorno do mito, porém, não é possível em termos de um retorno à "pré-história". Forças mitológicas permanecem presentes, como eram durante todo o período histórico, mas elas não podem estabelecer um estado prévio porque carecem das pré-condições, em primeiro lugar, um "substrato" ausente, um terreno fértil. O homem moderno é fraco demais para isso, no sentido espiritual, psicológico e mesmo "fisiológico".

Junto com a história, a cultura gradativamente desaparece também, em seu sentido atual, que é basicamente apenas um instrumento de engenharia social. Em uma utopia tecnocrática (em oposição à cultura no período histórico) a cultura de massa é apenas uma das maneiras de canalizar a energia e impulsionar fantasias utópicas e desejos das massas; a cultura de elite, que constantemente vaga entre conformismo e negação, entre ceticismo e negação, entre ceticismo e ironia, e de volta ao conformismo, essencialmente permanece uma ferramente de desmitologia (ou desconstrução de mitologia) e destruição de instituições perigosas contidas no mito, que permite mais ou menos uma integração fluida no universo tecnológico, com a ilusão do livre arbítrio. O aparecimento e o despertar de intuições perigosas e arquétipos adormecidos, nas margens do mecanismo social tecnocrático, cria uma situação de conflito e leva a atrasos em seu funcionamento.

Na região fora da utopia tecnocrática, a cultura precisará assumir um papel mais tradicional do que aquele que possui na civilização do consumo. A desintegração do mundo histórico em seu estágio tardio, que nós estamos testemunhando, nos permite ver algo disso.

Por boa parte do período histórico, a cultura é uma área privilegiada de poderes sagrados e míticos. Essa é uma das maneiras nas quais forças míticas penetram de novo no mundo historicamente, se realizando na história, diferentemente do universo tecnológico, onde elas usualmente se manifestam através de elementos não-controlados de subculturas folclóricas, e muitas vezes distorcidos ao ponto de serem irreconhecíveis como simulacro do mítico, e não como sua expressão crível.

Eles mais testemunham sobre a necessidade eterna e insaciável do homem por conteúdo mítico, do que representam um signo de sua presença real.

A cultura na era pós-tecnocrática estará relacionada bem de perto ao restabelecimento da mitologia, em termos de reconhecimento e despertar do conteúdo mítico autêntico, marcado por inovação e revitalização da forma antiga e tradicional, mais do que, como até então, seu exorcismo. O sentido e propósito do processo de desmitologia, por contraste, deve ser limitado ao que possuía nas sociedades tradicionais: a limpeza de formas míticas "folclóricas" degeneradas, de modo a abrir espaço para aquelas que representa com credibilidade a tradição.