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13/07/2021

Yukio Mishima - Chamado às Armas: O Último Discurso de Mishima

por Yukio Mishima

(1970)


Nosso Tatenokai [1] recebeu treinamento do Jieitai [2]. Neste sentido, o Jieitai é como nosso pai ou irmão mais velho. Então como é que decidimos realizar esta ação aparentemente ingrata? No passado, fomos tratados quase como militares dentro do Jieitai e tivemos a garantia de um treinamento altruísta no curso dos últimos quatro anos para mim e nos últimos três anos para meus alunos. Amamos o Jieitai do fundo do nosso coração e foi aqui que sonhamos com o verdadeiro Japão, que não pode mais ser encontrado fora dos muros do Jieitai e aqui chegamos a conhecer "os lamentos do homem"[3] que eram impossíveis de encontrar no Japão do pós-guerra.

O suor que derramamos aqui foi puro, nada forçado, e caminhamos pelas encostas do Monte Fuji[4] como camaradas que compartilhavam o mesmo espírito patriótico. Eu nunca tive a menor dúvida sobre isso. Para nós, o Jieitai era nossa casa e o único lugar onde podíamos respirar um ar vivo e saudável no fracoJapão de hoje. O amor e as atenções que recebemos de nossos instrutores durante os exercícios foram sem limites. Entretanto, optamos por iniciar esta ação aqui e agora. Por quê? Mesmo correndo o risco de ser considerado um sofista, devo ressaltar que tudo isso se deve ao nosso amor pelo Jieitai.

O Japão do pós-guerra se esparramou na prosperidade econômica, esqueceu os fundamentos de uma nação, perdeu seu espírito nacional, esqueceu o essencial e se dispersou em bagatelas, engajou-se na improvisação e na hipocrisia, e perdeu sua alma. Isto é o que pudemos constatar.

09/12/2017

Roy Starrs - Dialética Nietzscheana nos Romances de Yukio Mishima

por Roy Starrs



Apesar das ideias de Nietzsche terem tido o mesmo tipo apelo amplo e às vezes superficial para os escritores criativos japoneses que a suas contrapartes ocidentais, entre os principais escritores Yukio Mishima (1925-1970) deve ser considerado como singular tanto pela medida como pela maneira de seu uso daquelas ideias. De fato, qualquer interpretação dos argumentos dialéticos que estruturam seus principais romances filosóficos e mesmo seus ensaios e manifestos morais/políticos pareceria inadequada se ignorasse seu contexto nietzscheano. Não obstante, apesar de Mishima ter sido neste sentido o mais profundo e bem-sucedido nietzscheano japonês - o mais bem-sucedido em dar uma expressão estética original e interessante para algumas das ideias centrais de Nietzsche - ele de modo algum foi o primeiro. E seria difícil compreender a sua recepção de Nietzsche sem alguma consideração, primeiro, de precedentes históricos - do progresso do nietzscheanismo japonês antes dele - já que isso obviamente ajudou a moldar sua compreensão de Nietzsche, ainda que nem sempre, como veremos, de maneira benéfica.

Na história das relações intelectuais entre Japão e Ocidente, Nietzsche ocupa uma posição singular e importante: ele foi o primeiro grande filósofo europeu ucjas ideias alcançaram um impacto profundo quase simultaneamente nas duas culturas. Talvez em parte por essa razão, a sua influência no Japão, especialmente nos escritores criativos japoneses, tem sido mais profunda, mais amplamente sentida e mais duradoura do que a de qualquer outro pensador ocidental excetuando Marx (1). De fato, na literatura a sua influência tem sido bem maior do que a de Marx - se não no sentido de ter afetado mais escritores, pelo menos no sentido de ter gerado frutos mais férteis. Enquanto o movimento da "literatura proletária" marxista das décadas de 20 e 30 do século XX, por exemplo, produziu pouco que possa ser lido hoje - talvez apenas algumas obras de Kobayashi Takiji - entre os escritores criativos significativamente influenciados por Nietzsche devemos nomear algumas das maiores figuras da literatura japonesa moderna, incluindo Mori Ôgai, Hagiwara Sakutarô, Akutagawa Ryûnosuke, Satô Haruo, Nishiwaki Junzaburô e, é claro, o próprio Mishima. Isso não quer dizer que os escritores japoneses tenham tido uma predileção ou afinidade incomuns por Nietzsche. Poderíamos facilmente fazer toda uma convocatória semelhante de grandes escritores ocidentais do século XX que foram similarmente influenciados - inclusive o romancista favorito de Mishima entre os ocidentais, Thomas Mann. De um jeito ou de outro, as ideias de Nietzsche tem tido um apelo irresistível à imaginação literária. Sem dúvida isso é parcialmente por causa da elevada qualidade literária de sua prosa - uma raridade entre filósofos modernos - mas também isso deve ter alguma relação com a natureza de suas próprias ideias: suas tensões dialéticas parecem aptamente transferíveis para o tipo de tensões dramáticas que estruturam uma obra literária.

29/10/2015

Angel Millar - Mishima: A Estética da Ação

por Angel Millar



Já se passaram mais de quatro décadas desde que Yukio Mishima - dramaturgo, samurai moderno, nacionalista, fisiculturista, e de modo geral um enigma japonês - desencadeou uma onda de choque por todo o Japão cometendo seppuku, o suicídio ritual do samurai. Porém, hoje, ele está de volta à vista do público. Julho viu o lançamento do filme 11.25 O Dia em que Mishima Escolheu seu Destino de Koji Wakamatsu, e a primeira exibição solo em um museu público do Japão, do fotógrafo e colaborador de Mishima, Kishin Shinoyama, foi inaugurada.

Shinoyama capturou algumas das imagens mais controversas do dramaturgo japonês, em uma coleção de fotografias chamada Barakei (Ordálio [ou Tortura] por Rosas). O próprio Mishima esteve intimamente envolvido em conceitualizar as imagens, e, em grande medida, elas são uma meditação na qual os fantasmas mentais emergem, meio pensados, meio sentidos. Tiradas em um preto-e-branco granuloso, as fotografias justapõem o corpo musculoso de Mishima com esculturas e pinturas barrocas e desenhos do corpo humano.

Em uma fotografia, Mishima está envolvido em uma mangueira de jardim, como se oprimido pela mundaneidade em si. Em outra, ele está amarrado a uma árvore, em imitação a São Sebastião, com seu corpo perfurado por flechas. Parte erotismo, parte auto-idolatria, parte contemplação da mortalidade, através de Barakei, o autor japonês se impulsiona dos mundano reino do erotismo, para além do véu da morte, para se demorar entre os anjos.

O espírito de Barakei pode ser considerado tântrico - aquela prática hindu e budista da unio mystica pela união sexual. Mas parece, em todos os sentidos, ser uma fusão de estética e ideias tanto ocidentais como japonesas. Quando jovem, Mishima havia sido frágil e pouco atlético. Mas ele resolveu forjar para si mesmo um novo e masculino corpo, e passou à prática do fisiculturismo (que havia sido introduzido no Japão por soldados americanos - os vitoriosos da Segunda Guerra Mundial) e do kendô. Talvez por causa do desprezo de Mishima pelo corpo frágil, Barakei possui uma insinuação de militância. Tradicionalmente, no Tantra, em contraste, o devoto era às vezes obrigado a realizar a união sexual com um membro do sexo oposto que ele achasse feio. Aparentemente isso tinha como objetivo libertar o devoto de tomar a aparência das coisas por sua substância.

Na cultura japonesa clássica, porém, a relação entre aparência e essência é enfatizada. O pintor em tinta pratica pintar um único círculo, com um único gesto e uma única exalação. Se ele perder a concentração mesmo que por um segundo, isso ficará evidenciado no círculo, que sairá ovalado, ou terá uma protuberância. Aparência e espírito estão, para o japonês clássico, interligados.

Sensualidade e espiritualidade profundas estão conectados, não necessariamente exclusivamente pelo prazer - como se encontra na religião persa, o zoroastrismo, onde as riquezas são vistas como reflexo dos céus - mas também por emoções mais obscuras, e mesmo através da morte. Notavelmente, o japonês ukiyo era um termo budista, significando fadiga (uki) da vida (yo). Porém seu significado se transformou, se tornando associado com os distritos de prazer de Edo (Tóquio), e suas cenas de bebedeira, cortesãs, e todo o resto. O mundo flutuante, neste sentido, era o mundo do prazer temporário - refletindo a existência temporal do homem. Enquanto gênero, impressões xilográficas lidando com os distritos do prazer se tornaram conhecidas como ukiyo-e, literalmente "imagens do mundo flutuante".

Em Mishima: Uma Visão do Vácuo - uma obra particularmente pomposa sobre o dramaturgo - Marguerite Yourcenar liga as poses de Mishima no Barakei ao Hagakure, um manual samurai do século XVIII que recomenda que o guerreiro medite sobre sua morte iminente, para que ele não mais tema a morte. O Hagakure lhe ordena imaginar ser "cortado em pedaços ou mutilado por flechas" entre outras mortes medonhas. Assim, é fácil imaginar que Mishima posando como santo perfurado por flechas era uma influência dessa tradição. Porém, isso parece ignorar a mensagem de Mishima: i.e., que as ações - especialmente as ações militares - são estéticas, não mecânicas ou puramente práticas.

A mensagem de Mishima - jamais berrada dos telhados - está inteiramente de acordo com a história e sensibilidade japonesas. Muitos samurais - incluindo o célebre Miyamoto Musashi - foram artistas e calígrafos, além de espadachins. Ademais, influenciados pelo Zen Budismo, os japoneses há muito tem considerado as diferentes artes como revelatórias ao praticante do mesmo satori (entendimento) ou kensho (compreensão da verdadeira natureza do eu), não raro em uma revelação momentânea durante a prática. Arranjo floral e a arte do guerreiro, enquanto tais, não são duas coisas diferentes. Como diz o Hagakure, "É ruim quando uma coisa se torna duas. Não se deve procurar por nada além no Caminho do Samurai. É igual para qualquer coisa chamada de Caminho. Se isso é compreendido dessa forma, o samurai se torna capaz de ouvir sobre todos os caminhos e ficar cada vez mais de acordo com o seu próprio".

O "caminho" (Do) de Mishima o levou de escrever a atuar em filmes (onde ele interpretou personagens como mafiosos e detetives), a formar seu próprio exército privado. A Tatenokai (Sociedade do Escudo) consistia em cem homens jovens. Mishima disse a ter formado para dar aos estudantes - que não se encaixavam facilmente no novo zeitgeist marxista - um lugar seu. Mas, mesmo aqui, a preocupação estética de Mishima o levou a desenhar os uniformes, se inspirando nos uniformes mais clássicos dos exércitos europeus. (Os "úniformes rígidos nos fazem pensar na Alemanha e na antiga Rússia", ressalta Yourcenar).

Na realidade, a Tatenokai não era uma unidade de combate. Seu propósito primário pode ter sido, de fato, puramente estético: lembrar Mishima e despertar o Japão para a ideia de que ainda poderia haver um modo de vida espiritual, estético e ao mesmo tempo masculino na era moderna - não um "caminho" como na palavra inglesa, mas como no Do japonês ou no Tao chinês. Notavelmente, Mishima era insistente de que seu exército não deveria se envolver em baixarias e atividades pequenas: "Sem demonstrações de rua para nós, sem placas, sem coqueteis molotov [...] sem apedrejamentos", ele determinou. "Até o último momento desesperado, nos recusaremos em nos comprometer à ação. Pois somos o exército menos armado, e mais espiritual do mundo".

Em 1970, Mishima e membros da Tatenokai entrar na Estação Ichigaya das forças de auto-defesa do Japão. Mishima apareceu na sacada, discursando para os soldados abaixo sobre como o Japão havia se tornado materialista e decadente, ainda que suas palavras logo fossem abafadas pelos sons dos helicópteros da imprensa. Finalmente, longe das vistas, ele cometeu seppuku, abrindo seu estômago com uma espada samurai.

O Japão ficou constrangido com o suicídio público de Mishima, e, em alguma medida, ainda sente certo desconforto em relação ao dramaturgo. Isso é compreensível. Mas devemos parar para refletir que, no Ocidente pelo menos, os heróis da era moderna, não raro, morreram de overdoses, afogados no próprio vomito ou assassinados em tiroteios. E, não infrequentemente isto é visto como virtualmente admirável - prova de sua sinceridade. Isso obviamente só é prova da superficialidade bárbara dessas pessoas que encontram entretenimento na morte.

Apesar de seu suicídio - e estilo muitas vezes extravagante (o que é extremamente não-nipônico) - as obras de Mishima são consideradas clássicas. Mesmo no Ocidente, seus livros são leitura obrigatória para quem frequenta cursos de literatura japonesa na universidade. É possível separar o homem de sua arte, e sua morte da mensagem de sua vida: que as ações são estéticas, e que a masculinidade, em seu ápice, é espiritual; preocupada, como deve ser, com valores e beleza, força interior e disciplina.

06/07/2015

Angel Millar - O Corpo como Espírito: Yukio Mishima, Autor, Intelectual e Guerreiro

por Angel Millar



"É possível para as pessoas usar o corpo como uma metáfora para ideias", diz o autor japonês Yukio Mishima em Sol e Aço.

Mishima havia sido uma criança fraca e doente, paparicada por sua avó superprotetora. Ele não tinha permissão para brincar com outros garotos, e cresceu alienado da cultura masculina (bem como de sua mãe, que não tinha permissão para cuidar dele sem supervisão). De si mesmo, Mishima diz, "palavras vieram primeiro; então...veio a carne. Ela já estava desgastada pelas palavras".

Para o autor a resposta para esse desgaste - que ele também deve ter visto no Japão do pós-SGM, derrotado pela bomba atômica americana - foi passar a praticar Kendo (a esgrima tradicional japonesa) e fisiculturismo, e transformar sua figura magra em um poderoso veículo que pudesse competir com seu intelecto.

A competição era parcialmente por atenção e parcialmente um jeito de ser. Como com os estetas ocidentais, a extravagância e a sinceridade não eram alienígenas uma à outra, mas uma e a mesma coisa. Controversialmente, Mishima formou seu próprio exército privado, de aproximadamente 100 homens: o Tatenokai ou "Sociedade do Escudo". Ele queria, dizia, criar uma sociedade para estudantes que não pudesse, por razões ideológicas, se juntar aos marxistas nos campi - o marxismo era altamente popular à época.

Uma das questões que dividia o autor e os marxistas (que Mishima respeitava) era a devoção ao imperador. Mishima jamais o disse, mas outra - e talvez uma área ainda mais importante - era o corpo. O "Caminho" do Tatenokai, e do próprio Mishima, estava cada vez mais voltado para o físico. Em um vislumbre de intuição, Mishima compreendeu "todas as coisas até então pouco claras para mim. O exercício dos músculos elucidou os mistérios que haviam sido criados pelas palavras. Era similar ao processo de aquisição de conhecimento erótico. Pouco a pouco comecei a compreender o sentimento por trás da existência e da ação".

O marxismo era intelectual. Mishima estava cada vez mais preocupado com o físico, precisamente como expressão de ideias enraizadas em um tipo de drama primordial. O vislumbre intuitivo havia vindo enquanto o autor considerava a natureza da tragédia.

A tragédia, diz Mishima, "nasce quando a sensibilidade perfeitamente mediana momentaneamente assume para si uma nobreza privilegiada...segue-se que aquele que se aventura com palavras não pode participar nela. É necessário, ainda, que a 'nobreza privilegiada' encontre sua base estritamente em um tipo de coragem física... A tragédia demanda uma vitalidade antitrágica e ignorância, e acima de tudo uma certa 'inadequação'."

Por "ignorância", obviamente, Mishima não quer dizer estupidez, vulgaridade ou grosseria (Mishima era bastante preocupado com elegância, ainda que não como a compreendamos hoje), mas sim, um distanciamento em relação ao intelecto na direção do instinto. 

Inofensiva no Ocidente, a "inadequação" era talvez uma ideia mais assustadora no Japão da época de Mishima (e mesmo hoje), onde regras de etiqueta social são rígidas e complexas, e compreender o próprio lugar na ordem social é algo praticamente natural. Mas o herói trágico deve, claramente, ir contra a convenção de seu tempo. Ele é aquele que dá o passo para frente, assumindo o desafio de salvar a sociedade de alguma ameaça existencial, enquanto todos os outros seguem com seus afazeres mundanos.

É estranho, então, que Mishima sugira que o corpo físico é "estranho ao espírito", estando mais próximo das ideias. Não obstante, ao criticar aqueles que permitem que seus corpos se tornem feios, ele sugere que o corpo pode ser um veículo para o espírito. Uma barriga protuberante é um "sinal de preguiça espiritual", por exemplo. Este e outros traços não atraentes, diz Mishima, são "como se o dono estivesse expondo suas impudicícias espirituais por fora do corpo".

O autor equipara essa feiura física com a "individualidade". "Se", diz Mishima misteriosamente, "o corpo puder alcançar perfeita harmonia não-individual, então seria possível fechar a individualidade para sempre em um confinamento estreito". Mas a ideia de "perfeita harmonia não-individual" parece chave para o crescente interesse de Mishima no físico. Ele pôde escapar do mundo internamente e externamente feio através do aperfeiçoamento do corpo, fazendo disso sua orientação espiritual.

25/09/2012

Kerry Bolton - Vida e Obra de Yukio Mishima

por Kerry Bolton


Yukio Mishima, 1925-1970, nasceu Kimitake Hiraoka em uma família de classe média-alta. Autor de uma centena de livros, dramaturgo, e ator, ele foi descrito como o "Leonardo da Vinci do Japão contemporâneo", e é um dos poucos escritores japoneses a se tornar conhecido e a ser traduzido no Ocidente.

O Lado Negro do Sol

Desde a Segunda Guerra Mundial, o Ocidente esqueceu o que Jung teria chamado de a alma "sombria" do Japão, os impulsos coletivos que foram reprimidos pela "Lei de Ocupação" e pela imposição da democracia. Os japoneses são vistos estereotipicamente como sendo extremamente educados e sorridentes empresários ou turistas ávidos por fotografar. A ênfase tem sido na contraparte suave da psiquê japonesa, no "crisântemo" (as artes), e na repressão da "espada" (a tradição marcial).

A antropóloga cultural americana Ruth Benedict escreveu sobre a dualidade do caráter japonês usando este simbolismo em seu estudo, O Crisântemo e a Espada, ao qual Mishima se referiu em aprovação. Benedict havia sido comissionada pelo governo americano em 1944 para escrever um estudo da cultura japonesa. Retratar os japoneses como selvagens era suficiente para o propósito da propaganda de guerra, mas uma compreensão mais plena de nuances era considerada necessária para as negociações do pós-guerra.

O que Benedict descreveu foi o ethos de provavelmente toda sociedade Tradicional, independentemente de tempo, espaço e etnia. Essa "tradição perene" foi descrita por Julius Evola, que mostrou que as culturas tradicionais possuem perspectivas análogas. Elas percebem o terreno como um reflexo do cosmos, o mortal como um reflexo do divino. Eles consideram o Rei ou Imperador como um elo entre a terra e o cosmos, o humano e o divino. Este foi o ethos Tradicionalista que Yeats desejava reviver na Civilização Ocidental, por exemplo, em uma maneira similar à demanda de Mishima pela ressurreição da ética samurai no Japão. Em tais sociedades tradicionais, o Rei também é um sacerdote que serve como o elo direto ao Divino, o guerreiro é honrado ao invés do comerciante, e a sociedade é estritamente hierárquica e considerada como um reflexo terreno da ordem divina. Realizar o seu dever divino como rei, soldado, sacerdote, camponês, ou comerciante é o propósito de cada vida individual, e é sancionado pela lei e pela religião.

Daí, nas sociedades tradicionais, o papel do comerciante é subordinado, e o domínio do dinheiro - plutocracia - como no Ocidente hoje, é considerado como uma inversão do ethos tradicional, um sintoma de decadência cultural. No Japão tradicional, como Inazo Nitobe explica:

"De todas as grandes ocupações na vida, nenhuma estava mais removida da profissão de armas que o comércio. O comerciante estava situado o mais baixo na categoria de vocações - o cavaleiros, o agricultor, o mecânico, o comerciante. O samurai derivava sua renda da terra e poderia até se se dar ao luxo, se fosse de seu interesse, à prática de agricultura amadora; mas o contador e o ábaco eram abomináveis".

Nitobe afirma que quando o Japão se abriu para o comércio internacional, o feudalismo foi abolido, os feudos dos samurais foram tomados, e ele foi compensado com notas promissórias, com o direito de investir no comércio. Daí o samurai foi degradado ao status de um comerciante de modo a sobreviver.

Segundo Benedict, durante a guerra, os japoneses se consideravam como a única nação no mundo que havia mantido a ordem divina. Eles acreditavam ser seu dever reimpor esta ordem sobre o resto do mundo.

O Bushido japonês, o "Caminho do Samurai", é portanto análogo ao de outras sociedades tradicionalistas, tal como a cavalaria da Europa Medieval e o código guerreiro explicado por Krishna a Arjuna no Bhagavad Gita. Para a aristocracia guerreira japonesa a espada (katana) era um objeto sagrado, forjado com cerimônia, seu uso sujeito a regras precisas.

Mishima insistia que o Japão retornasse a um equilíbrio das artes e do espírito marcial. Usando a terminologia de Jung, Mishima estava chamando o Japão à "individuação" pela permissão de que o arquétipo "sombra" reprimido, "A Espada", se reafirmasse. Mishima era ele mesmo uma síntese de estudioso e guerreiro que rejeitava o intelectualismo e a teoria puras em favor da ação.

Nitobe, explicando o Bushido, escreveu que o intelectualismo era desprezado pelo samurai. Aprender era valorado não como um exercício intelectual, mas como uma questão de formação de caráter. O intelecto era considerado subordinado ao ethos. O homem e o universo eram ambos espirituais e éticos. O cosmos possuía um imperativo moral. Isso foi discutido por Mishima em seu comentário do Hagakure.

A ocupação americana foi tamanha inversão do espírito japonês que Ian Buruma, escrevendo no "Prefácio" à edição de 2005 de O Crisântemo e a Espada, afirma:

"Jovens japoneses hoje podem ter alguma dificuldade em reconhecer alguns aspectos do 'caráter nacional' descrito no livro de Benedict. Lealdade ao Imperador, dever para com os pais, terror em não pagar dívidas morais, tudo isso decaiu em uma era de auto-absorção tecnologicamente impulsionada".

O Caminho do Samurai

O ideal estético de Mishima era a beleza de uma morte violenta no auge de uma vida, um ideal comum na literatura japonesa clássica. Como um jovem doente, o ideal de Mishima da morte heroica já havia tomado posse: "Um desejo sensual por tais coisas como o destino de soldados, a natureza trágica de sua vocação...os modos pelos quais eles morreriam".

Ele estava determinado a superar suas fraquezas físicas. Há muito do "Homem Superior" de Nietzsche nele, na superação de limitações pessoais e sociais para expressar sua própria individualidade heroica. Seu lema era: "Seja Forte".

A Segunda Guerra Mundial teve uma influência formativa em Mishima. Junto com seus colegas estudantes, ele sentia que a conscrição e a morte certa aguardavam. Ele se tornou presidente do clube literário do colégio, e seus poemas patrióticos foram publicados na revista estudantil. Ele também co-fundou seu próprio jornal e começou a ler os clássicos japoneses, se tornando associado ao grupo literário nacionalista Bungei Bu, que acreditava que a guerra era sagrada.

Porém, Mishima passou por pouco no exame médico para treinamento militar. Ele foi conscrito para uma fábrica de aviões na qual aviões kamikaze eram manufaturados.

Em 1944, ele teve seu primeiro livro, Hanazakan no Mori (A Floresta em Florescência) publicado, um feito considerável no último ano da guerra, o que lhe trouxe reconhecimento instantâneo.

Enquanto o papel de Mishima no esforço de guerra não fosse obviamente o que ele teria desejado, ele passou o resto de sua vida no mundo do pós-guerra tentando realizar seus ideais de Tradição e ética samurai, buscando retornar o Japão ao que ele considerava como seu verdadeiro caráter em meio à era democrática na qual o ideal de "paz" é um absoluto inquestionável (ainda que ele tenha que ser continuamente imposto com muitos gastos militares e guerras localizadas).

A Vontade de Saúde

Em 1952, Mishima, então uma figura literária estabelecida, viajou aos EUA. Sentado sob o sul à bordo do navio, algo que ele havia sido incapaz de fazer em sua juventude por causa de seus frágeis pulmões, Mishima resolveu equiparar o desenvolvimento de seu físico com o de seu intelecto.

Seu interesse nos clássicos helênicos o levaram à Grécia. Ele escreveu que, "Na Grécia, porém, houve um equilíbrio entre o corpo físico e a inteligência, soma e sophia...). Ele descobriu uma "Vontade de Saúde", uma adaptação da "Vontade de Poder" de Nietzsche, e ele se tornou quase tão conhecido como fisiculturista quanto como escritor.

Ataque Literário

Em 1966, Mishima escreveu: "O objetivo de minha vida era adquirir todos os vários atributos do guerreiro". Seu ethos era o do Bunburyodo-ryodo samurai: o caminho da literatura (Bun) e da espada (Bu), que ele buscava cultivar em igual medida, uma mistura de "arte e ação". "Mas o desejo de meu coração pela Morte e Noite e Sangue não seria negado". Sua pouca saúde na juventude lhe havia roubado do que ele via claramente como seu verdadeiro destino: ter morrido durante a Guerra a serviço do Imperador, como tantos outros jovens japoneses. Ele expressava o ethos samurai: "Manter a morte em mente dia após dia, para manter em foco a cada momento a morte inevitável...a bela morte que outrora me havia escapado também havia se tornado possível. Eu estava começando a sonhar com minhas capacidades como guerreiro".

Em 1966, Mishima pediu permissão para treinar em quarteis do exército, e no ano seguinte ele escreveu Cavalos em Fuga, cujo enredo envolve Isao, um estudante direitista radical e praticamente de artes marciais, que comete hara-kiri após esfaquear um empresário. Isao havia sido inspirado pelo livro Shinpuren Shiwa ("A História do Shinpuren") que reconta o Incidente Shinpuren de 1877, a última resistência dos samurais quando, armados apenas com lanças e espadas, eles atacaram um quartel do exército em desafio aos decretos governamentais proibindo o porte de espadas em público e ordenando o corte dos cabelos dos samurais. Todos, a não ser um, samurais cometeram hara-kiri. Novamente Mishima estava usando a literatura para planejar como ele visualizou sua própria vida se desabrochando e terminando, contra o pano-de-fundo da tradição e da história.

Em 1960 Mishima escreveu o conto Patriotismo, em honra da rebelião Ni ni Roku de 1936 de oficiais do exército da facção Kodo-ha que desejavam atacar a União Soviética em oposição aos rivais Tosei-ha que objetivavam atacar a Grã-Bretanha e outras potências coloniais.

A rebelião de 1936 se imprimiu em Mishima, como o desafio suicida, mas simbólico do último samurai no Incidente Shinpuren de 1877. Em Patriotismo o herói, um jovem oficial, comete hara-kiri, sobre o que Mishima afirma: "Seria difícil imaginar uma visão mais heróica do que o tenente nesse momento".

Mishima novamente escreveu sobre o incidente em sua peça Toka no Kiku. Aqui ele critica o Imperador por trair os oficiais Kodo-ha e por renunciar a sua divindade após a guerra, o que Mishima via como uma traição dos mortos da guerra. Mishima combinou estas três obras sobre a rebelião em um único volume chamado a trilogia Ni ni Roku.

Mishima comenta sobre a trilogia e a rebelião:

"Certamente algum Deus morreu quando o Incidente Ni ni Roku falou. Eu tinha apenas onze anos na época o senti pouco. Mas quando a guerra terminou, quando eu tinha vinte, uma época bastante sensível, eu senti algo da terrível crueldade da morte daquele Deus...a figura positiva era minha impressão infantil do heroísmo dos oficiais rebeldes. Sua pureza, coragem, juventude e morte os qualificavam como heróis míticos; e suas derrotas e mortes os tornaram verdadeiros heróis nesse mundo..."

É a frequente expressão do sentimento de Mishima de que a "derrota e morte", tal como findaram as rebeliões de 1877 e 1936, tornava os rebeldes tradicionalistas "verdadeiros heróis nesse mundo", que indica uma metafísica atuante subjacente a sua perspectiva e especialmente suas ações, em relação não ao resultado de uma ação quanto ao significado, mas à pureza da ação per se. Isso está para além da política, que objetiva alcançar resultados, ou "a arte do possível", e entra no que o hindu chamaria de dharma.

No início de 1966, Mishima sistematizou seus pensamentos em um ensaio de 80 páginas entitulado Eirei no Koe novamente baseado na rebelião Ni ni Roku. Nessa obra ele pergunta, "por que o Imperador teve que se tornar um ser humano?" Enquanto a obra permaneceu obscura, ela lhe forneceu a base para a fundação de sua Sociedade do Escudo vários anos depois.

Em uma entrevista com uma revista japonesa naquele ano, Mishima sustentou o sistema imperial como o único tipo adequado para o Japão. Toda a confusão moral da era pós-guerra, ele afirma, deriva da renúncia do Imperador a seu status divino. O afastamento do feudalismo em direção ao capitalismo e a consequente industrialização perturba as relações entre indivíduos. O amor real entre um casal requer um terceiro termo, o ápice de um triângulo incorporado na divindade do Imperador.

O Tatenokai

No ano seguinte Mishima criou sua própria milícia, o Tatenokai (Sociedade do Escudo) escrevendo pouco antes em reviver a "alma do samurai dentro de mim". Permissão foi dada pelo exército para que Mishima usasse seus campos de treinamento para os seguidores estudantes que ele recrutou de diversas sociedades universitárias direitistas.

No escritório de um jornal estudantil direitista, uma dúzia de jovens se reuniu. Mishima escreveu em um pedaço de papel: "Nós, por meio desta, juramos ser a fundação do Kokoku Nippon". Ele fez um corte no dedo, e todos os outros repetiram o ato, deixando o sangue preencher uma taça. Cada um assinou o papel com seu sangue e bebeu da taça. O Tatenokai nasceu.

Os princípios da sociedade eram:

- O Comunismo é incompatível com a tradição, cultura e história japonesas e é contrário ao sistema imperial;

- O Imperador é o único símbolo de nossa comunidade histórica e cultural e de nossa identidade racial; e

- O uso de violência é justificável em vistas da ameaça representada pelo comunismo.

A milícia foi designada para não ter mais do que 100 membros, e para ser um exército de reserva concentrado apenas no treinamento, sem qualquer agitação política. A base metafísica do pensamento de Mishima para a milícia era expressada por sua descrição do Tatenokai como o "exército menos armado e mais espiritual do mundo". Eles estavam seguindo o caminho da tradição, que havia sustentado os japoneses durante a Segunda Guerra Mundial sobrepujando forças materiais, como descrito por Ruth Benedict. Mishima se referiu ao livro de Benedict ao explicar que sua razão para criar o Tatenokai era restaurar ao Japão o equilíbrio do "crisântemo e da espada" que havia sido perdido após a guerra.

O emblema que Mishima designou para a sociedade era composto por dois elmos japoneses antigos em vermelho contra um fundo branco de seda.

À essa época, Mishima sentiu que sua vocação como escritor estava preenchida. Deve ter parecido a hora certa para morrer. Ele havia recebido o Prêmio Literário Shinchosha em 1954 por O Som das Ondas e o Prêmio Literário Yomiuri em 1957 por O Templo do Pavilhão Dourado. Seus romances Neve Primaveril e Cavalos em Fuga haviam vendido bem, mas ele estava enfurecendo os literatos, entre os quais seu único defensor nessa época era Yasunari Kawabata, que havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura em 1968, Mishima tendo perdido porque o comitê do Prêmio Nobel assumiu que ele podia esperar mais um pouco em favor de seu mentor. Kawabata considerava o talento literário de Mishima como excepcional.

Mishima caracterizava a intelligentsia como:

"O inimigo mais forte dentro da nação. É assombroso quão pouco o caráter dos intelectuais modernos no Japão mudou, ou seja, sua covardia, escárnio, 'objetividade', desenraizamento, desonestidade, seus falsos gestos de resistência, sua auto-importância, inatividade, loquacidade e prontidão para comer as próprias palavras".

O Hagakure

O destino de Mishima foi moldado pelo código samurai exposto em um livro que ele havia mantido consigo desde a guerra. Este era o Hagakure, cuja linha mais conhecida era: "Eu descobri que o caminho do samurai é a morte".

O Hagakure era a obra do samurai do século XVII Jocho Yamamoto, que ditou seus ensinamentos a seu estudante Tashiro. O Hagakure se torno o código ensinado ao samurai, mas não se tornou disponível para o público geral até a segunda metade do século XIX. Durante a Segunda Guerra Mundial ele foi amplamente lido, e seu slogan sobre o caminho da morte foi usado para inspirar os pilotos kamikaze. Após a Ocupação ele passou ao submundo, e muitas cópias foram distribuídas para que não caíssem em mãos americanas.

Mishima escreveu seu próprio comentário sobre o Hagakure em 1967. Ele afirmou em sua introdução que  era o livro ao qual ele se referia continuamente nos 20 anos desde a guerra e que durante a guerra ele o havia sempre mantido consigo.

Mishima relata que imediatamente após a guerra, ele se sentiu isolado do resto da sociedade literária, que havia aceitado ideias que eram estranhas a ele. Ele se perguntou qual seria seu princípio orientador agora que o Japão havia sido derrotado. O Hagakure era a resposta, lhe fornecendo "constante orientação espiritual" e "a base de minha moralidade". Como todos os outros livros japoneses do período da guerra, o Hagakure havia se tornado odioso na era democrática, a ser expurgado da memória, mas nas trevas dos tempos ele agora irradia sua "verdadeira luz", nas palavras de Mishima:

"Foi agora que o que eu havia reconhecido durante a guerra no Hagakure começou a manifestar seu verdadeiro significado. Aqui estava um livro que pregava liberdade, que ensinava paixão. Aqueles que leram com cuidado apenas a mais famosa linha do Hagakure ainda mantém uma imagem dele como um livro de fanatismo odioso. Naquela única linha, 'eu descobri que o Caminho do Samurai é a morte', pode ser visto o paradoxo que simboliza o livro como um todo. Foi essa frase, porém, que me deu forças para viver".

A Feminização da Sociedade

Um dos temas de interesse primário para o leitor contemporâneo do comentário de Mishima sobre o Hagakure é o uso de Mishima das observações de Jocho sobre sua própria época para analisar a era moderna. Tanto o Japão do século XVII como o Japão do século XX manifestam sintomas análogos de decadência, este último devido à imposição de valores alienígenas que são produtos do ciclo ocidental de decadência, enquanto os da época de Jocho indicam que a civilização japonesa em seu tempo estava em uma fase de decadência. Portanto, aqueles interessados em morfologia cultural, a de Spengler em particular, verão análogos ao declínio atual da civilização ocidental na análise de Jocho de seu tempo e na análise de Mishima do Japão do pós-guerra.

O primeiro sintoma considerado por Mishima é a obsessão da juventude com a moda. Jocho observou que mesmo entre os samurais, os jovens falavam apenas em dinheiro, roupas e sexo, uma obsessão que Mishima também observou em sua época.

Mishima também apontou que a feminização pós-guerra do homem japonês foi notada por Jocho durante os anos de paz da era Tokugawa. Impressões setecentistas de casais dificilmente distinguem entre homem e mulher, com cortes de cabelo, roupas e expressões faciais similares, tornando impossível dizer quem é o homem e quem é a mulher. Jocho registra no Hagakure que durante esta época, a taxa de pulsação de homens e mulheres, que normalmente diferem, havia se igualado, e isso era notado ao se tratar de problemas médicos. Ele chamava a isso de "o pulso feminino". Jocho observou: "O mundo está de fato adentrando em uma fase degenerada; os homens estão perdendo sua virilidade e estão se tornando exatamente como mulheres..."

Celebridades substituem Heróis

Jocho condena a idolização de certos indivíduos alcançando o que hoje chamaríamos de status de celebridade. Mishima comenta:

"Hoje, jogadores de baseball e estrelas de televisão são idolatrados. Aqueles que se especializam em habilidades que fascinarão uma audiência tendem a abandonar sua existência como personalidades humanas completas e a se reduzirem a um tipo de marionete habilidosa. Essa tendência reflete os ideais de nossos tempos. Nesse ponto não há diferença entre artistas e técnicos.

O presente é a era da tecnocracia (sob a liderança de técnicos); diferentemente expressa, é a era dos artistas de performance... Eles esquecem os ideais de um ser humano total; degenerar em uma simples engrenagem, uma única função se torna sua maior ambição..."

O espetáculo de Hollywood e tudo que as palavras "estrela" e "celebridade" sugerem epitomizam a  banalidade cultural do mundo hoje.

O Tédio do Pacifismo

Sob o pacifismo e a democracia, o indivíduo está literalmente morrendo de tédio, ao invés de viver e morrer heroicamente.

"Nossa é uma época na qual tudo é baseado na premissa de que é melhor viver o máximo possível. A expectativa de vida se tornou a mais longa na história, e um plano monótono para a humanidade se desdobra diante de nós".

Uma vez que um homem jovem encontre seu lugar na sociedade, sua luta acabou, e não há nada mais para a juventude além da aposentadoria, "e a vida pacífica e tediosa da velhice impotente". O conforte do estado de bem-estar garante contra a necessidade de luta, e se é simplesmente ordenado a "descansar". Mishima comenta sobre o número extraordinário de idosos que cometem suicídio. Agora nós podemos acrescentar o número ainda mais extraordinário de jovens que cometem suicídio.

Mishima equipara socialismo e estado de bem-estar social, e descobre que ao fim do primeiro, lá está a "fadiga do tédio" enquanto ao fim do segundo está a supressão da liberdade. O povo deseja algo pelo que morrer, ao invés da paz infinita que é sustentada como Utopia. A luta é da essência da vida. Para o samurai, a morte é o foco de sua vida, mesmo em tempos de paz. "A premissa da era democrática é que é melhor viver o máximo possível".

A Repressão da Morte

O mundo moderno busca evitar o pensamento da morte. Porém a repressão de um elemento tão vital da vida, como todas essas repressões, levará a uma tensão explosiva cada vez maior. Mishima afirma: 

"Nós estamos ignorando o fato de que levar a morte ao nível da consciência é um elemento importante de saúde mental... o Hagakure insiste que ponderar sobre a morte diariamente é se concentrar diariamente na vida. Quando fazemos nosso trabalho pensando que podemos morrer hoje, nós não podemos deixar de sentir que nosso trabalho subitamente se torna radiante com vida e significado".

Extremismo

Mishima afirma que o Hagakure é uma "filosofia de extremismo". Daí, ela está inerentemente descompassada com o caráter de uma sociedade democrática. Jocho afirmou que enquanto a Razão Áurea é bastante valorada, para o samurai sua vida diária deve ser de uma natureza heróica, vigorosa, para superar e ultrapassar. Mishima comenta que "ir ao excesso é um importante trampolim espiritual".

Intelectualismo

Mishima tinha o mesmo desprezo por intelectuais que os ocidentais que também estavam em revolta contra o mundo moderno, como D.H. Lawrence, que acreditava que a força vital é reprimida pelo racionalismo e intelectualismo e substituída pela mentalidade contabilista do comerciante, não apenas nos negócios mas em todos os aspectos da vida. Jocho afirmou que:

"O homem calculista é um covarde. Eu digo isso porque os cálculos tem relação com lucro e perda, e tal pessoa é portanto preocupada com lucro e perda. Morrer é uma perda, viver é um lucro, e assim se decide não morrer. Portanto se é um covarde. Similarmente um homem de educação camufla com seu intelecto e eloquência a covardia ou ganância que é sua verdadeira natureza. Muitas pessoas não percebem isso".

Mishima comenta que na época de Jocho não havia nada que correspondesse à intelligentsia moderna. Porém, havia estudiosos, e mesmo os próprios samurais haviam começado a se transformar em uma classe similar "em uma época de paz estendida". Mishima identifica esse intelectualismo com "humanismo", como fez Spengler. Este intelectualismo significa, contrariamente à ética samurai, que "não se oferece corajosamente em face do perigo".

Sem Palavras de Fraqueza

O samurai em tempos de paz ainda fala com um espírito marcial. Jocho ensinou que, "a primeira coisa que um samurai diz em qualquer ocasião é extremamente importante. Ele demonstra com essa única observação todo o valor do samurai". Jocho afirmou: "Mesmo em conversa casual, um samurai jamais deve reclamar. Ele deve constantemente estar em guarda para não deixar escapar uma única palavra de fraqueza". "Não se deve perder o coração no infortúnio".

O Fluxo do Tempo

A referência de Jocho ao "fluxo do tempo" indica que ele reconheceu a natureza cíclica da vida de um organismo cultural 400 anos antes de Spengler tê-la explicado ao Ocidente. Mishima aponta que enquanto Jocho lamenta "a decadência de sua era e a degeneração do jovem samurai", ele observa "o fluxo do tempo", realisticamente afirmando que é inútil resistir ao fluxo. Como Jocho afirmou: "O clima de uma era é inalterável. Que as condições estão piorando constantemente é prova de que entramos na última fase da Lei".

Jocho emprega a analogia de estações tanto quanto Spengler fez ao descrever os ciclos de uma civilização: "Porém, a estação não pode sempre ser primavera ou verão, nem podemos ter luz do dia para sempre. O que é importante é fazer de cada era tão boa quando ela possa ser segundo sua natureza". Jocho não recomenda nem nostalgia pelo retorno do passado, nem a atitude "superficial" dos que valorizam apenas o que é moderno, ou "progressivo" como falamos hoje.

Um Destino de Samurai

A produção literária de Mishima foi como um manual para seu próprio plano militar pessoal de ataque à era moderna, em consonância com o Caminho do Samurai. Mishima não teria esperado que um ato final de desafio ao mundo moderno terminasse em "vitória" em qualquer sentido convencional. Tendo sido imbuído com o ethos tradicional do Japão durante a guerra, era a dimensão espiritual que importava. Contra forças materiais vastamente superiores, essa dimensão espiritual havia sustentado a "missão" japonesa de trazer hierarquia ao Oriente e ao Pacífico, como a única nação que havia preservado essa perspectiva tradicionalista. Benedict recorda que esta crença foi mantida na era imediata do pós-guerra e que isso ainda era motivado por uma perspectiva espiritual.

"O Japão similarmente deposita suas esperanças de vitória em uma base diferente da prevalente nos Estados Unidos. Ela venceria, ela clama, uma vitória do espírito sobre a matéria. A América era grande, seus armamentos eram superiores, mas que importava? Tudo isso, eles diziam, havia sido previsto e descontado...

Mesmo quando ela estava vencendo, seus estadistas civis, seu Alto Comando, e seus soldados, repetiam que essa não era uma disputa entre armamentos; era um enfrentamento de nossa fé nas coisas contra sua fé no espírito".

25 de novembro de 1970 foi escolhido como o dia que Mishima cumpriria seu destino como samurai, depositando sua fé no espírito contra a era moderna. Quatro outros do Tatenokai se uniram a ele. Todos portavam faixas com um slogan do Hagakure. O objetivo era fazer de refém o General Mishita para permitir que Mishima se dirigisse aos soldados estacionados na base Ichigaya em Tóquio. Mishima e seu tenente, Morita, então cometeriam hara-kiri. Apenas adagas e espadas seriam usadas no ataque, em consonância com a tradição samurai.

O general foi amarrado e amordaçado. Um duro confronto se seguiu conforme oficiais diversas vezes entravam no escritório do general. Mishima e seu pequeno bando a cada vez forçavam os oficiais a recuarem. Finalmente, eles foram expulsos com golpes da espada de Mishima contra seus traseiros. Mil soldados se reuniram no térreo. Dois dos homens de Mishima lançaram panfletos da sacada acima, convocando para uma rebelião para "restaurar Nippon".

Precisamente ao meio dia, Mishima apareceu na sacada para se dirigir à multidão. Gritando por sobre o barulho de helicópteros ele declarou:

"O povo japonês hoje pensa em dinheiro, apenas em dinheiro: Onde está nosso espírito nacional hoje? O Jieitai deve ser a alma do Japão".

Os soldados zombavam. Mishima continuou:

"A nação não possui fundação espiritual. É por isso que vocês não concordam comigo. Vocês serão apenas mercenários americanos. Aí estão vocês em seu minúsculo mundo. Vocês não fazem nada pelo Japão". Suas últimas palavras foram: "Eu saúdo o Imperador. Vida longa ao Imperador!"

Morita se uniu a ele na sacada em saudação. Ambos retornaram ao escritório de Mishita. Mishima se ajoelhou, gritando uma última saudação, e enfiou a adaga em seu estômago, forçando-o em direção horária. Morita falhou na decapitação deixando-a para que outro a terminasse. Morita então recebeu a adaga de Mishima mas pediu ao espadachim que havia finalizado Mishima para que fizesse seu trabalho, e a cabeça de Morita foi cortada com um único golpe. Os seguidores remanescentes reuniram as cabeças de Mishima e Morita e rezaram sobre eles.

Dez mil pranteadores foram ao funeral Mishima, o maior de seu tipo já realizado no Japão. "Eu quero fazer de minha vida um poema", Mishima havia escrito aos 24 anos de idade. Ele havia cumprido seu destino segundo o caminho do samurai: "Escolher o lugar em que se vai morrer é também a maior alegria da vida". Mishima escreveu em seu comentário sobre o Hagakure: "A forma positiva de suicídio chamada de hara-kiri não é um sinal de derrota, como no Ocidente, mas a expressão máxima da vontade livre, de modo a se proteger a própria honra".

Após sua morte, seu comentário sobre o Hagakure se tornou um best seller imediato.

21/04/2011

Cada época tem os heróis que merece...

"Como é possível definir como homem de ação quem, no seu trabalho de gestor, faz cento e vinte telefonemas por dia para vencer a concorrência? É um homem de ação aquele que é louvado porque aumenta os ganhos da própria empresa, viajando para os países subdesenvolvidos e aproveitando-se dos seus habitantes? Na nossa época são geralmente estes vulgares dejetos sociais a serem julgados homens de ação. Atolados nesta sujidade estamos obrigados a assistir à decadência e à morte do modelo de Herói, que exala já um fétido odor."
- Yukio Mishima

24/12/2010

Trocar a própria vida por um instante de poesia

"A lei é um acúmulo de tentativas incansáveis de bloquear o desejo de um homem de transformar sua vida em um instante de poesia. Certamente não seria certo deixar que todo mundo trocasse sua vida por uma linha de poesia escrita em uma poça de sangue. Mas a massa dos homens, carecendo de valor, passam suas vidas sem sentir o mínimo toque desse desejo. A lei, portanto, por sua própria natureza, é dirigida a uma minúscula minoria da humanidade."
(Yukio Mishima)

06/12/2010

Superar as contradições e cumprir o Dever

"A pergunta que me torna obcecado é se cumpri o que havia prometido. Não há dúvidas de que com minha negação e política prometi algo. Não sou um político, e manter a palavra empenhada não significa para mim procurar para alguém vantagens reais; ainda assim, estou obcecado dia e noite pela sensação de não ter cumprido ainda uma promessa mais importante e necessária que as dos políticos. Ter vivido estes vinte e cinco anos de democracia, obtendo vantagens dela apesar de minha desaprovação, fere meu espírito há muito tempo."

(Yukio Mishima)

02/11/2010

A Frente do Espírito

"Cruzou as mãos sob a cabeça e ficou olhando as vigas escuras do teto, na obscuridade, além do alcance da lâmpada de cabeceira. Estaria esperando pela morte agora? Ou por um êxtase selvagem dos sentidos? As duas coisas pareciam sobrepostas, quase como se o objeto do desejo do seu corpo fosse a própria morte. Mas, fosse o que fosse, a verdade era que o tenente nunca antes experimentara uma liberdade tão completa.

Ouviu o ruído de um carro na rua, sob sua janela, o cantar dos pneus derrapando na neve acumulada ao longo da rua. A buzina ecoou nas paredes mais próximas...Escutando, teve a impressão de que a casa erguia-se em uma ilha solitária no oceano de uma sociedade que prosseguia incansável como sempre na sua atividade de todos os dias. À sua volta, vasta e desordenada, estendia-se a terra pela qual ele chorava. Ia dar a vida por ela. Mas o grande país, pelo qual estava disposto a se destruir, daria atenção à sua morte? Não sabia, e não fazia diferença. Seu cambo de batalha era sem glória, um campo onde ninguém poderia realizar façanhas valorosas, a linha de frente do espírito."

(Yukio Mishima, trecho de "Patriotismo")

08/09/2010

"Homem de Ação"?

"Como é possível denominar 'homem de ação' a quem por seu trabalho de presidente em uma empresa faz cento e vinte chamadas telefônicas diárias para se adiantar à concorrência? É talvez homem de ação o que recebe elogios porque aumenta as ganâncias de sua sociedade viajando a países subdesenvolvidos e saqueando seus habitantes? Em geral, são estes vulgares despojos sociais os que recebem o título de homens de ação em nosso tempo. Emaranhados nesse lixo, estamos obrigados a testemunhar a decadência e morte do antigo modelo de herói, que já exala um odor miserável. Os jovens não podem deixar de observar com desgosto o vergonhoso espetáculo desse modelo de herói, o qual aprenderam a conhecer pelas historietas, implacavelmente derrotado e deixado a murxar pela sociedade à qual deverão pertencer algum dia. E gritando seu rechaço a semelhante sociedade em seu conjunto, tentam desesperadamente defender sua pequena divindade."
(Yukio Mishima)