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05/12/2022

Nicolas Gauthier - Entrevista com Alain de Benoist: "A Ecologia possui uma Força Conservadora-Revolucionária"

 por Nicolas Gauthier e Alain de Benoist

(2018)



Com a demissão de Nicolas Hulot do governo Macron, chegamos a pensar que um ministro da ecologia estivesse definitivamente privado de valor, ao ponto de se demitir. Uma outra oportunidade perdida?


Podemos culpar Nicolas Hulot de muitas coisas, mas ele certamente não é acusável de oportunismo. Não digo o mesmo do seu sucessor, que me parece ter uma boca bem adestrada para engolir as serpentes. Hulot não queria ser um ministro, no final cedeu a pressões e se arrependeu. E foi embora. Mas partindo disse a verdade, isto é, que apesar de todas as besteiras que podem ser ouvidas acerca do “capitalismo verde” e “desenvolvimento sustentável”, a ecologia e a economia obedecem a lógicas inconciliáveis. A ecologia não é compatível com o capitalismo liberal e nem com a lógica do lucro, pois é o seu ímpeto global a causa de toda a degradação ambiental que vemos hoje. É aqui que a palavra de Bossuet deveria ser citada sobre aqueles que deploram as consequências dos que amam as causas.

Desse ponto de vista, um ministro da ecologia pode ser apenas um idiota útil para o momento em que figura. Está lá para “tornar verde” a imagem do governo para simples objetivos eleitorais. Estou seguro de que nesse cargo François de Rugy fará milagres. De fato, enquanto não colocarmos em discussão a obsessão pelo crescimento e consumo, a onipotência da mercadoria, o axioma dos juros e a loucura do produtivismo, nada fundamentalmente melhorará.

11/11/2021

Nicolas Gauthier - Entrevista com Alain de Benoist: "Desigualdades salariais entre homens e mulheres, o conto de fadas das neofeministas"

 por Nicolas Gauthier e Alain de Benoist

(2020)



Continuamos ouvindo isso repetidamente: na França, as mulheres recebem menos do que os homens. Em novembro passado, Marlène Schiappa declarou que, para habilidades iguais, as mulheres são pagas "em média entre 9% e 27% menos" do que seus colegas homens. Isto é confiável?

Nem por um momento, e é fácil de demonstrar. Mas falar de "desigualdades salariais" é ter uma visão já tendenciosa. Se compararmos os salários de um homem e de uma mulher na mesma posição, no mesmo nível, na mesma empresa e no mesmo lugar, vemos que a diferença é insignificante, se não inexistente. Um gerente de empresa que, por "machismo", quisesse reduzir sistematicamente os salários das mulheres, não teria possibilidade de fazê-lo porque a lei o proíbe. Este também tem sido o caso nos Estados Unidos desde a adoção do Equal Pay Act, em 1963.

21/03/2021

Nicolas Gauthier - Entrevista com Alain de Benoist: A Lógica do Capitalismo

por Nicolas Gauthier e Alain de Benoist

(2018)


Apesar das repetidas promessas dos políticos da direita e da esquerda, nada parece estar freando o aumento do desemprego. Isso é algo inevitável?

Oficialmente, há 3,5 milhões de desempregados na França, o que representa uma taxa de 10.3% de desemprego. Mas esse número varia dependendo de como é computado. As estatísticas oficiais levam em consideração apenas os desempregados que estão ativamente procurando um emprego, deixando de lado as categorias B, C, D e E (os estão procurando emprego, apesar de ultimamente estarem trabalhando de modo reduzido; os que pararam de procurar emprego, mas ainda estão desempregados; os que estão em formação; os estagiários, os que estão trabalhando sob “contratos subsidiados”, etc.). Somando todas essas categorias, chegamos a uma taxa de desemprego real de 21.1% (mais do que o dobro dos números oficiais). Se nos remetermos à taxa geral da população inativa em idade de trabalho, chegamos aos 35.8%. Além do mais, se levarmos em consideração os trabalhos perigosos, de tempo parcial ou de prazo determinado, bem como a porcentagem dos trabalhadores abaixo da linha de pobreza, esse número só aumenta.

Indubitavelmente, mudanças no desemprego dependem das políticas oficiais − mas apenas até certo ponto. O desemprego atual não é mais de natureza cíclica, mas fundamentalmente estrutural, algo que muitos ainda não compreenderam completamente. Isso significa que o trabalho está se tornando uma commodity escassa. Os empregos perdidos estão cada vez menos sendo substituídos por outras aberturas de vagas. É claro, a expansão do setor de serviços é real, mas o setor de serviços não gera capital. No mais, vinte anos para a frente e quase a metade desses empregos no setor de serviços será substituída por redes de máquinas. Imaginar, portanto, que algum dia retornaremos ao pleno emprego é uma ilusão.

30/12/2020

Nicolas Gauthier - Entrevista com Alain de Benoist: Mesmo na Idade Média o Confinamento dos Sadios Nunca Acabou com Qualquer Pandemia

 por Nicolas Gauthier e Alain de Benoist

(2020)


Agora que as coisas parecem estar em vias de apaziguamento, podemos dizer que o governo, mesmo tendo obviamente sido pego com as calas nas mãos, fez em excesso ou não fez o suficiente diante da epidemia, ou fez apenas o que podia?

Não há outra palavra para isso: a resposta do governo ao Covid-19 foi verdadeiramente calamitosa. Cinco meses após a epidemia, ainda não atingimos a capacidade de triagem que deveríamos ter tido quando ocorreram as primeiras mortes. O governo primeiro se refugiou na negação (não chegará nós, é uma gripezinha), após o que assistimos a um desfile interminável de confusões, de instruções contraditórias e mentiras de Estado. Nada havia sido previsto, apesar de muitas vozes terem se levantado nos últimos anos para prever uma nova pandemia vinda da Ásia. A causa principal está na incapacidade dos poderes públicos de pensar além do curto prazo. Mas a causa mais fundamental é que, para se conformar às regras da ideologia liberal, o setor de saúde pública tem sido submetido aos princípios de rentabilidade, da concorrência e da gestão just-in-time, o que tem levado ao fechamento de milhares de leitos, à destruição dos estoques de reserva e à crescente precarização do pessoal já mal pago. Em outras palavras, integramos ao sistema de mercado uma área que, por definição, está fora do mercado. O resultado tem sido um colapso generalizado da capacidade hospitalar pública.

07/09/2020

Nicolas Gauthier - Entrevista com Alain de Benoist: O Antirracismo Atual Não é o Oposto do Racismo, mas Racismo em Sentido Contrário

por Alain de Benoist e Nicolas Gauthier

(2020)



Impulsionada pelas repercussões do caso George Floyd nos Estados Unidos, a luta liderada por Assa Traoré contra a "violência policial" lhe parece ser um movimento de massas ou apenas o resultado de uma moda e uma agitação marginal cuja extensão seria superestimada por nossa mídia?


O caso George Floyd é uma notícia à qual o sistema midiático, aderido à ideologia dominante, tem dado uma ressonância planetária. A morte de Adama Traoré, outra notícia, não tem nada a ver com este caso, exceto pela cor da pele de dois criminosos multi-recidivistas que morreram como resultado de sua interpelação. Por outro lado, suas repercussões devem tudo à habilidade do comitê criado para defender sua "memória", que foi capaz de instrumentalizar os delírios do politicamente correto e as não menos delirantes conseqüências do movimento Black Lives Matter a seu favor, ao mesmo tempo em que tira proveito da crescente influência da ideologia indigenista.

A amálgama dos dois casos também destaca a americanização dos modos de pensar dos parentes de Assa Traoré, que se vê, ela própria, como uma nova Angela Davis. Como você sabe, todos os modos americanos, seja o Gay Pride, a teoria do gênero ou a "interseccionalidade" das lutas, acabaram se impondo na Europa. Mas o contexto é radicalmente diferente. Os Estados Unidos têm sido confrontados desde o início com uma questão racial que nunca pôde ser resolvida. Recordemos que em 1945, foi uma América segregacionista que conquistou a vitória sobre o racismo de Hitler! Quanto à violência policial, que é de fato comum nos Estados Unidos, ela está fora de qualquer proporção com o que vemos na França. Eu acrescentaria que na França, quando ocorre a brutalidade policial, ela é descaradamente dirigida contra os "gauleses" (com olhos furados, braços arrancados, feridas de guerra), como vimos na época dos Coletes Amarelos, muito mais do que contra a ralé e os migrantes.

03/07/2019

Nicolas Gauthier – Entrevista com Alain de Benoist: Por que o Governo não entende a revolta dos Coletes Amarelos?

por Nicolas Gauthier

(2019)



N.G.: Você acha que já podemos fazer uma revisão da ação dos Coletes Amarelos?

A.B.: A melhor revisão que podemos fazer sobre ela é notar que ainda é muito cedo para fazer uma, porque o movimento está em curso e parece ter encontrado um segundo fôlego. Por quase três meses, apesar do gelo e do frio, apesar das tréguas do Natal, apesar dos mortos e feridos, apesar das baixas causadas pela brutalidade policial (mandíbulas quebradas, mãos destroçadas, pés esmagados, olhos perfurados, hemorragias cerebrais), apesar das críticas que tentaram sucessivamente apresentá-los como beaufs alcoólatras[1], nazistas (a "praga marrom") e criminosos, culpados, além disso, de arruinar o comércio, de dissuadir os turistas de virem para a França e até mesmo do “escândalo” de terem sabotado a abertura de liquidações, apesar de tudo isso, os Coletes Amarelos ainda estão aqui. Eles resistiram bem, não se dispersaram e a maioria dos franceses continua a aprovar sua ação. Esta é a confirmação de que esse movimento é diferente de qualquer outro.

10/01/2015

Nicolas Gauthier - Entrevista com Alain de Benoist sobre o atentado ao Charlie Hebdo

por Nicolas Gauthier



Mais além da indigmação legítima sobre o massacre perpetrado na sede do Charlie, que lições se pode extrair desse acontecimento? É preciso ver, como fizeram alguns meios, a prova de que uma "guerra total" foi declarada entre o Islã e a Cristandade, entre Oriente e Ocidente?

A forma abominável como foram massacrados os colaboradores do Charlie Hebdo nos comoveu, naturalmente. E o que resulta mais difícil quando a emoção invade tudo, é conservar a razão. E isso hoje é o mais necessário. Impor uma distância interior que permita analisar o acontecimento e extrair lições. Frente a quê nos encontramos? Frente a uma nova forma de terrorismo, inaugurada na França com os casos de Haled Kelkal e Mohammed Merah. Se distinguem ondas de terrorismo precedentes (os atentados do 11 de Setembro ou o atentado de Madri), que eram concebidas e postas em marcha a partir do estrangeiro por grandes redes internacionais organizadas.

Aqui, estamos diante de atentados concebidos na França por indivíduos que foram se radicalizando de maneira mais ou menos autônoma. Passaram progressivamente da delinquência ao jihadismo, mas não raro se ancoraram no jihadismo. São de um grande sangue frio, sabem utilizar armas e são perfeitamente indiferentes à vida dos outros. Ao mesmo tempo, são aficionados, como os irmãos Kouachi que decidem dizimar uma redação "para vingar o profeta", mas começam por se equivocar de direção, deixam pistas por todas as partes, não preveem nenhuma estratégia de retirada e esquecem carteiras de identidade no carro que acabam de abandonar. Aficionados imprevisíveis, o que os torna ainda mais perigosos. 

É preciso estar atento ao contágio mimético. A mesma lógica mimética que suscitou a comunhão emocional das concentrações espontâneas em favor do Charlie Hebdo não faltarão emuladores de Merah, dos irmãos Kouachi ou de Amedy Coulibaly. Imaginem a histeria social que poderia provocar a repetição a breves intervalos de atentados tais como o que acabamos de presenciar. Se viram coisas similares no passado. A isso se chama "estratégia de tensão".

É preciso evidentemente fazer a guerra aos que nos fazem guerra, e fazê-la com todos os meios necessários. Mas falar em "guerra total" não quer dizer grande coisa. Os jihadistas (ou os lançadores de fatwas) são tão representativos do Islã quando o Ku Klux Klan é representativo da Cristandade. Não são os jihadistas, senão os ocidentais que agitaram o espectro do "choque de civilizações" que empregaram para desestabilizar todo o Oriente Médio e eliminar todos os Chefes de Estado árabe-muçulmanos que, de Saddam Hussein a Gaddafi, haviam erguido barreiras contra o islamismo radical. A necessidade de lutar contra as consequências imediatas não deve fazer esquecer a reflexão sobre as causas primeiras.

Não é a primeira vez que uma revista é atacada de forma violenta. Recordamos especialmente os atentados contra o Minute ou o Le Choc du Mois, felizmente sem vítimas a lamentar. Não obstante, nessas ocasiões existiu menos empatia com essas ações que poderiam ser mortais. Dois pesos, duas medidas?

Digamos que se, ao invés de empreender contra a redação do Charlie Hebdo, os terroristas tivessem investido contra a revista Valeurs Actuelles, é muito provável que as reações não teriam sido as mesmas. Não teríamos visto florescer os "Eu sou Valeurs" como vimos florescer o "Eu sou Charlie". A classe política governante não teria falado certamente em "união nacional" (tema mistificador por excelência, por outra parte, pois uma tal "união" beneficia sempre aos que detém o poder e querem se beneficiar de um consenso). Contrariamente a seu predecessor Hara-Kiri, a Charlie Hebdo, revista liberal-libertária, se havia convertido em um dos órgãos da ideologia dominante. Essa sabe reconhecer os seus.

Nos é dito de maneira unânime que a Charlie Hebdo havia feito da liberdade de expressão seu cavalo de batalha. Mas e quanto a suas campanhas de delação que teriam levado à demissão de Richard Millet do comitê de leitura da Editora Gallimard, à demissão de Fabrice Le Quintrec da France Inter, ou de Robert Ménard e Éric Zemmour da Télé? A liberdade de expressão pode ter limites?

Basta de hipocrisia. Em 26 de abril de 1999, os dirigentes do Charlie Hebdo levaram ao Ministério do Interior 173.700 assinaturas pedindo a proibição do Front National. Em matéria de defesa da liberdade de expressão, se poderia fazer melhor! Há apenas umas semanas, Manuel Valls declarava que "o livro de Zemmour não merece ser lido", enquanto que outro ministro pedia sem a menor vergonha que "os estúdios de TV e as colunas de jornais deixem de albergar tais posições". E não falemos da própria questão do Dieudonné. Dito isso, sejamos justos: entre os que celebram a liberdade de expressão quando se trata de Zemmour, há desgraçadamente muitos poucos que estariam disposto a reclamá-la para seus adversários. Porém, "a liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de outra maneira" (Rosa de Luxemburgo), o que quer dizer que não tem mérito defendê-la mais que quando se esteja disposto a que ela também beneficie àqueles que se execra. Mas isso é precisamente o que rechaça a ideologia dominante, compreendida nos EUA, onde o primeiro mandamento permite a cada um dizer ou escrever o que queira, mas onde as opiniões inconformistas são ainda mais marginalizadas do que na França. Assim como o direito ao trabalho nunca cria um posto de trabalho, o direito a falar não garante a possibilidade de ser ouvido.