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14/04/2021

Daniele Perra – Heidegger, Suhrawardi e Parmênides: Uma Síntese Eurasiática

 por Daniele Perra

(2019)


Em alguns trabalhos anteriores publicados no site da revista "Eurasia" foi feita uma tentativa de estabelecer uma ligação entre a filosofia de Martin Heidegger e a teosofia islâmica xiita[1]. Como Claudio Mutti relata em seu texto "Exploradores do Continente", já em 2005, durante uma conferência realizada em Teerã sobre o tema "Martin Heidegger e o futuro da filosofia entre Oriente e Ocidente", o prof. Shahram Pazouki estabeleceu uma comparação entre o filósofo alemão e a gnose islâmica do shaykh medieval Shihaboddin Yahya Sohrawardi, identificando os dois "pensamentos" como o meio ideal para a "comunicação espiritual" entre Oriente e Ocidente[2]. É também bem conhecido que o grande iranista Henry Corbin, em seu tempo, encontrou semelhanças notáveis entre a teosofia islâmica e a analítica de Heidegger. Este autor, em uma obra recentemente publicada intitulada "Ser e Revolução" (NovaEuropa 2019), teve a audácia de ir mais longe, definindo o próprio pensamento de Heidegger como uma forma de teosofia. Isto porque o filósofo de Meßkirch, como os teosofistas "clássicos", no desenvolvimento do seu pensamento usa tanto argumentos racionais como os textos da tradição religiosa (especialmente da Grécia Antiga). Agora, para estabelecer uma primeira conexão entre os três pensadores mencionados no título, pode-se afirmar com algum conhecimento de causa que eles são todos os três "pensadores iniciais". Parmênides representa o início por excelência do pensamento grego e, com isso, "ocidental". Por sua vez, Suhrawardi e Heidegger são "iniciais" no sentido de que ambos se voltam para o início: para o pensamento da Pérsia Antiga o primeiro, para o mundo grego o segundo. E é precisamente neste caminho para o "início" que a originária comunidade espiritual do mundo eurasiático é redescoberta.

11/03/2021

Daniele Perra - Agentes da Falsificação Ideológica: O Caso Jorjani

por Daniele Perra

(2021)




O fenômeno da "Direita Alternativa" norte-americana se distinguiu (por admissão de algumas de suas referências ideológicas)[1] pela ausência não surpreendente de uma verdadeira produção bibliográfica. De fato, este, em seu trabalho maciço de propaganda em plataformas sociais, quando foi além da simples construção de tabelas, vídeos e artigos acusatórios, muitas vezes teve que se referir aos escritos de intelectuais europeus (de Guillaume Faye a Aleksandr Dugin) para apoiar suas visões. Em substancial descontinuidade com esta incapacidade de escrever está a figura de Jason Reza Jorjani: um ideólogo norte-americano de origem iraniana cujo trabalho, também em virtude de uma contínua referência à civilização indo-européia, conhece um sucesso discreto dentro de certos círculos do "Velho Continente" facilmente impressionados pelo uso de certa terminologia pseudo-histórica e pseudo-tradicional. Nesta refutação das teses principais de Jorjani, tentaremos demonstrar como seu pensamento puramente "ocidental" constitui simplesmente uma tentativa de fornecer uma superestrutura mitológica pseudo-tradicional ao atlantismo geopolítico.

11/05/2020

Daniele Perra - Os Caminhos de Retorno no Século XX

por Daniele Perra

(2018)



Em uma carta datada de 1933 dirigida a Carl Schmitt para o parabenizar pelo sucesso da terceira edição de "O Conceito do Político", Martin Heidegger se felicitava com o grande jurista por ter mencionado o Fragmento 53 de Heráclito: "O conflito, de todas as coisas pai, de todas as coisas rei, de alguns fez deuses, de outros homens, de alguns servos, de outros homens livres”. Além de demonstrar sua gratidão por não ter deixado de fora nenhum termo no fragmento e, em particular, a palavra "Basileus" (rei), o filósofo alemão admitiu ter mantido durante anos uma interpretação particular do breve dito heraclítico: uma interpretação, em sua própria maneira de ver, intrinsecamente ligada ao conceito de Verdade. Ao mesmo tempo, porém, Heidegger revelou a Schmitt que ele próprio estava em meio a um conflito e que qualquer projeto literário na época seria de importância secundária.

Parece imediatamente evidente que no fragmento heraclítico com o termo "pòleimos" (conflito) não se dá a entender exclusivamente o conflito armado (a jihad inferior ou exterior na tradição islâmica) mas também e sobretudo um conflito interior (a jihad superior) voltado para o aperfeiçoamento do ser humano de modo a torná-lo verdadeiramente homem e, portanto, cada vez mais próximo do divino. Portanto, para Heidegger, esse conflito não era outro senão o esforço do eu que o levará àquilo que ele mesmo definiu como um corpo a corpo consigo mesmo, a abandonar o ensino por vários anos, mas também, mais tarde, a produzir as suas obras maduras mais importantes: O “Nietzsche” e “Caminhos da Floresta”. Assim como Heidegger, que identificava no "Einkehr" (recolhimento) o primeiro passo no caminho do "Ruckkehr" (retorno) como o único caminho filosófico viável numa época em que a metafísica foi pervertida na sua anti-essência, o Imã Ruhollah Khomeini reconheceu como a introspecção e a auto-reflexão eram as condições essenciais para o início da luta interior e a ascensão até Deus. De acordo com o Imã, a autodisciplina, a contemplação e a auto-análise eram os pré-requisitos para cada buscador da Verdade que luta contra si mesmo na sua jornada espiritual rumo ao caminho do "despertar" (yaqzah).

25/03/2020

Daniele Perra - A Abordagem Confucionista ao COVID-19

por Daniele Perra

(2020)



Prefácio

Nestes dias de propagação global do novo coronavírus, vários analistas vêm identificando pelo menos duas estratégias distintas seguidas pelos Estados em às relações às regiões de contágio. A primeira, que remete ao chamado darwinismo social, é a linha adotada pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Brasil e, inicialmente, pela Alemanha. Ela se baseia numa espécie de “seleção natural” e supõe que a morte de milhares de pessoas é um fator de imunização potencial geral das massas. Obviamente, embora o novo coronavírus tenha mostrado uma taxa de mortalidade bastante reduzida (e isso, paradoxalmente, também é evidente no caso italiano, considerando os dados fornecidos pelo Istituto Superiore di Sanità em relação às mortes para pelo COVID-19 e àquelas por patologias anteriores mais graves), existe um teto de mortes que representa um limiar a partir do qual o colapso do Estado aparece como risco real. E esta seria a razão para a reviravolta parcial nas ações adotadas por de Donald J. Trump e Boris Johnson.

A segunda estratégia está mais ou menos ligada ao denominado despotismo asiático, nos termos sinólogo e sociólogo alemão Karl August Wittfogel. Tal estratégia estaria baseada em uma implementação variada, em diferentes graus, de um tipo de autoritarismo e na atualização da Saúde Pública como instrumento fundamental da sociedade. Essa estratégia foi adotada pela China, pela Coreia do Sul e, embora com um atraso temerário e com consideravelmente contraditório (pouco controle sobre os recursos humanos em saúde; extensão inútil da “zona vermelha” a todo o país e não apenas às zonas de foco), pela Itália.

Aqui, escrevendo na esteira do pensador argentino Norberto Ceresole, eu gostaria de propor uma abordagem diferente. Ao invés das duas categorias mencionadas acima, gostaria identificar essas diferentes estratégias para combater a emergência com base nas categorias de civilização do lucro/dinheiro e civilização da fé/espírito.

31/07/2019

Daniele Perra – Ernst Niekisch e o “Reino dos Demônios”

por Daniele Perra

(2018)



Para muitos, o nome de Ernst Niekisch não dirá nada. Não obstante, junto a Karl Otto Paetel ele é considerado o pai de uma corrente política particular, a do nacional-bolchevismo, a qual, a partir dos anos 90 do século passado, graças aos seus intérpretes pelo menos um pouco hiperbólicos como o filósofo Aleksandr Dugin e o controverso escritor Eduard Limonov, conheceu um razoável sucesso na Rússia da deplorável Era Iéltsin. A Niekisch, ademais, o pensador francês Alain de Benoist dedicou toda uma seção do seu livro “Quatro Figuras da Revolução Conservadora Alemã”.

O esquecimento a que o homem e seu pensamento foram relegados tanto em vida como post mortem possui uma razão bastante precisa. Niekisch e seu pensamento eram e são ainda perigosos. Este original pensador alemão, de fato, no curso da sua vida, conseguiu viver em primeira pessoa e se opôr vigorosamente a todas as três principais ideologias políticas do século XX: liberalismo, fascismo-nacional-socialismo e comunismo (ainda que, no último caso, a oposição surgiu de algumas divergências com o líder da República Democrática Alemã, Walter Ulbricht). E diferentemente do dissidente soviético bem mais famoso Aleksandr Solzhenitsyn (que dardejava contra a URSS e o Ocidente capitalista de sua casa norte-americana, lamentando que Hitler não tivesse matado o seu próprio povo), depois de ter passado alguns anos em um campo de prisioneiros nazista e reconhecendo o feitiço psicológico de que seu povo havia caído vítima, nunca chegou a desejar a destruição da sua pátria. 

10/03/2019

Daniele Perra - Heidegger, Guénon e o Multipolarismo

por Daniele Perra

(2018)



É importante adiantar que aplicar as categorias do pensamento heideggeriano, tal como os estudos tradicionais de René Guénon, à geopolítica, é sempre uma operação extremamente complicada, arriscada e suscetível de possíveis mal-entendidos. Todavia a descendência direta da geopolítica da geografia sagrada e do próprio conhecimento sagrado, como bem ressaltado por Claudio Mutti, teoricamente poderia tornar este procedimento bastante fluido. É ademais importante sublinhar que tanto para a geopolítica quanto para a geografia sagrada o conceito de polo preenche um papel crucial, e que para ambos o espaço é mais importante que o tempo. Partindo deste pressuposto se pode desenvolver a ideia de multipolarismo (ou policentrismo) utilizando como pontos de referência dois modelos filosóficos que, apesar de distantes, mostram relevantes pontos de convergência. 

04/11/2017

Daniele Perra - Messianismo e Imperialismo

por Daniele Perra



Contra quem combatem realmente a Rússia, o Irã, as forças lealistas e o Hezbollah na Síria? A resposta para tal questão, para respeitar o intrínseco caráter dicotômico sacro/profano da ciência geopolítica, não pode se limitar à ideia do conflito pelo controle dos recursos e dos corredores energéticos ou pela vontade norte-americana de impôr o próprio domínio sobre o Rimland eurasiático. O projeto "Grande Oriente-Médio" inaugurado no início do novo milênio pela administração Bush-Cheney, impresso na constituição do pivô geopolítico curdo como ponta-de-lança útil para a desestabilização da região, tem um precedente, substancialmente idêntico na estratégia, no Plano Oded Yinon de 1982 voltado para a realização da Grande Israel (Eretz Yisrael) nos limites esperados para o Estado hebraico pelo pai do sionismo Theodor Herzl em 1904: em outras palavras, "do rio egípcio ao grande rio, o rio Eufrates", segundo o que está escrito no livro de Gênese (15, 18-21).