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20/05/2015

Daniel James Spaulding - A Fraude Sem Fim: ISIS

por Daniel James Spaulding

Tradução por Carolina Santos



Em meio à falta de piedade da Arábia Saudita, a campanha de bombardeios contra o povo do Iêmen vem com a notícia de que uma facção de militantes aliados ao ISIS teriam estabelecido um ''beachhead''(1)  no sul da Península Arábica para seu proclamado Califado. Já os relatórios de mídia em circulação apontam que a filial local do al-Qaeda obteve vantagem na campanha de bombardeios de Riad para obter controle do território do sudoeste do Iêmen, com a ausência de oposição perceptível por parte dos sauditas a esses atos. Os sauditas não sufocaram dos grupos como al-Qaeda e ISIS qualquer prioridade em seus ataques, pelo contrário, são exclusivamente as milícias houthi que estão na vista do reino wahhabista.

Esse estado de interesses aparentemente se encaixa muito bem às facções jihadistas. Eles não têm expressado oposição visível à campanha saudita de bombardeios e homicídios em massa de civis iemenitas. Ao invés disso, o ISIS emitiu uma declaração de guerra contra os houthis, ameaçando assassinatos em massa do setor xiita do Iêmen. Os objetivos da Arábia Saudita, e seu principal financiador, os Estados Unidos, e facções jihadistas como ISIS e al-Qaeda convergem no que tange à luta e repressão dos houthis (cinicamente apresentados como proxies iranianos). Ou melhor, mais uma vez, jihadistas são deliberadamente encorajados a travar uma guerra contra os inimigos e rivais de Washington e Riad, assim como eles têm sido empregados anteriormente na Líbia e na Síria.

Apesar de toda a retórica intencionalmente assustadora, e a desinformação apregoada pelos elementos da mídia Norte Americana sobre campos secretos de treinamento do ISIS no México, existem precisamente, zero células ISIS descobertas nos EUA. Mais especificamente, células não manufaturadas e coordenadas pelos EUA. Mais especificamente, nenhuma célula não manufaturada e gerenciada pelas próprias agências de inteligência doméstica norte americanas foi encontrada. Por outro lado, o Estado Islâmico é muito ativo no ataque selvagem de estados, como aquele da Síria de Bashar Al Assad, e outros grupos, como os houthis no Iêmen, que estão no alvo de Washington e Riad. Sem mais rodeios, o Estado Islâmico e o al-Qaeda são as tropas de choque da admirável nova guerra dos Estados Unidos.

Abu Bakr al-Baghdadi, um homem de negócios

É uma comum e inteiramente cínica mimetização dentre certas facções da mídia alternativa para colocar toda a culpa em Barack Obama e nos Estados Unidos por apoiarem o jihad internacional, insinuando que ele é secretamente um simpatizante do Islã e companheiro de jornada. Do outro lado, a junta Americano-Saudita, patrocinadora das  brigadas mujahedin não é novidade alguma para a administração Obama. Isto vai até Jimmy Carter e Zbigniew Brzeszinski, que armou o mujahedin no Afeganistão anteriormente aos russos. Na verdade, toda a questão de amor sórdido remonta ainda mais cedo à polícia imperial Britânica tentando dividir e governar o Oriente Médio, como decretado por Lawrence da Arábia. Curiosamente, o governo iraniano, agora contrariado pelos Estados Unidos e Israel, foi construído por ambos países durante os anos 80. Mais recentemente, durante o governo de George W. Bush, o eixo Washington-Riyadh fundou e facilitou que militantes jihadistas no Irã e no Líbano agissem, em um esforço orquestrado para desestabilizar os países.

O objetivo específico dessa empreitada, de acordo com o jornalista investigativo Seymour Hersh, que destrinchou a história, é usar os jihadistas sunitas para minar e degradar a influência dos poderes Xiitas na região, especialmente no Irã, Síria e Hezbollah no Líbano. [1]

Assim, as posições atuais e atividades empregadas pela administração Obama para esse fim são meramente uma continuação das políticas anteriores da Era Bush. Colaborando com os sauditas para liberar jihadistas radicais sunitas na Síria, Iraque e Iêmen contra os xiitas daquelas nações é uma tentativa de destruir a percebida hegemonia do Irã no Oriente Médio.

O papel de Israel nessa empreitada criminosa, enquanto isso, não deve ser ignorado. Israel tem bombardeado repetitivamente o exército Sírio, e ao mesmo tempo, permitindo que jihadistas sírios permaneçam intocados no Golan, e até mesmo providenciando várias formas de proteção aos jiadistas sírios. Oficiais de Tel Aviv estão até bastante abertos sobre o fato de que estão muito mais confortáveis com assassinos do Estado Islâmico de outros radicais sunitas no poder ao lado do que com o Irã e os xiitas.

Entre os globalistas baseados em Washington e os wahhabistas sauditas, uma mão lava a outra. (Para que não nos atrevamos a mencionar a cobertura acima do envolvimento da Arábia Saudita com 9 / 11 ataques de terrorismo por Washington.)

Nós  nunca entenderíamos a monstruosa fraude perpetrada contra os povos do Oriente Médio, assim como simples americanos, por ingerir o veneno da mídia de massas. Quando não ruminam fofocas ridículas sobre celebridades, ou itens mais banais, a imprensa ocidental, especialmente a norte americana, é uma fonte contínua de desinformação, notícias falsas, pontos de vista dos departamentos de Estado, e em geral, estupidez que aliena.

Estão nossas crianças aprendendo?” –Pres. George W. Bush

''Nós vivemos em um mundo onde existe mais e mais informação'', observou o filósofo francês Jean Baudrillard, ''e menos e menos significância''.

A maioria da audiência dos noticiários ou consumidores de mídias sociais é saturada com todos os tipos de imagens, narrativas e factóides, mas são suprimidos de qualquer significado coerente dos itens que absorvem.

Muitos assumem, observa Baudrillard, que ''informação produz significado'', mas eles estão errados, e na realidade ''o oposto acontece''.

Ao invés de  buscar significado ou até mesmo conectar os pontos da questão Estado Islâmico, e sem saber das manipulações dialéticas da elite, o americano mediano é largado para se afundar em sua própria ignorância, cego pelos que ditam regras em seu nome.

Ele é facilmente intimidado com medo e terror dos mesmos grupos jihadistas que o governo tem patrocinado e promovido por décadas, rendendo a sua liberdade e identidade enquanto saúdam a sua própria desumanização na Admirável Nova Guerra. Assassinato, mutilação e um espetáculo caleidoscópico de mentiras: são esses os frutos da fraude que celebramos.

Nota do Autor:

[1] A Rússia  é outro alvo perpétuo da rede de jihadistas patrocinados pelos americanos e sauditas. O presidente russo, Vladimir Putin, recentemente revelou em um a entrevista que ele confrontou Bush sobre o acobertamento pela CIA de radicais no norte do Cáucaso. E em 2013,  o então líder da inteligência saudita, o  Príncipe Bandar em um encontro com Putin ofereceu  liderança em grupos de militares chechenos, os quais ele  sabia serem dirigidos pela inteligência saudita, se a Rússia concordasse em por um fim em seu apoio ao governo Assad na Síria.

Nota da Tradutora:

(1)Beachhead =  Linha temporária criada quando uma unidade militar chega em alguma praia através do mar e inicia a defesa da área enquanto outros reforços ajudam até  uma  parte suficiente da área esteja tomada.

29/04/2015

Daniel James Spaulding - Individualismo vs. Personalidade

por Daniel James Spaulding



Traduzido por Carolina Santos

Em um Ocidente que declina tão certamente como o curso do sol, opositores do embrião de Estado Global frequentemente definem a situação moderna como uma luta dialética entre o coletivismo de um lado e o individualismo de outro. Não raramente, ''coletivismo'' é usado para definir qualquer manifestação de poder do estado, seja esse fascista, comunista, liberal ou globalista tecnocrático, ainda que muitos expandiriam a classificação para incluir instituições de religiões tradicionais e até mesmo a família.

O que é menos claramente definido é o ''individualismo'', um termo escorregadio que significa muitas coisas diferentes para pessoas diferentes. O senso comum crê que ''individualismo'' é a habilidade de escolher e seguir seus próprios desejos de expressão, seja gastando o dinheiro da forma que bem entender, ou algo mais trivial, como tingir os cabelos de azul. 

Quando visto pela perspectiva de um embate dialético com o coletivismo, especialmente o estado, a noção de individualidade ganha um peso bem maior do que em suas manifestações triviais, por exemplo, o estudante universitário que faz uma tatuagem para rebelar-se contra seu pai. De certa forma, o indivíduo como tal é muitas vezes deliberadamente desvalorizado pelas forças dominantes. Não apenas através de várias formas de reducionismo econômico, mas também na ideologia dominante que enxerga a humanidade como uma coleção de unidades intercambiáveis, atomísticas, de consumo, ou nas mais sinistras formas de trans-humanismo de homens como como Ray  Kurzweil, que vê os humanos como nada além de androides biológicos, ou mesmo ''formigas''.

Muito frequentemente, os autoproclamados campeões do individualismo propõem um modelo não tão diferente de seus opositores ''coletivistas'': o indivíduo permanece uma entidade desconectada, atomística, indefinida por qualquer referência externa. Para o individualista absoluto, coisas como religião, etnia, linhagem familiar e nação são no máximo afiliações secundárias, e não componentes essenciais da identidade de cada um. A suposta alternativa ao absolutismo coletivista é uma concepção puramente dessacralizada e empobrecida do homem, uma derivação do humanismo renascentista e do Iluminismo.

Encontrando essa origem problemática, nós chegamos perto do beco-sem-saída metafísico da modernidade. Como o filósofo alemão e crítico do globalismo Rüdiger Safranski observou:

 ''... individualismo é um produto da secularização, pois pressupõe que declarações religiosas perderam sua validade no que se refere o significado e o propósito do todo. O individualismo investe significados em indivíduos, e não mais em totalidades como Deus, humanidade, nação ou estado."

O metafísico francês René Guénon, que viu no reinado de quantidade a dissolução do homem e do mundo, articulou um posicionamento semelhante. Ele identificou o individualismo como '' a negação de qualquer princípio superior'' e ''a consequente redução da civilização, em todos os seus ramos, a elementos puramente humanos.'' Em uma era de tirania mecanizada, Guénon soube que a suposta alternativa para o totalitarismo era também uma de suas fontes. O homem moderno e individualista, ''ao invés de tentar de elevar-se à verdade, pretende arrastar a verdade para o seu próprio nível .''

O individualismo, não pode ser negado, contém um reconhecimento positivo da dignidade do homem e seus dotes criativos. Ainda assim, tal ideia sistematizada e aplicada à sociedade é inteiramente inadequada e por vezes, destrutiva para a cultura e sua base sacra. Em seu trabalho ''Solidão e Sociedade'', o filósofo russo Nicolas Berdyaev apresentou algumas respostas na busca pelo equilíbrio entre individual e coletivo. Ao invés de um individualismo meramente horizontal e atomístico, ele enxergou a personalidade como a verdadeira identidade de um homem. Enquanto a individualidade denota mera quantidade, a personalidade floresce da esfera da qualidade. Assim, como Berdyaev enxergou e como a ideologia consumista comprova, '' o individualismo extremo leva à negação da personalidade.'' Personalidade, ao invés, é a unidade ''feita de corpo, mente e alma." Ela está fundada não apenas em fundamentos biológicos, naturalistas ou sociais, mas na própria natureza e origens supra-naturais do homem.

Berdyaev viu o ataque à personalidade presente igualmente tanto no individualismo quanto nas variadas formas de sistemas coletivistas, os quais ele interpretou como ''anti-personalistas''. Ele reconheceu:

''A exploração do homem pelo homem, assim como a exploração do homem pelo Estado, é uma forma de converter o homem em um objeto.''

Mas nenhum mero individualismo seria suficiente para conter a objetificação do homem; Berdyaev desconsidera o individualismo burguês como apenas outra forma de ''impersonalismo''. Por outro lado, a realização da personalidade é um empreendimento espiritual e aristocrático. "A luta para reconhecer a personalidade é heróica'', ele comenta. ''Heroísmo é, acima de tudo, um ato pessoal.'' Se a personalidade é formada de forma heróica, não há maior heroísmo que amor sacrificante - sua essência- :

"O personalismo se situa pelo amor de um indivíduo para com seus próximos, de personalidade única, da Divina humanidade..."

E, assim, personalidade nunca poderá ser equiparada com o indivíduo à deriva na sociedade, o ''free thinker'' que não faz nada além de tentar evitar o bote do coletivismo. O verdadeiro homem é vertical em sua orientação, e não busca riquezas materiais ou prestígio social, mas sim, ascender às alturas, uma liberdade genuína no reino do espírito.