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04/10/2015

Jafe Arnold e Joaquin Flores - Tragédia e Farsa: Reconsiderando a Análise Superestrutural Marxiana de Movimentos Sociais Heterodoxos (Parte I)

por Jafe Arnold e Joaquin Flores



Utopia vs. Mito, a Poesia do Passado, e a Revolução Social - Uma Introdução Geral a esta Série

Introdução

Comecemos estabelecendo que houve três ideologias sócio-políticas da modernidade - liberalismo, comunismo e fascismo; a primeira, segunda e terceira teorias políticas, respectivamente. Novos desenvolvimentos no arranjo global de forças sócio-econômicas, ideológicas e geopolíticas em anos recentes nos forçam a examinar estas com novos olhos. Por um lado, precisamos reconhecer a herança filosófica comum de todas estas três ideologias na modernidade, e assim revelar as instâncias nas quais elas conscientemente ou inconscientemente se coadunam, enquanto pelo outro lado delinear por entre seus respectivos entendimentos de seus papeis como ideologias. Em particular, o objetivo desta série é reconciliar o esquema analítico marxiano com as características estruturais e superestruturais de novos e sincréticos movimentos sócio-políticos, em sua forma puramente estética, bem como em seus aspectos ideológicos mais profundos.

O ponto de partida de nossa investigação é o reconhecimento de que vivemos em um tempo extremamente ideológico, e ainda assim parece para muitos que não vivemos. Que muitos no Ocidente creiam que vivemos em um período "pós-ideológico" é, na verdade, testamento da saturação total da ideologia liberal. Desde a vitória do Ocidente liberal sobre a União Soviética e a proclamação liberal do "fim da história" (nas palavras de F. Fukuyama), o liberalismo se tornou tão entranhado em cada faceta da vida ao ponto de ser indistinguível da própria vida quotidiana em si mesma. Enquanto tal, ela provou ser a ideologia totalitária mais eficiente até então criada pela humanidade.

Liberalismo & Marxismo

O liberalismo apela a nossos instintos individuais inatos, mas o faz de tal maneira a guerrear contra nossos instintos coletivos igualmente inatos. Ambos esses instintos inatos - o individual e o coletivo - são partes integrais da experiência humana. Uma instância destacável da crua atomização imposta pelo liberalismo pode ser vista no fato de que o sexo parece ser um foco particular da ideologia liberal contemporânea, impulsionado de forma padrão como uma questão divisiva entre grupos político-midiáticos liberal-progressistas e liberal-conservadores [1]. Formular uma crítica ampla do liberalismo como a ideologia do capitalismo significa reexaminar como compreendemos movimentos anticapitalistas radicais hoje. Isso significa, em primeiro lugar, ousar reconsiderar e distinguir a base e a superestrutura em teorias marxianas sobre movimentos sociais heterodoxos (e aparentemente não-esquerdistas). Sobre este fundamento podemos proceder com um entendimento renovado com o qual analisar e então transcender (em teoria) questões particularmente divisivas.

Estas questões divisivas, de fato, não são fundamentais per se, mas são questões superestruturais que existem principalmente no reino das armadilhas discursivas; os tipos de formas de linguagem usados que nos dirigem a associar estas com outros reinos distintos de pensamento e atividade. Estes são modos e reinos que até então foram considerados pelos marxistas como hostis aos interesses históricos e materiais de classe do proletariado; eles estão associados com políticas de reação, pré-modernidade, e/ou com forças de classe da burguesia ou da pequena-burguesia em um modo de crise. Outras questões são étnicas, de gênero e de sexo, que dividem as forças do proletariado. A ossificação de uma cultura "globalista" politicamente correta neoliberal que as cercam serve para justificar o "imperialismo dos direitos humanos": estes representam exemplos cruciais da permuta entre teorias "antiliberais" (formalmente, elas não estão abertas para debate) pelo próprio paradigma liberal da modernidade.

Os elementos utópicos no liberalismo encontraram expressão em seu ramo de "progressismo", e os marxistas, tal como os socialistas utópicos antes, encontraram um chão comum com os liberais. O ramo futurista do fascismo também apelava a esse progressismo, e republicanos radicais, anarquistas, sindicalistas, bem como republicanos vermelhos na Itália estiveram entre os fundadores dessa terceira teoria política no plano italiano. O esquema progressista, que permitiu e engendrou a fertilização cruzada entre as três teorias políticas, as situa todas elas como teorias políticas modernas. Porém, o núcleo para teorias políticas futuras existe na segunda e terceira - ambas as quais propõem a questão do que seguirá a ordem capitalista (liberal) moderna.

Assim, há um erro inerente em pensar as três ideologias da modernidade em formas estáticas; pensá-las como estruturas que se situam sozinhas. É, então, errôneo contrastá-las com ideologias "sincréticas", ou considerar a terceira teoria política como distintamente sincrética, e a primeira e segunda não. Todas as três teorias políticas da modernidade influenciaram umas as outras; cada uma foi criada a partir de ideias não apenas daqueles que as precederam, mas que concretamente emergiram do mundo material realmente existente e de tudo que foi herdado dele. Cada teoria política não emergiu sob uma forma completa, e assim, por exemplo, o liberalismo hoje tem traços tanto do comunismo (i.e., marxismo) e do fascismo. Similarmente, o marxismo nasceu não apenas do liberalismo e de sua contemplação do feudalismo e da pré-modernidade, mas estava interagindo simultaneamente com; subsumindo aqui e rejeitando ali, as ideias do liberalismo radical, do nacionalismo, do existencialismo e do anarquismo, que são, não por acidente, todos juntos também as bases do fascismo.

Uma chave dada por Marx: O XVIII de Brumário

Para muitos que compreendem a trajetória do desenvolvimento histórico através de uma lente marxiana, poucas coisas parecem mais contraditórias em relação às próprias visões de Marx do que sua "correção" de Hegel nas primeiras linhas do Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte. O ensaio em si permanece como uma das melhores descrições de Marx de sua teoria do Estado capitalista. A análise dos marxianos é intelectualmente honesta quando ela opera com uma compreensão das condições objetivas e subjetivas nas quais a transformação histórica se dá, segundo o esquema analístico do materialismo histórico ou dialético. Ademais, ela exibe uma distinta fidelidade à ciência proposta quando olha objetivamente e sem viés emotivo para as formas superestruturais que tais transformações históricas assumem.

O problema identificável, então, ao se aplicar a mesma análise marxiana ao presente, isto é, quando ela se apoia nas dicas superestruturais à disposição e cede à pressão da cultura de ativismo, ela pode falhar particularmente quando observa movimentos sociais contemporâneos, isto é, do início do século XXI na era pós-moderna. Uma chave para compreender este problema, como uma introdução adequada a nossa investigação, pode estar em uma leitura revisada do primeiro capítulo do XVIII de Brumário.

Assim, será importante para nós examinar não apenas como esta correção é interpretada equivocadamente pelos marxistas, mas também talvez onde o próprio Marx poderia ser corrigido - ou talvez melhor, alinhado com sua própria ciência proposta. Isto levantará a questão do que isso significa no contexto do reino superestrutural da estética, cultura, palavras (ou armadilhas discursivas), ideais e símbolos. Se Marx parece se contradizer, pode ser importante virá-lo de cabeça para cima.

A confusão entre forma e substância não é apenas um problema teórico, mas um que possui impacto extraordinário sobre o presente: se socialistas radicais, anarquistas e comunistas estão hoje confiando em pistas superestruturais para determinar a identidade de seus "inimigos de classe", isto pode ser um equívoco trágico, e em retrospecto, uma farsa. Conforme começamos a sofrer com a "overdose de informação" da era da internet, e onde déficits de atenção batem record, na verdade é difícil não ser econômico quando se procura por certas pistas: comunistas hasteiam bandeiras vermelhas, anarquistas bandeiras negras, enquanto socialistas mimetizam liberais se privando de simbolismos abertos. Ao contrário, os socialistas usam linguagem e sintaxe "liberal" e "progressista" para atingir qualquer um à esquerda do centro. Todos os três, porém, na melhor das hipóteses ignoram, e na pior das hipóteses vilificam aqueles na centro-direita e mais além.

Marx vs. os marxistas: Subsunção total de todas as classes em um proletariado

O problema com a marginalização ou vilificação de pessoas na "centro-direita e mais além" é, obviamente, que em termos de processos eleitorais é efetivamente impossível ter sucesso neste terreno sem ideias "de centro-direita e mais além" apelando a membros do proletariado. É simplório demais varrer estas sob o tapete da "falsa consciência" sem colocar seriamente em questão o potencial para (e a realidade da) agência de classe em geral. Em conexão com isto está um problema na maneira pela qual grupos comunistas contemporâneos tem ignorado a teoria marxista real e simplificado sua definição de "proletário".

Ao contrário, não apenas ao olhar para a sociedade civil, mas também na teoria marxista, nós devemos compreender que sob condições do capitalismo tardio, i.e., modernidade tardia, que o desenvolvimento capitalista proletarizou todas as outras classes (pequeno-burguesa, etc.) através de várias maneiras. Todas as classes prévias, que existem hoje sob forma proletária, foram subsumidas pelo capital e proletarizadas; todas estão envolvidas no processo crítico de valorização. Por definição, portanto, todas estão envolvidas na produção de mais-valia. Todos os labores estão em análise final orientados para o acúmulo de capital; e todos estão em análise final alienados do trabalhador e acumulados pelo capitalista, através do ciclo de produção, dos produtos de dito labor.

Os mecanismos da acumulação de capital, no contexto do capitalismo tardio, não são apenas a apropriação de mais-valia sob a forma de salários na típica relação empregador-empregado; mas, ao invés, todas as relações de produção ou relações sociais estão engendradas para a acumulação de capital pelos capitalistas financeiros. Modos pré-capitalistas (aluguéis, taxas), capitalistas (salários), e capitalistas tardios (empréstimo/especulação/finanças) de apropriação de capital, são todos utilizados no capitalismo tardio como métodos de acumulação de capital.

Assim, classes que aparecem como gerenciais, pequeno-burguesas, lumpen, administrativas, etc. foram proletarizadas. Dessa forma suas lutas, quando dirigidas à ordem estabelecida, independentemente da poesia, (slogans, simbolismo, gritos de guerra, imagética e estandartes), são geralmente proletárias em substância ainda que não de forma aparente.

Assim no que concerne atalhos interpretativos, úteis que seja, eles possuem duras limitações por se referirem a interpretações majoritariamente desatualizadas de pistas estéticas e superestruturais em geral. Este é especialmente o caso conforme vários movimentos sociais emergindo em oposição ao capitalismo derivam de uma mistura aparentemente caótica ou dissonante de vários radicalismos. Estes até mesmo incluem aqueles que parecem e sentem como se originando da extrema-direita fascista, e podem de fato originar daí. Como exploraremos nesta série, estes são muitas vezes movimentos objetivamente proletários e anticapitalistas que estão envolvidos na estética e referências históricas do fascismo e de vários neofascismos na Europa, e nos EUA geralmente assumem a forma do constitucionalismo e do libertarianismo também.

Se, de fato, estes grupos radicalizados de "extrema-direita" estivessem de fato fazendo o trabalho da classe governante, mobilizando para esmagar iniciativas de poder operário em nome do Estado, da Igreja, e dos interesses de classe da pequena-burguesia (e das forças tradicionais da reação em geral), então a classificação marxista novecentista destes grupos como "fascistas" poderia ser de fato apta: nossos "atalhos" teriam servido.

De fato e similarmente também seria uma tragédia de grupos de combate "de esquerda" tais como os Antifa estivessem em verdade atacando outros movimentos proletários opostos ao capitalismo, que só calham de parecer permutações pequeno-burguesas reacionárias de poder classista.

Ao mesmo tempo não podemos definir diretamente a contra-mobilização contra grupos comunistas por grupos "de extrema-direita" como contra-mobilizações contra o proletariado enquanto classe. Objetivamente, estas são lutas relativamente pequenas entre grupos ideológicos distintos pertencentes ao proletariado (i.e., esquerda vs. direita), e mimetizam as lutas entre seitas religiosas, e não representam os interesses de uma classe contra outra classe. Auto-referências e simbolismo "comunista" vs. "fascista" são abstrações nocionais e de modo geral não se ligam materialmente a forças de classe proletária vs. pequeno-burguesa, respetivamente, ainda que remetam a elas abstratamente, i.e., no mundo das ideias.

Certamente, "dividir para conquistar" tem sido uma tática eficaz para a classe governante manter seu mando classista. Isso pode se estender muito além do que era previamente compreendido. E coloca em cheque o modo pelo qual compreendemos e interpretamos a suposta prole de vários movimentos sociais do século XX.

O Estado capitalista e seu aparato super-armado de poder estatal, sua burocracia complexa e grandes recursos, se apresenta como uma monstruosidade aparentemente inconquistável. Grupos marxistas revolucionários aparentemente empalidecem em comparação em termos de sua capacidade de projetar poder. Significativamente menos poderosos são os supramencionados movimentos  e grupos anticapitalistas não-marxistas, muitos nem mesmo se identificando com a esquerda, e em sua maioria assumindo uma perspectiva decididamente anticomunista em termos de ideologia nominal. Estes grupos fazem excelentes alvos substitutos para grupos revolucionários marxistas e anarquistas; é possível atacá-los nas ruas e espaços virtuais. Vitórias aqui servem para satisfazer a necessidade de ter vitórias, mas podem na verdade trabalhar contra os objetivos verdadeiros da luta contra o capitalismo.

Movimentos sociais sincréticos na Eurásia já estão superando o problema para o qual estamos olhando, e portanto alguns desses exemplos serão discutidos nesta série. Outros exemplos incluem o socialismo pan-árabe e pan-sírio (tal como o Ba-athismo ou o PSNS), bem como nacionalismos revolucionários na América Latina, a Teologia da Libertação, grupos revolucionários na área novorrussa da ex-Ucrânia, e outros. Eles tem influenciado nossas opiniões também, mas mais concretamente demonstram que soluções podem ser deduzidas e principalmente são mais do que "prova conceitual" de que tais empreendimentos podem ser realizados com grau elevado de eficácia.



Retornando a Marx em O Dezoito de Brumário

Marx escreve:

"Hegel comenta em algum lugar que todos os grandes fatos e personagens histórico-mundiais aparecem, por assim dizer, duas vezes. Ele se esquece de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda vez como farsa [...] E exatamente enquanto eles parecem estar ocupados com revolucionar a si próprios e as coisas, criando algo que não existia antes, precisamente em tais épocas de crise revolucionária eles conjuram ansiosamente os espíritos do passado para seu serviço, pegando emprestados deles nomes, slogans de batalha e roupas de modo a apresentar esta nova cena na história mundial em um disfarce honrado pelo tempo e com linguagem emprestada. Assim Lutero trajou a máscara do Apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente com o disfarce da República Romana e do Império Romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer melhor do que parodiar, primeiro 1789, então a tradição revolucionária de 1793-95. De maneira similar, o iniciante que aprendem um novo idioma sempre o traduz de volta para sua língua materna, mas ele assimila o espírito do novo idioma e se expressa livremente nele apenas quando ele transita nele sem rememorar o antigo e quando ele esquece a língua nativa".

"Quando pensamos sobre esta conjuração dos mortos da história mundial, uma diferença saliente se revela. Camille Desmoulins, Danton, Robespierre, Saint Just, Napoleão, os heróis bem como os partidos e as massas da velha Revolução Francesa, realizaram a tarefa de seu tempo - aquela de desagrilhoar e estabelecer a sociedade burguesa moderna - em trajes romanos e frases romanas. A primeira destruiu a fundação feudal e cortou as cabeças feudais que haviam crescido nela. A outra criou dentro da França as únicas condições sob as quais a livre competição poderia se desenvolver, alocaram terra adequadamente utilizada, e a poder produtivo desimpedido da nação empregado; e para além das fronteiras francesas varreu instituições feudais por todo lado, para fornecer, na medida do necessário, à sociedade burguesa na França um ambiente atualizado e adequado no continente europeu. Uma vez que a nova formação social foi estabelecida, os colossos antediluvianos desapareceram e com eles o romanismo ressuscitado - os Brutus, os Gracos, os publícolas, os tribunos, os senadores, e o próprio César. A sociedade burguesa em sua realidade sóbria engendrou seus próprios intérpretes e porta-vozes autênticos nos Says, Cousins, Royer-Collards, Benjamin Constants e Guizots; seus verdadeiros líderes militares se sentavam por trás de mesas de escritório e o cabeça-de-porco Luís XVIII era seu chefe político. Inteiramente absorvida na produção de riqueza e na competição pacífica, ela não mais se lembrava dos fantasmas do período romano que haviam velado em seu berço".

"Mas ainda sendo a sociedade burguesa tão anti-heroica, ela não obstante necessitava de heroísmo, sacrifício, terror, guerra civil, e guerras nacionais para gerar a si mesma. E nas austeras tradições clássicas da República Romana os gladiadores burgueses encontraram os ideais e as formas de arte, as auto-enganações, de que precisavam para ocultar de si mesmos o conteúdo burguesamente limitado de suas lutas e para manter sua paixão no plano superior da grande tragédia histórica" [2].

Por outro lado, esta passagem crucial é um dos trabalhos influentes de Marx na análise da experiência revolucionária e na dedução de conclusões teóricas; Marx afirma que "os homens fazem sua própria história, mas eles não a fazem como lhes apraz; eles não a fazem sob circunstâncias selecionadas por si mesmos, mas sob circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas desde o passado" [3].

Como exemplos, nós vemos que Marx reconta o retorno da Reforma Luterana ao Apóstolo Paulo, o apelo de Cromwell e dos ingleses ao Velho Testamento, e a estética romana da Revolução Francesa como casos nos quais transformações revolucionárias buscaram sua estética e apresentação no passado de modo a apresentar um tipo de legitimidade histórica e um senso de luta historicamente redimida contra a ordem contemporânea.

Hipótese vs. Experiência: A Teoria deve refletir a realidade

Ainda assim, em flagrante contradição a este reconhecimento presente de tão inegável realidade, Marx prossegue sugerindo que a futura revolução social "não pode tomar sua poesia do passado, mas apenas do futuro. Ela não pode começar consigo mesma antes que tenha se livrado de toda superstição do passado. As antigas revoluções demandaram rememorações da história mundial passada para suavizar seu próprio conteúdo" [4].

Por que Marx olha para um uso eficaz e provado da poesia do passado apenas para defender que a futura revolução social só pode tomar sua poesia do futuro? Marx propõe: "A revolução do século XIX deve permitir que os mortos enterrem seus mortos para chegar a seu próprio conteúdo" [5].

Daí o significado da fórmula "primeiro como tragédia, então como farsa": a apropriação do passado e de formas existentes é uma necessidade circunstancial tragicamente imposta, e uma repetição subsequente dela representa pouco mais que uma paródia falida, castrada, reacionária. Marx, apesar de reconhecer a importância do disfarce apostólico da Reforma ou das pretensões romanas da Revolução Francesa, chega ao ponto de denunciar a influência da "tradição de gerações mortas", como um "pesadelo no cérebro dos vivos" [6].

Ainda que tal avaliação feita por Marx possa estar de fato restrita a uma precognição relevante em referência ao golpe francês de 1851, a conclusão de que os "nomes, slogans de batalha, e trajes" tirados do passado em meio a luta revolucionária constituem inerentemente uma farsa reacionária e auto-abortiva é de importância séria e de grandes consequências. Nós propomos que ela é um equívoco.

E este é um equívoco, de fato uma contradição confusa na discussão de Marx sobre a relação entre a superestrutura (a "poesia") e a base (classe objetiva e forças econômicas), que ou levou a repercussões profundamente negativas nas análises produzidas por marxistas, ou foi efetivamente refutada por experiências revolucionárias passadas e contemporâneas.

Não apenas foi a "poesia do passado" eficaz em seu tempo, nós não podemos, em última análise, conceber uma maneira pela qual ela seja evitável. Ela foi realmente necessária. A revolução de 1917 não remetia apenas a sua própria promessa e futuro utópicos. Ela teve que se fortificar na mitologia de 1871, 1848 e 1792-94. E não só isso, mas também toda a "história todas as sociedades existentes até então é a história da luta de classes" (Manifesto Comunista, 1848). Não se pode julgar estas positivamente sem valorizá-las, e não se pode depositar valor na história sem a mitificar.

De fato, tornou-se excessivamente comum para marxistas resumir a presença de imagética, simpatias ou tonalidades antigas, medievais, pré-modernas ou mesmo burguesas primitivas como indicativas de uma natureza pró-capitalista, reacionária e contrarrevolucionária. Em realidade, eles estão equivocadamente denunciando movimentos que possuem o potencial para produzir mudanças sociais genuínas e ser uma parte importante da transformação revolucionária.

Nossa Proposta

Nós propomos compreender tais movimentos no sentido marxiano, ao contrário, como muitas vezes "revolucionários" mesmo quando trajando as roupagens do mito, mesmo quando portando a máscara da reação.

Mas perguntamos isto: por que deve ser o caso de que a revolução deve "deixar os mortos enterrar seus mortos"? Este foi de fato o caso, e é provável que seja o caso? A isto, nossa resposta é "Não".

Seriam os movimentos comunistas, anarquistas e socialistas hoje aproximadamente os mesmos de 150 anos atrás? Seriam os movimentos fascistas e de "ultra-direita" hoje aproximadamente os mesmos de 70 ou 100 anos atrás? Para ambas, nossa resposta é novamente "Não".

Estes grupos e movimentos passaram por tremendas mudanças, um século se passou com a estrutura agindo sobre a superestrutura e a superestrutura agindo sobre a estrutura, produzindo uma cadeia irreversível de fenômenos atrás de si. As perspectivas de Marx como expressas no Dezoito de Brumário já foram contraditas na prática. Porém, ao mesmo tempo, há elementos de verdade também: há diferentes perspectivas do passado, mas as pessoas podem ser unificadas por uma ideia comum sobre que tipo de futuro funcionaria. Ainda assim, nós vemos isso não como uma razão para condenar aqueles que usam o poder do mito em sua agitação e identidade, mas sim como razão para que aqueles que o compreendem não confundir sua poesia subjetiva com sua função objetiva.

Tal como o uso subjetivo do simbolismo e da linguagem de um partido ostensivamente comunista não o torna objetivamente comunista no sentido revolucionário e proletário do termo (podemos olhar para qualquer número de partidos eurocomunistas, por exemplo), a poesia e mito do fascismo não torna os grupos e movimentos que as usam objetivamente fascistas no sentido burguês reacionário do termo.

Também é importante relembrar: o movimento comunista não apenas no século XX, mas mesmo na época de Marx, também escreveu seus versos sobre o passado, sua própria poesia sobre a Revolução Francesa, Grachus Babeuf, August Blanqui, a Liga do Justo, a Conspiração dos Iguais, as Comunas, e daí em diante. Conforme eventos avançaram no tempo, este versos se tornaram cada vez mais distantes de nós. Os comunistas agora se referem ao passado e traçam sua origem "moderna" a uma época quase dois séculos atrás. Pode um movimento comunista não ter uma história? É possível que ele não lembre e mitifique a si próprio? Seriam as bandeiras vermelhas e negras hoje alusões ao grande ano de 1917 similares à conjuração dos "espíritos do passado a seu serviço, tomando emprestados nomes, slogans de batalha, e trajes de modo a apresentar esta nova cena na história mundial em um disfarce honrado pelo tempo e com linguagem emprestada?" Nós acreditamos que sim.

Olhar abertamente para estas questões estará entre as tarefas desta série. Nós convidamos nossos leitores a se unirem a nós conforme exploramos estas questões relevantes. Isso envolverá uma dissecação da complexa relação entre estrutura e superestrutura, que é uma que foi também abordada por modernistas de meados do século (os chamados pós-modernistas) e muito mais.

Isso demandará um olhar para a cultura, a evolução da cultura e subcultura jovem, e para movimentos sócio-políticos sincréticos e antiliberais de hoje. Estes traçam suas origens primariamente à segunda metade do século XX.

Algumas dessas coisas demandarão que olhemos para as concepções superestruturais de poesia; a poesia do passado vs. a poesia do futuro. É claro, poesia sobre o passado não é do passado, mas do presente - ela só é sobre o passado. Similarmente, a poesia do futuro não é do futuro, mas do presente. E, em ambos os casos, elas remetem ao presente - está para nós no presente, e no presente tudo pode ser feito. Neste sentido, estas - a poesia do passado e a do futuro - são ambas narrativas contemporâneas.

Se cumprimos nossa missão, levantaremos mais perguntas do que seremos capazes de responder, e esperançosamente provocaremos uma razão ainda melhor para desenvolver esta série ainda mais. Este é um tema vasto demais para qualquer quadro singular, e um que só podemos esperar rascunhar com alguns detalhes para o leitor.

**********

[1] Sexo e sexualidade, que de início nos parecem algo tão pessoal, são como linguagens na medida em que formam o tecido conectivo entre o indivíduo e o coletivo. Não nos deve surpreender, então, que o liberalismo foque hoje tanto de seu trabalho ideológico e intelectual na área de sexualidade e gênero. O liberalismo é atomizador, e induz um tipo de esquizofrenia social ao promover uma ideia social pudica de que nós somos todos consumidores privados e individuais. Ele é até mesmo pudico em sua comercialização exagerada da sexualidade. Ele produz um indivíduo "padrão", subsexualizado através da supersexualização, solitário em um mar de "pessoas demais"; desvalorizado e apto para consumo e produção dentro do ciclo capitalista; cercado por abundância e ao mesmo tempo alienado do produto de seu trabalho. O liberalismo é a ideologia do capitalismo na medida em que promove tudo isso.

[2] https://www.marxists.org/archive/marx/works/1852/18th-brumaire/ch01.htm#2

[3] ibid

[4] ibid

[5] ibid

[6] ibid


25/02/2015

Joaquin Flores - A Desintegração dos Estados Unidos e a Quarta Teoria Política: Um Breve Panorama

por Joaquin Flores



O debate emergente sobre o potencial e aplicação para uma Quarta Teoria Política nos EUA é um de preocupação e importância crescentes na crise global atual. Para que seu potencial e aplicação sejam compreendidos, deve-se começar abordando as seguintes áreas que contém questões na forma de problemas e possibilidades.

Nesse escrito exploraremos os seguintes cinco elementos. Primeiro, uma introdução a um modo de analisar problemas e possibilidades. Segundo, olharemos para alguns dos fatores materiais que indicam uma crise de legitimidade no regime estadunidense atual. Terceiro, passaremos a uma descrição dos elementos de um processo orgânico de desenvolver um movimento intelectual da Quarta Teoria Política que venha de dentro dos EUA. Quarto, olharemos para alguns dos elementos básicos que enquadram o discurso atual nos EUA. Finalmente, forneceremos um entendimento das opiniões políticas populares nos EUA como sendo primariamente socialistas e libertárias

Um Enigma Interessante

De imediato encontramos o que parece ser um enigma bastante interessante. Por um lado, os EUA são o núcleo do Império Atlantista, e enquanto tal desfruta de um rígido controle da mídia, da academia e - por meio de seus mecanismos coercitivos - da vida política da entidade como um todo. Por outro lado, um forte componente da mentalidade "americana" é uma rejeição da rigidez e de conceitos congelados, uma flexibilidade e uma disponibilidade para experimentar com coisas novas, e mesmo de assumir novas identidades. Esse tipo de flexibilidade e rejeição de conceitos congelados cria um extraordinário campo de jogos, e vão figurar tanto em promessas como dilemas que confrontarão a desconstrução do Império norte-americano. Compreender isso então é abordar questões relativas ao escopo de tais possibilidades.

Uma maneira de abordar essas questões é fazer várias distinções. A primeira é que os EUA já tem suas próprias tradições políticas que em nenhum momento aceitaram formalmente qualquer coisa posterior ao liberalismo. Dentro desse liberalismo, porém, após um exame mais minucioso, se revelam fortes influências tanto da Segunda Teoria Política como da Terceira Teoria Política, com uma tendência mais próxima ao modelo corporatista da terceira. No final do século XIX, houve algo como uma combinação das duas encontrada nas idéias de Edward Bellamy, os Cavaleiros Americanos do Trabalho, os Fabianos, e o movimento Socialista Corporativo. Muitos destes eram metabolizados e combinados com o corporativismo primitivo pensado na aurora da Terceira Teoria Política, e nos EUA eram pintados com a bandeira estrelada e chamados de "progressivismo". Não obstante, estes não são justificados tipicamente no esquema, formalmente, daqueles outros modelos e teorias. O sistema estadunidense tem sido apresentado plenamente dentro da linguagem do liberalismo, mesmo onde ele possa ter sintetizado e fundido elementos do socialismo e do fascismo.

Breve Explicação da Teoria Eurasiana em 4 Mapas

O Mundo Unipolar Americanocêntrico ao Mundo Multipolar (Tetrapolar)



O Modelo de Mundo Unipolar. O Núcleo e Camadas (2-3). Rússia-Eurásia Concebida como "Buraco Negro"



A Contra-Estratégia. A Atividade Geopolítica Eurasiana de Construção do Mundo Multipolar



A Estrutura do Mundo Multipolar. A Visão Eurasiana do Futuro



Assim, já está visível para nós que há pelo menos dois possíveis métodos de aplicação de uma Quarta Teoria Política para os EUA. O primeiro envolveria um processo um tanto quanto inorgânico de situar a experiência européia e eurasiana no molde dos EUA. O segundo, porém, envolveria tomar o esquema metodológico central de uma Quarta Teoria Política, mas criando-a organicamente de dentro da própria cultura política e histórica político-filosófica dos EUA. Primeiro, isso teria que ocorrer a nível acadêmico, onde essas idéias ganhariam tração, e se tornaram o esquema através do qual especialistas de mídia e ativistas tomariam inspiração. Os EUA precisam de suas próprias figuras para comunicar idéias sobre sua própria transformação radical.

Essa segunda proposta parece a mais prudente, porque isso não está baseado apenas em uma abordagem mais popular frente a cultura política estadunidense, mas também uma que promove o "isolacionismo" e o "não-intervencionismo". Esse não-intervencionismo não só é característico do sentimento popular essencial estadunidense, e mais próximo a suas próprias origens filosóficas formalmente descritas, mas também estabelece o esquema adequado para desconstruir o Império Atlantista em termos práticos também. Simultaneamente, ele significaria um EUA menor com fronteiras diferentes.

Fora dessas duas propostas ou métodos possíveis de aplicação de uma Quarta Teoria Política para os EUA, o que será explorado depois nesse artigo, está o problema presente e existencial dos EUA como entidade viável. A necessidade nos EUA para uma nova teoria política e uma nova concepção de si mesmo será impulsionada não em abstrato, mas por questões bastante reais, muito tangíveis que confrontam o projeto estadunidense.

Resumindo então, há possibilidades a nível teórico para o desenvolvimento de uma Quarta Teoria Política nos EUA, e há uma demanda econômica e etnodemográfica para isso também. Mesmo nos confinando aos problemas econômicos e etnodemográficos nos EUA, podemos ver que os EUA sofrem de uma crise de legitimidade. Compreender isso, e o potencial para maiores investigações nessa área, nos permitirá entender melhor como o Império Estadunidense pode ser desconstruído e com que base uma Quarta Teoria Política pode ser introduzida.

Uma Crise de Legitimidade

Em termos práticos, os EUA sofrem com uma crise interna de legitimidade, e são incapazes de criar uma política econômica coerente ou sustentável. Em nosso trabalho anterior sobre esse tema (citado como "[2]" abaixo), nós demos estatísticas sobre o crescente custo dos alimentos e de habitação, o que são indicadores analíticos objetivos críticos do potencial para insurreição e perturbações políticas e sociais maiores.

Desde aquela época, a Reuters conduziu uma pesquisa científica que descobriu que por volta de 25% ou um em quatro americanos querem que seu estado deixe os EUA. Esse número é ampliado por um número de fatos que pelas projeções só devem piorar nas próximas décadas. Em um certo ponto, especialmente se essa idéia for vigorosamente promovida, é possível ultrapassar os 50%. Seguindo um esquema legal similar que serviu para justificar a secessão do Kosovo e da Criméia, (ainda que o primeiro seja bastante questionável), nós podemos proceder a invocar o mesmo precedente nos EUA. Ademais, contido dentro dos documentos fundamentais dos EUA, incluindo a Constituição Americana e os Papéis Federalistas (bem como os Anti-Federalistas), um esquema legal internamente coerente também pode ser derivado.

A pesquisa científica conduzida em setembro desse ano (2014) utilizou um espaço amostral de mais de 9000, o que é 900% do espaço amostral necessário para uma pesquisa desse tipo, resultando em uma margem de erro de apenas +/- 1.2%, e perguntou o seguinte: [1]

"Você apoia ou se opõe à idéia de seu estado pacificamente se retirar dos Estados Unidos da América e seu governo federal?"

Os resultados foram, para analistas e legisladores americanos, assombrosos. Abaixo estão eles.



Há razões que podem ajudar a explicar esse tipo de resultado, que exploraremos em breve. De modo geral, elas se relacionam à natureza do "povo americano". Oswald Spengler adequadamente descreveu um traço crítico da economia política anglo-saxã, sendo que a Grã-Bretanha é primariamente uma sociedade multi-étnica (anglos, normandos, saxões, pictos, galeses, escotos, jutos, etc.) internamente organizada e auto-definida por classe socioeconômica. Essa observação foi feita em relação a sua crítica da análise marxiana de classe, que ele viu como sendo excessivamente baseada em suas observações da sociedade na Grã-Bretanha e nas ilhas britânicas. Não obstante, na medida em que isso fosse supostamente verdadeiro para a Grã-Bretanha e as ilhas britânicas, é indubitavelmente assim no caso dos EUA que é composto de pessoas extraordinariamente menos relacionadas e menos conectadas por geografia e tempo; tais como latinos, afro-americanos, árabes, anglo-saxões, europeus ocidentais, eslavos, nativo-americanos, leste-asiáticos, e sudeste-asiáticos. Ademais, dentro desses grupos maiores estão contidos grupos nacionais que efetivamente possuem maior animosidade uns em relação aos outros do que em relação aos que estão fora desses grupos mais amplos; por exemplo, salvadorenhos e mexicanos, ou chineses e japoneses.

Os Estados Unidos não possuem, portanto, um "povo" (ethnos ou "narod"), não são uma "nação" ligada por longos e firmes laços históricos, linguísticos, culturais, familiares ou experienciais. Pode estar em um processo de etnogênese, mas o sucesso desse projeto dependerá de fenômenos que ocorrerão ao longo de um período de tempo mais longo do que as estruturas políticas de curto prazo atuais podem acomodar. Essa última questão é uma que deve ser considerada ao se explorar a primeira. A natureza frágil do "Estado" estadunidense, e sua hegemonia dentro de sua esfera continental estão predicadas em um número de aparatos tecnológicos, que promovem um tipo de conformidade cultural ou sociológica, cuja vida se aproxima do fim. Especificamente, a eventual obsolescência da "velha mídia" e sua substituição contínua pela "nova mídia" é uma das forças de impulsão de mudanças, que vê um fim ao sucesso do mito hegemônico de uma monocultura, dentro das fronteiras atuais dos EUA.

Assim, ao olharmos para a etnia e para a natureza de "não-povo" da população estadunidense (ela é uma população, só não é um povo), também devemos olhar para a classe. Os EUA não são uma sociedade "nacional", mas uma sociedade "de classes" que usa quantidades extraordinárias de jingoísmo para se mascarar como uma sociedade "nacional". O tipo de luta travada contra a oligarquia nos EUA tem sido primariamente bem sucedida (em um sentido limitado) quando tem sido uma luta de classes. Isso ocorreu quando proletários, camponeses, pequenos proprietários de terras, e pequenos empresários, encontraram causa comum em uma luta de classes popular - através de linhas "étnicas e nacionais", contra a oligarquia. Assim, o racismo tem sido historicamente utilizado pela oligarquia estadunidense como um meio de frustrar um tipo de luta de classes contra ela.

Para ajudar a ver que a antipatia pelos EUA e pelo governo federal está ligada a uma potencial luta de classes, podemos olhar para o segundo gráfico do estudo da Reuters. Nele vemos uma correlação direta entre classe e apoio pela desintegração dos EUA e oposição ao governo federal.



Também é indiscutível que as tendências econômicas nos EUA estão apontando para uma redistribuição concentradora das riquezas, para longe da classe-média cada vez menor, levando a maiores polarização e instabilidade. Isso é bastante perigoso quando combinado com outros fatores, tais como alta dos preços de alimentos e legitimidade política decrescente. Isso deve ser compreendido em relação a modelos comprovados de avaliação bem sucedida de instabilidade, usando os mesmos métodos de análises que os EUA utilizaram, mais ou menos com sucesso, para desestabilizar países do norte da África e do Oriente Médio durante a tal Primavera Árabe.

Em nosso trabalho chamado "Rumo a uma Nova Revolução Americana", nós explicamos: "Mas a história prova que há um limite para o que as pessoas podem suportar, antes deles se revoltarem. Em termos objetivos, um padrão observado indica que levantes são praticamente inevitáveis quando os preços dos alimentos excedem o index nominal FAO-UN de 210 quando combinado com um governo de legitimidade reduzida aos olhos públicos [2]. Esse número limítrofe foi atravessado pela primeira vez em fevereiro de 2008, o que levou diretamente às "revoltas" da Primavera Árabe em 2010. Esse número elevado foi construído: após o colapso da bolha imobiliária em 2007, os massivos e intermináveis resgates financeiros começando pelo QE-1 foram usados para gerar uma bolha no mercado de ações". [2]

"Além de criar uma importante ficção ideológica de um 'mercado de ações em recuperação', os mercados futuros de commodities perecíveis foram especificamente marcadas para açambarcamento. Isso resultou em um aumento planejado nos preços dos grãos. Governos foram forçados a reequilibrar suas economias internas para subsidiar e corrigir essa mudança súbita. Essa também é uma parte da crise das 'dívidas soberanas' nos países periféricos da União Européia, as nações PIIGS - Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Espanha - que continuam a experimentar uma condição sustentada de insurreição social que tem sido rotulada de diferentes maneiras por vários participantes e analistas (Indignados, Occupy, etc.) [3]"

De fato, face a um crescente index FAO (index do preço de alimentos), e uma redistribuição oligárquica de riquezas, temos visto um aumento considerável no número daqueles na população estadunidense que recebem assistência governamental direta para comprar alimentos básicos. Podemos ver que esse número está em 50 milhões de pessoas. Isso apesar de várias décadas de legislação de austeridade que torna mais difícil se qualificar para esse tipo de assistência.



O gráfico seguinte mostrará que após o resgate QE1 de 2008, o PIB cresceu, ainda assim a renda familiar desabou significativamente, demonstrando uma redistribuição oligárquica. Não apenas há uma transição radical, como ela é rápida. O número de famílias sem casa e desempregadas nos EUA está no seu ápice, não apenas em números, mas per capita também.



Para melhor ilustrar esse ponto, devemos olhar para um mapa demográfico étnico/racial dos EUA. Enquanto as três ou quatro maiores cidades dos EUA são relativamente "bastiões integrados de multiculturalismo", os números demográficos reais por estados de residência são claramente visíveis através de linhas étnicas e/ou raciais. Tomado em contexto com a pesquisa sobre secessão, podemos começar a ver o esquema de uma representação mais frouxa das várias regiões que abrigam os estados dos atuais EUA. Esse mama mostra onde a maioria dos afro-americanos estão concentrados. A secessão aqui resultaria em uma confederação com uma essência cultural distintamente "afro-americana".

A onda recente de assassinatos policiais aparentemente racialmente motivados de suspeitos afro-americanos, ressaltou ainda mais os antagonismos raciais de longa data nos EUA. O governo federal em Washington continua a impor seu governo extremamente centralizado sob o espetáculo de uma república federal, e uma nova geração de jovens negros está se tornando politizada e tornada mais militante sob essas normas. Em um cenário secessionista, a área mostrada no mapa abaixo estaria em posição de "resetar" as relações raciais, e resolver um grande número de problemas relacionados. Ademais, uma concepção de um "Novo Sul" pode ser criada, uma que também leve em consideração algumas das idéias "confederadas" de uma nova geração de brancos sulistas que não são eles próprios racistas, i.e., se opõem ao supremacismo, mas que também veem simpaticamente a Confederação de Estados Americanos de 1860 antes e durante a Guerra Civil Americana. Economicamente, seria mais viável se ela fosse capaz de se integrar mais de perto com outros atores nacionais do Caribe que também são majoritariamente africanos, e com os quais as elites intelectuais e acadêmicas afro-americanas já fizeram conexões políticas significativas, datando pelo menos de meados do século passado. Como um Estado pós-estadunidense e anti-imperialista, ele também seria capaz de se integrar com Cuba, e formar elos com os afro-brasileiros.



Uma nota deve ser acrescentada aqui, porque no estado da Flórida esperaríamos encontrar um elevado número de pessoas se identificando tanto como negras como hispânicas (de origem caribenha), e portanto não estão incluídas nesse mapa demográfico.

O próximo mapa mostra o mesmo, com as mesmas consequências, para os ditos "hispânicos não-brancos" e "latinos". No discurso político mais recente, essa região é referida como "Aztlan".

Com a exceção de Idaho, Wyoming, Nebraska e Washington, os estados abaixo correspondem aos territórios do México antes da Guerra Mexicano-Americana de 1846. Alguma base legal para uma secessão desse território "Aztlan" pode ser tirada pela maneira pela qual o tratado que formalizou o processo de paz após a guerra - o Tratado de Guadalupe Hidalgo - foi abrogado. Essas tendências demográficas vão continuar. No futuro próximo, o sudoeste será majoritariamente latino/hispânico. Ainda que isso não esteja na agenda, mesmo um fechamento total da fronteira não pode mudar isso eventualmente por causa das taxas de natalidade.



Quando olhamos para esses dois mapas juntos, várias conclusões vem instantaneamente à mente. Se torna claro que o que sobrará dos "EUA" pode estar na área remanescente. O que não foi discutido é a questão da soberania nativo-americana. Reivindicações nativo-americanas em uma base legal provavelmente serão maiores do que a área indicada na Figura 7 abaixo. Porém, é importante compreender que essas reservas já existem como nações soberanas, que possuem acordos com o governo federal americano. As tribos que vivem nessas reservas são entidades políticas soberanas, com sua própria força policial e instituições para gerenciar recursos naturais e outras necessidades sociais. Ainda que eles sejam majoritariamente empobrecidos, isso é um resultado de condições fundamentalmente impostas sobre eles, de uma maneira similar ao modelo atlantista colonial ou neocolonial, e não são indicadores de suas habilidades inatas enquanto povo (ou "primeiros povos").

Quando olhamos para "nativos americanos" ou "primeiros povos", ali, na cultura estadunidense, há um senso geral de simpatia. É uma opinião comum que os nativos americanos não tiveram justiça, e que as coisas que aconteceram a eles, e continuam a acontecer, são erros que precisam ser consertados. Aqui será importante continuar a trabalhar com uma nova geração de líderes tribais que querem ampliar o direito de seus povos à auto-determinação em todas as esferas, soberania e autonomia.



Conclusivamente então, nós podemos ver onde estão as áreas de pesquisa e trabalho promissores. Os EUA se deparam com uma crise de legitimidade, e a maneira pela qual ela é paradigmaticamente incapaz de compreender as raízes desses problemas também cria certas oportunidades. Quando olhamos para o número de pessoas nos EUA que gostariam que seu estado abandonasse os EUA, e olhamos também para a realidade demográfica étnica ou racial, as contradições marcantes que caracterizam esse aspecto dos EUA são facilmente discerníveis.

O Processo Orgânico de uma Quarta Teoria Política nos Estados Unidos na Academia

Quando compreendemos uma "Quarta Teoria Política", nós compreendemos as três anteriores - liberalismo, socialismo e fascismo. Formalmente, os EUA, diferentemente da Europa e da Eurásia, só experimentou a primeira. Socialismo e fascismo são fenômenos (e idéias) formalmente alógenos e europeus ou eurasianos, pelos quais os EUA em termos formais nunca passou. Após um exame mais próximo, porém, podemos descobrir o seguinte: os EUA tem mantido um esquema formal dentro do liberalismo, mas há mais do que isso.

De fato ainda mantém os valores primários do liberalismo como individualismo/atomização, comercialismo/materialismo, e é claro a estranha combinação de universalismo e relativismo moral ou ético (ao mesmo tempo). Ao mesmo tempo, seus defensores e conselheiros oficiais a nível acadêmico, a cada geração, foram influenciados parcialmente pelos desenvolvimentos ocorridos na Europa e Eurásia durante o século XIX e XX. O bonapartismo teve influência sobre o neofederalismo e o impulso neofederalista; saltando um século, a ascensão do socialismo e do fascismo também influenciou (e de fato foi influenciada por) os conceitos por trás da organização social de massas e as formas técnicas de análise sociológica e mecânica (e.g. Weber, Marx, et al), úteis para a manutenção e expansão do projeto atlantista. Isso foi visto em projetos como o Ato de Administração de Obras Públicas de 1933, e o New Deal em geral.

A Terceira Teoria Política de certa maneira emergiu de um estudo da economia estadunidense no início do período taylorista ou fordista. Obras como "O Ideal Corporativo no Estado Liberal: 1900-1918" de Weinstein também fornecem uma referência coerente para compreender a incorporação ou interpretação do socialismo e do fascismo em um discurso lugar-comum sobre organização social e progresso social. Estes ocorreram após a ascensão do socialismo (STP) e antes da ascensão do fascismo (TTP).

Sob essa luz, o "progressivismo" do mesmo período como descrito pela obra de Weinstein, pode ser visto como a metabolização pragmática americana daqueles elementos deficientemente modernistas do socialismo e do fascismo. Simultaneamente, eles também foram uma continuação de figuras do "Sistema Americano" como Henry Clay e Jefferson Davis. "Progressivo" até hoje é o rótulo com o qual tanto liberais radicais (liberais de esquerda) e liberal-comunistas (socialistas, "marxianos", etc) descrevem a si mesmos dentro dos mandatos ofuscantes de polidez dentro do discurso político anglo-americano.

Nos EUA há formas vulgarizadas de uma "Quarta Teoria Política" nascente na academia, baseada no pós-modernismo, teoria crítica e pós-estruturalismo, já adquirindo proeminência por algumas décadas, chegando a dominar os departamentos de filosofia em um bom número das universidades mais prestigiosas. Essas em algumas áreas já ultrapassaram ou consumiram a escola "analítica".

Isso também age como um tipo de resposta semi-afirmativa a Heidegger, através de figuras como Marcuse e Camus (i.e. existencialismo liberal-"comunista"). Outros estudantes são introduzidos a Heidegger através de Arendt. Mas em qualquer medida, ainda que problemático, isso também demonstra a base para uma linguagem e universo de idéia e conceitos comuns que, com esforços e direção corretos, pode ser vista como chão fértil para uma "Quarta Teoria Política" em sentido pleno. As idéias de Heidegger, bem como de Husserl, Hölderlin (et al), são vigorosamente abordadas, mesmo quando em muitos setores elas são porcamente definidas ou compreendidas, e o pensamento de Adorno e Marcuse é valorizado acima do de Heidegger.

O que domina de fato, porém, muito da nascente porém vulgar "Quarta Teoria Política" estadunidense é uma "trasvaloração de todos os valores" nietzscheana liberal (i.e., relativista). Ainda que amarrada em concepções liberais, ainda permanece em sessões desse milieu chão muti fértil. É aqui que entre estudantes de graduação, jovens professores, professores assistentes e palestrantes - em oposição a catedráticos - encontraram Dugin e já começam a vê-lo como uma figura digna de atenção. Porque isso representa a culminação da filosofia continental européia a qual era vista como a maneira mais apropriada de se abordar uma crítica oficialmente sancionada do marxismo no período da Guerra Fria, nós temos agora no período atual uma consequência não-intencional, por meio da qual instituições de renome promoveram o estudo da escola continental às custas da escola analítica.

Simultaneamente, o marxismo ocidental foi também, e em algumas áreas ainda é, ensinado nos níveis mais altos da academia estadunidense. Ao longo das últimas décadas, muitos entre os marxianos e estruturalistas se tornaram pós-marxianos e pós-estruturalistas. Outros se tornaram "nietzscheanos de esquerda" à imagem de Foucault, enquanto ainda outros gravitaram na direção do marxismo soviético, e se tornaram ou permaneceram "marxistas ortodoxos". Essa próxima conexão pode ser um pouco difícil para aqueles ainda não familiarizados com o meio acadêmico e intelectual dos EUA. Houve algo como um florescimento acadêmico marxista e estruturalista que começou vigorosamente na década de 60. Ao mesmo tempo que esses pseudo-leninistas, anarquistas, etc., se dedicavam nominalmente a uma visão materialista da história, epistemologia e ontologia, também houve algo diferente acontecendo por baixo da superfície. Houve também um aumento significativo no interesse entre as mesmas pessoas por budismo, hinduísmo, "filosofia oriental", islamismo e Nova Era. Com base em seu antiliberalismo e anti-imperialismo, elas foram atraídas para idéias que buscavam redefinir as relações do homem com a modernidade e o consumismo, e impulsionaram um novo interesse por misticismo e esoterismo. Assim, de muitas maneiras, esse é e foi similar aos milieus e círculos que existiam na Alemanha de Weimar que deram origem ao nacional-socialismo popular; um interesse simultâneo em questões como os mistérios relativos à origem humana e a seu potencial espiritual com um olhar para o Oriente, junto de uma visão anticapitalista e pró-socialista da economia política.

Ademais, a influência do marxismo e da "teoria dos conflitos" no campo da sociologia não pode ser exagerada.

De muitas maneiras isso foi um produto da curva pró-mercado da iniciativa "Sociedade Aberta", que veio a ser dominada por pensadores e escritores da Escola de Chicago. Karl Popper alertou que seria necessário incluir pensadores políticos e econômicos liberal-socialistas nessa "Sociedade Aberta" como parte de um projeto liberal mais amplo, para incluir a esquerda estadunidense e aqueles associados à Segunda Internacional. Seu alerta não foi ouvido, e isso contribuiu em parte para a polarização esquerda/direita da academia, e ajudou a empurrar aqueles críticos da economia de mercado para a posição em que estão hoje. Isso, de certa maneira, pode ser visto favoravelmente hoje no sentido de que contribuirá para as condições que tornarão um pólo acadêmico da Quarta Teoria Política nos EUA possível.

Ainda que tomando suas idéias primariamente da filosofia continental, e enquanto tal estando profundamente imersos no hegelianismo e no existencialismo, estes são pensadores organicamente "americanos" que já possuem redes de publicações e periódicos acadêmicos, posições nas universidades, com alguma influência.

De forma inteiramente separada, e em uma direção diferente, estão as escolas filosóficas analíticas e liberais. Com algumas exceções, como o comunitarianismo e o marxismo analítico - ambos os quais desafiam o liberalismo de Rawls mesmo sendo modernos - elas são essencialmente liberais. Não obstante, nesse âmbito encontramos o epicureanismo primário que caracteriza muito do pensamento fundacional em uma filosofia verdadeiramente estadunidense. Há menos aqui que seja obviamente trabalhável ou compatível com o desenvolvimento de um pólo de atração da Quarta Teoria Política, mas isso não deve ser deixado de lado. Primariamente porque o núcleo do conservadorismo estadunidense reside aqui, e transcender o paradigma esquerda/direita significa olhar para onde essas idéias se encaixam - do liberalismo - e como essas idéias liberais dos arquitetos da constituição americana podem ser dirigidas contra o projeto atlantista. Afinal, há um certo número de idéias contidas ali que de fato não são compatíveis com o projeto atlantista. O liberalismo "universal" está conceitualmente contido, é claro, no discurso fundacional do projeto estadunidense.

Ao mesmo tempo, conceitos do início do século XIX, em J.S. Mill tal como "Experimentos em Vivência" podem ser vistos como conceitos político-filosóficos que promoviam o federalismo (hoje, o confederalismo) em oposição a um Estado unitário. Estes são anti-universais em sua natureza, ou melhor, o que é universal é "a cada um o seu". Por "experimentos" Mill se refere realmente a duas coisas - heterogeneidade ou diversidade, e independência ou soberania local. Mill via isso como valioso não simplesmente no sentido liberal individual; dando origem ao empreendedorismo, à iniciativa e engenhosidade individuais, mas entre várias cidades, comunidades e estados. Anátema para ele seria o universalismo liberal moderno, que realmente põe um fim à diversidade global. Posteriormente, Mill assumiria perspectivas mais socialistas em economia, vendo as limitações da economia de mercado quando sobrepostas a sociedades de maior escala.

As idéias de Mill, bem como de Bentham e Locke, bem como obviamente as de Jefferson, (et al), não são realmente apenas compatíveis com uma visão multipolar do mundo, mas também julgam e avaliam os EUA pelas próprias idéias e ideais que eles afirmam apreciar. Essas se aprofundam no pensamento liberal e seu derivado, o libertário, e podem formar uma resistência anti-imperial e multipolar ao projeto atlantista.

Essas idéias formam algumas das bases do pensamento liberal de esquerda, liberal de direita e libertário de hoje, que de muitas maneiras estão alienados da esquerda radical estadunidense. Ainda que ambos esquemas representem a modernidade - um beirando o pré-moderno, a outra beirando o pós-moderno - são todos eles próximos em termos de aderentes nos EUA, e possuem influência relevante na cultura política estadunidense fora do que está representado na mídia popular.

Tomado em conjunto, o que temos são as peças necessárias para se forjar um pólo significativo da Quarta Teoria Política dentro da academia estadunidense.

O problema político é que o sistema educacional estadunidense é controlado politicamente pelos poderes dominantes. Assim, pode ser necessário assumir um curso mais radical se for provado impossível penetrar com sucesso nas barreiras burocráticas e políticas. Nós temos, porém, alguns precedentes a partir dos quais trabalhar.

Contemporaneamente, podemos ver que Rússia e Irã foram frustrados em seus esforços de receber uma cobertura midiática justa nas redes de notícias dos EUA. Ao invés de insistirem, eles deram início a iniciativas - Russia Today e Press TV, respectivamente - de criação de canais de notícias em língua inglesa que são veiculados na televisão nos EUA. Similarmente, no passado, na academia, nós vimos como a Escola de Frankfurt foi realocada para fora da Alemanha, e trazida aos EUA para a Universidade de Columbia uma vez que as condições políticas haviam tornado seu trabalho difícil demais.

Similarmente, uma vez (ou, impedindo isso, antes) que uma ponta-de-lança possa ser estabelecida por um grupo central de acadêmicos apoiadores, uma "Escola de Nova Iorque" ou uma "Escola da California" pode ser estabelecida, por exemplo, em Belgrado, Teerã ou Moscou, com professores dissidentes. Eles publicariam e organizariam conferências em inglês e seriam ex-patriotas americanos formando um núcleo de resistência acadêmica. Suas perspectivas, palestras, livros e artigos seriam o foco da informação em língua inglesa distribuída e projetada por todos os meios da nova mídia.

Elementos Básicos que enquadram o Discurso Americano Atual

Na esfera política prática dentro dos EUA, não há um conflito entre liberalismo e outra coisa, mas entre duas ou três visões de liberalismo. Ao mesmo tempo, há núcleos de algo pós-liberal e antimoderno dentro de dois dessas. Atualmente há simplesmente um sistema unipartidário sem oposição, e sem qualquer mecanismo para que uma política de oposição influencie positivamente os resultados políticos. Este é o sistema político que corresponde agora a uma forma liberal de capitalismo que ignora ou finge ignorar as fórmulas sociológicas, e atribuir toda responsabilidade pelos resultados na vida de uma pessoa ao "indivíduo". Politicamente, esse partido único possui duas faces - uma democrata, a outra republicana. Nas fronteiras desses partidos porém, tanto na "esquerda" anticapitalista radical, e na "direita" constitucionalista, libertária e paleoconservadora, há potencial também. A área de concordância mútua entre essas duas margens tem, apesar de estarem aparentemente em contradição, tem crescido rapidamente e aumentado bastante ao longo dos últimos 15 anos. Se fôssemos datar isso, o fenômeno do 11 de Setembro pode ser visto como o ponto de partida desse crescimento da zona de concordância, caso fosse representada em um diagrama de Venn.

É algo a se considerar que "esquerda" e "direita" dentro da Anglosfera tem um significado um tanto quanto diferente do que possuem na Eurasia, ou do que tinham na Anglosfera em meados do século passado. Essas áreas de concordância entre "esquerda" e "direita" se relacionam com o poder das grandes corporações, as guerras sem fim (imperialismo militar e complexo militar-industrial), o declínio das condições de vida (colapso da classe média), e o desaparecimento dos direitos constitucionais nos âmbitos do discurso, da associação política, privacidade, além do crescimento nefasto de uma cultura consumista e centrada em celebridades.

Há outra esfera de problemas na qual ambos os lados concordam, mas usam uma terminologia completamente diferente pra explicar, e para os quais atribuem causas e soluções diferentes. Mas isso não deve ser fonte de frustração, mas sim algo que demandará maior trabalho. Essa está ligada ao papel do mercado e mesmo a qual é o propósito da sociedade. A esquerda radical nos EUA possui uma concepção de qual é o propósito da sociedade, que está mais perto de como os eurasianistas veem a questão, no sentido de que ela contém uma crítica do liberalismo e da modernidade.

Não há qualquer pólo da Terceira Teoria Política nos EUA, não para além de seitas exóticas confinadas a espaços virtuais, e sem qualquer influência no discurso político. Europeus e eurasianistas não raro cometem o erro de pensar que há um, por haver meia dúzia de grupos de tipo racista ou segregacionista, mas esses são puramente uma subcultura de identidade. Sua visão da sociedade e da economia em liberal em todos os sentidos. São só racistas liberais. Seu fascínio pelo Terceiro Reich, em tais casos, se baseia basicamente em documentários televisivos que apresentam perspectivas não só distorcidas em conteúdo, mas fixadas em simbolismo, hardware militar, e estética em geral. Seus números são extremamente pequenos, e a carência de acadêmicos, intelectuais, apoiadores, apoio popular, ou mesmo indivíduos capazes de organização é bastante conhecida e tem sido bem documentada há décadas. Qualquer um familiar, por exemplo, o Partido do Renascimento Nacional, tem bastante clareza sobre as possibilidades desse tipo de iniciativa.

Ademais, não cai bem a um apoiador europeu ou eurasiano da Quarta Teoria Política fazer aliança política com esse milieu irrelevante. Desde uma perspectiva de relações públicas, isso só pode resultar em marginalização extrema e na total inabilidade de algum dia se conquistar tração real ou significativa. Também torna problemática a aliança tácita com o "nacional-comunismo" latino-americano, como o bolivarianismo. As questões raciais nos EUA, ou mesmo a imigração, não são similares o bastante a sua versão européia para demandar uma abordagem similar. Afro-americanos não são imigrantes nos EUA, foram trazidos contra sua vontade, apenas para serem sujeitos a condições já bem documentadas. Os sustentadores históricos do domínio branco nos EUA não são indígenas aos EUA, e não estão "defendendo" a terra de "estrangeiros". Os nativos americanos e mexicanos, porém, são o povo indígena. Esse fato óbvio não escapa ninguém seriamente envolvido em qualquer nível nos EUA com a derrubada do Império Estadunidense. Isso não deve ser mal interpretado, porém. Considerada a mobilidade da classe média em termos de escolher onde viver, e considerando que na cultura estadunidense é a norma se estabelecer em um lugar diferente de onde se nasceu ou se possui família, há poucas razões para se viver em qualquer um lugar específico e não em outro.

O que vemos é que as pessoas escolhem viver em comunidades e partes das cidades nas quais as pessoas possuem uma semelhança fenotípica com elas mesmas. Considerando o fenômeno do "êxodo branco" na década de 60, em que brancos se mudaram das cidades para áreas suburbanas bem como novas cidades, combinado com a auto-segregação, nos são apresentadas razões pelas quais o "Nacionalismo Branco" (entendido separadamente em relação à Terceira Teoria Política) jamais se enraizou nos EUA: as pessoas selecionam automaticamente e inconscientemente seus vizinhos, e as pressões não estão realmente presentes.

Resistência Popular ao Projeto Atlantista - Americanos são Socialistas e Libertários

Os principais pólos de resistência popular nos EUA estão, na "esquerda radical" - não confundir com a intelligentsia liberal de esquerda; ao contrário olhamos para os comunistas linha-dura e em menor medida para socialistas e anarquistas; e na "direita" são os libertários e constitucionalistas, e em menor medida os paleoconservadores e o movimento das milícias (que está ligado aos dois primeiros). Ambas categorias representam dezenas de milhões de indivíduos.

Evidência quantificável para essas afirmações se apoia nisso: em 2011 uma pesquisa científica foi conduzida pela agência Rasmussen [3], que descobriu que 11% de todos os "americanos" acreditava nisso:

"11% dizem que o comunismo é melhor do que o sistema americano atual de política e economia".

Como 80% dos "americanos" são adultos em uma população de 320 milhões, o número de apoiadores do comunismo hoje está em 26.5 milhões. Outra agência de boa reputação, a Gallup, reportou em 2010 que 36% (de uma população adulta), ou 92 milhões, de todos os americanos tinham uma opinião positiva do socialismo, do que podemos inferir que poderiam se identificar como "socialistas" [4].

No lado libertário também somos capazes de identificar. Ron Paul disputou eleições em uma plataforma puramente libertária, mas como republicano, nas primárias de 2012, e ficou em quarto lugar, recebendo ao redor de 2.1 milhões de votos [5]. Esse processo foi visto como tendo sido manipulado contra Paul, e de modo não muito diferente de outras manipulações eleitorais nos EUA, pode ter sido de fato fraudado. O Instituto Cato porém revela mais sobre essa questão com um estudo. Eles descobriram que ao redor de pelo menos 14% dos "americanos" são libertários, chegando a no máximo 44% [6] dependendo dos critérios. Isso nos dá aproximadamente entre 30 milhões e 110 milhões, de um universo de adultos americanos de 256 milhões.

O que isso significa é que o sistema político formalizado, representado nominalmente por democratas na centro-esquerda e republicanos na centro-direita possuem um monopólio em um processo político que de fato não representa a natureza fundamentalmente socialista e libertária da população americana. Comunistas e socialistas ficam majoritariamente compelidos a votar pelos democratas, e libertários e constitucionalistas ficam majoritariamente compelidos a votar pelos republicanos. Separadamente, a cultura angla foca em uma forma passivo-agressiva de polidez, e em espaços públicos é raro que estadunidenses afirmem suas opiniões reais, por medo de julgamento passivo e ostracismo disfarçado. Privadamente eles se afirmarão comunistas/socialistas ou libertários/constitucionalistas, mas em público você ouvirá os termos, respectivamente, "progressista" e "conservador", ainda que eles estejam essencialmente ocultando sua opinião real.

Como podemos interpretar esses dados é uma outra questão que demandará mais investigações. Em todo caso, uma maioria de socialistas e libertários atualmente possuem uma perspectiva modernista e liberal. Não obstante, o que podemos compreender melhor é com o que estamos lidando e a partir do que estamos trabalhando. Uma abordagem da Quarta Teoria Política nos EUA pode começar com um diagrama de Venn das coisas que são comuns à QTP e ao socialismo, e à QTP e ao libertarianismo. Ademais, o ângulo anti-imperialista e a desconstrução do Império Atlantista são valores partilhados entre libertários e socialistas.

De partida, nós já podemos começar a ver o rascunho do tipo de campanha que seria necessária para popularizar idéias da QTP nos EUA. Naturalmente, uma permutação da QTP dentro dos EUA teria que reconsiderar inteiramente o liberalismo, e no final das contas se livrar de muitas de suas características. Ao mesmo tempo, algumas das perspectivas e valores dos "americanos", e mesmo alguns conceitos fundamentais no liberalismo, são resgatáveis. Assim, nós podemos ver em um EUA pós-liberal e pós-atlantista algo mais ou menos análogo nos EUA a como a Rússia metabolizou hoje a experiência soviética.

Os EUA podem ter que se desconstruir, e se algum dia se restabelecer como potência, terá que ser como potência terrestre ou continental. Um novo pacto ou contrato com suas partes antigas precisa ser feito, com base em uma compreensão diferente sobre si mesmo, seu passado, e as várias "nações" vivendo em suas diferentes partes. O processo da etnogênese estadunidense provavelmente será longo, e muito provavelmente seu projeto político vai falhar, levando a uma contração, séculos antes que uma etnogênese possa ocorrer. Considerando-se o futuro incognoscível da tecnologia e de outros desenvolvimentos, é questionável se essa etnogênese de fato ocorrerá. O que parece mais certo na agenda, é um EUA desconstruído que verá uma conversão em zonas distintas algo mais adequado às populações majoritárias de cada parte. A forma que isso assume, naturalmente, ainda é incerto, se de fato isso se chamará nominalmente EUA ou não ainda não é possível saber, e isso também não é inteiramente fundamental.

Divisões de raça e classe nos EUA, combinadas com uma ideologia liberal que não pode mais fornecer sentido, associadas com um modelo econômico naufragante, significa que uma mudança significativa está no horizonte. Essas mudanças criam a possibilidade de uma Quarta Teoria Política de algum tipo tomando o lugar da teoria liberal tardia que está hoje em decadência.