Mostrando postagens com marcador Angel Millar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Angel Millar. Mostrar todas as postagens

03/03/2017

Angel Millar - A Idade de Ferro está se dissolvendo: Reflexões sobre a Modernidade e o Kali Yuga

por Angel Millar



Há algum debate sobre exatamente quando as eras começam e terminam, mas, segundo os Tradicionalistas, que se inspiram no hinduísmo, nós descemos da Idade de Ouro (Satya Yuga), quando a humanidade era intimamente ligada ao Divino e vivia em harmonia com a natureza, e estamos agora na materialista Idade do Ferro (Kali Yuga).

No Kali Yuga, a quantidade impera sobre a qualidade; a riqueza (não a inteligência ou a sabedoria) é vista como prova do valor de um homem; as pessoas não se importam mais com seus pais ou anciões, e homens e mulheres se unirão exclusivamente por atração física.

Talvez por nós termos passado a associar a Era com "quantidade" e, mais especificamente, com o "reino da quantidade", nós tenhamos passado a pensar no Kali Yuga como pesado, um tempo de ferro e ruína. Ainda assim, não é este o caso hoje.

Em Modernidade Líquida, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreve como a política do Iluminismo pretendia corroer o que havia se tornado estático e opressivo. A ideia era de que uma vez que o velho regime houvesse sido desruído, sistemas novos, mas efetivamente mais justos e mais recompensadores seriam postos no lugar. Mas acabou não sendo assim. O ácido corrosivo seguiu desintegrando tudo que ele toca, de modo que temos agora uma "modernidade líquida", uma modernidade onde tudo é leve, fugidio, fluido, mutante, autodestrutivo, e, talvez mais importante, vazio de sentido.

A visão orwelliana de nosso mundo após a Segunda Guerra Mundial era cinzenta, rígida, opressiva e industrial. Algumas características "orwellianas" são parte de nossa era, admissivelmente; em particular o abuso político das palavras, transformando-as em seu oposto ("dano colateral", um termo militar para mortes, sendo um dos mais conhecidos), e o "duplipensar" que o "politicamente correto" impõe a seus crentes, que devem acreditar em coisas diferentes dependendo de quem esteja falando, e que categoria política sua "identidade" se encaixa.

A opressividade aparece também na multidão berrante, denunciando o indivíduo por pensamentos incorretos. Mas tais multidões são feitas de voluntários, ao invés de atores estatais, e ainda que elas se vejam como guardiães da alta moralidade, e denunciem a superficialidade de ocidentais interessados apenas em filmes, música popular e televisão, é seu comportamento berrante que objetiva criar tal mundo de desinteresse por questões sérias, e de ausência de pensamento. Em outras palavras, em contraste ao 1984 de Orwell, a opressividade, também, age para liquefazer e tornar leve. Mas vamos olhar para alguns exemplos de realidade líquida em nossa Idade do Ferro.

Nós todos ouvimos sobre a necessidade de "liquidez" nos mercados financeiros, há muito libertos do sólido e pesado "padrão-ouro", e da necessidade de que corporações individuais tenham liquidez. Desde que Bauman escreveu Modernidade Líquida "gênero fluido" se tornou parte da linguagem e da ideologia do mundo moderno. O gênero é mutável, e assim a "heteronormatividade", ou o padrão-gênero tradicional, poderíamos dizer, é opressiva. A fluidez no gênero é tão desejável quanto a fluidez nas finanças, não que estas estejam inteiramente separadas.

"Quantidade" não é uma questão de peso e imovibilidade, mas do que é leve, menor, vazio e fluido. Considere comida, por exemplo. Há comida barata por todo lado. E mesmo assim essa comida geralmente produzida em massa nos dá pouco mais que "calorias vazias" que às vezes contribuem para adoecermos. De vegetais borrifados com pesticidas a fileiras e fileiras de caixas coloridas com personagens de desenho na frente, apelando a crianças pequenas, o reino da quantidade está ou oculto ou evidente, mas amigável em aparência.

E então tem a guerra. Essa não é mais uma questão de defesa da nação, e certamente não de sua cultura tradicional. A guerra, diz Bauman, "parece cada vez mais como uma 'promoção do livre comércio global por outros meios'." (p. 12). Mas ela também é justificada pelas coisas mais escorregadias: para levar "liberdade", "democracia", ou talvez direitos das mulheres. Guerra também significa nomadismo. Culturais tradicionais são arrancadas de seu solo pela primeira vez em mil anos ou mais.

Além de mais leve e mais fluida, há outra característica da modernidade: mais barata. Há um século, ou menos, nós compreendíamos que valia a pena comprar algo que durasse por toda uma vida. Ela poderia ser passada para a próxima geração. Hoje, o consumidor médio quer comprar o produto mais barato, mesmo que ele se despedace após pouco uso, já que a probabilidade é de que, não importa o que seja, a coisa já estará fora de moda até antes disso.

"Trabalhadores ilegais" obviamente ajudam a manter os preços baixos. Quando as pessoas falam no "sonho americano" em relação à imigração, subjazendo a ideia consciente confortável de imigrantes se dando bem nos EUA está o "sonho" inconsciente, mas verdadeiro: que a cada vez mais empobrecida classe média pode manter um estilo de vida de classe média sobre as costas de um trabalho cada vez mais barato.

Na Europa, também, os imigrantes e refugiados não serão integrados ao sonho britânico, francês ou alemão, quaisquer sejam. Eles são úteis para trabalho barato, e úteis para as elites que precisam mostrar quão morais e conscienciosas elas são, mas que não querem fazê-lo com custo para elas próprias.

Apesar de todo falatório sobre integração, as pessoas não conseguem se integrar à existência vazia, líquida e mutante da modernidade. Ao contrário, ironicamente, os imigrantes da Síria, Líbia, Paquistão e outros lugares trazem o que é definido e enraizado na tradição e religião, e não deixarão isso facilmente, particularmente por serem imigrantes. Os EUA, que até pouco tempo atrás era pouco mais que a Europa transportada ao novo mundo, se apegou à religião e a tradições europeias de uma maneira que Estados europeus modernos não o fizeram, porque ela, também, é uma "nação de imigrantes".

No filme Duna "a especiaria deve fluir". A especiaria é similar ao que conhecemos por Soma ou a Hoama zoroastrista, algum tipo de narcótico ou substância que aparece para trazer iluminação de algum tipo. Talvez porque o filme, e o livro no qual ele está baseado, se passa no deserto, a "especiaria" tem sido naturalmente comparada ao petróleo: "o petróleo deve fluir", preferivelmente para o oeste. Mas o petróleo era o economicamente instável de ontem. Hoje, para sustentar a ilusão de riqueza e modernidade, é a imigração que deve fluir. 

"Nós estamos testemunhando a vingança do nomadismo sobre o princípio da territorialidade e do assentamento", diz Bauman. "Na fase fluida da modernidade, a maioria assentada é governada pela elite nomádica e extraterritorial. Manter as estradas livres para o tráfego nomádico e fazer esvanecer os checkpoints remanescentes se tornou agora o metapropósito da política, e também das guerras..." (p. 13).

Mas mesmo o trabalho barato não pode ser tornado suficientemente barato. Se temos problemas para substituir o petróleo por energia solar, nós temos menos problema substituindo pessoas por máquinas, o que começou com a Revolução Industrial. Recentemente, a Oppenheimer Funds lançou sua propaganda "o inumano é belo". Na propaganda nós vemos um robô ajudando uma mulher a colocar seu casaco e outro robô, pequeno, servindo bebidas em uma festa de piscina. Nós podemos ter medo de robôs, da mesma maneira que as pessoas temem a imigração descontrolada, talvez, mas a companhia de investimentos globais nos garante que haverá robôs em todas as casas por volta de 2025. Robôs são "belos", e nós devemos investir em um "futuro belo", ou, para dizer de outra maneira, um futuro mais líquido. 

A Idade do Ferro foi derretida. Como podemos, então, viver em tal era líquida? "Tradição", nos diz Gustav Mahler, "não é preservar as cinzas, mas passar adiante a chama". Nós devemos também dizer que é passar adiante a essência. Mas ela também deve ser passar adiante as formas das coisas, passar adiante um reino que morreu e se tornou psíquico, com guerreiros, sacerdotes, místicos, amantes, grandes obras de arte, grandes construções, perícias, ideias, e por aí vai existindo agora como lenda, histórias, filosofias, ditos, pinturas, escultura, etc. 

O ferro é uma coisa peculiar. Considerada pelos alquimistas como um dos metais básicos, e pelos homens modernos como arcaico e não tão útil quanto o aço, os antigos o viam diferentemente. Os zoroastrianos pensavam que os céus eram feitos de "pedra duro", pelo que eles pareciam estar se referindo a ferro meteórico, algo que muitos povos antigos utilizaram, especialmente ritualisticamente. O ferro, escuro e denso, é, como descobrimos, simbólico do céu, dos deuses, do Divino. Seja intencional ou não, nós podemos tomar isso como sinal de como viver na atual Idade do Ferro: fortalecer nossos corpos, e afiar nosso espírito, mente e habilidades.

Intencional ou não, podemos tomar isso como sinal de como viver nessa era. Como o metalúrgico podemos aplicar calor a nossas próprias vidas, nos purificando, mas nos tornando mais sólidos, moldando nossas vidas em algo que reflita o eterno. Nós podemos pensar em exercícios, onde nossos corpos ficam encharcados com nosso próprio suor "líquido", mas são moldados e endurecidos por causa disso. A derretida Idade do Ferro quer nos varrer com ela, mas aplicando a chama e reimaginando as formas dos valores e práticas antigas, das áreas da força e saúde físicas à elevação mental e espiritual, e nos remodelando de acordo com eles, podemos resistir aos rios derretidos da modernidade. 

31/10/2015

Angel Millar - O Tradicionalismo é Revolucionário? Um Olhar para a Propaganda Contemporânea

por Angel Millar



O Tradicionalismo é uma ideologia revolucionária, como o pensador, ocultista e Tradicionalista Julius Evola afirmava? Ele é uma forma de conservadorismo ou de pensamento "reacionário"? Ele é ao menos político? E, se sim, quando?

Ainda que Evola fosse também crítico do fascismo - e tivesse inimigos no partido por causa disso - graças às atividades políticas de Evola, e mais especialmente por sua associação com elementos do partido fascista italiano durante a Segunda Guerra Mundial, alguns Tradicionalistas consideram Evola como uma "ovelha negra". Este é especialmente o caso com Tradicionalistas mais tendentes para a esquerda hoje, bem como com aderentes estritos aos escritos e caminho de René Guénon.

Se o Tradicionalismo é revolucionário, então Evola é um radical mesmo nesse meio.

Diferentemente de Guénon e de muitos daqueles que o seguiram (como Titus Burckhardt, que se converteu ao Islã, tomando o nome Ibrahim Izz al-Din) Evola era essencialmente "um Tradicionalista sem uma tradição". Ele não se converteu a, ou praticava, qualquer das grandes religiões.

Ao invés disso, ele estava interessado no Hermetismo, nas religiões europeias pré-cristãs, no ocultismo (em alguma medida), e outros campos esotéricos.

O que ocupava Evola, parcialmente em sua própria prática e parcialmente em seus escritos políticos, era a redescoberta e redespertar da autêntica Tradição Europeia, ainda que neste sentido ele também olhasse para o Budismo, para o Hinduísmo, para o Islã, e outras tradições orientais, tentando encontrar conexões nelas.

Em essência, Evola não tinha uma tradição porque a Europa estava sem uma tradição.

O catolicismo havia retido alguma vitalidade para Guénon, ainda que ele, como Evola, tivesse passado a considerá-lo como corrupto, decadente e distorcido por valores modernos e "liberais". Ele carecia, em sua opinião, da possibilidade de iniciação.

Guénon também se voltou para a Maçonaria e para a Teosofia. A primeira, fundada em Londres em 1717, havia sido originalmente uma fraternidade emergida da guilda de pedreiros daquele país. Ela tinha (e ainda tem) um ritual de iniciação em três graus, baseado no daqueles pedreidos, porém misturado com simbolismo bíblico, geometria sagrada e filosofia jusnaturalista.

Dentro de poucas décadas, porém, a fraternidade havia se espalhado pela Europa, se dividindo em várias facções. Muitas dessas absorveram aspectos do hermeticismo, da alquimia, do rosacrucianismo, do misticismo cristão, e por aí vai. Guénon esteve envolvido na manifestação mais esotérica da Maçonaria e escreveu um livro sobre o assunto.

Ainda que ele mantivesse um certo respeito pela Maçonaria, Guénon seguiu adiante, na direção do Islã. Para Evola a Maçonaria não era uma opção. Influenciado pelos Protocolos dos Sábios de Sião (um texto antissemita e antimaçônico, criado pela polícia secreta czarista no fim do século XIX), Evola acreditava que sionistas e maçons estavam por trás da revolução global e da derrubada da Tradição.

Os Protocolos foram um texto extremamente popular e influente na época, tanto na Europa como nos EUA, e, em certa medida, no Oriente Médio. Evola não o aceitava sem algumas críticas, e, de fato, sabia que ele era forjado. Mas, para o esotérico, o que importava não era sua validade histórica, mas que ele oferecia, em sua opinião, uma "premonição profética", e, enquanto tal, fornecia um vislumbre sobre a situação conflituosa do mundo. (De fato, Evola pensava que o sionismo e a maçonaria poderiam também algum dia vir a se tornarem vítimas das forças anti-Tradicionais).



Para Evola, o mundo moderno era um de ruínas, e ele se situava contra ele. É claro, ele havia visto as ruínas literais na Europa com a Primeira e Segunda Guerras Mundiais.

Mas as ruínas físicas eram menos ofensivas para o pensador italiano do que as espirituais. (Enquanto todos os outros procuravam abrigo, Evola gostava de caminhar durante ataques aéreos, para poder testar a si mesmo). O que havia realmente sido destruído era um caminho de vida integral.

O desenho acima mostra o homem evoluindo em um guerreiro espartano, e então, ultrapassando seu ápice, se tornando um banqueiro ou empresário de algum tipo. Então ele se torna um escravo do computador ou da televisão - do entretenimento - e então subsiste como mera ovelha.

O pensar, o corpo e o espírito, estão em declínio radical, a imagem parece dizer. Desistimos de nossa independência porque abrimos mão de nosso poder, e vice-versa.



Para Evola, a era contemporânea era provável de se provar uma mera transição de um ciclo de tempo e ser para outro. A era moderna é o que Tradicionalistas - tomando um termo hindu - chamam de "Kali Yuga" (a Idade das Trevas). Desprovida de autêntica conexão espiritual, densa e material, ela pode, conjectura-se, desabar sob o próprio peso, abrindo caminho para uma nova era dourada.

É imperativo, então, que o homem da Tradição navegue na tempestade ou, como diz Evola, "cavalgue o tigre" da era turbulenta. Ele deve permanecer um homem que incorpore sabedoria primordial, mesmo enquanto os excessos e a preguiça do ciclo acenam para ele.

No gráfico abaixo, o Tradicionalista, nos é dito, assume responsabilidade enquanto no capitalismo e no socialismo, o indivíduo não o faz.



Socialismo é "onde você espera em filas de pão". Capitalismo é "onde filas de pão te esperam". Muitos, especialmente na direita republicana americana, diriam que é por isso que o capitalismo funciona, e por que deveria ser aplaudido. Você terá pão...à sua conveniência. Mais do que você pode comer.

O Tradicionalismo, assim, não é conservadorismo. Este busca apenas preservar o estado atual das coisas, ou voltar o relógio uns cinquenta ou cem anos em algumas áreas (tal como aborto ou sexualidade). Aquele quer retornar a um modo mais autêntico e primal de vida, e, assim, pode ter mais em comum, às vezes, com a esquerda que pratica yoga e meditação, acredita em alimentação orgânica, e por aí vai.

(O Tradicionalismo, enquanto tal, não é uma ideologia inerentemente política [e Guénon se opunha à mistura entre política e espiritualidade], mas em sua rejeição da massificação, do conformismo, da hierarquia baseada em graus de riqueza, ele se torna político - apesar de haver Tradicionalistas de Direita e de Esquerda).

Deixando o texto de lado, as imagens preenchem um vácuo: as filas de pão do capitalismo são ruins porque o que elas oferecem é impessoal e carente de sabor, tradição, natureza e mesmo nutrição. A comida não é comida. O pão na fila de pão capitalista está repleto de ingredientes que nos fazem mal.

"Tradição" aqui significa humanidade, uma elevação da pessoa. Receitas foram transmitidas ao longo de gerações. Mães ensinaram filhas a cozinhar, pais ensinaram filhos a pescar, caçar, se defenderem, defenderem sua família, e por aí vai. É comunidade. Você come o pão com aqueles que você ama. Com o pão feito em um fogão a lenha você sente o trigo, o solo e o fogo. Ele alimenta a alma, não apenas o estômago (que é a razão pela qual ele ainda é vendido nas padarias mais caras das cidades grandes, ainda que pão barato esteja disponível virtualmente em cada esquina).



"Comida" incapaz de nutrir é uma das manifestações do Kali Yuga. O declínio do espírito, do espartano à ovelha é outro. Mas Tradicionalistas dizem que nem tudo está perdido. Precisamos, na opinião deles, "cavalgar o tigre" nesta era, para resistir até uma nova era dourada que está por vir.

A crença em uma era melhor vindoura pode bem ser revolucionária (Marx acreditava que o capitalismo daria lugar ao socialismo, e então à era dourada do comunismo, na qual seríamos alegadamente livres), ainda que o Tradicionalismo não defenda geralmente qualquer "ação direta" para se chegar lá, como protestos, revoltas, etc.

Porém, para Evola "revolução" significa um retorno à origem, não uma transição radical ao "progresso". E este é indubitavelmente o caso para muitos Tradicionalistas (da esquerda ou da direita) hoje. Daí, Evola diz em Homens Entre as Ruínas:

"Joseph De Maistre ressaltou que o que é necessário, mais que uma contrarrevolução em sentido estrito e polêmico, é o 'oposto' de ma revolução, nomeadamente uma ação positiva inspirada pelas origens. É curioso como as palavras evoluem: afinal, revolução, segundo seu significado original latino (re-volvere), se referia a uma movimentação que levasse novamente ao ponto de partida, às origens".

29/10/2015

Angel Millar - Mishima: A Estética da Ação

por Angel Millar



Já se passaram mais de quatro décadas desde que Yukio Mishima - dramaturgo, samurai moderno, nacionalista, fisiculturista, e de modo geral um enigma japonês - desencadeou uma onda de choque por todo o Japão cometendo seppuku, o suicídio ritual do samurai. Porém, hoje, ele está de volta à vista do público. Julho viu o lançamento do filme 11.25 O Dia em que Mishima Escolheu seu Destino de Koji Wakamatsu, e a primeira exibição solo em um museu público do Japão, do fotógrafo e colaborador de Mishima, Kishin Shinoyama, foi inaugurada.

Shinoyama capturou algumas das imagens mais controversas do dramaturgo japonês, em uma coleção de fotografias chamada Barakei (Ordálio [ou Tortura] por Rosas). O próprio Mishima esteve intimamente envolvido em conceitualizar as imagens, e, em grande medida, elas são uma meditação na qual os fantasmas mentais emergem, meio pensados, meio sentidos. Tiradas em um preto-e-branco granuloso, as fotografias justapõem o corpo musculoso de Mishima com esculturas e pinturas barrocas e desenhos do corpo humano.

Em uma fotografia, Mishima está envolvido em uma mangueira de jardim, como se oprimido pela mundaneidade em si. Em outra, ele está amarrado a uma árvore, em imitação a São Sebastião, com seu corpo perfurado por flechas. Parte erotismo, parte auto-idolatria, parte contemplação da mortalidade, através de Barakei, o autor japonês se impulsiona dos mundano reino do erotismo, para além do véu da morte, para se demorar entre os anjos.

O espírito de Barakei pode ser considerado tântrico - aquela prática hindu e budista da unio mystica pela união sexual. Mas parece, em todos os sentidos, ser uma fusão de estética e ideias tanto ocidentais como japonesas. Quando jovem, Mishima havia sido frágil e pouco atlético. Mas ele resolveu forjar para si mesmo um novo e masculino corpo, e passou à prática do fisiculturismo (que havia sido introduzido no Japão por soldados americanos - os vitoriosos da Segunda Guerra Mundial) e do kendô. Talvez por causa do desprezo de Mishima pelo corpo frágil, Barakei possui uma insinuação de militância. Tradicionalmente, no Tantra, em contraste, o devoto era às vezes obrigado a realizar a união sexual com um membro do sexo oposto que ele achasse feio. Aparentemente isso tinha como objetivo libertar o devoto de tomar a aparência das coisas por sua substância.

Na cultura japonesa clássica, porém, a relação entre aparência e essência é enfatizada. O pintor em tinta pratica pintar um único círculo, com um único gesto e uma única exalação. Se ele perder a concentração mesmo que por um segundo, isso ficará evidenciado no círculo, que sairá ovalado, ou terá uma protuberância. Aparência e espírito estão, para o japonês clássico, interligados.

Sensualidade e espiritualidade profundas estão conectados, não necessariamente exclusivamente pelo prazer - como se encontra na religião persa, o zoroastrismo, onde as riquezas são vistas como reflexo dos céus - mas também por emoções mais obscuras, e mesmo através da morte. Notavelmente, o japonês ukiyo era um termo budista, significando fadiga (uki) da vida (yo). Porém seu significado se transformou, se tornando associado com os distritos de prazer de Edo (Tóquio), e suas cenas de bebedeira, cortesãs, e todo o resto. O mundo flutuante, neste sentido, era o mundo do prazer temporário - refletindo a existência temporal do homem. Enquanto gênero, impressões xilográficas lidando com os distritos do prazer se tornaram conhecidas como ukiyo-e, literalmente "imagens do mundo flutuante".

Em Mishima: Uma Visão do Vácuo - uma obra particularmente pomposa sobre o dramaturgo - Marguerite Yourcenar liga as poses de Mishima no Barakei ao Hagakure, um manual samurai do século XVIII que recomenda que o guerreiro medite sobre sua morte iminente, para que ele não mais tema a morte. O Hagakure lhe ordena imaginar ser "cortado em pedaços ou mutilado por flechas" entre outras mortes medonhas. Assim, é fácil imaginar que Mishima posando como santo perfurado por flechas era uma influência dessa tradição. Porém, isso parece ignorar a mensagem de Mishima: i.e., que as ações - especialmente as ações militares - são estéticas, não mecânicas ou puramente práticas.

A mensagem de Mishima - jamais berrada dos telhados - está inteiramente de acordo com a história e sensibilidade japonesas. Muitos samurais - incluindo o célebre Miyamoto Musashi - foram artistas e calígrafos, além de espadachins. Ademais, influenciados pelo Zen Budismo, os japoneses há muito tem considerado as diferentes artes como revelatórias ao praticante do mesmo satori (entendimento) ou kensho (compreensão da verdadeira natureza do eu), não raro em uma revelação momentânea durante a prática. Arranjo floral e a arte do guerreiro, enquanto tais, não são duas coisas diferentes. Como diz o Hagakure, "É ruim quando uma coisa se torna duas. Não se deve procurar por nada além no Caminho do Samurai. É igual para qualquer coisa chamada de Caminho. Se isso é compreendido dessa forma, o samurai se torna capaz de ouvir sobre todos os caminhos e ficar cada vez mais de acordo com o seu próprio".

O "caminho" (Do) de Mishima o levou de escrever a atuar em filmes (onde ele interpretou personagens como mafiosos e detetives), a formar seu próprio exército privado. A Tatenokai (Sociedade do Escudo) consistia em cem homens jovens. Mishima disse a ter formado para dar aos estudantes - que não se encaixavam facilmente no novo zeitgeist marxista - um lugar seu. Mas, mesmo aqui, a preocupação estética de Mishima o levou a desenhar os uniformes, se inspirando nos uniformes mais clássicos dos exércitos europeus. (Os "úniformes rígidos nos fazem pensar na Alemanha e na antiga Rússia", ressalta Yourcenar).

Na realidade, a Tatenokai não era uma unidade de combate. Seu propósito primário pode ter sido, de fato, puramente estético: lembrar Mishima e despertar o Japão para a ideia de que ainda poderia haver um modo de vida espiritual, estético e ao mesmo tempo masculino na era moderna - não um "caminho" como na palavra inglesa, mas como no Do japonês ou no Tao chinês. Notavelmente, Mishima era insistente de que seu exército não deveria se envolver em baixarias e atividades pequenas: "Sem demonstrações de rua para nós, sem placas, sem coqueteis molotov [...] sem apedrejamentos", ele determinou. "Até o último momento desesperado, nos recusaremos em nos comprometer à ação. Pois somos o exército menos armado, e mais espiritual do mundo".

Em 1970, Mishima e membros da Tatenokai entrar na Estação Ichigaya das forças de auto-defesa do Japão. Mishima apareceu na sacada, discursando para os soldados abaixo sobre como o Japão havia se tornado materialista e decadente, ainda que suas palavras logo fossem abafadas pelos sons dos helicópteros da imprensa. Finalmente, longe das vistas, ele cometeu seppuku, abrindo seu estômago com uma espada samurai.

O Japão ficou constrangido com o suicídio público de Mishima, e, em alguma medida, ainda sente certo desconforto em relação ao dramaturgo. Isso é compreensível. Mas devemos parar para refletir que, no Ocidente pelo menos, os heróis da era moderna, não raro, morreram de overdoses, afogados no próprio vomito ou assassinados em tiroteios. E, não infrequentemente isto é visto como virtualmente admirável - prova de sua sinceridade. Isso obviamente só é prova da superficialidade bárbara dessas pessoas que encontram entretenimento na morte.

Apesar de seu suicídio - e estilo muitas vezes extravagante (o que é extremamente não-nipônico) - as obras de Mishima são consideradas clássicas. Mesmo no Ocidente, seus livros são leitura obrigatória para quem frequenta cursos de literatura japonesa na universidade. É possível separar o homem de sua arte, e sua morte da mensagem de sua vida: que as ações são estéticas, e que a masculinidade, em seu ápice, é espiritual; preocupada, como deve ser, com valores e beleza, força interior e disciplina.

06/07/2015

Angel Millar - O Corpo como Espírito: Yukio Mishima, Autor, Intelectual e Guerreiro

por Angel Millar



"É possível para as pessoas usar o corpo como uma metáfora para ideias", diz o autor japonês Yukio Mishima em Sol e Aço.

Mishima havia sido uma criança fraca e doente, paparicada por sua avó superprotetora. Ele não tinha permissão para brincar com outros garotos, e cresceu alienado da cultura masculina (bem como de sua mãe, que não tinha permissão para cuidar dele sem supervisão). De si mesmo, Mishima diz, "palavras vieram primeiro; então...veio a carne. Ela já estava desgastada pelas palavras".

Para o autor a resposta para esse desgaste - que ele também deve ter visto no Japão do pós-SGM, derrotado pela bomba atômica americana - foi passar a praticar Kendo (a esgrima tradicional japonesa) e fisiculturismo, e transformar sua figura magra em um poderoso veículo que pudesse competir com seu intelecto.

A competição era parcialmente por atenção e parcialmente um jeito de ser. Como com os estetas ocidentais, a extravagância e a sinceridade não eram alienígenas uma à outra, mas uma e a mesma coisa. Controversialmente, Mishima formou seu próprio exército privado, de aproximadamente 100 homens: o Tatenokai ou "Sociedade do Escudo". Ele queria, dizia, criar uma sociedade para estudantes que não pudesse, por razões ideológicas, se juntar aos marxistas nos campi - o marxismo era altamente popular à época.

Uma das questões que dividia o autor e os marxistas (que Mishima respeitava) era a devoção ao imperador. Mishima jamais o disse, mas outra - e talvez uma área ainda mais importante - era o corpo. O "Caminho" do Tatenokai, e do próprio Mishima, estava cada vez mais voltado para o físico. Em um vislumbre de intuição, Mishima compreendeu "todas as coisas até então pouco claras para mim. O exercício dos músculos elucidou os mistérios que haviam sido criados pelas palavras. Era similar ao processo de aquisição de conhecimento erótico. Pouco a pouco comecei a compreender o sentimento por trás da existência e da ação".

O marxismo era intelectual. Mishima estava cada vez mais preocupado com o físico, precisamente como expressão de ideias enraizadas em um tipo de drama primordial. O vislumbre intuitivo havia vindo enquanto o autor considerava a natureza da tragédia.

A tragédia, diz Mishima, "nasce quando a sensibilidade perfeitamente mediana momentaneamente assume para si uma nobreza privilegiada...segue-se que aquele que se aventura com palavras não pode participar nela. É necessário, ainda, que a 'nobreza privilegiada' encontre sua base estritamente em um tipo de coragem física... A tragédia demanda uma vitalidade antitrágica e ignorância, e acima de tudo uma certa 'inadequação'."

Por "ignorância", obviamente, Mishima não quer dizer estupidez, vulgaridade ou grosseria (Mishima era bastante preocupado com elegância, ainda que não como a compreendamos hoje), mas sim, um distanciamento em relação ao intelecto na direção do instinto. 

Inofensiva no Ocidente, a "inadequação" era talvez uma ideia mais assustadora no Japão da época de Mishima (e mesmo hoje), onde regras de etiqueta social são rígidas e complexas, e compreender o próprio lugar na ordem social é algo praticamente natural. Mas o herói trágico deve, claramente, ir contra a convenção de seu tempo. Ele é aquele que dá o passo para frente, assumindo o desafio de salvar a sociedade de alguma ameaça existencial, enquanto todos os outros seguem com seus afazeres mundanos.

É estranho, então, que Mishima sugira que o corpo físico é "estranho ao espírito", estando mais próximo das ideias. Não obstante, ao criticar aqueles que permitem que seus corpos se tornem feios, ele sugere que o corpo pode ser um veículo para o espírito. Uma barriga protuberante é um "sinal de preguiça espiritual", por exemplo. Este e outros traços não atraentes, diz Mishima, são "como se o dono estivesse expondo suas impudicícias espirituais por fora do corpo".

O autor equipara essa feiura física com a "individualidade". "Se", diz Mishima misteriosamente, "o corpo puder alcançar perfeita harmonia não-individual, então seria possível fechar a individualidade para sempre em um confinamento estreito". Mas a ideia de "perfeita harmonia não-individual" parece chave para o crescente interesse de Mishima no físico. Ele pôde escapar do mundo internamente e externamente feio através do aperfeiçoamento do corpo, fazendo disso sua orientação espiritual.

22/05/2015

Angel Millar - Espiritualidade, Marxismo e o Futuro da Religião

por Angel Millar

Tradução de Lucas Leiroz



Em uma das revelações mais surpreendentes do ano, “no que concerne teoria socioeconômica”, disse Dalai Lama em janeiro, “eu sigo sendo marxista”.

Religião, espiritualidade, socialismo e capitalismo têm, talvez, se cruzado por mais de um século no Ocidente, com movimentos resultantes se expressando em noções de “direitos”, ou, pelo contrário, conservadorismo social. 

O movimento da Teosofia, inspirado no hinduísmo e na antiga religião egípcia, buscou explicar a desigualdade social pelo Karma, e isso teve um impacto significativo no anticolonialismo na Índia e no Ceilão. Sufragistas e ativistas dos direitos das mulheres eram, no início, muitas vezes, espiritualistas do sexo feminino. E quem poderia esquecer os socialistas cristãos de inspiração marxista da Teologia Católica da Libertação?

Religião e espiritualidade também têm encontrado expressão no lado oposto do espectro político, “da direita cristã” pró-capitalista, ao uso nazista da imagética e pompa tanto pagã quanto cristã, ao interesse recente em Aleister Crowley pela extrema-direita (que a maioria dos devotos de Crowley, sem dúvidas, deploram, considerando a tendência de Crowley à quebra de regras e ao sexo atrevido).

Mas, enquanto a direita cristã capitalista ainda tem uma influência em partes dos EUA, a fusão de espiritualidade e anticapitalismo emergiu como a força mais significativa da esquerda, com o Occupy Wall Street e os seus protestos, sessões de ioga e meditação em massa. Fora da América, Dalai Lama se proclama economicamente marxista e o Papa Francisco ataca o capitalismo e a economia de "conta-gotas". 

A religião alcançou seus limites?

“Em países capitalistas há um crescente abismo entre ricos e pobres. No marxismo há uma ênfase na distribuição igualitária. Isso é crucial para mim.”, comentou Dalai Lama. 

Poucos duvidam que os ricos estejam ficando mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, mas se deseja saber por que Dalai Lama e Papa Francisco, bem como a direita cristã, passaram a pensar em economia por termos de capitalismo e socialismo, ou anticapitalismo – ideias políticas e sociais – em vez de buscar possibilidades dentro de suas próprias religiões, fosse com o Distributismo (a doutrina econômica católica com base na encíclica Rerum Novarum e na Quadragesimo anno do Papa Pio XI) ou noções mais recentes do “capitalismo do Dharma”.

É notável que só o islamismo, com sua "shari'a financeira" - e "hipoteca shari'a" e daí em diante -  chegou a um entendimento econômico proveniente de sua religião (embora muitas vezes pensadores islâmicos tenham sido influenciados pelo marxismo, como o caso de Ali Shariati, no Irã). Não é por acaso que o islã, de todas as religiões do mundo, é a mais assertiva no momento.

Com a guinada de Dalai Lama e Papa Francisco para pensamentos econômicos fora das religiões, sugerimos que, talvez, as religiões tenham se tornado incapazes de enfrentar as injustiças econômicas modernas. Ou que, talvez, hajam perdido a fé em si mesmas para fazer mudanças no mundo. 

Talvez pelo cristianismo ser frequentemente criticado por ter sido o motor histórico do imperialismo, do racismo e assim por diante, que ele busca, naturalmente, se fundir com o lado político contra tal injustiça, à direita, se manter firme numa espécie de identidade defensiva cristã, desprovida de qualquer elemento da mensagem de Jesus.

Mas, mais importante que isso, o moderno movimento espiritual do Ocidente, mesmo solto e fluido, ultrapassou igrejas estabelecidas como força de mudança social, reivindicando, com ou sem razão, que suas ideias sociais eram parte de tradições antigas nas quais o movimento se inspira.

Isso é raramente verdade, mas ainda assim, praticantes espirituais que também são defensores dos direitos das mulheres podem reivindicar a adoração de deusas etc. na antiga Europa ou Índia (embora a adoração de entidades femininas não signifique necessariamente a emancipação da mulher). O mesmo pode ser dito para qualquer outra crença social que seja imaginada como existente antes do cristianismo. Tais crenças podem não ser fundamentadas factualmente, mas isso é irrelevante quando as pessoas são motivadas por mitos, imagens, imaginação e ideias. É isso que nos dá energia. 

Capitalismo revolucionário ou a antiga rede renovada:

Christopher Hitchens gostava de descrever a si mesmo como “um socialista vivendo em um tempo onde o capitalismo é mais revolucionário”. É uma avaliação interessante, e que reflete o fato de, em muitos casos, os valores da centro-esquerda se entrincheirarem no mercado. Isso pode ser a venda de Che Guevara em sorvetes embalados (Cherry Guevara) ou a grande indústria lutando para abrir fronteiras, de modo a se beneficiar da importação de mão-de-obra barata, o capitalismo pode canalizar a esquerda e até mesmo ideias socialistas.   

Mas também podem muitos partidos de esquerda e praticante espirituais canalizar o capitalismo. “Muitos líderes marxistas”, afirma Dalai Lama, “são agora capitalistas em seu pensamento”. 

Estamos todos familiarizados com o termo “socialismo champanhe”. Para o socialista champanhe, ostentar crença na igualdade social sempre foi uma forma de justificar o fato de ter mais dinheiro que os outros. Quem deve ter mais dinheiro? O ético ou o antiético? Vocês veem, eles merecem isso. 

Assim também é por vezes com a adoção de formas ocidentais de espiritualidade. Como o pensador neo-comunista e crítico cultural Slavoj Zizek observou, o comerciante de Wall Street pode usar, por exemplo, a meditação budista ocidental como uma forma de lidar com as tensões do mercado. Ele pode se convencer de que tudo é “ilusão”, de modo que ele não está fazendo nada de errado em empobrecer as pessoas e enriquecer aqueles que já são mais ricos do que quase todos os outros, inclusive ele próprio.

Uma espiritualidade religiosa socialista? 

O que significa quando os líderes do budismo tibetano e do catolicismo romano estão apaixonados pela economia de esquerda? Além disso ser um reflexo, como o Papa observou, do abismo crescente entre ricos e pobres, parece indicar tanto uma perda de confiança nessas religiões e a possibilidade (principalmente para um cristianismo não-direitista) de ressurgimento. 

Carente por tanto tempo, talvez o cristianismo vá redescobrir uma espiritualidade cristã por detrás da economia. Este não é o caminho ideal para uma experiência mais gnóstica, mas é claro que o cristianismo precisa de mais do que de direita pró-capitalista e negócios como de costume, com a sua frequência de idas à igreja declinando. 

Mais que tudo, entretanto, isso parece sugerir que a religião (especialmente budismo e cristianismo) fundirá espiritualidade com economia.