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10/12/2017

Ernst Niekisch - Violência e Espírito

por Ernst Niekisch



A princípio, a violência e o espírito são antíteses. O espírito é o primeiro antagonista da violência. O espírito cresceu a tal extremo que, no fim das contas, ele se situa sempre contra a violência. A violência é sentida como ampla e maciça no espaço; o espírito tem ao seu lado o tempo, e em todo caso mostra ir mais longe com ele. Onde a violência se sobrepõe, o espírito mina o terreno em que ela descansa. Quando a pressão da violência cresce de forma desmesurada, o espírito organiza uma contrapressão que não pode ser controlada; onde a sua compulsão não deixa alternativa de escape, ele descobre portas traseiras. Ele destroi a reputação da violência, rouba sua boa consciência e a leva a um estado máximo de ridículo que é fatal para ela. Esta oposição primordial emerge historicamente nas mais variadas formas. Aparece como a polaridade do espírito e da espada, do santo e do heroi, do papa e do imperador, do sacerdote e do guerreiro, do letrado e do soldado. A violência é segura de si, se mantém autossuficiente para a certeza de sua irresistibilidade, ameaça intolerantemente todas as resistências com a destruição existencial; por sua vez, o espírito dá reconhecimento aos valores contra os quais pode resistir por um longo tempo, mas aos quais um dia inevitavelmente acaba se submetendo: ele cede perante ela, mas com um tom ressentido de desprezo como "crua", "desajeitada", "estúpida", "estreita", "intransigente", "bárbara", "imoral", para colocá-la em descrédito.  Este foi o mais decisivo êxito do espírito contra a violência: que ele se impôs como a instância legitimada para julgar. Assim ficou a reputação da violência à sua mercê. É parte de um de seus outros empreendimentos de guerra não lidar suavemente com essa reputação. Mas ao dar prioridade a se tornar seu próprio juiz, ele tomou o cuidado de não ocultar sua luz com modéstia. Ele era tão "superior" quanto a violência era "inferior", tão refinado quanto ela era crua, tão habilidoso quanto ela era desajeitada, tão amplo quanto ela era estreita, tão claro quanto ela era escura, tão perspicaz quanto ela era cega, tão livre quanto ela era escravizada, tão universal quanto ela era confinada.

01/08/2016

Ernst Niekisch - Por uma Política Revolucionária

por Ernst Niekisch

(1926)



"Mas isto tendo sido dito: Se assinarmos esta paz, nós estaremos sob a coação da força. Em nosso coração dos corações, discordamos dessa paz". - Vorwärts, 8 de maio de 1919

A política alemã é tal que não se pode ter outos objetivos que a reconquista da independência nacional, a ruptura dos grilhões impostos, a reconstituição de uma influência global relevante. Desdea perspectiva alemã, naturalmente nossa, não há nada mais importante que esses objetivos. Toda nossa política doméstica, social, econômica e cultural deve receber este impulso, sua linha geral e o espírito que a domina. O sentimento dessa necessidade está perto de se tornar onipresente!

Quantas vezes, ao deixarmos as preocupações da política doméstica dominar, nossa política externa foi deixada fora de nosso campo de visão. Há "grandes" jornais alemães que quase nunca falam em política externa, como se isso a tornasse parte das banalidades de nossa existência nacional. Em contraste, cada atraso na modificação da tabuleta do Tesouro Público, que continua no estilo monarquista, os preocupa em outra medida. Sem uma palavra a dizer, nem um pouco incomodados, não tendo a consciência silenciosa, eles se despojam do jogo da política global, por conta de nossa fraqueza, impondo a nós incontáveis humilhações, injustiças e investidas perigosas contra o futuro do Reich. Assim, grandes seções de nosso povo buscam pela causa de seu infortúnio exclusivamente dentro da situação doméstica. Eles esperam que será suficiente substituir algum alto funcionário, dissolver uma organização secreta, modificar uma tarifa de importação diferente, reduzir taxas alfandegárias, convocar ou dissolver o Reichstag, organizar novas eleições, que tudo vai mudar no interior do país. Eles ignoram o conteúdo do Tratado de Paz. Eles não sabem que o comissário a cargo das reparações é o homem mais poderoso na Alemanha, que nossas ferrovias e dinheiro estão em suas mãos. Eles não tem a ideia de expor o peso que nos esmaga e eles não entendem que o Plano Dawes, finalmente, é uma questão que afeta os salários dos alemães. O padrão de vida do trabalhador alemão é reduzido na medida em que pagamos as obrigações do Plano Dawes. O custo de vida para o trabalhador, de uma parte, e a Convenção Dawes além do Tratado de Versalhes, de outra parte, são incompatíveis. Rasgar esses tratados, revogar as obrigações que eles impõem, romper com os compromissos seria a única política alemã que salvaria o trabalhador de uma subjugação irremediável. Neste ponto, as necessidades do trabalhador e os interesses da nação coincidem: se ela ousar lutar por seu espaço vital e sua liberdade, ela liderará, ao mesmo tempo, a batlaha pela libertação de toda a nação. A missão nacional confiada a nós e a forma pela qual ela será realizada dependerá de seu futuro social e posição política.

Ninguém, nem mesmo em caso de loucura, pode, neste momento, visualizar a luta aberta. Isso demandaria táticas razoáveis das quais não dispomos. Mas nós poderíamos também lucrar com as vantagens de conjunturas globais, que nos são proibidas. É conveniente ter paciência. Não obstante, nós não devemos cair em uma paciência inativa, uma paciência de relaxamento e desmoralização. Nós devemos nos preparar para as grandes tarefas: morais, organizacionais e outras. A questão é saber se temos fôlego suficiente, se persistiremos, aguentaremos, se não nos acomodaremos preguiçosamente a nosso destino, se nós não aceitaremos frouxamente os fatos. Somos fortes, perseverantes, convictos na defesa de nossa causa, nossa fé, nosso futuro contra um mundo hostil e poderoso em excesso, mesmo que pareça absurdo, impossível e desvantajoso assumir essa missão? Vamos nos opôr com vontade inflexível, um espírito de resistência inabalável ao ataque de potências estrangeiras, despóticas, pretensiosas, violentas e intolerantes, se gabando de vitórias adquiridas sem combate? Se nós conservarmos infalivelmente essa vontade e este espírito, nós só permaneceremos em nossa situação impotente atual por um período que superaremos, que não vai nos derrubar e o abandonaremos com coragem.

É verdade que a força e duração da resistência é determinada pelo fato de que se apreende na consciência, instintivamente ou com conhecimento de causa, as fontes profundas e vívidas que alimentam os poderes contra os quais essa resistência deve ser dirigida. É hora de compreender que uma das origens de nosso infortúnio é a espiritualidade ocidental, essa espiritualidade que, com seus traços "liberais" e alegres melodias "progressistas" foi até capaz de conquistar os trabalhadores. Fielmente, ela reproduz a imagem de mundo dos capitães industriais ingleses e dos financistas franceses, como se ela pudesse realmente ser a expressão e objetivo da existência, do milieu proletário e seus desejos. Ser ocidental significa: usar a palavra liberdade, para fazer fraudes; se declarar partidário da humanidade, para preparar o caminho para crimes; destruir povos por meio de apelos à paz. A Grã-Bretanha, a "livre" Inglaterra, estrangulou indianos e egípcios. A França, generosa e humana, envenenou marroquinos e sírios. Essas grandes nações nadam no sangue de povos escravizados por virtude da missão "civilizatória" que é a deles. A paz "justa" que a eminência ocidental Wilson prometeu, essa foi a paz ditada para nós em Versalhes.

Nós contribuímos para os objetivos dos Estados vitoriosos se continuarmos a dar refúgio e tolerar seu espírito. Nós carecemos de confiança em nós mesmos, a garantia soberania, de nos prepararmos para dar um golpe, se instalarmos em nossa terra os princípios deles. Nessas condições, as explicações carecem de paixões, grandeza histórica e profundidade simbólica. O debate não vai mais lidar com qualquer coisa essencial, significativa ou tocar questões profundas. A Rússia compreende isso bem, quando sua independência foi ameaçada pela sobrepujante supremacia ocidental: naquele mmento, ela rompeu com tudo que não era de origem russa, com a cultura, a economia, as regras políticas e sociais do Ocidente, com o seu pathos e força invisível. Na Alemanha, porém, a situação é muito diferente. Em nosso país, não só indivíduos mas partidos políticos inteiros são fascinados pelo espírito ocidental. Por um longo tempo, certos milieus capitalistas, particularmente os da grande burguesia, tem se entregado, de corpo e alma, ao Ocidente. outros pensam ser útil, por razões econômicas, ganhar sua confiança. Há não muito tempo, o professor Bonn disse: "O monopólio nacional não pode mais se garantir de rendas e investimentos de capital habituais. É então que eles fraternalmente oferecem sua mão direita através das fronteiras, onde havia estado o inimigo, eles gritam: 'esqueçam o passado!'. Para salvaguardar seu monopólio, eles se tornaram cosmopolitas. 'Nas salas de reunião e na projeção de propaganda já se percebe o cheiro da confraternização de povos'." Para preservar seus lucros, eles se alinharam contra seu próprio país e bajulam franceses, ingleses e americanas na caça por saques. Eles vendem o futuro da nação para obter uma "cota mais alta no mercado de ações". Os defensores de um acordo com o Ocidente, cujo objetivo é fazer da situação criada por Versalhes permanente, são, no interior de nosso país, os agentes e advogados de interesses inimigos. Alguém que queira feri-los não está fazendo política doméstica, mas externa. É necessário que consideremos e tratemos como corruptores da nação todos aqueles que, para terem sucesso nos negócios, favorecem o enfraquecimento do espírito de oposição ao Ocidente. Isso se aplica igualmente àqueles "alemães" que apoiam ativamente a execução do tratado, que teriam suas próprias razões (sobre as quais eles não falam), na mesma ocasião embolsando milhares de marcos. Eles estão longe de nós, eles são estrangeiros e inimigos como todos aqueles que, invocando Versalhes, ganham a vida. A revolta e resistência sem trégua contra eles e contra tudo que é ocidental, dentro e fora de nossas fronteiras, deve se tornar nossa atitude natural.

Certamente, isto é revolucionário. Mas não se deve deixar dúvidas: isto quer dizer, ou somos um povo revolucionário, ou atolaremos na lama, e deixaremos de ser um povo livre para sempre. 

23/10/2015

Ernst Niekisch - Sobre "O Trabalhador" de Ernst Jünger

por Ernst Niekisch



"A ideia do Estado para o trabalhador deve emergir. Isso não significa, é claro, que todo mundo deve a partir de então trabalhar em uma fábrica ou que apenas os trabalhadores fabris devem ser considerados como possuindo valor. Sua característica essencial seria esta: a lei fundamental deste Estado decidiria que o trabalho, a realização de uma tarefa (Leistung), deve ser sagrada, mas sagrada apenas na medida em que tende a servir ao Estado  e em que lhe dá significado. Trabalho que, de uma maneira ou de outra, seria fundamentalmente feito desde a perspectiva do Estado, seria a pedra fundamental da sociedade e do Estado operário". (Ernst Niekisch, Gedanken über deutsche Politik, Widerstand, Dresden 1929).

Desde 1918, a Alemanha tem estado amordaçada pelo mundo burguês e imperialista: sua servidão resulta diretamente da lógica desse mundo burguês e capitalista. E ainda assim, a Alemanha sente que faz parte deste mundo e pretende continuar a ser parte dele. Melhor, ela parece responsável pela sobrevivência desse mundo, assim limitando a escolha de meios à sua disposição para a luta de libertação. Ela se proíbe de lutar por uma ordem na qual a lógica do mundo burguês e imperialista, que forçosamente estrangula a Alemanha, não tenha caminho, porque este mundo seria inteiramente destruído. Enquanto a Alemanha estiver a serviço do mundo burguês e imperialista e de sua manutenção, ela reforçará sua própria condição de escravidão. Ademais, sua participação na Liga das Nações já é um símbolo, já que nesta instância, ela demonstra para si mesma a intangibilidade das relações de força criadas pelo Tratado de Versalhes.

O combate da Alemanha por sua libertação, assim, carece de uma dimensão absoluta; ele não possui essa profundidade que lhe permitiria perscrutar as grandes profundezas da existência humana. Uma situação sem esperanças, que esquarteja a Alemanha em todos os horizontes. Carecendo de oposição ao mundo burguês imperialista e sua lógica, a Alemanha dá razão a este mundo e sua lógica, equivocadamente se entregando.

Em seu mais recente livro, O Trabalhador, Ernst Jünger mostra de maneira magistral como, sob o plano fundamental, podemos eliminar, liquidar o espírito do mundo burguês. Jünger não teme olhar as coisas de frente. Ele não cede à tentação de embelezar. Ele diz o que ele vê. Ele encontra as implicações adequadas aos fatos que ele afirma. E ele permanece duro e exigente em relação a si mesmo: ele não tenta deformar as imagens que passam diante de seus olhos se permitindo falar nas esperanças que ele poderia nutrir secretamente em seu coração. Aquele que quer interpretar uma época não deve ser um covarde que só é capaz de se colocar ali onde se deseja estar! Ele deve, ao contrário, penetrar nos segredos dessa época e descrevê-los com uma objetividade a todo tempo, ainda que o que ele descubra seja anormal, horrível e desafie todo cálculo. Inúmeros são aqueles que descem ao âmago de uma época e só emergem com seus fantasmas. Poucos podem extrair a realidade. Jünger é um desses raros poucos.

Jünger sempre esteve interessado na tecnologia e nas leis que a governam. A tecnologia transforma o mundo. Ela lhe dá bases inteiramente novas. Ela resulta em uma relação de um novo tipo entre homem a natureza que ele submete a seu domínio. A máquina sempre tão somente orientou forças naturais; é a forma que permite seu uso. O homem se apossou da energia do cosmo e desde então, seu espaço vital perde sua dimensão infinita, se torna transparente, calculável, limitado. A tecnologia é o mestre do mundo externo, quanto mais ela se dedica a ele, mais a atenção dedicada ao mundo interno parece extemporânea e estéril. Comparada com o labor da tecnologia, a especulação metafísica se torna uma distração inoportuna. Um novo tipo de homem aparece, para o qual o domínio de instrumentos técnicos é mais importante que a "flor azul" da introspecção. Um novo tipo de homem, que clama por novas formas de vida. Mas essas são elas mesmas marcadas pela atmosfera de tecnologia que impregna todas as coisas. O novo homem não é um indivíduo inexaurível, nem uma personalidade ricamente plena; ele é um tipo, e, enquanto tal, ele está ligado a seus semelhantes por uma similaridade, uma conformidade, que é em substância a expressão de um certo primitivismo ligeiramente insosso. Esta comunidade de traços e esta permanência do essencial cria entre todos os representantes do "tipo" laços permanentes, laços fundados em um "pertencimento existencial". Estes laços mostram ao mundo exterior que o tipo, situado no centro da existência, está em perfeita harmonia com seus semelhantes. Não é uma comunidade mecanicamente fundada, do exterior, entre indivíduos incomensuráveis, mas um coletivo que nasce dos simples fato de que todos os representantes do tipo são talhados segundo uma figura uniforme.

O "tipo" que atua aqui é o homem da era tecnológica; sua face já está perfilada nos traços duros e simples do soldado nos últimos anos da guerra, com o combate de máquinas e "material". Foi ele quem deixou para trás do que já pertence hoje ao "romantismo rural"; todas as atitudes burguesas contidas nessas vastidões imaginárias. "Não, o alemão não é um bom burguês, e é onde ele é o menos burguês que ele é o mais forte". Era necessário que os alemães desconfiasses da vontade de se tornar burguês exatamente agora! A roupagem burguesa começou a "parecer ridícula, como todo o exercício de direitos cívicos, notavelmente o direito ao voto"; a roupagem burguesa, principalmente, deu ao alemão uma "sedução infeliz". Já esquecemos o lado cômico que abarca um brilho tão incomum quando a defesa bastante séria de Hans Grimm em favor da "honra burguesa"? Ainda que nos sintamos entusiásticos por uma causa que, para falar a verdade, não concerne o homem alemão. Jünger é consciente de todas as consequências de sua posição: a tecnologia implica em um assalto contra todas as afiliações, incluindo aquelas "do burguês, do cristão, do nacionalista" consideradas as mais naturais. Este é o fronte da reação, cujos esforços para se restabelecer "estão necessariamente ligados com tudo que é o mundo poeirento e trivial: romantismo, liberalismo, conservadorismo, a igreja, a burguesia". Também, ele acrescenta, com a ideia do "estado" (Stand). O advento do homem que corresponde ao "tipo" é, para ele, cada vez menos compatível com a ordem dos velhos dias. "O besteirol em que se acredita nos domingos e velhos feriados públicos" parece cada vez mais espantoso. Ao ouvir esta "onerosa mistura de desprezo e presunção dos discursos oficiais feitos pelo governo, patentemente nacional e cristão, que jamais carece de um apelo à cultura", nós perguntamos como "tal verniz de idealismo inconsistente, pintado de romantismo, ainda pode ser possível". Defrontado com a fofoca de ateístas alemães, Jünger, que se declara filho, neto e bisneto de gerações inteiras de ateus, e em cujos olhos a própria dúvida já é em si suspeita, afirma: "O declínio do indivíduo anuncia ao mesmo tempo o último espasmo da alma cristã. E quanto a nós, devemos compreender que entre a Figura do Trabalhador e a alma cristã, ele não pode mais manter a relação entre esta alma e as antigas imagens de deus".

Onde encontraremos a ponte que reunifica Jünger com a cultura burguesa, a civilização ocidental e a tradição cristã? Até este dia, os pobres nacionalistas e patriotas burgueses ainda tem que entender que eles são parecem ridículos a cada vez que reivindicam laços amistosos com Jünger!

O "tipo" corporifica a si mesmo, afirma Jünger, na Figura do Trabalhador. Esta não corresponde ao "Quarto Estado"; esta é "uma visão burguesa que considera a qualidade do trabalhador um 'estado', e ademais esta interpretação é inconscientemente falaciosa porque retorna a aprisionar as novas aspirações em um velho quadro, levando assim a prolongar um estado de submissão". A Figura do Trabalhador está apta a dominar o mundo; fundada na tecnicalidade do mundo; ela porta em si a semente da totalidade. Além disso, todos os outros tipos humanos parecem obsoletos, retrógrados, românticos, e devem se dissolver até que não tenham mais terra ou raízes, ou ar para respirar.

Procurar na Figura do Trabalhador pelo significado do "tipo" é um caso efetivamente justificado; esta interpretação não é nem arbitrária, nem forçada. Ela trai, ao contrário, uma vontade política guerreira, com uma essência antiburguesa. O burguês é simplesmente posto de lado enquanto forma de existência. Incapaz de resistir à veemência com a qual negamos seu direito à existência, ele está acabado declarando-se perdido! O advento da Figura do Trabalhador no nível de um tipo planetário remove o burguês de seus últimos refúgios na terra. De resto, mesmo sua ideia já está um tanto exterminada; de pouca importância, na prática, nós esfomeamos seu corpo, seu resíduo lamentável, nós o penduramos na parede, ou nós o exterminamos de uma maneira ou de outra! Encarado pela Figura do Trabalhador, não há mais qualquer lugar para o burguês. Na maneira pela qual o "tipo" descarta o burguês, há algo de implacável. A superioridade da Figura do Trabalhador resulta de suas relações com a tecnologia: "o papel que a tecnologia desempenha nesses processos é comparável com a vantagem que os primeiros missionários cristãos, formados nas escolas do Império Romano, possuíam quando confrontados com os antigos duques germânicos".

É esta superioridade que é a base do nível imperial da Figura do Trabalhador. "A soberania, isto é a tomada de espaços anárquicos por uma nova ordem, só é possível hoje como a representação da Figura do Trabalhador, que professa uma validade planetária". O fato importante é "que se torna possível novamente levar na terra uma vida em grande estilo segundo padrões elevados". O novo sentimento-do-mundo (Erdgefühl) que anima a Figura do Trabalhador concebe o globo terrestre como uma unidade; é "um sentimento do mundo suficientemente audaz para realizar grandes obras, e suficientemente profundo para compreender tensões orgânicas".

As teses jüngerianas apresentam uma similaridade perturbadora com os fundamentos da doutrina marxista. O advento da Figura do Trabalhador como Figura dominante relembra incontestavelmente, profundamente, o Prolekult. As pretensões planetárias dessa Figura constituem uma justificativa filosófica para a ditadura do proletariado, e a intransigência com a qual a burguesia se verá privada de seu direito à existência é reminiscente da luta de classes. Finalmente, o sentimento-de-mundo planetário que caracteriza este "tipo" ecoa de certa forma o espírito do internacionaismo proletário chamado a liderar a totalidade da humanidade. Porém, a trincheira que separa Jünger das posições fundamentais que o marxismo sustenta é impossível de ultrapassar: com Jünger, o que aparece claramente como coragem diante da realidade e como uma descrição audaciosa do que virá, é em sua contraparte marxista, uma imagem inventada, fantasiosa, de sentimentalismo humanitário, embebido em amargura. Ademais, esta vizinhança ideológica da qual falamos não vem de Jünger ter se submetido a postulados marxistas; é suficiente dizer que o marxismo, também, constitui uma cosmovisão específica ligada a uma existência acompanhada pela essência da tecnologia. Mas o marxismo ainda dá uma resposta sentimental à tecnologização da existência. A resposta de Jünger está exclusivamente impressa com "realismo heróico".

Nós podemos traçar os paralelos do mesmo tipo entre a visão que Jünger mantém de sua época e a realidade russa. Nenhuma parte da Figura do Trabalhador foi imposta de uma maneira mais definitiva do que na Rússia bolchevique. Em nenhum outro lugar o caráter do trabalho abarca a existência mais sensivelmente, nenhuma parte da Figura do Trabalhador é um elemento mais determinado do que a mobilização total. As teses de Jünger são às vezes percebidas como abstrações conceituais, como transfigurações filosóficas do mundo e da realidade russa. Mas em verdade elas não são nada disso. Jünger apenas mantém uma relação interior viva com a tendência irresistível do mundo na direção da tecnologia, que já sublevou as estruturas da Rússia e se prepara para transformar igualmente outros povos. Se tentarmos redesenhar as rotas impressas por esta tendência global e fazer uma descrição geral precisa, estaremos sempre surpresos ao constatar que as realizações específicas e concretas do espaço bolchevique provam que Jünger está certo. Ele não é um bolchevique, mas ele testemunha apesar de si mesmo o quanto a Rússia bolchevique está em acordo com a tendência dominante do mundo.

A Figura do Trabalhador evolui a um nível totalmente diferente do que o proletário no sentido apropriado. O espírito da tecnologia muito simplesmente se tornou segunda natureza nele; ele domina com mão leve, com uma certeza inteiramente natural, a coleção de ferramentas técnicas. A precisão do técnico, a imaginação realista do engenheiro, a coragem do grande construtor, tais são as virtudes que ele anima. Mas seu mais poderoso motor é uma vontade de dominação que objetiva organizar o mundo em seu alcance global e lhe dar um novo equilíbrio. Para ele, a ideia de planejamento não está ligada a qualquer aspiração nostálgica por uma felicidade radiante, mas deriva do espírito construtivo da tecnologia, graças ao qual o universo será remodelado.

A obra de Jünger é um boletim, um relatório preliminar sobre um mundo que ainda está em processo de devir. Na medida em que compreendemos seu dialeto, nós já partilhamos desse mundo. Também, este é, sem falha, um livro no qual o espírito das grandes cidades respira. E é, ao mesmo tempo, em suas ramificações mas estringentes, um livro protestante. A mais moderna racionalidade, secularização e tecnicalidade da vida são consequências do protestantismo, e nenhum sonha em contestar sua paternidade, ainda que o protestantismo bem gostaria de deserdar sua prole virando hipocritamente suas costas. Roma sempre soube disso e Roma sempre disse isso. No final das contas, o bolchevismo é Lutero na Rússia.

Não há outra escolha: na linha traçada por Jünger, a Alemanha deve trabalhar contra o Ocidente, contra Versalhes. Mesmo que isso nos cause repulsa, mesmo que isso atinja nossa "substância". Contra Versalhes todos os meios são válidos; se um deles se provar eficaz, então deve ser usado, ainda que isso nos faça adoecer. Porque há uma "coragem diante do abismo", que nos permite saber com certeza que não cairemos ao chão e que apenas o salto no abismo permite a conquista de um espaço no qual possamos fazer trabalho histórico. Se o reino da Figura do Trabalhador alcançar o espaço alemão, então ele abrirá para nós um território que se estende "do Vlissingen a Vladivostok"; essa não deveria ser para nós a garantia do ponto em que o alemão poderá abrir sua porta para o ar livre?

Existe uma preguiça e suavidade alemães que sempre tendem a se expôr antes da derradeira data da "decisão". Com sua precisão metálica, suas visões afiadas, o livro de Jünger demanda a decisão mais uma vez. É necessário não conceder à lassidão e torpor alemães uma última trégua.


05/01/2012

A Democracia Burguesa

por Ernst Niekisch


A democracia burguesa é uma forma básica de "integração", de incorporação das massas no organismo social - sua subordinação a uma direção política. Não é de nenhum modo a direta autodeterminação do povo tal e como tantas vezes costuma autodefinir-se. É muito duvidoso que, exceto para grupos numericamente pequenos, possa chegar a ser realmente um veículo possível para uma autodeterminação real. Na expressão "soberania popular" fica claramente indicado que a relação de soberania não ficou de nenhum modo superada. Chega-se a esta conclusão, quando contempla-se a democracia em seu desenvolvimento histórico como o resultado de lutas sociais e políticas internas nas Nações. Par isso, é necessário considerá-la em sua relação com as outras duas formas de soberania, a monarquia e a aristocracia.

A monarquia é a soberania de uma família. Através de seu monopólio da soberania, eleva-se como a família mais distinta. Ela necessita de uma grande autoridade para poder manter-se em sua posição sem ser discutida. Não obstante ela somente conservará sua autoridade impoortunada sempre e quando se mostre como administrador e fiduciária dos poderes particulares estamentais, assim como dos interesses gerais do país. Os interesses particulares estamentais são os que lhe outorgam proteção e defesa; quando estes interesses veem no monarca o garantidor de seus privilégios, este pode chegar a converter-se para eles, inclusive, no símbolo de sua própria existência. Tão estreitamente chegavam a vincular-se os interesses estamentais com os da família que representava a monarquia, que com esta existiam e caíam. Os estratos mais baixos da população estavam expostos à exploração das classes mais privilegiadas, porém por outro lado disfrutavam de um mínimo de proteção que lhes permitia seguir existindo; e este mínimo foi o que permitiu que se deixassem dominar pela ordem político-social da época.

A aristocracia, aqui a soberania de uma nobreza hereditária, se posiciona perante a monarquia, a soberania de um só, sobre seus próprios pés. O monarca já não é a figura representativa e organizadora de uma determinada ordem social, esta ordem social busca sustentar-se por si mesma. Os membros estamentais guardam para si mesmos as honras que eram concedidas a uma família dominante na monarquia. Eles conformam um grupo mais ou menos fechado, entrar nele eleva um indivíduo ao mais alto graude distinção na sociedade. A aristocracia é o poder ordenador, a cabeça do corpo social. Todos os privilégios pertencem-lhes devido a sua função diretora. É sacrílego, como no caso do monarca, observar-lhes ou seus atos de u modo crítico para os membros dos estratos inferiores da sociedade. As câmaras de tortura de Veneza, foram um dos meios mais terrivelmente intimidatórios para silenciar qualquer intenção crítica. A massa é protegida como na monarquia, seu bem-estar é garantido unicamente através dos corpos estamentais. Às massas falta a capacidade de se protegerem por conta própria, carecem de um nível de preparação suficiente, são mantidos na ignorância e este nível de dependência das classes superiores permite a exploração. Para as classes altas- eles são o populacho estúpido e inculto incapaz de saber por si mesmos o que lhe convém - e em sua maioria as classes populares também aceitam esta idéia sobre si mesmas.

A democracia surge como movimento de protesto e oposição frente à ordem própria da monarquia e da aristocracia. Membros dos estratos inferiores, sem autoridade nem direitos na sociedade estamental, que devido a uma série de transformações econômicas e sociais lograram alcançar a riqueza e o bem-estar, não querem seguir encontrando-se no desprezo social e na incapacidade política na qual se encontram - são os burgueses. Eles se erguem como porta-vozes das massas mais desfavorecidas, as quais encontram-se igualmente longe dos privilégios estamentais e por isso resulta-lhes fácil seduzir. Nesse enfrentamento contra os privilégios formam uma frente comum, burgueses e massas proletárias, as diferenças de interesses entre uns e outros se desviam e desaparecem diante do inimigo uniforme. Frente a monarcas e aristocratas se proclamam como "Povo". O sentido de seu movimento é expulsar a nobreza. O "Povo" que se quer autodeterminar, é em realidade um grupo de plebeus enriquecidos, novos ricos, aqueles burgueses que lograram chegar a algo economicamente e que agora também querem alcançar algo social e políticamente. Este grupo usa o idioma do homem comum para obter assim o posto de representante dele, sua direção, frente aos privilegiados. Assim conseguem eles um apoio nas massas com o qual podem transformar a ordem anterior para seu benefício particular. A democracia é o governo, a soberania, do estrato burguês, que convenceu às massas que entre eles não existe nenhuma contradição de interesses, que quando eles se autodeterminam também a massa proletária logra por sua vez a autodeterminação para si mesma.

Foi uma ficção, porém a ficção funcionou e foi aceita como verdade. O "Povo" elevou-se à soberania frente aos poderes anteriores, este era o argumento da fábula construída. Em realidade o estrato social dos novos ricos, os burgueses, somente haviam empurrado a aristocracia contra a parede para colocar-se ela própria em seu lugar; eles simplesmente mudaram a ordem de soberania a seu favor. A ação contra os antigos senhores fica de todo completa, quando estes se veem forçados a integrar-se na nova ordem. 

Dos aristocratas, tal e como ocorreu na Inglaterra, devém a alta burguesia. Este é o modo mediante o qual eles descenderam ao "Povo". Porém, o Povo, as massas, permanecem como objeto do poder, a nova classe alta, privilegiada, não vai renunciar de nenhum modo a seu nível superior a favor deles. Somente que agora a massa não deve perceber que ela permanece abaixo. A nova classe alta não se mostra em sua condição privilegiada tal e como anteriormente sucedeu com a aristocracia ou a monarquia. Ela se disfarça como se fosse apenas mais uma, ela não chama teatralmente a atenção; ela aparece como se não existissem diferenças. Ela tampouco fecha-se inacessível, senão que aceita com gratidão os elementos mais brilhantes, e alpinistas, do proletariado. Não somente para se rejuvenescer, senão acima de tudo para retirar às massas as melhores forças fazendo-as suas e prevenir também o aparecimento de qualquer movimento de oposição perigoso. Pois um esforço concentra agora a maior atenção entre a nova classe dirigente: não permitir nenhuma consciência de oposição entre eles e a massa explorada. Cada burguês apresenta-se como um "filho do povo"; a igualdade de direitos, que é introduzida formal e pomposamente, deve estender a aparência de que todos são iguais. Com cautela se desviam os olhares das grandes diferenças de patrimônio, privilégios e poder; estas são tratadas como casualidades insignificantes e sem importância. A propaganda também pode construir ou exagerar as histórias de filhos do proletariado que alcançaram sua privilegiada posição. As massas devem acreditar que eles e a classe alta são uma única coisa; precisamente é esta sensação de unidade, na qual se encontram a massa e a classe dirigente, a premissa básica de que surge na democracia a idéia de Povo como acontecimento. A idéia de povo, una a classe dirigente e a massa; a democracia é o aparato político mediante o qual esta unidade aparente é realizada a nível institucional.


Democracia é um conceito político originário da antiga Grécia. Naquele tempo nunca foi entendida para conceder direitos aos escravos, senão que somente os cidadãos lvires contavam como "povo". A assembléia popular na ágora era soberana na medida em que se apropriava de toda competência de governo, cada posto da administração podia ser ocupado por qualquer cidadão livre por votação ou por azar. Onde as instituições funcionavam, era insinuado a cada cidadão livre o sentimento de que ele tinha coisas para dizer e que podia participar. Porém os verdadeiros governantes, os ricos e poderosos, permaneciam na sombra; desde a escuridão compravam votos, moviam seus assalariados, colocavam suas numerosas influências em funcionamento - sendo os verdadeiros governantes, por cima dos incautos que viviam na fantasia de que participavam em tudo aquilo. Justamente a circunstância de que atuassem desde as sombras, desde onde não era possível atacá-los ou capturá-los, porém manejando as massas em público, marcou a superioridade da democracia frente à aristocracia - esta perdeu sua "popularidade". A democracia era uma coisa do povo, da massa, e não a mera questão de um escolhido ou de uma minoria. O prestígio da democracia não ficou excessivamente afetado pelo fato de que em muitos casos o grau de participação se limitasse em critérios de nível de patrimônio. A eliminação dessas limitações, que normalmente deveriam ter sido o caminho natural para uma verdadeira realização da "soberania popular", foram contempladas como degeneração, depravação, decadência e estigmatizado como Oclocracia, "o governo do populacho". Em realidade, o governo do populacho consistia naqueles casos nos quais a capacidade de controle e influência dos poderes fáticos eram interrompidos ou anulados por algum motivo, as massas ficavam liberadas e não seguiam sentindo-se ligadas a suas obrigações para com a classe dirigente, fracassando assim o objetivo fundamental da democracia. 

O desejo de toda classe dirigente é manter os governados em calma, adormecer suas intenções críticas, não permiti que aflorem dúvidas sobre o sistema utilizado, impossibilitar seus questionamentos, e fechar-lhes a boca se for necessário. A ostentosa representação da aristocracia feudal, surpreende, intimida, faz emudecer, leva os plebeus à admiração e ao maravilhamento, que assim baixam a cabeça submissos. A força exercida, a exploração, mostra-se suportável porque os que a exercem se impõem através da excelência de seus cenários. Aquilo de que se trata é de marcar as diferenças ao máximo convertendo-as em invioláveis. A nova aristocracia do dinheiro, por sua vez, não faz uso desse aspecto imponente: ela educa parasitas e não servos submissos. Ela tem todavia uma necessidade maior que os antigos terratenentes de se disfarçar, porém nesse caso de um modo totalmente distinto. A "soberania do dinheiro" move os mais altos instintos do homem contra si mesmo, se ela é contemplada como dominação. Quando se mostra alguma contradição contra ela, ela deve em seguida apaziguar, encobrindo e negando seu caráter dominador e explorador. Não existe nenhum órgão que disfarce melhor o caráter dominador da "soberania do dinheiro" que a democracia; ela é o mais notável encobridor do caráter dominador da plutocracia.

No lugar da ágora da antiguidade, apresenta-se nas democracias modernas o parlamento; este é um comitê do povo. Este é votado, e quanto mais generalizado esteja o direito ao voto, mais democraticamente válido ele será considerado. Quando todo cidadão maior de idade, de qualquer sexo, sem importar seu emprego ou posses, pode votar e ser votado sem reservas, se cumpriu com a exigência democrática essencial - o sufrágio universal. Toda a atividade política do povo consiste em seu ato de votar, é o ato mediante o qual cede seus poderes e soberania a seus escolhidos. Esta cessão de poder deve ter lugar sobre bases convictas: o povo em sua massa é totalmente incapaz politicamente, é necessário um órgão para a ação política, que o represente e dirija. O parlamento é esse órgão.

Agora exige a lógica democrática que este órgão seja algo mais que cenário ou um ponto de expressão e desenvolvimento da oposição no qual seja possível tê-la controlada tal como sucedeu na Alemanha até 1918. O "Estado" é segundo sua essência a substância da burocracia administrativa, judicial e militar que é estabelecido e organizado para a observação dos interesses de uma classe dominante; ele é o instrumento de dominação da classe dirigente. A democracia tem a tendência de desmontar toda forma de vida própria a esta burocracia. O funcionário deve ser uma mera ferramenta, sem espírito nem caráter próprio, a serviço do Estado, que se encontre em uma dependência sem condições do parlamento. Deve ser unicamente especialista em resolução de tarefas, porém sem pensar por si mesmo. Isso já faz o parlamento por ele.

Todo povo está dividido em seu seio pelas contradições de interesses das diversas facções e sensibilidades que convivem em seu seio. Estes interesses encontram nos partidos seu órgãos de expressão. No parlamento é levado a cabo um compromisso: aquele que se subordine a uns determinados códigos baseados nos interesses gerais dos cidadãos, aos quais se devem subordinar todos os interesses particulares ou de partido. Este "interesse geral" vem garantido na base constitutiva dessa ordenação e sua posta em dúvida é um ato praticamente sacrílego dentro da ordem democrática. Somente os partidos que se comprometam com estes "valores" serão considerados como "sérios", enquanto que aqueles partidos que não garantam serão perseguidos, humilhados ou marginalizados. Desse modo a democracia permanece como uma organização de dominação burguesa, cujo funcionamento está garantido sempre e quando as massas não usem seu direito a voto como arma contra os interesses burgueses - quer dizer, sempre e quando sigam votando nos partidos "sérios" (constitucionais). Se isso chega a suceder, mostram-se os interesses burgueses imediatamente deixando muito claro que estes não estão dispostos a permitir que estraguem seu brinquedo sem reagir.

A democracia burguesa moderna é a realização do sistema parlamentar. Esta é a maquinaria mediante a qual a determinação geral popular é transformada em poder em mãos de uma minoria com poder decisório nos acontecimentos práticos do dia a dia. O efeito que esta deve levar a cabo é o de que o Povo viva no convencimento de que nada acontece sem seu consentimento expresso.

25/08/2011

Sobre a questão de Classe

Por Ernst Niekisch


Somente as massas trabalhadoras são as verdadeiras criadoras da História, e o verdadeiro socialismo somente pode ser construído pelo trabalho criador de milhões de trabalhadores”.

O conceito de Classe possui um sentido duplo. Por um lado expressa a constatação de um fato: A sociedade se divide em dois grandes grupos, dos que possuem os meios de produção e o grupo dos que não possuem nenhuma porção destes meios de produção e que, por isso, caem na dependência dos primeiros. O primeiro grupo está conformado pela classe dos proprietários, os burgueses, e a segunda é a classe trabalhadora, os proletários. Por outro lado, a Classe é a parte politicamente ativa da classe trabalhadora, que é consciente de sua situação e que está determinada a transformá-la.

A formação do conceito de Classe exige uma especial consciência, do mesmo modo que, em seu momento, o exigiu a formação de uma consciência estamental (na sociedade feudal), ou de cidadania (nas democracias burguesas). Não é certo que o trabalhador industrial, simplesmente por sua condição social, forma automaticamente parte do coletivo politicamente ativo da classe proletária. São necessários conhecimentos e, sobretudo a vontade resoluta de incluir-se na classe do proletariado. Somente se pertence à classe trabalhadora, em um sentido de luta, quando se quer pertencer a ela. Somente uma limitada porção dos proletários está, neste sentido, capacitado, sabe o que quer. Um se eleva sobre a massa quando toma consciência de classe, torna-se então advogado dos interesses proletários e, caso seja necessário, em revolucionário profissional, funcionário ou dirigente. Os trabalhadores com consciência de classe se convertem nos eleitos, a elite de uma vanguarda de combatentes da causa da classe trabalhadora. Somente eles sabem o que necessita o proletariado, suas carências, e somente eles estão em situação de compreender e tomar conta de seus interesses com êxito e resultados. É assim como a idéia de classe se converte também em principio forjador de uma nova elite (elite que superará as elites aristocráticas da sociedade feudal e as elites burguesas das democracias capitalistas – uma nova elite de, e para a classe trabalhadora. Uma elite, além disso, baseada na Técnica).

A perspectiva de classe contém um propósito agressivo. Para a burguesia, o sentido da idéia de Nação foi de ocultar que as diferenças entre proprietários e despossuídos tivessem significado algum; a democracia parlamentar também caminha para um encobrimento do mesmo tipo. É o axioma do estado burguês, que as diferenças econômicas são questão da esfera privada, e nunca uma questão a ser considerada no público e político.

A perspectiva de classe aponta, sem contemplações, contra as distintas tendências encobridoras burguesas. Ele não só leva à luz o duro significado destas diferenças, mas enfatiza também seu papel decisivo e central. Enquanto pôde-se esconder seu peso, pôde o proprietário burguês, mediante sua útil afirmação de igualdade, manter-se na crença de que não existiam diferenças importantes entre eles, a classe dirigente, e os despossuídos, a classe explorada. A perspectiva de classe rompe com esta crença nas mentes dos despossuídos, um acontecimento que sacode os fundamentos da ordem burguesa. A perspectiva de classe fundamenta a solidariedade entre os despossuídos frente aos possuidores. O burguês tem como conseqüência todos os motivos para odiá-la profundamente. É compreensível o quão repelente é, para o burguês, quando ouve falar da “classe burguesa”; é a fala do “proletariado incitado” que, para sua desgraça, se esclareceu sobre eles.

Existem identificações sociais de todo o tipo que, no passado, foram de grande efetividade. O que para os aristocratas feudais o foi Deus, para a burguesia o foi o “Povo” (ou a cidadania). Isto é, as massas para os trabalhadores com consciência de classe.

O destino das elites está tão ligado aos princípios que as legitimam que ela existe e morre com eles. Isto é particularmente válido quando este princípio é descoberto e submetido à especulação. As especulações podem ser alienantes ou desalienantes; isto depende se a mente especuladora pensa para elite, ou contra ela. No primeiro caso, converte-se este princípio em portador de todos os valores positivos, é a promessa e base de toda realização; no segundo, em troca, é fonte de todas as desgraças. A mesma posição que se tenha frente à elite na prática toma-se, também, como principio no teórico.

A elite da classe trabalhadora, aqueles que alcançaram a consciência de si mesmos e de sua própria situação, que se reuniram ao redor do estandarte da consciência de classe, especulam, em conseqüência, sobre a “massa”. Escuta o pulsar da massa, se dobra ante sua vontade. O trabalhador com consciência de classe se desvanece na massa, deseja somente cumprir sua vontade, ser arrastado por ela. Não ousa dar nenhum passo por sua própria conta e responsabilidade, qualquer movimento deve ser aprovado pela massa.

A Nação já não pode seguir com sua ordem de camadas sociais; estas já foram liquidadas, a burguesia não teve escrúpulo algum com os aristocratas. Nenhuma elite deveria existir mais além da Nação; qualquer um que estivesse à margem de suas noções, foi qualificado de antinatural e foi desenterrado, perdeu seu direito de existir. Não menos intolerante deve ser a Classe Trabalhadora. Nenhuma outra elite deve existir paralelamente a ela. Somente quando se consiga liquidar os últimos restos da elite anterior, se poderá alcançar a sociedade sem classes. Esta carecerá de classes porque a classe do proletariado terá abarcado a totalidade, e sua exigência por ser o único órgão da massa não deverá voltar a ser posta em questão por nenhum poder social.

Cada elite tem suas armas particulares para impor-se. O antigo regime (feudal-estamental) confiou na espada. Com ela, derrotava a todos que ousassem levantar-se contra sua ordem e procurava-se o respeito e a distância que lhe eram tão necessários. O Estado burguês confiou em seu dinheiro. A possessão, que determinava o nível de privilégios e oferecia os meios de se financiar uma existência melhor, assim como a compra da servidão e da submissão, com a qual os proletários acabavam sendo os que carregavam todo o peso social. A classe trabalhadora fundamenta seu futuro no poder da Técnica. Embora os estados burgueses já haviam compreendido e desenvolvido o poder da técnica sobre sua tutela, isto só foi feito desde a perspectiva da rentabilidade; se não era rentável, não se desenvolvia. Além disso, este interesse na técnica centrou-se nas energias da Natureza; dominar as forças da natureza foi a meta da técnica para eles. A sociedade poderia abandonar-se a si mesma. Somente a desgosto, e obedecendo a força das circunstâncias, começou-se a organizar ela também na Técnica. A classe, em troca, quer a totalidade da capacidade da Técnica; quer mobilizar tanto as energias naturais, quanto as sociais dela. Ela calcula o imenso poder que possui a Técnica. A sociedade, em seu conjunto, será uma grande maquinaria e aquele que tenha suas mãos nas alavancas e botões será seu condutor na totalidade. A classe trabalhadora sente-se chamada pela História a manejar estas alavancas e botões decisivos.

02/08/2011

A Técnica, Devoradora de Homens

por Ernst Niekisch

I

A eclosão do individualismo e o aperfeiçoamento da técnica conformam dois fenômenos paralelos. Em um princípio, de uma forma apenas perceptível, tímida, o homem corre- ingenuamente - o véu que cobria os segredos sem que isso custe-lhe a vida. E descobre coisas impensáveis. Aquilo que era misterioso passa a ser de ordem natural e explicável. Não teve respeito pelo desconhecido e essa fata de respeito deu frutos. Os êxitos obtidos espoliaram-no a seguir. Seu olhar escrutador dirigia-se ao fundo das coisas. Completa experimentos e investigações. Porém todo conhecimento novo constitui uma nova servidão imposta à natureza. O aperfeiçoamento acrescenta o rendimento geral. O aumento de bens de consumo e o atrativo das limitadas possibilidades que isso conleva exigem uma mudança de organização econômica. A um determinado estágio do desenvolvimento técnico corresponde sempre uma forma particular de estrutura econômica. O indivíduo queima etapas. A sensação de superioridade e a segurança em suas próprias forças consolidam-se. Põe em discussão as relações tradicionais e chega à conclusão de que, dado o avançado de seus conhecimentos, aquelas que carecem de justificação. Revolve-se, vence finalmente a partida e transforma os vínculos sociais.

A tendência ao rechaço de todo limite assinala, em suma, esta evolução. A técnica está já à altura de todas as manifestações humanas. A produção industrial excita um desmesurado crescimento. O indivíduo sente-se livre. Por princípio, já não reconhece barreira alguma. Regras, ordem e harmonia não surgem das coisas. Na medida em que ainda respeitam-se as fronteiras, isso aceita-se desde um mero ponto de vista externo; isto é, desde o ponto de vista da pura conveniência. A técnica volta seu olhar parao utro objetivo quando sua atividade resulta infecunda. Tem necessidade de capitais postos a sua disposição com a esperança de obter os lucros correspondentes. A produção de bens está regulada desde a perspectiva do proveito. Quando existem oportunidades de benefício, os capitais afluem. Quanto mais trabalha o capital, mais expande-se o reino dos homens sobre o que rodeia-lhes. Em geral, o indivíduo utiliza sua liberdade na medida em que obtem frutos. Tanto mais "libre" enquanto é possuidor de um capital, que é "rico."

A final de contas, a intensidade do processo de desenvolvimento econômico e técnico mostra-se-nos como uma simples função do benefício do capital previamente destinado ao investimento. Ademais, a importância social do indivíduo não será outra que o indicador de benefícios que seja capaz de conseguir; isto é, sua renda. Como consequência disso, o dinheiro passará a converter-se na medida de tudo. O moderno reino do dinheiro é a forma constitucional da política de pder que corresponde à idade da técnica. O sistema de provisão de bens de consumo graças à sociedade do indivíduo, baseia-se na economia capitalista. O individualismo é a expressão de seu desenvolvimento moral e mental.

A técnica, ao remover por toda parte as barreiras impostas à capacidade humana que reprimem as fontes de sua energia natural, abre as portas para transformações de grande calado. Encurta distâncias, aproxima-nos ao distante e torna acessível a terra. Nesta atmosfera florescem metrópoles, impérios, produções em série, monopólios econômicos, e organizações multinacionais. O indivíduo, que começa a sentir-se como em sua própria casa, entre suas obras e construções, entre suas máquinas, seus instrumentos e suas ondas invisíveis, acaba por pensar com mentalidade continental, e a longo prazo, em termos de universo.

II

Quando já não ficam enigmas por desvelar, por explicar, já não há lugar nem mesmo para o respeito. A veneração pelos santos cristaliza, convertendo-se em uma simples convenção. Ainda que o indivíduo persigne-se como hábito, acreditar no sagrado converteu-se em uma forma de enganar a si mesmo. O sentido de hierarquia e da distância social extinguem-se. O indivíduo converte-se em um ser democrático que situa-se a um mesmo nível com todos os que rodeiam-no. Estende-se as mãos a forças capazes de fazer saltar o universo. E beira-se essas forças todos os dias. As crianças jogam com os astros. Conhece-se e sabe-se tudo. Nada inspira já reverência. Tudo é situado diante dos focos dos projetores mais aperfeiçoados.

Não sentir respeito, ser atrevido, significa não conhecer limites. Porém quem não conhece limites ignora o que é responsabilidade. Gira o mundo e o homem abandona à própria sorte aquilo que era-lhe próprio, a galáxia de suas origens, os lugares da infância: suceda o que suceda. Vai mais além do consentido e todo passo converte-se em um ato de profanação e destruição. Mudando as fronteiras, fere tudo aquilo que desenvolveu-se de forma orgânica, pela simples razão de que o orgânico é limitado. Os limites são o cárcere da vida. Demolindo-os, pretende recuperar substância viva. Porém a técnica viola a natureza, ainda que isso careça em princípio de importância. O progresso técnico desgarra a natureza, que tem suas próprias leis, um palmo de terra após o outro. O que para a técnica é um triunfo, para a natureza é saque e violência. A técnica ao remover pouco a pouco os limites fixados pela natureza, acaba por destruir a vida. A máquina suplanta ao organismo, que sim possui um sentido. A função da máquina consiste em dar um rendimento calculável. O sentido do orgânico requer, por outro lado, a realização em uma existência. A técnica abusa sempre do respeito pela vida. Devora aos homens e tudo aquilo que é humano. Aquela aquece-se com os corpos e o sangue é seu líquido refrigerador. Em consequência, na era da técnica, a guerra assume a forma de uma mortífera carnificina. O indivíduo, conquistado para o espírito da técnica, preso e ávido de recordes, possui as mais aperfeiçoadas armas de aniquilação. Lança sem pestanejar bombas de gás tóxico e não produz-lhe escrúpulos asfixiar a milhares de mulheres e crianças na retaguarda inimiga. A concepção da guerra moderna mostra-se-nos de uma maneira tão formidável como terrível no gênio mortífero da técnica. Em seu apogeu, sua capacidade de destruição é tal que, em um determinado momento, poderá exterminar rápida e radicalmente qualquer ser vivo lá onde encontre-se.

III

Naturalmente, esta terrível revelação mostra-se somente ao final. O espírito da técnica revela sua própria natureza com uma violência tal quando já penetrou toda existência e submetido toda resistência. Antes de poder estender as dobras tóxicas de seu furor homicida sobre tudo que vive, é mister que supere várias etapas em sua propagação.

No âmbito mais íntimo, na mais pequena célula, em cada indivíduo, o espírito da técnica inicia seu próprio labor, secreto e subterrâneo, de destruição da substância viva. A perda de dita substância conduz à proletarização, cuja consequência final não é outra que o operário especializado. Em poucas horas, este aprende o manejo rudimentar das máquinas e, graças a isso, pode ser utilizado e mudado de posto, sem quase qualquer preparação, em qualquer ramo da produção. O proletariado não tem uma esfera de trabalho bem definida, não precisa de uma atitude particular que diferencie-o e dê um sentido a sua vida. Não é nada em si e para si. É um ser anônimo, móvel e intercambiável. É uma função da máquina, uma pequena quantidade de energia no seio do vasto processo da produção. Entre ele e o bem produzido há exclusivamente uma relação de causa-efeito. Entre ele e as coisas não cria-se em absoluto uma união psicológica, cuja profundidade e abundância constitui a riqueza da alma humana. Ele tão somente vende seu potencial laboral. Próximo está o tempo em que não haverá mais que sua força-trabalho. Esta carência de relações psicológicas conleva uma falta de responsabilidade. O proletário sentes-se pouco responsável do sentido de seu trabalho na medida em que o patrão não faz-se cargo da sorte de seus empregados.

A produção artesanal foi a primeira a cair sob o domínio da técnica. O declive do artesanato foi a consequência inevitável. O artesão acabou por converter-se em um trabalhador. Os mestres artesãos combateram de modo desesperado e vão contra esta decadência.

Assim mesmo, somos cativos de todo um processo de mecanização da agricultura. O drama vívido pelo artesanado repete-se no mundo agrário. É verdade que a intervenção da maquinaria agrícola que apresta-se a segar a independência do camponês europeu aparece já em 1833. Porém até agora não havia sido utilizada contra o agricultor. Os animais de tiro não davam-lhe opção. Em relativamente poucos anos o instrumento de tração que era-lhe necessário, o "trator", foi construído. De agora em diante, teve começo a transformação total da agricultura. Na América do Norte e do Sul, na Austrália, já usa-se a maquinaria agrícola. O custo de produção do grão baixou em mais da metade. O farmer suplantou o camponês, tal e como sucedeu com o trabalhador em relação ao artesão. O farmer é um camponês proletarizado. As estruturas da agricultura mudam. O camponês retrocede. As bases de sua existência livre sofreram um grande abalo. Submete-se. A técnica caçou-o em seu próprio terreno. O campo passa a ser um sonho romântico como o templo para o artesão. Nenhuma política aduaneira pode freiar este processo. O Crédito Financeiro Internacional, fundado em 3 de março de 1931 em Basiléia, fará tarde ou cedo seu labor contra os campesinos, como um anjo exterminador. Não será senão a ponta de lança do espírito da técnica no âmbito de nossa agricultura alemã. O camponês autônomo está a ponto de desaparecer.

Com a desagregação dos ofícios, todas as formas tradicionais de vida estão transformando-se. Na medida em que o homem cessa de ser ou representar algo por si mesmo, converte-se em um ser público, que encontrará sua comodidade em todas as partes e em lugar nenhum. Ao final, esta metamorfose consolidará os fundamentos do Estado. Perde este seu caráter orgânico, seguindo suas próprias leis. Converte-se em parte integrante de um espaço econômico mais amplo, cujos ramos de produção são racionalizados segundo as normas impostas pelas últimas conquistas da própria técnica.

O homem partiu para a conquista da natureza. Não percebe que pisoteando a natureza destrói-se na medida em que forma parte da mesma. No clima frio da técnica, as últimas reservas biológicas fossilizam-se. A energia natural de reprodução e de crescimento esgota-se. E assim é como a natureza vinga-se: castiga o estupro que a técnica cometeu induzindo-a ao suicídio. A técnica festejará sua vitória sobre montanhas de cadáveres até o dia em que sucumba sob seu peso.

IV

As doutrinas e teorias, os programas e dogmas, dos quais serve-se o movimento histórico para dar-se a conhecer no planeta, não são nem importantes nem decisivos em si. Ainda que não conheça-se o conteúdo, isso não significa que não captemos sua essência, seu sentido e sua verdadeira missão histórica. Somente quem é capaz de observar, mais além da letra da teoria, os movimentos subterrâneos que aspiram a transformações substanciais, é capaz de apreender as mudanças radicais do mundo.

O marxismo é algo mais que uma bandeira vermelha, um movimento que permite arrastar às massas, incultas e pouco exigentes, fazendo-as entrar em uma sorte de agitação cega. O marxismo é o pressentimento das coisas que sucedem. Certamente, não é-o no sentido de poder mostrar o que será à luz de sua realidade futura. Porém, em certo sentido, sim conforma uma sorte de idealização do futuro. Marx foi um profeta que transformou um destino cruel e uma necessidade opressora em uma religião salvadora. Sem dúvida alguma, alberga em si o espírito da técnica. Foi o pioneiro e anunciou a mecanização da vida. Acelerou dito processo dando esperança aos destinados a ser vítimas. Converteu em fé uma maldição. Assim, esperava-se com impaciência o paraíso que estava destinado, em realidade, a converter-se em seu inferno. Esta loucura autodestrutiva foi provocada com a ajuda do pensamento do filósofo alemão Hegel. O dinamismo dialético foi a fórmula mágica do grande bruxo. Sob sua luz sobrenatural produziu-se a transvaloração da via impiedosa do progresso técnico em um caminho de graça para a salvação. Era necessário acelerar ao máximo a mecanização, a racionalização, a concentração e a proletarização. Era o único modo para chegar à "expropriação dos expropriadores". No seio da sociedade capitalista sente-se o cheiro da maturação do fruto da bem-aventurança socialista. A força persuasiva da dinâmica dialética devia-se ao fato de que a idéia parecia ser qualquer coisa ademais de um divertido jogo que fazia-se reconhecível como a imagem fiel de uma realidade futura. Os muros e as engrenagens do matadouro brilhavam à distância, porém, entre brumas sanguinolentas, como uma aurora. Seu perfil parece-se ao de um castelo encantado. Irresistivelmente atrai a suas vítimas, que ademais tem pressa por chegar a seu objetivo.

O antimarxismo não é, em absoluto, uma força que freie, que oferece soluções. Trata-se, antes ao contrário, de um protesto dos que, aproveitando a mecanização do mundo, temem por seus privilégios quando alguma voz contestatória eleva-se. Dito de outro modo: o antimarxismo não é o medo às consequências, senão o medo a que sejam explicadas com clareza. O marxismo forja ilusões e provoca entusiasmos em lugar de criar receios. O antimarxismo, ao contrário, é hipócrita. Lança acusações enquanto aproveita-se claramente da situação e favorece-a entre os bastidores. Porém pela força de seu desenvolvimento, a humanidade deixa-se levar pela corrente. O vento da história leva em su vórtices distantes. A sombra dos despojos ameaçadores desenha-se no horizonte. O marxismo saúda-os desde sua posição afortunada, enquanto o antimarxismo trata de ancorar-se e pôr-se de resguardo; trata de assegurar-se exclusivamente. Em consequência, emprega todos os meios para que a humanidade, arrastada pela corrente, trate de resguardar-se. O marxismo aproveita o sentido da história e acelera com fúria. A doutrina marxista, não obstante, é ingênua. Glorifica o progresso que saciará seus adeptos. E o antimarxismo é pura hipocrisia: louva os velhos templos enquanto saqueia-os e aproveita os tempos modernos em seu exclusivo proveito.

V

A fundamentação individualista está na base do desenvolvimento técnico que expressa-se obviamente no fato de que a direção de todos os organismos, racionalmente estruturados, interdependentes uns dos outros, encontra-se em mãos de um reduzido grupo de pessoas. Esta minoria, que não conhece outros interesses fora de si, ignora todo tipo de responsabilidades de ordem metafísica e pensa exclusivamente em termos de conveniência. Seus componentes conformam a função técnica do sistema econômico, enquanto que as massas conformam a função técnica das máquinas que manipulam. Em Des Tieres Fall (Georg Müller), a genial visão técnica do futuro de Reck-Malleczewen, o personagem Grant é um formidável símbolo destes "senhores do mundo" que a técnica levou ao poder. Subjugado pelo ritmo e pela força da máquina que inventou, obcecado pela técnica ao mesmo tempo em que rechaça a vida, converteu-se em um grande construtuor e em um miserável. Hecatombe de corpos humanos. Quantidades ingentes de substância biológica derramada. Comunidade orgânica que volatiliza-se. A fraternidade humana leva-se a cabo sob a forma de um imenso rebanho de proletários em cuja frente encontram-se uns chefes com coração de gelo.

Será este o porvir do mundo americano-europeu, do mundo ocidental? O homem ocidental, armado de técnicas para submeter a ordem natural, deverá expiar seu crime submetendo-se às leis da técnica, capazes de triturar todo vislumbre de vida.

Não é possível parar a rota vitoriosa da técnica. Os povos "atrasados" situam-se em uma posição de dependência, de tal modo que caem no jogo das nações "industrialmente mais avançadas". Nestes últimos anos, alguns destes povos, até hoje "subdesenvolvidos", posicionaram-se frente a tal estado de coisas. Os primeiros em dar-se conta do perigo foram os russos, aos quais seguiram-se turcos e chineses.

Dado o caráter particular de tais povos, a situação mudou completamente, produzindo-se formas de desenvolvimento autônomas. Estes povos - Rússia à cabeça - não limitam-se em imitar o Ocidente. Não assimilaram nem sua mentalidade nem sua maneira de ser, fazendo abstração de si mesmos.

Rússia, como China e Turquia, nações relativamente jovens, entraram em contato com a técnica. Porém o resultado foi surpreendente. O povo russo pode ainda opor ao constrangimento da mecanização seu próprio peso e uma grande força plástica e orgânica. Não usou sua própria substância viva sacrificando-a ao aperfeiçoamento do aparato técnico. Subordinou-se à técnica em lugar de fazer o contrário. O poder da matéria orgânica reina sobre o processo de mecanização, mostrando o caminho e a meta, avançando ao mesmo tempo que seguiam-se as próprias normas. Era um poder impregnado da instintiva sabedoria da substância biológica do povo russo. Esta potência orgânica foi valorizada pelo Estado russo e pela autoridade que exerce. Com muita energia, mão firme e sem titubeios, fizeram-se somente as concessões inevitáveis ao espírito da técnica. Isso trouxe consequências concretas, de forma corajosa e imperturbável, sabendo rechaçar outros aspectos negativos. O coletivismo levou-se à agricultura, antes que nada, como o sacrifício que era necessário assumir, considerando os efeitos revolucionários que derivavam-se da mecanização. Este ato arbitrário, que eliminava todo raciocínio ilusório, permite hoje uma autoridade sobre quaisquer decisões futuras.

Situando um poder organizativo vivo sobre toda tendência mecânica da técnica, a mecanização de Rússia pode levar-se a termo sob as regras do coletivismo. O impulso individualista do espírito técnico foi freado e feito em cacos. Nada fica ao arbítrio de uma minoria anônima. O Estado navega de vento em popa. O princípio individualista da técnica está, pois, em absoluta contradição com a forma coletivista da vida na Rússia. O arriscado trabalho dos engenheiros é um bom testemunho dessa oposição. O coletivismo é a forma social que a vontade orgânica deve adotar se quer afirmar-se frente à influência mortífera da técnica e limitá-la a sua mínima expressão. A Rússia conservará esta forma de vida coletivista até que tenha suficientes reservas de forças vitais capazes de por freio às perigosas tendências da técnica. O ódio que a América e Europa dispensam à Rússia é o protesto do espírito técnico-individualista que choca contra as barreiras de autodefesa orgânicas que impedem completar seu labor de destruição biológica. O mundo ocidental, em sua irresponsabilidade individualista, sente-se afrontado e provocado pela existência de um povo que impôs-se através da severa disciplina da responsabilidade. O demônio da técnica sente-se defraudado: tivesse gostado que a humanidade inteira imolara-se aos pés de seu altar. Retorce-se de raiva porque os povos do Leste não puseram-se a seu serviço, obedecendo a seu gênio particular. Os sacerdotes católicos, os pastores protestantes e os apóstolos da civilização fazem de coro aos horríveis grunhidos deste demônio.

19/11/2010

Americanismo e "Confortismo"

por Ernst Niekisch


O esgotador economicismo burguês, não condicionado por uma tradição feudal-estamental prévia, vinculous-e rapidamente com a figura da "aristocracia" da Técnica. As figuras do sacerdote e do filósofo foram unicamente tomadas como apêndices rudimentares. O impulso econômico mundialmente açambarcador se fundiu com o empuxo técnico de dominação da Natureza: O resultado foi uma força política e econômica triunfal. Não havia nenhuma coisa da qual não se pudesse tirar proveito nem existia nenhuma dificuldade para cuja superação não se buscaram todos os meios e caminhos possíveis. A esse respeito, alguém podia se encontrar na terra das oportunidades sem limite, na que aquilo que pôde alguma vez parecer impossível foi tornado realidade. A velha Europa tinha um constante apego pelas fronteiras e pelas particularidades entretecidas dentro de cada uma dessas fronteiras. Definitivamente, pelas qualidades. A jovem América, por sua vez, não conhece fronteiras. As qualidades não interessam, elas são desperdícios de valor, consolo para os que se afundam no diminuto e que se vêem forçados a descobrir seu estímulo no irrisório. Onde não há fronteiras, somente se pode ter visão para as quantidades, por trás do distante somente se esconde o ainda mais distante, por trás do grande o imenso, o gigantesco. O pequeno e o estreito para eles são apenas desprezíveis. Deve-se guardar suas energias para não se deixar-se esmagar pelas imensidões.

O domínio das grandes extensões por um lado, e da massiva industrialização pelo outro, deram crédito ao jovem americanismo. O homem de negócios e o engenheiro trabalham ombro a ombro, um financia e o outro constrói e onde se abre a perspectiva para um novo labor, em seguida aparece o técnico com uma nova idéia preparada. Devido a que não existe inclinação pela quietude, não se chega nunca a um verdadeiro enraizamento. O trabalhador se vincular tão pouco com a terra que trabalha como o industrial com sua produção. O financista, o plutocrata puro, toma aqui as rendas. Ele impõe indústrias ao solo naqueles lugares que crê convenientes, e as traslada sem mais conforme o considere conveniente. A burguesia financeira que se origina, alcança um poder inconcebível. Porém ela não faz ostentação de sua riqueza, ela não quer provocar. Ela se veste com a simplicidade e faz participar às massas no imenso negócio. Forma-se um sistema muito particular de suborno das massas, consistente em uma espécie de divisão de placebos terrenos e bençãos prosaicas. É o "Confortismo".




O "Confortismo" é certamente a mais evidente e sincera forma de realização do liberalismo democrático. Com ele se pagam as passagens para o paraíso terreno que prometeram a todos nós. Cada cidadão deve ter seu lar equipado com forno elétrico, chuveiro elétrico e tantos outros supérfluos utensílios próprios de nossa época. As precauções higiênicas tem sido levadas até o extremo em padarias, açougues e leiterias, como se tratasse de religião. Cada trabalho, também o de dona de casa, é executado mecânicamente. E por cima de tudo: cada um tem seu próprio automóvel com seu combustível barato. Até o mais insignificante empregado tem a oportunidade de se converter com ele em dominador das grandes extensões americanas. O conforto é tudo. A medida do conforto que se desfruta, é o grau de cultura que se possui. A confortabilidade da existência externa leva ao paraíso. Os valores pessoais, interiores, são totalmente ignorados, já ninguém pergunta deles. Personalidade, aqui, é o tomar banho e trocar de roupa diariamente, atender a todas as premissas higiênicas e dirigir carro próprio. Toda injustiça social se afunda no mar do conformismo. O revolucionário é aquele que não tem nada a perder além das cadeias que o escravizam. Quem vive no conforto se cuida muito mais de não ser radical; quando se desfruta das comodidades, tende-se a se acomodar.

O "confortismo" é o substituto mais efetivo da religião. Ele modera as populações na medida em que outorga felicidade. É para a ordenação social existente, a garantia mais eficaz. Cria uma comunidade de todos os beneficiários do conforto resolutamente contrária a todos aqueles que se atrevam a colocá-lo em dúvida. E não por casualidade floresce o meio de apaziguamento e de suborno de massas que é o "confortismo" com total prosperidade na América. O "confortismo" pressupõe o emprego da plenitude das riquezas naturais das que "a terra bendita por Deus" dispõe, assim como de seu imenso desenvolvimento técnico-industrial. O desenvolvimento da técnica contribui de modo decisivo para esse imenso nível de produção, o qual é necessário e deve ser constantemente mobilizado para poder levar a cabo o completo suborno das massas, no qual se baseia até agora a imperturbável ordem democrática norteamericana. O genuíno orgulho liberal, que nunca se esquece de recordar a si mesmo o quão longe chegou, é alimentado pelo "confortismo": Quem, quando é levado aos mais alto por uma escada rolante, não se sentiria superior aos demais povos e pessoas incapazes de apresentar um progresso semelhante? Um homem é superior na medida em que possui o conforto. Isto é, em definitivo, o resumo do conceito cultural norteamericano.


Tradução por Raphael Machado