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21/06/2024

Daria Dugina - O Platonismo Político do Imperador Juliano

 por Daria Dugina

(2018)



Resumo


Este artigo aborda a realização da filosofia política do neoplatonismo do imperador Flávio Cláudio Juliano. Seu reinado não foi uma tentativa de restaurar ou restabelecer o paganismo, mas sim uma metafísica e temas religiosos completamente novos, que não se encaixavam nem com o Cristianismo, que ainda não tinha adquirido uma plataforma política sólida, nem com o paganismo, que estava rapidamente perdendo seu antigo poder. A categoria central da filosofia política de Juliano é a ideia de um "mediador", o "Rei Sol", que encarna uma forma e uma função metafisicamente necessárias para o mundo, como o "filósofo-governante" de Platão, que conecta os mundos inteligível e material.

Seguindo o princípio platônico de homologia entre o metafísico e o político, Juliano vê o Sol como um elemento da hierarquia universal, que fornece um vínculo entre o mundo inteligível e o material, assim como a figura política do governante, o rei, que na filosofia política de Juliano se torna o tradutor das ideias. Juliano se torna o tradutor das ideias no mundo não iluminado, que está distante do Uno.

O objetivo principal deste trabalho é reconstruir a filosofia política do imperador Juliano e encontrar seu lugar no panorama do ensino neoplatônico. O breve, mas ilustre, reinado de Juliano foi uma tentativa de construir uma Platônia universal baseada nos princípios do Estado de Platão. Muitos dos princípios desenvolvidos na filosofia política de Juliano acabariam sendo absorvidos pelo Cristianismo, substituindo o antigo edifício da Antiguidade.

04/05/2017

Daria Dugina - França: Globalismo vs Patriotismo

por Daria Dugina



O globalista Emmanuel Macron venceu o 1º turno das eleições presidenciais na França (23.75%). O líder da "Frente Nacional" Marine Le Pen tem 21.53%

O Segundo Turno: Globalismo vs Patriotismo

Os programas dos candidatos são diametralmente opostos um ao outro em todas as esferas: da política à economia. A líder da "Frente Nacional" desde o início de sua campanha declarou que fala "em nome do povo" (este é o slogan de sua campanha eleitoral). O principal procedimento para garantir a vontade do povo no curso político do país é o referendo. Seu objetivo é restaurar a grandeza da França, restaurar a soberania em quatro dimensões: legislativa, jurídica, econômica, monetária. Na política externa, ela defende as posições do realismo e considera a soberania do Estado (territorial, legislativa, econômica, política, etc.) como sendo o valor máximo.

O presidente, em sua opinião, é o garantidor da soberania. Seu euroceticismo e uma avaliação negativa da participação francesa na OTAN e na UE correspondem ao humor político do povo. Marine Le Pen hoje representa as forças do populismo, o povo francês.

Macron representa o modelo político oposto, o pólo político oposto. Sua doutrina é 100% antipopulismo (ou seja, programa antipovo). Ele representa as elites financeiras globais, que não estão interessadas na admissão do povo ao poder. Sua percepção e entendimento do povo pode ser derivada dos conceitos filosóficos de seus professores (Jacques Attali, por exemplo). Os portadores da iluminação liberal, da "verdade" são as pessoas do clube globalista (governo mundial), elas estão sempre um passo mais perto da verdade que os "não-iluminados" (as origens desse conceito estão na filosofia do Iluminismo).

O povo é o portador de um paradigma arcaico, "velho", "regressivo", "antiprogresso". Este é um tipo de fardo para avançar (o nome do movimento de Macron, "En Marche", o caracteriza como um progressista. Para a frente, não para trás? Para frente para onde? Para um novo futuro, para o progresso, para um único mundo unipolar, e não de volta à multipolaridade, ao sistema vestfaliano, aos Estados nacionais e tradições?). Em um de seus discursos, o globalista afirmou que "não existe cultura francesa, há cultura na França". Ademais, ele desdobra seu pensamento e acrescenta que "como não há cultura francesa, também não há identidade francesa". Para Macron não existe um povo francês, e não existe uma França como país soberano. Ele a vê apenas como uma entre muitas partes de um único mundo global de capital que avança rumo a um "futuro melhor". Na política externa, Macron é um apoiador consistente da integração europeia. Ele é apoiado por Merkel e os cabeças da UE são fortes apoiadores (Junker foi um dos primeiros a parabenizar Macron por sua vitória).

Se declarando como candidato que não é "nem de direita, nem de esquerda", Macron habilidosamente combina valores políticos esquerdistas (globalização, crença no progresso) com economia direitista (capitalismo) em seu programa.

O Fim da Era da "Esquerda" e da "Direita"

Após o anúncio dos resultados das eleições, observadores políticos da BFMTV notaram que existe um "quadripartidarismo" na França, que há quatro particos principais e quatro tipos de França: A França de Macron, a França de Le Pen, a França de Fillon e a França de Mélenchon.

Em nossa opinião tal análise está equivocada. Os resultados eleitorais mostram que há, na verdade, 2 blocos diferentes na França: os globalistas franceses (Macron, ao qual se uniu Fillon) e os patriotas franceses (Le Pen e talvez Mélenchon, que pelo menos ainda não falou contra Le Pen). As forças de esquerda e direita se fundiram completamente com o sistema, não há diferença entre elas. O socialista Hamon, que foi por um longo tempo opositor da Lei El-Khomri, pediu por um voto para a pessoa que fez lobby por essa lei, Macron.

O candidato republicano Fillon, crítico de Macron, se uniu a Macron. Tanto os candidatos de direita e esquerda se tornaram parte da equipe de Macron. A divisão (partidos de direita/partidos de esquerda) que existiu por séculos está legitimamente acabada.

Mélenchon, Você está com o Globalismo ou...?

Diferentemente de Fillon e Hamon, Mélenchon não pediu que seus apoiadores votassem por Macron ou Le Pen. Até agora, a situação permanece incerta. Mélenchon, que é usualmente chamado pela imprensa liberal de populista de esquerda, se situa perto da perigosa fronteira entre o sistema e o antissistema. Por um lado, ele está contra a UE e o globalismo.

Pelo outro lado, ele defende fronteiras abertas e imigração. Ao combinar economia esquerdista e política esquerdista em seu programa, Mélenchon pode 1) se aproximar ao sistema (pedir para votar contra Le Pen), 2) solidificar com Le Pen por conta do programa econômico esquerdista dela (desenvolvido em anos recentes por seu assessor Florian Philippot) ou 3) a opção de "votar em branco" no segundo turno, que teoricamente daria mais vantagem para Le Pen (aliás, os candidatos esquerdistas Poutou e Artaud já afirmaram que votarão em branco no próximo turno).

A Última Batalha de Le Pen contra o Sistema

O filósofo Alain de Benoist notou que Macron é um fenômeno de "consolidação das elites financeiras mundiais" face um povo despertando do sono político. Macron é um conceito. O conceito do antipopulismo. Quando o antipopulismo aparece e qual é seu propósito? O antipopulismo surge como reação das elites à emergência da consciência política entre o povo. O povo da França, sob a pressão da crise migratória, do desemprego e da situação política doméstica instável no país, percebeu que seus interesses não são levados em consideração nas decisões políticas.

As elites são guiadas por sua própria lógica, e entre elas e o povo há um abismo. O povo não concorda com essa situação e começa uma revolta. O líder dessa revolta é a Joana d'Arc da França moderna, Le Pen. Ela se tornou uma ameaça real ao sistema já em 2015, quando seu partido conquistou o primeiro lugar no primeiro turno das eleições regionais. Entre os dois turnos, tanto os partidos de esquerda como os de direita convocaram um voto contra Le Pen. O sistema viu em Le Pen um inimigo e competidor perigoso.

Macron foi desenvolvido pelo laboratório do globalismo. Ele foi especificamente esculpido para ser a oposição a Le Pen. Seus criadores perceberam que a população não mais acredita em forças políticas de "esquerda" ou "direita", e aguarda por algo novo. Sua imagem midiática é a seguinte: um banqueiro sorridente de 39 anos, um trabalhador diligente, e em geral uma "pessoa decente" e um "bom marido". Ele diz ser o candidato novo que quer mudança, e ele tem as sugestões para superar a crise. O sistema o criou. Ele foi criado como oposição a Le Pen.

Hoje, a mídia, o sistema judiciário e o sistema administrativo estão todos trabalhando contra Le Pen. Essa candidata é uma ameaça ao sistema. Sete grandes lojas maçônicas pediram voto contra Le Pen, no centro de Paris radicais antifas e representantes de movimentos financiados por Soros vão às praças para protestar contra a "extremista" Le Pen, nos jornais vemos as publicações com tais títulos: "Se Le Pen se tornar presidente, a França estará morta".

Hoje, todo o sistema está contra Le Pen. E Le Pen heroicamente está contra o sistema. Quem sabe, talvez a força do protesto popular, sua revolta contra a ditadura das elites e contra a tirania neoliberal acabe se mostrando um sucesso?


27/02/2016

Daria Dugina - Ideologia Americana na Sociedade Francesa

por Daria Dugina

Tradução por Lucas Novaes



INTRODUÇÃO:

As principais características da ideologia Americana são:

- Crença no progresso universal, o qual tem seu ápice na civilização capitalista ocidental (os Estados Unidos como seu líder indiscutível);
- Individualismo completo, negação de identidades coletivas (religiosa, nacional, étnica), destruição dos valores tradicionais: gênero (política de gênero), família tradicional;
- Engenharia e desenvolvimento técnico reconhecidos como o principal objetivo, o aspecto moral é insignificante e menor;
- Os Estados Unidos e o Ocidente possuem o direito moral de ditar o caminho que o resto das nações devem seguir e viver (hegemonia americana em escala global).

ESQUERDA-DIREITA (NA POLÍTICA E ECONOMIA)

Para que possamos ver como a ideologia americana é implementada no espaço europeu, é necessário considerar o esquema do sistema político das sociedades da Europa Ocidental; a divisão entre direita e esquerda (em política e economia). O modelo da divisão política partidária esquerda-direita apareceu na Assembleia Constituinte da França (em 1789) quando o lado direito da mesa da presidência foi ocupado pelos apoiadores da monarquia, os “Cavaliers”, os conservadores, e o lado esquerdo pelos revolucionários, anti-monarquistas e os democratas radicais.

As principais características da direita na política são a proteção dos valores tradicionais, conservadorismo, defesa de sucessos  do passado, identidade nacional, religiosa e étnica. Na esfera econômica, os representantes dos partidos de direita têm como objetivo proteger a propriedade privada (a declaração da propriedade privada e o princípio superior da posse privada da propriedade coletiva; estatal, nacional, comunal), construção de um mercado mundial livre sem fronteiras nacionais e estatais.

As principais características da esquerda são a negação da identidade (étnica, religiosa), a negação dos valores tradicionais, anti-conservadorismo e universalismo. Na esfera econômica, a esquerda favorece várias formas de domínio da propriedade coletiva acima da propriedade privada (nacionalização da propriedade privada).

A FRANÇA ATÉ 1968

Até 1968, a influência da ideologia americana na França era fraca, principalmente por meio dos esforços do presidente de Gaulle, o qual consistentemente aplicou políticas antiamericanas que tinha mcomo objetivo a construção de uma Europa continental e soberana do Atlântico até os Urais (Rimland).

- De Gaulle se opôs a entrada da Inglaterra na Comunidade Econômica Europeia; a União Europeia  seria construída sem a participação dos anglo-saxões;
- Ele removeu a base militar americana do território nacional francês;
- A liberação da França dos compromissos de defesa da OTAN (cancelamento das estruturas militares da Aliança em 1966), a retirada do Planejamento de Defesa e Grupo de Planejamento Nuclear do Comitê (França continua a participar das estruturas políticas da OTAN);
- Em 1965, De Gaulle anunciou a recusa do uso do dólar nos pagamentos internacionais e a transição para um único padrão de ouro;
- De Gaulle transformou a França em uma líder do movimento não-alinhado em face dos dois blocos da Guerra Fria, França escolhe a Terceira Via (Rimland como uma zona independente);
- Desobediência ao Império Americano (condenação das ações dos EUA contra os países da Indochina), apoio a Palestina em 1967 (a condenação das ações de Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967).

O QUE ACONTECEU EM MAIO DE 1968?

A ideologia americana chegou à França em maio de 1968; estudantes radicais de esquerda participaram em demonstrações e motins, com milhões de estudantes indo as ruas. Ironicamente, nessa época, a França encarou um crescimento econômico nunca antes visto (apogeu do milagre econômico francês, conhecido como “Trente Glorieuses”).

A estrutura do "Maio Vermelho" possui diversas áreas distintas: 1) Anarquista (slogans: “Il est interdit d’interdire” – “É proibido proibir”, “Ni Dieu ni maître!” – “Nem Deus nem Mestres”), 2) Esquerda, “gauchisme” (“Travailleur: Tu as 25 ans mais ton syndicat est de l'autre siècle.” – “Trabalhador: Você pode ter apenas 25 anos, mas seu sindicato é do século passado”) 3) Esquerda liberal, a qual tinha como objetivo desestabilizar o regime de de Gaulle e removê-lo da autoridade.

Se a primeira área quase não tinha programas positivos, a segunda e especialmente a terceira área do “Maio Vermelho” possuíam uma visão clara do futuro da França, no qual a figura de De Gaulle não tinha lugar. Na França, o regime antiamericano de De Gaulle foi derrubado pelos movimentos de esquerda antiamericanos (demonstrantes de esquerda criticaram a intervenção dos EUA no Vietnam: “Imagine:! C’est la guerre et persona n’y va” – “Imagine: houve guerra e ninguém apareceu! ”). A juventude protestou contra a guerra do Vietnam e a política militar americana por ter influência da cultura anglo-saxã.

A ideologia americana apareceu na arena política francesa através dos protestos antiamericanos.

A FRANÇA DEPOIS DO “MAIO VERMELHO”

Depois de Maio de 1968, a ideologia americana começou a entrar na política francesa. Aparecia uma nova sociedade e o libertarianismo liberal se tornou a nova ideologia dominante, a qual tinha, como principal objetivo, a destruição do: 1) modelo social de esquerda (que era protegido pelo Partido Comunista Frances), e 2) o modelo moral da direita (criado por De Gaulle).

Gradualmente, as diferenças entre a esquerda e a direita foram se misturando na política e economia. A direita passou a agir apenas em prol do liberalismo burguês, do capitalismo, ignorando o conservadorismo, a esquerda – em favor do progresso e da globalização, ignorando a esfera econômica (as demandas da proteção dos direitos dos trabalhadores, superioridade coletiva sobre a propriedade privada).

A FRANÇA SOB O DITADO IDEOLÓGICO AMERICANO

Hoje, a França está sob uma verdadeira ditadura ideológica, hegemonia do “pensée unique”, a ideologia americana. Qualquer um que é contra o liberalismo de esquerda (neste caso, não está agindo sob influência do liberalismo de direita), torna-se “intocável”, marginalizado, o inimigo do sistema, suicida (indicativo da crescente atenção ao Front National, bsucas recentes em seu principal escritório durando mais de 24 horas). A ideologia dominante na França (ideologia americana) está baseada em uma combinação do liberalismo de mercado da direita e do globalismo de esquerda.

A França se tornou um país sob o controle total da ideologia americana durante a presidente de Sarkozy:

- Março de 2009 – A entrada da França na OTAN, a traição da herança gaullista, a submissão oficial da França ao controle do comando americano;
- Associação com liberais de esquerda;
- Auxiliando os EUA na derrubada de regimes anti-americanos no Oriente Médio (Líbia, 2011).

Desde 2012, Hollande tem consistentemente continuado com a política de seu predecessor (apesar de ser um representante da esquerda, Hollande ignora os valores da esquerda na economia; a taxa de desempego cresceu 10% em seu regime).

- Apoio a sanções contra a Rússia, ruptura do contrato de Mistral;
- Legalização do casamento homossexual.

ALTERNATIVA A IDEOLOGIA AMERICANA NA FRANÇA

Será que existe, hoje, na arena política francesa, uma alternativa real ao domínio da ideologia americana? Não, mas a intensa busca por ela já ocorre. A força política que se opõe à ideologia do sistema americano na França e que está  desenvolvendo alternativas é o partido Front National. A crítica da política migratória da União Européia, euroceticismo, um foco no conservadorismo e na preservação das tradições (família, casamento, religião), e a crítica da elite dominante atlantista francesa se refletem no espaço político e na vontade do povo francês, e é uma alternativa ao governo liberal de esquerda.

O Front National é percebido pelas forças políticas dominantes como uma ameaça ao sistema, um partido anti-sistema que une em seu programa os valores anti-liberais da esquerda (igualdade social, justiça, anticapitalismo) e os valores não-liberais da direita (conservadorismo, Estado forte, política anti-migração).

Em 2015, após as eleições regionais, tornou-se claro que o Front National não era apenas legítimo, mas também um força política. Isso assustou fortemente a esquerda liberal (partido socialista) e direita (partido republicano) e alavancou a criação de uma coalizão unificada da esquerda e da direita para eliminar o Front National da luta política.