Mostrando postagens com marcador Georges Sorel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Georges Sorel. Mostrar todas as postagens

05/02/2013

O Sindicalismo Revolucionário

por Georges Sorel



Tenho me perguntado com frequência se não devia insistir nas questões que havia tratado, de uma maneira demasiado breve ou demasiado superficial, no Porvir Socialista dos Sindicatos - me aproveitando das experiências ocorridas desde 1897 e dos conhecimentos mais amplos que adquiri dos princípios do socialismo - para dar uma exposição mais clara, metódica e profunda do movimento sindical. Sempre me deteve a extraordinária amplitude dos problemas que me eram apresentados, quando me punha a refletir sobre essas coisas; por outra parte, estes últimos anos foram singularmente ricos em fatos imprevistos, que vieram a tornar vãs as sínteses que pareciam melhor estabelecidas. Quando se crê ter encontrado um sistema que abarca convenientemente as comprovações que se julgam mais importantes, um estudo mais detalhado ou um incidente forçam a abandonar tudo.

Não estamos aqui na presença de fenômenos pertencentes a gêneros clássicos, de fenômenos que todo trabalhador sério possa se vangloriar de poder observar corretamente, definir com exatidão, explicar de maneira satisfatória, utilizando princípios aceitos na ciência. Os princípios faltam aqui em absoluto; é, portanto, impossível chegar a descrever com precisão e clareza; às vezes até há que temer um rigor excessivo de linguagem, porque estaria em contradição com o caráter fluido da realidade e essa linguagem enganaria. Deve se proceder às sondagens, provar hipóteses verossímeis e parciais, se contentar com aproximações provisórias, para deixar sempre a porta aberta para correções progressivas.

Essa impotência relativa deve parecer muito desprezível para os grandes senhores da sociologia, que fabricam, sem o menor cansaço, vastas sínteses que abarcam uma pseudo-história do passado e um futuro quimérico; porém o socialismo é mais modesto que a sociologia.

Meu folheto é uma dessas sondagens. Quando o escrevi, em 1897, estava muito longe de saber tudo o que sei hoje; no mais, me propunha a um fim bastante restrito: chamar a atenção dos socialistas para o grande papel a que podiam estar chamados a desempenhar os sindicatos no mundo moderno. Via que havia muitos preconceitos contra o movimento sindical e acreditava que esse estudo contribuiria a dissipar alguns; para conseguir meu fim, devia tocar muitas questões mas não aprofundar em nenhuma.

Naquela época, a idéia da greve geral era odiosa para a maior parte dos chefes socialistas franceses, e eu acreditei prudente suprimir um capítulo que havia consagrado a mostrar a importância dessa concepção. Desde então, ocorreram grandes mudanças: em 1900, quando reeditei meu artigo, a greve geral já não era considerada como uma simples insanidade anarquista; hoje é sustentada pelo grupo do Mouvement Socialiste. Mais de uma vez, Jaurés deu a entender que era partidário desse modo de conceber a revolução; isso sucedeu quando necessitou do apoio dos sindicalistas, mas logo rechaçou essa utopia, que não convém aos ricos acionistas de seu jornal, aos dreyfusistas da Bolsa nem às condessas socialistas. O que deve atrair nossa atenção é que Lagardelle e Berth, a quem ninguém, no mundo socialista, ganha em talento, em saber e em abnegação, chegaram, mediante a observação e a reflexão, a defender a greve geral; graças a isso, se converteram na França nos representantes mais autorizados do sindicalismo revolucionário.

Quiçá não está longe o momento em que não se encontre melhor meio de definir o socialismo do que pela greve geral; então se verá claramente que todo estudo socialista deve se fazer sobre as direções e qualidades do movimento sindical.

Na tese da greve geral há que assinalar três propriedades importantes:

1º - Em primeiro lugar, expressa de um modo infinitamente claro, que o tempo das revoluções políticas acabou, e que o proletariado se nega a deixar constituir novas hierarquias. Essa fórmula não sabe nada dos direitos do homem, da justiça absoluta, das constituições políticas e dos parlamentos; não nega pura e simplesmente o governo da burguesia capitalista, mas também toda hierarquia mais ou menos análoga à burguesia. Os partidários da greve geral aspiram a fazer desaparecer tudo o que havia preocupado os antigos liberais: a eloquência dos tribunos, o manejo da opinião pública, as combinações de partidos políticos. Isso seria, desde logo, o mundo ao revés; porém não afirmou o socialismo que queria criar uma sociedade inteiramente nova? Mais de um escritor socialista, demasiado alimentado pelas tradições da burguesia, não chega, não obstante, a compreender tal loucura anarquista; se pergunta o que poderia vir depois da greve geral: só seria possível uma sociedade organizada conforme o próprio plano da produção, quer dizer, a verdadeira sociedade socialista.

2º - Kautsky afirma que o capitalismo não pode ser abolido fragmentariamente e que o socialismo não pode se realizar por etapas. Essa tese é ininteligível quando se pratica o socialismo parlamentar: quando um partido entra em uma assembléia de deliberação, é com a esperança de obter concessões de seus adversários; e a experiência mostra que, em efeito, as obtém. Toda política eleitoral é evolucionista, ainda admitindo que muitas vezes não obriga a transigir sobre o princípio da luta de classes. A greve geral é uma maneira de expressar a tese de Kautsky de um modo concreto; até agora, não se deu nenhuma fórmula que possa preencher a mesma função.

3º - A greve geral não nasceu de reflexões profundas sobre a filosofia da história; surgiu da prática. As greves não seria mais do que incidentes econômicos de uma importância social mínima, se os revolucionários não intervissem para modificar seu caráter e convertê-las em episódios da luta social. toda greve, por local que seja, é uma escaramuça na grande batalha que se chama a greve geral. As associações de idéias são aqui tão simples que basta indicá-las aos operários em greve para fazer deles socialistas. Manter a idéia de guerra, hoje que tantos esforços se fazem para opor ao socialismo a paz social, parece mais necessário que nunca.

Os escritores burgueses, acostumados a catalogar as escolas filosóficas e religiosas por meio de algumas fórmulas breves, concedem uma importância maior aos axiomas que se leem à cabeça dos programas socialistas. Com frequência pensaram que, criticando essas declarações obscuras e demonstrando que estão vazias de sentido reduziriam o socialismo a nada. A experiência demonstrou que tal método não conduz a nada e que o socialismo é independente dos supostos princípios defendidos por seus teóricos oficiais. Eu compararia estes aos teólogos. Um sábio católico, Eduard Le Roy, se pergunta se os dogmas de sua religião administrariam algum conhecimento positivo sobre algo; promulgados para condenar determinadas heresias, parece que se teria conseguido uma clareza muito maior se tivessem se limitado a simples negações. Os Congressos socialistas, assim também, fariam bem em dizer que rechaçam certas tendências que se manifestam nos partidos; se adotam outro sistema, é porque seus axiomas são de tal modo vagos que pode aceitá-los todo o mundo.

Se afirma com frequência que é fundamental organizar o proletariado no terreno político e econômico para conquistar o poder, com o objetivo de substituir a sociedade capitalista por uma sociedade comunista ou coletivista. Eis aqui uma fórmula magnífica e misteriosa que se pode entender de muitas maneiras; porém a mais simples de todas as interpretações é a seguinte: provocar a formação de associações operárias, próprias para criar a agitação contra os patrões; fazer-se o advogado dos operários quando estejam em greve e pressionar as administrações públicas para que intervenham em favor dos trabalhadores; fazer-se nomear deputado com o apoio dos sindicalistas, e usar de sua influência, bem para que obtenham algumas vantagens os eleitores operários, bem para que se deem postos a alguns homens influentes do mundo trabalhador; enfim, lançar de vez em quando algum discurso ressonante sobre as belezas da sociedade futura. Essa política está ao alcance de todos os ambiciosos, e não existe que se entenda nada de socialismo para praticá-la: é a de Augagneur e demais deputados socialistas que não quiseram seguir no partido socialista.

Em minha opinião não se deve conceder a menor importância a toda essa literatura. Os chefes oficiais do partido socialista se parecem, com grande frequência, a marinheiros de água doce aos quais o azar tivesse lançado em alto mar e que navegassem sem saber encontrar seu caminho em um mapa, reconhecer os sinais e tomar precauções contra as tempestades. Enquanto estes supostos chefes meditam sobre a redação de axiomas novos, acumulam vaidade sobre vaidade, e creem impor seu pensamento ao movimento proletário, se encontram surpreendidos por acontecimentos que todo o mundo espera, fora de seus conciliábulos de sábios, e ficam estupefatos perante o menor incidente parlamentário.

Ao mesmo tempo que os teóricos oficiais do socialismo se mostravam tão impotentes, uns homens ardentes, animados de um sentimento de liberdade, de vigor prodigioso, tão ricos em amor ao proletariado como pobres em fórmulas escolásticas, e que sacaram da prática das greves uma concepção claríssima da luta de classes, lançavam o socialismo pela nova via que começa a percorrer hoje.

O sindicalismo revolucionário turba as concepções que se haviam elaborado maduramente no silêncio do gabinete; marcha, em efeito, o azar das circunstâncias, sem se cuidar de se submeter a uma dogmática e dirigindo mais de uma vez suas forças por caminhos que condenam os sábios. Espetáculo desalentador para as almas nobres que creem na soberania da ciência na ordem moderna, que esperam a revolução de um vigoroso esforço do pensamento, e se imaginam que a idéia dirige o mundo desde que este se libertou do obscurantismo clerical!

É muito provável que se haja perdido muitas forças por consequência dessa tática que, segundo certos intelectuais, merece o nome de bárbara; porém também se produziu muito trabalho útil. Segundo prova a experiência superabundantemente, a revolução não possui o segredo do porvir e procede como o capitalismo, precipitando-se por todas as saídas que lhe são oferecidas.

O capitalismo não saiu prejudicado do que se tem chamado de sua cegueira e sua loucura: se a burguesia tivesse escutado aos homens práticos, sábios e morais, teria se horrorizado perante a desordem que criava com sua atividade industrial, teria pedido ao Estado que exercesse um poder moderador e teria seguido por uma senda conservadora. Marx descreve em termos magníficos a obra prodigiosa que foi realizada sem plano, sem chefe e sem razão: Como ninguém o havia feito antes que ela, demonstrou do que é capaz a debilidade humana. Criou outras maravilhas que as pirâmides do Egito, os aquedutos romanos e as catedrais góticas: realizou outras campanhas que invasões e cruzadas.

A burguesia tem atuado revolucionariamente e contra todas as idéias que os sociólogos se formam de uma atividade potente e capaz de alcançar grandes resultados. A revolução se fundou na transformação dos instrumentos de produção, feita ao azar das iniciativas individuais; se pudera dizer que trabalhou segundo um modo materialista, já que nunca a guiou a idéia dos meios a empregar para conseguir a grandeza de uma classe ou um país. Por quê não poderia seguir o mesmo caminho o proletariado e marchar adiante sem impor nenhum plano ideal? Os capitalistas, em seu furor inovador, não se ocupavam o mínimo dos interesses gerais de sua classe ou sua pátria; cada um deles considerava unicamente o maior benefício imediato. Por quê os sindicatos hão de subordinar suas reivindicações a altos interesses de economia nacional e não se aproveitarão todo o possível de suas vantagens quando as circunstâncias lhes são favoráveis? O poder e a riqueza da burguesia se baseavam na autonomia dos diretores de empresa. Por que não se há de basear a força revolucionária do proletariado na autonomia das rebeliões operárias?

Em efeito, o sindicalismo revolucionário concebe seu papel dessa maneira materialista, calcada em certo modo sobre a prática do capitalismo. Tira proveito da luta de classes, como o capitalismo havia tirado da concorrência, empurrado por um vigoroso instinto de produzir uma ação maior do que permitem as condições materiais. Os indivíduos que se gabam de conhecer a ciência social e a filosofia da história, se demonstra muito desconfiados ao verem se manifestar instintos tão indisciplinados; se perguntam, com uma inquietude às vezes cômica, aonde conduzirá semelhante barbárie; se preocupam de prever as regras que o proletariado deverá adotar quando as forças difusas da revolução se concentrem, se organizem e tenham necessidade de órgãos reguladores. Há em toda essa atitude dos doutos infinita ignorância.

Não hei de recordar aos compatriotas de Vico o que este grande gênio escreveu sobre as condições em meio às quais se produzem os recursos, estes sobrevém quando a alma popular volta a estados primitivos; quando tudo é instrutivo, criador e poético na humanidade. Vico encontrava na Idade Média a ilustração mais firme de sua teoria; os primórdios do Cristianismo seriam incompreensíveis se não se supusesse, nos discípulos entusiastas, um estado análogo ao das civilizações arcaicas. O socialismo não pode aspirar a renovar o mundo se não se forma da mesma maneira.

Não nos assombra, pois, ver às teorias socialistas caírem umas depois das outras, se mostrarem tão débeis quando o movimento proletário é tão forte; entre ambas coisas não há mais que um laço artificial. As teorias nasceram da reflexão burguesa; se apresentam, no mais, como aperfeiçoamentos de filosofias éticas ou históricas, elaboradas em uma sociedade que chegou, há muito, aos graus mais altos de intelectualismo; essas teorias nascem, pois, já velhas e decrépitas. Às vezes dão a ilusão de uma realidade que lhes falta, porque expressam com fortuna um sentimento acidentalmente unido ao movimento operário e se desfazem tão logo como esse acidente desaparece. O sindicalismo revolucionário que não toma nada do pensamento burguês, tem, ao invés, o porvir aberto perante si.

O sindicalismo revolucionário encara, à hora presente, o que há no marxismo de verdadeiro, de profundamente original, de superior a todas as fórmulas: a saber, que a luta de classes é o alfa e ômega do socialismo; que não é um conceito sociológico para uso dos sábios, senão o aspecto ideológico de uma guerra social empreendida pelo proletariado contra os chefes de indústria; que o sindicato é o instrumento da guerra social.

Com o tempo, o socialismo sofrerá a evolução que lhe impõem as leis de Vico: deverá se elevar por cima do instinto e até pode se dizer que isso já começou; o marxismo rejuvenescido e profundo que defendem na França Lagardelle e Berth, na Itália valorosos escritores, em meio dos quais brilha Arturo Labriola, é já o produto de tal evolução. A sabedoria e profunda inteligência desses jovens marxistas, se manifestam em que não pretendem se antecipar ao curso da história e tratam de compreender as coisas a medida que se produzem.

Eu queria chamar agora muito brevemente a atenção sobre algumas das dificuldades mais graves que apresenta o sindicalismo revolucionário.

a) Partimos da idéia de que o sindicalismo persegue uma guerra social, porém nos é objetado que a guerra não pode ser considerada, na hora atual, como o regime normal dos povos civilizados; a guerra não é mais que um incidente e todos os esforços das pessoas razoáveis tendem a fazer deste incidente mais caro e menos temível. Por quê não introduzir a ação diplomática na guerra social, para conseguir a paz?

Há uma grande diferença entre a guerra dos Estados e a das classes. Nenhuma potência aspira já à monarquia universal, todas fundam sua política em um ideal de equilíbrio; desse modo, os conflitos se fazem muito limitados e a paz pode resultar de concessões recíprocas. O proletariado, por sua vez, persegue a ruína completa de seus adversários e determina a noção de equilíbrio pela propaganda socialista; as greves não podem originar uma verdadeira paz social.

Quando os sindicatos se tornam muito grandes, ocorre a eles o mesmo que aos Estados: os estragos da guerra são então enormes, e os diretores vacilam em se lançar em aventuras. Muitas vezes os defensores da paz social confessaram que desejariam que as organizações operárias fossem muito poderosas para que desse modo estivessem condenadas à prudência. Assim como entre os Estados estalam às vezes guerras de tarifas, que terminam em geral em tratados comerciais, do mesmo modo, o estabelecimento de acordos entre grandes federações patronais e operárias, poderia pôr fim aos conflitos sem cessar. Estes acordos, como os tratados de comércio, tenderiam à prosperidade comum dos dois grupos, sacrificando alguns interesses locais. Ao mesmo tempo que se fazem prudentes, as federações operárias grandes chegam a considerar as vantagens que lhes procura a prosperidade dos patrões e a ter em conta os interesses nacionais. O proletariado se vê assim arrastado a uma esfera estranha a ele, se transforma no colaborador do capitalismo; a paz social parece próxima a se converter no regime normal.

O Sindicalismo Revolucionário conhece essa situação tão bem quanto os pacificadores e teme as fortes centralizações; atuando de uma maneira difusa, pode manter em todas as partes a agitação grevista: as guerras longas engendraram ou desenvolveram a idéia de pátria; a greve local e frequente não cessa de rejuvenescer a idéia socialista no proletariado, de fortalecer os sentimentos de heroísmo, de sacrifício e de união, e de manter sempre viva a esperança da revolução.

b) Se fez observar que as antigas revoluções não foram pura e simplesmente guerras, mas sim que serviram para impor sistemas jurídicos novos. A quê pode tender a nova revolução social?

Já disse que as fórmulas teóricas oficiais do socialismo são muito pouco satisfatórias; mas se partir da idéia sindicalista, se vê naturalmente conduzido a considerar a sociedade sob um aspecto econômico: todas as coisas devem se reduzir ao plano de uma oficina que marcha com ordem, sem perder o tempo e sem se deixar guiar pelo capricho.

Se o socialismo aspira a transportar à sociedade o regime da oficina, nunca se concederá bastante importância aos progressos que se fazem na disciplina do trabalho, na organização dos esforços coletivos, no funcionamento das direções técnicas. Nos bons costumes da oficina está evidentemente a fonte de onde sairá o direito futuro; o socialismo herdará não só os instrumentos que tenham sido criados pelo capitalismo e a ciência que haja nascido do desenvolvimento técnico, senão também os procedimentos de cooperação que a longo prazo se terão constituído nas fábricas, para tirar o melhor proveito possível do tempo, das forças e aptidões dos homens.

Estimo, em consequência, muito lamentáveis certos conselhos que se tem dado, mais de uma vez, aos operários para desperdiçar o trabalho; a sabotagem é um procedimento do antigo regime e não tende de modo algum a orientar os trabalhadores no caminho da emancipação. No espírito popular ficam ainda numerosas sobrevivências lamentáveis desse gênero, que o socialismo devia fazer desaparecer.

c) É evidente que em uma sociedade as relações dos homens não podem estar reguladas unicamente pela guerra; em nossos países democráticos, acima ade tudo, infinitas complicações tornam impossível manter o estado de guerra em todos os domínios. Examinemos sumariamente os principais terrenos nos quais se efetua a união:

1º Quando se fala da democracia, há que se preocupar menos com as constituições políticas do que com o que ocorre nas massas populares: a difusão da imprensa, a paixão com que o público se interessa pelos acontecimentos e a influência que a opinião pública exerce sobre os governos; eis aqui o que devemos ter em consideração. Todo o demais, é secundário ou não serve senão de auxiliar a esta organização da vontade geral. A experiência ensina que a classe operária não é a menos ardente em tomar partido sobre questões que não tem nenhuma relação com seus interesses de classe: leis que tocam às liberdades, resistência que determinadas Ligas opõem aos abusos, política exterior, anticlericalismo. Pode-se, pois, dizer que a democracia apaga as classes. Mais de uma vez, os chefes dos partidos socialistas trataram de fechar o proletariado no círculo de um magnífico isolamento; porém as tropas não seguiram muito tempo a seus chefes. As mais sábias proclamas sobre o dever dos trabalhadores resultam letra morta quando a emoção é demasiado viva. O assunto Dreyfus é bastante recente para que seja necessário insistir.

2º Os Parlamentos não cessam de fazer leis para a proteção dos trabalhadores; os socialistas se esforçam por conseguir que os tribunais inclinem sua jurisprudência em um sentido favorável aos operários; a imprensa socialista trata em todo momento de comover à opinião burguesa, apelando aos sentimentos de bondade, de humanidade, de solidariedade; quer dizer, à moral burguesa. Os antigos utopistas que esperavam uma reforma social da benevolência ou das luzes dos capitalistas melhor informados, tem sido motivo de zombaria; e hoje parece que o socialismo recobra a velha rotina e que solicita a proteção da classe que, com ajuste a sua teoria, é a inimiga irreconciliável do proletariado. Os radicais fazem avanços no sentido da legislação social, com a esperança de que desapareçam certos estados agudos que constituem, em sua opinião, a única razão de ser do socialismo. Os católicos sociais seguem o mesmo caminho, porque exigem dos ricos o cumprimento do dever social.

Os socialistas não se deram ainda conta exata do que produz essa política: não parece duvidoso que haja tido por consequência desenvolver o espírito pequeno-burguês em muitos homens elevados a postos de responsabilidade pela confiança de seus companheiros.

3º O proletariado moderno está sedento de instrução. A Igreja acreditou que poderia conquistar uma grande influência sobre seu espírito mediante a escola; o Estado, na França, disputa com a Igreja de modo encarniçado a clientela operária. Porém, se teria uma idéia muito inexata da influência ideológica da burguesia, se nos ativéssemos às estatísticas escolares; o proletariado está sob a direção de uma ideologia estranha, graças ao livro acima de tudo. Muitas vezes se deplorou que não haja uma boa literatura socialista; porém na França, pelo menos, essa literatura é prodigiosamente débil e a grande imprensa socialista está em mãos de burgueses que falam sem pés nem cabeça de todas as coisas que ignoram.

Quando se reflete sobre estes fatos, nos vemos obrigados a reconhecer que a fusão das classes sociais pelos católicos sociais e os radicais, não é quiçá uma quimera tão absurda como se poderia pensar em primeiro plano: não seria impossível que o socialismo desaparecesse por um fortalecimento da democracia, se o sindicalismo não estivesse ali para se opor à paz social. A experiência pela qual acabamos de passar na França de governos desejosos de dar amplas satisfações à classe operária, não é bastante para fazer pensar que essas tentativas, por hábeis e audaciosas que sejam, possam vencer as dificuldades que o sindicalismo revolucionário opõe à paz social; a medida que a democracia avança, os sindicalistas tem alçado o tom da luta e o resultado mais seguro dessa experiência parece ser o seguinte: que o instinto de guerra se fortaleceu na mesma proporção em que a burguesia fez concessões em vistas da paz.

Em meu estudo de 1897 havia examinado o sindicalismo de um modo abstrato; queria naquela época mostrar a grande variedade de recursos que contém. Mas para estudar a fundo o sindicalismo revolucionário atual, teria que se limitar a examinar o que ocorre em um só país. As tradições nacionais constituem um elemento considerável na organização operária e essa verdade, que nunca se repetirá bastante, aparece aqui com uma clareza particular.

Não sei se me engano, porém me agrada que a Itália oferece um terreno singularmente favorável à extensão do novo socialismo. Possui hoje alguns dos melhores representantes da doutrina revolucionária, quiçá os que à hora atual a defendem com maior autoridade; tem órgãos concebidos com um espírito excelente, desde o ponto de vista socialista, como a Avanguardia e o Diveniere. Seria interessante se toda a história italiana não é o suporte desse movimento.

O instinto de revolução total é antigo na Itália e pôde adotar aspectos muito distintos; hoje, presta à idéia de greve geral uma popularidade que não tem nos demais países. O espírito local permanece vivo, e o sindicalismo, por conseguinte, talvez não esteja tão ameaçado pelo burguesismo das grandes Federações como na França. A luta de classes poderia muito bem tomar na Itália suas formas mais esplêndidas, e o progresso do sindicalismo italiano deverá ser seguido com atenção por todos os socialistas.

17/07/2011

Mito do Progresso

"O progresso será sempre um elemento essencial da grande corrente que irá até à democracia moderna, porque a doutrina do progresso permite gozar, com toda a tranquilidade, os bens dos dias que passam, sem preocupações com as dificuldades de amanhã. Ela tinha agradado à antiga sociedade de nobres ociosos; continuará a agradar aos políticos que a democracia eleva ao poder e que, ameaçados de uma próxima queda, querem fazer aproveitar aos amigos todas as vantagens que o Estado proporciona".
(Georges Sorel)


18/12/2010

Sorel e o Sindicalismo Nacional

por Gustavo Morales

Georges Sorel (1847-1922) foi um engenheiro francês e o pai do revisionismo revolucionário superador do carácter materialista do marxismo e elemento fundamental para a génese do fascismo. O ambiente intelectual de Sorel enquadra-se no Bairro Latino de Paris, bem longe das frias escolas teoréticas de Viena.
Marxista confesso, Sorel pretende, originalmente, completar o pensamento do seu mestre. No início do século do XX o pensamento socialista enfrenta uma série de novos problemas, dificilmente explicáveis mediante a análise marxista ortodoxa. Sorel demarca-se das estruturas racionalistas e destaca que o marxismo é a construção de um mito revolucionário para entusiasmar as massas, negando o seu valor como explicação racional da realidade.

Sorel nega o valor do racionalismo, que acusa de corruptor. Antepõe Pascal e Bergson a Descartes e Sócrates. Sorel substitui os fundamentos racionalistas e hegelianos do marxismo:

1. Pela nova visão da natureza humana ensinada por Le Bon, que aconselha que "para conquistar as massas há que ter previamente em conta os sentimentos que as animam, simular que se participa deles e tentar modificá-los provocando, mediante associações rudimentares, certas imagens sugestivas; saber rectificar se necessário e, acima de tudo, adivinhar a cada instante os sentimentos que se fazem brotar". Le Bon resume: "a razão cria a ciência, os sentimentos dirigem a história".

2. Pelo anti-cartesianismo de Bergson. Os ensinamentos de Bergson permitem substituir o conteúdo racionalista, ou seja, utópico, do marxismo pelos mitos revolucionários. Sorel afirma que todo o grande movimento é motivado por mitos. O método psicológico substitui o enfoque mecanicista tradicional (1899), face ao método científico, o recurso a uma teoria dos mitos sociais. 

Sorel não repudia o marxismo, chega inclusivamente a defendê-lo contra alguns socialistas democráticos, mas considera que não existe nenhuma relação entre a verdade de uma doutrina e o seu valor operativo enquanto instrumento de combate. Sorel desloca o mito da esfera do intelecto e instala-o na esfera da afectividade e da actividade. Uma mentalidade religiosa contra a mentalidade racionalista. Sorel recorda que Bergson nos ensinou que a religião não ocupa a região da consciência profunda em exclusivo, ocupam-na também, pelas mesmas razões, os mitos revolucionários. Com isso, Sorel recusa o suposto carácter científico do marxismo e nega a possibilidade da explicação social em termos quase matemáticos.

3. Pela rebelião de Nietzsche. A única atitude coerente do revolucionário é a negação dos valores imperantes e a afirmação de outros novos e rebeldes. Nas "Reflexões sobre a Violência", Sorel afirma: "Os mitos não são descrições de coisas, mas expressões de vontade (…) conjuntos de imagens capazes de evocar em bloco e exclusivamente através da intuição, previamente a qualquer tipo de análise reflexiva, a massa dos sentimentos que correspondem às diversas manifestações da guerra movida pelo socialismo contra a sociedade moderna". Sorel assimila mito e convicções, entendendo estas em termos das ideias e crenças de Ortega. Sorel distingue entre a ética do guerreiro, que apoia, e a do intelectual, que condena: já não há soldados nem marinheiros, só vendedores cépticos.

Fases do pensamento soreliano

a) Socialismo marxista

Numa primeira fase, os sorelianos metamorfoseiam o marxismo, construindo uma nova ideologia revolucionária, descartando as teorias marxistas da mais-valia e de classe. Sorel esvazia o marxismo do hedonismo e do materialismo, tornando uma máquina intelectual esclerótica numa força mobilizadora ao serviço da destruição do que existe, o mundo materialista burguês. 

A teoria dos mitos torna-se o motor da revolução e a violência o seu instrumento: a violência proletária, pode não só garantir a revolução futura, como, além disso, parece ser o único meio de que as nações europeias, entontecidas pelo humanismo, dispõem para recuperar a sua antiga energia. Para Sorel, só os homens que vivem em estado de tensão permanente podem alcançar o sublime. Nessa via, Sorel reivindica o cristianismo primitivo e o sindicalismo de combate do seu tempo. Não nos aborreceremos em demonstrar que a ideia de violência revolucionária não se cinge ao derramamento de sangue nem à brutalidade, que são inerentes à exploração do trabalhador, camuflada sob a cortina de fumo do sufrágio partidocrático. Por essa via, também a crítica do sociólogo Pareto ao marxismo, base da sua teoria das elites, se aproxima da de Sorel.

b) Sindicalismo nacional

Numa segunda fase, depois de Sorel abandonar o socialismo (1909), o mito nacional substitui o mito exclusivamente proletário, já desgastado na luta contra a decadência democrática e racionalista. O ensino obrigatório, a alfabetização das zonas rurais, o acesso lento mas contínuo da classe operária à cultura, não favorecem a consciência de classe do proletariado, mas sim uma nova tomada de consciência da identidade nacional. Os sorelianos vêem a organização da sociedade em termos sindicalistas. Sorel crê que o sindicalismo, na sua luta contra a ditadura da burguesia e a ditadura do proletariado, ambas materialistas, possui um alto valor civilizacional. A influência de Sorel reflecte-se no parlamento de produtores defendido por José António, assim como na afirmação: "Concebemos Espanha como um gigantesco sindicato de produtores". Ledesma assumirá, além disso, o termo sindicalismo nacional que se expande entre os sorelianos franceses e italianos. Finalmente, o nacional vira-se para formas de sindicalismo do mesmo modo que os sindicalistas se viram para diferentes escolas do nacionalismo. 

Tomam também de Sorel a ideia de que a disciplina, a autoridade, a solidariedade social, o sentido de dever e de sacrifício, os valores heróicos, são outras tantas condições necessárias para a sobrevivência da nação. O mito nacional releva o mito meramente social como motor revolucionário. Para isso, é necessário que a convicção se apodere absolutamente da consciência e actue antes dos cálculos da reflexão terem tempo de aparecer no espírito. O mesmo é dizer que se opta por uma nova civilização que nasce da acção directa antes da reflexão teórica. Aqui Ledesma recebe uma maior influência soreliana que José António, que apesar da sua recusa da torre de marfim dos intelectuais sente uma certa nostalgia por ela, visível no seu "Homenagem e Censura a Ortega y Gasset".

A vanguarda cultural da primeira década do século XX, os futuristas, recebem com entusiasmo as ideias sorelianas pré-fascistas: "Os elementos essenciais da nossa poesia serão a coragem, a audácia e a rebelião. Queremos derrubar os museus, as bibliotecas, atacar o moralismo (…) Exaltamos as marés multicores e polifónicas das revoluções. Em pé no topo do mundo, lançamos uma vez mais o desafio às estrelas" (Marinetti, 1909).

Em 1920 ocorre um facto crucial para a opinião pública ocidental. Apoiados por numerosas greves parciais e ocupações de fábricas no norte de Itália, os nacional-sindicalistas italianos apresentam a sua proposta de auto-gestão da indústria ao Ministro do Trabalho, Arturo Labriola. O Primeiro-Ministro Giolitti reconhece o direito de participação dos trabalhadores nas empresas. O nacional-sindicalismo italiano obtém assim uma vitória épica.

Os sorelianos abrem assim a terceira via entre as duas concepções totais do homem e da sociedade que são o liberalismo e o marxismo, ideologias vítimas do racionalismo onde se prescinde da intuição e do sentimento a favor de uma impossível concepção matemática das ciências sociais. 

O discurso de Sorel torna-se transversal, baseado fundamentalmente no poder dos sindicatos mas repudiando o carácter meramente reivindicativo destes, ou seja, a sua domesticação pelo socialismo parlamentar. Sorel repudia os pactos e acordos com a burguesia, assim como o sistema de domínio do liberalismo democratizado: o parlamentarismo. Sorel odeia tanto a burguesia e a democracia liberal que recebeu com júbilo a revolução russa, apesar de ter criticado energicamente o leninismo dos revolucionários profissionais. Sorel vê em Lenine a vingança do génio criador do chefe contra a vulgaridade democrática. Aconselhava os sindicatos a alhearem-se do mundo corrupto dos políticos e dos intelectuais burgueses, distinguindo entre conspiração e revolução. Só a segunda dá vida a uma nova moral. Só os trabalhadores mais militantes – diz Sorel – são sindicalistas: "O operário da grande indústria substituirá o guerreiro da cidade heróica". Portanto, os valores de ambos são comuns e o ascetismo e a eliminação do individualismo implicam características compartilhadas pelo soldado-monge e pelo operário-combatente. Podemos encontrar coincidências entre o desenvolvimento de Sorel e de Spengler.

c) Fascismo

Sorel não desacreditou o uso que os fascistas faziam do seu nome. De facto, o fascismo nasce da crítica sindicalista, com uma forte componente soreliana, ao marxismo racionalista ortodoxo. O fascismo assume-se contra a desumanização introduzida pela modernização nas relações humanas, mas, ao contrário do tradicionalismo, deseja conservar zelosamente as conquistas do progresso. A revolução fascista procura transformar a natureza das relações entre o indivíduo e a comunidade mas sem desbaratar o motor da actividade económica moderna. Os sorelianos são os primeiros revolucionários surgidos da esquerda que se negam a questionar a propriedade privada. Consideram que atacá-la leva a confundir o inimigo real: a concepção burguesa e materialista da existência, também encarnada pelo jacobino e pelo social-democrata. 

Os sorelianos mantêm-se fiéis à ideia de que todo o progresso depende, e dependerá, duma economia de mercado, tal como defende hoje o economista joseantoniano Velarde Fuertes, ao contrário dos projectos estatistas de Dionísio Ridruejo. Neste ponto do debate, os nacional-sindicalistas dividem-se, a maioria passa a apoiar directamente o fascismo, inclusivamente quando este modera o seu aspecto de transformação económica da sociedade. Outro pequeno sector, a ala esquerda, rompe com o fascismo e recupera o velho axioma do sindicalismo revolucionário: a sociedade de trabalhadores livres.

A passagem de um ao outro é visível em José António comparando o Discurso da Comédia em 1933 e o Discurso da Revolução Espanhola de 1935, no qual enumera quatro tipos de propriedade: a pessoal, a familiar, a comunal e a sindical. Estão ausentes a estatal e a correspondente às sociedades anónimas.

Em qualquer caso, com a síntese fascista, a estética revolucionária e heróica converte-se em parte integrante da política e da economia.

Conclusão

Sorel, nos artigos reunidos em "As Ilusões do Progresso", denuncia Descartes, dado que as suas ideias são as da classe dominante. Recusa o racionalismo que se torna optimismo ao entender o mundo como um imenso armazém onde todos podem satisfazer as suas necessidades materiais. Sorel pede que o socialismo se transforme numa filosofia de comportamento moral, onde as relações dos trabalhadores gerem uma nova ética, absolutamente distinta da moral burguesa, o real inimigo de Sorel.

Sorel abandona o proletarismo quando comprova que a violência operária, sustentada nas reivindicações materiais, não eleva o proletariado ao nível de uma força histórica susceptível de engendrar uma nova civilização. Sorel anuncia que o sindicalismo se separa do socialismo racionalista e repudia, finalmente, Marx e Hegel. 

Sorel assume a frase de Croce e afirma: "O socialismo morre, quando descobre, com amargura, que as ideias, preocupações, fins e comportamentos do trabalhador não diferem das dos burgueses". O carácter compromissório do parlamentarismo liberal seduziu os partidos socialistas europeus ocidentais e os sindicatos, animados pela acção directa e o mito da greve revolucionária, ou se acomodam ou se separam radicalmente do socialismo parlamentar.

Sorel desliga-se das construções teóricas que antecedem a acção. É um apaixonado do feito revolucionário, o que ajuda a compreender a sua passagem do marxismo de combate, que abandona quando a social-democracia se domestica nos parlamentos, à sua posterior adesão aos processos de revolução nacional que sacodem a Europa.

Quando em 23 de Março de 1919, na praça de San Sepolcro de Milão, Mussolini funda o fascismo italiano, entre os presentes encontram-se muitos sindicalistas sorelianos, fartos da conivência da burguesia com o Partido Socialista Italiano do qual também procede o futuro Duce.

Em resumo, o fascismo não nasce da burguesia mas sim de uma cisão da esquerda socialista, a fracção daqueles que abominam o liberalismo parlamentar e consideram que a missão histórica do proletariado não é impor uma ditadura mas sim criar uma nova civilização.

Finalmente o fascismo perde o seu ímpeto revolucionário, quando inicia a sua política de pactos com a burguesia industrial, e os partidos nacionais do resto da Europa rompem com ele e buscam um novo encaixe da revolução nacional com o brio puro e anti-político das massas anarco-sindicalistas.O melhor exemplo temo-lo em Ramiro Ledesma e a "Conquista do Estado". 

Ledesma não opta pelo fascismo, apesar do seu "viva a Itália de Mussolini" ou "viva a Alemanha de Hitler", nem pelo bolchevismo, também apesar do seu "viva a Rússia de Estaline", mas sim por algo consubstancial a todos eles, o fim da democracia liberal, esse regime baseado nas palavras do soreliano Berth, no voto secreto… o símbolo perfeito da democracia. Vejam o cidadão, esse membro do soberano, que medrosamente vai exercer a sua soberania, esconde-se, evita os olhares, nenhum papel será suficientemente opaco para ocultar aos olhares indiscretos o seu pensamento…

Ledesma, como Sorel e José António, entendem que o trabalhador tem por missão recuperar o sentimento heróico da existência, antigamente nas mãos do guerreiro.

Sorel é a superação do mecanicismo marxista. José António dá um passo mais, superando o fascismo corporativista e unindo a questão social e a nacional com o compromisso humano e utópico.

Em resumo, o fascismo é uma revisão do socialismo. O nacional-sindicalismo, ao fim e ao cabo, implica uma superação do carácter material e compromissório de ambos, entroncando com o sindicalismo revolucionário e a nacionalização do proletariado, construindo uma sociedade vertebrada sem estatismo.