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01/09/2022

Israel Lira - Putinismo: Entre Russofobia e Russofilia

 por Israel Lira

(2022)


Putin o tirano, Putin o sátrapa, Putin o assassino, Putin o genocida, que transformou a Rússia em um país autoritário e antidemocrático, que viola os direitos humanos e particularmente os das minorias sexuais, que viola a liberdade de expressão, que intimida seus próprios funcionários, que persegue seus oponentes. Em suma, Putin, o Stálin do século XXI. Esta é a visão predominante hoje no Ocidente como consequência óbvia da intervenção estratégica russa na Ucrânia, típica de uma demonização realizada pela chamada "Imprensa Livre" do "Mundo Livre", sendo esta última a categoria mais alta de uma expressão quase lisológica - a da "Comunidade Internacional"; quase lisológica porque pretende significar muitas coisas (na narrativa), mas que no final, (e na realidade), está reduzida aos Estados Unidos e à Aliança Atlântica e seu enorme poder geopolítico.

05/01/2021

Israel Lira - Crítica Epistemológica ao “Ur-Fascismo” de Umberto Eco

 por Israel Lira

(2017)


“Nota-se que, como é usada, a palavra ‘fascismo’ não tem quase nenhum significado. Em conversas ela é usada ainda mais insanamente do que na imprensa. Pelo que ouvi, ela se aplica a agricultores, a comerciantes, ao crédito social, aos castigos corporais, à caça à raposa, às touradas, ao comitê de 1922, ao comitê de 1941, a Kipling, a Gandhi, a Chiang Kai-Shek, à homossexualidade, aos programas de Priestley, aos albergues juvenis, à astrologia, às mulheres, aos cães e a não sei o que mais” [1] Uma citação orwelliana que hoje mais do que nunca se faz presente, pois diante da instabilidade da região, parece haver mais fascistas do que na época do surgimento do fascismo, e é porque o termo já foi completamente esvaziado de conteúdo.

Umberto Eco, o escritor e filósofo italiano, definitivamente não é o tipo de pessoa que abandona sua objetividade apenas para apoiar um sistema de pensamento; pelo contrário, sempre se caracterizou por sua grande sabedoria sobre muitos assuntos, especialmente quando se trata de semiótica[2]. Sem prejuízo disso, e em homenagem ao amicus plato sed magis amicas est veritas[3], não se pode deixar de notar que, a respeito de suas dissertações que tratam da fenomenologia fascista, e embora não deixem de revelar posições interessantes que exigiriam maior contraste empírico – devido à falta de interesse geral na investigação objetiva do assunto – há certas deficiências que diminuem a objetividade do discurso econiano, isto dentro de uma crítica estritamente enquadrada pela epistemologia.

12/08/2020

Israel Lira - Anticapitalismo ou Antiliberalismo?

por Israel Lira

(2020)




Em muitos lugares ao redor do mundo há uma onda de protestos contra o liberalismo (sob sua forma atual, neoliberalismo) e o capitalismo. Mas a pergunta é: por que não existem protestos com o mesmo vigor em nações capitalistas como Coreia do Sul, Cingapura ou Rússia, observadas as diferenças óbvias de cada país, como na França, Equador e Chile? Apenas para mencionar os casos mais recentes e conhecidos, o que realmente está em crise? Liberalismo ou capitalismo? Ambos? Vamos começar com o arcabouço teórico, uma vez que a categoria de capitalismo é talvez a mais usada e prostituída de todas, tomada como análoga a outras categorias, como propriedade privada e economia de mercado, o que gerou uma onda de defesa do capitalismo para pessoas pobres em que todos são capitalistas — a velha senhora que vende abacaxi nas ruas é capitalista, a mercearia é capitalista etc. Esse é precisamente o problema quando não temos conceitos claros.

23/05/2020

Israel Lira - A Origem Medieval da Quarentena

por Israel Lira

(2020)



No mundo contemporâneo, e agora mais do que nunca com a atual pandemia, estamos acostumados com os termos isolamento e quarentena, conceitos de diferentes escopos, aliás. Nosso governo, no entanto, optou pela noção abrangente de “isolamento social obrigatório”, que nos remete às declarações de nosso próprio presidente, que, ao se referir a esta idéia, argumentou que preferia o uso desta, à palavra quarentena, devido à carga cognitiva que ela traz consigo. Sem prejuízo disso, não muda o fato objetivo de que estamos em quarentena, e aí vem precisamente a distinção, que geralmente é abordada no plano internacional. Para citar um exemplo específico, a Divisão de Saúde Pública do Estado de Delaware, diferencia o isolamento da quarentena pelo sujeito a quem é imposta a ação restritiva, ou seja, quando o sujeito é uma pessoa infectada por alguma doença contagiosa, o confinamento da mesma ocorre para impedi-lo de infectar outros. Em outras palavras, o sujeito ativo do isolamento é uma pessoa infectada, e o sujeito passivo que se busca proteger com essa ação é a pessoa saudável. Não obstante, é esta última que nos remete à quarentena, que está ligada ao isolamento em situações pandêmicas, e é quando o sujeito passivo torna-se ativo, ou seja, objeto de cumprimento de restrições.

05/03/2020

Israel Lira - Arqueofuturismo: Um Dinamismo Vitalista

por Israel Lira

(2019)



“...as formas políticas e sociais da modernidade se fragilizam; as formas arcaicas ressurgem em todos os domínios, o renascimento de um Islã conquistador, é um exemplo perfeito. Por fim, as alterações futuras da tecnociência – principalmente na genética – assim como o retorno trágico à realidade que o século XXI prepara, exigirão o retorno a uma mentalidade arcaica. É o modernismo que é um passadismo. Não se tem que voltar ao ‘tradicionalismo’ clássico, impregnado de folclorismo e sonhador de um retorno ao passado. A modernidade já está obsoleta. O futuro tem que ser ‘arcaico’, ou seja, nem moderno, nem passadista” (Faye, 1998:15)

Após a citação de Faye fica muito claro que este sempre foi diáfano no estabelecimento dos princípios consubstanciais de seu sistema teórico, para evitar com isso, precisamente, que este pudesse se confundir com outras teorias que também tem dentro de suas considerações a tecnociência. No caso particular de Faye, a aproximação universal de sua proposição se entende sob a categoria de construtivismo vitalista[1], enquanto que sua conceituação específica sob a forma do neologismo arqueofuturismo[2]. Esta nova doutrina influenciou diversas correntes teóricas até hoje[3], dentro do marco de propostas antiglobalistas, anti-individualistas e antiliberais, frente a um mundo pós-moderno que se apresenta a nós sob a narrativa do niilismo cultural, cujas principais expressões fenomênicas as temos no secularismo niilista, na globalização neoliberal, no narcisismo hiperindividualista e no relativismo cultural extremo[4].