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16/05/2015

Tomislav Sunic - História e Decadência: O Pessimismo Cultural de Spengler Hoje

por Tomislav Sunic



Oswald Spengler (1880-1936) exerceu influência considerável sobre o conservadorismo europeu antes da Segunda Guerra Mundial. Ainda que sua popularidade tenha diminuído ligeiramente após a guerra, suas análises, à luz das condições perturbadoras da política moderna, novamente parecem ganhar popularidade. Literatura recente lidando com sombrios temas pós-modernos sugerem que as profecias de Spengler sobre decadência podem agora encontrar apoiadores dos dois lados do espectro político. A natureza alienadora da tecnologia moderna e a decadência social e moral de grandes cidades hoje dá crédito novo à visão spengleriana do colapso iminente do Ocidente. Na América e na Europa um número cada vez maior de autores percebe no estado permissivo liberal um arauto do totalitarismo "suave" que pode levar decisivamente à entropia social e concluir no advento do totalitarismo "duro".

Spengler escreveu sua principal obra O Declínio do Ocidente (Der Untergang des Abendlandes) contra o pano-de-fundo da antecipada vitória alemã na Primeira Guerra Mundial. Quando a guerra acabou em desastre para os alemães, suas previsões de que a Alemanha, junto ao resto da Europa, estava destinada a um declínio irreversível adquiriu um senso renovado de urgência para grandes números de pessimistas culturais. A Primeira Guerra Mundial deve ter abalado profundamente o otimismo semi-religioso daqueles que haviam anteriormente profetizado que as intenções tecnológicas e os elos econômicos internacionais pavimentariam o caminho para a paz e a prosperidade. Ademais, a guerra provou que as invenções tecnológicas poderiam ser um instrumento perfeito para a alienação humana e, eventualmente, sua aniquilação física. Inadvertidamente, ao tentar interpretar os ciclos da história mundial, Spengler provavelmente teve mais sucesso em difundir os espíritos de desespero cultural a sua própria geração e às futuras.

Como Giambattista Vico, que dois séculos atrás desenvolveu sua tese sobre a ascensão e declínio da cultura, Spengler tentou projetar um padrão de crescimento cultural e decadência cultural de uma certa forma científica: "a morfologia da história" - como ele mesmo e outros se referem a sua obra - ainda que o termo "biologia" pareça mais apropriado considerando a inclinação de Spengler por ver culturas como entidades orgânicas, alternadamente afligidas com doenças e pragas ou mostrando sinais de vida vigorosa. Indubitavelmente, a concepção orgânica da história foi, em grande medida, inspirada pela popularidade da literatura científica e pseudocientífica, que, no início do século XX começou a focar sua atenção nos paradigmas raciais e genéticos para explicar os padrões de decadência social. Spengler, porém, prudentemente evita o determinismo racial em sua descrição da decadência, ainda que sua exaltação do determinismo histórico em sua descrição não raro o aproxime de Marx - ainda que em uma direção inversa e pessimista. Em contraste a muitos pensadores igualitários, o elitismo e o organicismo de Spengler concebiam a espécie humana como composta por povos distintos e opostos, cada um experimentando seu próprio crescimento e morte, e cada um lutando pela sobrevivência. A "humanidade", escreve Spengler, deveria ser vista ou como um "conceito zoológico ou uma palavra vazia". Se algum dia esse fantasma da humanidade desaparecer da circulação das formas históricas, "nós notaremos então uma afluência assombrosa de formas genuínas". Aparentemente, por forma (Gestalt), Spengler quer se referir à ressurreição da noção clássica do Estado-Nação, que, no início do século XX, foi atacada pelos defensores da política globalista e universalista. Spengler deve receber crédito, porém, por apontar que o conceito frequentemente usado de "história mundial", na verdade envolve um conjunto impressionante de culturas diversas e opostas sem denominador comum; cada cultura expressa suas próprias formas, persegue suas próprias paixões e luta com sua própria vida ou morte. "Há culturas florescentes e fenecentes", escreve Spengler, "povos, línguas, verdades, deuses e paisagens, tal como há carvalhos, pinheiros, flores, arbustos e pétalas jovens e antigas - mas não há humanidade amadurecendo". Para Spengler, as culturas parecem estar crescendo em sublime futilidade, com algumas se aproximando de um estágio doentio terminal, e outras ainda demonstrando sinais vigorosos de vida. Antes da cultura emergir, o homem era uma criatura a-histórica; mas ele se torna a-histórico novamente e, pode-se acrescentar, até hostil à história: "tão logo alguma civilização tenha desenvolvido sua forma plena e final, pondo assim fim ao desenvolvimento vivo da cultura" (2:58; 2:38).

Spengler estava convencido, porém, de que a dinâmica da decadência bem poderia ser prevista, desde que dados históricos exatos estivessem disponíveis. Tal como a biologia humana gera uma expectativa bem definida, resultando finalmente na morte biológica, também cada cultura humana possui seus próprios "dados", normalmente não durando mais que mil anos - um período, separando seu desabrochar de sua eventual antítese histórica, o inverno, da civilização. A estimativa de mil anos antes do declínio da cultura se iniciar corresponde à certeza de Spengler de que, após este período, cada sociedade tem que se deparar com sua autodestruição. Por exemplo, após a queda de Roma, o renascimento da cultura europeia começou no século IX com a dinastia carolíngia. Após o doloroso processo de crescimento, auto-afirmação e amadurecimento, mil anos depois, no século XX, a vida cultural na Europa está chegando ao seu encerramento histórico definitivo.

Como Spengler e seus sucessores contemporâneos a veem, a cultura ocidental agora se transformou em uma civilização decadente afligida por uma forma avançada de degeneração social, moral e política. Os primeiros sinais dessa degeneração apareceram pouco após a Revolução Industrial, quando a máquina começou a substituir o homem, quando sentimentos deram lugar à razão. Desde aquele evento nefasto, novas formas de conduta política e social tem emergido no Ocidente - marcadas por uma obsessão difusa com o crescimento econômico infinito e o melhoramento humano irreversível - alimentadas pela crença de que o peso da história pode finalmente ser removido. As novas elites plutocráticas, que agora substituíram a aristocracia orgânica, impuseram o ganho material como o único princípio digno de ser perseguido, reduzindo toda interação humana a uma imensa transação econômica. E como as massas nunca podem estar plenamente satisfeitas, diz Spengler, é compreensível que eles buscaram mudanças em suas políticas existentes mesmo que tais mudanças possam significar a perda da liberdade. Poder-se-ia acrescentar que esse desejo por afluência econômica será traduzido em um declínio incessante do senso de responsabilidade pública e um sentido emergente de desenraizamento e anomia social, que finalmente e inevitavelmente levará ao advento do totalitarismo. Pareceria, portanto, que o processo de decadência pode ser evitado, ironicamente, apenas recorrendo-se a regimes linha-dura saudáveis.

Usando as previsões apocalípticas de Spengler, fica-se tentado a traçar um paralelo com a política ocidental moderna, que similarmente parece passar por um período de decadência e degeneração. John Lukacs, que porta o selo inequívoco do pessimismo spengleriano, vê a natureza permissiva da sociedade liberal moderna, como representada na América, como o primeiro passo na direção da desintegração social. Como Spengler, Lukacs afirma que o individualismo excessivo e o materialismo generalizado cada vez mais paralisam e tornam obsoleto o senso de responsabilidade cívica. Deve-se provavelmente concordar com Lukacs que nem a retirada da censura, nem a impopularidade crescente dos valores tradicionais, nem a limitação da autoridade estatal em Estados liberais contemporâneos, parecem ter levado a um ambiente mais pacífico; ao invés, um senso crescente de desespero parece ter despertado uma forma de neobarbarismo e vulgaridade social. "Já riqueza e pobreza, elegância e vulgaridade, sofisticação e selvageria vivem juntos cada vez mais", escreve Lukacs. De fato, que poderia ter previsto que uma sociedade capaz de lançar foguetes à lua ou curar doenças que outrora varreram o mundo também poderia se tornar uma civilização afligida pela atomização social, pela criminalidade e por um vício de escapismo? Com suas previsões apocalípticas, Lukacs tal como Spengler, escreve: "Esta mais apinhada de gente entre as ruas da maior das civilizações; este é agora o inferno do mundo".

Interessantemente, nem Spengler nem Lukacs nem outros pessimistas culturais parecem prestar muita atenção no apetite obsessivo por igualdade, que parece desempenhar, como vários autores contemporâneos apontam, um papel importante na decadência e no resultante senso de desespero cultural. Fica-se inclinado a pensar que o processo de decadência no Ocidente contemporâneo é o resultado de doutrinas igualitárias que prometem muito mas dão pouco, criando assim cidadãos economicistas e desenraizados. Ademais, elevados ao status de religiões seculares modernas, o igualitarismo e o economicismo inevitavelmente seguem sua própria dinâmica de crescimento, que provavelmente conclui, como Claude Polin nota, no "terror de todos contra todos" e no feio ressurgimento do totalitarismo democrático. Polin escreve: "O homem indiferenciado é por excelência um homem quantitativo; um homem que acidentalmente difere de seus vizinhos pela quantidade de bens econômicos em sua posse; um homem sujeito a estatísticas; um homem que reage espontaneamente conforme as estatísticas". Possivelmente, a sociedade liberal, caso se torne afligida por dificuldades econômicas e atingida por oportunidades rarefeitas, não terá opção senão domar as massas inquietas em um "regime de força" no sentido spengleriano.

Spengler e outros pessimistas culturais parecem estar certos em apontar que as formas democráticas de política, em sua fase final, estarão acometidas por convulsões morais e sociais, escândalos políticos, e por corrupção em todos os níveis sociais. No topo disso tudo, como Spengler prevê, o culto ao dinheiro reinará supremo, porque "através do dinheiro a democracia destrói a si mesma, após o dinheiro ter destruído o espírito" (2: p.582; 2: p. 464). Julgando pelo desenvolvimento moderno do capitalismo, Spengler não pode ser acusado de pressuposições fantasiosas. Essa civilização econômica soçobra em uma grande contradição: por um lado sua religião dos direitos humanos estende seus princípios legais beneficentes a todos, reconfortando cada indivíduo da legitimidade de seus apetites terrenos; por outro lado, essa mesma civilização igualitária fomenta um modelo de darwinismo econômico, atropelando impiedosamente sob seus pés aqueles cujos interesses não se situam na arena econômica.

O próximo passo, como Spengler sugere, será a transição da democracia ao cesarismo salutar; substituição da tirania dos poucos pela tirania dos muitos. O estado neo-hobbesiano, neo-bárbaro está sendo construído:

"Ao invés das piras emerge o grande silêncio. A ditadura dos chefes de partido é sustentada pela ditadura da imprensa. Com dinheiro, faz-se uma tentativa de atrair hordas de leitores e povos inteiros para longe da atenção do inimigo e trazê-los sob seu próprio controle de pensamento. Ali, eles aprendem apenas do que devem aprender, e uma vontade superior moldará sua imagem do mundo. Não é mais necessário - como faziam os príncipes barrocos - forçar seus subordinados ao serviço militar. Suas mentes são açoitadas através de artigos, telegramas, imagens, até que eles demandem armas e forcem seus líderes a uma guerra à qual estes queriam ser forçados". (2: p.463)

A questão fundamental, porém, que Spengler e muitos outros pessimistas culturais não parecem abordar, é se o cesarismo ou o totalitarismo representa o remédio antitético à decadência ou, contrariamente, a mais extrema forma de decadência? A literatura atual sobre totalitarismo parece focar nos efeitos colaterais desagradáveis do Estado saqueado, a ausência de direitos humanos, e o controle absoluto da política. Por contraste, se a democracia liberal é de fato um sistema extremamente desejável e o menos repressivo até então conhecido no Ocidente - e se, ademais, essa democracia liberal afirma ser o melhor custódio da dignidade humana - fica-se imaginando por que ele incansavelmente causa desenraizamento social e desespero cultural entre um número cada vez maior de pessoas? Como Claude Polin nota, as chances são de que, a curto prazo, o totalitarismo democrático vencerá já que a segurança que ele fornece tem mais apelo às massas do que a vaga noção de liberdade. Poder-se-ia acrescentar que o ritmo do processo democrático no Ocidente leva eventualmente ao impasse caótico, que necessita da imposição de um regime linha-dura.

Ainda que Spengler não forneça uma resposta satisfatória para a questão do cesarismo vs. decadência, ele admite que a decadência do Ocidente não precisa significar o colapso de todas as culturas. Ao invés, parece que a doença terminal do Ocidente pode ser um novo começo para outras culturas; a morte da Europa poderia resultar em uma África ou Ásia mais forte. Como muitos outros pessimistas culturais, Spengler reconhece que o Ocidente envelheceu, não deseja lutar, está com seu inventário político e cultural esgotado; consequentemente, ele é obrigado a ceder o mando da história àquelas nações que estão menos expostas ao pacifismo debilitador e aos sentimentos auto-flagelantes de culpa que, por assim dizer, se tornaram as novas marcas registradas do cidadão ocidental moderno. Poder-se-ia imaginar uma situação na qual essas novas nações viris e vitoriosas mal darão ouvidos às gentilezas democráticas de seus ex-senhores que se afundaram em sentimentos de culpa, e podem possivelmente em algum tempo no futuro, impôr seu próprio estilo de terror que eclipsará o legado da Auschwitz europeia e do Gulag. Em vista das tortuosas guerras civis e tribais por todo o continente africano e asiático descolonizados parece improvável que a política de poder e belicosidade desaparecerá com o "Declínio do Ocidente". Até agora, nenhuma prova foi ofertada de que nações não-europeias podem governar mais pacificamente e generosamente do que seus antigos senhores europeus. "O pacifismo permanecerá um ideal", Spengler nos recorda, "enquanto a guerra um fato. Se as raças brancas resolverem jamais travar guerra novamente, as de cor agirão diferentemente e se tornarão senhoras do mundo".

Nessa afirmação, Spengler indicia claramente o "homo europeanus" auto-odiador que, tendo se tornado vítima de sua má consciência, ingenuamente pensa que suas verdades devem permanecer irrefutavelmente voltadas contra ele. Spengler ataca fortemente essa falsa simpatia ocidental com os despossuídos - uma simpatia que Nietzsche outrora retratou como uma forma distorcida de egoísmo e moral escrava. "Essa é a razão", escreve Spengler", pela qual esse 'compasso moral', no sentido quotidiano evoluiu entre nós, às vezes buscado pelos pensadores, às vezes desejado, jamais foi realizado" (I: p.449; 1: p.350).

Essa forma de masoquismo político bem poderia ser estudada particularmente entre aqueles igualitaristas ocidentais contemporâneos que, com o declínio das tentações socialistas, substituíram o arquétipo do trabalhador europeu explorado pela iconografia do africano faminto. Em lugar algum essa mudança em simbologia política parece mais aparente do que no atual impulso ocidental de exportar formas ocidentais de civilização às antípodas do mundo. Esses ocidentais, no último espasmo de uma vergonha culpabilizada, estão provavelmente convencidos de que sua penitência histórica pode também garantir sua longevidade política e cultural. Spengler estava consciente dessas atitudes paralisantes entre europeus, e ele ressalta que, se um europeu moderno reconhece sua vulnerabilidade histórica, ele deve começar pensando para além de sua perspectiva estreita e desenvolver atitudes diferentes em relação a diferentes convicções e verdades políticas. O que Parsifal ou Prometeu tem a ver com o cidadão japonês médio, pergunta Spengler? "É exatamente isso que falta no pensador ocidental", continua Spengler, "e precisamente o que jamais deveria ter faltado nele; entendimento da relatividade histórica de suas realizações, que são elas próprias a manifestação de uma existência singular e única" (I: p.31; 1: p.23). Em um nível um tanto quanto diferente, se imagina em que medida a tão propagandeada disseminação de direitos humanos universais pode se tornar um princípio valioso para povos não-ocidentais se o universalismo ocidental significa não raro desrespeito patente por todas as particularidades culturais.

Mesmo com seu elogio do universalismo, como Serge Latouche recentemente notou, ocidentais tem, não obstante, garantido as posições mais confortáveis para si próprios. Ainda que eles agora tenham recuado aos bastidores da história, indiretamente, através de seu humanismo, eles ainda desempenham o papel de mestres indisputáveis do show do homem não-branco. "A morte do Ocidente por si mesma não foi o fim do Ocidente em si mesmo", acrescente Latouche. Fica-se a imaginar se tais atitudes ocidentais em relação ao universalismo representam outra forma de racismo, considerando o caos que essas atitudes tem criado nas comunidades tradicionais do Terceiro Mundo. Latouche parece correto em ressaltar que a decadência europeia se manifesta melhor em seu impulso masoquista de negar e descartar tudo que uma vez havia defendido, ao mesmo tempo simultaneamente sugando em sua órbita de decadência também outras culturas. Ainda assim, apesar de suicida em seu caráter, a mensagem ocidental contém admoestações obrigatórias para todas as nações não-europeias. Ele escreve:

"A missão do Ocidente não é explorar o Terceiro Mundo, nem cristianizar os pagãos, nem dominar pela presença branca; é libertar homens (e ainda mais as mulheres) da opressão e miséria. E para se responder a esse auto-ódio da visão anti-imperialista, que conclui no totalitarismo vermelho, fica-se agora compelido a secar as lágrimas do homem branco, e portanto garantir o sucesso dessa ocidentalização do mundo" (p.41)

O Ocidente decadente exibe, como Spengler sugere, uma cultura travestida vivendo de seu próprio passado em uma sociedade de nações indiferentes que, tendo perdido sua consciência histórica, sentem um impulso de se tornarem misturadas em uma "cidade global" promíscua. Fica-se imaginando o que ele diria hoje sobre a imigração massiva de não-europeus à Europa? Essa imigração não promoveu o entendimento entre as raças, mas causou mais conflito étnico e racial que, muito provavelmente, sinaliza uma série de novos conflitos no futuro. Mas Spengler não deplora a "desvalorização de todos os valores" nem a morte de culturas. De fato, para ele a decadência é um processo natural de senilidade que conclui na civilização, porque civilização é decadência. Spengler faz uma distinção tipicamente germânica entre cultura e civilização, dois termos que são, infelizmente, usados como sinônimos em inglês. Para Spengler, civilização é um produto do intelecto, do intelecto completamente racionalizado; civilização significa desenraizamento e, enquanto tal, desenvolve sua forma última na megalópole moderna que, ao fim de sua jornada, "condenada, avança rumo a sua autodestruição" (2: p.127; 2: p.107) A força do povo foi eclipsada pela massificação; a criatividade deu lugar à arte "kitsch"; o gênio foi subordinado à razão. Ele escreve:

"Cultura e civilização. Por um lado a carcaça viva de uma alma e, por outro, sua múmia. É assim que a existência europeia ocidental se difere a partir de 1800. A vida em sua riqueza e normalidade, cuja forma cresceu e amadureceu de dentro para fora em um poderoso curso se estendendo dos dias adolescentes dos góticos a Goethe e Napoleão - naquela velha vida artificial e desenraizada de nossas grandes cidades, cujas formas são criadas pelo intelecto. Cultura e civilização. O organismo nascido no campo, que termina no mecanismo petrificado". (1: p.453; 1: p.353).

Em ainda outra demonstração de determinismo, Spengler disputa que não se pode escapar do destino histórico: "as primeiras coisas inescapáveis que confrontam o homem como um destino inevitável, que nenhum pensamento pode abarcar, e nenhuma vontade pode mudar, é o lugar e tempo do próprio nascimento: todos nascem em um povo, uma religião, um estrato social, um período do tempo e uma cultura". O homem está tão limitado por seu ambiente histórico que todas as tentativas de modificar o próprio destino são inúteis. E, portanto, todos os postulados floridos sobre o melhoramento da humanidade, todo o filosofar liberal e socialista sobre um futuro glorioso em relação aos deveres da humanidade e a essência da ética, são inúteis. Spengler não vê outro caminho de redenção exceto declarando-se a si mesmo como um pessimista resoluto e fundamental:

"A humanidade me parece uma quantidade zoológica. Eu não vejo progresso, não vejo objetivo, não vejo caminho para a humanidade, exceto nas mentes dos filisteus progressistas do Ocidente... Eu não consigo ver uma mente única e muito menos uma unidade de projetos, sentimentos e entendimento nessas massas estéreis" (Ensaios Selecionados, p. 73-74; 147).

A natureza determinista do pessimismo de Spengler foi recentemente criticada por Konrad Lorenz que, apesar de partilhar do desespero cultural de Spengler, rejeita a linearidade predeterminada da decadência. Em sua capacidade de etologista e como um dos neodarwinistas mais articulados, Lorenz admite a possibilidade de uma interrupção da filogênese humana - mas, ainda assim, afirma que novas possibilidades para desenvolvimento cultural permanecem sempre abertas. "Nada é mais estranhos para o epistemólogo evolutivo, bem como, para o médico", escreve Lorenz, "do que a doutrina do fatalismo". Mesmo assim, Lorenz não hesita em criticar veementemente a decadência nas sociedades de massa modernas que, em sua opinião, já deram origem a espécimes pacificados e domesticados, incapazes de perseguir projetos culturais. Lorenz certamente encontraria ressonância positiva com o próprio Spengler ao escrever:

"Isso explica como a doutrina pseudo-democrática de que todos os homens são iguais, pelo que se acredita que todos os humanos são inicialmente similares e flexíveis, pôde ser transformada em religião estatal tanto pelos lobistas da grande indústria, como pelos ideólogos do comunismo". (p. 179-180)

Apesar da crítica ao determinismo histórico que foi lançada contra ele, Spengler não raramente confunde seu leitor com exclamações faustianas reminiscentes de alguém preparado para a guerra, ao invés de alguém reconciliado com um fim sublime. "Não, eu não sou um pessimista", escreve Spengler em Pessimismo, "pois Pessimismo significa não enxergar mais deveres. Eu vejo tantos deveres ainda por resolver que eu temo que o tempo e os homens esgotarão antes de resolvê-los" (p.75). Essas palavras não são muito coerentes com o desespero cultural que previamente ele elaborou de forma tão apaixonada. Ademais, ele muitas vezes prega a força e dureza do guerreiro para se poder evitar o desastre da Europa.

Se é levado à conclusão de que Spengler exalta o pessimismo histórico ou o "pessimismo propositado" (Zweckpressimismus), desde que isso traduza sua convicção na decadência irreversível da política europeia; porém, uma vez que ele perceba que os buracos culturais e políticos estão abertos para regeneração moral e social, ele rapidamente reverte para o elogio da política de poder. Características similares são muitas vezes encontradas entre muitos romancistas e cientistas sociais cujo legado na difusão do pessimismo cultural desempenhou um papel importante na formação do comportamento político entre conservadores europeus antes da Segunda Guerra Mundial. Fica-se a imaginar por que todos eles, como Spengler, lamentam a decadência do Ocidente se essa decadência já foi selada, se o dado cósmico já foi lançado, e se todos os esforços de rejuvenescimento político e cultural são inúteis? Ademais, em um esforço de corrigir o incorrigível, ao defender uma mentalidade e vontade de poder faustianas, esses pessimistas parecem emular o otimismo de socialistas mais do que as ideias desses reconciliados com a catástrofe social iminente.

Para Spengler e outros pessimistas culturais, o senso de decadência é inerentemente combinado com uma repulsa pela modernidade e uma aversão pela ganância econômica generalizada. Como a história recente demonstrou, a manifestação política dessa repulsa pode levar a resultados menos saborosos: a glorificação da vontade de poder e a nostalgia da morte. Nesse momento, a sutileza literária e a beleza artística podem tomar um rumo bastante agourento. A história recente da Europa é testemunha de como o pessimismo cultural diário pode se tornar um instrumento útil para titãs políticos modernos. Não obstante, os desastres que se aproximam tem algo de inspirador para as gerações de pessimistas culturais cuja natureza hipersensível - e desdém pela sociedade materialista - muitas vezes cai no niilismo político. Essa veia niilista foi ousadamente expressa pelo contemporâneo de Spengler, Friedrich Sieburg, que nos lembra que "a vida diária da democracia com seus tristes problemas é tediosa, mas as catástrofes vindouras são bem interessantes".

Não se pode evitar de pensar que, para Spengler e seus semelhantes, em um contexto histórico mais amplo, a guerra e a política de poder oferecem uma esperança regenerativa contra o sentimento onipresente de desespero cultural. Ainda assim, independentemente da validade das visões ou pesadelos spenglerianos, não é preciso muita imaginação para observar na decadência do Ocidente o último sonho crepuscular de uma democracia que já se cansou de si. 

21/01/2014

Horacio Cagni - Spengler na América do Sul

por Horacio Cagni



O alemão Oswald Spengler (1880-1936) é um dos pensadores mais controvertidos do século. Sua morfologia das culturas, expressada em sua obra fundamental A Decadência do Ocidente (1918-1922) e outros livros, teve uma grande repercussão na produção historiográfica dos anos vinte e trinta, e uma enorme influência nas idéias da época, influência que se prolonga, com altos e baixos, até nossos dias. Filósofo da história, homem vindo das ciências exatas e da biologia, nunca se considerou um catedrático senão um educador, e particularmente um educador da juventude alemã, um expoente da realidade de sua pátria e da Europa de seu tempo, de uma época de profunda crise.

Spengler, que havia escrito a primeira parte de A Decadência em meio a grandes dificuldades, se converteu rapidamente em um dos personagens mais importantes do mundo intelectual germânico, e não só nesse âmbito. Era comentado pelos críticos, visitado pelos jornalistas dos mais variados países, criticados pelos catedráticos e assediado pelos curiosos, naquela Munique povoada de presságios.

É que o filósofo da decadência não se limitava a ser um frio especialista em culturas comparadas e suas leis homólogas, senão que também era um pensador sensível, lastimado pelos acontecimentos em que se encontrava sua amada pátria no pós-guerra, de modo que também, ao não querer ser um simples "pensador de escrivaninha", se converteu em um notável escritor político.

A recepção de Spengler na América do Sul foi bastante precoce. A morfologia das culturas do filósofo de Blankenburg, com suas oito culturas diferenciadas, coloca a ocidental como uma mais, e se bem Spengler afirma a preferência de si mesmo, adverte com clareza que o Ocidente, se bem domina a cena há séculos, não veio antes de outras formas culturais superiores, nem escapa à decadência implacável de toda civilização. Era uma crítica direta ao eurocentrismo. Precisamente, a obra fundamental do filósofo sai à luz no fim da Grande Guerra, quando os orgulhosos ideais do Iluminismo e as finezas da Bélle Époque haviam ficado enterrados no lodo das trincheiras. Spengler tinha preparado seu primeiro volume já em 1916, porém encontrou editor em 1918 e, se não produto da derrota alemã, seu êxito se deveu a um estado sombrio de ânimo, que se conjugava perfeitamente com o atraente título.

Essa sensação de finitude, de acabamento de uma grande civilização, que projetavam os horrores do conflito, motivou em muitos intelectuais sulamericanos - a maioria conhecia bem ao Velho Continente - uma série de reflexões sobre os tempos futuros. Saul Taborda, um argentino cordobês que havia estudado na Alemanha, exemplifica claramente esse novo espírito: "A Europa fracassou. Já não há de guiar o mundo. A América, que conhece seu processo evolutivo e assim também as causas de sua derrota, pode e deve acender o fogo sagrado da civilização com os ensinamentos da história. Como? Revisando, corrigindo, depurando e transmutando os valores antigos, em uma palavra, retificando a Europa. A Europa necessitava de colônias abundantes em produtos e riquezas, e colônias fomos até hoje e seguiremos sendo enquanto a cultura americana não seja outra coisa que um pálido reflexo da cultura européia. Revisar, corrigir, desfazer ou transmutar os valores europeus, custe o que custar, é a missão que nos compete nesse instante decisivo da história".

Ainda não havia aparecido o Tomo II de Decadência quando o Dr. Ernesto Quesada, antes que em nenhum outro lugar do mundo fora da Alemanha, dedicava todo o ano de 1921 à "sociologia relativista spengleriana", quarenta e quatro conferências ditadas em sua cátedra nas Universidades de Buenos Aires e La Plata. Não só estava inteirado o acadêmico argentino das teorias de Spengler, também conhecia as críticas aparecidas até então. Faz referência a inúmeras delas, principalmente na Alemanha, mas também às de Croce, na Itália, por exemplo. Pelo visto, Quesada estava em Buenos Aires inteirado até dos artigos dos periódicos; e aquela não era, precisamente, uma era de comunicações de massa.

Quesada pediu a Spengler que lhe enviasse um curriculum. O alemão respondeu através de um amigo do catedrático argentino: "Comunico ao senhor para o prof. Quesada os poucos dados que lhe podem ser de utilidade. Nascido em 1880 em Blankenburg, no Harz, estudei, no Ginásio - de conhecida filiação clássica - da Fundação Franke, na cidade de Halle. Cursei nas universidades de Halle, Berlim e Munique, dedicando-me às matemáticas e às ciências naturais, sem interessar-me mormente pelas disciplinas filosóficas. De 1908 a 1911 fui a Hamburgo e ali organizei as coleções de ciências naturais. Em 1911 renunciei, e me trasladei a Munique, onde - repentinamente e com assombro meu - 'encontrei' minha filosofia. Em relação a minha evolução mental pouco tenho a dizer, porque até então a filosofia era a disciplina que mais longe estava de mim. Na prática, as idéias de meu livro se baseiam principalmente na arte, na matemática e na história política, com poucas reflexões filosóficas puras. Mais que isso não saberia o que poder comunicar que despertasse interesse".

Apesar de Quesada fazer em seus cursos uma exposição quase literal da teorética spengleriana, com poucas anotações à margem, tem o mérito especial de ter vislumbrado a novidade e riqueza de idéias da Decadência, contribuindo de tal modo a sua difusão na Argentina e América do Sul, que conseguiu ser tido em conta por um homem tão distante como o próprio Spengler.

É sabido que a "morfologia das culturas" spengleriana contempla oito culturas distintas: egípcia, chinesa, babilônica, indiana, árabe ou magiana, antiga, mexicana e ocidental. Quando estuda algumas como a antiga, a magiana e a ocidental, os conhecimentos que demonstra possuir Spengler são enormes, mas estes se reduzem consideravelmente no caso particular da mexicana.

Foi então que o Dr. Quesada apresentou a Spengler elementos sobre as culturas americanas. Quando o renomado curso de 1921 apareceu anunciado no Münchener Nachrichten, o argentino recebeu uma carta que assinalava: "Spengler está vivamente interessado por tudo que se refira às culturas americanas e roga lhe envie uma bibliografia da questão em alemão, francês e inglês, pois não possui outros idiomas; encontra deficiente tudo o que conhece na literatura germânica. Lhe atrai especialmente a cultura maia e inca; tem o conceito, que deseja comprovar com dados fáticos, de que as culturas maias, aztecas e inca apresentam fenomenologia análoga que a grecorromana clássica. Quando à maia quiche, suas grandes cidades em Yucatán, com seus 300 a 400 mil habitantes, sepultados hoje sob o humus das florestas centroamericanas, demonstram um desenvolvimento artístico análogo ao realismo da plástica grega do último período porém carece de elementos suficientes de estudo e lhe interessa muito que o senhor lhe transmita o quando possa lhe servir a seu objetivo".

Finalmente, o próprio Spengler lhe escreve diretamente: "Dos informes que recebo de seu curso vejo que o senhor dá importância particular à omissão das grandes culturas americanas em meu livro. Da mexicana me ocupo várias vezes na segunda parte, porém me foi impossível obter material sobre as sulamericanas, não conheço nada de importância, suspeito que na América devem ter aparecido obras importantes porém estão escritas em espanhol, que não domino: em todo caso não encontrei nem rastro delas em nossas bibliotecas. Ficaria especialmente endividado com o senhor se pudesse me facilitar informação". É assim que o "mago das culturas" recorreu a um catedrático sulamericano para se informar sobre o acontecer histórico.

Na imprevisibilidade do acontecer universal, nada igual ao que ocorreu com as culturas americanas, abrupta a violentamente destruídas quando estavam em seu zênite, "como um transeunte esmaga uma flor; essa cultura é o único exemplo (se refere à mexicana) de morte violenta". E aponta a semelhança de sua evolução com a cultura antiga ou clássica: "precisamente um traço antigo, a falta de vontade de poder na técnica, é a que determinou a índole de seu armamento e fez possível a catástrofe. O mais terrível é que nem mesmo foi tal destruição uma necessidade para a cultura do ocidente; a realizaram de modo privado uns quantos aventureiros, sem que ninguém na Alemanha, Inglaterra e França suspeitasse do que se passava na América. Essa é a melhor prova de que a história humana carece de sentido".

Evidentemente, Spengler não tinha demasiada informação sobre a América; em rigor existia pouco conhecimento do mundo pré-colombiano e não havia muito publicado. Ainda quando na segunda parte de A Decadência - e por influência de seu colega argentino - se haja ocupado mais, com alguns breves porém interessantes aportes sobre o México, deixando os incas para algumas menções vagas. Dado que se refere a influências de culturas com alma própria sobre outras reais, pode-se deduzir que não considerava aos incas uma cultura absolutamente "própria" como a mexicana. Se faz outra reflexão, considerando "a história religiosa de incas e maias, perdida para nós" nascendo em épocas correspondentes a Alexandre e a ascensão do grupo de religiões mágicas no território situado entre o mundo antigo e a Judéia". Por outro lado, e apesar das dificuldades de interpretação, em A Decadência arrisca algumas homologias entre a cultura mexicana e outras desde uma época primitiva - Copán, Chichén Itza, Palenque - até um "helenismo" maia e a culminação na cultura nahuatl com o caráter urbano de Uxmal, a "romanização" e o "cesarismo" até a irrupção dos "bárbaros aztecas" e o final abrupto às mãos de uma barbárie ainda maior e mais heróica, a irrupção dos homens de Cortés, em meio a uma "segunda religiosidade" azteca, tanática e de vontade de morte, muito distanciada da religião maia "impregnada de espírito".

Spengler nunca esteve suficientemente informado para arriscar uma hipótese concreta sobre as culturas americanas. De todo modo, não interessa aqui aprofundar a concepção spengleriana das culturas americanas, senão comprovar a influência que a relação com Ernesto Quesada significou em suas indagações. Logo de seu extenso curso sobre a teoria sociológica spengleriana, o argentino foi visitar o filósofo da decadência em sua casa de Munique; assim se iniciou uma amizade muito proveitosa para ambos. Quesada difundiu as teses spenglerianas nos centros acadêmicos sulamericanos através de diversos escritos e conferências, e o alemão sem dúvida deve ter absorvido muitos dados de suas conversas com aquele, que não deixou de lhe observar o vazio existente em sua obra sobre o ciclo pré-colombiano. Ao menos a reflexão sobre Juan Manuel de Rosas - "uma poderosa figura de estilo prussiano representativo da aristocracia contra o jacobinismo" - parece impossível de não ter sido inspirada nos diálogos com o filho de Vicente Quesada, testemunha e protagonista daquela época.

O acadêmico argentino ficou muito impressionado por "esse monge leigo que vive em um par de cômodos repletos de livros, em um terceiro andar de um subúrbio silencioso, com um modesto letreiro manuscrito na porta de seu departamento, no qual pede aos visitantes que lhe comuniquem antecipadamente o objetivo de sua visita, por ter tão pouco tempo disponível".

Quesada assinalava a Spengler que os fenômenos sociais europeus eram distintos aos americanos, como o eram os asiáticos e africanos, portanto era importante estudar os fenômenos históricos pelos quais passavam as diversas agrupações sociais em suas manufestações vitais. Spengler sustentava que a cultura americana atual era uma prolongação da européia, cujas manifestações senis copiava, enfatizando o caráter materialista e o pensamento em dinheiro, quer dizer os arquétipos decadentes. O argentino replicava que isso era aplicável à América anglo-saxã e sua indústria, comércio e banca "cartaginesas", porém no caso da América do Sul, sem uma sociedade impregnada pelo fermento anglo-saxão, onde o elemento branco era uma minoria em relação aos descendentes das antigas populações pré-colombianas.

O argentino insistia no caráter distintivo da "Outra América", baseando-se na antiga cultura de Tiahuanaco, cujas ruínas havia visitado, para apontar que um novo ciclo cultural poderia ser americano, pois as forças que portantos anos haviam ficado em barbecho, agora podiam despertar. Recorde-se que uma das afirmações mais contundentes de Spengler é a de que o próximo ciclo cultural seria russo - uma mescla de elementos cristãos ortodoxos, bolcheviques e dostoievskianos - pois o russo pensa sem dinheiro, é uma alma religiosa, segundo desenvolve em Decadência, As Duas Faces da Rússia e Anos Decisivos.

Quesada sai à frente de seu colega, aventurando a possibilidade americana. "A lei histórica dos ciclos culturais leva a direção de Oriente a Ocidente, de modo que, após o ciclo cultural ocidental, hoje eminentemente europeu, deveria logicamente seguir um ciclo cultural americano, porém não anglo-saxão, senão sulamericano, com caráter claramente indigenista e não caucásico. Não admite Spengler tal possibilidade, porém lhe falta o conhecimento in situ do problema americano para poder compará-lo com o problema eslavo. Se a alma russa é alheia à cultura ocidental, também o é a alma indígena americana; se aquela, mais próxima à natureza que à civilização urbana é de índole comunitária e religiosa, coisa análoga sucede com a outra; se a população eslava tem que despertar para servir de fermento à nova vida cultural, parecida coisa teria que suceder com a população indígena americana. No fundo, a alma indígena americana é virgem como a alma eslava, porque vive em contato direto com a natureza e é refratária à civilização urbana, com todas as suas lacras físicas e morais; a situação espiritual é a mesma".

Quesada, é importante assinalar, insistia nos aspectos que faziam uma identidade cultural americana, pensamento, este, produto de sua raiz católica, fazendo observações a Spengler, de fé luterana, acerca do particular do destino americano e de sua distintiva memória histórica. As observações mais significativas do estudioso argentino se referem ao "relativismo não comtiano senão einsteniano onde a queda dos corpos não é vertical senão cuva de parábola, o tempo não é absoluto, o espaço é relativo" da teoria spengleriana, assim como ao contraste entre o campo, atemporal e tradicional, frente à urbe cosmopolita desencadeada.

Resulta curioso observar a coincidência entre as afirmações de Quesada - e a impressão que Spengler causou quando ambos se encontraram - e as de Adelqui Carlomagno, veterano jornalista argentino, que fez uma reportagem sobre o pensador de Blankenburg, publicada no diário La Nación, de Buenos Aires. "Me apresentei, simplesmente, me anunciando como um estrangeiro que desejava conhecê-lo; às cinco da tarde, sem nenhum tropeço, como deve ser, eu me enfrentava com um dos homens mais curiosos e extraordinários do po pós-guerra; é mais fácil se entrevistar com Spengler que com qualquer dos 'ases' que temos por aqui".

Carlomagno faz um retrato vívido do entrevistado: "Um desses sábios alemães que nossa imaginação concebeu e sobre os quais não admitimos variantes de nenhuma espécie. Cabeça quadrada e absolutamente rasurada, grandes e grossos óculos, pouca estatura e engenhoso sorriso germânico que muitas vezes supria as poucas palavras. Spengler me pareceu mais sábio ainda: declarou com certa ênfase que jamais havia sido professor de qualquer universidade nem pensava sê-lo. Em lugar principal, coroando a cena, se destacava, no conjunto severo e harmônico do despacho, um busto de Napoleão. O Dr. Spengler não falava mais que alemão e um pouco de italiano, nem francês, nem inglês; conversamos em italiano deficiente. Disse que quiçá em anos vindouros aceitaria um convite que já se havia feito para um ciclo de conferências pelos EUA, Argentina e Japão".

O jornalista recebeu de presente um retrato autografado e uma última edição de A Decadência, com uma estranha dedicatória e um pensamento: "no 'Imperium' dos séculos XX e XXI, quiçá um Imperador da América do Sul desempenhará um papel importantíssimo". Porém Adelqui Carlomagno não crê no ciclo americano: "Tão velhos como a Europa ao transplante do século XV, estramos como ela na velhice espiritual. A América cristaliza mais que a Europa a obra dos séculos padronizando no mecanicismo e na uniformidade modernas todo o acervo da velha cultura. Nossos amigos do norte o compreenderam há muito tempo, quiçá sem querê-lo, realizando o ideal mecânico, o último ideal de toda civilização. A Europa já é história, a América chegou tarde, quase não a tem. Não fazemos mais que imitar o definitivamente feito, elaborando novas idoelogias e propostas culturais, combinando o de sempre em um círculo vicioso. Só ficam possibilidades técnicas. Gentilmente, Spengler quisera que essa bandeira última da riqueza material, a organização e a técnica a leve alguém na América do Sul".

Mais além da interessante entrevista a Spengler, o fantasma da nova cultura que sucederá à européia se une, quase sempre, à visão "calibanesca" que os intelectuais sulamericanos tiveram sempre respeito pela potência do norte, visão acentuada desde o desenlace da Guerra Hispano-Americana de 1898. José Rodó, Rubén Dario, Miguel Cané, Paul Groussac e tantos outros, destacaram permanentemente a oposição entre as duas Américas, aquela do titanismo e esta enraizada, a seu juízo carregada de possibilidades futuras.

Os conteúdos políticos da teorética spengleriana não passaram desapercebidos a seus críticos, e em tal sentido hão de se compreender as objeções que desde o âmbito românico se fazem a Spengler. Enquanto os críticos anglo-saxões se preocupam pelas consequências antidemocráticas de suas afirmações, os franceses e italianos enfatizam a tradição marcadamente prussiana do filósofo, seu gosto pelo vitalismo nietzscheano, a aquisição - tipicamente alemã a seu juízo - de elementos das ciências naturais aplicadas às culturas, tudo o que, segundo eles, termina por se converter em uma doutrina mais do pangermanismo.

Nessa linha de pensamento, unido à crítica de orientação marxista, podemos encontrar a parte que dedica Spengler em suas reflexões sobre Heráclito um estudioso muito sério da filosofia antiga, como foi o italiano Rodolfo Mondolfo, exilado na Argentina. Sabido é que Spengler se doutorou em filosofia na Universidade de Halle em 1904, com um estudo sobre a concepção energética de Heráclito. Mondolfo foi um dos grandes especialistas no Obscuro de Éfeso. Em 1947 prologa a edição castelhana da tese do prussiano, traduzida por sua mulher, Augusta. O ensaio de Spengler constitui a interpretação mais puramente energética do efésio, apresentado como um ser isolado dos outros pré-socráticos, que buscavam um princípio substancial de todas as coisas. Heráclito, na interpretação spengleriana, afirma a idéia de um acontecer puro, desprovido de substância, regido pela lei da impermanência. Nada permanece na natureza nem na vida humana, só o puro devir, unívoco, incessante, em uma contínua luta de opostos. É indubitável que essa concepção foi a base de toda a reflexão de Spengler sobre as culturas e as distintas manifestações de seu espírito.

"A simpatia de Spengler por Heráclito - assinala Mondolfo - procedia das sugestões que acreditava encontrar para sua própria orientação, apesar de sua teoria histórica da incomunicabilidade mútua das culturas, que tinha nesse ensaio sua primeira afirmação. Não obstante, se associava a ela a idéia de um processo análogo dos distintos ciclos culturais, idéia pela qual Heráclito, sustentador aristocrático da luta como criadora de toda distinção real, tanto na natureza como na história, parecia justificar por antecipado a moderna pretensão do Herrenvolk alemão a uma dominação mundial. E para Spengler...revestia particular interesse a interpretação de Heráclito em sentido energético".

A visão de Spengler foi muito criticada nos círculos sulamericanos, onde a maioria de seus intelectuais eram de formação católica. Em outro artigo publicado em La Nación, Manuel Gálvez, pensador católico de notável influência no nacionalismo argentino, revisava a concepção das culturas do alemão, cuja obra, se bem a considerava uma interpretação nova, brilhante, poética e artística, "não poderia nunca ser escrita por um latino; é impossível para um latino aceitar suas doutrinas essenciais (não se pode englobar como cultura árabe oito séculos de cristianismo e a Santo Agostinho, por exemplo - fazendo alusão à idéia spengleriana da cultura magiana abarcativa do cristianismo oriental - modifica os quadros culturais a gosto, etc). Parece Ameghino - um antropólogo muito controverso - ainda que não tão absurdo e grotesco".

Para Gálvez, o desdobramento que Spengler realiza do cristianismo é um disparate, pois a religião cristã é uma só. E em um arrebato de latinidade "maurrasiana", considera a Alemanha um "país bárbaro" em comparação com os EUA, e até mesmo Goethe era "um jovem bárbaro, como dizia Maurice Barrés", a arte de Wagner também é "bárbara". A Alemanha fala de cultura e não de civilização porque "carece do bom gosto latino; em nome da cultural se cometeram na Alemanha atrocidades, combate pela cultura - Kulturkampf - foi chamada a campanha de Bismarck contra a liberdade e a existência da Igreja Católica". E continua: "Pois se isso não bastasse, Spengler se esforça em diminuir os gregos, os romanos e o Renascimento, e em engrandecer os hindus, os chineses e os alemães. Nos acreditávamos os únicos civilizados e eis aqui que outros, considerados por nós como bárbaros, resultam criadores de 'culturas', tão importantes quanto a nossa, senão superiores", para concluir: "não houve senão uma única civilização: a greco-latino-cristã".

As idéias de Gálvez, com suas afirmações apodíticas, emergem naturais e espontâneas, refletindo as premissas e limitações do nacionalismo católico, um fenômeno que não se circunscreve à Argentina, onde foi muito forte como influência intelectual e fracassou sempre politicamente. Outros pensadores católicos se ocuparam do pensador da decadência, sem chegar aos extremos de Gálvez. Por exemplo, o peruano Jorge del Busto Vargas, professor universitário, amigo e colaborador do mentor da intelectualidade católica do país andino, De la Riva Agüero.

Ao refletir sobre a civilização como estágio terminal de uma cultura, Busto Vargas assinala que "por essa tese se inclina, em nosso meio, o Dr. José de la Riva Agüero, ainda que sem participar do 'tom despectivo' com que Spengler fala da civilização. Para de la Riva, civilização é o estágio final dos processos sociais em que diversas culturas vem a se somar e compor o sincretismo dos últimos períodos". Quanto à crítica final de Busto Vargas, aponta o "elemento semítico frente ao grego em Spengler, porque não há uma idéia cíclica total senão um 'epígono sem brilho', quer dizer que o elemento cristão está deslocado". O epílogo é que, com sua tese da cultura inconclusa "Spengler resulta indigenista, é o fundamento teórico das correntes indigenistas, alheio à mensagem de Cristo e dos valores da cultura ocidental". Note-se que essa opinião é a antítese da de Quesada. Fica, uma vez mais, ao descoberto a profunda influência que tem as idéias, o lugar e a conjuntura histórica na formação acadêmica e cultural das pessoas.

Apesar de ter sido Spengler um escritor político muito comprometido e um crítico acerbo da República de Weimar - o que não significa que haja cerrado fileiras com o nacional-socialismo, como muitos lhe acusaram - suas idéias políticas foram, em geral, menos atendidas na América do Sul que sua obra principal sobre a morfologia das culturas. Não obstante, se conserva uma carta de Spengler, datada em Widermayerstrasse 26, Munique, 19 de janeiro de 1927, a propósito de uma tiragem limitada de Prussianismo e Socialismo, dirigida a um tradutor desconhecido em Buenos Aires: "Muito estimado Sr. B. Tenho que lhe agradecer muito especialmente seu envio e o trabalho que você se tomou com meu pequeno escrito. Eu mesmo não domino o idioma espanhol, porém outros que leram o manuscrito não economizaram elogios. Falando em termos gerais, esses pequenos trabalhos políticos são compreensíveis somente do ponto de vista alemão e destinados somente para a Alemanha. Porém, dado o interesse que a obra maior encontrou nessa, devido especialmente à atividade de Ernesto Quesada, creio que também Prussianismo e Socialismo, que se relaciona com aquela, será julgado adequadamente. Portanto estou muito de acordo em que sua tradução, talvez com uma introdução sua, saia nas publicações das universidades argentinas. Seria talvez conveniente aludir ao conteúdo dos outros dois escritos: Reconstrução do Reich e Deveres Políticos da Juventude Alemã, que de certa maneira formam a continuação. Se você não os possui terei um prazer especial em enviá-los. O saúdo com a maior consideração. Spengler".

Ao ser editado na Alemanha Anos Decisivos, cuja fama eclipsou momentaneamente A Decadência, saíram um par de artigos em La Nación que não só eram elogiosos, senão claramente partidários do novo regime instaurado na Alemanha, coisa estranha em um diário de raizame tão liberal. Claro que eram tempos muito distintos: "Spengler é um educador político, no sentido em que se chamou a Hegel de educador da geração de Bismarck. A guerra mundial (primeira) destruiu o equilíbrio de estado dos grandes estadistas, não solucionou nada, apartou a Rússia da Europa e asiatizou a luta interior que começou com a 'Inglaterra interna' seguiu com Karl Marx. Em 12 de outubro de 1910, milhares de jovens procedentes de todos os lugares da Alemanha se reuniram no Hoher Meissner na Turíngia, e logo de uma deliberação intensa, condensaram sua vontade em uma fórmula: a juventude alemão livre quer, por própria determinação e responsabilidade, plasmar sua vida com sinceridade íntima.

Lutavam contra o esnobismo e o materialismo, produto da trivialização espiritual. Era Nietzsche, que privava contra Marx e Haeckel, mais ainda contra o positivismo. Não era questão de mudar a constituição, senão de se libertar dos resultados errôneos da civilização materialista. Os chefes dessa juventude foram Moeller van den Bruck e Oswald spengler, que assinalava: não há que reclamar direitos senão obrigações, a liberdade é serviço e não despreocupação, a comunidade é superior ao indivíduo". E o autor da nota faz uma longa exegese de Reconstrução do Reich Alemão e uma demolição prolixa do parlamentarismo de Weimar, para terminar com um elogio do Reicharbeitsdienst.

Algumas das reflexões sobre Spengler foram essenciais, e tentaram transcender os aspectos ideológicos, ainda quando quase sempre evidenciavam seus embasamentos, premissas e pontos de partida. Cedo, em 192, o decano dos filósofos uruguaios, Aquiles Oribe, pronunciou um discurso na Universidade da República, em Montevidéu, por motivo do primeiro aniversário da Junta de História Nacional, à qual pertencia, dedicado à doutrina spengleriana. É uma vasta e muitas vezes tediosa exposição sobre todas as idéias filosóficas, científicas, e políticas clássicas e aquelas em voga por então, muito a gosto com a retórica academicista e erudita da época. Expoente natural do ideal positivista de sua pátria, Oribe denuncia a doutrina de Spengler como "determinista em sua essência ideal e tradicionalista, e nacionalista em suas consequências imediatas, o homem ocidental tem como característica lutar contra o destino. Na filosofia spengleriana falta por completo este sentimento tão típico do homem moderno: a liberdade como princípio de ação. Temperamento imperialista, a leitura de seu livro sugere a impressão de estar escrito em defesa dessa doutrina: ao homem ocidental chegou a hora do imperialismo, por exigência de uma cultura que decai. Spengler quer desvirtuar o que é impossível, negar o confirmado pela história: a lei da harmonia da civilização, a do progresso que marcha com o mundo, que leva a humanidade a um fim, que nunca poderá prever nossa finita e limitada inteligência".

Lançando mão de Metchnikoff, Niebuhr, Altamira, Forner, Darwin, assim como Napoleão, José de San Martín e São Tomás de Aquino, o uruguaio tenta demonstrar a primazia da ciência, da iniciativa e da vontade no desenvolvimento humano e a importância dos grandes homens que contribuíram eficazmente para o desenvolvimento histórico: "O homem é, pois, o sujeito da história". Uma vez mais, a importância do contexto em que se desenvolvem acadêmicos e pensadores resulta de importância crucial.

Por outra parte, em um capítulo dedicado a Spengler em um ensaio, José Maria Rosa critica o conceito de afinidade morfológica na teorética do prussiano, pois dita maneira de expressar a arte, a arquitetura e as matemáticas muito pouco tem que ver com as nações que se agitam na história. "Pois a história - sustenta Rosa - é história do social; a história não é a evolução humana senão a evolução social. Em todo caso, a morfologia spengleriana é uma morfologia, talvez genial, da história do pensamento individual, não da história em si".

Para Rosa, a idéia spengleriana de cultura se situa fora do social, na medida em que é uma unidade de pensamento individual, portanto estranha à nação. "Uma nação é, para nós, uma unidade do pensamento coletivo: a exteriorização na ordem social de um culto religioso...a nação é o verdadeiro culto religioso, opomos a nação à cultura spengleriana, com a mesma oposição que distancia o social do individual, a religião do profano. Não é rigorosamente exato que os homens somos impotentes perante o determinismo da história: não podemos nada como homens, mas podemos tudo como sociedade".

É sabido que tanto a monarquia, o deísmo e seu Deus nacional, como as teologias políticas secularizadas, o culto abstrato à pátria e suas tradições, podem constituir elementos de aglutinação e coagulação nacional. Note-se que, enquanto por então a Alemanha - já no Terceiro Reich - possuía um forte culto nacional, na Argentina os intelectuais, escritores e artistas estavam buscando a coagulação identitária e coletiva, em uma época de incertezas e problemas, que só se conformará razoavelmente com a vinda do peronismo. A este espírito corresponde a contribuição de Rosa.

Pela mesma época, o filósofo Francisco Romero, discípulo de Alejandro Korn e catedrático das Universidades de Buenos Aires e La Plata, dedicava umas páginas, em geral elogiosas, ao autor em questão. Coincide com Ortega y Gasset em que, se bem Spengler carecia de originalidade, pôs marca própria em suas meditações, baseadas nos eternos temas fundamentais: "mais de uma intuição profunda sua está já passando ao domínio comum como logro definitivo; setores parciais de sua obra podem ser desmontados do conjunto e conservam isolados todo seu prestígio". Resgata Hans Freyer (Sociologia como Ciência da Realidade, 1930) que sustenta que Spengler sente "o íntimo conflito a cuja tensão atribui a nervosa vitalidade e fecundidade do pensamento spengleriano: o contraste entre a condição solitária e perecedora das culturas, e a plena e concreta realidade atribuível ao devir histórico".

Para Romero, a visão organicista de Spengler coincide com a de Leo Frobenius, e critica esse biologismo que leva a conclusões radicalizadas: "este autor contribuiu mais que ninguém antes que ele a que o homem dessa cultura se compreenda e eleve a plena consciência de si. O discutível é se essa alma ou princípio vem desde tão longe quanto ele imagina, e se o fáustico é um motivo último. Quanto ao final obrigado e à não transmissibilidade das culturas, suas conclusões são, pelo menos, prematuras". Romero menciona um autor então muito renomado, Spranger, o antepondo a Frobenius e Spengler, pois a biologia moderna sustentará que as linhas de evolução ora se truncam, ora se prolongam. Ao não se propor o problema do espírito, o irremediável conflito entre o espírito e a vida, a Spengler resta um legado amargo - "o homem é um animal de rapina" - dirá em O Homem e a Técnica, uma resposta a O Lugar do Homem no Cosmo, de Max Scheler, "um testamento, uma trágica vontade de negação".

Conjuntamente com a Argentina, foi Chile o país em que Spengler teve a recepção mais favorável. Na década de trinta apareceram várias edições de suas obras na capital, Santiago: A Decadência do Ocidente  (Ed. Osiris, Biblioteca de Autores Célebres, 4 volumes); O Homem e a Técnica (Ed. Cultura, 1934); Prussianismo e Socialismo (Edições Nacionais e Estrangeiras, 1935); Anos de Decisão (Ed. Ercilla, 1937) e Seis Ensaios (Ed. Mundo Novo, 1937, é a tradução dos Politische Schriften, sem Prussianismo e Socialismo, substituído por outro referente às relações entre economia e política fiscal desde 1750). Não há que esquecer que, por então, o Chile vivia uma forte influência de idéias filofascistas e nacionalistas revolucionárias, abonando um terreno favorável à difusão da doutrina política spengleriana.

Também do Chile provém um dos estudos mais sérios, e o mais exaustivo como exegese no âmbito sulamericano, da teoria spengleriana, a cargo do professor Armando González Rodríquez, cuja obra se divide em três partes, as duas primeiras referentes à morfologia das culturas e a restante às idéias políticas de Spengler. A leitura do livro quase permite dizer que poderia sublinhar a das obras do prussiano, tal o grau de sistematicidade e clareza da vasta exegese do chileno. Quiçá ali também estriba o ponto fraco dessa contribuição, os poucos acréscimos próprios à temática, assim como quando toma partido como pensador cristão, quase sempre em notas no pé da página. O próprio autor, na Introdução, assinala que não pretende mais que fazer uma síntese da obra spengleriana. Não obstante, algumas observações são muito pertinentes.

Por exemplo, quando observa que Spengler, que tão convictamente reconheceu sua dívida intelectual com Goethe e Nietzsche, não menciona a Vico entre os 600 nomes citados em A Decadência (Rosa e Romero, entre outros, fazem a mesma observação) ou como quando aponta: "em suas primeiras obras sobre o número já Spengler antecipa duas de suas características mentais: a tendência às afirmações rotundas e apriorísticas, que não se cuida de demonstrar e abandona à credulidade do leitor e o gosto pelas interpretações místicas, esotéricas (por exemplo ao afirmar 'a existência dos números é um mistério')".

Quando repassa as afirmações apodíticas de Spengler sobre a máquina, assinalando-a como uma usurpação dos poderes divinos, uma coisa demoníaca, para um crente o destronamento de Deus, o chileno sustenta: "essa afirmação é de uma verdade atual e permanente com relação à fé cristã. Porque, no melhor dos casos, a máquina serve para ajudar o homem nos afazeres de sua existência material, para lhe dar comodidade e bem-estar o cristianismo autêntico deve se desentender: a máquina serve ao sentido hedonista e naturalista da existência, o que nos inspira Satanás". Ou bem: "não pareça inverossímil aos leitores o agnosticismo tão radical de Spengler. Em maior ou menor grau constitui, por dizer assim, a tônica do pensamento moderno; é um pensador agnóstico, subjetivista, tão radicalmente quanto é possível sê-lo não obstante, seu temperamento era de um metafísico, portanto, recorre a noções e explicações metafísicas em última instância ou, se preferir, para encobrir uma absoluta ausência de explicação".

À luz da experiência histórica do pós-guerra, González Rodriguez arrima outras críticas: a, em sua opinião, flagrante contradição do alemão ao sustentar em Decadência que "a literatura não pode alterar o curso dos acontecimentos", e em Anos Decisivos "lhe reconhecer um papel enorme nos movimentos políticos da Ásia e África", ou bem ao avaliar suas profecias. "Uma profecia a curto prazo sobre a Rússia já se demonstrou falaz. Nos disse que o regime soviético não resistiria a uma derrota, nem mesmo a uma vitória. Igualmente errou ao julgar o Japão quase invulnerável, e não menos ao afirmar que povos como a China e a Índia, fellachs, já não poderiam voltar a desempenhar um papel de primeira magnitude na história. Um de muito maior vulto foi o erro de prognóstico sobre os Estados Unidos, ao qual não assignava nem passado nem futuro (Anos Decisivos). Decididamente, as profecias a curto prazo são perigosas". As observações parecem óbvias, e, não obstante, a dinâmica do acontecer universal é sempre tão mutante; ao menos em relação a Rússia, do papel do Japão e da expansão e limites do poder atlantista, a roda dos tempos parece estar girando uma vez mais.

Pela mesma época, o catedrático de filosofia León Dujovne também fez um estudo bastante pormenorizado da obra principal de Spengler, mas também de sua tese sobre Heráclito e outros livros menores. Encontra a influência de Flinders Petrie e sua obra As Revoluções da Civilização (1911), assim como do Conde de Gobineau e seu Ensaios sobre a Desigualdade, que reafirma a decadência inelutável. Nas questões do dia, "o texto de Prussianismo e Socialismo justifica em medida ainda maior que o de A Decadência a inclusão de Spengler entre os doutrinários da Revolução Conservadora alemã. Este é o título de um livro de Edmond Vermeil, no qual um extenso capítulo dedicado a Spengler demonstra como em Decadência aparecem idéias que são um prelúdio de O Mito do Século XX de Alfred Rosenberg, um dos principais teóricos do Nacional-Socialismo de Hitler". A crítica central de Dujovne é que "Spengler quer descrever como é a história da humanidade e com sua morfologia histórica no fundo a nega, porque exclui da vida humana a esperança do futuro, esperança que parece inseparável do símbolo primário da cultura do ocidente, sobre tudo do cristianismo ocidentalizado".

Por último, com só quatro páginas de crítica entre trinta e cinco dedicadas ao prussiano, Dujovne se lamenta que "o continente americano não conta nem para o exame da cultura do ocidente nem para as visões proféticas de Spengler. Alguma alusão aos Estados Unidos da América do Norte não diminui a impressão geral que se recolhe de seus escritos e dos quais resultaria que nosso continente, apesar de suas riquezas naturais e de sua população humana não é um fator ponderável no destino do mundo".

Finalmente, nos anos setenta, os politólogos Vicente Massot e Horacio Cagni publicaram em Buenos Aires uma obra sobre o pensador fáustico, abarcando os distintos aspectos de sua teorética, que teve certa repercussão nos meios acadêmicos nacionais e, inclusive, no exterior. O segundo dos nomeados escreveu outros ensaios sobre a discussão de idéias em torno ao pensamento de Spengler. Paralelamente, o diário A Nova Província, de Baía Branca, publicou um conto inédito de Spengler em castelhano - O Vencedor - escrito em 1910, ambientado na guerra russojaponesa de 1904-5.

Voltando a Quesada em relação aos tantos críticos de Spengler, sempre reivindicou a seu colega alemãos frente aos acadêmicos de então, especialmente os neokantianos, o grupo mais numeroso dos críticos de A Decadência. Perguntando-lhe o argentino ao alemão, em Munique, porque não respondia às críticas e guardava sempre silêncio, este lhe teria respondido sorrindo: "não teria nem tempo nem calma para prosseguir meus trabalhos, se assim o fizera; meu livro deve se defender somente e se bem não desconheço a ninguém o direito de julgá-lo como melhor entenda, ao invés não me considero obrigado a entrar em polêmica com meus críticos". Pelo visto, o prussiano não seguia as regras desse esporte alemão que, ao dizer de Treischke, consistia em trasladar as discussões acadêmicas ao plano pessoal.

Por sua vez, Quesada era um dos últimos expoentes de uma brilhante geração argentina. Os tempos da nação opulenta, dona da metade do PIB sulamericano, com classes dirigentes altamente preparadas, que passeavam seu brilho intelectual pelas academias de todo o mundo - e sua frivolidade pelos salões parisienses - estavam chegando a seu fim. Diferentemente da maioria da intelectualidade sulamericana de então, Quesada havia estudado na Alemanha do Kaiser, não em Londres ou Paris; sua segunda esposa, Leonora Deiters, era alemã. Por iniciativa sua foi criado o Instsituto Iberoamericano de Berlim e sua revista correspondente Arquivo Iberoamericano, sendo nomeado professor honorário da Universidade da capital alemã.

Quando Spengler decidiu em 1927 tirar umas férias pela área mediterrânea - tinha transtornos cardiovasculares e circulatórios que finalmente o levaram à morte - não pôde menos que se encontrar com o matrimônio Quesada em Avignon, onde lhes expôs suas "perguntas fundamentais", que estava escrevendo. Em 1933 o prussiano volta sobre o tema das culturas americanas em um "número especial Quesada", do Ibero Amerikanische Archiv, no qual reconhece que, a diferença das demais culturas regularmente estudadas, dessas não se sabe praticamente nada, devido à imprecisão de sua cronologia e dos resultados arqueológicos.

Quesada, que havia nascido em 1858, se teria retirado de toda atividade e ido viver na Europa em 1928, morrendo na Suíça seis anos mais tarde. Com Spengler seguiu vendo-se no ínterim, inclusive em uma oportunidade em Munique - ainda quando não podemos constatá-lo fidedignamente - se reuniram com o recordado Coriolano Alberini.

Morto Quesada em 1934, se conserva uma carta de Spengler dirigida à esposa, Leonora, na qual se faz eco de seus problemas de saúde e econômicos, porém lhe diz que não pode ajudá-la muito, se bem está disposto a visitá-la em Munique e ver assim de contribuir de alguma forma. É um final triste para uma relação tão frutífera para dois espaços geoculturais tão vastos.

Ainda que muitos foram os que se ocuparam de Spengler na América do Sul, ninguém representou a ponte que entre Velho e Novo Continente significou Dom Ernesto Quesada, cuja morte seu colega prussiano sentiu particularmente. Na sexta-feira 8 de maio de 1936, apenas ingressadas as tropas italianas em Addis Abebba, falecia por sua vez o pensador prussiano. Então Jorge Luis Borges escreveu uma elegia notável, breve e comovente. "Seis anos tardou Spengler em escrever A Decadência do Ocidente. Seis obstinados anos, em um bordel de Munique, em um lugar sombrio que dá a uma pobre paisagem de chaminés de telhas manchadas. Então, não tinha livros. Passa as manhãs na biblioteca pública, almoça em refeitórios para operários, toma, quando está enfermo, vastas e ardentes quantidades de chá. Até 1915 termina a revisão do primeiro volume. Não tem amigos. Secretamente se compara com a Alemanha, que também está só.

No verão de 1918 A Decadência do Ocidente apareceu em Viena. Suas páginas varonis, redatadas no tempo que vai de 1912 a 1917, não se contaminaram nunca do ódio peculiar desses anos. Em 1920 começou a glória. Spengler alugou um departamento sobre o Isar, comprou com amorosa lentidão milhares de livros, colecionou armas persas, turcas e hindus, escalou altas montanhas e se negou à persistência dos fotógrafos. Escreveu sobre tudo. Oswald Spengler morreu em meados desse ano. Sua concepção biológica da história se poderá discutir, mas não se estilo esplêndido".

Spengler no segundo pós-guerra foi quase esquecido. A razão profunda podemos rastrear no auge da sociedade ocidental, particularmente do ocidente americanizado, se bem Spengler nunca incluiu os EUA em sua concepção do Ocidente. Quiçá há algo de razão em dizer que Spengler foi deixado de lado por ter se oposto às idéias e tendências vigentes na sociedade contemporânea, e que resultaram vitoriosas. Porém o pensador da decadência renasceu nas últimas décadas, toda vez que os temporais não deixaram de cingir sobre a civilização ocidental, agora expandida a escala planetária, e que não resolveu nenhum de seus problemas logo do fim do bipolarismo, ao contrário ainda inaugurou outros.

Em síntese, a recepção de Spengler na América do Sul foi ampla, porém em geral sua teoria não foi tratada com profundidade. O filósofo da decadência vinha a denunciar a queda da Europa, sua retirada como primeira figura do empíreo mundial, e para muitos pensadores sulamericanos supunha a possibilidade de tomar a posta na renovação dos ciclos culturais. Os círculos católicos do Novo Continente se enfrentaram com as idéias de um homem que supunham agnóstico, enquanto aos positivistas lhes molestava seu relativismo. Em todo caso, a teorética spengleriana abria muitas questões angustiosas em relação ao futuro de um continente que desesperadamente buscava - e ainda busca - encontrar uma identidade definitiva e uma inserção no contexto mundial, segundo suas inegáveis potencialidades e valores. E ninguém como Ernesto Quesada significou essa viagem de ida e volta entre dois mundos debruçados sobre um passado difícil e um futuro enigmático.

Em cumprimento do testamento de Dom Vicente G. Quesada, seu filho Erneste tentou doar a biblioteca conjunta de ambos - quase 82 mil volumes, especializados em temas sulamericanos, ademais dos documentos de família, testemunhos dos principais eventos da história diplomática argentina - a instituições de seu próprio país. Nem a Universidade de Buenos Aires, nem a Biblioteca Nacional resolveram nada, e inclusive argumentaram falta de espaço para o legado. Quesada, jubilado em 1921, em uma viagem à Alemanha em 1927 começou as gestões para situar a Biblioteca ali. Em carta a Rómulo Zabala de dezembro de 1929, Quesada sustenta ter a consciência tranquila ao levar seus livros e documentos tãl onge, visto o fracasso em seu país.

O Ibero Amerikanisches Institut de Berlim se iniciou em 1930 com a doação do fundo Quesada, ao qual logo se acrescentou o do presidente do México, Plutarco Elias Calles, com uns 25 mil volumes. O arquivo familiar de Vicente Quesada se enviou ao morrer Ernesto em Spiez, Suíça, em 1934. Instalado inicialmente próximo do Palácio Real berlinês, o Instituto passou em 1941 à vila dos Siemens, nos arredores da capital do Reich, e não pôde escapar aos bombardeios do fim da guerra. Parte do legado Quesada se perdeu naqueles dias sombrios; outra parte, em poder dos russos, começou a ser devolvido. Com a queda do Terceiro Reich, o Instituto ficou no setor norteamericano de Berlim, e foi dissolvido. Não obstante, renasceu das cinzas. Hoje, o Iberoamericano possui a maior biblioteca especializada do mundo, depois da de Austin, Texas, com mais de um milhão de volumes. Se alguém quer comprovar empiricamente o resultado da recepção de Spengler na América do Sul - e a retribuição que em incentivos essa lhe fez ao pensador fáustico - pode se dirigir à Postdammer Strasse 37, onde, à entrada do Instituto Iberoamericano, os respectivos bustos em imponente granito negro de Vicente e Ernesto Quesada dão as boas vindas a estudiosos de todo o mundo.

05/06/2013

Keith Stimely - Spengler: Uma Introdução a Sua Vida & Idéias

por Keith Stimely



Oswald Spengler nasceu em Blankenburg (Harz) na Alemanha central em 1880, o mais velho de quatro filhos, e o único menino. O lado materno de sua família possuía uma forte tendência artística. Seu pai, que originalmente havia sido técnico em mineração e veio de uma longa linhagem de mineradores, era um oficial na burocracia postal alemã, e garantia para sua família um lar de classe média simples, porém confortável.

O jovem Oswald jamais desfrutou do melhor da saúde, e sofria de enxaquecas que o perseguiriam por toda sua vida. Ele também tinha um complexo de ansiedade, ainda que não lhe faltassem pensamentos grandiosos - os quais, por causa de sua constituição frágil, tinham que se aplicados apenas em seus sonhos despertos.

Quando ele tinha dez anos de idade a família se mudou para a cidade universitária de Halle. Aqui Spengler recebeu uma educação clássica, estudando grego, latim, matemática e ciências naturais. Aqui também ele desenvolveu sua forte afinidade pelas artes - especialmente poesia, drama e música. Ele experimentou com algumas criações artísticas juvenis suas, poucas das quais sobreviveram - elas são indicativas de um tremendo entusiasmo, mas não muito mais que isso. À essa época ele caiu sob influência de Goethe e Nietzsche, duas figuras cuja importância para Spengler, o jovem e o homem, não pode ser subestimada.

Após a morte de seu pai em 1901, Spengler aos 21 entrou para a Universidade de Munique. Segundo os costumes estudantis alemães da época, após um ano ele seguiu para outras universidades, primeiro Berlim e depois Halle. Seus principais cursos de estudo foram nas culturas clássicas, matemática e ciências físicas. Sua educação universitária foi financiada em grande parte por um legado de uma tia falecida.

Sua dissertação doutoral em Halle foi sobre Heráclito, o "filósofo obscuro" da Grécia antiga cuja linha mais memorável era "A Guerra é o Pai de todas as coisas". Ele não conseguiu passar em seu primeiro exame por causa de "referências insuficientes" - uma característica de todos os seus escritos posteriores que alguns críticos sentem um enorme prazer em apontar. Porém, ele passou em um segundo exame em 1904, e então partiu para escrever a segunda dissertação necessária para se qualificar como professor de segundo grau. Esta se tornou "O Desenvolvimento do Órgão da Visão nos Âmbitos Superiores do Reino Animal". Ela foi aprovada, e Spengler recebeu seu certificado de licenciatura.

Seu primeiro posto foi em uma escola em Saarbrücken. Então ele se mudou para Düsseldorf e, finalmente, Hamburgo. Ele ensinava matemática, ciências físicas, história e literatura alemã, e segundo todos os relatos era um instrutor bom e consciencioso. Mas seu coração não estava realmente aí, e quando em 1911 a oportunidade se apresentou para ele "seguir o próprio caminho" (sua mãe havia morrido e deixado para ele uma herança que lhe garantia uma medida de independência financeira), ele a tomou, e abandonou a profissão de educador para sempre.

Explicação História de Tendências Atuais

Ele se assentou em Munique, para viver a vida de um filósofo/estudioso independente. Ele começou a escrever um livro de observações sobre a política contemporânea cuja idéia lhe havia preocupado por algum tempo. Originalmente a ser chamado Conservador e Liberal, ele havia sido planejado como uma exposição e explicação das tendências atuais na Europa - uma corrida armamentista em aceleração, um "cerco" da Entente à Alemanha, uma sucessão de crises internacionais, a crescente polaridade das nações - e para onde elas levavam. Porém ao fim de 1911 ele foi subitamente acometido pela noção de que os eventos do dia só poderiam ser interpretados em termos "globais" e "culturais-totais". Ele via a Europa como marchando rumo ao suicídio, um primeiro passo na direção da destruição final da cultura européia no mundo e na história.

A Grande Guerra de 1914-1918 apenas confirmou em sua mente a validade de uma tese já desenvolvida. Sua obra planejada continuava aumentando em escopo, para muito além das fronteiras originais.

Spengler havia amarrado a maior parte de seu dinheiro em investimentos estrangeiros, mas a guerra havia de modo geral os invalidado, e ele foi forçado a passar os anos de guerra em condições de genuína pobreza. Não obstante, ele se manteve trabalhando, muitas vezes escrevendo à luz de vela, e em 1917 estava pronto para publicar. Ele encontrou grandes dificuldades em achar um editor, parcialmente por causa da natureza de sua obra, parcialmente por causa das condições caóticas dominando à época. Porém no verão de 1918, coincidente com o colapso alemão, finalmente apareceu o primeiro volume de O Declínio do Ocidente, subtitulado Forma e Atualidade.

Sucesso Editorial

Para não pouca surpresa tanto de Spengler como de seu editor, o livro foi um sucesso imediato e sem precedentes. Ele oferecia uma explicação racional para o grande desastre europeu, explicando-o como parte de um processo histórico-mundial inevitável. Leitores alemães especialmente o levaram no coração, mas a obra logo se provou popular por toda Europa e foi rapidamente traduzida para outras línguas. 1919 foi o "ano de Spengler", e seu nome estava em muitos idiomas.

Historiadores profissionais, porém, lidara com enorme ressentimento com essa obra pretensiosa de um amador (Spengler não era um historiador treinado), e suas críticas - particularmente de vários equívocos factuais e da abordagem única e incontritamente "não-científica" do autor - encheram muitas páginas. É mais fácil agora do que à época dispor dessa linha de rejeição-crítica. Mas de qualquer forma, em relação à validade de seu postulado sobre o rápido declínio ocidental, o spengleriano contemporâneo só precisa dizer uma coisa a seus críticos: Olhe ao seu redor. O que você vê?

Em 1922 Spengler publicou uma edição revisada do primeiro volume contendo pequenas correções e revisões, e o ano seguinte viu o aparecimento do segundo volume, subtitulado Perspectivas da História Mundial. Ele daí em diante permaneceu satisfeito com a obra, e todos os seus escritos e pronunciamentos posteriores são apenas ampliações sobre o tema disposto em Declínio.

Abordagem Direta

A idéia básica e os componentes essenciais de Declínio do Ocidente não são difíceis de compreender ou delinear. (Na verdade, é a própria simplicidade da obra que era excessiva para seus críticos profissionais). Primeiro, porém, uma compreensão adequada demanda um reconhecimento da abordagem especial spengleriana. Ele próprio a chamava de abordagem "fisiogmática" - olhar para as coisas diretamente na face ou coração, intuitivamente, ao invés de uma forma estritamente científica. Vezes demais o sentido real das coisas é obscurecido por uma máscara de "fatos" científico-mecanicistas. Daí a cegueira do historiador profissional "científico", que em uma grande falta de imaginação vê apenas o visível.

Utilizando sua abordagem fisiogmática, Spengler estava confiante em sua habilidade de decifrar o enigma da História - mesmo, como ele afirma na primeira frase de Declínio, predeterminar a história.

O que segue são seus postulados básicos:

1 - A visão "linear" da história deve ser rejeitada, em favor da cíclica. Até então a história, especialmente a história ocidental, tem sido vista como uma progressão "linear" do inferior para o superior, como plataformas em uma escada - uma ilimitada evolução para cima. A história ocidental é assim vista como se desenvolvendo progressivamente: Grega > Romana > Medieval > Renascentista > Moderna, ou, Antiga > Medieval > Moderna. Este conceito, insistia Spengler, é apenas um produto do ego do homem ocidental - como se tudo no passado apontasse para ele, existisse tão somente para que ele possa existir como uma forma mais aperfeiçoada.

Esse "esquema sem sentido e incrivelmente infantil" pode finalmente ser substituído por um agora discernível desde o ponto de vantagem dos anos e de um maior e mais fundamental conhecimento do passado: a noção da História como se movendo em ciclos definidos, observáveis e - exceto de pequenas maneiras - não relacionadas.

Altas Culturas

2 - Os movimentos cíclicos da história não são aqueles de meras nações, Estados, raças ou eventos, mas de Altas Culturas. A história gravada nos dá oito dessas "altas culturas": a indiana, a babilônica, a egípcia, a chinesa, a mexicana (maia-azteca), a árabe (ou "magiana"), a clássica (grega e romana), e a européia ocidental.

Cada Alta Cultura possui como traço de distinção um "símbolo primário". O símbolo egípcio, por exemplo, era o "Caminho", que pode ser visto na preocupação dos egípcios antigos - na religião, arte e arquitetura - com as passagens sequenciais da alma. O símbolo primário da cultura clássica era a preocupação com o "ponto-presente", ou seja, o fascínio pelo próximo, o pequeno, o "espaço" da visibilidade imediata e lógica: note aqui a geometria euclidiana, o estilo bidimensional da pintura clássica e da escultura em relevos (você jamais verá um ponto de fuga no fundo, isto é, onde até mesmo haja algum fundo), e especialmente: a ausência de expressão facial dos bustos e estátuas gregos, significando nada além ou por trás do exterior.

O símbolo primário da cultura ocidental é a "alma faustiana" (do conto do Doutor Faustus), simbolizando o anseio dirigido para cima rumo a nada menos que o "Infinito". Este é basicamente um símbolo trágico, pois ele busca alcançar até mesmo aquilo que se considera inalcançável. É exemplificado, por exemplo, pela arquitetura gótica (especialmente os interiores das catedrais góticas, com suas linhas verticais e aparente "falta de teto").

O "símbolo primário" afeta tudo na Cultura, se manifestando na arte, ciência, técnica e política. Cada alma-símbolo de uma cultura se expressa especialmente em sua arte, e cada Cultura possui uma forma de arte que é mais representativa de seu próprio símbolo. No clássico, eram escultura e drama. Na cultura ocidental, após a arquitetura na era gótica, a grande forma representativa foi a música - atualmente a expressão mais perfeita da alma faustiana, transcendendo como o faz os limites da visão pelo mundo "ilimitado" do som.

Desenvolvimento "Orgânico"

3 - Altas Culturas são coisas "vivas" - orgânicas em natureza - e devem passar pelas fases de nascimento-desenvolvimento-plenitude-decadência-morte. Daí uma "morfologia" da história. Todas as culturas anteriores passaram por essas fases distintas, e a cultura ocidental não pode ser exceção. Na verdade, sua fase atual no processo de desenvolvimento orgânico pode ser precisada.

O ponto alto de uma Alta Cultura é sua fase de plenitude - chamada de fase "cultural". O início do declínio e decadência em uma Cultura é o ponto de transição entre sua fase "cultural" e a fase "civilizacional" que inevitavelmente segue.

A fase "civilizacional" testemunha drásticas reviravoltas sociais, movimentos massivos de povos, guerras contínuas e crises constantes. Tudo isso se passa paralelamente ao crescimento das grandes "megalópoles" - imensos centros urbanos e suburbanos que sugam os interiores circundantes de sua vitalidade, intelecto, força e alma. Os habitantes dessas conglomerações urbanas - agora o grosso da população - são uma massa desenraizada, desalmada e materialista, que não amam nada além de seu panem et circenses. Desses vem os sub-humanos fellaheen - participantes dignos nos estertores finais de uma cultura.

Com a fase civilizacional vem o mando do Dinheiro e seus instrumentos gêmeos, Democracia e Imprensa. O Dinheiro governa sobre o caos e só o Dinheiro lucra com isso. Mas os verdadeiros portadores da cultura - os homens cujas almas ainda estão unidas à alma-cultural - se sentem enojados e repelidos pelo poder-dinheiro e seus fellaheen, e agem para rompê-lo, como se fossem compelidos a isso - e conforme a alma-cultural das massas compele finalmente ao fim da ditadura do dinheiro. Assim a fase civilizacional conclui com a Era do Cesarismo, onde grande poder chega às mãos de grandes homens, ajudados nisso pelo caos do mando do Dinheiro. O advento dos Césares marca o retorno de Autoridade e Dever, de Honra e "Sangue", e o fim da democracia.

Com isso chega a fase "imperialista" da civilização, na qual os Césares com seus bandos de seguidores se enfrentam uns aos outros pelo controle do mundo. As grandes massas são incompreensíveis e indiferentes; as megalópoles lentamente se despovoam, e as massas gradativamente "retornam à terra", para se ocuparem lá com as mesmas tarefas rurais que seus ancestrais séculos antes. A tormenta de eventos se dá por cima de suas cabeças. Agora, em meio a todo o caos dos tempos, vem uma "segunda religiosidade"; um retorno nostálgico aos velhos símbolos da fé da cultura. Fortificadas dessa forma, as massas em um tipo de contentamento resignado enterram suas almas e seus esforços no solo a partir do qual eles e sua cultura emergiram, e contra esse pano de fundo a morte da Cultura e da civilização que ela criou se desenrola.

Ciclos Vitais Previsíveis

O ciclo vital de cada Cultura parece durar por volta de mil anos: a clássica existiu de 900 a.C. a 100 d.C.; a árabe (hebraico-semítica islamo-cristã) de 100 a.C. a 900 d.C.; a ocidental de 1000 d.C. a 2000 d.C. Porém, essa extensão é a ideal, no sentido de que uma expectativa de vida ideal de um homem é 70 anos de idade, ainda que ele possa nunca alcançar essa idade, ou viver muito além dela. A morte de uma Cultura pode na verdade se desenrolar por centenas de anos, ou pode ocorrer instantaneamente por causa de forças exteriores - como no fim súbito da Cultura Mexicana.

Também, ainda que cada cultura possua sua Alma única e seja em essência uma entidade especial e separada, o desenvolvimento do ciclo vital é paralelo em todas elas: Para cada fase do ciclo em uma dada cultura, e para todos os grandes eventos afetando seu curso, há uma contraparte na história de cada outra cultura. Assim, Napoleão, que inaugurou a fase civilizacional da ocidental, encontra sua contraparte em Alexandre da Macedônia, que fez o mesmo para a clássica. Daí a "contemporaneidade" de todas as altas culturas.

Em um rascunho simples esses são os componentes essenciais da teoria spengleriana dos ciclos culturais históricos. Em umas poucas frases ela pode se resumir assim:

A história humana é o registro cíclico da ascensão e queda de Altas Culturas não relacionadas. Essas Culturas são na realidade super formas vitais, isto é, elas são orgânicas em natureza, e como todos os organismos devem passar pelas fases de nascimento-vida-morte. Ainda que entidades separadas em si mesmas, todas as Altas Culturas experimentam desenvolvimento paralelo, e eventos e fases em qualquer uma encontram seus eventos e fases correspondentes nas outras. É possível desde o ponto de vantagem do século XX deduzir do passado o sentido da história cíclica, e assim prever o declínio e queda do Ocidente.

Desnecessário dizer, tal teoria - ainda que mais ou menos prenunciada na obra de Giambattista Vico e no russo oitocentista Nikolai Danilevsky, bem como em Nietzsche - estava destinada a abalar as fundações do mundo intelectual e semi-intelectual. Ela o fez parcialmente devido ao momento oportuno, e parcialmente ao brilhantismo (ainda que não sem falhas) com o qual Spengler a apresentou.

Estilo Polêmico

Há livros mais fáceis de ler do que Declínio - há também mais difíceis - mas uma grande razão para seu sucesso popular (para esse tipo de obra) sem precedentes foi a mesma razão para sua desconsideração geral da parte dos críticos acadêmicos. Desprezando o tipo de "eruditismo" que demandava somente afirmações cautelosas e judiciosas - cada uma apoiada por uma nota de rodapé - Spengler deu vazão a suas opiniões e juízos. Muitas passagens estão ao estilo de uma polêmica onde nenhuma discordância é tolerada.

Certamente, os dois volumes de Declínio, não importa quão cheio de opiniões o estilo e quão pouco convencional a metodologia, são essencialmente uma justificativa compreensiva das idéias apresentadas, retirada das histórias das diferentes Altas Culturas. Ele usou o método comparativo que, é claro, é apropriado se de fato todas as fases de uma Alta Cultura forem contemporâneas com as de qualquer outra. Nenhum homem poderia ter um conhecimento igualmente amplo de todas as Culturas examinadas, daí o tratamento de Spengler ser desigual, ele gasta relativamente pouco tempo na mexicana, indiana, egípcia, babilônica e chinesa - se concentrando na árabe, na clássica e na ocidental, especialmente essas últimas duas. A porção mais valiosa da obra, como mesmo seus críticos reconhecem, é a delineação comparativa dos desenvolvimentos paralelos das culturas clássica e ocidental.

O vasto conhecimento de Spengler sobre as artes lhe permitiu enfatizar sua importância para o simbolismo e sentido interior de uma Cultura, e as passagens sobre formas de arte são geralmente consideradas como estando entre as mais instigantes. Também notável é um capítulo (o primeiro, na verdade, após a Introdução) sobre "O Significado dos Números", onde ele afirma que mesmo a matemática - supostamente o único campo certamente "universal" do conhecimento - possui um significado diferente em diferentes culturas: números são relativos aos povos que os usam.

A "verdade" é similarmente relativa, e Spengler concedeu que o que pode ser verdadeiro para ele pode não ser verdadeiro para outro - mesmo para outro completamente da mesma cultura e era. Assim uma das maiores inovações de Spengler pode ser talvez sua postulação da não-universalidade das coisas, a "diferencialidade" ou distintividade de diferentes povos e culturas (apesar de seu fatídico fim comum - uma idéia que está começando a se enraizar no Ocidente moderno, que começou este século supremamente confiante na sabedoria e possibilidade de moldar o mundo a sua imagem e semelhança).

Era de Césares

Mas foi a sua colocação do Ocidente atual em seu esquema histórico que despertou mais interesse e mais controvérsia. Spengler, como o título de sua obra sugere, viu o Ocidente como fadado à mesma extinção eventual que todas as outras Altas Culturas haviam conhecido. O Ocidente, ele disse, estava agora no meio de sua fase "civilizacional", que havia começado, aproximadamente, com Napoleão. A vinda dos Césares (dos quais Napoleão foi apenas o prenúncio) estava talvez apenas há décadas de distância. Ainda assim Spengler não aconselhou qualquer tipo de resignação pesarosa ao destino, ou aceitação desleixada da derrota e morte vindouras. Em um ensaio posterior, "Pessimismo?" (1922), ele escreveu que os homens do Ocidente devem ainda ser homens, e fazer tudo que puderem para perceber as imensas possibilidades ainda abertas. Acima de tudo, eles devem abraçar o único imperativo absoluto: A destruição do Dinheiro e da democracia, especialmente no campo da política, este imenso campo de atividade.

Socialismo "Prussiano"

Após a publicação do primeiro volume de Declínio, os pensamentos de Spengler se voltaram cada vez mais para a política contemporânea na Alemanha. Após experimentar a revolução bávara e sua curta república soviética, ele escreveu um pequeno volume chamado Prussianismo e Socialismo. Seu tema era que um equívoco trágico dos conceitos estava em andamento: Conservadores e socialistas, ao invés de estarem nas antípodas, deveriam se unir sob o estandarte de um verdadeiro socialismo. Este não seria a abominação marxista-materialista, ele disse, mas essencialmente a mesma coisa que o Prussianismo: um socialismo da comunidade germânica, baseado em sua ética de trabalho, disciplina e hierarquia orgânica singulares ao invés do "dinheiro". Esse socialismo "prussiano" ele contrastou marcadamente tanto à ética capitalista da Inglaterra como ao "socialismo" de Marx, cujas teorias se resumiriam a "capitalismo para o proletariado".

Em suas propostas corporativistas Spengler antecipou os fascista, ainda que ele nunca tivesse sido um, e seu "socialismo" fosse essencialmente o mesmo que o dos Nacional-Socialistas (mas sem o racialismo völkisch).   Sua apreciação por uma corporação da qual o Estado teria o controle diretivo mas não a propriedade ou a responsabilidade direta sobre os vários segmentos privados da economia soava muito como a posterior avaliação favorável da economia Nacional-Socialista por Werner Sombart em sua Uma Nova Filosofia Social.

Prussianismo e Socialismo não teve uma reação favorável da crítica ou do público - ainda que o público estivesse inicialmente ansioso para conhecer suas opiniões. A mensagem do livro era considerava muito "visionária" e excêntrica - ela desafiava muitas linhas partidárias. Os anos de 1920-23 viram Spengler voltar à preocupação com a revisão do primeiro volume de Declínio, e ao término do segundo. Ele ocasionalmente dava palestras, e escrevia alguns ensaios, poucos dos quais sobreviveram.

Envolvimento Político

Em 1924, após a reviravolta sócio-econômica da terrível inflação, Spengler entrou na briga política em um esforço para trazer o general da Reichswehr Hans von Seekt ao poder como líder nacional. Mas o esforço não rendeu. Spengler se provou totalmente ineficaz na prática política. Era a velha história do "rei-filósofo", que era mais filósofo do que rei (ou fazedor de reis).

Após 1925, no início do breve período de estabilidade relativa da República de Weimar, Spengler devotou a maior parte de seu tempo a sua pesquisa e à escrita. Ele estava particularmente preocupado com o fato de ter deixado um vazio importante em sua grande obra - o da pré-história do homem. Em Declínio ele havia escrito que o homem pré-histórico estava basicamente sem uma história, mas ele revisou essa opinião. Seu trabalho sobre o tema foi apenas fragmentário, mas 30 anos após sua morte uma compilação foi publicada sob o título Período Primitivo da História Mundial.

Sua principal tarefa como ele a via, porém, era uma grande e compreensiva obra sobre sua metafísica - da qual Declínio havia dado apenas indícios. Ele jamais a terminou, ainda que Questões Fundamentais, basicamente uma coletânea de aforismas sobre o tema, tenha sido publicado em 1965.

Em 1931 ele publicou O Homem e a Técnica, um livro que refletia seu fascínio com o desenvolvimento e uso, no passado e no futuro, do técnico. O desenvolvimento de tecnologia avançada é único ao Ocidente, ele previu para onde isso levaria. O Homem e a Técnica é um livro racialista, ainda que não no sentido "germânico" estreito. Ao invés ele alerta as raças européias ou brancas do perigo crescente das raças de cor. Ele prevê um tempo em que os povos de cor da Terra usarão a própria tecnologia do Ocidente para destruir o Ocidente.

Reservas em relação a Hitler

Há muito no pensamento de Spengler que permite que ele seja caracterizado como algum tipo de "proto-nazi": seu chamado por um retorno à Autoridade, sue ódio à democracia "decadente", sua exaltação do espírito do "Prussianismo", sua idéia da guerra como essencial à vida. Porém, ele jamais se uniu ao Partido Nacional-Socialista, apesar de repetidos convites de luminares como Gregor Strasser e Ernst Hanfstängl. Ele considerava os Nacional-Socialistas como imaturos, fascinados com marchinhas de banda e slogans patrióticos, brincando com a bola do poder mas não percebendo a significância filosófica e os novos imperativos da era. De Hitler se supõe ter dito que o que a Alemanha precisava era de um herói, não de um tenor. Ainda assim, ele votou em Hitler contra Hindenburg nas eleições de 1932. Ele se encontrou com ele pessoalmente apenas uma vez, em julho de 1933, mas Spengler saiu pouco impressionado de sua longa conversa.

Suas opiniões sobre os Nacional-Socialistas e a direção que a Alemanha deveria estar tomando apareceram ao fim de 1933, em seu livro A Hora da Decisão. Ele começa afirmando que ninguém poderia ter desejado pela revolução Nacional-Socialista tanto quanto ele. No curso da obra, porém, ele expressou (às vezes de forma velada) suas reservas sobre o novo regime. Ainda que ele fosse certamente germanófilo, não obstante ele via os Nacional-Socialistas como muito estreitamente germânicos em caráter, e não suficientemente europeus.

Ainda que ele continuasse o tom racialista de O Homem e a Técnica, Spengler fez pouco do que ele considerada como a exclusivismo do conceito Nacional-Socialista de raça. Em face do perigo exterior, o que deveria ser enfatizado é a unidade das várias raças européias, não sua fragmentação. Para além de um reconhecimento prático do "perigo das raças de cor" e da superioridade da civilização branca, Spengler repetiu sua própria concepção "não-materialista" da raça (que já havia sido expressa em Declínio): Certos homens - qualquer seja sua origem - possuem "raça" (um tipo de vontade de poder), e estes são os fazedores da história.

Prevendo uma Segunda Guerra Mundial, Spengler alertou em A Hora da Decisão que os Nacional-Socialistas não estavam suficientemente vigilantes em relação às poderosas forças hostis fora do país que se mobilizariam para destruí-los, e a Alemanha. Sua crítica mais direta foi expressa dessa forma: "E os Nacional-Socialistas acreditam que eles podem ignorar o mundo ou se opôr a ele, e construir seus castelos em nuvens sem criar uma possivelmente silenciosa, ainda que muito palpável reação vinda de fora". Finalmente, mas após já ter alcançado uma ampla circulação, as autoridades proibiram a distribuição continuada do livro.

Oswald Spengler, pouco após prever que em uma década não haveria mais um Reich Alemão, morreu de um ataque cardíaco em 8 de maio de 1936, em seu apartamento de Munique. Ele foi para a morte convicto de que ele havia estado certo, e que os eventos estavam se desdobrando em cumprimento do que ele havia escrito em Declínio do Ocidente. Ele estava certo de que ele viveu no período crepuscular de sua Cultura - que, apesar de suas previsões agourentas e sombrias, ele amava profundamente até o fim.