por Lorenzo Pennacchi
(2015)
Este mundo não basta, canta Sköll, referindo-se a grandes eventos e personagens do início do século XX italiano. Entre eles, obviamente, Gabriele D'Annunzio, uma dessas personalidades que escapam a qualquer tipo de classificação, desmantelando radicalmente os esquemas pré-estabelecidos. Sobre ele, costuma-se dizer que era fascista. Talvez, pelo menos em parte, ele tenha sido, mas, com certeza, não foi apenas isso. O significado deste pequeno artigo, que é possível graças à magistral coleção de discursos e textos d'annunzianos editados por Emiliano Cannone e intitulado Manual do Revolucionário, é justamente mostrar o outro lado do poeta-soldado que com um Me Ne Frego e seu "espírito jovem" tentou tirar a Itália da podridão em que se encontrava. Não é por acaso que, no Congresso da IIIª Internacional, Lênin dirá: "Na Itália há apenas um revolucionário: Gabriele d'Annunzio". O paralelismo entre o Vate de Pescara e o revolucionário russo não se detém nesta frase. Em 9 de junho de 1920, em entrevista a Randolfo Vella, D'Annunzio confessou: "Eu sou a favor do comunismo sem ditadura [...] É minha intenção fazer desta cidade uma ilha espiritual da qual eu possa irradiar uma ação eminentemente comunista para todas as nações oprimidas".
A cidade em questão é, obviamente, a tão cobiçada Fiume, invadida, ocupada e anexada ao Reino da Itália em 12 de setembro de 1919, sob o grito Eia Eia Alalà (adotado no lugar do "bárbaro" Hip Hip Hurrah). Poucos meses depois o Vate dirá aos seus legionários:
"O espírito de Fiume transcende seus muros, vai além de seu porto, vai além de seu círculo cárstico. O domínio espiritual de Fiume é imenso. E não basta fechar os olhos para negá-lo, como tenta fazer a estúpida avestruz britânica. O exemplo de Fiume pode ser reconhecido hoje em todas as rebeliões contra a injustiça, em todas as revoltas em busca de liberdade, da Irlanda ao Egito, da Rússia ao novo império árabe, da Bélgica às Índias, dos Bálcãs ao Sudão, das colônias de Trajano às tribos de afrivianos. Nossa próxima primavera se anuncia como um vasto tumulto de luta e fervor, onde ouviremos os corações fraternais mais distantes batendo. Agora começa o belo."
