25/04/2026

Sertorio - Konstantin Leontiev: O Spengler Russo

 por Sertorio

(2018)


A sociedade russa iniciou a sua deriva em direção à revolução em 1861, quando a libertação dos servos deu início a um caminho de reformas ocidentalizantes que puseram fim ao sistema que governou durante séculos o império dos czares. A maior parte dos críticos dessas políticas eram defensores do pensamento progressista e liberal; para eles, a principal objeção que se podia enunciar contra as reformas era a sua insuficiência, o seu conservadorismo, os seus resquícios arcaicos. Perante esta corrente maioritária encontravam-se vozes discordantes, como a de Liev Tolstói e o seu utopismo cristão e agrário, negador da cultura e da civilização, que provocavam agitação pela sua interpretação radical do Evangelho. Mas nem tudo na Rússia era niilismo, também surgiram observadores lúcidos que viam com muita antecedência os perigos que se aproximavam não só para o império dos Romanov, mas para toda a civilização: a este seleto número pertence Konstantin Leontiev (1831–1891), ensaísta muito desconhecido na Europa e esquecido na sua pátria desde 1917.

20/04/2026

Alex Graham - O Nacionalismo Cosmopolita de Ravel

 por Alex Graham

(2025)


Hoje marca o 150º aniversário do nascimento de Maurice Ravel, um dos compositores mais importantes da França. A música de Ravel é facilmente reconhecível pelo seu som sobrenatural e colorido e pelas suas harmonias e orquestrações inovadoras.

Tal como o seu aluno e amigo Ralph Vaughan Williams, Ravel era muito original, mas rejeitava o iconoclasmo popular entre muitos dos seus contemporâneos. A sua música destaca-se pela ênfase na melodia e pelo uso de formas tradicionais, assim como por uma sensibilidade claramente francesa.

15/04/2026

Collin Cleary - Que Deus Odin Adorou?

por Collin Cleary

(2011)



I

Introdução


Na Edda Poética, Odin narra sua descoberta das runas:


Sei que pendi da árvore fustigada pelo vento
Nove noites inteiras,
Ferido pela lança, consagrado a Odin,
Eu mesmo consagrado a mim,
Naquela árvore de que ninguém sabe

De que raízes ela se ergue.
Não me ergueram um chifre nem me deram pão;
Olhei para baixo –
Gritei em alta voz –
Agarrei as runas, agarrei-as clamando,
Dali caí novamente ao chão.[1]


Esta é uma das passagens mais famosas da Edda, e uma das mais misteriosas. Ela parece representar um ato de autossacrifício, através do qual Odin adquire as runas. Mas como Odin pode sacrificar-se a si mesmo? O que isto pode significar? Claro, se Odin é o deus supremo, o Pai de Todos, então não há um deus maior a quem ele possa se sacrificar. Mas isso dificilmente elimina o mistério. Se Odin é o deus supremo, por que ele precisa fazer algo para adquirir as runas? Por que ele já não as possui, simplesmente em virtude de ser Odin? E ainda assim, ele faz algo: sacrifica-se a si mesmo. Este ato (que dá ao termo “autossacrifício” um significado totalmente novo) sugere irresistivelmente que há uma dualidade em Odin; que existem dois “Odins”: aquele que tem o segredo das runas, e aquele que quer adquiri-lo. Neste ensaio — que é um exercício altamente especulativo na interpretação do mito — sugerirei que o Odin que fala nesta passagem, e em geral o Odin que nos é familiar, representa uma metade de uma divindade complexa: a metade que aparece. Odin é a “face” deste deus, que transcende as aparências e nunca nos aparece em sua totalidade.

10/04/2026

Joakim Andersen - Kafka contra Kafka

 por Joakim Andersen

(2025)


Franz Kafka (1883-1924) é um dos grandes escritores da era moderna, notadamente graças à sua variante particular do realismo mágico. Trata-se de alguma forma de um realismo social mágico, de uma mito-sociologia que evidencia a dimensão oculta e incompreensível do mundo moderno.

Coisas estranhas acontecem na vida quotidiana do mundo moderno: «Quando Gregor Samsa acordou uma manhã de seus sonhos agitados, encontrou-se em sua cama, transformado num inseto gigantesco». O Processo e O Castelo são descrições brilhantes da burocracia, mesmo que seus personagens principais sejam mais ou menos tão heroicos quanto os de Lovecraft.

07/04/2026

Kazuhiro Hayashida - Fronteiras entre as Civilizações do Altai-Amur e do Rio Amarelo

 por Kazuhiro Hayashida

(2025)


De acordo com a ortodoxia acadêmica, a pré-história japonesa é geralmente descrita como uma transição linear do período Jōmon para o Yayoi, entendendo-se este último como sucessor direto do primeiro. No entanto, na realidade, o complexo cultural Yayoi, caracterizado pelo cultivo de arroz, bronze e ferro, surgiu como uma fronteira civilizatória meridional que fluía das bacias dos rios Amarelo e Yangtzé, enquanto, ao mesmo tempo, no final do período Jōmon, também estavam a entrar no arquipélago elementos do norte do Amur, como motivos animais, práticas de caça e técnicas militares. Por outras palavras, as ondas de civilização provenientes tanto do norte como do sul penetraram no Japão de forma paralela e foi precisamente no seu ponto de interseção que surgiu um espaço cultural integrador. A razão pela qual o mundo acadêmico não reconheceu esta estrutura paralela é porque continua ligado a um modelo evolucionista simplista —«Jōmon = primitivo, Yayoi = progressista»— e, portanto, carece da perspectiva de situar estas fronteiras civilizatórias como contemporâneas. Sustento que apenas através desta compreensão paralela norte-sul se pode definir com precisão o Japão como uma zona de dupla fronteira de contato civilizatório.

05/04/2026

Geydar Dzhemal - Luta de Classes no Século XXI: Parte V - O "Islã Político" e o Governo Mundial

 por  Geydar Dzhemal

(2012)


Muitas pessoas acostumadas a que o Islã político é um fator antiocidental, não conseguem aceitar a coexistência e até colaboração entre o Islão radical e a burocracia internacional, que atuam conjuntamente em alguns pontos quentes do planeta.

Lembramos que no seu dia os Estados Unidos apoiaram a resistência afegã e a sua ala internacional contra o assim chamado contingente limitado soviético. (Ali foi, por sinal, onde se criou a marca da dita “Al-Qaeda”, que não é mais do que a nomenklatura dos comandantes militares de formato internacional, que podem ser mobilizados para as atividades militares em determinados lugares). 

03/04/2026

Claude Bourrinet - A Revolução e as Estrelas

 por Claude Bourrinet

(2025)


Para que haja revolução, não basta decretá-la, ou pensar que uma revolta (a dos Coletes Amarelos, por exemplo, seja suficiente), ou que uma crise económica vai empurrar a população para os seus últimos redutos (pelo contrário, uma ditadura feroz pode daí nascer e achatar qualquer sobressalto).

As revoluções nascem quando se tem um mundo a defender, ou um mundo a conquistar.

29/03/2026

Geydar Dzhemal - Luta de Classes no Século XXI - Parte IV: Governo Mundial como Caminho para a Nova Sociedade

 por Geydar Dzhemal

(2012)


Todas as discussões sobre a “Nova Ordem Mundial” que tiveram lugar no discurso social mundial desde os anos 30 do século XX e até os neoconservadores de Bush não foram na realidade mais do que discussões sobre a nova formação político-social que vem substituir tanto o capitalismo como o socialismo. O socialismo via-se a si mesmo como a saída para a fase final do progresso histórico, mas está claro que esta ambição era ignorada tanto no Reich, como nos Estados Unidos do modelo 11 de setembro. O socialismo, em definitivo, não representava uma ruptura radical com a história mundial anterior. Para esta rutura faltava-lhe o principal: não superava o critério liberal da “boa vida” – o livre consumo dos bens materiais.

Claro que no socialismo estava presente a corrente religiosa ascética do anticonsumismo, a visão mística da revolução a partir de baixo, mas esta visão não superava os marcos do cosmismo, estava determinada pelo horizonte do titanismo, arraigado na camada arcaica da atitude perante o mundo. Este cosmismo titânico dentro do conjunto do fenômeno socialista era marginal com respeito à linha geral materialista.

23/03/2026

Geydar Dzhemal - Luta de Classes no Século XXI: Parte III - O Governo Mundial e o Fim da Democracia Eleitoral

por Geydar Dzhemal

(2012)


Ao longo dos séculos, o tema do governo mundial foi objeto de fantasias políticas, sonhos e projetos entre muitos pensadores preocupados com a paz mundial e o bem-estar. O governo mundial parecia a panaceia para todos os males que afligem a humanidade. Na realidade, o próprio surgimento do conceito do governo mundial centralizado rompia com a Idade Média e abria caminho para as iniciativas que mais tarde foram batizadas como “Modernidade”.

Mas é apenas uma ilusão progressista pensar que tais concepções são o produto da mentalidade da Época Moderna. Na realidade, a ideia do governo mundial ou, mais exatamente, do “Rei do mundo” é uma ideia perfeitamente tradicional oculta, própria de muitos sistemas simbólicos. De maneira evidente, o governante do mundo está presente na metafísica budista e na teologia católica. Pax Romana – o Império Romano – também se fundamentava na ideia da união de todos os povos sob o comando de um único centro imperial. Antes de Roma, a tentativa mais significativa de criar o governo mundial foi realizada por Alexandre Magno – 300 anos antes de Jesus Cristo. Mais sucesso na mesma direção obteve Gengis Khan, cujo império durou mais tempo… Em outras palavras, a ideia de um mundo unificado governado por um só homem está presente na consciência religiosa desenvolvida e na prática histórica. Certamente, também os impérios coloniais de alguma forma formavam o governo mundial, sobretudo levando em conta que alguns deles eram governados por parentes.

22/03/2026

Geydar Dzhemal - Luta de Classes no Século XXI: Parte II - Os Senhores dos Clãs Burocráticos

 por Geydar Dzhemal

(2012)


Pela sua composição humana e de quadros, a burocracia internacional diferencia-se fundamentalmente das burocracias nacionais. Estas duas corporações diferenciam-se não só pela sua ideologia, objetivos históricos, métodos de governo e fontes de financiamento. Opõem-se também pela sua base antropológica: possuem diferente antropologia social.

Anteriormente dissemos que existem três tipos fundamentais de burocracia internacional: supraestatal, interestatal e não estatal. As fontes para o fornecimento dos quadros destes três contingentes também são distintas.