sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Eduardo Velasco - O Chifre do Diabo: geopolítica sob a tormenta árabe


ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE
- INTRO
- CRONOLOGIA DE EVENTOS RECENTES
- PODEROSO CAVALEIRO É DOM PETRÓLEO — POR QUÊ?
- A CONEXÃO KUSHNER-ROCKEFELLER
- SAUDI ARAMCO E O OASIS DE DHAHRAN — A TERRA PROMETIDA DOS ROCKEFELLERS
• UMA BREVE HISTÓRIA DO PETRÓLEO ÁRABE

SEGUNDA PARTE (em breve)


INTRO  

Meu reino só sobreviverá enquanto permanecer um país de acesso difícil, onde o estrangeiro, uma vez cumprido sua tarefa, não terá outro objetivo senão partir. — (Abdul Aziz bin Saud, 1930).

No Hádice (escrito muçulmano complementar ao Corão) é narrado como Maomé pede a Deus que abençoe várias regiões árabes, omitindo especificamente o Nejd, a inóspita região do centro da Península Arábica, situada em pleno Heartland árabe. Quando os seguidores de Maomé pedem-lhe para abençoar o Nejd, ele os ignora, até a terceira vez:

Al-Bukhari relata que, segundo Abdulá ibne Saade, o Mensageiro de Alá (que a paz e a benção de Alá estejam com ele), disse: "Ó Alá, abençoe a Síria! Ó meu Senhor, abençoe nosso Iêmen!" As pessoas disseram: "E o Nejd?" Ele continuou: "Ó Alá, abençoe a Síria! Ó meu Senhor, abençoe nosso Iêmen!" Eles disseram: "E o Nejd?" E creio que ele respondeu na terceira vez: "Neste lugar haverá terremotos e sedições, e é também neste lugar onde aparecerá o Chifre do Diabo". 

No Oriente Médio há um país árabe, hermético como a Coréia do Norte, mas com o wahhabismo como ideologia de Estado e método de controle social. É uma ditadura tão férrea como a soviética, mas também uma monarquia absolutista no estilo do Antigo Regime, e não há partidos políticos, eleições ou parlamento. Ao contrário dos marítimos Emirados Árabes Unidos ou Qatar — moderadamente abertos e com certas futilidades cosmopolitas —, continua sendo um Heartland: conservador, fechado e celoso, tal como são os heartlands. A Xaria é constitucional e lei. A escola de jurisprudência é o Hanbalismo, a mesma seguida pelo ISIS, por isso não é incomum que as penalidades criminais sejam geralmente as mesmas que as prescritas pelo ISIS. Não há vistos de turista para viajar para o país, é necessário um "patrocinador", e qualquer dispositivo eletrônico que a pessoa aporte passará por uma inspeção minuciosa. As fotografias são severamente limitadas, e se o visitante usa binóculos, o mesmo será confiscado na alfândega. Se o visitante nasceu em Israel ou tiver um visto no passaporte em Israel, sua entrada será recusada.

A música está proibida e apenas as orações por megafonia pública são ouvidas, cinco vezes ao dia, durante o qual os estabelecimentos fecham por meia hora. Dançar está proibido, álcool está proibido, carne de porco está proibida, comer, beber ou fumar no Ramadão também, assim como o adultério (punido com lapidação [apedrejamento], muitas vezes aplicado a vítimas de estupro), magia, adivinhação ou feitiçaria (existe na polícia religiosa uma unidade especial de antifeitiçaria), posse de talismãs da sorte, pornografia (ou simplesmente fotografias de pessoas com pouca roupa), desrespeitar o Corão, ter cães ou gatos, ou participar de costumes ocidentais "frívolos" como São Valentim, Halloween ou Natal. As mulheres devem estar completamente cobertas e não podem dirigir (parece que isso mudará em 2018) e a homossexualidade é punida com a morte. Há uma polícia religiosa semelhante à que existia no Afeganistão durante a era talibã: o orwelliano "comitê para a promoção da virtude e prevenção do vício", que vigia as ruas da cidade, assegurando que homens e mulheres permaneçam segregados, e que se um homem caminha com uma mulher (que deve estar vários passos atrás dele), é devido a ele ser seu wali ou guardião (geralmente pai ou marido).

As transgressões à Xaria Islâmica são punidas com chicotadas ou decapitações por espada, a mesma que aparece na bandeira nacional. Roubar resulta em amputação da mão. Às vezes, os corpos decapitados, mesmo jorrando sangue, são levantados em guindastes e crucificados no ar em plena luz do dia, em cenas dantescas que lembram às cidades mexicanas dominadas pelos cartéis de drogas.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Guillaume Durocher - Sugimoto Goro e o Zen do Soldado

por Guillaume Durocher



O ascetismo geralmente tem uma má reputação nos círculos vitalistas. A idéia do monge assexuado, desapaixonado, passivo e rejeitador do mundo parece evidentemente desadaptativa, um beco sem saída evolutivo, como Nietzsche e Savitri Devi supuseram. No entanto, o fato é que monges muitas vezes também foram guerreiros, e os monarcas das religiões ascéticas, como o cristianismo e o budismo, foram muitas vezes grandes conquistadores. As ordens monásticas cristãs contribuíram grandemente para a luta contra a agressão muçulmana na Idade Média e provaram ser capazes de exterminar os últimos redutos pagãos na região do Báltico.

No Japão, o zen budismo era a religião dos samurais, que desenvolveram um ethos guerreiro, o Bushidō, que foi um dos mais profundos e espirituais do seu tipo em todo o mundo. Enquanto o budismo hoje é frequentemente associado a uma espécie de pacifismo desenraizado e confortável, na primeira metade do século XX, as escolas zen do Japão Imperial apoiaram entusiasticamente o poderio militar nacional e o serviço altruísta ao imperador como a incorporação divina de sua nação. Os monges e líderes zen desenvolveram o chamado “zen do soldado” (gunjin-zen) e apoiaram fortemente o Japão durante a Segunda Guerra Mundial, tanto em suas ambições imperiais quanto em sua resistência aos Aliados. Nos anos do pós-guerra, muitos ocidentais convertidos ao zen ficaram chocados ao descobrir que seus mestres "iluminados" haviam apoiado o militarismo autoritário e o imperialismo.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Tomislav Sunic - Heidegger Autêntico vs. "Fake News" Inautênticas

por Tomislav Sunic



O problema com Martin Heidegger, o filósofo ocidental amplamente aclamado, não é apenas como interpretar corretamente seus textos, mas também como interpretar corretamente as obras de seus intérpretes. A partir de uma infinidade de livros e artigos de centenas de críticos de Heidegger, dificilmente podemos distinguir dois críticos que se pareçam um com o outro. Cada crítico, ou melhor, qualquer suposto perito em Heidegger, costuma manusear várias palavras de Heidegger, apenas para interpretar essas palavras de acordo com suas próprias conclusõs prévias. No estudo tradicional alemão, esta compartimentação obsessiva das ciências sociais, que salta sobre um contexto social, racial, literário, histórico, etc., mais amplo, foi rotulada com um substantivo "Fachidiotismus", isto é, "idiotice especializada". Este tipo de abordagem compartimentalizada nas ciências sociais hoje é bastante difundido entre os acadêmicos liberais e os autoproclamados especialistas da mídia.

domingo, 11 de março de 2018

Marcelo Gullo - O Peronismo: Uma Tentativa de Insubordinação Fundadora

por Marcelo Gullo



Introdução

Na história das relações internacionais, a primeira unidade política a utilizar, conscientemente, sistematicamente e premeditadamente, o imperialismo cultural [1], isto é, a subordinação ideológico-cultural como instrumento fundamental da sua política externa, para impor a sua vontade às outras unidades políticas, foi a Grã-Bretanha, exportando o livre-comércio como uma ideologia de dominação.

Através das lojas, a Inglaterra exportou, para converter as jovens repúblicas hispano-americanas em semicolônias, as idéias do livre-comércio. Ideia que se cuidou bem para não aplicar em seu próprio território.

Um dos problemas mais marcantes, mas, ao mesmo tempo, mais ignorados na história das relações internacionais, refere-se ao fato de que, desde a sua industrialização, a Grã-Bretanha começou a agir com duplicidade deliberada. Uma coisa era o que era efetivamente realizado em matéria de política econômica para se industrializar e progredir industrialmente e outra, o que era ideologicamente propagado, com Adam Smith e outros porta-vozes.

A Inglaterra, apresentada ao mundo como a pátria do livre-comércio, como o berço da não-intervenção do Estado na economia quando, na realidade, tinha sido, em termos históricos, a pátria do protecionismo econômico e do impulso estatal. [2]

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Alain de Benoist - O que é Soberania?

por Alain de Benoist



O conceito de soberania é um dos mais complexos na ciência política, com muitas definições, algumas totalmente contraditórias.[1] Geralmente, a soberania é definida de uma entre duas maneiras. A primeira definição se aplica ao poder público supremo, que tem o direito e, em teoria, a capacidade de impor sua autoridade em última instância. A segunda definição refere-se ao titular do poder legítimo, que é reconhecido como tendo autoridade. Quando a soberania nacional é discutida, a primeira definição se aplica, e se refere em particular à independência, entendida como a liberdade de uma identidade coletiva para agir. Quando a soberania popular é discutida, a segunda definição aplica-se e a soberania está associada ao poder e à legitimidade.

Soberania e Autoridade Política

A nível internacional, a soberania significa independência, ou seja, não-interferência de poderes externos nos assuntos internos de outro Estado. As normas internacionais baseiam-se no princípio da igualdade soberana dos Estados independentes; o direito internacional exclui a interferência e estabelece regras universalmente aceitas. Assim, a soberania é eminentemente racional, se não dialética, uma vez que a soberania de um Estado depende não apenas da vontade autônoma de seu soberano, mas também da sua posição em relação a outros Estados soberanos. Nesta perspectiva, pode-se dizer que a soberania de um único Estado é a conseqüência lógica da existência de vários Estados soberanos.[2]

É, portanto, um grave erro assumir que a soberania é possível apenas no âmbito do tipo clássico de Estado, ou seja, um Estado-nação, como fazem os representantes da escola "realista", como Alan James e F.H. Hinsley, ou teóricos neomarxistas como Justin Rosenberg.[3] Não se deve confundir os conceitos de nação e Estado, que não necessariamente caminham juntos, ou assumir que o conceito de soberania foi formulado claramente apenas nos termos da teoria do Estado. Mais perto da verdade, está a afirmação de John Hoffman de que "a soberania tem sido um problema insolúvel desde que se associou ao Estado".[4] Mesmo que um conceito de soberania não existisse antes do século 16, não se segue que o fenômeno não existia na realidade política, e que ele não poderia ter sido conceitualizado de forma diferente. Por exemplo, Aristóteles não menciona a soberania, mas o fato de que ele insiste na necessidade de um poder supremo mostra que ele estava familiarizado com a idéia, uma vez que qualquer poder supremo -  kuphian aphen com os gregos; summum imperium com os romanos - é soberano por definição. A soberania não está relacionada a nenhuma forma particular de governo ou a qualquer organização política particular; pelo contrário, é inerente a qualquer forma de autoridade política.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Aleksandr Dugin - Multipolaridade: A Definição e a Diferenciação entre seus Significados

por Aleksandr Dugin



Mais e mais obras sobre relações exteriores, política mundial, geopolítica, e atualmente, política internacional, são dedicadas ao tema da multipolaridade. Um número crescente de autores tentam compreender e descrever a multipolaridade como um modelo, fenômeno, precedente ou possibilidade.

O típico da multipolaridade foi tocado, de uma maneira ou de outra, nas obras do especialista em relações internacionais David Kampf (no artigo, "A Emergência de um Mundo Multipolar"), do historiador Paul Kennedy da Universidade de Yale (em seu livro, "A Ascensão e Queda das Grandes Potências"), do geopolítico Dale Walton (no livro, "Geopolítica e as Grandes Potências no Século XXI: Multipolaridade e a Revolução em Perspectiva Estratégica"), do cientista político americano Dilip Hiro (no livro, "Após o Império: Nascimento de um Mundo Multipolar"), e outros. O mais próximo da compreensão do sentido da multipolaridade, em nossa opinião, foi o especialista britânico em RI Fabio Petito, que tentou construir uma alternativa séria e substanciada ao mundo unipolar com base nos conceitos legais e filosóficos de Carl Schmitt.

sábado, 6 de janeiro de 2018

René Guénon - O Simbolismo Solsticial de Jano

por René Guénon



Acabamos de ver que o simbolismo das duas portas solsticiais, no Ocidente, existia entre os gregos e mais em particular entre os pitagóricos; ele é encontrado igualmente entre os latinos, onde está essencialmente vinculado com o simbolismo de Jano. Como já fizemos alusão a este e a seus diversos aspectos em muitas ocasiões, não consideraremos aqui senão os pontos referidos mais diretamente ao que expusemos em nossos últimos estudos, ainda que, por outra parte, seja difícil isolá-los por completo do conjunto bastante complexo de que formam parte.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Álvaro Hauschild - O Holismo Político: O Conceito de Sistema da Quarta Teoria Política

por Álvaro Hauschild





Comunicação apresentada em 09/12/2017 por ocasião do I Fórum das Resistências, organizado pela Resistência Sulista e pela Nova Resistência - Brasil, em Porto Alegre.

Nossa comunicação tem por objetivo tornar mais clara a Quarta Teoria Política, buscando compreender como ela funciona em termos de prática política, isto é, compreender como o sistema político pensado pela QTP se organiza socialmente.

Para isto, começaremos por construir uma 1) breve introdução à QTP; 2) em seguida, nos aprofundando mais, trataremos um pouco sobre o conceito de Mitsein encontrado em Heidegger e, por fim, 3) entraremos no nosso objeto de estudo, que é o sistema holístico subjacente na QTP.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Alberto Buela - Perón e o Peronismo

por Alberto Buela



A pedido de meus amigos espanhois que são muitos e muito bons escrevo este artigo sobre Perón e o peronismo, mesmo sabendo que são milhares os livros e artigos sobre o tema.


Perón e o peronismo nascem para a vida política a partir de seu cargo como Diretor de Trabalho e Previdência no ano 1943. Logo se transformou em Secretário do Trabalho para ser eleito, finalmente, Presidente em fevereiro de 1946. Governou até setembro de 1955 e regressou à Argentina em 1973, falecendo em julho de 1974.


Sobre Perón e o peronismo na Europa já se disse de tudo, desde nazi-fascista até socialista e comunizante, mas o fenômeno deve ser entendido não com categorias políticas europeias, mas com categorias americanas. O sem sentido é tão grande que há poucos anos Pierre Milza falou em "fascismo de esquerda".

Sua formação foi a de um militar industrialista que tem como mentor o general Agustín Pedro Justo, engenheiro recebido na Universidade de Buenos Aires e Presidente de 1932 a 1938.

Seu projeto político o expressou em seu discurso se encerramento do 1º Congresso Nacional de Filosofia de 1949, sob o título de Comunidade Organizada.


A ideia apresenta duas leituras possíveis: a) Como sistema social a construir e b) Como sistema de poder.


a) Como sistema social sustenta que o povo solto, isolado, atomizado inexiste. Só existe o povo organizado e como tal se transforma em fator concorrente nos aparatos do Estado que são específicos a cada organização livre do povo ou corpos intermediários no jargão sociológico.


b) Como sistema de poder sustenta que o poder procede do povo que se expressa através de suas instituições intermediárias. Nem o poder procede do governo, nem do Estado. Nem o povo delega seu poder nas instituições do Estado.


domingo, 17 de dezembro de 2017

Aleksandr Dugin - Rumo à Quarta Teoria Econômica

por Aleksandr Dugin

Discurso de Aleksandr Dugin na conferência “Capitalismo e suas Alternativas no Século XXI: a Quarta Teoria Econômica”, realizada em Chisinau, Moldávia, de 15 a 16 de dezembro de 2017.



Preâmbulo:

Em linhas gerais, a Quarta Teoria Política (ou QTP) não confere primazia à economia, e isso não é acidental: o aspecto material da existência é tido como secundário na QTP, assim como é considerado como algo completamente dependente de determinadas perspectivas sociais e filosóficas mais gerais – metafísicas e religiosas, fundamentalmente. A economia não é autônoma, mas uma mera projeção de certas atitudes cognitivas e princípios filosóficos, com os quais devemos lidar.