quinta-feira, 12 de julho de 2018

Tomislav Sunic - Heidegger Autêntico vs. "Fake News" Inautênticas

por Tomislav Sunic



O problema com Martin Heidegger, o filósofo ocidental amplamente aclamado, não é apenas como interpretar corretamente seus textos, mas também como interpretar corretamente as obras de seus intérpretes. A partir de uma infinidade de livros e artigos de centenas de críticos de Heidegger, dificilmente podemos distinguir dois críticos que se pareçam um com o outro. Cada crítico, ou melhor, qualquer suposto perito em Heidegger, costuma manusear várias palavras de Heidegger, apenas para interpretar essas palavras de acordo com suas próprias conclusõs prévias. No estudo tradicional alemão, esta compartimentação obsessiva das ciências sociais, que salta sobre um contexto social, racial, literário, histórico, etc., mais amplo, foi rotulada com um substantivo "Fachidiotismus", isto é, "idiotice especializada". Este tipo de abordagem compartimentalizada nas ciências sociais hoje é bastante difundido entre os acadêmicos liberais e os autoproclamados especialistas da mídia.

domingo, 11 de março de 2018

Marcelo Gullo - O Peronismo: Uma Tentativa de Insubordinação Fundadora

por Marcelo Gullo



Introdução

Na história das relações internacionais, a primeira unidade política a utilizar, conscientemente, sistematicamente e premeditadamente, o imperialismo cultural [1], isto é, a subordinação ideológico-cultural como instrumento fundamental da sua política externa, para impor a sua vontade às outras unidades políticas, foi a Grã-Bretanha, exportando o livre-comércio como uma ideologia de dominação.

Através das lojas, a Inglaterra exportou, para converter as jovens repúblicas hispano-americanas em semicolônias, as idéias do livre-comércio. Ideia que se cuidou bem para não aplicar em seu próprio território.

Um dos problemas mais marcantes, mas, ao mesmo tempo, mais ignorados na história das relações internacionais, refere-se ao fato de que, desde a sua industrialização, a Grã-Bretanha começou a agir com duplicidade deliberada. Uma coisa era o que era efetivamente realizado em matéria de política econômica para se industrializar e progredir industrialmente e outra, o que era ideologicamente propagado, com Adam Smith e outros porta-vozes.

A Inglaterra, apresentada ao mundo como a pátria do livre-comércio, como o berço da não-intervenção do Estado na economia quando, na realidade, tinha sido, em termos históricos, a pátria do protecionismo econômico e do impulso estatal. [2]

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Alain de Benoist - O que é Soberania?

por Alain de Benoist



O conceito de soberania é um dos mais complexos na ciência política, com muitas definições, algumas totalmente contraditórias.[1] Geralmente, a soberania é definida de uma entre duas maneiras. A primeira definição se aplica ao poder público supremo, que tem o direito e, em teoria, a capacidade de impor sua autoridade em última instância. A segunda definição refere-se ao titular do poder legítimo, que é reconhecido como tendo autoridade. Quando a soberania nacional é discutida, a primeira definição se aplica, e se refere em particular à independência, entendida como a liberdade de uma identidade coletiva para agir. Quando a soberania popular é discutida, a segunda definição aplica-se e a soberania está associada ao poder e à legitimidade.

Soberania e Autoridade Política

A nível internacional, a soberania significa independência, ou seja, não-interferência de poderes externos nos assuntos internos de outro Estado. As normas internacionais baseiam-se no princípio da igualdade soberana dos Estados independentes; o direito internacional exclui a interferência e estabelece regras universalmente aceitas. Assim, a soberania é eminentemente racional, se não dialética, uma vez que a soberania de um Estado depende não apenas da vontade autônoma de seu soberano, mas também da sua posição em relação a outros Estados soberanos. Nesta perspectiva, pode-se dizer que a soberania de um único Estado é a conseqüência lógica da existência de vários Estados soberanos.[2]

É, portanto, um grave erro assumir que a soberania é possível apenas no âmbito do tipo clássico de Estado, ou seja, um Estado-nação, como fazem os representantes da escola "realista", como Alan James e F.H. Hinsley, ou teóricos neomarxistas como Justin Rosenberg.[3] Não se deve confundir os conceitos de nação e Estado, que não necessariamente caminham juntos, ou assumir que o conceito de soberania foi formulado claramente apenas nos termos da teoria do Estado. Mais perto da verdade, está a afirmação de John Hoffman de que "a soberania tem sido um problema insolúvel desde que se associou ao Estado".[4] Mesmo que um conceito de soberania não existisse antes do século 16, não se segue que o fenômeno não existia na realidade política, e que ele não poderia ter sido conceitualizado de forma diferente. Por exemplo, Aristóteles não menciona a soberania, mas o fato de que ele insiste na necessidade de um poder supremo mostra que ele estava familiarizado com a idéia, uma vez que qualquer poder supremo -  kuphian aphen com os gregos; summum imperium com os romanos - é soberano por definição. A soberania não está relacionada a nenhuma forma particular de governo ou a qualquer organização política particular; pelo contrário, é inerente a qualquer forma de autoridade política.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Aleksandr Dugin - Multipolaridade: A Definição e a Diferenciação entre seus Significados

por Aleksandr Dugin



Mais e mais obras sobre relações exteriores, política mundial, geopolítica, e atualmente, política internacional, são dedicadas ao tema da multipolaridade. Um número crescente de autores tentam compreender e descrever a multipolaridade como um modelo, fenômeno, precedente ou possibilidade.

O típico da multipolaridade foi tocado, de uma maneira ou de outra, nas obras do especialista em relações internacionais David Kampf (no artigo, "A Emergência de um Mundo Multipolar"), do historiador Paul Kennedy da Universidade de Yale (em seu livro, "A Ascensão e Queda das Grandes Potências"), do geopolítico Dale Walton (no livro, "Geopolítica e as Grandes Potências no Século XXI: Multipolaridade e a Revolução em Perspectiva Estratégica"), do cientista político americano Dilip Hiro (no livro, "Após o Império: Nascimento de um Mundo Multipolar"), e outros. O mais próximo da compreensão do sentido da multipolaridade, em nossa opinião, foi o especialista britânico em RI Fabio Petito, que tentou construir uma alternativa séria e substanciada ao mundo unipolar com base nos conceitos legais e filosóficos de Carl Schmitt.

sábado, 6 de janeiro de 2018

René Guénon - O Simbolismo Solsticial de Jano

por René Guénon



Acabamos de ver que o simbolismo das duas portas solsticiais, no Ocidente, existia entre os gregos e mais em particular entre os pitagóricos; ele é encontrado igualmente entre os latinos, onde está essencialmente vinculado com o simbolismo de Jano. Como já fizemos alusão a este e a seus diversos aspectos em muitas ocasiões, não consideraremos aqui senão os pontos referidos mais diretamente ao que expusemos em nossos últimos estudos, ainda que, por outra parte, seja difícil isolá-los por completo do conjunto bastante complexo de que formam parte.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Álvaro Hauschild - O Holismo Político: O Conceito de Sistema da Quarta Teoria Política

por Álvaro Hauschild





Comunicação apresentada em 09/12/2017 por ocasião do I Fórum das Resistências, organizado pela Resistência Sulista e pela Nova Resistência - Brasil, em Porto Alegre.

Nossa comunicação tem por objetivo tornar mais clara a Quarta Teoria Política, buscando compreender como ela funciona em termos de prática política, isto é, compreender como o sistema político pensado pela QTP se organiza socialmente.

Para isto, começaremos por construir uma 1) breve introdução à QTP; 2) em seguida, nos aprofundando mais, trataremos um pouco sobre o conceito de Mitsein encontrado em Heidegger e, por fim, 3) entraremos no nosso objeto de estudo, que é o sistema holístico subjacente na QTP.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Alberto Buela - Perón e o Peronismo

por Alberto Buela



A pedido de meus amigos espanhois que são muitos e muito bons escrevo este artigo sobre Perón e o peronismo, mesmo sabendo que são milhares os livros e artigos sobre o tema.


Perón e o peronismo nascem para a vida política a partir de seu cargo como Diretor de Trabalho e Previdência no ano 1943. Logo se transformou em Secretário do Trabalho para ser eleito, finalmente, Presidente em fevereiro de 1946. Governou até setembro de 1955 e regressou à Argentina em 1973, falecendo em julho de 1974.


Sobre Perón e o peronismo na Europa já se disse de tudo, desde nazi-fascista até socialista e comunizante, mas o fenômeno deve ser entendido não com categorias políticas europeias, mas com categorias americanas. O sem sentido é tão grande que há poucos anos Pierre Milza falou em "fascismo de esquerda".

Sua formação foi a de um militar industrialista que tem como mentor o general Agustín Pedro Justo, engenheiro recebido na Universidade de Buenos Aires e Presidente de 1932 a 1938.

Seu projeto político o expressou em seu discurso se encerramento do 1º Congresso Nacional de Filosofia de 1949, sob o título de Comunidade Organizada.


A ideia apresenta duas leituras possíveis: a) Como sistema social a construir e b) Como sistema de poder.


a) Como sistema social sustenta que o povo solto, isolado, atomizado inexiste. Só existe o povo organizado e como tal se transforma em fator concorrente nos aparatos do Estado que são específicos a cada organização livre do povo ou corpos intermediários no jargão sociológico.


b) Como sistema de poder sustenta que o poder procede do povo que se expressa através de suas instituições intermediárias. Nem o poder procede do governo, nem do Estado. Nem o povo delega seu poder nas instituições do Estado.


domingo, 17 de dezembro de 2017

Aleksandr Dugin - Rumo à Quarta Teoria Econômica

por Aleksandr Dugin

Discurso de Aleksandr Dugin na conferência “Capitalismo e suas Alternativas no Século XXI: a Quarta Teoria Econômica”, realizada em Chisinau, Moldávia, de 15 a 16 de dezembro de 2017.



Preâmbulo:

Em linhas gerais, a Quarta Teoria Política (ou QTP) não confere primazia à economia, e isso não é acidental: o aspecto material da existência é tido como secundário na QTP, assim como é considerado como algo completamente dependente de determinadas perspectivas sociais e filosóficas mais gerais – metafísicas e religiosas, fundamentalmente. A economia não é autônoma, mas uma mera projeção de certas atitudes cognitivas e princípios filosóficos, com os quais devemos lidar.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Alain de Benoist - A Quarta Dimensão

por Alain de Benoist



A modernidade gerou com sucesso três grandes doutrinas políticas rivais; o liberalismo no século XVIII, o socialismo no século XIX e o fascismo no século XX. Sendo o último na linha, o fascismo também foi o que desapareceu mais rapidamente. Porém, a desintegração do sistema soviético não deu fim às aspirações socialistas e menos ainda às ideias de comunismo. O liberalismo, de sua parte, parece ser o grande vencedor nessa competição. Em todo caso os princípios do liberalismo, encabeçados pela ideologia dos direitos humanos, e prosperando agora dentro da Nova Classe por todo o planeta, são hoje os mais difundidos dentro do esquema do processo de globalização.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Aleksandr Dugin - A América Latina deve ser um Grande Poder Regional

Entrevista concedida ao jornalista argentino Marcelo Taborda, do jornal La Voz del Interior



Desde a vitória eleitoral de Donald Trump, a Rússia tem sido acusada de ter intervindo nela e em qualquer votação importante que ocorra no planeta: o que há de verdadeiro nisso e o que você pensa a respeito?

Para começar, creio que devemos compreender isto de maneira simbólica. Comparemos o lugar que a Rússia ocupava há 20 anos, quando nada se falava ao seu respeito e seu poder regional era muito limitado – quando seguia o contexto da civilização ocidental, imitando os Estados Unidos, como fez Boris Yeltsin: isso era o fracasso total. O fato de que, hoje, depois de tantos anos, a Rússia é representada como um poder global que pode exercer influência sobre o “Número Um”, seja isso falso ou verdadeiro, que afirmem que ela pode influenciar as eleições americanas, significa que a Rússia retornou. A Rússia está de volta e joga um papel no poder global. Aos olhos dos Estados Unidos e dos Estados que seguem sua a linha globalista e liberal, a Rússia representa o mal absoluto. No entanto, para a maioria da humanidade, representa uma nova potência que ressurge, que reaparece, e que abre a possibilidade de escolha… Eu olho bastante para o Oriente Médio e vejo como o retorno da Rússia à Síria é visto pelos árabes, incluindo os curdos e os sauditas, como algo próximo a um milagre: todos veem que a situação não é unipolar, mas multipolar. É possível fazer alianças ou se unir aos Estados Unidos e seus seguidores, mas também com a Rússia (como poder oposto).

Creio que a ingerência da Rússia nas eleições americanas é exagerada, mas o lugar simbólico está demarcado corretamente. Pessoalmente, propus aos nossos governantes que fossem mais ativos nestas eleições, mas eles escolheram a estratégia tradicional. Os oligarcas russos financiaram a campanha de Hillary Clinton porque a maioria dos analistas pensava que ela venceria. Vladimir Putin tinha simpatia por Donald Trump e eu mesmo o apoiava ativamente, mas isso não é ingerência.