domingo, 18 de agosto de 2019

Manifesto da Nouvelle Résistance

(1991)



“Fazei da causa do povo a causa da nação, e a causa da nação será a causa do povo”. – Lênin

Este texto é dedicado a:

Nanni de Angelis, assassinado pela polícia política italiana
Jacques Arthuys, morto em um campo de concentração alemão.
Nicola Bombacci, assassinado pelas milícias da “resistência” italiana.
Roger Coudroy, caído em combate na Palestina ocupada.
Rudolf Formis, assassinado pela Gestapo.
Manuel Hedilla, condenado a 30 anos de prisão pela Frente Popular Espanhola, condenado à morte pela reação franquista.
Francesco Mangiameli, assassinado pela polícia política italiana.
José Pérez de Cabo, assassinado pela reação franquista.
Haro Schultze-Boysen, condenado à morte e enforcado por ordem da reação hitlerista.
George Valois, morto em um campo de concentração.
Fritz Wolffheim, morto em um campo de concentração.
Francis Parker Yockey, assassinado pelo FBI.

E a todos aqueles que caíram pela causa do povo e da nação.

“Todas as forças revolucionárias dentro de um mesmo Estado estão ligadas invisivelmente, apesar de sua mútua oposição. A ordem é sua inimiga comum”. – Ernst Jünger

“Somos um pequeno grupo compacto, seguimos um caminho íngreme e difícil, segurando com força as mãos uns dos outros. Em todas as partes estamos cercados por inimigos, e temos que caminhar quase sempre sob fogo. Nos unimos em virtude de uma decisão tomada livremente, para combater o inimigo e não sucumbir ao lamaçal vizinho, cujos hóspedes, desde o começo, nos acusarem de ter formado um grupo separado e de termos preferido o caminho da luta ao caminho da reconciliação”. – Lênin

“É impossível justificar o nacionalismo no marco da sociedade capitalista. Hoje não pode haver nacionalismo, ou seja, consciência da continuidade viva da nação, que não seja simultaneamente revolucionário”. – Thierry Maulnier

“Não somos nem de direita, nem de esquerda, mas se precisamos ser situados em termos parlamentares, reiteramos que estamos a meio caminho entre a extrema-esquerda e a extrema-direita, por trás do presidente, de costas para a Assembleia”. – Arnaud Dandieu

“Ser de esquerda ou de direita é escolher uma das inúmeras maneiras que o homem tem de ser um imbecil; ambas são formas de hemiplegia moral”. – José Ortega y Gasset

Introdução

Um projeto nacional-revolucionário para a Europa comporta uma análise global da situação do mundo, que deve constituir a base de nossa estratégia e orientar nossas perspectivas.

Avaliação Internacional

Durante a última década a evolução do mundo se produziu de uma maneira realmente inesperada. O colapso do bloco comunista europeu e a desintegração da URSS, ocasionaram o quase desaparecimento dos países revolucionários do Terceiro Mundo. A Nova Ordem Mundial imposta pelo sistema, protagonizada pelo governo ianque, parece ter triunfado para um longo período e soube esmagar seus poucos adversários legitimando este esmagamento em nome da moral (Panamá, Iraque).

O desaparecimento do bloco comunista europeu não faz senão pressagiar, ao que parece, a generalização de uma economia liberal ou paraliberal (com todas as suas consequências: exploração, pobreza, desemprego, etc.) na totalidade da Eurásia.

O panorama é extremamente escuro, mas não devemos perder a esperança. Em primeiro lugar, a queda do comunismo nos demonstrou que nenhuma situação política, por fossilizada que pareça, é inevitável. Dois fenômenos de idêntica reação ligados à terra e ao sangue (os verdes e os nacionalistas) conservaram – ou reencontraram – no conjunto da Europa (ainda que também em outras partes do globo) o apoio de uma parte importante da população. Isso tem uma grande importância, ainda quando essas reações tem uma tendência a se dirigir a becos sem saída (nacionalismo reacionário ou chauvinista, integrismo religioso, etc.), pois um percentual nada desprezível da população se ocupa de valores próximos aos nossos, podendo assim obstaculizar a dominação do sistema.

Quem somos? Pelo que lutamos?

terça-feira, 6 de agosto de 2019

François Duprat - Manifesto Nacionalista Revolucionário

por François Duprat

(1978)



Nossa situação política impõe uma revisão drástica de nossos temas e de nossos métodos de ação, mas não basta, dessa vez, nos limitarmos a uma crítica, por mais fácil que seja, das experiências anteriores.

É impressionante constatar que nossas linhas de reflexão estão fundadas exclusivamente na história dos movimentos nacionalistas franceses, apesar de nossas profissões de fé anti-chauvinistas e “europeias”. Nós negligenciamos sistematicamente o aporte, passado mas também presente, de movimentos infinitamente mais importantes que os nossos, sob o pretexto de uma “especificidade nacional”.

É certo que cada país tem uma vocação particular e não podemos impor sobre um lugar os métodos de ação adaptados a outras estruturas. Mas não devemos exagerar essa dificuldade. É a incrível ignorância em relação à História e as atualidades dos chefes nacionalistas franceses que conduziu a esse estado de coisas. 

É, por isso, possível adentrar a escola de outras organizações nacionalistas, fazendo o esforço de adaptação assegurando a interpretação adequada da estratégia e da tática seguidas por estes movimentos.

O programa de ação nacionalista, que é apresentado aqui, é resultado direto dessa tomada de consciência: o nacionalismo revolucionário representa um valor universal que cada povo descobre com suas próprias modalidades, enquanto se apega a um fundo comum.

A nossa tarefa é a de definir esta “Via francesa para a Revolução Nacionalista”, a única possibilidade que existe para a nossa causa lutar pela vitória e não por novas derrotas!

sábado, 3 de agosto de 2019

Maurizio Lattanzio - O Mundialismo

por Maurizio Lattanzio

(1987)



“O mundo se divide em três categorias de pessoas: um minúsculo número que produz os eventos; um grupo um pouco mais numeroso que observa sua execução e segue seu cumprimento, e, finalmente, uma imensa maioria que nunca sabe o que se produz na realidade”. - Nicholas Murray Butler

O termo mundialismo se refere a uma concepção político-cultural de que se fazem portadores e difusores poderosos grupos tecnocrático-plutocráticos ocultos ou, no mínimo, discretos, não expostos às luzes dos refletores – ou seja, da mídia de massa sabiamente manobrada – que iluminam o grande palco político internacional. Estes operam através de instituições igualmente ocultas ou, se preferirmos, semipúblicas (Comissão Trilateral, Grupo Bilderberg, Conselho de Relações Exteriores, Sociedade dos Peregrinos, sistema bancário internacional, etc.), com o objetivo de alcançar a realização de um projeto que prevê a instauração de um único Governo Mundial, depositário do poder econômico, político, cultural e religioso. As articulações estruturais de um projeto do tipo – já em via de atuação, se pensarmos apenas na União Europeia – estão baseadas na integração dos grandes blocos (EUA – em posição preeminente – Europa Ocidental, Japão, Rússia e seus satélites, China Popular, Terceiro Mundo), que serão sujeitos ao domínio dos funcionários tecnocratas do aparato de poder plutocrático instalado nos conselhos administrativos da banca e das multinacionais. São as estruturas operacionais do comando oligárquico a partir das quais a Alta Finança internacional planeja e concretiza a servidão dos povos mediante os mecanismos diabólicos da Grande Usura. [1]

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Daniele Perra – Ernst Niekisch e o “Reino dos Demônios”

por Daniele Perra

(2018)



Para muitos, o nome de Ernst Niekisch não dirá nada. Não obstante, junto a Karl Otto Paetel ele é considerado o pai de uma corrente política particular, a do nacional-bolchevismo, a qual, a partir dos anos 90 do século passado, graças aos seus intérpretes pelo menos um pouco hiperbólicos como o filósofo Aleksandr Dugin e o controverso escritor Eduard Limonov, conheceu um razoável sucesso na Rússia da deplorável Era Iéltsin. A Niekisch, ademais, o pensador francês Alain de Benoist dedicou toda uma seção do seu livro “Quatro Figuras da Revolução Conservadora Alemã”.

O esquecimento a que o homem e seu pensamento foram relegados tanto em vida como post mortem possui uma razão bastante precisa. Niekisch e seu pensamento eram e são ainda perigosos. Este original pensador alemão, de fato, no curso da sua vida, conseguiu viver em primeira pessoa e se opôr vigorosamente a todas as três principais ideologias políticas do século XX: liberalismo, fascismo-nacional-socialismo e comunismo (ainda que, no último caso, a oposição surgiu de algumas divergências com o líder da República Democrática Alemã, Walter Ulbricht). E diferentemente do dissidente soviético bem mais famoso Aleksandr Solzhenitsyn (que dardejava contra a URSS e o Ocidente capitalista de sua casa norte-americana, lamentando que Hitler não tivesse matado o seu próprio povo), depois de ter passado alguns anos em um campo de prisioneiros nazista e reconhecendo o feitiço psicológico de que seu povo havia caído vítima, nunca chegou a desejar a destruição da sua pátria. 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Nicolas Bonnal - René Guénon e o Gênio Anônimo dos Coletes Amarelos

por Nicolas Bonnal

(2018)



Discutindo sobre os Coletes Amarelos com um leitor erudito e entendido do Islã, me recordei desse belo capítulo do livro “O Reino da Quantidade e o Sinal dos Tempos”, onde o mestre (Guénon, então) evoca o gênio do anonimato dos tempos medievais, por exemplo, quando da construção das catedrais ou no âmbito dos ofícios.

Mas se em nossa época nós gostamos de nos curvar diante dos nomes gloriosos de pessoas, das falsas dinastias, das dinastias endinheiradas (petróleo saudita ou carros nazistas), das Gaga, dos Johnny e dos Macron, para não falar nos jogadores de futebol e nos intelectuais tidos por luminares do pensamento humano (como também o monstruoso “pensador” israelense Harari), nós detestamos os desdentados, os anônimos, os plebeus e os coletes amarelos. E aqueles que contornaram o sistema com todo o gênio plástico do povo-receptáculo. Eles não têm representantes, além daqueles que o canal BFM nomeou depois de tê-los fantasiado com coletes, e eles não são nada. Isso deixa o sistema louco, porque tudo se apoia nos delírios mentais das celebridades. O problema, para o sistema, é que os Coletes Amarelos, sem querer, deram razão a Debord e Robespierre.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

José Alsina Calvés - A Quarta Teoria Política do Filósofo Russo Aleksandr Dugin

por José Alsina Calvés

(2018)



No livro de Dugin, “A Quarta Teoria Política”, o filósofo russo insiste no caráter coletivo de sua criação, no sentido de que ela não é um sistema fechado, mas aberto às contribuições posteriores. No presente artigo tentaremos descrever e explicar, assim como avaliar, o mencionado livro de Dugin, o qual tomaremos como base de nosso trabalho. Segundo nossa compreensão, a QTP que Dugin expõe se fundamenta em um arcabouço teórico que consta de cinco elementos fundamentais:

1) Uma teoria da modernidade e de suas ideologias;
2) A pós-modernidade como mutação do liberalismo a neoliberalismo;
3) Uma teoria do tempo;
4) Uma fundamentação filosófica na ontologia de Heidegger;
5) A geopolítica dos grandes espaços.

Teoria da Modernidade

A QTP aparece como uma oposição radical à modernidade e a todas as suas manifestações, incluindo a atual implosão pós-moderna. A QTP se dirige a todas aquelas pessoas que sentem uma insatisfação radical diante da sociedade atual, suas mensagens e seus "valores”. Uma dissecação prévia da modernidade é o passo preparatório para a síntese e construção da QTP.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Nicolas Gauthier – Entrevista com Alain de Benoist: Por que o Governo não entende a revolta dos Coletes Amarelos?

por Nicolas Gauthier

(2019)



N.G.: Você acha que já podemos fazer uma revisão da ação dos Coletes Amarelos?

A.B.: A melhor revisão que podemos fazer sobre ela é notar que ainda é muito cedo para fazer uma, porque o movimento está em curso e parece ter encontrado um segundo fôlego. Por quase três meses, apesar do gelo e do frio, apesar das tréguas do Natal, apesar dos mortos e feridos, apesar das baixas causadas pela brutalidade policial (mandíbulas quebradas, mãos destroçadas, pés esmagados, olhos perfurados, hemorragias cerebrais), apesar das críticas que tentaram sucessivamente apresentá-los como beaufs alcoólatras[1], nazistas (a "praga marrom") e criminosos, culpados, além disso, de arruinar o comércio, de dissuadir os turistas de virem para a França e até mesmo do “escândalo” de terem sabotado a abertura de liquidações, apesar de tudo isso, os Coletes Amarelos ainda estão aqui. Eles resistiram bem, não se dispersaram e a maioria dos franceses continua a aprovar sua ação. Esta é a confirmação de que esse movimento é diferente de qualquer outro.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Free West Media - Entrevista com Alain de Benoist: A Europa é uma Colônia dos Mercados Financeiros

Entrevista concedida à Free West Media

(2019)



Qual o impacto da ocupação sobre os ocupados? O liberalismo reconhece apenas uma forma de soberania: a do indivíduo. Assim, povos, nações e culturas são vistos apenas como agregados de indivíduos cujas relações essenciais são reduzidas a contratos legais e trocas no mercado. Os europeus se tornaram consumidores na esfera anglo-americana - eles não são mais cidadãos de seus respectivos países, acredita Benoist.

Sr. de Benoist, o embaixador dos EUA em Berlim, escreveu cartas de chantagem há algumas semanas para empresas alemãs envolvidas na construção do Nord Stream 2. Os americanos estão certos em se sentir em posição de força por sobre a Alemanha e a Europa?

Benoist: Os americanos se sentem fortes porque sabem que os europeus são fracos. As notícias provam todos os dias que a União Europeia não é uma potência europeia, mas apenas um mercado europeu. Neste mercado, no entanto, os americanos têm uma vantagem significativa. Um dos princípios mais importantes é a extraterritorialidade da lei americana. Isso permite que Washington se defenda de operações e influências financeiras ou comerciais. Por exemplo, vários bancos franceses foram multados em bilhões de euros por não levar em conta as sanções dos EUA contra este ou aquele país.

Pergunta curta: Seria a Alemanha, a Europa - ou melhor, a UE - um “território ocupado”?

Benoist: Sim, podemos falar em um "território ocupado", mas o termo "ocupação" é ambíguo. Nós não estamos em um tipo brutal de heteronomia, mas em um condicionamento progressivo pelo chamado “soft power”. Pode-se falar também de “colonização” - mas de uma colonização que começou com a colonização de atitudes e valores.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Eduardo Velasco - Heartland: o coração da Terra



FONTE


ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE
- INTRODUÇÃO
- AS BACIAS ENDORREICAS E A IMPORTÂNCIA DOS SISTEMAS FLUVIAIS
- O QUE É O HEARTLAND?
- BREVE HISTÓRIA DO HEARTLAND
· Pré-história
· Antiguidade
· Idade Média: Pax Mongolica
· Antigo Regime: cossacos e czares
· O socialismo telúrico
· A Guerra Fria
· Globalização

SEGUNDA PARTE
- A BANANA VERMELHA
- A TEORIA DO HEARTLAND
· O mundo de acordo com Mackinder
· Extensão do Heartland e a importância do Leste Europeu
· Alemanha segundo Mackinder — Realpolitik, Kultur, Weltanschauung, Escola de Munique e Geopolitik de Haushofer
- A TEORIA DO HEARTLAND ESTÁ OBSOLETA?
- O HEARTLAND ÁRABE — NEJD E O CHIFRE DO DIABO
- O HEARTLAND AFRICANO
- O CERRADO — O BRASIL POSSUI O HEARTLAND DA AMÉRICA DO SUL
- A GRANDE BACIA E OUTROS HEARTLANDS DA AMÉRICA DO NORTE
- CASTELA-A-VELHA É O HEARTLAND DA ESPANHA

TERCEIRA PARTE
- A TEORIA DO MANPOWER ― A GLOBALIZAÇÃO CONTRA A RAÇA BRANCA
· A luta pela mente humana ― o ser humano como campo de batalha
- A REBELIÃO DA TERRA — DESMEMBRAR OS TENTÁCULOS DO OCEANO MUNDIAL É FORTALECER O HEARTLAND
· O Grande Tempo contra o Grande Espaço
· Futuríveis para o Heartland ― Um novo mundo, ou o império da terra fechada
· A gênese do atlantismo
- O ESTADO COMERCIAL FECHADO ― AUTARQUIA VERSUS GLOBALIZAÇÃO
- A IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA E SOCIAL DAS FORÇAS ARMADAS E DAS FORÇAS E CORPOS DE SEGURANÇA DO ESTADO: O EXEMPLO COSSACO
- NOVOS VIKINGS E COSSACOS PARA A EURÁSIA: NECESSIDADE DE UMA BIOPOLÍTICA DEMOGRÁFICA-REPRODUTIVA E ÉTNICA PARA O HEARTLAND
· Espanha no contexto do Heartland ― de Ibéria à Sibéria


PRIMEIRA PARTE  

Os espaços dentro do Império Russo e da Mongólia são tão vastos, e suas potencialidades em termos de população, trigo, algodão, combustível e metais são tão incalculavelmente grandes, que é inevitável que um vasto mundo econômico, mais ou menos à parte, se desenvolva inacessível ao comércio oceânico. ― (Halford J. Mackinder).

INTRODUÇÃO

Se no Ocidente herdamos lendas sobre Atlântida — um rico Estado comercial marítimo que, por seus pecados, foi castigada pelos deuses a perecer sob o mar — no Oriente também abundam menções sobre terras perdidas. Nas grandes regiões budistas da Ásia Central existem inúmeros mitos sobre cidades subterrâneas e vales ocultos, como Shambhala, onde os antigos poderes tradicionais e espirituais do mundo estariam adormecidos, esperando para se manifestar na guerra final entre os espíritos do bem e os espíritos do mal. Os mongóis identificam Shambhala com vários vales do sul da Sibéria, enquanto no folclore altaico, o portão da cidade secreta está escondido no Monte Belukha, da cordilheira do Altai, onde segundo a lenda Genghis Khan foi enterrado. O Kalachakra, um escrito tântrico do budismo tibetano com fortes influências hindus, afirma que quando o mundo degenerar em um turbilhão de guerra e vicio, em Shambhala surgirá Kalki ("cavalo branco"), uma espécie de messias que formará um exército e lutará contra as forças demoníacas, matando em milhões aos "bárbaros" e "ladrões que usurparam o poder real". Reunindo todos os brâmanes do mundo, ele iria fundar uma nova raça para povoar a nova idade de ouro. Em seu passado xamânico, os povos turco-mongóis falavam de Ergenekon, um vale isolado supostamente situado no Altai, onde seus ancestrais foram aprisionados por quatro séculos até que um ferreiro conseguiu derreter a barreira que os aprisionava. O mito de Ergenekon seria então usado estrategicamente pelo nacionalismo turco em sua promoção do pan-turanismo.

Na China, a tradição contava que Lao Tsé ("velho mestre", o fundador do taoísmo) deixou o país montado em um búfalo branco para o Oeste, isto é, para a Ásia Central, talvez para às cordilheiras Kunlun, onde se encontravam as fontes do Rio Amarelo, um lugar considerado santo pelos monges e eremitas, onde o ar era puro e energizante, onde cresciam ervas curativas e onde viviam peixes longevos. O folclore taoísta explicava que, naquele tipo de Éden espiritual, na "montanha do centro do mundo", os homens "régios" encontravam a bebida da imortalidade nos tempos antigos, e onde o Rei Mu (um milênio antes de Cristo) encontrou o palácio de jade do Imperador Amarelo, fundador da civilização chinesa. Mitologicamente falando, a cordilheira conectava a Terra com o Céu e em algum lugar de seu seio havia um palácio de jade onde vivia Xi Wangmu, a "rainha mãe do Ocidente". Como uma versão oriental do mito grego do jardim das Hespérides, ali crescia uma enorme árvore que dava pêssegos de imortalidade a cada três mil anos.

A cordilheira de Kunlun.

No Ocidente, o interior da Eurásia também era visto através de um prisma de lendas. Em "Histórias", Heródoto fala de um lugar "ao noreste", além do Mar de Hircânia (o Cáspio), onde muito ouro é guardado por grifos. Buran (um forte vento do norte, equivalente ao Bóreas grego) soprava duma caverna montanhosa chamada Passo de Alataw, que separa o Uiguristão (também chamado Turquestão chinês ou Xinjiang) do resto da Ásia Central. Mais além deste domínio se encontrava o "país dos hiperbóreos", cujo território chegava ao mar (provavelmente o Oceano Ártico). Nos mitos bizantinos, Alexandre, o Grande, não encontrou outra solução para as hordas de "Gogue e Magogue" (bárbaros do interior continental, às vezes assimilados aos citas) senão contê-las com uma parede de ferro ou adamantio. Provavelmente trata-se das Portas de Alexandre ou Portas Cáspias, localizada no sul da Rússia, onde séculos posteriores um exército de eslavos e vikings aniquilaria o reino cázaro, fundando o primeiro Estado russo. O conteúdo metafórico da construção das Portas Cáspias funcionou — especialmente tendo em mente que, no folclore centro-asiático, uma "porta de ferro em um lago" ou um "buraco negro em uma montanha" são considerados a origem dos ventos. Após as malfadadas campanhas dos macedônios no norte da Índia, uma história helenística que chegou ao Ocidente fez circular o boato de que na mais profunda Ásia Central havia um vale acarpetado de diamantes e protegido por aves de rapina e serpentes de "aparência mortal". Nos tempos do comércio de seda, Roma sabia da existência dos "seres", um povo alto, longevo e saudável (possivelmente os tocários), localizado em Serica, a "terra da seda", que corresponderia ao Uiguristão. Esses mitos e rumores incorporaram de alguma forma a vontade da Europa de não perder sua conexão com o Oriente.

Nos tempos medievais, em Roma, Bizâncio e nos Estados cruzados se falava do reino de Preste João, um monarca que mantinha a ordem nas terras de Gogue e Magogue governando sobre um país cristão isolado entre domínios muçulmanos e "pagãos" (leia-se budista, hinduísta e/ou religiões ancestrais xamânicas e animistas). As tradições gnósticas consideravam que os homens sábios procediam deste país, onde se encontraria, ligadamente com outras relíquias sagradas da cristandade, o Santo Graal, obtido por Parsifal no Monte Salvat e levado ao Grande Oriente em navios com velas brancas e cruzes vermelhas... "João" era provavelmente uma corruptela de "jan" ou khan: o título dos reis tártaros. O personagem em questão provavelmente era um khan-bispo nestoriano de origem mongol com vontade de fortalecer os laços com o Ocidente, mas a situação logo se envolveu em símbolos e arquétipos no imaginário coletivo europeu. Marco Polo, que não poderia faltar nesse artigo, situou Gogue e Magogue ao norte de Catai (China), ou seja, Mongólia ou Sibéria. Na China, as autoridades imperiais fizeram algo parecido com Alexandre, dando o Heartland como impossível e se conformando em levantar a Grande Muralha para proteger o reino das invasões bárbaras do Norte.

Em meados do século XIX, os colonos russos na Sibéria, homens de excelente qualidade humana em todos os sentidos, tinham a ideia de Belovodye (ou Reino de Opona), um lugar mítico de "água branca" situado na Sibéria Oriental, desempenhando o papel de Terra Prometida em seu imaginário religioso e que provavelmente influenciou de forma importante o fluxo de populações etnicamente europeias para o Oriente, estabelecendo colônias cada vez mais próximas do Mar do Japão e das fronteiras com a China e a Mongólia. Enquanto a Rússia estava conquistando a Ásia Central, Nikolai Fedorovich Fedorov, fundador da corrente filosófica russa do cosmismo, situou Shambala no Pamir, atual Tajiquistão. A Ásia Central se tornou popular no Ocidente graças ao Michael Strogoff de Júlio Verne, a Ferdinand Ossendowski, ao nascimento da geopolítica e ao surgimento de correntes ocultistas que idealizavam a Ásia Central como um santuário de tradição e sabedoria. Na década de 1920, o pintor, historiador e esoterista russo Nikolai Roerich também descreveu uma expedição extraordinária em toda a Ásia Central, incluindo suas visitas a mais de cinquenta mosteiros e seus encontros com lamas budistas.

Mongólia.

Dessarte, as áreas mais recônditas da Ásia Central foram vistas como uma fonte de mistério e fantasia pelas sociedades que estavam em sua influência. Todos os mitos que observamos coincidem em apresentar o coração da Eurásia como um lugar interessantíssimo e digno de ser visitado pelos valentes e nobres. Neste artigo se abordará sobre este vasto espaço habitado por incógnitas e infinitas possibilidades ainda indescobertas, um novo mundo em potencial, uma enorme fortaleza fechada, inacessível, inexpugnável e zelosamente tradicional, repleta de inúmeros vales, montanhas, planícies, florestas, estepes e desertos, que não pôde ser conquistada nem mesmo por Alexandre, Roma, Bizâncio, os imperadores chineses, a Comunidade Polaco-Lituana, os jesuítas portugueses, Napoleão, o Império Britânico, Hitler, Japão, os oligarcas mafiosos do espaço ex-soviético, as multinacionais e os bancos da globalização capitalista-neoliberal ― a longo prazo nem mesmo por khans asiáticos ou o bolchevismo soviético ― mas apenas por dois povos extraordinários: os vikings e os cossacos, que, como Alexandre, levaram a cultura grega (caracteres cirílicos, herança bizantina) ao coração da Ásia.

Desde o alvorecer da história, quem possui o Heartland se move como um peixe na água, uma vez que é um oceano de terra, mas quem não o possui irá bater contra suas paredes.


terça-feira, 4 de junho de 2019

Alain de Benoist - Soldado, Trabalhador, Rebelde, Anarca: Uma Introdução a Ernst Jünger

por Alain de Benoist

(1997)



Nos escritos de Ernst Jünger, quatro grandes figuras aparecem sucessivamente, cada uma correspondendo a um período bastante distinto da vida do autor. Eles são, cronologicamente, o Soldado do Front, o Trabalhador, o Rebelde e o Anarca. Através dessas figuras, pode-se adivinhar o interesse apaixonado que Jünger sempre manteve em relação ao mundo das formas. Formas, para ele, não podem resultar de ocorrências fortuitas no mundo sensível. Em vez disso, as formas guiam, em vários níveis, os modos pelos quais os seres sensíveis se expressam: a “história” do mundo é, acima de tudo, morfogênese. Ademais, como entomólogo, Jünger estava naturalmente inclinado a classificações. Para além do indivíduo, ele identifica a espécie ou o tipo. Pode-se ver aqui um tipo sutil de desafio ao individualismo: "O único e o típico excluem um ao outro", escreve ele. Assim, como Jünger vê, o universo é um em que as Figuras dão às épocas seu significado metafísico. Nesta breve exposição, gostaria de comparar e contrastar as grandes Figuras identificadas por Jünger.