terça-feira, 14 de setembro de 2021

Diego Echevenguá Quadro - Introdução à Ideia de Uma Revolução Conservadora

 por Diego Echevenguá Quadro

(2021)

“A revolução nada mais é do que um apelo do tempo para a eternidade”. G.K. Chesterton

     É tido como natural no campo da filosofia política contemporânea que existe uma afinidade imediata entre liberais e conservadores. Os primeiros seriam definidos pelo seu apreço pelas liberdades individuais (econômica, política, de ideias, religiosas e etc.) e sua rejeição ferrenha da intervenção do estado nos assuntos privados dos cidadãos; os segundos seriam reconhecidos pelo seu apego à tradição, aos costumes consolidados, à moral estabelecida pelo senso comum e pela religião, e por seu ceticismo em relação a projetos políticos globais. Dessa forma, liberais e conservadores formariam uma aliança sempre que o indivíduo fosse ameaçado de ser tragado por tentativas políticas de transformação radical das condições sociais estabelecidas. Conservadores e liberais se dariam as mãos frente ao medo de qualquer sublevação radical deitar por terra a tradição ou a figura estável do indivíduo liberal. Por essa perspectiva nos parece impensável que essa aliança seja factível e vitoriosa; visto que o medo só pode servir como vínculo sólido a crianças assustadas em uma floresta à noite, mas jamais a homens e irmãos de armas que se reúnem em uma taverna para beber e a gargalhadas contar seus feitos e proezas realizadas num campo de batalha.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Nicolas Bonnal - Marx e Tocqueville Perante a Mordor Anglo-Saxã

por Nicolas Bonnal

(2017)



É verão e com ele vem as sazonalidades: a lista de bilionários da repugnante revista Forbes, retomada pelos papagaios cacarejantes. Ao mesmo tempo, aprendemos que 30% dos alemães estão fazendo fila para conseguir um segundo emprego. Há trinta anos, Louis Althusser disse em uma revista marxista que o entrevistava, que a miséria da exploração havia sido deslocada: vejam essas imagens industriais da China, Bangladesh e México para distração. Além disso, "aqueles bons tempos não existem mais, como diz Racine, e hoje encontramos boas e velhas fábricas de miséria na Europa. Sem partido comunista, sem exigências salariais, etc. O capital venceu.

sábado, 4 de setembro de 2021

Aleksandr Dugin - Nós Vamos Curá-lo com Veneno (Ensaio sobre a Serpente)

 por Aleksandr Dugin

(2001)


1. A Evolução dos Animais Capitalistas

Tradicionalmente, há uma atitude negativa em relação à serpente. É um termo de insulto. Em memória da tentação de Eva no Paraíso, os répteis foram privados de pernas e rastejam sobre suas barrigas em solo úmido e rude. A serpente incorporou Satanás. O espírito negro galopa pelo cemitério em seu cavalo sem pernas e escamoso durante a noite, assustando os vampiros e os coelhos que dormem nos arbustos. Por ser venenosa, fria e flexível, a serpente atrai pouca simpatia. Marx nomeou a toupeira como um símbolo do capitalismo. Como uma toupeira cega, o capitalismo escava buracos sombrios nos corações dos povos, percorrendo os labirintos vampíricos com valor crescente para o benefício da minoria mais mesquinha e para os incontáveis sofrimentos da maioria mais silenciosa. Gilles Deleuze observou corretamente que o capitalismo moderno está mudando seu símbolo. A toupeira clássica esgotou suas oportunidades. Seus buracos sujos tomaram o chão infeliz de modo que a realidade se tornou uma peneira universal, da qual os habitantes daquele lado da grande parede fazem caretas. A Era do Toupeira terminou. O capitalismo, como afirma Gilles Deleuze, está entrando em uma nova fase; a fase da serpente. 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Alain de Benoist - Sobre Homens e Animais

 por Alain de Benoist

(2021)


O pensamento antigo - com Tales, Anaximandro, Heráclito, Xenófanes e muitos outros - era fundamentalmente monista. A partir da constatação de opostos, não se derivava o dualismo, mas a conciliação dos contrários. Na Antiguidade, a divindade não era confundida com os homens, os homens com os animais, os animais com o mundo vegetal, os vegetais com matéria inanimada, mas a cada um era atribuído um nível diferente dentro de um processo contínuo de percepção. Para os antigos, tudo era vivo, tanto humanos quanto animais, a partir de um princípio de vida e movimento, que os gregos chamavam de psyche, um termo geralmente traduzido como "alma" (note-se que o termo latino anima está na origem da palavra "animal").

Para Aristóteles, o homem é meramente um animal dotado de logos, o único animal "racional". Note, entretanto, que Aristóteles não diz que o homem é o único ser dotado de razão, mas que ele é o único "animal dotado de razão", fórmula que mostra claramente o que une o homem e o animal e, ao mesmo tempo, o que os diferencia. Para Aristóteles, a alma do homem difere da dos animais no sentido de que o homem pode acessar o pensamento conceitual e extrapolar noções gerais a partir de suas percepções singulares, mas esta diferença, embora decisiva, é ao mesmo tempo relativa: não se trata de uma ruptura clara entre o mundo animal e o mundo humano, mas de uma escada ininterrupta do mundo inanimado até Deus. Em outras palavras, Aristóteles reconhece a unidade do mundo, do mundo inteiro, e introduz uma hierarquia nele.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Giacomo Maria Prati - O Sujeito Radical de Aleksandr Dugin

 por Giacomo Maria Prati

(2021)


A escuridão russa é única,
é a única que pode ser consagrada.
A escuridão russa, materna e profética.

(Aleksandr Dugin, Il Soggeto Radicale, AGA Edizioni)


Mito grego e pós-nietzscheanismo, imagens órficas e literatura russa, visões apocalípticas, Hegel, hiperbóreos, Aristóteles, Ortodoxia, Niccolò Cusano, Massimo Cacciari, Evola, xamanismo pré-socrático, alquimia, Heidegger e muito mais numa visão de humanidade única e orgânica e, ao mesmo tempo, projetada para um futuro próximo. Como isso é possível? Como podemos manter juntos espaços tão vastos de pensamento, mito e meditação? Como podemos voltar a uma filosofia do Homem e do Cosmos após a "morte da filosofia" pós-Heidegger e a sua desarticulação em mil riachos paracientíficos e setorizados: filosofia da ciência, filosofia da linguagem, filosofia sociológica e assim por diante? Com Aleksander Dugin estamos testemunhando este prodígio histórico sem precedentes: o retorno da grande filosofia, ou seja, da filosofia em seu coração mais universal, cósmico e perene: filosofia como pensamento sobre a totalidade, sobre a origem e como meditação supratemporal.

Talvez só na Rússia e por um russo tenha sido possível uma novidade tão surpreendente, que contradiz tanto o "fim da história" na sujeição ao modelo socioeconômico predominante quanto a pseudo-fatalidade de um pensamento meramente dialético, conflituoso e fragmentário, adequado a uma complementar e permanente clash of civilizations. Tentemos uma síntese não fácil de seu pensamento filosófico contido em seu último e mais importante livro recentemente publicado na Itália, a fim de entender um pouco o que ele quer dizer com "sujeito radical".

sábado, 28 de agosto de 2021

Aleksandr Dugin - A Doutrina Tradicional dos Elementos (Lição I): A Restauração dos Fundamentos Filosóficos da Ciência

por Aleksandr Dugin

(2021)

Transcrição da comunicação do Iº Encontro do Clube dos 5 Elementos



A ideia geral do Clube dos Elementos era de retornar a um momento em que os erros mais graves foram cometidos no desenvolvimento da ciência moderna ocidental. A aplicação dos princípios do tradicionalismo, identificados e desenvolvidos por Guénon e Evola. Mas ir além. Continuar seu trabalho, não concentrando apenas na crítica evidente da modernidade, mas tentar retornar à situação intelectual, filosófica e científica que correspondia a uma normalidade intelectual e cultural. Não apenas criticar o que há hoje, mas tentar fazer algo de mais concreto. 

Quando se fala na ciência sagrada, que existia antes da ciência moderna há a impressão geral de que se trata de fantasia, de ocultismo, de misticismo, mas é importante individuar onde estava a verdade filosófica e científica que existia antes do cometimento desses erros. Em que consistiam esses erros? Como explicar em linguagem atual quais eram esses erros, graves e centrais, que perverteram o desenvolvimento do mundo moderno? 

Quando surgiu a ideia do Clube dos Elementos, a vontade era voltar o estudo para uma cosmologia, não tanto sobre a metafísica ou a antropologia ou a política, mas se concentrar na física sagrada, que precedeu a física profana. A física verdadeira, não a metafísica, mas a física fundamental e sagrada que precedeu o aparecimento da física incorreta, falsa, pseudologia. Física aletológica x física pseudológica. Pseudo = Falso. Falsidade em relação à própria ontologia. Por isso é possível pensar e compreender algo que é falso, mas que existe. Diálogo do Sofista de Platão, onde se falava na ontologia das coisas que não existem na verdade, mas que existem. Essa existência do inexistente é a falsidade propriamente dita. Ou, falando cientificamente, é pseudologia. 

A ciência moderna é uma ciência pseudológica. Corresponde a algo da realidade, mas a um aspecto falso da realidade. Existe também a ciência aletológica, onde a relação com a verdade está conservada. Essa definição é importante porque permite compreender esse limite (limes) entre a verdade tradicional, sagrada e a falsidade moderna, profana. A visão desenvolvida por Evola e Guénon, mas não vamos aqui repetir o que os camaradas já conhecem. Por isso devemos ir além, estudando temas que não receberam atenção, por isso necessário aplicar os princípios da ciência tradicional à cosmologia. 

sábado, 21 de agosto de 2021

Andrea Casella - Sauron: O Demiurgo da Terra-Média

 por Andrea Casella

(2019)




"Era uma vez Sauron, o Maia, a quem os sindarin de Beleriand chamavam de Gorthaur. No início de Arda, Melkor o seduziu obtendo sua lealdade, e ele se tornou o maior e mais confiável servo do Inimigo, bem como o mais perigoso, pois ele era capaz de assumir muitas formas e, por muito tempo, ainda foi capaz, quando desejava, de parecer nobre e belo para enganar a todos, exceto os mais sábios." - Silmarillion


As seguintes considerações sobre a obra de J.R.R. Tolkien não pretendem se refletir explicitamente nela. É possível (e até provável) que sejam meras coincidências, que dão origem a sugestões, por mais fortes que sejam, mas inócuas. Afinal de contas, não seria possível que os caminhos seguidos pela mente humana enquanto se mergulha no abismo dos arquétipos sejam sempre os mesmos? Não seria possível que as mesmas sementes do inconsciente sejam capazes de dar frutos em uma obra de entretenimento literário tanto quanto em uma obra religiosa?

É impossível, quando se fala do trabalho de Tolkien, não ser tentado a atribuir-lhe um significado religioso. O catolicismo declarado do próprio autor é uma forte hipótese neste sentido e, afinal, a criação de um mundo completamente "diferente" do nosso, em pleno respeito aos cânones do gênero fantasia, impõe, como regra, uma exposição sobre "quem" e "como" criou esse mundo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Julius Evola - Memória do Dadaísmo

 por Julius Evola

(1958)


Quem faz uma comparação entre o primeiro e o segundo período pós-guerra não pode deixar de notar a recorrência dos mesmos temas e orientações, mas a um nível consideravelmente mais baixo. Nos fenômenos típicos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial no sentido de crise, de impulsos confusos de rebelião e evasão, a tensão espiritual e o radicalismo são muito menores. As correspondências são apresentadas em termos muito mais cinzentos e fragmentados. Além disso, em vez de uma expressão genuína, existem muitas vezes formas complacentes e exibicionistas, mesmo que, no domínio artístico, não se tenha chegado à profissão.. Um caso típico em questão é o da arte abstrata atual.

Entre as correntes que, no primeiro pós-guerra, anteciparam atitudes semelhantes ao existencialismo atual e tendências inconformista e antirracionalista similares, mas levaram a experiência adiante, uma das mais interessantes foi, sem dúvida, o dadaísmo. O dadaísmo raramente é mencionado. Ele, de certa forma, acabou engolindo a si mesmo, pois não era possível ficar muito tempo, sinceramente, nas posições de negações radicais, de uma liberdade afirmada através da dissolução agressiva de todo limite e toda ordem, de todo valor convencional e de toda racionalidade, não só na arte mas, segundo a instância original, na própria existência individual.

sábado, 7 de agosto de 2021

Kerry Bolton - O Partido Nacionalista Alemão de Stálin

por Kerry Bolton

(2014)


Em uma reunião entre Josef Stálin e líderes do Partido da Unidade Socialista (Sozialistische Einheitspartei Deutschlands: SED) na zona soviética da Alemanha ocupada, realizada em 31 de janeiro de 1947, Stálin perguntou que porcentagem de alemães (em todas as zonas de ocupação) eram "elementos fascistas", e "que influência eles mantinham nas zonas ocidentais"? Otto Grotewohl respondeu que era uma pergunta difícil de responder, mas que ele podia dar a Stálin listas de ex-membros do Partido Nacional-Socialista "em posições de liderança nas zonas ocidentais". Stálin não havia feito a pergunta com o objetivo de expurgar a Alemanha de "fascistas", mas com a possibilidade de recompor antigos membros do partido nacional-socialista em outro partido, que promoveria o nacionalismo e o socialismo dentro do contexto de uma Alemanha soviética. Ele também estava interessado nos possíveis padrões de votação dos "elementos fascistas", caso houvesse um plebiscito sobre a unificação alemã. A opinião de Grotewohl era de que eles eram "todos reacionários". O ponto de vista de Stálin era diferente. Seria possível organizar os "fascistas" na zona soviética sob um nome diferente? Ele apontou aos líderes da SED que sua política de "exterminar os fascistas" não era diferente da dos EUA, afirmando: "Talvez eu devesse acrescentar este curso [de organizar um partido nacionalista] para não empurrar todos os antigos nazistas para o campo inimigo?"[1].

Enquanto as zonas ocidentais procuravam proibir qualquer remanifestação política do nacional-socialismo, Stálin estava explorando as possibilidades de integrar tais elementos em uma nova Alemanha soviética. A reticência que ele recebeu dos líderes da Unidade Socialista estava baseada em uma reação tipicamente marxista. Entretanto, usa-se o marxismo para derrubar uma nação e um Estado, não para construir um. Stálin, como corretamente lamentou Trotsky, havia "traído" a revolução bolchevique[2] ao reverter possivelmente todos os programas marxistas que haviam sido erguidos por Lênin, Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Sverdlov, et al., que haviam sido em sua maioria expurgados ou liquidados por Stálin[3].

domingo, 1 de agosto de 2021

Juliette Faure - O Cosmismo: Uma Mitologia Nacional Russa Contra o Transumanismo

por Juliette Faure

(2021)


O cosmismo, um complexo movimento intelectual à beira da teologia e do futurismo científico que nasceu há quase 150 anos, está mais uma vez ganhando impulso na Rússia. Algumas das elites do país o veem como uma resposta tipicamente russa ao suposto transumanismo triunfante no Ocidente. Então o que é o cosmismo, e como ele está se espalhando na Rússia hoje?


Uma Breve História do Cosmismo, desde o Império, passando pela URSS, até a Federação Russa


No final do século XIX, o pensador russo Nikolai Fyodorov (1829-1903) defendeu uma concepção profundamente moral e cristã da ciência. Ele imaginou que a humanidade poderia usar o progresso tecnológico para alcançar a salvação universal. Os avanços científicos deveriam ser usados para ressuscitar os ancestrais, alcançar a imortalidade, transformar a natureza humana em direção à divinização e conquistar e regular o cosmos.

Em seu rastro, renomados cientistas russos - como o precursor da cosmonáutica Constantin Tsiolkovski (1857-1935) ou o fundador da geoquímica Vladimir Vernadski (1863-1945) - perseguiram sua visão futurista e espiritual do progresso técnico.

Nos anos 70, um grupo de intelectuais soviéticos ficou fascinado com as teses esotéricas desses autores e as reuniu sob o nome de "cosmismo russo". Embora heterodoxo em relação à ideologia comunista oficial, o cosmismo despertou o interesse de acadêmicos, bem como de membros de alto escalão do establishment político e militar. Por exemplo, o tenente-general Aleksei Savin, diretor da unidade secreta 10003, que foi responsável pela pesquisa sobre o uso militar de fenômenos paranormais de 1989 a 2003. Com base em sua leitura de Vernadski, ele desenvolveu os princípios de uma ciência do mundo extraterrestre, a noocosmologia. Da mesma forma, em 1994, Vladimir Rubanov, secretário adjunto do Conselho de Segurança russo e ex-diretor do departamento analítico do KGB, propôs usar o cosmismo como base para "a identidade nacional da Rússia".