18/06/2026

Aleksandr Dugin - À Espanha Negra

 por Aleksandr Dugin

(2018)



Prefácio à edição espanhola de A Quarta Teoria Política


“Ser” local vs “não ser” universal


A Quarta Teoria Política não tem um destinatário sociocultural definido. Ela se dirige a cada pessoa desgostosa com o estado das coisas neste mundo, a cada pessoa suficientemente profunda para tentar buscar as causas e razões deste estado. Duvidamos que os temas tratados no livro despertem o interesse das pessoas que estão contentes com tudo, que estão satisfeitas com as alternativas atuais em política, cultura, sociedade, ou que estão preocupadas apenas com sua adaptação individual ao status quo ou correção de certos tecnicismos. Mas para os profundamente descontentes este livro pode ser útil. Nesta ocasião não há grande diferença entre um europeu e um latino-americano, entre um muçulmano e um russo, entre um asiático e um africano: em todos os continentes e em todas as sociedades há aqueles que tomam consciência e sabem que hoje tudo se joga em uma carta e que todos nós devemos responder à pergunta principal – ser ou não ser. Claro que cada sociedade e cada cultura dá ao conceito “ser” (igualmente ao “não ser”) seu próprio sentido. No entanto, a Modernidade (contemporaneidade) tem um traço característico: ela está apresentando seu paradigma universal. Por isso sua estrutura é global. Esta estrutura da contemporaneidade global está nos atacando em todas as sociedades. É um desafio para todos. Antes de propor alternativas (que podem ser locais ou universais), é preciso discernir sua essência. Podemos dizê-lo de outra forma: o sujeito do conceito “ser” muda segundo o contexto cultural, enquanto que “não ser” pode ser total. O modelo global da ordem mundial nos propõe “não ser”. Aceitando-o nós estamos entrando na zona de padronização. Rejeitando-o (mas isso seria possível apenas depois que tomássemos consciência de tudo o que decidimos rejeitar) estamos reconquistando o direito de ser em toda a extensão da palavra, o direito de ser nós mesmos (salvar nossa identidade) e fazer-nos a nós mesmos (ou seja, ganhar, criar essa identidade).

14/06/2026

Richard Spence - Estrela Vermelha sobre Shambala: A Inteligência Soviética, Britânica e Estadunidense e a Busca pela Civilização Perdida da Ásia Central

 por Richard Spence

(2008)


Em seu caminho através dos desertos da Mongólia em 1921, o escritor e refugiado polaco Ferdinand Ossendowski testemunhou um comportamento estranho por parte de seus guias mongóis. Parando seus camelos no meio do nada, eles começaram a rezar com grande seriedade enquanto um estranho silêncio caía sobre os animais e tudo ao redor. Os mongóis mais tarde explicaram que este ritual tinha lugar sempre que “o Rei do Mundo em seu palácio subterrâneo reza e averigua o destino de toda a gente sobre a Terra” [1].

De diversos lamas Ossendowski aprendeu que este Rei do Mundo era governante de um reino misterioso mas supostamente muito real: Agharti. Em Agharti, disseram-lhe, “os doutos panditas (mestres de artes e ciências budistas) escrevem em tabuletas de pedra toda a ciência do nosso planeta e dos outros mundos” [2]. Qualquer um que tivesse acesso ao reino subterrâneo teria acesso a um conhecimento incrível, e poder.

11/06/2026

Bertrand Garandeau - A Geografia Sagrada de Dugin: A Rússia no Coração da Tradição

 por Bertrand Garandeau

(2016)


Normalmente no centro de atenção devido à sua suposta influência no Kremlin, Alexander Dugin retomou e desenvolveu o conceito geopolítico da Eurásia. Através desta noção, ele preconiza o recurso à geografia sagrada e à tradição na geopolítica contemporânea.

Para Dugin, a geopolítica não é uma ciência como qualquer outra. Se a alquimia e a magia desapareceram em favor das suas formas seculares modernas, que são a química e a física, a geografia sagrada dos antigos mantém-se viva através da geopolítica. Recordando a teoria do Heartland do geopolítico britânico Mackinder, Dugin faz da Eurásia a peça-chave da geografia sagrada. Com a Rússia no seu centro, a Eurásia encarnaria o último bastião da tradição no hemisfério norte, o único capaz de lutar eficazmente contra a modernidade.

06/06/2026

Ivan Ilyin - O Espírito Cavalheiresco

 por Ivan Ilyin

(1933)


"Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova em mim um espírito reto". Salmo 51:10


Através de todas as grandes discórdias dos nossos dias, no meio da catástrofe, da tragédia e da perda, nos conflitos e tentações, devemos lembrar de uma coisa e viver por ela: a manutenção e a propagação de um espírito de serviço cavalheiresco. Primeiro e acima de tudo dentro de nós mesmos, e depois, dentro dos nossos filhos, dos nossos amigos e dos afins. Devemos proteger este espírito como algo sagrado; devemos fortificá-lo naqueles em quem confiamos, nos que confiam em nós, e naqueles que buscam a nossa direção. Isto é o que devemos defender nos nossos líderes e pastores, insistindo e até exigindo. Este espírito é como o ar e o oxigénio da salvação nacional da Rússia, e onde ele acaba, implanta-se imediatamente uma atmosfera de podridão e decadência, aberta ou oculta no Bolchevismo.

03/06/2026

Werner Brauninger - Ernst Jünger frente ao Nacional-Socialismo

por Werner Brauninger

(1994)



“Anelamos do fundo do nosso coração a vitória do nacional-socialismo, conhecemos o melhor das suas forças, o entusiasmo que o leva; conhecemos o sublime dos sacrifícios que lhe são consentidos fora de toda a dúvida. Mas sabemos também que não poderá abrir-se um caminho combatendo… mais do que se renunciar a todo aporte residual saído de um passado terminado”[1]. Estas frases foram escritas por Ernst Jünger durante o verão de 1930. Por que, pergunta-se hoje, Jünger não encontrou o caminho aderindo ao movimento desse homem, aparentemente capaz de transportar e de impor as ideias de Jünger e do “novo nacionalismo” na realidade do poder e da política? Minha intenção, no que segue, não é uma análise meticulosa, profunda, sistemática da história das ideias. Aponta apenas a mostrar como uma personalidade individual e carismática do temperamento de Ernst Jünger, que celebrou seus 100 anos em março passado, pôde manter sua originalidade na era da Kampfzeit da NSDAP.

30/05/2026

Aleksandr Dugin - Sobre Stálin

 por Aleksandr Dugin

(2025)


A sua enorme popularidade na Rússia contemporânea é um fenômeno complexo. A avaliação positiva de Stálin pela maioria do povo está associada a uma série de fatores:


  1. Os sucessos óbvios da URSS sob sua liderança – o salto econômico, a igualdade material, a Vitória na guerra, as aquisições territoriais, a crueldade em relação às elites governantes (que o povo tradicionalmente odeia).
  2. A comparação com outros líderes da URSS – o caos e a violência da Revolução e da Guerra Civil, onde a romântica heroica desvaneceu-se consideravelmente, tornando Lênin menos unívoco, a insensatez e a estupidez de Khrushchov, a estagnação e a gradual degradação senil de Brezhnev. Em contraste com eles, Stálin sai-se magnificamente. Um verdadeiro Imperador.
  3. O fato de que os que mais atacavam Stálin eram liberais da perestroika e dos anos 90, completamente repulsivos para o povo, insignificantes, russófobos e venais. Em comparação com esses insetos vis, que apenas destruíram tudo, traíram, venderam e ridicularizaram, Stálin parecia divino. A elevação de Stálin foi facilitada pela baixeza de seus críticos (vide a extinta e proibida na Rússia, por extremista e terrorista, "Eco de Moscou").

24/05/2026

Julius Evola - O que quer o "falangismo" espanhol?

 por Julius Evola

(1937)


Embora as fases da guerra civil espanhola sejam seguidas por todos com vivo interesse, as ideias que precisamente animam a insurreição das forças nacionais espanholas contra o comunismo não são tão conhecidas: devido a que muitos pensam que a fase ideológica positiva nas revoluções é sempre levada a cabo no período sucessivo.

Nós não somos partidários desta opinião. Acreditamos que o melhor soldado é aquele que combate com um conhecimento preciso de sua causa e que as ideias, já sejam presentes ou confusamente intuídas, mais do que formuladas com clareza, são a realidade primeira em todo processo histórico realmente importante. Agradecemos pois a Alberto Luchini por nos ter introduzido no programa doutrinário de uma das principais correntes nacionalistas espanholas. O da chamada “Falange Española”, vivificando e exaltando suas propostas com os recursos de um estilo de tradução neorromântico, vigoroso, preciso e com felizes improvisações (I Falangisti Spagnoli, Florença, 1936).

O programa é uma profissão geral de Fé política, cuja formulação parece dever-se a José Antonio Primo de Rivera ou ao escritor Giménez Caballero. Por sua riqueza de conteúdo espiritual, a qual nos surpreendeu tanto que cremos muito oportuno assinalá-lo ao público italiano dando, em definitiva, seu significado.

14/05/2026

José Luis Ontiveros - A Cultura e o Guerrilheiro

 por José Luis Ontiveros

(2011)


A cultura é um campo de batalha e sua conquista é uma necessidade que precede a tomada do poder. Tal afirmação baseia-se na revisão feita por Antonio Gramsci do materialismo dialético, quando ele passou, sem que seus críticos tenham percebido, de sua fase marxista-leninista para o atualismo do filósofo fascista Giovanni Gentile, autor da vertente hegeliana de direita do Estado Totalitário, alma da alma como o define.

Esta secreta conversão ideológica ocorre paradoxalmente quando Gramsci está recluso na Ilha de Útica e escreve seus "Cadernos do Cárcere", onde transpõe para o marxismo clássico os valores do fascismo revolucionário que haviam alcançado na Itália um desenvolvimento político próprio, como Lênin havia predito, ao afirmar que Mussolini era o único revolucionário capaz de tomar o poder na Itália.

10/05/2026

Geydar Dzhemal - O Islã Ário

 por Geydar Dzhemal

(1994)


Bismillah al-Rahman al-Rahim...

Quando pronunciamos esta saudação dirigida ao profeta Maomé (que a paz e as bênçãos de Alá estejam sobre ele) e a seus companheiros, nós, seguidores da corrente pura do Islã, chamada «mazhabu muhammadi», saudamos os companheiros de Maomé (que a paz esteja com ele) com as palavras: «hurru ayayinu muntajabin», o que significa defini-los como eleitos, nobres, honoráveis e fiéis.

Devo dizer imediatamente que esta definição dos sahabas do Profeta se refere apenas a uma parte determinada dos companheiros do Profeta. Na grande maioria das correntes do Islã, aceita-se a forma «as-sahaba ajma'in», ou seja, a glorificação refere-se a todos os sahabas sem distinção. Esta diferença está relacionada a duas abordagens fundamentais sobre o papel da instituição profética na história da tradição, sobre o papel dos companheiros que rodeiam os profetas e que depois formam aquele corpo, aquela corporação, à qual cabe a tarefa de transmitir esta tradição ao longo do tempo, de preservá-la para as pessoas, ou seja, o que na tradição cristã se denomina Igreja.

Mas antes de passar a uma análise mais concreta dessas diferenças fundamentais e tentar chegar a uma compreensão do que é o Islã puro, primeiro gostaria de dizer que hoje é o segundo dia de jejum, que para todos os muçulmanos é uma festa de ascetismo, de disciplina espiritual, um tempo de mobilização das capacidades mentais e físicas para manter um estado de vigília vertical e realizar o predomínio da consciência espiritual sobre o plano físico. O tema que se formula hoje como título da conferência, «O Islã Ário», pode soar bastante provocador. Para a maioria dos muçulmanos, tem um certo sabor de provocação e, em todo caso, a algo não islâmico, já que o Islã se baseia fundamentalmente na ignorância sobre-humana das diferenças de raça, idioma e origem étnica.

09/05/2026

Collin Cleary - Conhecer os Deuses

 por Collin Cleary

(2011)



I


Um Falso Conhecimento


Existem hoje aqueles que desejam trazer a humanidade (ou uma parte da humanidade) de volta a uma fé mais antiga, pré-cristã. Quase todos esses radicais religiosos afirmam que os deuses existem, mas que os seres humanos de alguma forma se "fecharam" a eles. A explicação mais comum para este "fechamento" é o desenvolvimento da inteligência: o cérebro grande do homem o separou da experiência do divino. Esta explicação é perigosa, pois leva ao anti-intelectualismo (ver, por exemplo, as obras de Jack London, D. H. Lawrence, e outros). É uma teoria que catalogou erroneamente todo uso da razão como "racionalismo", e então postulou que o único remédio é o erro oposto polar, o irracionalismo.

Se perguntarmos aos partidários desta opinião em que consiste a abertura aos deuses, geralmente nos é respondido que significa abertura a certas "forças" naturais que são reconhecidas e percebidas intuitivamente pelos seres humanos na forma de "arquétipos". Encontramos algo semelhante a esta ideia, por exemplo, em Julius Evola: