domingo, 9 de dezembro de 2018

Matías Sirczuk - A Crítica ao Liberalismo: Carl Schmitt e Donoso Cortés

por Matías Sirczuk

(2004)



Introdução

Propomos nas páginas que seguem rastrear a crítica ao liberalismo nas reflexões filosófico-políticas de Carl Schmitt e Donoso Cortés. O caráter controvertido destes autores pela filiação, segundo nossa interpretação só aparente, de Donoso com um tradicionalismo católico de tipo reacionário ou pela vinculação pessoal de Schmitt com o regime nazista, usualmente não faz senão complicar a interpretação de seus escritos. Não pretendemos aqui justificar as posições particulares destes autores com relação a seu agir político prático. Tampouco acreditamos que nossa interpretação seja muito original ou nova. O que estamos efetivamente em condições de afirmar é que, tanto os postulados contrarrevolucionários de Donoso Cortés como o intento de restituição do político, levado a cabo por Schmitt permitem recuperar um olhar crítico sobre os próprios pressupostos da modernidade política. Com este objetivo nos embarcamos no pensamento destes autores que iluminam, segundo nosso critério, alguns dos problemas centrais da ordem política e da autoridade na modernidade.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Aleksandr Dugin - A Anatomia do Populismo e o Desafio da Matrix

por Aleksandr Dugin

(2018)



Os protestos na França, simbolizados por coletes amarelos, cobrem uma parte cada vez maior da sociedade. Especialistas políticos já chamaram esse movimento de uma “nova revolução”. A escala do movimento dos "coletes amarelos" já é tão séria que é absolutamente necessário analisar esse fenômeno de maneira detalhada.

Estamos lidando com uma manifestação vívida do populismo europeu moderno. O significado do populismo enquanto fenômeno é que a estrutura política das sociedades formadas na esteira da Grande Revolução Francesa e baseadas no confronto entre direita e esquerda está mudando radicalmente.

Os movimentos populistas rejeitam esse esquema político clássico de esquerda/direita e não seguem nenhuma atitude ideológica rígida, seja de direita ou de esquerda. Essa é a força e o sucesso do populismo: ele não atua de acordo com as regras predefinidas. No entanto, o populismo tem sua própria lógica: apesar de sua espontaneidade, é perfeitamente possível traçar alguma lógica e até mesmo o início de uma ideologia populista tomando forma diante de nossos olhos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Santiago Galindo Herrero - A Transformação de Donoso Cortés

por Santiago Galindo Herrero



“Eu represento a tradição, pela qual são o que são as nações em toda a dilatação dos séculos. Se minha voz tem alguma autoridade, não é, senhores, porque é a minha: a tem porque é a voz de nossos pais”. – Juan Donoso Cortés

Primeiros Anos

Extremadura suportava em 1809 energicamente, resistindo até o limite, a pressão do exército napoleônico. Mas suas cidades iam caindo em mãos do inimigo. Em 28 de março foi ocupada Medellín. A população civil, carente de meios de defesa; fugia diante da aproximação dos gabachos. A família Donoso Cortés, vizinha de Don Benito, não foi alheia a estes azares, agravados pelo fato de que a mãe se encontrava muito perto de dar luz; tanto, que não pôde terminar sua viagem, e em 6 de maio de 1809 lhe nascia um varão. As circunstâncias extraordinárias desse nascimento, a inquietação dos camponeses da região que buscavam refúgio frente ao invasor de sua pátria, haviam de estar presentes durante o resto de sua vida no recém-nascido, que a mãe ofertou à Nossa Senhora da Saúde, muito venerada na paróquia em que ele foi batizado. Ao neófito foram impostos os nomes de Juan Francisco María de la Salud.

O lugar de nascimento é origem de controvérsias. O certo é que nasceu fora de Don Benito e que foi batizado na paróquia mais próxima ao nascimento: a de Valle de la Serena.

Os Donoso Cortés eram, e são, uma família de estirpe bastante elevada e antiga, descendentes do conquistador do México, Hernán Cortés, originários, parece, de Aragão e estabelecidos na Extremadura há várias gerações. O pai do futuro Marquês de Valdegamas era advogado, lavrador e pecuarista estabelecido, o que lhe permitia uma ampla mobilidade econômica. Por isso se permitiu o luxo de levar a Don Benito um mestre que ensinasse as primeiras letras a seus filhos. Juan, aos onze anos, sabia já algo de latim, e convenientemente orientado pelo pai se mudou para Salamanca para prosseguir seus estudos. Isso foi no ano de 1820, o do pronunciamento de Riego em Cabezas de San Juan, o que indubitavelmente faz supor que a velha Universidade, já acusada com anterioridade de doutrinas liberais, seria um foco destes ensinamentos.

A bagagem espiritual que Juan levava para Salamanca provinha, principalmente, dos desvelos de sua mãe, que o inspirou uma doce devoção pela Santíssima Virgem, que foi, sem dúvida, uma das bases mais seguras para o desenvolvimento do processo do que ele chamou de sua conversão.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Julius Evola - A Mulher como Mãe e a Mulher como Amante

por Julius Evola



Já comentamos que no domínio da manifestação e da “natureza” o masculino é metafisicamente, de fato, o correlativo complementar do feminino, mas que ademais ele reflete o caráter do que é anterior e superior à Díade. Sobre o plano humano disso deriva que enquanto todas as relações baseadas sobre a Díade tem para a mulher um caráter essencial e esgotam a lei natural de seu ser, este não é o caso para o homem, na medida em que ele é verdadeiramente homem. Tais relações são as relações sexuais em sentido estrito e as relações entre mãe e filho. Não é por erro que, em toda civilização superior, não se tenha considerado o homem como verdadeiramente homem até que haja sido submetido a este laço duplo, do da mãe e o da mulher, esgotando na esfera correspondente o sentido de sua existência. Já recordamos que nos próprios “ritos de passagem”, ou da puberdade, a consagração nos povos primitivos da virilidade e a agregação a uma “sociedade de homens” se apresentam como uma superação dessa esfera naturalista. A Raquel bíblica diz: “Dá-me um filho; senão, morro”. Há textos bíblicos que ressaltam a “inexorabilidade” da mulher enquanto afeita à maternidade e à sexualidade, das quais ela “jamais se sacia” (1). E não é tanto enquanto pessoa como por um impulso metafísico pelo qual a mulher tenderá a levar o homem sob o jugo de uma ou de outra.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Javier Esparza - Revisar Spengler: Da Filosofia da Vida à Filosofia da Crise?

por Javier Esparza



Quando a sombra de um autor (um filósofo, um político, um poeta...) gravita sobre a alma de uma época que não é a sua, as razões podem ser de dois tipos. Um, o interesse dos mandarins do poder cultural por reatualizá-lo, relê-lo e interpretar suas ideias de acordo com a ideologia social oficial: lhe serão dedicados seminários na Universidade, artigos nos jornais de grande circulação, programas biográficos na televisão, etc., e finalmente será adaptado (digerido) pelo sistema; dois exemplos recentes: Ortega e Unamuno. O outro tipo de razões pelas quais um autor pretérito pode permear o ânimo de uma época determinada é a vigência de suas ideias, a retidão de suas intuições, a presença molesta de sua concepção do mundo nos foros onde se ventila qual há de ser o pensamento oficial: ele será ignorado, não se escreverá sobre ele nos jornais, nem se falará dele na televisão, mas suas ideias, como uma sombra fatídica, acompanharão os oradores do pensamento oficial obrigando-os a criticar continuamente as posições desse autor. Tal é o caso de Spengler, mais conhecido em nossos dias pelas críticas que dele se fazem do que pelas coisas que disse e pensou. Não obstante, é precisamente em seu pensamento que se encontra a chave de sua vigência, da pós-modernidade à epistemologia moderna, e passando pela literatura de antecipação. É neste marco que conceitos tipicamente spenglerianos como decadência (a da Europa), homem felash (o homem ocidental) e pessimismo (o nosso) encontram sua melhor acomodação. 

domingo, 11 de novembro de 2018

Alberto Buela - Nem Direita, Nem Esquerda

por Alberto Buela



O lúcido pensador italiano Marcello Veneziani começa um belo artigo sobre o antiglobalismo com a seguinte observação: 

“Se você prestar atenção neles, os anti-G8 são a esquerda em movimento: anarquistas, marxistas, radicais, católicos rebeldes ou progressistas, pacifistas, verdes, revolucionários. Centros sociais, bandeiras vermelhas. Com o complemento iconográfico de Marcos e do Che Guevara. 

Logo te dás conta de que nenhum deles põe em discussão o Dogma Global, a interdependência dos povos e das culturas, o caldeirão e a sociedade multirracial, o fim das pátrias. São internacionalistas, humanitários, ecumenistas, globalistas. Mais: quanto mais extremistas e violentos são, mais internacionalistas e antitradicionais resultam”. [1]

Toma-se consciência de que a oposição a partir da esquerda à globalização é só uma postura que se esgota em uma manifestação. Seattle, Gênova, Nova Iorque, Porto Alegre, mas não acontece nada, “o mundo segue girando”, como dizia Discepolín. É que a política do “progressismo”, como observou argutamente o filósofo, também italiano, Massimo Cacciaria, ordena os problemas mas não os resolve. [2]

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Alfredo Abad - Nicolás Gómez Dávila: Um Interlocutor de Nietzsche

por Alfredo Abad



"Ler Nietzsche como resposta é não entendê-lo. Nietzsche é uma imensa interrogação". (Gómez Dávila, 2005c, 162)

Entre os livros da biblioteca gomez-daviliana(1), os de Nietzsche possuem uma presença definitiva. Encontramos a obra completa em sua antiga edição Musarion que inclui as obras de Nietzsche e suas cartas. Esta presença do autor alemão dentro das preferências de Dom Nicolás é significativa, não necessariamente pela presença física de seus livros na biblioteca, mas antes de tudo pela presença de seu pensamento na obra do colombiano.

As alusões diretas a Nietzsche ao longo dos escritos gomez-daviliana são muito escassas. Não obstante, o pensamento do exegeta é uma clara conversação que se enfrenta com a imanência contida na finitude estabelecida pelo filósofo de Röcken. Gómez Dávila dialoga com Nietzsche porque ambos autores de enfrentam com o mesmo problema: a transcendência e seu papel dentro do horizonte humano. A arremetida de Nietzsche frente à tradição confronta de forma indefectível Deus enquanto conceito central da metafísica do Ocidente, e certamente, as derivações que dele se desprendem, entre elas a subjetividade, a moral, a verdade. Não se trata só de um aspecto no qual dois pensadores assumem uma mesma ideia e cheguem a resultados distintos a partir de suas apreciações. Como Nietzsche, Gómez Dávila centra sua atenção sobre o Ocidente, ambos oferecem um panorama propício para identificar a sua origem, seu percurso, seu legado e certamente, seus resultados.

domingo, 4 de novembro de 2018

Aleksandr Dugin - Sobre os Significados da História

por Aleksandr Dugin



Falemos sobre a História.

Em nossa sociedade, a crença mais comum acerca da História é de que esta se trata do conhecimento dos fatos passados. No entanto, essa não é só uma definição incorreta, como também completamente falsa: na realidade, não se trata nem de conhecimento, nem de fatos, nem do passado. O âmago da questão reside em outro lugar.

O homem vive no Tempo e, simultaneamente, em meio a um nexo de pensamentos. Pensamento e Tempo estão estreitamente vinculados, inextricavelmente entrelaçados entre si, de modo que são inseparáveis. Em outras palavras, todo pensamento (em um sentido lógico ou em um sentido geral) necessariamente se constrói a partir de um eixo princípio-e-fim, da premissa à conclusão. Logo, qualquer raciocínio, qualquer pensamento, é na verdade uma micro-história, caracterizada por um início, um processo de resolução, um resultado final e − o que é mais importante − um significado. O pensar pressupõe significado.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Guillaume Durocher - Sugimoto Goro e o Zen do Soldado

por Guillaume Durocher



O ascetismo geralmente tem uma má reputação nos círculos vitalistas. A idéia do monge assexuado, desapaixonado, passivo e rejeitador do mundo parece evidentemente desadaptativa, um beco sem saída evolutivo, como Nietzsche e Savitri Devi supuseram. No entanto, o fato é que monges muitas vezes também foram guerreiros, e os monarcas das religiões ascéticas, como o cristianismo e o budismo, foram muitas vezes grandes conquistadores. As ordens monásticas cristãs contribuíram grandemente para a luta contra a agressão muçulmana na Idade Média e provaram ser capazes de exterminar os últimos redutos pagãos na região do Báltico.

No Japão, o zen budismo era a religião dos samurais, que desenvolveram um ethos guerreiro, o Bushidō, que foi um dos mais profundos e espirituais do seu tipo em todo o mundo. Enquanto o budismo hoje é frequentemente associado a uma espécie de pacifismo desenraizado e confortável, na primeira metade do século XX, as escolas zen do Japão Imperial apoiaram entusiasticamente o poderio militar nacional e o serviço altruísta ao imperador como a incorporação divina de sua nação. Os monges e líderes zen desenvolveram o chamado “zen do soldado” (gunjin-zen) e apoiaram fortemente o Japão durante a Segunda Guerra Mundial, tanto em suas ambições imperiais quanto em sua resistência aos Aliados. Nos anos do pós-guerra, muitos ocidentais convertidos ao zen ficaram chocados ao descobrir que seus mestres "iluminados" haviam apoiado o militarismo autoritário e o imperialismo.