quarta-feira, 19 de junho de 2019

Free West Media - Entrevista com Alain de Benoist: A Europa é uma Colônia dos Mercados Financeiros

Entrevista concedida à Free West Media

(2019)



Qual o impacto da ocupação sobre os ocupados? O liberalismo reconhece apenas uma forma de soberania: a do indivíduo. Assim, povos, nações e culturas são vistos apenas como agregados de indivíduos cujas relações essenciais são reduzidas a contratos legais e trocas no mercado. Os europeus se tornaram consumidores na esfera anglo-americana - eles não são mais cidadãos de seus respectivos países, acredita Benoist.

Sr. de Benoist, o embaixador dos EUA em Berlim, escreveu cartas de chantagem há algumas semanas para empresas alemãs envolvidas na construção do Nord Stream 2. Os americanos estão certos em se sentir em posição de força por sobre a Alemanha e a Europa?

Benoist: Os americanos se sentem fortes porque sabem que os europeus são fracos. As notícias provam todos os dias que a União Europeia não é uma potência europeia, mas apenas um mercado europeu. Neste mercado, no entanto, os americanos têm uma vantagem significativa. Um dos princípios mais importantes é a extraterritorialidade da lei americana. Isso permite que Washington se defenda de operações e influências financeiras ou comerciais. Por exemplo, vários bancos franceses foram multados em bilhões de euros por não levar em conta as sanções dos EUA contra este ou aquele país.

Pergunta curta: Seria a Alemanha, a Europa - ou melhor, a UE - um “território ocupado”?

Benoist: Sim, podemos falar em um "território ocupado", mas o termo "ocupação" é ambíguo. Nós não estamos em um tipo brutal de heteronomia, mas em um condicionamento progressivo pelo chamado “soft power”. Pode-se falar também de “colonização” - mas de uma colonização que começou com a colonização de atitudes e valores.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Eduardo Velasco - Heartland: o coração da Terra



FONTE


ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE
- INTRODUÇÃO
- AS BACIAS ENDORREICAS E A IMPORTÂNCIA DOS SISTEMAS FLUVIAIS
- O QUE É O HEARTLAND?
- BREVE HISTÓRIA DO HEARTLAND
· Pré-história
· Antiguidade
· Idade Média: Pax Mongolica
· Antigo Regime: cossacos e czares
· O socialismo telúrico
· A Guerra Fria
· Globalização

SEGUNDA PARTE
- A BANANA VERMELHA
- A TEORIA DO HEARTLAND
· O mundo de acordo com Mackinder
· Extensão do Heartland e a importância do Leste Europeu
· Alemanha segundo Mackinder — Realpolitik, Kultur, Weltanschauung, Escola de Munique e Geopolitik de Haushofer
- A TEORIA DO HEARTLAND ESTÁ OBSOLETA?
- O HEARTLAND ÁRABE — NEJD E O CHIFRE DO DIABO
- O HEARTLAND AFRICANO
- O CERRADO — O BRASIL POSSUI O HEARTLAND DA AMÉRICA DO SUL
- A GRANDE BACIA E OUTROS HEARTLANDS DA AMÉRICA DO NORTE
- CASTELA-A-VELHA É O HEARTLAND DA ESPANHA

TERCEIRA PARTE
- A TEORIA DO MANPOWER ― A GLOBALIZAÇÃO CONTRA A RAÇA BRANCA
· A luta pela mente humana ― o ser humano como campo de batalha
- A REBELIÃO DA TERRA — DESMEMBRAR OS TENTÁCULOS DO OCEANO MUNDIAL É FORTALECER O HEARTLAND
· O Grande Tempo contra o Grande Espaço
· Futuríveis para o Heartland ― Um novo mundo, ou o império da terra fechada
· A gênese do atlantismo
- O ESTADO COMERCIAL FECHADO ― AUTARQUIA VERSUS GLOBALIZAÇÃO
- A IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA E SOCIAL DAS FORÇAS ARMADAS E DAS FORÇAS E CORPOS DE SEGURANÇA DO ESTADO: O EXEMPLO COSSACO
- NOVOS VIKINGS E COSSACOS PARA A EURÁSIA: NECESSIDADE DE UMA BIOPOLÍTICA DEMOGRÁFICA-REPRODUTIVA E ÉTNICA PARA O HEARTLAND
· Espanha no contexto do Heartland ― de Ibéria à Sibéria


PRIMEIRA PARTE  

Os espaços dentro do Império Russo e da Mongólia são tão vastos, e suas potencialidades em termos de população, trigo, algodão, combustível e metais são tão incalculavelmente grandes, que é inevitável que um vasto mundo econômico, mais ou menos à parte, se desenvolva inacessível ao comércio oceânico. ― (Halford J. Mackinder).

INTRODUÇÃO

Se no Ocidente herdamos lendas sobre Atlântida — um rico Estado comercial marítimo que, por seus pecados, foi castigada pelos deuses a perecer sob o mar — no Oriente também abundam menções sobre terras perdidas. Nas grandes regiões budistas da Ásia Central existem inúmeros mitos sobre cidades subterrâneas e vales ocultos, como Shambhala, onde os antigos poderes tradicionais e espirituais do mundo estariam adormecidos, esperando para se manifestar na guerra final entre os espíritos do bem e os espíritos do mal. Os mongóis identificam Shambhala com vários vales do sul da Sibéria, enquanto no folclore altaico, o portão da cidade secreta está escondido no Monte Belukha, da cordilheira do Altai, onde segundo a lenda Genghis Khan foi enterrado. O Kalachakra, um escrito tântrico do budismo tibetano com fortes influências hindus, afirma que quando o mundo degenerar em um turbilhão de guerra e vicio, em Shambhala surgirá Kalki ("cavalo branco"), uma espécie de messias que formará um exército e lutará contra as forças demoníacas, matando em milhões aos "bárbaros" e "ladrões que usurparam o poder real". Reunindo todos os brâmanes do mundo, ele iria fundar uma nova raça para povoar a Idade de Ouro vindoura. Em seu passado xamânico, os povos turco-mongóis falavam de Ergenekon, um vale isolado supostamente situado no Altai, onde seus ancestrais foram aprisionados por quatro séculos até que um ferreiro conseguiu derreter a barreira que os aprisionava. O mito de Ergenekon seria então usado estrategicamente pelo nacionalismo turco em sua promoção do pan-turanismo.

Na China, a tradição contava que Lao Tsé ("velho mestre", o fundador do taoísmo) deixou o país montado em um búfalo branco para o Oeste, isto é, para a Ásia Central, talvez para às cordilheiras Kunlun, onde se encontravam as fontes do Rio Amarelo, um lugar considerado santo pelos monges e eremitas, onde o ar era puro e energizante, onde cresciam ervas curativas e onde viviam peixes longevos. O folclore taoísta explicava que, naquele tipo de Éden espiritual, na "montanha do centro do mundo", os homens "régios" encontravam a bebida da imortalidade nos tempos antigos, e onde o Rei Mu (um milênio antes de Cristo) encontrou o palácio de jade do Imperador Amarelo, fundador da civilização chinesa. Mitologicamente falando, a cordilheira conectava a Terra com o Céu e em algum lugar de seu seio havia um palácio de jade onde vivia Xi Wangmu, a "rainha mãe do Ocidente". Como uma versão oriental do mito grego do jardim das Hespérides, ali crescia uma enorme árvore que dava pêssegos de imortalidade a cada três mil anos.

A cordilheira de Kunlun.

No Ocidente, o interior da Eurásia também era visto através de um prisma de lendas. Em "Histórias",  o Heródoto fala de um lugar "ao noreste", além do Mar de Hircânia (o Cáspio), onde muito ouro é guardado por grifos. Buran (um forte vento do norte, equivalente ao Bóreas grego) soprava duma caverna montanhosa chamada Passo de Alataw, que separa o Uiguristão (também chamado Turquestão chinês ou Xinjiang) do resto da Ásia Central. Mais além deste domínio se encontrava o "país dos hiperbóreos", cujo território chegava ao mar (provavelmente o Oceano Ártico). Nos mitos bizantinos, Alexandre, o Grande, não encontrou outra solução para as hordas de "Gogue e Magogue" (bárbaros do interior continental, às vezes assimilados aos citas) senão contê-las com uma parede de ferro ou adamantio. Provavelmente trata-se das Portas de Alexandre ou Portas Cáspias, localizada no sul da Rússia, onde séculos posteriores um exército de eslavos e vikings aniquilaria o reino cázaro, fundando o primeiro Estado russo. O conteúdo metafórico da construção das Portas Cáspias funcionou — especialmente tendo em mente que, no folclore centro-asiático, uma "porta de ferro em um lago" ou um "buraco negro em uma montanha" são considerados a origem dos ventos. Após as malfadadas campanhas dos macedônios no norte da Índia, uma história helenística que chegou ao Ocidente fez circular o boato de que na mais profunda Ásia Central havia um vale acarpetado de diamantes e protegido por aves de rapina e serpentes de "aparência mortal". Nos tempos do comércio de seda, Roma sabia da existência dos "seres", um povo alto, longevo e saudável (possivelmente os tocários), localizado em Serica, a "terra da seda", que corresponderia ao Uiguristão. Esses mitos e rumores incorporaram de alguma forma a vontade da Europa de não perder sua conexão com o Oriente.

Nos tempos medievais, em Roma, Bizâncio e nos Estados cruzados se falava do reino de Preste João, um monarca que mantinha a ordem nas terras de Gogue e Magogue governando sobre um país cristão isolado entre domínios muçulmanos e "pagãos" (leia-se budista, hinduísta e/ou religiões ancestrais xamânicas e animistas). As tradições gnósticas consideravam que os homens sábios procediam deste país, onde se encontraria, ligadamente com outras relíquias sagradas da cristandade, o Santo Graal, obtido por Parsifal no Monte Salvat e levado ao Grande Oriente em navios com velas brancas e cruzes vermelhas... "João" era provavelmente uma corruptela de "jan" ou khan: o título dos reis tártaros. O personagem em questão provavelmente era um khan-bispo nestoriano de origem mongol com vontade de fortalecer os laços com o Ocidente, mas a situação logo se envolveu em símbolos e arquétipos no imaginário coletivo europeu. Marco Polo, que não poderia faltar nesse artigo, situou Gogue e Magogue ao norte de Catai (China), ou seja, Mongólia ou Sibéria. Na China, as autoridades imperiais fizeram algo parecido com Alexandre, dando o Heartland como impossível e se conformando em levantar a Grande Muralha para proteger o reino das invasões bárbaras do Norte.

Em meados do século XIX, os colonos russos na Sibéria, homens de excelente qualidade humana em todos os sentidos, tinham a ideia de Belovodye (ou Reino de Opona), um lugar mítico de "água branca" situado na Sibéria Oriental, desempenhando o papel de Terra Prometida em seu imaginário religioso e que provavelmente influenciou de forma importante o fluxo de populações etnicamente europeias para o Oriente, estabelecendo colônias cada vez mais próximas do Mar do Japão e das fronteiras com a China e a Mongólia. Enquanto a Rússia estava conquistando a Ásia Central, Nikolai Fedorovich Fedorov, fundador da corrente filosófica russa do cosmismo, situou Shambala no Pamir, atual Tajiquistão. A Ásia Central se tornou popular no Ocidente graças ao Michael Strogoff de Júlio Verne, a Ferdinand Ossendowski, ao nascimento da geopolítica e ao surgimento de correntes ocultistas que idealizavam a Ásia Central como um santuário de tradição e sabedoria. Na década de 1920, o pintor, historiador e esoterista russo Nikolai Roerich também descreveu uma expedição extraordinária em toda a Ásia Central, incluindo suas visitas a mais de cinquenta mosteiros e seus encontros com lamas budistas.

Mongólia.

Dessarte, as áreas mais recônditas da Ásia Central foram vistas como uma fonte de mistério e fantasia pelas sociedades que estavam em sua influência. Todos os mitos que observamos coincidem em apresentar o coração da Eurásia como um lugar interessantíssimo e digno de ser visitado pelos valentes e nobres. Neste artigo se abordará sobre este vasto espaço habitado por incógnitas e infinitas possibilidades ainda indescobertas, um novo mundo em potencial, uma enorme fortaleza fechada, inacessível, inexpugnável e zelosamente tradicional, repleta de inúmeros vales, montanhas, planícies, florestas, estepes e desertos, que não pôde ser conquistada nem mesmo por Alexandre, Roma, Bizâncio, os imperadores chineses, a Comunidade Polaco-Lituana, os jesuítas portugueses, Napoleão, o Império Britânico, Hitler, Japão, os oligarcas mafiosos do espaço ex-soviético, as multinacionais e os bancos da globalização capitalista-neoliberal ― a longo prazo nem mesmo por khans asiáticos ou o bolchevismo soviético ― mas apenas por dois povos extraordinários: os vikings e os cossacos, que, como Alexandre, levaram a cultura grega (caracteres cirílicos, herança bizantina) ao coração da Ásia.

Desde o alvorecer da história, quem possui o Heartland se move como um peixe na água, uma vez que é um oceano de terra, mas quem não o possui irá bater contra suas paredes.


terça-feira, 4 de junho de 2019

Alain de Benoist - Soldado, Trabalhador, Rebelde, Anarca: Uma Introdução a Ernst Jünger

por Alain de Benoist

(1997)



Nos escritos de Ernst Jünger, quatro grandes figuras aparecem sucessivamente, cada uma correspondendo a um período bastante distinto da vida do autor. Eles são, cronologicamente, o Soldado do Front, o Trabalhador, o Rebelde e o Anarca. Através dessas figuras, pode-se adivinhar o interesse apaixonado que Jünger sempre manteve em relação ao mundo das formas. Formas, para ele, não podem resultar de ocorrências fortuitas no mundo sensível. Em vez disso, as formas guiam, em vários níveis, os modos pelos quais os seres sensíveis se expressam: a “história” do mundo é, acima de tudo, morfogênese. Ademais, como entomólogo, Jünger estava naturalmente inclinado a classificações. Para além do indivíduo, ele identifica a espécie ou o tipo. Pode-se ver aqui um tipo sutil de desafio ao individualismo: "O único e o típico excluem um ao outro", escreve ele. Assim, como Jünger vê, o universo é um em que as Figuras dão às épocas seu significado metafísico. Nesta breve exposição, gostaria de comparar e contrastar as grandes Figuras identificadas por Jünger.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Andrea Virga - “Um Socialismo Sustentável e Próspero”: Uma Investigação sobre a Transição Econômica Cubana

por Andrea Virga

(2018)



“Cuba, por exemplo, pode transicionar rumo a instituições inclusivas e experimentar uma grande transformação econômica, ou pode permanecer sob instituições econômicas e políticas extrativistas” – Daron Acemoglu – James A. Robinson, 2012)

“A batalha econômica constitui hoje, mais do que nunca, o principal dever e o centro do trabalho ideológico das fileiras, porque a sustentabilidade e a preservação de nosso sistema social dependem disso”. – (Raúl Castro Ruz, 2010)

Introdução

É interessante notar que, entre o número de experiências e casos históricos descritos no opus magnum de Acemoglu e Robinson “Por que Nações fracassam”, Cuba emerge como notavelmente ausente, apesar de que suas peculiaridades teriam sido bastante interessantes, especialmente se apresentadas na forma dessa nova interpretação da economia política. Nas quase 400 páginas de texto, essa pequena ilha-nação é mencionada apenas oito vezes: metade delas no contexto geral da economia das plantations caribenhas e metade em relação ao período revolucionário. Dessas últimas quatro escassas referências, o problema da transição de uma economia comunista é citado apenas duas vezes. Isso é muito estranho se considerarmos como a história cubana divergiu tão fortemente de seus vizinhos nos últimos sessenta anos, e ainda mais estranho se prestarmos atenção à importância desproporcional que Cuba tem tido na política americana e internacional em comparação com seu tamanho e poder efetivos. 

Em minha humilde opinião, essa omissão não depende tanto de falta de interesse, mas da grande complexidade do caso cubano, e da dificuldade de reconciliá-lo adequadamente com os modelos delineados pelos dois autores. Isso não quer dizer que sua interpretação é inútil. Ao contrário, como eu vou demonstrar, ela dá insights preciosos sobre como abordar e explicar a economia cubana. Categorias como “inclusivo” e “extrativo”, bem como a “lei férrea da oligarquia”, parecem ser definitivamente úteis. No núcleo do ensaio de Acemoglu e Robinson jaz a importância fundamental das instituições políticas para o desenvolvimento (ou subdesenvolvimento) econômico. Essa pressuposição refuta convincentemente teorias essencialistas baseadas nas origens geográficas ou etnoculturais de um país. Porém, eu penso que há uma simplificação exacerbada das relações entre elite e sociedade, e entre elite e políticas públicas, que emerge claramente se examinarmos o caso. 

Portanto, eu farei um amplo uso de fontes cubanas, tanto científicas como políticas, as quais estão baseadas em uma perspectiva distinta da de Acemoglu e Robinson, já que elas são definitivamente influenciadas pelo marxismo-leninismo, apesar de filtradas pelo idealismo de Martí e pelo nacionalismo de Castro. A comparação entre essas duas representações e interpretações distintas seria especialmente estimulante. A visão marxista concorda com nossos autores sobre a importância das instituições políticas, mas as vê como produto natural dos interesses materiais das elites. Porém, Acemoglu e Robinson concordam que as elites agem em seu interesse próprio, mas eles afirmam que a inclusividade social e o pluralismo dos grupos sociais, de uma maneira não muito diferente em si do conceito de luta de classes, pode contrastar o elitismo, resultando em legalidade e uma prosperidade geral. Ademais, as duas posições diferem em um ponto crucial: na perspectiva cubana, a prosperidade econômica está subordinada ao desenvolvimento social, enquanto em “Por que as Nações dão errado” esta não é tão discutida, sendo mais propriamente entendida como consequência daquela.

Agora, este não é o lugar adequado para uma crítica da democracia liberal e do capitalismo, defendidos pelos dois autores. Eu vou me concentrar, ao invés, na transição cubana, ou seja, na resposta do governo cubano ao crítico Período Especial e, consequentemente, na transição gradual rumo a uma economia mista, sustentando, ao mesmo tempo, seu sistema sociopolítico. Um conceito similar jaz na base dos processos reformistas da China e do Vietnã, ainda que essas instâncias sejam muito diferentes da cubana. Eu fornecerei uma breve revisão da história econômica cubana até então, mas a máxima atenção será dada às políticas governamentais recentes e sua implementação. No processo, eu vou relacioná-las às teses de Acemoglu e Robinson, de modo não só a compreender melhor a economia cubana em transição, mas também fornecer objeções e críticas úteis à teoria desses autores.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Julius Evola - A Família como Unidade Heroica

por Julius Evola

(1970)



Um dos perigos que ameaçam toda reação contra as forças da desordem e da corrupção que estão devastando nossa civilização e nossa vida social é a tendência dessa reação a acabar em formas que são pouco mais significativas do que as da mera domesticidade burguesa. Mais de uma vez ouvimos denúncias do caráter decadente do moralismo em comparação a toda forma superior de direito e de vida. Na verdade, se uma "ordem" tiver valor, ela não deve significar nem rotina nem mecanização despersonalizada. Devem existir nela forças que estão originalmente indomadas e que conservam de alguma forma e até certo ponto sua natureza, mesmo na aderência mais rígida a uma disciplina. Só então a ordem se torna fecunda. Poderíamos expressar isso em uma imagem: uma mistura explosiva e expansiva, quando restrita a um espaço limitado, desenvolve sua eficácia ao extremo, ao passo que, se for colocada em um espaço ilimitado, ela praticamente se dissipa. Nesse sentido, Goethe poderia falar de um "limite que cria", e poderia dizer que no limite o Mestre se mostra. Também é necessário lembrar que, na visão clássica da vida, a ideia do limite – πέρας(1) - foi tomada como a própria perfeição, e foi postulada como o mais alto ideal, não apenas em termos éticos, mas também em termos metafísicos. Essas considerações podem ser aplicadas a vários domínios. No presente ensaio, consideramos um caso particular: o da família.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

David L'Epée - O Nacionalismo Russo à Época Soviética

por David L'Epée

(2016)



Enquanto o resultado da crise que afeta atualmente a Ucrânia é ainda incerto após a “revolução” ocorrida em Kiev e os eventos da Crimeia, o fator do nacionalismo russo (ou pró-russo) parece ter sido chamado ao debate como um elemento-chave sem o qual é impossível compreender o que se passa no Leste. Me parece interessante examinar quais são as especificidades desse nacionalismo russo, tão estranho às nossas concepções, que fala mais de império do que de nação, olhar um pouco mais longe para descobrir em que medida as suas raízes se afundam na época soviética. A publicação recente da tese de Vera Nikolski dedicada a este tema nos fornece a oportunidade.

sábado, 27 de abril de 2019

Boris Nad – Entrevista com Leonid Savin: Nova Idade das Trevas da Europa

por Boris Nad

(2017)



Leonid Savin é um importante representante da nova escola russa de geopolítica, um membro do movimento neoeurasianista e um associado de Aleksandr Dugin. Savin também é editor-chefe do centro analítico Geopolitika.py e do Journal of Eurasian Affairs, bem como chefe administrativo do Movimento Eurasiano Internacional. Ele é o autor de uma série de livros sobre geopolítica e áreas relacionadas: “Rumo à Geopolítica”, “Guerra de Redes”, “Etnopsicologia”, “De Xerife a Terrorista”, “Novos Métodos de Guerra”...

Segundo Leonid Savin, vivemos na época das mudanças súbitas nos paradigmas (geo)políticos e de mudanças radicais nas relações de poder. O poderio americano tem se enfraquecido em anos recentes, novas divisões e crises aparecem no coração do próprio Ocidente. Além da Rússia e da China, novas potências emergem, impérios em potencial, causando uma série de novos conflitos e renovando antigos, do Oriente Médio aos Bálcãs. A crise da União Europeia, impulsionada por uma crise migratória e pelo terrorismo, marca o fim do mito burguês da prosperidade. Tudo isso cria uma situação completamente singular em um mundo completamente globalizado, onde não há mais regras claras.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Alberto Buela - Popper e Soros: Um Só Coração

por Alberto Buela 

(2019)



Quando há muitos anos líamos “A Sociedade Aberta e seus Inimigos” (1966) de Karl Popper (1902-1994) pensávamos que era uma proposta inocente de um judeu liberal de origem austríaca contra o marxismo, e nunca suspeitamos que este livro pudesse ser hoje a bíblia de seu correligionário George Soros e de sua fundação Open Society, que alenta todas as propostas culturais de que padece o Ocidente: campanhas internacionais a favor do aborto, dos grupos LGBT, feministas, aborígenes na América do Sul e imigração islâmica na Europa. A favor também dos programas de aprendizagem global do inglês (Globish) contra o castelhano. Financiou ultimamente a grande marcha de 6 mil migrantes que partindo de Honduras chegou à América do Norte.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Esaúl Alvarez - Karma e Destino

por Esaúl Alvarez

(2014)



Uma das noções metafísicas que tem sido mais pervertida e desnaturalizada pela new age é a do karma. Chama a atenção em particular que esse termo do karma tenha se estendido amplamente no ocidente uma vez que se nega de maneira fervorosa toda concepção metafísica própria da tradição ocidental, e muito particularmente se nega aquela que vem sendo a contraparte ocidental da ideia de karma: o destino.

Isto demonstra a profunda confusão em que está imerso o homem moderno, que renega tudo aquilo que lhe é mais próprio e próximo -com o consabido argumento do obscurantismo e da superstição- só para acabar abraçando exotismos e modas alheias que não compreende, e que frequentemente resultam ser ainda mais obscurantistas e falsas, quando não obedecem a interesses suspeitos [1].

Se se nega no ocidente a existência do destino não é com base em razões filosóficas ou metafísicas senão em virtude de uma suposta "liberdade individual" de que dispomos para reger nossas vidas e com a qual seria incompatível a ideia de destino. Isso é, se pensa e se decide com base em critérios meramente sentimentais, relativos ao gosto e ao desejo; não importa a verdade. Até aqui tem chegado a debilidade mental do ocidente. 

Desse modo, se certas ideias, como a do destino, são -ou parecem ser a juízo da 'polícia do pensamento' moderno- contrárias à superstição da liberdade, que é um dos 'termos fetiche' da modernidade, então tais ideias devem ser rechaçadas e combatidas. Pouco importa se há ou não nelas algo de verdade, o fato é que são incompatíveis com a ideologia da modernidade.

sábado, 6 de abril de 2019

Alain de Benoist - Tradição?

por Alain de Benoist

(1992)



Existem muitas maneiras de entender a tradição. Sua etimologia é latina, do verbo tradere, que significa “dar, entregar, transmitir diretamente”. Originalmente tradição designava “aquilo que é transmitido” e tinha um significado religioso. A tradição entendida como “a ação de transmitir” foi, no entanto, de uso comum na França até o final do século XVIII e ainda faz parte do léxico jurídico hodierno. Tradere, porém, também significou "trair", no sentido de entregar um homem ou um segredo. No plural, as tradições são geralmente consideradas como parte das características distintivas de uma cultura em um período particular. Elas evocam um corpo de características hereditárias aceitas e imutáveis ​​herdadas dos costumes passados, modos de ser, mas também celebrações, ciclos de trabalho e tradições populares. Tradição aqui implica uma sensação de duração: ela contrasta com a novidade, mesmo que se aceite a sua evolução. Também implica a ideia de padrão ou norma, mesmo que as tradições em questão possam ser contestadas. A tradição engloba o que é permanente e imutável, em oposição à sucessão de eventos e modas. Uma definição mais antiga a descreve como marcando a submissão dos vivos à autoridade dos mortos, englobando costumes e hábitos aceitos (obedecemos às tradições porque sempre o fizemos) que as pessoas modernas denunciam como convenções, preconceitos ou superstições. O termo pode ter um significado positivo ou pejorativo, dependendo do contexto em que é usado. Quando anunciantes e agências de turismo exaltam as virtudes do "artesanato tradicional", eles implicitamente se referem a um conjunto testado de valores e conhecimentos. Tradição aqui evoca qualidade e autenticidade. Mas também pode ser visto como o que é ultrapassado, como no uso da "moralidade tradicional" pelos críticos modernistas.