por Alvaro D'Ors
(1990)
Devo dizer, de entrada, que o que poderia ser o "pathos" da minha intervenção hoje é anticapitalista. A economia atual é uma economia capitalista, e a minha posição é radicalmente anticapitalista. Embora possa parecer um pouco exagerada, a minha opinião é que, como regime económico, o capitalismo atualmente é moralmente pior do que o comunismo. Quando falamos de comunismo, estamos a pensar numa ideologia que inspirou o comunismo da nossa época e que é algo totalmente reprovável; é uma heresia ou, se se quiser, uma forma de apostasia como tantas outras. Mas o comunismo em si mesmo, ou seja, a ideia de supressão da propriedade privada, ainda que não seja algo que eu defenda como regime natural, parece-me, no entanto, muito menos nocivo do que o capitalismo.
Há algo muito claro para uns olhos ingénuos nestes tempos, que é o facto de o comunismo, simplesmente como comunidade de bens, ter sido exaltado pelo cristianismo, de tal modo que os nossos primeiros cristãos, como bem sabemos pelos "Atos dos Apóstolos", tinham todos os bens em comum e, ao longo da história, se repetiu, com diferentes modalidades, mas com uma grande persistência, que certos movimentos que buscam a perfeição cristã começaram por prescindir da propriedade e ter tudo em comum, praticamente tudo. Quer dizer que a ideia do comunismo, de supressão da propriedade particular, pode resultar, diríamos, menos natural para uma convivência ordinária, mas, em si mesma, não tem nada de pecaminoso. Pode falar-se de um "comunismo cristão", mas não de "consumismo cristão": o consumismo capitalista é essencialmente anticristão.








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