por Julius Evola
(1939)
Quem examinasse a obra recentíssima de Merezhkovsky sobre «Dante», que viu pela primeira vez a luz traduzida para o italiano por Küfferle (Ed. Zanichelli, Bolonha, 1939), receberia uma impressão oposta à que pode dar outra obra do mesmo escritor, saída também há pouco na Itália, sobre «Tolstói e Dostoiévski».
Com efeito, ao ler esta segunda obra, podia-se ser incentivado unicamente pelo nome do autor: mas, uma vez enfrentada a leitura, fica-se agradavelmente surpreso ao constatar que Tolstói e Dostoiévski, como também os seus personagens e os seus problemas, no fundo não servem a Merezhkovsky senão como pretexto, como pontos de partida para enfrentar grandes problemas espirituais que certamente transcendem o plano da simples literatura. Na obra sobre Dante, pelo contrário, nós vemos que o autor no fundo fica aquém do argumento a analisar e a interpretar. Isto, pode-se dizê-lo no entanto de um ponto de vista todo particular. Se se tem em vista o nível dos chamados «estudos dantescos», pode-se sem dúvida dizer que a obra de Merezhkovsky está «em ordem», é rica de sugestões felizes, de efetivas dramatizações, de enquadramentos que já remetem a problemas espirituais e religiosos gerais. As coisas, porém, passam-se de outro modo, se se tem em vista não o Dante da comum exegese literária, teológica ou psicológica, o Dante dos vários Passerini, D’Ovidio, Papini e companhia, mas aquele Dante secreto, que já começou a ser pressentido por um Aroux, por um Rossetti, depois por um Pascoli e com traços sempre mais claros por um Guénon e por um Valli. No que diz respeito à interpretação de Merezhkovsky ser «esotérica» perante as comuns avaliações dantescas, ainda assim ela aparece em grande medida profana quando é este segundo Dante que se tem em vista.


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