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10/11/2016

Keith Preston - O Verdadeiro Perdedor de Ontem: O Humanismo Totalitário

por Keith Preston



Ao contrário do que, sem dúvida, muita gente está pensando, a vitória de Trump não parece ser uma vitória da direita sobre a esquerda, do racismo sobre o antirracismo, ou do conservadorismo social sobre o liberalismo social (ou libertarianismo). Quando várias eleições locais e regionais, bem como referendos, são examinados, e quando as diferenças demográficas dos resultados da eleição presidencial são analisadas, uma imagem um pouco diferente emerge. Considerem estes fatos:

- Trump venceu fazendo campanha à esquerda de Clinton em política externa e política comercial, estendendo um ramo de oliveira para a Rússia, atacando os planos de Clinton de derrubar Assad na Síria, e repudiando as políticas econômicas neoliberais do marido de Hillary. Hillary, por outro lado, fez campanha como uma intervencionista em política externa e defensora do statuos quo corporativo liberal em relação a política comercial.

- Trump se saiu incomumente bem entre minorias raciais (para um republicano), particularmente homens negros e hispânicos.

- Uma maioria significativa dos seus eleitores expressou discordância ou apreensão em relação a algumas das posições mais direitistas de Trump em relação a imigração, legalidade e política econômica.

- Independentes se saíram incomumente bem nessa eleição (relativamente falando) com o esquerdista Green Party e o social-liberal Libertarian Party causando mais danos a Clinton do que a Trump. 

- Oito de nove referendos pró-maconha passaram.

- Um referendo californiano demandando que atores pornô usem camisinha falhou.

- O xerife Joe Arpaio do condado de Maricupa, Arizona, uma grande celebridade conservadora, perdeu sua cadeira.

- As provocações anti-Rússia dos democratas falharam como estratégia eleitoral.

- Carolina do Sul, um estado vencido por Trump, elegeu o primeiro senador negro desde a Reconstrução para um mandato completo.

- Trump empacotou sua campanha nos momentos finais como uma "revanche" do proletariado.

- Evidências indicam que Trump teria perdido se ele estivesse disputando contra Bernie Sanders ao invés de Hillary.

- A vitória de Trump foi tornada possível por sua habilidade de arrebanhar o proletariado nos estados do Cinturão da Ferrugem, os que foram mais atingidos pelo neoliberalismo.

Tudo isso junto, incluindo vitórias para maconha, pornografia, proletariado, e bons desempenhos para partidos esquerdistas menores, e o primeiro senador negro em 150 anos, com o direitista autoritário Joe Arpaio perdendo sua cadeira após 23 anos, dificilmente indicaria uma mudança dos EUA na direção do "fascismo". Ao contrário, pode ser dito com alguma segurança que Trump venceu porque ele era o mais esquerdista dos dois candidatos principais, ou seja, o menos intervencionista em política externa, o mais pró-proletariado, e, por uma ampla margem, o mais anti-sistema.

Há quase 10 anos, eu introduzi a teoria do "humanismo totalitário" onde eu ofereci as seguintes observações.

"A ideologia emergente das classes dominantes ocidentais, particularmente das americanas pode, creio eu, ser descrita como segue:

1 - Militarismo, Imperialismo e Império sob o disfarce de 'direitos humanos', 'democracia', modernidade, universalismo, feminismo e outras baboseiras esquerdistas.

2 - Mercantilismo corporativo (ou 'Capitalismo de Estado') sob o disfarce de 'livre-comércio'.

3 - Na política doméstica, o que eu chamo de 'humanismo totalitário' por meio do qual uma burocracia onipresente e irresponsável se infiltra em cada canto da sociedade para garantir que ninguém em qualquer lugar, a qualquer momento jamais pratice 'racismo, sexismo, homofobia', tabagismo, 'abuso sexual' ou outros pecados esquerdistas.

4 - No reino da lei, um Estado Policial ostensivamente estruturado para proteger todos contra terrorismo, criminalidade, drogas, armas, gangues ou algum outro bicho-papão do mês.

O tipo de Estado que defensores dessa nova ideologia visualizam é um no qual o propósito do governo local é impôr a ortodoxia esquerdista contra instituições rivais (como famílias, religiões, empresas, sindicatos, clubes, outras associações), o propósito do governo nacional é impôr esquerdismo contra comunidades locais, e o propósito da política externa é impôr esquerdismo contra sociedades tradicionais 'atrasadas' ou 'reacionárias'."

O voto de ontem foi, na verdade, um enorme dedo do meio para a classe dominante e sua ideologia de humanismo totalitário. 


02/10/2016

Keith Preston - Quando o Fascismo era de Esquerda

por Keith Preston



O modelo convencional de espectro político “esquerda/direita” coloca o Fascismo e o Marxismo como pólos opostos. Marxismo é considerado uma ideologia de extrema-esquerda enquanto o fascismo supostamente representa o mais “direitista” que alguém pode ser. Um título recentemente traduzido ao inglês pela editora Finis Mundi de Portugal, o Fascismo Revolucionário, de Erik Norling, faz muito bem em apontar que a classificação do Fascismo – como concebido por Mussolini e seus asseclas – como direita política deve ser questionada.



Esta obra foi originalmente impressa em 2001 e o autor, Norling, historiador e advogado, é um sueco que vive na Espanha. Norling observa que desde a juventude até a Primeira Guerra Mundial, Mussolini era tão esquerdista como qualquer contemporâneo seu (como por exemplo Eugene V. Debs). Era o que mais tarde viria a ser conhecido como “red diaper baby” (Nota do Tradutor: bebê das fraldas vermelhas – o que significava ser filho de socialistas revolucionários). Quando jovem, Mussolini era marxista, um anticlericalista fervoroso e foi até a Suíça para fugir do serviço militar, além de ser preso por incitar greves militantes. Eventualmente, se tornou um líder no Partido Socialista da Itália e foi preso novamente em 1911 por suas atividades anti-belicistas com relação à invasão italiana na Líbia. Mussolini era um socialista tão proeminente à esta altura de sua carreira que chegou a ser elogiado por Lenin, que o considerava o homem certo para o futuro estado socialista italiano.

Quando iniciou-se a Primeira Guerra Mundial em 1914, Mussolini inicialmente manteve a política anti-belicista do Partido Socialista italiano, mas nos meses seguintes mudou para uma posição pró-belicista que acabou com a sua expulsão do partido. Ele então alistou-se no exército e italiano, e foi ferido em combate. As razões da mudança de Mussolini de uma posição anti-belicista para uma posição pró-belicista são essenciais para entender as verdadeiras origens e a natureza do fascismo e o seu lugar dentro do contexto da história política e intelectual do século XX. Mussolini passou a ver a guerra como uma luta anti-imperialista contra a dinastia dos Habsburgo no Império Austro-húngaro. Mais, considerava a guerra como uma batalha anti-monarquista contra as forças conservadoras como os Habsburgos, os turcos otomanos, os Hohenzollern da Alemanha, e atacava estes regimes como inimigos reacionários que haviam reprimido o socialismo. Mussolini também acreditava profeticamente que a participação da Rússia na guerra poderia enfraquecer esta nação a ponto de torná-la suscetível à revolução socialista, o que de fato aconteceu. Em outras palavras, Mussolini via a guerra como uma oportunidade para avançar as batalhas revolucionárias da esquerda na Itália e fora dela.

As fasci di combattimento, militâncias do fascismo, não deixam dúvidas sobre as raízes socialistas da ideologia: dentre outras requisições, a carga horária de 8 horas, o salário mínio, a participação operária no funcionamento técnico da indústria, a confiança de gestão da indústria e dos serviços públicos às organizações proletárias, a nacionalização de fábricas, tributação progressiva, a expropriação de riqueza, o confisco dos bens da Igreja.

Quando o movimento fascista italiano foi fundado em 1919, a maioria dos seus líderes e teóricos eram, como o próprio Mussolini, ex-marxistas e outros esquerdistas radicais como os proponentes das doutrinas sindicalistas revolucionárias de Georges Sorel. Os programas oficiais criados pelos fascistas, traduções que se encontram no livro de Norling, refletiam uma mistura de idéias socialistas e republicanas que estariam em comum com qualquer grupo esquerdista europeu da época. Se as evidências indicam que o fascismo tem suas origens na extrema esquerda, então de onde vem a reputação do fascismo como uma ideologia de direita?

Alguns exemplos de influências de Mussolini são o niilista Nietzsche, o marxista Péguy, e os sindicalistas revolucionários Sorel e Lagardelle.

A resposta parece ser uma combinação de três fatores primários: propaganda marxista que acabou se misturando à historiografia mainstream, a revisão da doutrina revolucionária esquerdista pelos próprios líderes fascistas, e o inevitável compromisso e acomodação do fascismo após atingir o poder estatal de facto. Com relação ao primeiro, David Ramsay Steele descreveu a interpretação marxista padrão do fascismo em um importante artigo sobre a história do fascismo:

"Nos anos 30, a percepção do “fascismo” no mundo anglófono mudou de uma novidade italiana exótica, até mesmo chique, para um símbolo multiuso daquilo que é mal. Sob a influência dos escritores esquerdistas, uma visão do fascismo foi disseminada e permanece dominante entre intelectuais até hoje. É mais ou menos assim:

Fascismo é o capitalismo sem máscara. É uma ferramenta do Grande Capital, que governa através da democracia até que se sinta mortalmente ameaçado, e então liberta o fascismo. Mussolini e Hitler foram colocados no poder pelo Grande Capital, porque o Grande Capital foi desafiado pela classe trabalhadora revolucionária. Temos naturalmente que explicar, então, como o fascismo pode ser um movimento de massas, e um que não é nem liderado nem organizado pelo Grande Capital. A explicação é que o fascismo o faz através de um uso amigavelmente esperto do ritual e do símbolo. Fascismo como uma doutrina intelectual é vazio de conteúdo sério, ou alternativamente, seu conteúdo é uma mixórdia incoerente. O apelo do fascismo é uma questão de emoção e não de idéias. Se sustenta no canto dos hinos, no balanço das bandeiras e outras palhaçadas que não são mais do que dispositivos irracionais empregados pelos líderes fascistas que foram pagos pelo Grande Capital para manipular as massas."

Esta percepção continua a ser a “análise” esquerdista padrão do fascismo mesmo nos tempos modernos. Eles fazem um longo e tortuoso caminho para explicar porque, por exemplo, os movimentos ou figuras políticas americanos que não tem absolutamente nada a ver com o fascismo histórico (como o Tea Party, os porta-vozes neoconservadores da Fox News ou programas de rádio conservadores) continuam a receber o rótulo de “fascistas” por esquerdistas.

A realidade das origens fascistas é bem diferente. Seus criadores eram típicas figuras políticas e intelectuais esquerdistas cujo ponto comum era o entendimento de que o marxismo era uma ideologia falha. Como Steele observou:

"O fascismo começou como uma revisão do marxismo por marxistas, uma revisão que se desenvolveu em estágios sucessivos, de tal modo que tais marxistas gradualmente pararam de ver-se como marxistas, e eventualmente pararam de ver a si mesmos como socialistas. Mas nunca pararam de se ver como revolucionários antiliberais.

A Crise do Marxismo ocorreu nos anos de 1890. Intelectuais marxistas podiam clamar falar pelos movimentos de massas ao longo da Europa continental, mas ficou claro naqueles anos que o marxismo havia sobrevivido a um mundo que Marx acreditava impossível. Os trabalhadores estavam enriquecendo, a classe trabalhadora estava fragmentada em grupos com interesses distintos, o progresso tecnológico estava avançando em vez de encontrando obstáculos, a taxa de lucro não estava caindo, o número de investidores ricos (“magnatas do capital”) não estava diminuindo mas aumentando, a concentração industrial não estava aumentando, e em todos os países os trabalhadores estavam colocando o seu país acima da sua classe."

Os primeiros fascistas eram ex-marxistas que acabaram duvidando do potencial revolucionário da guerra de classes, mas tinham simultaneamente chegado à conclusão de que o nacionalismo revolucionário era promissor. Como Mussolini enfatizou em um um discurso em 5 de dezembro de 1914:

"A nação não desapareceu. Acreditávamos que o conceito de nação era totalmente sem substância. Mas em vez disso vemos uma nação erguer-se como uma realidade palpitante diante de nós!… A classe não pode destruir a nação. A classe se revela como uma coleção de interesses – mas a nação é a história de sentimentos, tradições, língua cultura e raça. A classe pode se tornar parte integrante da nação, mas uma não pode encobrir a outra. A guerra de classes é uma fórmula vã, com efeito e consequência onde quer que se encontre um povo que não se integrou a seus próprios confins linguísticos e raciais – onde o problema nacional não foi resolvido definitivamente. Nestas circunstâncias o movimento de classe se encontra enfraquecido por um clima histórico inóspito."

A Carta del Lavoro, aprovada em 1927, é o reflexo do intervencionismo esquerdista das fasci d’azione internazionalista e do sindicalismo revolucionário das fasci di combattimento. Obra prima do sindicalismo fascista, é a fonte inspiradora da nossa Carteira de Trabalho.

O fascismo abandonou a guerra de classes por uma revolução nacionalista que pregava a colaboração das classes sob a liderança de um estado forte e capaz de unificar a nação e acelerar o desenvolvimento industrial. Realmente, Steele fez uma observação interessante das semelhanças entre os movimentos de “libertação nacional” italianos e latino-americanos marxistas da segunda metade de século XX:

"A lógica que permeia a sua mudança de posição era a de que infelizmente não haveria revolução da classe trabalhadora, fosse nos países desenvolvidos, fosse nos menos desenvolvidos como a Itália. A Itália estava só, e o problema de Itália era pouca produção industrial. A Itália era uma nação proletária explorada, enquanto os países mais ricos eram nações burguesas e envaidecidas. A nação foi o mito que poderia unir as classes produtivas por trás de um movimento para expandir a produção. Estas idéias são o presságio da propaganda do Terceiro Mundo da década de 50 e 60, na qual as elites em países economicamente atrasados representavam seu próprio governo como “progressista” porque aceleraria o desenvolvimento do Terceiro Mundo. De Nkrumah a Castro, os ditadores do Terceiro Mundo seguiriam os passos de Mussolini. O fascismo foi um mero jogo de treino para o Terceiro-mundismo pós-guerra."

Mussolini e sua política são de certa forma as bases do caudilhismo terceiro-mundista. O estado forte, o culto ao líder, o sindicalismo, o populismo, o intervencionismo e protecionismo econômico e o autoritarismo são suas características comuns.

Durante seus vinte e três anos no poder, o regime de Mussolini certamente fez consideráveis concessões aos interesses tradicionalmente conservadores como os da monarquia, das grandes corporações, da Igreja Católica. Estas acomodações pragmáticas nascidas da necessidade política estão entre as evidências tipicamente expostas por esquerdistas como indicadores da natureza “direitista” do fascismo. No entanto há abundantes evidências de que Mussolini permaneceu essencialmente socialista durante toda a sua vida política. Em 1935, treze anos após alcançar o poder na Marcha Sobre Roma, setenta e cinco por cento da indústria italiana tinha sido nacionalizada ou colocada sob intensivo controle estatal. De fato, foi no final de sua vida e de seu regime que as políticas econômicas de Mussolini atingiram o seu pico de esquerdismo.

Após perder o poder por alguns meses durante o verão de 1943, Mussolini voltou como chefe de estado da Itália com auxílio alemão e fundou aquilo que ele chamou República Social Italiana. O regime subsequentemente nacionalizou todas as empresas com mais de cem operários, distribuiu terras e testemunhou um número de proeminentes marxistas entrando no seu governo, incluindo Nicola Bombacci, o fundador do Partido Comunista e um amigo pessoal de Lenin. Estes eventos são descritos em considerável detalhe na obra de Norling.

Engana-se quem acha que o fascismo está morto. Tal qual o comunismo, ele permanece vivo e ativo. Falangistas, nacional-bolchevistas, strasseristas e mesmo muitos grupos auto-declarados “anti-fascistas” são na verdade movimentos nacional-sindicalistas adeptos das mesmas idéias do antigo Partido Nacional Fascista Italiano. Mesclando elementos do nacional-socialismo, do bolchevismo e do anarquismo, os fascistas buscam angariar cada vez mais adeptos com seu discurso populista. Basicamente, é a mesma estratégia que outrora usaram para colocar marxistas, socialistas e social-democratas em suas fileiras.

Ao que parece a rivalidade histórica entre marxistas e fascistas é menos um conflito entre esquerda e direita, e mais um conflito de outrora irmãos na esquerda. Não seria nenhuma surpresa , dada a tendência de agrupamentos de esquerda radicais para vinganças sectárias. Na verdade, pode-se plausivelmente demonstrar que o “anti-fascismo” da esquerda está enraizado como a inveja de um parente mais bem-sucedido, mais do qualquer outra coisa. Como Steele comentou:

"Mussolini acreditava que o fascismo era um movimento internacional. Ele esperava que tanto a democracia burguesa decadente quanto o marxismo-leninismo dogmático iriam dar lugar ao fascismo em todos os lugares, que o século vinte seria um século de fascismo. Como seus contemporâneos esquerdistas, ele subestimou a resiliência tanto da democracia como do liberalismo. Mas em essência a previsão de Mussolini se cumpriu: a maioria dos povos do mundo na segunda metade do século XX era governada por governos que na prática estavam mais próximos do fascismo do que do liberalismo ou do marxismo-leninismo. O século XX foi com certeza o século fascista".

28/12/2011

As Profecias Nietzscheanas - 200 Anos de Niilismo

por Keith Preston


Entre os muitos grandes e extremamente influentes pensadores do século XIX, é Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) facilmente o mais distinto em termos de possuir tanto as críticas mais profundas e penetrantes da civilização ocidental como ela era em seu tempo, e os insights e previsões mais prescientes quanto a o que o curso futuro da evolução do Ocidente envolveria. Em nossos próprios dias, Nietzsche tem sido um tópico popular do discurso acadêmico por algum tempo, e a leitura de suas obras há muito tem sido um passatempo popular entre estudantes modistas. Porém, na época de Nietzsche, ele permaneceu obscuro e suas obras não foram amplamente lidas ou aceitas até após sua morte. Mesmo com a abundância de estudos de Nietzsche que foram produzidos no mais de um século desde seu falecimento, suas idéias centrais permanecem amplamente incompreendidas ou mal interpretadas. De fato, Nietzsche ten sido majoritariamente apropriado pela Esquerda acadêmica - uma grande ironia considerando seu próprio desprezo considerável pela política da Esquerda - e a filosofia acadêmica dominante do pós-modernismo inclui a filosofia de Nietzsche como uma ancestral direta em sua linha genealógica.

Nenhum pensador é mais importante ou relevante para as idéias da Revolução Conservadora do que Nietzsche. Enquanto Marx continua a reter seu status como o mais influente pensador radical do século XIX, foi Nietzsche que foi o mais revolucionário dos dois nas implicações efetivas de seu pensamento. Nietzsche também permanece como um oposto polar dos contrarrevolucionários conservadores que surgiram em oposição à difusão da influência do Iluminismo. Nietzsche não é mero tradicionalista ao estilo de Edmund Burke, Joseph De Maistre, ou Louis De Bonald. Sua perspectiva envolve um afastamento damático não apenas do pensamento tradicional ocidental como ele se desenvolveu desde o tempo dos socráticos, mas também da cutura intelectual de mesmo os mais avançados ou revolucionários pensadores de seu tempo.

O Contexto Histórico do Pensamento de Nietzsche

Uma compreensão adequada de Nietzsche é impossível sem reconhecimento do contexto histórico no qual ele escreveu. As obras centrais de Nietzsche foram produzidas entre 1872 e 1888. Por aquela época, a revolução intelectual do Iluminismo estava bem estabelecida entre elites intelectuais ocidentais e entre as classes médias letradas ascendentes. A revolução intelectual iluminista e seus derivados foram existenciais em natureza. O aspecto mais importante do impacto da revolução foi o que Nietzsche caracterizou como a "morte de Deus". Avanços no conhecimento humano em uma grande variedade de áreas tiveram o efeito de minar a credibilidade das perspectivas teológicas tradicionais sobre cosmologia, filosofia moral, o sentido da existência humana, e daí em diante.

A derrubada da visão-de-mundo cristão que havia dominado a civilização ocidental por 1500 anos deixou pensadores subsequentes com um grande números de questões profundas. Se o propósito da vida de um indivíduo não é alcançar a salvação em um pós-vida, enquanto qual é o propósito da vida? Se o rei ou autoridades políticas estabelecidas não governam por direito divino, então qual é a base da legitimidade política? Como a sociedade deve ser organizada? Se a moralidade não é entendida segundo os ensinamentos da Igreja, da Bíblia, ou da autoridade religiosa tradicional, então qual é a base da justiça, da moralidade, da verdade, ou do "certo e errado"? Esses conceitos possuem qualquer sentido intrínseco ou objetivo? Se o universo observável não foi o produto de criação especial por um poder divino, e se a humanidade não foi "criada à imagem de Deus", então qual é o sentido da existência? Teria ela sentido para além de si própria? Se a história não é guiada pela providência divina, então como deve o processo de devir histórico ser entendido? Essas são as questões com as quais os pensadores ocidentais tem lutado desde que a velha visão teológica do universo e da existência foram demolidas pelas inovações intelectuais do Iluminismo.

A Nova Religião da Razão e do Progresso

A civilização ocidental existiu por milênios antes da ascensão da Cristandade Romana, então não é de surpreender que intelectuais iluministas anti-cristãos encontrassem inspiração nas obras clássicas da Antiguidade. Os pensadores iluministas desenvolveram uma visão-de-mundo e perspectiva filosófica relativamente similar àquela que prevaleceu entre os grandes pensadores da cultura intelectual greco-romana. A ênfase cristã tradicional em fé, revelação, mistério, e autoridade divina foi rejeitada em favor de uma nova ênfase na eficácia da razão humana e na habilidade de engajar em criticismo racional.

A visão iluminista do universo espelhava a perspectiva antropocêntrica dos gregos, com as idéias dos philosophes refletindo o adágio grego de que "o homem é a medida de todas as coisas" a um grau muito mais alto do que o pensamento cristão jamais fez. Foi a visão dos philosophes de que apenas a razão humana e o pensamento racional possuíam a capacidade para o discernimento das operações do universo através do uso da ciência. Essa confirança havia sido gerada pela revolução científica do século XVII. A razão humana era similarmente capaz de discernir as operações da sociedade e de descobrir modos pelos quais a sociedade e a humanidade poderiam ser melhoradas.

A partir dessa convicção emergiu um otimismo intelectual que expressou grande confiança na possibilidade e inevitabilidade do progresso. Essa moldura intelectual que foi transmitida às gerações subsequentes de europeus pelos grandes pensadores do Iluminismo formaram a fundação para a maior parte do pensamento moderno.

O conceito de progresso foi uma característica dominante de cada aspecto do pensamento no século XIX, seja nas áreas da filosofia, política, ou ciência. Pensadores da escola Idealista alemã, como Immanuel Kant e G.W.F. Hegel, tentaram reter a noção de justiça, moralidade, e virtude como conceitos possuindo características transcendentes em uma maneira similar àquela encontrada nas abordagens prévias cristãs à filosofia moral. Hegel desenvolvou uma doutrina filosofica conhecida como "historicismo" que caracterizava o provesso do desenvolvimento humano histórico como um pelo qual a razão desdobra-se em direção a um estado superior de unidade racional que contem dentro de si a coleção das expressões prévias, e contradições resolvidas dentro, do pensamento humano.

Hegel deu um brilho metafísico e quase-teológico a seu sistema filosófico de um modo que ainda é debatido e sujeito a interpretações variáveis. Porém, essa visão linear, progressiva da história postulada por Hegel estabeleceu o molde para a interpretação história que dominaria o pensamento ocidental pelo próximo século.

Karl Marx e Friedrich Engels desenvolveram uma concepção materialista da interpretação hegeliana da história como um processo dialético. O componente nuclear da interpretação marxista da história é um tipo de determinismo econômico. Segundo o marxismo, a história é a manifestação da luta entre classes sócio-econômicas em competição. Outros aspectos da vida humana tais como política, religião, cultura, família, e filosofia são meramente expressões ou consequências das fundações materiais de uma dada sociedade. O marxismo considera a história como um processo evolutivo no qual o conflito de classe serve como o processo dialético cujo impacto é o progresso da humanidade na direção de um estágio superior do desenvolvimento social.

A idéia oitocentista de progresso foi ainda mais fortalecida pelas inovações científicas do tempo. O pensamento evolucionário tornou-se odminante nas ciências naturais conforme as visões religiosas mais antigas sobre as origens da humanidade e do universo caíram na ignomínia intelectual. O modelo dominante da teoria evolucionária da era foi o modelo "desenvolvimentista". Esse modelo sugeria que o processo evolucionário era uma manifestação de um impulso linear em direção a um fim particular. A analogia normalmente usada era a do crescimento de um indivíduo. A visão convencional era que a evolução transpira de um modo que demonstra direção e propósito. Essa representação particular da evolução, mais famosamente expressa por Jean Baptiste Lamarck, foi destruída por Charles Darwin. Darwin afirmou que a evolução ocorre através de um processo de adaptação por meio da seleção natural.

A teoria de Darwin indicava que o processo de evolução biológica natural exibe um grande grau de aleatoriedade, e desenvolve-se de modo caótico sem qualquer resultado específico sendo inevitável em relação aos fins do processo evolutivo. As implicações atuais da teoria evolucionária darwiniana autêntica depreciam enormemente o modelo "desenvolvimentista" estabelecido de não apenas evolução biológica mas também evolução social humana. Porém, a publicação da obra de Darwin teve o efeito de popularizar o pensamento evolucionário, mesmo se suas idéias fossem mal compreendidas e mal interpretadas.
Pensadores subsequentes tentariam encontrar justificativa para suas opiniões sociais ou políticas favoritas na biologia evolucionária darwiniana. Marx considerava que Darwin havia encontrado uma justificativa científica para suas próprias opiniões sobre evolução sócio-econômica, e Darwin também foi apropriado por racistas e defensores do nacionalismo chauvinista.

De fato, esforços para interpretar a evolução social humana dentro do contexto de um molde biológico pseudo-darwiniano tornaram-se bastante abertas em natureza. Defensores do reformismo social, humanitários, advogados do capitalismo predatório, utópicos, teóricos da supremacia racial, e defensores da luta de classes todos apelavam a Darwin como justificativa para suas crenças, todas as quais estavam enraizadas em uma incompreensão fundamental das idéias de Darwin.

Foi a filosofia de Nietzsche que deu o molde interpretativo da história humana que era mais compatível com as implicações do darwinismo genuíno.

A Revolta Contra a Razão e o Progresso: A Filosofia de Nietzsche

Se a biologia evolutiva darwiniana explodiu a idéia oitocentista de progresso no reino das ciências naturais, foi o pensamento de Nietzsche que representou o mais profundo ataque às pré-concepções da época no mundo da filosofia. Nietzsche é talvez mais conhecido por suas afirmações relativas à "morte de Deus", mas o significado da "morte de Deus" na filosofia nietzscheana envolve muito mais do que mero ateísmo convencional. Outros intelectuais ateístas proeminentes haviam vindo antes de Nietzsche, como Diderot, d'Holbach e (por implicação) Hume, e ele de modo algum foi o inventor do ateísmo moderno. Apesar de Nietzsche ter sido certamente um pensador "anti-teológico" no sentido de rejeitar uma visão-de-mundo teísta em um sentido religioso convencional, sua noção de "morte de Deus" também foi pretendida como uma crítica dos preconceitos intelectuais de sua própria era, incluindo aqueles das elites intelectuais que haviam rejeitado a fé religiosa convencional. Enquanto Nietzsche era ateísta, materialista, e racionalista de um tipo comparável aos pensadores mais radicais do Iluminismo, sua perspectiva diverge radicalmente da tradição iluminista em relação ao papel da razão na vida e no pensamento humanos.

Nietzsche considerava que a ênfase iluminista na razão tinha o efeito de negar o papel das paixões na formação do caráter humano, da ação humana e das sociedades humanas. Ele contrastava a orientação iluminista na direção da razão com as manifestações e ênfase anteriores nas paixões que ele consideravam terem se tornado manifestas pela Renascença. Ele comparou essas duas eras dentro do molde de sua famosa dicotomia apolíneo/dionisíaco. O aspecto apolíneo da essência humana é o racional, lógico, prudente, e contido. O dionisíaco é o instintivo, impulsivo, e emotivo. Nietzsche não era um cético das paixões como Hobbes ou Burke, que consideravam as paixões e sentimentos humanos como tendentes a excessos perigosos e necessitando de contenção. Ao invés, ele aconselhou os seres humanos a viverem perigosamente. Nietzsche considerava o apaixonado e irracional (ou pré-racional) como a fundação de todas as culturas superiores, que ele por sua vez considerou como sendo o ápice da existência humana. Os gregos haviam enfatizado e explorado as paixões, ao invés de temê-las ou evitá-las, e por essa razão os gregos haviam produzido a mais elevadas das civilizações humanas existentes até então. Nietzsche veementemente se opôs aos sentimentos e tendências igualitárias crescentes em direção a uma sociedade de massa e democracia de massa de sua era. Apenas uma elite motivada pelas paixões pode produzir uma cultura superior. Uma sociedade igualitária seria uma sociedade de mediocridades fracas e temerosas preocupadas apenas com conforto e segurança.

A "morte de Deus" foi formulada como um ataque ao idealismo filosófico do tipo mantido por Kant e Hegel tanto quanto um ataque à fé cristã. A filosofia de Nietzsche insistia que não há fundação transcendente ou metafísica para a ética, moralidade ou justiça. Valores desse tipo eram meras construções humanas. Eles não possuem sentido fora do que os seres humanos, individualmente ou coletivamente, atribuem a eles. Nietzsche similarmente rejeitou a visão da história representada pelo historicismo de Hegel. Uma das primeiras obras de Nietzsche, Dos Usos e Abusos da História, é um ataque contra Hegel. A visão linear da história contida no sistema filosófico de Hegel teve muitos precedentes no pensamento ocidental, com raízes alcançando tão longe quanto Aristóteles.

Segundo Nietzsche, a história não tem propósito. É uma mera série de eventos que não possuem sentido próprio, além dos significados subjetivos adotados por indivíduos e grupos humanos relativos a seu próprio tempo, lugar, e experiências. A filosofia de Nietzsche era um ataque a virtualmente todo o legado da metafísica ocidental desde o tempo de Platão.

Nietzsche considerava a idéia oitocentista de progresso, e a miríade de ideologias, movimentos, e causas do tempo que eram uma manifestação dessa idéia como superstições na mesma medida das superstições teológicas que dominavam a era cristão. Sua parábola do louco encontrada em A Gaia Ciência deve ser interpretada desse jeito. Nietzsche está ridicularizando os intelectuais de seu tempo que acreditavam ter alcançado um estado superior de iluminação, e que se consideravam como os progenitores de uma civilização superior. Ele ao invés está defendendo que os pensadores de seu tempo ainda não reconheceram completamente as consequências da "morte de Deus" para a civilização ocidental.

Ao invés, eles estão simplesmente tentando encontrar substitutos trocando velhos dogmas e piedades por novos. Entre esses novos deuses estão o socialismo, o liberalismo, o utopianismo, o humanismo, o nacionalismo, a democracia, o racismo pseudo-científico do tipo representado por pensadores como H.S. Chamberlain e o antissemitismo de seu ex-amigo Richard Wagner. Tais esforços são descartados por Nietzsche como métodos de evitar ou adiar a crise existencial que a civilização ocidental eventualmente teria que encarar. Nietzsche atacou até mesmo os conservadores de sua era por fazerem concessões demais aos movimentos igualitários ascendentes como a democracia e o socialismo, e por manterem sua lealdade à carcaça do Cristianismo. Ele descartava as aristocracias europeias tradicionais como fracas e decadentes, e ele também se opunha aos movimentos nacionalistas de seu tempo como sintomáticos das sociedades igualitárias de massa compostas por indivíduos medíocres que ele via no horizonte. Nietzsche profeticamente sugeriu que o século XX seria um tempo de grandes guerras entre movimentos ideológicos de massa de seu tempo, e que somente no século XXI a crise existencial da civilização seria completamente reconhecida.

A profecia de Nietzsche de que o século XX seria um tempo de guerra em uma escala sem precedentes entre forças ideológicas polarizadas encontrou sua realização na Grande Guerra e então na Segunda guerra Mundial, e a destrutividade dessa última ultrapassou até mesmo a brutalidade chocante da primeira. O sofrimento e morte geradas pelas duas guerras mundiais, e a invenção de tecnologia de armas com a capacidade de destruir toda a humanidde demoliu a fé oitocentista no progresso e empurrou os intelectuais do pós-guerra em direção a um confronto com as implicações niilistas da ciência e filosofia modernas do tipo sobre o qual Nietzsche escreveu. O existencialismo, com suas raízes implícita ou explícitamente nietzscheanas, tornou-se a perspectiva filosófica dominante para intelectuais em meados do século XX. O existencialismo representa um esforço para confrontar a crise do niilismo sugerida por Nietzsche e o problema sério que essa crise representa para a ética humana e a questão do sentido. Se a existência não tem sentido, então qual é a base do comportamento humano adequado? Se Deus está morto, tudo é permitido, como Dostoevsky sugeriu? As lutas dos pensadores existencialistas com essas questões são famosamente ilustradas, por exemplo, pelos esforços da existencialista-feminista Simone De Beauvoir para estabelecer um modelo de ética em face da insignificância da existência apontando para a comunalidade da experiência humana, e a possibilidade de criar virtudes compartilhadas e valores que avancem os interesses humanos no reino da experiência vivida, mesmo que esses valores no fim das constas não possuam fundação ou sentido objetivo ou cósmico. Seu companheiro Jean Paul Sartre afirmava que poder-se-ia criar o seu próprio sentido participando nas atividades sociais ou políticas do próprio tempo ou mesmo abraçando o irracional, por exemplo, tornando-se cristão devoto ou comunista militante. O próprio Sartre escolheu a segunda opção.

O Futuro

Nietzsche previu que seria bem dentro no século XXI antes do pensamento ocidental confrontar completamente a crise do niilismo. Então logo pareceria que ele estava correto. O pensamento ocidental desde o Iluminismo havia tentando compensar pela perda da velha fé substituindo a visão-de-mundo cristã desacreditada com novas fés e novas piedades. Conforme essas foram se tornando cada vez mais difíceis de justificar dentro de uma moldura de racionalidade e crença em um "progresso" inevitável, os intelectuais ocidentais cada vez mais recuaram no irracional. Isso é ilustradi pelo curioso fenômeno dos presentes esforços pelas elites intelectuais ocidentais para abraçar o pós-modernismo, com seu relativismo cultural e moral acompanhando, e ao mesmo tempo abraçando o fanatismo moralista igualitário-universalista-humanista popularmente rotulado "politicamente correto" e defendendo com grande piedade cruzadas liberais como "direitos humanos", "anti-racismo", "liberação gay", feminismo, ambientalismo e similares. Tal perspectiva, que combina o extremo moralismo no reino cultural e político, completo relativismo moral no reino filosófico ou metafísico, e às vezes até cai no subjetivismo no reino epistemológico, é fundamentalmente irracional, é claro. Que tal perspectiva tenha se tornado tão profundamente enraizada indica que os intelectuais ocidentais estão desesperadamente trabalhando para evitar uma confrontação total com a crise do niilismo.

Pareto afirmava que as civilizações morrem quando suas elites perdem fé em suas próprias civilizações em tal medida que a vontade de sobreviver não mais existe. As elites políticas e culturais ocidentais exibem um claro desprezo pelo legado de sua civilização, como demonstrado por sua filiação a ideologias anti-ocidentais como "multiculturalismo" e seu apoio por políticas públicas tais como permitir a imigração em massa para o Ocidente vinda do Terceiro Mundo, que ultimamente significa a conquista demográfica e morte da civilização ocidental. A presunção das elites atuais é que uma alteração demográfica dramática pode ocorrer sem consequências notáveis, ou que a destruição da própria civilização ocidental pode ser desejável. A prevalência de tais atitudes novamente indica que o niilismo cultural tornou-se profundamente entrincheirado. Porém esse niilismo até agora tem estado mascarado por platitudes liberal-humanistas de crescente burrice.

Ainda está pra ser visto o que lançará os holofotes sobre essa crise. Ameaças genuínas à própria sobreivência da civilização ocidental podem bem forçar esse confronto. Estas podem incluir a ameaça de terrorismo nuclear, colapso econômico ou catástrofe ecológica, a escassez de recursos dos quais a civilização depende, ou o encrentamento com um rival ideológico que representa uma ameaça existencial.  Conforme mudanças demográficas de magnitude a ameaçar a despossessão cultural tornam-se cada vez mais iminentes, e conforme as consequências tornam-se cada vez mais inegáveis, talvez um despertar e renovação culturais começarão. De outro modo, pode até ser o caso que a modernidade e pós-modernidade ocidentais eventualmente sofrerão o mesmo destino que a civilização grecorromana da antiguidade.