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25/02/2014

Colin Liddell - Não desistir de Kiev sem lutar

por Colin Liddell



As coisas na Ucrânia estão se movendo rápido. A essa altura na semana que vem, quem sabe onde estaremos. Esse tremendo ritmo de eventos já é de se esperar de um país que não teve uma chance de ter sua própria história, e que, nas semanas recentes, parece estar passando por casa fase histórica que estava faltando, de cercos medievais e batalhas envolvendo a formação romana testudo, aos protestos hippies da década de 60.

Uma preocupação para aqueles entre nós que nos opomos ao Império do Mal da unipolaridade ocidental é que uma vitória para as forças pró-ocidentais na Ucrânia será um golpe sério na Rússia, um Estado que é cada vez mais a principal esperança para tradicionalistas e nacionalistas ao redor do mundo. Uma derrota para a Rússia pode até levar outras partes do império de Putin a tirar coragem para se separar. Se assim, há um medo de que a Rússia será fragmentada novamente. Como alguém disse, com a Ucrânia, a Rússia é um império, mas sem ela, ela é só um país.

Superficialmente, há muito a se dizer sobre esses medos, mas subjacentes a eles há um certo número de pressuposições. Vamos lidar com elas uma de cada vez.

(1) A situação é um jogo de soma zero. A Ucrânia se afastando da Rússia e se aproximando da União Européia fortalecerá esta às custas da primeira.

As coisas podem parecer assim para alguns, mas também é importante lembrar os muitos problemas que se acumulam dentro da União Européia. Ela está ligada a uma moeda defeituosa, possui grandes desigualdades econômicas, e encara divisões nacionais e culturais recentes. Os resultados prováveis das eleições parlamentares da União Européia em maio também exacerbarão bastante esses problemas - como o faria a Ucrânia se tornar mais dependente da União Européia.

A verdadeira fraqueza da União Européia é que ela é parte da unipolaridade do Ocidente sem ser o centro. Ela, portanto, não desfruta dos benefícios plenos da hegemonia global ocidental, como a América com a sua habilidade de criar suprimentos quase infinitos de dinheiro grátis.

Somada a essa perifericidade geral está a perifericidade da maioria da União Européia, especialmente estados como Grécia e Ucrânia, caso ela adentre o abraço do Anel de Estrelas.

Países fora do Eixo Franco-Germânico central da União Européia sempre serão cidadãos e segunda categoria do que é, na verdade, um sistema de segunda categoria na matriz global americana. Isso significa que tais nações estarão sujeitas a várias formas de exploração econômica e estarão no final da fila na hora de colher os benefícios.

Nesse momento o otimismo impele o entusiasmo pela União Européia, mas isso dificilmente deve sobreviver a um contato prolongado com a realidade efetiva.

(2) O sucesso econômico da União Européia fortalecerá a União européia e os Estados que a orbitam.

Há, é claro, a possibilidade de que a União Européia permanecerá unida e superará a maioria de seus problemas econômicos e contradições sérias, e que o impacto das eleições de maio será defletido de alguma maneira. Uma União Européia economicamente bem sucedida estaria, portanto, em uma posição de encontrar um caminho para escapar de problemas a Grécia ou as elevadas expectativas da Ucrânia aparecerem na sua porta, com o chapéu na mão. 

O problema com essa suposição é que ela equipara materialismo e consumismo a força real, quando na verdade o que se dá é o oposto. Isso é algo que os governantes da Rússia devem ter em mente, especialmente quando eles estão muitas vezes inclinados a competir com o Ocidente em seus próprios termos.

Uma União Européia economicamente bem sucedida, incluindo a Ucrânia, seria simplesmente uma com populações cada vez mais gordas e inchadas, assoladas por confusões de gênero, taxas de natalidade cada vez menores (exceto entre imigrantes), a necessidade de importar cada vez mais desses para fazer o trabalho sujo conforme as ondas iniciais acham seu caminho até o welfare, e um profundo senso de culpa e auto-desprezo.

Após alguns décadas de tais benefícios do ingresso na União Européia, os bravos combatentes do Maidan, que heroicamente se lançaram contra a polícia e fizeram o governo tremer, estaria tateando em busca do controle remoto e de batatas chips, para ouvir o quão maravilhosa é a "diversidade" enquanto os muçulmanos locais "preparam" suas filhas para sofrerem estupro grupal. 

(3) Estamos engajados em algo como o jogo de tabuleiro "Risk"

Não estamos. Espaço e território são importantes mas, como os russos demonstraram em 1812 e 1941-42, não é tudo. É um recurso que deve ser voluntariamente sacrificado para preservar recursos muito mais importantes da raça e do espírito nacional. O verdadeiro conflito que deve ocorrer não é um reconfortante de mapas bonitos e limpos, que, eu noto, estão começando a se proliferar em discussões sobre a Ucrânia, mas multidimensional e que transcende mapas, que são essencialmente inúteis nesse conflito.

Olhe para o mapa da Europa. Há alguma linha mostrando uma fronteira segura ou uma que uma companhia multinacional não possa simplesmente atravessar sem fazer esforço?

Esses mapas mostram informações realmente importantes?

Olhe para a França, tão grande quanto era após a Primeira Guerra Mundial. Mas o mapa mostra as centenas de "zonas urbanas sensíveis" que tem emergido nas décadas recentes? Não, isso daria ao cartógrafo uma dor de cabeça, especialmente porque as fronteiras desses enclaves certamente devem mudar a crescer.

Olhe para os mapas da Noruega e da Suécia. Eles apontam para os locais dos milhares de estupros por meio dos quais "refugiados" afirmam seu domínio sobre a passiva população local?

Seus mapas mostram a concentração de feministas, a inundação de pornografia, a construção de mesquitas, a colonização de maternidades, e as estatísticas de emprego de asilos, onde imigrantes são cada vez mais empregados para ajudarem os indígenas a se livrarem de sua carcaça mortal?

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A Rússia pode até perder a batalha pela Ucrânia, mas a batalha real é uma que deve ser travada no interior de cada país - a rejeição de todos os valores destrutivos afirmados pela unipolaridade ocidental.

Semanas recentes tem mostrado o quão duro o povo ucraniano é, como eles podem lutar. Os russos também, sabemos, são duros. Mas é a preservação dessa dureza que é fundamental para a sobrevivência.

Se a Rússia fosse mais rica e pudesse oferecer aos ucranianos um acordo melhor, ela bem poderia ter derrotado a marcha da União Européia sobre Kiev, mas se ela fosse rica o suficiente para fazê-lo ela provavelmente seria tão corrupta e fraca quanto o Ocidente é agora, e portanto fatidicamente arruinada.

A guerra a ser travada não é com tijolos e molotovs nas ruas de Kiev, sustentada por links de facebook com histórias revelando que informante de qual Departamento de Estado disse o que. A batalha a ser travada é a muito mais longa e profunda de reter energia espiritual e poder moral através de uma adesão às verdades eternas do tradicionalismo e do nacionalismo.


18/01/2014

Colin Liddell - O Último Samurai

por Colin Liddell



Segundo Steven Pinker (e uma grande quantidade de dados plausíveis reunidos pelo cientista social verborrágico e de cabelos esvoaçantes em seu último livro Os Melhores Anjos de Nossa Natureza) nós estamos vivendo em um mundo onde a guerra encolhe de forma gradual, porém inexorável, como os lendários Reis de Punt, cada um dos quais supostamente menor que seu pai.

Essa tendência, ao invés do poder dos russos, pode ter sido o que estava por trás da decisão do Presidente Obama e do Primeiro-Ministro Cameron de recuar em relação a Síria ano passado. Essa é a mais terrível guerra da atualidade, mas ela ainda é essencialmente uma questão local e uma minúscula espinha no brutalitômetro que mede os poderosos ápices do passado.

A nível individual, o nível que Pinker obviamente mais valoriza, a guerra é um grande desperdício. E ele pode ter razão, já que uma das piores coisas sobre ela é que ela seleciona negativamente - e abate - os melhores, mais corajosos e os indivíduos mais altruístas, as próprias pessoas que fazem qualquer sociedade ter sucesso.

Mas ela também é o teste máximo de um povo e sociedade, desde que os líderes saibam o que estão fazendo. Uma das principais tragédias da Segunda Guerra Mundial foi que no caso da Alemanha e do Japão eles obviamente não sabiam, de modo que a incrível bravura, disciplina, resistência, e espírito de sacrifício de seus soldados comuns foi finalmente desperdiçada.

É, portanto, com um pouco de tristeza - mas não muita, já que ele tinha 91 anos  - que soubemos hoje da morte de Hiroo Onoda, o soldado japonês que famosamente se recusou a se render quando seu país o fez, escolhendo ao invés seguir lutando com uns poucos colegas nas selvas da Ilha Lubang nas Filipinas até 1974, quando ele se rendeu sozinho e apenas após seu oficial comandante foi levado de avião para rescindir sua ordem original de não se render. Após isso houve uma cerimônia de rendição com o Presidente Ferdinand Marcos e então um retorno heróico ao Japão.

A guerra é uma iniciativa multifacetada que demanda uma grande amplitude de habilidades e atributos, mas mais do que a habilidade barulhenta e brilhosa de invocar campos de fogo, abalar a terra, acelerar a taxa de extermínio, ou até conquistar corações e mentes, é a simples, até mesmo teimosa qualidade de se manter firme segurando a arma, mesmo que ela esteja enferrujada, sem balas ou seja feita de bambu. Essa é uma qualidade que Onoda tinha de sobra. O escrito podia estar no muro, mas ele escolheu mijar no muro.

É relatado que ele ignorou diversas tentativas de fazê-lo se render, incluindo uma envolvendo panfletos jogados pelo governo japonês. Ele disse que os desconsiderou devido a erros gramaticais que ele pensou as desmascaravam como um complô americano.

Obviamente, tal teimosia não é suficiente por conta própria - e é claro que Onoda e seu cada vez menor bando de homens não representavam ameaça para o Estado filipino do pós-guerra - mas sem tal qualidade mesmo o maior poder de fogo sobre a terra pode se provar inadequado.

Uma das razões pelas quais Onoda foi tratado como herói no Japão foi o tempo de sua rendição. Ela veio em uma encruzilhada importante, dois anos depois do retorno dos americanos à ilha de Okinawa no Japão e logo em seguida a sua derrota pelos vietnamitas, um povo que os havia derrotado por um emprego similar de teimosia. O envolvimento direto dos EUA no Vietnã acabou em 1973 com os Acordos de Paz de Paris.

Se Pinker está certo e a guerra é, como a incineração de gatos, as execuções públicas e a tortura medieval, mais uma vítima do "processo civilizatório" que ele descreve, é improvável vermos homens como Onoda novamente, mas uma coisa que seu exemplo nos ensina é que, mesmo em tempos de suposta paz, um homem pode decidir continuar a lutar, com seus próprios meios, por tanto tempo quanto ele deseje.

04/01/2014

Colin Liddell - Juiz Dredd: O Herói da Anticivilização

por Colin Liddell



Cada sociedade e civilização tem seus heróis, sejam deuses, humanos ou uma mistura de ambos. Tem sido o destino da América e da civilização ocidental global que ela lidera serem representados nesse sentido primeiro por caubóis e posteriormente por cruzados mascarados.

I - O Caubói Futurista

O primeiro paradigma heróico dessa civilização foi o caubói, mas porque este estava também associado com o que se tornariam depois os principais tabus dessa civilização - nomeadamente racismo e sexismo - o caubói demonstrou ter suas limitações. Conforme esse paradigma heróico começou a decair, ele foi substituído por outro que partilhava sua característica essencial de individualismo sitiado, mas livre de suas "excrescências históricas infelizes". Este foi o super-herói, inicialmente a criação de escritos e artistas de histórias em quadrinhos.

Em contraste ao caubói, o super-herói era mais urbano, menos "WASP", e menos masculino. Na verdade, em sua vida dupla e fantasias bizarras havia até um traço do forasteiro racial sobre ele e até um toque do homossexual. Hoje o paradigma do super-herói quase ocupa a mesma proeminência em Hollywood que o Faroeste outrora ocupou.

Nada torna essa transição do caubói para o super-herói, bem como o elo subjacente entre ambos gêneros, mais clara que o advento do Juiz Dredd, o policial futurista de Mega City Um, uma vasta e esparramada Dodge City do século 22. Até mesmo o tempo é indicativo. O verdadeiro toque fúnebre para o Faroeste foi a contundente paródia de Mel Brooks, Blazing Saddles (Banzé no Oeste), que saiu em 1974. O Juiz Dredd apareceu apenas três anos depois em uma edição da revista britânica de ficção científica 2000 A.D.

Ainda que os super-heróis estivessem gradativamente eclipsando os caubóis na cultura popular desde a década de 30, Dredd foi interessantemente o mais abertamente caubói, sugerindo uma transferência final do espírito do caubói ao novo paradigma ascendente do super-herói. Dredd era essencialmente um caubói do futuro. Ele pilotava uma "Lawmaster", uma motocicleta fortemente armada com inteligência artificial que era capaz de responder a comandos de vos; em outras palavras, um cavalo substituto. Sua arma de escolha era a pistola "Lawgiver", um substituto para os revólveres de 6 balas das lendas do faroeste. Ao invés de seis balas, porém, ela disparava seis tipos diferentes de munição. Ele também usava um distintivo, assim como um xerife e, é claro, sua frase clássica "Eu sou a lei" não teria estado fora de lugar na boca de Gary Cooper.

E então há a conexão com Clint Eastwood, alguém que presidiu sobre a morte do Faroeste e ajudou a transmutá-lo em outra coisa sob a capa de seu detective linha-dura Harry Callahan. Em Dredd há elementos tanto de The Man With No Name como de Dirty Harry. Dredd é um policial durão, inflexível, pragmático, que gosta de fazer as coisas sozinho; e enquanto o caubói de Eastwood era anônimo de nome, Dredd está perpetuamente sem face sob seu elmo - uma anonimidade que é profundamente significativa como veremos. Ele até mesmo usa seu elmo quando relaxa em casa no Rowdy Yates Block, um complexo residencial batizado com base no personagem de Eastwood na série de TV Rawhide. Para que a essência do caubói sobrevivesse para além da década de 70 ela precisou se transfomar em algo como Dredd, e em Dredd foi o que aconteceu.

II - Wagner

É um fato estranho que esse herói quintessencialmente americano tenha sido criado por um homem que cresceu na cidade portuária escocesa de Greenock. Filho de um militar americano e uma noiva de guerra escocesa, John Wagner nasceu nos EUA em 1949, mas se mudou para a Escócia aos 12 anos quando seus pais se divorciaram. Como posso testemunhar, se mudar para um ambiente duro e proletário escocês nessa tenra idade pode ser um grande choque. (No meu caso, eu voltei para a Escócia da África do Sul aos 11 anos). Essa experiência, sem dúvida, teve sua influência no desenvolvimento de Wagner e subsequentemente no de seu personagem estóico e legalmente obcecado.

Após um tempo trabalhando para D.C. Thompson, a empresa baseada em Dundee que há muito tem dominado o mercado de quadrinhos do Reino Unido, Wagner trabalhou como freelancer como escritor para uma variedade de projetos de quadrinhos, incluindo, surpreendentemente, diversos focados em garotas pequenas.

Antes de sua criação de Dredd, ele também escreveu o excelente Darkie's Mob, uma série de quadrinhos de guerra publicada na revista Battle sobre um soldado britânico dissidente careca combatendo japoneses por trás das linhas inimigas em Burma. Darke tem muito da mesma atmosfera psicológica e aura de violência de Dredd, e faz imaginar que traumas o jovem Wagner pode ou não ter suportado em Greenock na década de 60.

Enquanto Wagner contribuiu com a alma dura e pétrea de Dredd, o artista espanhol Carlos Ezquerra, outro veterano de quadrinhos de romance para garotas, contribuiu com a aparência peculiar de Dredd - parte motociclista gay, parte estrela de futebol americano, com um leve toque de toureador espanhol. Fazê-lo parecer com um caubói teria sido óbvio demais, e, é claro, teria derrotado o propósito de modernizar e transmutar o paradigma heróico do Faroeste em algo mais aceitável para a modernidade multiculturalizado e transgenerizada.

Ainda que Dredd seja em essência um herói de Faroeste, o ambiente em que ele opera é na verdade o exato oposto do Velho Oeste. Um caubói, afinal, é uma figura heróica sobreposta a uma paisagem majoritariamente esvaziada ou pelo menos esparsamente populada. A ressonância entre o homem e a montanha, ou o homem e a planície, é essencial para criar o importante senso de liberdade.

Esse ambiente, no qual a civilização é apenas uma tímida presença, permite ao caubói existir mais plenamente como indivíduo. Os atos do homem são mais do que iguais aos processos da sociedade, algo que se traduz na mente moderna como "liberdade". Esse não é um mundo em que a dialética marxista e a dinâmica de classes tem muita chance. Esse mito do indivíduo socialmente desincorporado é a essência do caubói e era valioso demais para o Ocidente Global para ser jogado fora com as botas de caubói, a sela e a espora. Ele tinha que ser atualizado e reiniciado.

III - Desertos e Distopias

Enquanto o aspecto antissocial do caubói possui alguma validade nas fronteiras americanas do século XIX, é uma história diferente no mundo de Dredd, ou no nosso. Mega City Um, a vasta metrópole do século XXII, é uma cidade de centenas de milhões, se estendendo pela maior parte da costa leste dos Estados Unidos atuais. É uma distopia de claustrofobia, refletindo algumas das idéias do futuro dominantes no passado, quando era assumido que o mundo desenvolvido se movia na direção de um futuro Soylent Green com vasta superpopulação.

Essa densidade populacional é um dos elementos básicos das histórias de Dredd. Nos primeiros quadrinhos criminosos são encarcerados na Ilha do Diabo, uma prisão da qual eles não podem escapar, já que se localiza em uma ilha de tráfego particularmente ruim com tráfego em alta velocidade sem cessar por todos os lados. Em resumo, Mega City Um é massa efervescente de humanos, mutantes, robôs e até alienígenas. Mas apesar disso, assim como em Faroestes convencionais, os atos de um homem - Dredd - são mais que iguais aos processos da sociedade e às grandes forças sociais da história.

Não pode haver dúvidas de que Mega City Um é uma forma exagerada da modernidade contemporânea com todos os seus problemas. Tal sociedade merece um ícone cultural mais complexo e integrado que o oferecido pelo pistoleiro nômade, mas em Dredd e no super-herói moderno isso é exatamente o que ela consegue.

A equação (modernidade lotada) + (necessidade de manter a centralidade e potência do herói individual) explica a ascensão do super-herói. Em essência o super-herói representa uma caricatura necessária e simplificação grosseira de um mundo complexo. Nisso podemos ver uma dicotomia entre duas noções de história e sociedade, uma tipicamente assumida pela esquerda, a outra pela direita:

(1) O Povo é tudo.
(2) O Grande Homem é tudo.

Isso se conecta com as idéias expressadas pelo filósofo escocês Thomas Carlyle em Heróis e Adoração de Heróis (1841), em que eventos avassaladores são atribuídos à agência de grandes homens, mais do que "rebanhos humanos". O melhor exemplo de Carlyle é Maomé, o Profeta do Islã.

"...esse sensível Filho do Deserto, com seus luminosos olhos negros e profunda alma social, tinha outros pensamentos nele que a ambição. Uma grande alma silenciosa; ele era um daqueles que não pode não ser grave; que a própria Natureza apontou para ser sincero. Enquanto outros caminham em fórmulas e boatos, contentes o suficiente para aí habitar, esse homem não poderia se projetar em fórmulas; ele estava sozinho com sua alma e com a realidade das coisas. O grande Mistério da Existência, como eu disse, brilhou sobre ele, com seus terrores, com seus esplendores; nenhum boato poderia ocultar esse fato indizível, 'Aqui estou!'. Tal sinceridade, como a nomeamos, tem na verdade algo de divino".

Nessa passagem, que tem muito da tonalidade messiânica outrora comum à parte da Escócia de onde Carlyle veio, o gênio individual e o super-homem espiritual atropelam a tudo mais. Apenas ele é capaz da consciência superior que lhe permite acessar "a realidade das coisas" e "O Grande Mistério da Existência". O espírito da história é focado naqueles grandes indivíduos que através de sua pessoa conectam o mundo sublunar ao transcendente, onde tudo é possível. O resto da humanidade, devemos assumir, são pouco mais que zumbis, vivendo em trevas e irrelevância que finalmente se manifestam em suas mortes anônimas.

É notável que Maomé operasse em um ambiente não dissimilar aos que vemos nos Faroestes - seco, árido, esparsamente povoado, e desprovido da dialética de massas do marxismo - e, de fato, isso até mesmo tem alguma semelhança à área em que Thomas Carlyle cresceu, uma área pastoral pouco povoada dominada por ovelhas e pastoreio de gado.

A cultura e iconografia americana moderna ainda reciclam um mito apropriado a uma paisagem que está agora em disparidade com a realidade da vasta maioria dos americanos. Seu país é uma matriz social cada vez mais lutada e interdependente, onde o Grande Homem encolhe em importância, enquanto o Povo - e as agências e burocracias que operam em seu nome - incham. A centralidade do Povo é aparente até nas manifestações das extremidades lunáticas "direitistas" oficialmente sancionadas da América. Um trecho do populismo de Glen Beck demonstra isso amplamente:

"Deixem-me dizer algo. Eu acredito que se dependesse de você ou de mim, apenas pessoas comuns na América, a Freedom Tower teria sido feita anos atrás. E não teria sido a Freedom Tower; teriam sido as Freedom Towers - porque nós teríamos construído essas torres como elas eram antes! Exceto que as teríamos construído mais fortes! Nós as teríamos construído de uma maneira que resistissem a ataques. E sabe o que mais? Meu palpite é que elas teriam sido 25 andares mais altas, com um grande e gordo sinal de VENHAM E TENTEM DE NOVO no topo. Nós as teríamos construído com nossas próprias mãos se fosse necessário, porque é isso que americanos fazem. Quando falhamos, quando encaramos uma crise, nós nos levantamos e tornamos tudo melhor. Eu creio que a única razão pela qual não a construímos não é por causa de americanos. É porque estamos sendo segurados. E quem está nos detendo? Políticos. Grupos de interesses especiais. O politicamente correto. Você dá o nome - todo mundo menos você". 11 de Setembro de 2009.

Aí você tem: os "pequenos grandes homens" sentido detidos por grandes homens malignos - e com a utopia há apenas um suspiro de distância! Se apenas o pequeno homem pudesse ser "livre" aí então a grandeza estaria garantida...

IV - O Fim da História

Mas enquanto a "pessoa comum" foi forçada ou mesmo inspirada no passado a construir vastos edifícios ou, pela ação coletiva, equiparar a grandeza dos grandes homens, no mundo moderno ele não possui vontade de se afastar de seus entretenimentos, distrações e consolações para de algum modo heroicamente reconstruir a Torre de Babel representada pelas Torres Gêmeas (o signo final da igualdade!) com suas próprias "mãos limpas". Na ausência de coerção ou inspiração, em resumo, forças históricas, a história acaba. A ação perde sua dimensão social e se torna uma narrativa super-heróica removida da realidade e outra distração como a NBA para as "pessoas comuns" do Beck.

A receptividade de nossa cultura ao super-herói é aparente em nossas mais características formas de guerra, o drone e o míssel. Em lugar do sangue e suor dos homens heróicos e vastos exércitos, lutando e alcançando grandeza através da dor, do sacrifício e da morte, um aparelho metálico zumbificado paira pelos céus distribuindo morte e vingança sem custo aparente para nós; mesmo nos permitindo os prazeres confortáveis de assistir a destruição de "nossos inimigos" - ainda outro entretenimento e distração conforme somos sugados a apoiar outro time que não tem nenhuma relação com quem somos ou quem poderíamos ser. O super-herói é a manifestação cultural da irrealidade que criamos em outras áreas.

Em adição à tensão entre história-como-ação-de-massa e história-como-espetáculo-de-um-homem, há a dicotomia de história-como-participação e história-como-espetáculo-passivo. Uma história do Juiz Dredd mais que todas as outras demonstra a tendência de narrativas históricas de "desistoricizar" as massas, e, ao fazê-lo, destruir sua identidade e consciência.

A Guerra do Apocalipse, escrita por Wagner e Alan Grant, outro escocês, e ilustrada por Ezquerra, foi serializada em diversas edições de 2000 A.D. em 1982, em uma época em que a Guerra Fria estava entrando em sua fase intensa tardia. Em outras palavras, as forças históricas do final do século XX estavam em seu ápice. À época forças soviéticas combatiam no Afeganistão contra Mujahideen apoiados pelos EUA, e a OTAN estava introduzindo mísseis cruzadores para contrapôr à ameaça representada pela recente introdução dos mísseis nucleares soviéticos SS-20, móveis e de alcance intermediário. Tendo crescido em Greenock, uma cidade próxima a duas bases de submarinos nucleares - Faslane (Marinha Real) e Holy Loch (Marinha Americana) - Wagner deve ter sido particularmente consciente do espectro da Guerra Fria.

A coisa mais óbvia sobre a história é o papel completamente dominante de Dredd. Os grandes temas de conflito histórico entre nações são efetivamente reduzidos a uma batida policial feita por um policial solitário com todas as forças de Mega City Um reduzidas a papel coadjuvante.

Após um ataque nuclear massivo que varre a maior parte da cidade, as forças Sov-Bloc, comandadas pelo Marechal Kazan, pousam e assumem o controle do que resta de Mega City Um. Sem preocupação com problemas de escala, a história então mostra Dredd liderando uma guerrilha bem sucedida contra os invasores. Dredd então lidera um grupo seleto de juízes para capturar uma base de mísseis inimigos, desde onde ele lança o Armageddon sobre East-Meg Um, destruindo a cidade rival.



Ele então se rende às forças East-Meg para ser levado à nave comandante de Kazan. Aí ele é torturado, mas então o antigo segundo-em-comando de Kazan, Izaaks, que havia sido rebaixado a status de cadete por causa dos sucessos anteriores de Dredd, o ajuda a escapar. Dredd então caça Kazan, enquanto os guardas Sov-Bloc, insatisfeitos com o comportamento tirânico de Kazan, se mantém à parte. Após executar Kazan por crimes contra Mega City Um, Dredd demanda a rendição incondicional das forças Sov-Bloc. Izaaks, que agora parece estar no comando, obedece.

A atmosfera dessa história ecoava o tom da cobertura de imprensa majoritariamente Tory à época, que geralmente apoiava a postura robusta do governo britânico perante a União Soviética, mas os quadrinhos também levantam uma questão inusitada: como poderia o Ocidente real, sem um deus ex machina como Dredd, encarar a impiedade então associada com a União Soviética?

Outra questão era a natureza do próprio Dredd. Ainda que haja muito a admirar no heroísmo físico de Dredd, há um senso de vazio psicológico. Dredd possui uma qualidade mecânica e inumana que é enfatizada por sua invencibilidade e impiedade. Sua motivação ao longo da história permanece nas sombras. Comparativamente, os personagens East-Bloc Kazan e Izaaks parecem positivamente humanos.

V - Guarda-Costas do "Último Homem"

Um problema com recriar a dinâmica do Faroeste em um mundo de mega cidades é que as massas são inadvertidamente reduzidas a pouco mais que ovelhas ou insetos, enquanto os heróis são forçados a existir em um nível superior e implicitamente anti-humano. Isso explica o estoicismo pétreo dos juízes, que é levado a extremos no Juiz Dredd. Ele carece de emoção e se comunica com as pessoas como um robô, as vendo meramente como cidadãos ou infratores que devem ser punidos, independentemente de circunstâncias atenuantes. Desnecessário dizer que tal atitude reducionista é uma mentalidade bastante atraente no mundo complicado atual, onde a atomização da sociedade e alienação do indivíduo possuem efeitos similares.

Ter emoções equipararia Dredd com as massas que ele guarda e governa tão zelosamente, e tornaria seu status heróico um absurdo. Dessa maneira, o princípio heróico trabalha para desvalorizar não só os processos históricos em favor do Grande Homem, mas o próprio Grande Homem é estripado e transformado em um tipo de autômato, enquanto o Povo é reduzido a um ruído de fundo.

Em quase toda história, o Juiz Dredd é o fator determinante entre a sobrevivência e o desastre. Em As Guerras Robóticas (10-17) ele derrota uma rebelião de robôs. Em A Terra Amaldiçoada (61-85) ele transporta uma vacina vital através de um deserto pós-nuclear até Mega City Um na costa oeste, no processo revivendo uma versão psicodélica da história da fronteira americana. Em O Dia Em que a Lei Morreu (89-108), ele é o pretoriano incorruptível situado entre o status quo e a tirania caligulesca do maligno Juiz Cal. Se mentalmente subtrairmos Dredd, cidades inteiras são destruídas, varridas por vírus, ou governadas por psicopatas.

Ainda que Dredd esteja ostensivamente fazendo o bem, tais inexoravelmente heróicas baseadas em um único personagem também criam um sentimento de ambivalência, um senso de que algo está profundamente errado. Nós temos uma sensação de que o herói é meramente um bandaid para uma decapitação. Na história após a história, Dredd, como qualquer outro super-herói, parece existir por nenhuma outra razão do que para impedir sistemas que iriam e talvez deveriam entrar em colapso, de entrar em colapso.

Considerando as duas noções opostas de história - O Povo como tudo versus o Grande Homem como tudo - pode ser pelo menos dito que, apesar de suas contradições, ambas visões são pelo menos dinâmicas, implicando algum desenvolvimento, algum progresso em direção a algo. As tribos e classes lutam e criam revoluções, reinos e Estados, que também lutam, levando a Impérios, novas tecnologias e ideologias. Similarmente, o Grande Homem. Maomé, Colombo ou Napoleão, passos para a frente e novas religiões, continentes e realidades políticas vem à existência.

Ambas visões da história iniciam fases de luta que são essencialmente meritocráticas e progressivas. Dredd, porém, é a antítese de tudo isso. Ele detém o conflito porque todos os conflitos são de facto crimes, enquanto seu próprio poder carece de qualquer tipo de visão. Ele é essencialmente um conservador com esteróides agindo como peso morte sobre a sociedade que ele policia. Mas há algo pior: sem objetivos, visão, ambição ou até interesses próprios, ele não tem nenhum dos elementos que levam à consciência humana, assim ele é também a negação da consciência, ou o poder sem consciência.

Isso se torna aparente quando fazemos a pergunta, pelo quê exatamente o Dredd está lutando? O que é essa coisa importante pela qual ele se sente compelido a fazer qualquer sacrifício? Mega City Um? Mas Mega City Um é uma distopia, uma entidade feia em que pessoas supérfluas levam vidas sem sentido, uma desolação urbana cancerígena que aprisiona a humanidade em uma massa indiferenciada, onde qualquer coisa parecendo progresso é apenas outro crime.

Talvez isso tenha algo a ver com a natureza sem saída da rebelião punk que foi outra influência importante, ainda que tangencial, sobre o Juiz Dredd. O ano do nascimento de Dredd - 1977 - foi também o ano dos Sex Pistols e Anarchy in the UK. Não é coincidência que o insulto mais comum usado pelo Juiz é "punk" [vagabundo]. Mega City Um é a Grã-Bretanha pré-pós-industrial da década de 70 exagerada e transferida para uma América do futuro. O período de maior popularidade de 2000 A.D., quando eu lia a revista, coincidiu com a "Revolução Des-industrial" de Thatcher, em resumo, a morte do proletariado especializado e sua substituição por uma força de serviço laboral não-especializada com um rabo inchado de welfare.

Essa era a onda do futuro para um mundo ocidental consumista que podia descobrir maneiras de pagar por importações massivas sem exportar muito em retorno, e é essa sociedade de deslocamento econômico mantida unida por uma previdência social que encontramos congelada no mesmo lugar pelo poder dos Juízes.

Enquanto a Metropolis de Fritz Lang é um lugar de labuta sem fim, ela pelo menos é mitigada por um cenário art deco de classe. A Mega City Um de Dredd, porém, é um lugar de lazer deprimente e imposto em meio a uma paisagem que evoca uma máquina de pinball de diversos níveis cruzada com um shopping americano. Com uma taxa de desemprego de mais de 90%, a população leva vidas feias e sem direção em vastos blocos de apartamento contendo mais de 50.000 pessoas cada. Elas não passam, como as pessoas do mundo de Star Trek supostamente fazem, seu tempo melhorando a si mesmas.

Essencialmente esse é o reino do Último Homem de Nietzsche sob a supervisão do Übermensch na figura dos Juízes, mas enquanto o Último Homem e o Übermensch de Nietzsche representam conceitos antitéticos de humanidade, no Juiz Dredd elas alcançaram uma simbiose estagnada e perturbadora. Os Juízes servem como guarda-costas e facilitadores dos impulsos mais passivos do Povo, enquanto a luta para defender e controlar o Povo dá aos Juízes um simulacro vazio de propósito. Essa aliança profana não é apenas uma noção exótica confinada às páginas de uma revista em quadrinhos. Há paralelos perturbadores com a América moderna e o Ocidente em geral, onde vemos a previdência social inchando em paralelo com a paramilitarização do policialmente e o fortalecimento do Estado Big Brother de vigilância.

VI - Parando o Relógio

A principal fonte do drama nas histórias do Juiz Dredd vem do fato de que muitos dos habitantes de Mega City Um - inúteis como são - estão insatisfeitos com seu estilo de vida de Último Homem. Conforto animal e existência vegetal em um Estado policial de bem-estar imenso não satisfazem todas as almas, e muitos dos crimes que Dredd tem que suprimir são impulsionados não pela pobreza ou necessidade real mas por excessos de hedonismo ou comportamento em busca de adrenalina. Outros crimes são crimes de ambição - mutantes, robôs, ou juízes errantes, como o Juiz Cal - que desejam reconhecimento, poder ou status divino, ou que simplesmente almejam por um desafio para matar a monotonia de uma civilização que só existe para negar a si mesma..

Deixados livres, é claro que os habitantes desse mundo, em busca de um conflito significativo, eventualmente romperiam o torpor e a ausência de sentido do Último Homem - sim, as pessoas são boas no fundo, mas não da maneira que se costuma dar a entender isso - e começariam a se mover, de uma forma confusa, na direção meritocrática do Übermensch, ou pelo menos em direção a algo mais significativo. Mas, infelizmente, o ideal do Übermensch já existe em Mega City Um, de forma pervertida, na pessoa do Juiz Dredd, que ao invés as reprime em sua condição negativa.

Essa situação reflete a ambivalência sentida em um número de sistemas filosóficos sobre o chamado ponto final da história. Esses incluem o paradoxo apresentado pela singularidade hegeliana, o ponto em que a dialética da história se resolve na "perfeição", onde o racional (a ideologia) e o real (o mundo que ela descreve) se tornam idênticos. A Escola de Frankfurt criticou essa idéia, apontando que o racional depende para sua existência de permanecer separado do real de modo a manter um sujeito e um objeto e uma distância crítica. Por causa disso, o "fim da história" foi visto com grande trepidação.

Isso os levou à conclusão de que, conforme a singularidade se aproximava, a razão se tornaria inaceitável, porque ela não mais seria "transcendentalmente crítica" e deixaria de estar em "oposição ao mundo". Havia, assim, uma necessidade de prevenir esse processo e circundar o momento climático.

Enquanto a Escola de Frankfurt via o desenrolar da história como uma trajetória messiânica falha com complicações na aproximação ao fim, outros, como o filósofo alemão Oswald Spengler, viam nele um processo cíclico, onde estagnação e decadência levam a uma fase de "cesarismo" ou tirania brutal que é finalmente resolvida por uma descida ao barbarismo e o começo de um novo ciclo de civilização.

Se olharmos para Dredd contra esse pano-de-fundo filosófico nós vemos que, desde uma perspectiva frankfurtiana, ele representa o momento em que a razão se torna um fator negativo, quando ela se torna puro poder tecnocrático cego, um instrumento acrítico de opressão que afirma cegamente o status quo.

Em termos spenglerianos, Dredd é um mal ainda maior - Cesarismo sem fim combinado com "barbarismo confortável". Ajudado pela apatia da maioria passiva, ele se opõe apenas àqueles que buscam perturbar a civilização inútil de Mega City Um, e, no processo, impedir a roda de girar. O Cesarismo se casa com a decadência. A Kali Yuga é prolongada indefinidamente, o Último Homem infinitamente estendido no punho do Übermensch.

VII - Juiz Morte

Dredd é um grande homem mas sem objetivos ou consciência para criticar o sistema ao qual ele impensadamente obedece. Ele é uma entidade vazia - um anti-Übermensch posto ao lado "sensível Filho do Deserto" com "o grande Mistério da Existência" brilhando sobre ele. Ele carece de consciência e do verdadeiro sentido do tempo do "sujeito transcendental".

Em "Ontologia do Futuro" um capítulo na Quarta Teoria Política, Aleksandr Dugin escreve sobre a ameaça representada pela tecnologia e pela globalização ao sujeito humano. Suas palavras evocam inadvertidamente o espectro de Dredd:

"Desenvolvimentos no projeto genoma humana, clonagem, avanços na robótica, e novas gerações de ciborgues, nos trazem mais perto do advento da pós-humanidade. O objetivo desse processo é produzir criaturas que careçam de uma dimensão existencial com subjetividade zero. Simulacros podem ser criados não apenas a partir da razão mas também da inconsciência. A faceta mais importante desse processo é a abolição do presente. Tais criaturas pós-humanas e objetos inanimados não possuem senso do presente". - Aleksandr Dugin , A Quarta Teoria Política.

Dredd, com sua execução robótica da "Lei" e sua imposição de stasis sobre o caos criativo nascente de Mega City Um, é o instrumento último de opressão e agente de "cronocídio" - um criminoso contra o tempo. Isso é inadvertidamente revelado na história que melhor captura a essência negativa desse caubói futurista, Juiz Morte Vive!

Publicada em 1981, essa história coloca Dredd contra o Juiz Morte, uma forma espectral de uma realidade alternativa, onde a vida em si foi julgada um crime e todos os habitantes foram por conseguinte executados por Morte e seus três juízes - Medo, Mortis e Fogo - que claramente evocam os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.

Enquanto um inimigo e aparente oposto de Dredd, o Juiz Morte é na verdade uma imagem espelhada de Dredd e o próprio Dredd levado a sua conclusão lógica. Não pela primeira vez somos apresentados a uma falsa dialética.

Vestido como Dredd, implacável como Dredd, ele é levado a extinguir toda a vida da mesma maneira que Dredd suprime qualquer coisa que possa desestabilizar o status quo distópico de Mega City Um. Como Dredd ele é um ser cuja consciência é um código não-pensante, governando um mundo que ele congelou em estado de rigor mortis. A face negra e escancarada do Juiz Morte não é nada além do que o Juiz Dredd desmascarado na performance de seu anti-dever de prolongar eternamente o estado do Kali Yuga.