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28/11/2025

Ernst Jünger - Peças Estrangeiras sobre a Guerra

 por Ernst Jünger

(1930)


 

Passaram-se mais de dez anos desde a Grande Guerra, e ninguém na Alemanha ousou considerar esse grande evento histórico como material para o teatro. O espectador, e sobretudo aquele que conhece a guerra por experiência própria, não pode deixar de pensar que esse período ainda é recente demais, que o tema ainda é sensível demais para ser apreendido com segurança, quanto menos dominado.

26/11/2025

Ernst Jünger - Sobre Linguagem e Estilo

 por Ernst Jünger

(1980)

 


A linguagem se expressa na fala; onde se encontra uma resposta, surge uma conversa. A palavra é um compartilhamento precedido por algo no falante. Nesse sentido, todo texto é, antes de tudo, um diálogo consigo mesmo. Isso também é evidente no cotidiano, em toda conversa, em todo texto. Surge uma pergunta, ela é feita ou respondida com maior ou menor precisão. Antes disso, há uma pausa. Durante essa pausa, o questionador prepara sua pergunta, e o questionado prepara sua resposta.

12/11/2023

Ernst Jünger - A Máquina

 por Ernst Jünger

(1925)


O mundo em que nascemos aparece para nós como algo evidente. Desde o momento de nosso nascimento, estamos cercados por uma infinidade de coisas e, com os primeiros indícios de consciência, aprendemos a defini-las mais claramente a partir do eu que as percebe. Ainda não podíamos falar e não sabíamos o que era movimento, mas o barulho dos trens que corriam sobre os trilhos através de florestas e campos já era algo familiar para nós. Se fôssemos crescer em alguma cabana entre as florestas virgens da América do Sul, nos familiarizaríamos com o movimento, observando as copas das árvores balançando ao vento, os pássaros voando e o voo de uma flecha. Aldeia, pássaros coloridos e flechas seriam algo natural para nós. Mas, dos braços de nossa mãe, observávamos enormes vagões de ferro e complicados mecanismos de aço, sem entendê-los nem um pouco. Essa verdade foi descoberta na história do pensamento há muito tempo: primeiro percebemos os objetos e só depois submetemos a variedade da experiência a uma classificação rigorosa. Às vezes, devemos nos lembrar dessa verdade para ver o quanto estamos conectados à nossa era e ao nosso ambiente. Supomos que podemos conquistar ambos com o pensamento, mas, na realidade, o pensamento é apenas a função deles.

03/12/2019

Ernst Jünger - As Memórias de Trótski

por Ernst Jünger

(1930)




1.

O estudo dessas memórias muito interessantes, disponíveis graças aos editores da S. Fischer, será mais fácil para quem sabe como olhar através dos olhos do autor. Trótski é um racionalista, embora um racionalista do tipo mais determinado, que de modo algum se contenta com a ordem das coisas como elas aparecem dentro dos limites do conhecimento. Em vez disso, ele está sempre pronto para realizar essa ordem no âmbito do Ser [diese Ordnung im Sein verwirklichen] - desde que as condições necessárias estejam presentes, isto é, se ele tiver o poder.

Pode parecer estranho associar esse nome, que está inseparavelmente ligado a um dos maiores processos de destruição da história moderna, à noção de ordem. E, no entanto, isso é justificado. Os leitores que possam ter certos preconceitos sobre a natureza da revolução russa, como os que são comuns em nosso país, ficarão surpresos ao encontrar uma mente precisa, educada em economia política, filosofia ocidental e na dialética da luta de classes, que em uma tarde de discussão provavelmente tem coisas interessantes a dizer sobre romances franceses, pinturas impressionistas e diferentes tipos de caça a patos também.

30/08/2017

Alain de Benoist - Jünger & Drieu La Rochelle

por Alain de Benoist



Nos seus Pariser Tagebücher [Diários Parisienses], Ernst Jünger se refere a seus encontros na Paris ocupada com Pierre Drieu La Rochelle (por exemplo, em 11 de outubro de 1941 e em 7 de abril de 1942). Drieu era então o editor-em-chefe da revista La Nouvelle Revue française, publicada por Gallimard. Às quintas-feiras, Jünger usualmente ia ao salão literário de Florence Gould, ao qual ele foi introduzido por Gerhard Heller, e onde ele conheceu Paul Léautaud, Henry de Montherland, Marcel Jouhandeau, Alfred Fabre-Luce, Jean Schlumberger, Jean Cocteau, Paul Morand, Jean Giraudoux, e muitos outros. Depois, Jouhandeau se lembraria dele como "um homem muito simples, de aparência muito jovem, com rosto delicado, e que usava roupas civis, com gravata borboleta". [1]

Em 16 de novembro de 1943, Jünger notou em seu diário que ele havia visto novamente Drieu La Rochelle no Instituto Alemão de Paris, então dirigido por Karl Epting. Ele lhe disse que eles haviam "trocado fogo em 1915. Foi perto de Godat, a aldeia em que Hermann Löns caiu. Drieu também recordou o sino que soava as horas ali: nós dois o havíamos ouvido". Muitos anos depois, em suas discussões com Antonio Gnoli e Franco Volpi, Jünger, agora já com 100 anos de idade, recordou essa memória novamente: "Quando nos encontrávamos, nós usualmente falávamos sobre nossas experiências da Primeira Guerra Mundial: nós havíamos combatido na mesma zona do front, ele do lado francês, eu do lado alemão, e ouvíamos, em lados opostos, o som dos sinos da mesma igreja". [2]

Não deveria surpreender que estes dois homens haviam se aproximado de início por suas memórias da Grande Guerra. Ela marcou ambos mais profundamente que qualquer outra coisa, como com muitos homens de sua geração. Mas entre Jünger e Drieu La Rochelle, houve muitos outros pontos em comum. Profundamente impressionados com a leitura de Nietzsche, ambos aspiravam a uma aventura africana em suas juventudes: Jünger se alistou na Legião Estrangeira Francesa, enquanto em 1914 Drieu requisitou ser designado para os rifleitos marroquinos (em ambos os casos, a experiência foi breve). Acima de tudo, ambos os homens foram teóricos políticos além de escritores, simultaneamente no caso de Drieu, sucessivamente no de Jünger. Ambos poderiam ser justificadamente descritos, em um ponto ou outro de suas vidas, como "nacional-revolucionários". Ambos, finalmente, foram incontestavelmente conservadores revolucionários, ávidos por salvguardar valores que eles consideravam eternos, mas ao mesmo tempo conscientes de que o advento do mundo moderno criou abismos através dos quais era impossível retornar. Ainda assim, apesar de tudo isso, muitos coisas os separavam.


15/08/2012

Mobilização Total

por Ernst Jünger



1 - Vai contra a tendência do espírito heróico buscar a imagem da guerra em uma fonte que pode ser determinada pela ação humana. Ainda assim, as transformações multitudinárias e desfarces que a forma pura [Gestalt] da guerra suporta entre as vicissitudes do tempo e espaço humanos oferece a esse espírito um interessante espetáculo para as vistas.

Esse espetáculo nos lembra vulcões que, ainda que estejam em operação em regiões bastante diferentes, constantemente expelem o mesmo fogo terreno. Ter participado em uma guerra significa algo similar: ter estado na proximidade de tal montanha expelidora de fogo; mas há uma grande diferença entre Hekla na Islândia e o Vesúvio no Golfo de Nápoles. Pode-se dizer que a diferença nas paisagens desaparece quanto mais nos aproximamos da luminosa mandíbula da cratera; também no ponto em que a paixão autêntica irrompe - acima de tudo, na nua e imediata luta pela vida e pela morte - se torna uma questão de importância secundária em que século, por que idéias, e com que armas a batalha está sendo travada. Mas este não é o tema de nosso ensaio.

Ao invés, nós tentaremos reunir um número de fatos que distinguem a última guerra - nossa guerra, o maior e mais influente evento de nossa era de outras guerras cuja história nos foi transmitida.

2 - Talvez nós possamos melhor identificar a natureza especial dessa grande catástrofe pela asserção de que nela, o gênio da guerra foi penetrado pelo espírito do progresso. Este não foi o caso apenas para a luta entre diferentes países; foi também verdade para a guerra civil que reuniu uma rica segunda colheita em muitos deles. Esses dois fenômenos, guerra mundial e revolução mundial, estão muito mais interligados do que à primeira vista se poderia perceber. Eles são dois lados de um evento de significância cósmica, cuja irrupção e origens são interdependentes em numerosos sentidos.

É provável que muitas descobertas incomuns aguardem nosso pensamento relativo à realidade oculta por trás do conceito de "progresso" - um conceito ambíguo que brilha em muitas cores. Indubitavelmente a maneira pela qual estamos inclinados esses dias a zombar dele é barata demais. Certamente, nós poderíamos citar cada pensador oitocentista verdadeiramente significativo em apoio a nossa aversão; ainda assim, a despeito de todo nosso nojo pelo tédio e uniformidade das formas vitais na questão, a suspeita emerge de que sua fonte é da maior significância. Finalmente, mesmo o processo de digestão depende dos poderes de uma maravilhosa e inexplicável Vida. Certamente, pode ser hoje demonstrado convincentemente que o progresso é, de fato, não realmente progresso. Mas mais importante do que essa convicção, talvez, é a questão de se a significância real do conceito não é de um tipo mais misterioso e diferente: um que usa a aparentemente manifesta máscara da razão como um lugar fantástico para se esconder.

É precisamente a certeza com a qual movimentos progressivos produzem resultados que contradizem suas tendências mais inatas o que sugere que aqui, como por toda a vida, o que prevalece não são tanto essas tendências mais outras impulsões mais ocultas. O "Espírito" ["Geist"] muitas vezes tem sido justificadamente revelado no desprezo pelas marionetes do progresso; mas os tênues fios que produzem seus movimentos são invisíveis.

Se nós quisermos aprender algo sobre a estrutura de merionetes, não há guia mais agradável do que o romance de Flaubert Bouvard et Pécuchet. Mas se nós quisermos considerar as possibilidades desse movimento mais secreto - um movimento sempre mais fácil de sentir do que de provar - tanto Pascal como Hamann oferecem uma abundância de passagens reveladoras.

"Enquanto isso, nossas fantasias, ilusões, fallaciae opticae, e falácias permanecem sob o reino de Deus". Nós encontramos afirmações desse tipo frequentemente em Hamann; elas refletem uma sensibilidade que busca incorporar os labores da química no reino da alquimia. Deixemos de lado a questão de que reino do espírito governo a ilusão ótica do progresso: esse estudo não é uma demonologia, mas é dirigido aos leitores do século XX. Não obstante, uma coisa é certa: apenas um poder de origem cúltico, apenas uma crença, poderia conceber algo tão audacioso quanto estender a perspectiva da utilidade [Zweckmdssigkeit] ao infinito.

E quem, então, duvidaria de que o progresso é a grande igreja popular do século XIX - a única que desfruta de autoridade real e fé acrítica?

3 - Com uma guerra eclodindo em tal atmosfera, a relação de cada pretendente individual ao progresso estava fadada a desempenhar um papel decisivo. E precisamente aí reside o fator autêntico, moral, de nossa era: mesmo os exércitos mais fortes, equipados com as mais modernas armas de aniquilação da era industrial, não são páreo para suas emanações belas e imponderáveis; pois esta era pode até mesmo recrutar suas tropas a partir do campo inimigo.

De modo a esclarecer essa situação, introduzamos aqui o conceito de mobilização total: há muito passaram os tempos em que era suficiente enviar cem mil súditos alistados sob uma liderança confiável à batalha - como descobrimos, digamos, no Cândido de Voltaire; e quando, se Sua Majestade perdesse uma batalha, o primeiro dever do súdito era permanecer quieto. Não obstante, mesmo na segunda metade do século XIX, gabientes conservadores podiam ainda preparar, travar e vencer guerras em relação às quais os representantes do povo eram indiferentes ou mesmo contrários. Certamente, isso pressupunha uma relação próxima entre coroa e exército; uma relação que havia apenas passado por uma mudança superficial pelo novo sistema de conscrição universal e que ainda pertencia essencialmente ao mundo patriarcal. Ele era também baseado em um cálculo fixo de armamentos e custos, o que fazia com que a guerra parecesse um gasto excepcional, mas de modo algum ilimitado, de forças disponíveis e suprimentos. Nesse sentido, mesmo a mobilização geral possuía o caráter de medida parcial.

Essas restrições não apenas refletiam o grau limitado de meios, mas também uma específica razão de estado. O monarca possui um instinto natural alertando-o a não ultrapassar os limites do poder dinástico. A erosão de seu tesouro parece menos objetável do que créditos aprovados por uma assembléia; e para o momento decisivo de batalha, ele preferiria reservar seus guardas do que uma quota de voluntários. Nós encontramos esse instinto ainda sadio na Prússia mesmo a fins do século XIX. Um exemplo entre muitos é a luta amarga por uma conscrição de três anos: enquanto um breve período de serviço é característico de um exército voluntário, quando o poder dinástico está em jogo, tropas testadas e provadas são mais confiáveis. Frequentemente, nós até mesmo nos deparamos - o que pelos padrões atuais é quase impensável - com uma renúncia do progresso e de qualquer equipagem acabada do exército; mas tais escrúpulos também possuem suas razões. Daí oculta em cada melhoria de armas de fogo - especialmente o aumento do alcance - está um ataque indireto contra as condições da monarquia absoluta. Cada melhoria tal promove o tiro contra alvos indivíduais, enquanto a salva encarna a força do comando fixo. O entusiasmo era ainda desagradável para Guilherme I. Ele emerge de uma fonte que, como o saco de vento de Éolo, oculta não apenas tempestades de aplausos. A verdadeira pedra-de-toque da autoridade não é a medida do júbilo que ela recebe, mas as guerras que foram perdidas.

A mobilização parcial, assim, corresponde à essência da monarquia. Esta ultrapassa seus limites na medida em que é forçada a fazer das formas abstratas do espírito, do dinheiro, do "povo" - em resumo, as forças da ascendente democracia nacional - uma parte da preparação da guerra. Olhando para o passado nós podemos dizer que a renúncia completa de uma tal participação era impossível. A maneira na qual ela foi incorporada na vida política representa a real essência do estadismo do século XIX. Essas circunstâncias particulares explicam a máxima de Bismarck de que a política é a "arte do possível".

Nós podemos agora perseguir o processo pelo qual a crescente conversão da vida em energia, o cada vez mais flutuante conteúdo de todos os laços em deferência à mobilidade, dá um caráter cada vez mais radical ao ato da mobilização - que em muitos estados era o direito exclusivo da coroa, não necessitando de qualquer contra-assinatura. Os eventos que causam isso são numerosos: com a dissolução dos estamentos e a limitação dos privilégios da nobreza, o conceito de uma casta guerreira também desaparece; a defesa armada do estado não é mais exclusivamente dever e prerrogativa do soldado profissional, mas a responsabilidade de todos que podem protar armas. Similarmente, por causa do enorme aumento em gastos, é impossível cobrir os custos de travar uma guerra com base em um orçamento fixo de guerra; ao invés uma expansão de todo crédito possível, até mesmo uma taxação do último centavo  guardado, é necessário para manter a máquina em movimento. Da mesma maneira, a imagem da guerra como combate armado se funde na imagem ampliada de um gigantesco processo de trabalho (Arbeitsprozesses). Em adição aos exércitos que se encontram nos campos de batalha, se originam os exércitos modernos do comércio e do transporte, da alimentação, da manufatura de armamentos, o exército do trabalho em geral. Isso faz da Guerra Mundial um evento histórico superior em significância à Revolução Francesa. De modo a distribuir as energias de tal proporção, ajeitar o braço da espada não é mais o bastante; pois esta é uma mobilização [Rustung] que demanda a expansão até a mais profunda medula, ao melhor nervo da vida. Sua realização é a tarefa da mobilização total: um ato que, como se através de um único apanhar do painel de controle, expressa o suprimento de poder extensivamente dividido e densamente disposto da vida moderna em direção à grande corrente de energia marcial.

Ao início da Guerra Mundial, o intelecto humano ainda não havia antecipado uma mobilização dessas proporções. Ainda assim, seus sinais estavam manifestos em instâncias isoladas - por exemplo, o grande emprego de voluntários e reservistas no início da guerra, a proibição de exportações, as regulações de censura, as mudanças nas taxas cambiais. No curso da guerra esse processo se intensificou: como exemplos, nós podemos citar o gerenciamento planificado de matéria-prima e suprimentos, a transposição de condições industriais [Arbeitsverhiltnisses] para circunstâncias militares, o dever de guarda civil, o armamento de navios mercantis, a extensão inesperada da autoridade do estado-maior, o "programa Hindenbug", a luta de Ludendorff pela fusão entre comando político e militar.

Não obstante, apesar do espetáculo, tão grandioso quanto atemorizante, das últimas "guerras de exaustão" ["Materialschlachten"], nas quais o talento humano para a organização celebra seu triunfo sanfrento, suas possibilidades mais plenas ainda não foram alcançadas. Mesmo limitando nosso escopo ao lado técnico do processo, isso só pode ocorrer quando a imagem de operações marciais é prescrita para condições de paz. Nós assim vemos que no período do pós-guerra, muitos países tecem novos métodos de armamento segundo o padrão da mobilização total.

Nesse sentido, nós podemos introduzir exemplos tais como a limitação crescente da "liberdade individual", um privilégio que, com certeza, sempre foi questionável. Tal ataque toma lugar na Rússia e na Itália e então aqui na Alemanha; seus objetivos é negar a existência de qualquer coisa que não seja uma função do estado. Nós podemos prever um tempo em que todos os países com aspirações globais devam tomar parte desse processo, de modo a sustentar a liberação de novas formas de poder. A avaliação da França da balança de poder da perspectiva da energie potentielle pertence a esse contexto, como o faz o modelo que a América já ofereceu - já em tempo de paz - para cooperação entre indústria e exército. A literatura de guerra alemã levantou questões que tocam na própria essência do armamento, forçando o público geral a fazer juízos sobre questões de guerra (ainda que um tanto tardiamente e em realidade antecipando o futuro). Pela primeira vez, o "plano quinquenal" russo apresentou ao mundo uma tentativa de canalizar as energias coletivas de um grande império em uma única corrente. Vendo como teoria econômica dá um giro de 180º é aqui instrutivo. A "economia planificada", como um dos resultados finais da democracia, cresce para além de si mesma em um desdobramento geral do poder. Nós podemos observar essa mudança em muitos eventos de nossa era. A grande irrupção das massas portanto alcança um ponto de cristalização.

Ainda assim, não apenas ataque mas também a defesa demanda esforços extraordinários, e aqui as compulsões do mundo talvez se tornam ainda mais claras. Assim como cada vida já porta as sementes da própria morte, também a emergência das grandes massas contém em si uma democracia de morte. A era do tiro bem dado já está para trás. Dando a ordem do bombardeio noturno, o líder de esquadrão não mais vê uma diferença entre combatentes e civis, e a nuvem de gás mortífero paira como um poder elemental sobre tudo que vive. Mas a possibilidade de tal ameaça não é baseada nem em uma mobilização parcial ou geral, mas sim em uma mobilização total. Ela se estende à criança no berço, que é ameaçada como todos os outros - e até mais.

Nós poderíamos citar muitos exemplos tais. É suficiente simplesmente considerar nossa vida diária, com sua inexorabilidade e disciplina impiedosa, sua fumaça, seus distritos luminosos, a física e a metafísica de seu comércio, seus motores, aviões, e cidades florescentes. Com um horror com toque de prazer, nós sentimos que aqui, nem um único átomo deixa de estar em movimento - que nós estamos profundamente inscritos nesse processo furioso. A Mobilização Total é muito menos consumada do que se consuma ela própria; na guerra e na paz, ela expressa a reivindicação secreta e inexorável à qual nossa vida na era das massas e das máquinas nos sujeita. Sucede assim que cada vida individual se torna, cada vez mais claramente, a vida de um trabalhador; e que, seguindo as guerras dos cavaleiros, reis, e cidadãos, nós temos agora guerras de trabalhadores. O primeiro grande conflito do século XX nos brindou com um pressentimento tanto de sua estrutura racional como de sua impiedade.

4 - Nós tocamos nos aspectos técnicos da Mobilização Total; sua perfeição pdoe ser traçada desde as primeiras conscrições do governo da Convenção durante a Revolução Francesa e a reorganização do exército por Scharnhorst ao dinâmico programa de armamentos dos últimos anos da Guerra Mundial - em que estados se transformaram em fábricas gigantes, produzindo exércitos na linha de montagem que eles enviavam ao campo de batalha de noite e de dia, em que uma igualmente mecânica bocarra sangrenta assumiu o papel de consumidor. A monotonia de tal espetáculo - evocando o labor preciso de uma turbina alimenada por sangue - é de fato dolorosa para o temperamento heroíco; ainda assim, não pode haver dúvidas quanto a seu significado simbólico. Aqui uma necessidade severa se revela: o selo duro de uma era em um meio marcial.

Em qualquer evento, o lado técnico da Mobilização Total não é decisivo. Sua base - como a de toda tecnologia - é mais profunda. Nós a abordaremos aqui como a prontidão para a mobilização. Tal prontidão estava presente em todos os lugares: a Guerra Mundial foi uma das guerras mais populares conhecidas à história. Isso se deu porque ela ocorreu em uma era que excluía a priori todas as guerras, exceto as populares. Também, à parte peguenas guerras de colonialismo e saque, as nações envolvidas haviam desfrutado de um período de paz relativamente longo. Ao início de nossa investigação, porém, nós prometemos enfaticamente não focar nas camadas elementares da natureza humana que se misturam com paixões selvagens e nobres que descansam nela, tornando-a sempre aberta ao grito de guerra. Ao invés, nós iremos agora tentar desenrolar os múltiplos sinais anunciando e acompanhando este conflito particular.

Quando quer que confrontemos esforços de tais proporções, possuindo a qualidade especial de "inutilidade" ["Zwecklosigkeit"] - digamos a construção de pujantes construções como pirâmides e catedrais, ou guerras que põe em jogo as fontes últimas da vida - explicações econômicas, não importa o quão iluminadoras, não são suficientes. Essa é a razão pela qual a escola do materialismo histórico somente pode tocar a superfície do processo. Para explicar esforços desse tipo, nós devemos ao invés focar nossas primeiras suspeitas em fenômenos de uma variedade cúltica.

Ao definirmos o progresso como a igreja popular oitocentista, nós já sugerimos a fonte do eficaz apelo da última guerra para as grandes massas, cuja participação era tão indispensável. Apenas este apelo vale para o aspecto decisivo de sua Mobilização Total: o aspecto com a força de fé. Se esquivar da guerra foi cada vez menos possível em proporção com o grau de sua convicção - assim em proporção com a pureza com a qual as palavras ressonantes que as moviam à ação possuíam conteúdo progressivo. Claro, estas palavras não raro possuíam uma coloração dura e sinistra; sua efetividade não pode ser duvidada. Elas se assemelham aos farrapos coloridos que atiçam a presa da caçada em direção à mira do rifle.

Mesmo um olhar superficial, geograficamente separando os lados beligerantes em vencedores e vencidos, deve reconhecer a vantagem das nações "progressistas". Essa vantagem parece evocar um processo determinista como a teoria darwinista da sobrevivência dos mais "aptos". Sua qualidade determinista é particularmente aparente na inabilidade de países vitoriosos como Rússia e Itália em evitar uma destruição completa de seus sistemas políticos. Nessa luz, a guerra parece uma pedra-de-toque certeira, baseando seus juízos de valor em leis intrínsecas rigorosas: como um terremoto testando as bases de cada cada construção.

Por outro lado, os inesperados poderes de resistência do sistema progressita, mesmo em uma situação de grande fraqueza física, são notáveis. Daí, em meio à supressão daquele extremamente perigoso motom de 1917 pelo exército francês, um segundo e moral "milagre do Marne" se desdobra, mais sintomático para essa guerra do que fatores puramente militares. Similarmente, nos EUA com sua constituição democrática, a mobilização poderia ser executada com um rigor que seria impossível na Prússia, em que o direito a voto era baseado na classe. E quem pode duvidar que a América, o país carente de "castelos dilapidados, colunas basalticas e contos de cavaleiros, fantasmas e bandoleiros", emergiu como vencedor óbvio dessa guerra? Seu curso já estava decidido não pelo grau em que um estado era um "estado militar", mas pelo grau em que era capaz de Mobilização Total.

A Alemanha, porém, estava destinada a perder a guerra, mesmo que ela tivesse vencido a batalha do Marne e a guerra submarina. Pois apesar de todos os cuidados com os quais ela efetivou a mobilização parcial, grandes áreas de sua força escaparam à Mobilização Total; pela mesma razão, correspondendo à natureza interior de seu armamento, ela era certamente capaz de obter, sustentar, e acima de tudo explorar um sucesso parcial - mas nunca um sucesso total. Atribuir tal sucesso a nossas armas demandaria preparar para outra Cannae, uma não menos significativa do que aquela a que Schlieffen devotou a obra de sua vida.

Mas antes de prosseguir com este argumento, consideremos alguns pontos díspares, na esperança de mostrar ainda mais o elo entre progresso e Mobilização Total.



5 - Um fato é claramente esclarecedor para aqueles que buscam compreender a palavra progresso em seu timbre espalhafatoso: em uma era que executou publicamente, sob horríveis torturas, um Ravaillac ou mesmo um Damiens como filhos do inferno, o assassinato da realeza prejudicaria uma camada social mais poderosa - mais uma crença profundamente entalhada - do que no século que seguiu à execução de Luís XVI. Sucede que na hierarquia do progresso, o príncipe pertence a uma espécie não especialmente favorecida.

Imaginemos, por um momento, a situação grotesca na qual um grande executivo de publicidade teve que preparar a propaganda para uma guerra moderna. Com duas possibilidades disponíveis para inflamar a primeira onda de excitação - nomeadamente, o assassinato de Sarajevo ou a violação da neutralidade belga - não pode haver dúvidas sobre qual prometeria o maior impacto. A causa superficial da Guerra Mundial - não importa quão adventícia possa parecer - é habitada por um sentido simbólico: no caso dos culpados e da vítima de Sarajevo, o herdeiro da coroa Habsburga, princípios nacionais e dinásticos colidiram - o moderno "direito à auto-determinação nacional" com o princípio da legitimidade esmeradamente restaurado no Congresso de Viena pelo estadismo do velho estilo.

Agora certamente, ser extemporâneo no sentido correto - por em movimento um efeito poderoso em um espírito que deseja preservar um legado - é digno de louvor. Mas isso demanda fé. É claro, porém, que a ideologia das Potências Centrais não era nem oportuna, nem inoportuna, resultando em nada além de uma mistura de falso romantismo e liberalismo inadequado. Daí o observador não poderia deixar de notar uma predileção por ornamentos obsoletos, por um estilo romântico tardio, por óperas wagnerianas em particular. Palavras evocando a fidelidade dos nibelungos, esperanças depositadas no sucesso do chamado do Islã à guerra santa, são exemplos. Obviamente, questões técnicas e questões de governo estiveram envolvidas aqui - a mobilização de substância, mas não da substância mesma. Mas o relacionamento inadequado das classes governantes tanto com as massas como com forças mais profundas se revelou precisamente em tolices desse tipo.

Daí a famosa e intencionalmente brilhante referência a um "pedaço de papel" sofre de ter sido proferida com atraso de 150 anos - e então desde princípios que poderiam ter sido adequados para o romantismo prussiano, mas que em seu âmabo não eram prussianos. Frederico o Grande poderia ter falado assim, zombando de pergaminhos mofados e amarelados à maneira de um despotismo esclarecido. Mas Bethmann-Hollweg deve ter sabido que em nossos tempos um pedaço de papel, digamos um com uma constituição escrita nele, possui um sentido similar ao de uma hóstia consagrada para a Igreja Católica - e que rasgar tratados certamente é adequado para o absolutismo, mas a força do liberalismo se encontra em sua exegese. Estude a troca de notas que precede a entrada da América na guerra e você vai se deparar com um princípio da "liberdade dos mares"; isso oferece um bom exemplo da medida em que, em tal era, os próprios interesses recebem o status de postulado humanitário - de uma questão com implicações universais para a humanidade. A social-democracia alemã, um dos baluartes do progresso alemão, compreendeu o aspecto dialético de sua missão quando ela equiparou o sentido da guerra com a destruição do regime anti-progressista do czar.

Mas o que isso significa em comparação com as possibilidades para mobilizar as massas à disposição do Ocidente? Quem negaria que a "zivilisation" está mais profundamente ligada ao progresso do que a "Kultur"; que sua linguagem é falada nas grandes cidades, e que ela possui meios e conceitos sob seu comando em relação aos quais a Kultur é ou hostil ou indiferente? A Kultur não pode ser usada para propaganda. Uma abordagem que tente explorá-la desse modo está ela própria apartada dela - bem como achamos que a oferta das cabeças dos grandes espíritos alemães em milhões de selos de papel é inútil, ou mesmo triste.

Não tempos, porém, vontade de reclamar do inevitável. Nós queremos apenas estabelecer que a Alemanha foi incapaz de assumir convincentemente o espírito da época, independentemente de sua natureza. A Alemanha também foi incapaz de propor, para si mesma ou para o mundo, um princípio válido superior ao do espírito. Ao invés, nós a encontramos buscando - às vezes em esferas romântico-idealistas, às vezes em esferas racional-materialistas - por aqueles sinais e imagens que o indivíduo em luta almeja afixar a seus padrões. Mas a validade subjacente a essas esferas pertence parcialmente ao passado e parcialmente ao milieu estranho ao gênio alemão; não é suficiente garantir máxima devoção ao avanço de homens e máquinas - algo que uma temível batalha contra o mundo demanda.

Nessa luz nós devemos lutar ainda mais para reconhecer como nossa substância elemental, a força profunda, primordial do Vol, permanece intocado por tal busca. Com admiração, nós vemos como a juventude alemã, no início dessa cruzada de razão à qual as nações do mundo são chamadas sob o feitiço de um dogma tão óbvio e transparente, ergue o grito de guerra: luminosa, enfeitiçada, faminta pela morte de um modo virtualmente único em nossa história.

Se a um desses jovens tivesse sido perguntado seu motivo para entrar em campo, a resposta, certamente, teria sido menos clara. Dificilmente ele teria falado da luta contra o barbarismo e contra a reação ou pela civilização, a libertação da Bélgica ou a liberdade dos mares; mas talvez ele teria oferecido a resposta, "pela Alemanha" - aquela frase, com a qual os regimentos voluntários partiram para o ataque.

E porém, esse fogo abrasador, queimando por uma enigmática e invisível Alemanha, foi suficiente para um esforço que deixou nações tremendo até a medula. E se ela tivesse possuído direção, consciência, e forma [Gestalt]?

6 - Como um modo de pensamento organizacional, a Mobilização Total é meramente uma intimação daquela mobilização superior que a era está descarregando sobre nós. Característico desse tipo tardio de mobilização é uma legalidade interior, à qual as leis humanas devem corresponder para que sejam efetivas.

Nada ilustra essa reivindicação melhor do que o fato de que durante a guerra forças podem emergir que são dirigidas contra a própria guerra. Não obstante, essas forças estão mais fortemente relacionadas aos poderes em operação na guerra do que poderia parecer. A Mobilização Total altera sua esfera de operações, mas não seu sentido, quando ela começa a mover, ao invés de exércitos de guerra, as massas em uma guerra civil. O conflito agora invade esferas que estão fora dos limites para os comandos da mobilização militar. É como se as forças que não puderam ser manobradas para a guerra agora demandassem seu papel no conflito sangrento. Daí quanto mais unificada e profunda a capacidade da guerra para convocar, desde o início, todas as forças possíveis para sua causa, mais certa e mais imperturbável será seu curso.

Nós temos visto que na Alemanha, o espírito do progresso só pôde ser mobilizado incompletamente. Para pegar apenas um entre milhares de exemplos, o caso de Barbusse mostra que na França, por exemplo, a situação era muito mais propícia. Em realidade um oponente declarado da guerra, Barbusse podia apenas permanecer fiel a suas idéias ao prontamente afirmar esta: em sua mente, ela refletia uma luta de progresso, civilização, humanidade, e mesmo paz, contra um princípio oposto a todos estes fatores. "A guerra deve ser morta no estômago da Alemanha".

Não importa quão complicada essa dialética pareça, seu resultado é inexorável. Uma pessoa com a menos aparente inclinação para conflito militar ainda se encontra incapaz de recusar o rifle oferecido pelo estado, já que a possibilidade de uma alternativa não se encontra presente em sua consciência. Observemos enquanto ele tortura seu cérebro, montando guarda na desolação de trincheiras sem fim, abandonando as trincheiras tão bem quanto qualquer um quando chega a hora, de modo a avançar através da horrível cortina de fogo da guerra de exaustão. Mas o que, na verdade, é impressionante sobre isso? Barbusse é um guerreiro como qualquer outro: um guerreiro pela humanidade, capaz de deixar de lado o fogo de metralhadora e os ataques de gás, e mesmo a guilhotina, tão pouco quanto a igreja cristão é capaz de abandonar sua espada terrena. De certo, de modo a alcançar tal grau de mobilização, um Barbusse necessitaria viver na França.

Os Barbusses alemães se viram em uma posição mais difícil. Apenas intelectos isolados partiram cedo para território neutro, decidindo travar sabotagem aberta contra o esforço de guerra. A grande maioria tentou cooperar com a disposição militar. Nós já mencionamos o caso da social-democracia alemã. Desconsideremos o fato de que , apesar de seu dogma internacionalista, as fileiras do movimento estavam repletas de trabalhadores alemães, e assim podiam ser dirigidas ao heroísmo. Não - em sua própria ideologia, ela se inclinou em direção a uma revisão que depois levou à acusação de "a traição do marxismo". Nós podemos ter uma idéia dos detalhes do preocedimento nos discursos realizados durante esse período crítico por Ludwig Frank, o líder social-democrata e deputado do Reichstag, que, como voluntário de quarenta anos, caiu alvejado na cabeça em Noissoncourt em setembro de 1914. "Nós camaradas apátridas ainda sabemos que, mesmo como filhos adotivos, nós somos filhos da Alemanha, e que nós devemos lutar por nossa pátria contra a reação. Se uma guerra irromper, os soldados social-democratas cumprirão conscientemente seu dever". (29 de agosto de 1914). Essa passagem extremamente informativa contém resumida as formas da guerra e da revolução que o destino guarda em prontidão.

Para aqueles que querem estudar essa dialética em detalhe, as práticas dos jornais e diários durante os anos de guerra oferecem uma abundância de exemplos. Daí Maximilian Harden - o editor do Die Zukunft e talvez o jornalista mais famoso do período guilhermino - começou a ajustar sua atividade pública aos objetivos do comando central. Nós notamos, apenas na medida em que isso é sintomático, que ele sabia como jogar com o radicalismo da guerra tão bem quanto ele jogaria com o da revolução. E assim, simplicissimus, "um órgão que havia dirigido suas armas de sagacidade niilista contra todos os laços sociais, e assim também contra o exército, agora assumiu um tom chauvinista. É claro, ademais, que a qualidade do jornal diminui conforme seu tenor patriótico se eleva - isto é, na medida em que ele abandona o campo de sua força.

Talvez o conflito interio em questão aqui é mais aparente no caso de Rathenau; ele imbui essa figura - para qualquer um lutando para lhe fazer justiça - com a força da tragédia. Em uma medida considerável, Rathenau havia se mobilizado pra guerra, desempenhando um papel em organizar o grande armamento e focando - até mesmo próximo ao colapso alemão - na possibilidade de uma "insurreição em massa". Como é possível que logo após, ele poderia oferecer a conhecida observação de que a história mundial teria perdido seu sentido caso os representantes do Reich tivessem entrado na capital como vencedores através dos Portões de Brandenburgo? Aqui nós vemos muito claramente como o espírito da mobilização pode dominar as capacidades técnicas de um indivíduo, e ainda assim falhar em penetrar em sua essência.

7 - Com nossos últimos combatentes ainda jazendo perante o inimigo, o exército secreto e o estado-maior secreto comandando o progresso alemão saudaram o colapso com exultação. Se assemelhou à exultação de uma batalha vitoriosa. Foi o aliado mais próximo dos exércitos ocidentais a logo cruzar o Reno, seu Cavalo de Tróia. As autoridades governantes reconheceram o novo espírito pelo baixo nível de protesto com o qual eles rapidamente abandonaram seus postos. Entre jogador e oponente, não havia diferença essencial.

Essa também é a razão para que na Alemanha, a transformação política [seguindo o colapso militar] assumiu uma forma relativamente inofensiva. Assim, mesmo durante os dias cruciais da decisão, o ministro social-democrata do Império podia brincar com a idéia de deixar a coroa intacta. E o que isso teria significado, além de manter uma fachada? Por um longo tempo, a construção havia sido tão entulhada de hipotecas "progressistas", que mais nenhuma dúvida era possível quanto à natureza do verdadeiro dono.

Mas há outra razão pela qual a mudança poderia ocorrer menos violentamente na Alemanha do que, digamos, na Rússia - além do fato de que as próprias autoridades prepararam o caminho para ela. Nós temos visto que uma grande porção das "forças progressistas" já haviam estado ocupadas com dirigir a guerra. A energia desperdiçada durante a guerra não era então mais disponível para o conflito interno. Expressando em termos mais pessoais: faz diferença se ex-ministros assumem o leme ou uma aristocracia revolucionária, educada no exílio siberiano.

A Alemanha perdeu a guerra conquistando um lugar mais forte na esfera ocidental - civilização, paz e liberdade no sentido de Barbusse. Mas como poderíamos esperar algo diferente, já que nós havíamos jurado fidelidade a tais valores; por preço algum nós teríamos ousado estender a guerra para além daquele "muro disposto ao redor da Europa". Isso teria demandado idéias diferentes e aliados diferentes, um desvelamento mais profundo dos próprios valores. Um incitamento de substância poderia ter ocorrido com e através do otimismo progressista - como o caso da rússia sugere.

8 - Quando nós contemplamos o mundo que emergiu da catástrofe - que unidade de efeito, que consistência histórica incrivelmente rigorosa! Realmente, se todas as estruturas espirituais e físicas de uma variedade não-civilizacional se estendendo do fim do século XIX até nossa era tivessem sido reunidos em um pequeno lugar e atingidas com todas as armas do mundo - o sucesso não poderia ter sido mais estrondoso.

Os velhos toques do Kremlin agora tocam a Internacional. Em Constantinopla, crianças usam a escrita latina ao invés dos velhos arabescos do Corão. En Nápoles e Palermo, a polícia fascista regula o ritmo da vida sulista como se dirigisse tráfego moderno. Nas terras mais remotas, e mesmo lendárias, casas parlamentares estão sendo cerimonialmente dedicadas. A abstratividade, e daí o horror, de todas as circunstâncias humanas se eleva inexoravelmente. O patriotismo está se diluindo através de um novo nacionalismo, fortemente fundido com elementos de percepção consciente. No fascismo, no bolchevismo, no americanismo, no sionismo, nos movimentos dos povos de cor, o progresso teve avanços que até recentemente teriam parecido impensáveis; ele prossegue seguindo o curso circular de uma dialética artificial de modo a continuar seu movimento em um plano muito simples. Desconsiderando suas mui reduzidas compensações para a liberdade e a sociabilidade, ele está começando a governar nações de modos não muito diferentes daqueles de um regime absoluto. Em muitos casos a máscara humanitária já caiu, substituída por um fetichismo semi-grotesco e semi-bárbaro da máquina, um ingênuo culto da técnica; isso ocorre particularmente onde não há relação direta e produtiva com aquelas energias dinâmicas para cujo curso destrutivo e triunfal a artilharia de longa distância e aviões bombardeiros representam apenas a expressão marcial. Simultaneamente, a estima pela quantidade está aumentando: quantidade de assentimento, quantidade de opinião pública se tornaram o fator decisivo na política. Socialismo e nacionalismo em particular são as duas grandes pedras-de-moinho entre as quais o progresso pulveriza o que resta do velho mundo, e eventualmente a si mesmo. Por um período de mais de cem anos, as massas, cegas pela ilusão ótica da franquia, foram lançadas de um lado para o outro como uma bola pela "direita" e pela "esquerda". Sempre pareceu que um lado oferecia refúgio das reivindicações do outro. Hoje por todo lugar a realidade da identidade de cada lado se torna mais e mais aparente; mesmo o sonho de liberdade está desaparecendo como sob o toque de ferro de uma pinça. Os movimentos das massas uniformemente moldadas, aprisionadas na armadilha montada pelo espírito-do-mundo, compreendem um grande e temível espetáculo. Cada um desses movimentos leva a uma posse mais afiada e impiedosa: formas de compulsão mais fortes que a tortura estão em operação aqui; elas são tão fortes, que seres humanos as saúdam com alegria. Por trás de cada saída, marcada com os símbolos da felicidade, se ocultam a dor e a morte. Feliz é somente aquele que adentra armado nesses espaços.

9 - Hoje, através das rachaduras e retalhos da torre de Babel, nós já podemos ver um mundo glacial; essa vista faz com que os espíritos mais bravos tremam. Antes de muito, a era do progresso parecerá tão curiosa quanto os mistérios de uma dinastia egípcia. Naquela era, porém, o mundo celebrava um daqueles triunfos que imbuíam a vitória, por um momento, com a aura da eternidade. Mais ameaçadores que Aníbal, com punhos poderosos demais, exércitos simbrios haviam derrubados os portões de suas grandes cidades e canais fortificados.

Nas profundezas da cratera, a última guerra possuía um significado que aritmético algum poderia dominar. O voluntário o sentia em sua exultação, a voz do demônio alemão rebentando poderosamente, a exaustão dos velhos valores sentido unidos com um anseio inconsciente por uma nova vida. Quem teria imaginado que estes filhos de uma geração materialista poderiam saudar a morte com tamanho ardor? Desse modo uma vida rica em excesso e ignorante da poupança do pediente se declara. E tanto quanto o resultado efetivo de uma vida reta não é nada senão o ganho do próprio caráter mais profundo, para nós os resultados dessa guerra não podem ser nada senão o ganho de uma Alemanha mais profunda. Isso é confirmado pela agitação ao nosso redor que é a marca da nova raça: uma que não pode se satisfazer por qualquer das idéias desse mundo, nem qualquer imagem do passado. Uma anarquia frutífera reina aqui, que é nascida dos elementos da terra e do fogo, e que oculta em si as sementes de uma nova forma de dominação. Aqui uma nova forma de armamento é revelada, uma que busca forjar suas armas a partir de metais mais puros e mais duros que se provam impérvios a toda resistência.

O alemão conduziu a guerra com uma, para ele, ambição completamente razoável de ser um bom europeu. Como a Europa travou guerra contra a Europa - quem mais além da Europa poderia ser o vencedor? Não obstante, essa Europa, cuja área se estende em proporções planetárias, se tornou extremamente magra, extremamente envernizada: seus ganhos espaciais correspondem a uma perda na força de convicção. Novos poderes emergirão disso.

Bem sob as regiões nas quais a dialética dos objetivos de guerra ainda são significativos, o alemão encontra uma força superior: ele encontra a si mesmo. Dessa maneira, a guerra foi ao mesmo tempo sobre ele: acima de tudo, os meios de sua própria autorrealização. E por essa razão, a nova forma de armamento, na qual nós já por algum tempo estivemos implicados, deve ser uma mobilização do alemão - nada mais.

19/06/2012

A Correspondência entre Jünger e Heidegger

por Alain de Benoist



Quando dois grandes homens - e que grandes homens, em verdade o maior filósofo do século XX e um de seus mais importantes escritores! - correspondem um com o outro, o que eles discutem? Nem sempre grandes coisas: eles também trocam trivialidades e falam de suas publicações, viagens, e procupações triviais. Mas às vezes o tom se eleva. E às vezes ele se torna sublime, como em 1956 quando Jünger consultou Heidegger sobre o sentido exato de uma máxima de Rivarol e recebeu um verdadeiro curso de filosofia, estupefante em profundidade, sobre os conceitos de tempo e movimento.

A correspondência de Ernst Jünger e Martin Heidegger começou em 1949 sobre planos para uma publicação periódica chamada Pallas a ser editada pelo ensaísta Armin Mohler (que foi secretário particular de Jünger de 1949 a 1953). Esse projeto não chegou a fruição - mas subsequentemente Jünger, junto com o historiador de religiões Mircea Eliade, criou outra publicação chamada Antaios. Sua correspondência continuou até a morte de Heidegger em maio de 1976. Publicada na Alemanha em 2008, ela está agora disponível em francês, belamente traduzida, edita, e comentada por Julien Hervier. Ela oferece um tipo raro de prazer.

Foi no ano anterior, ao fim de 1948, que Jünger pela primeira vez se encontrou com Heidegger em sua cabana na floresta de Todtnauberg. Depois ele escreveu: "Desde o início, havia algo - não apenas algo para além da palavra e do pensamento, mas além do próprio homem" (Rivarol e outros Ensaios).

Se estava então no período pós-guerra imediato, um tempo triste e doloroso quando os dois homens eram tratados como se eles fossem radiativos. Jünger, em 25 de junho de 1949, escreveu essa fantástica frase: "No curso dos últimos anos, ficou bastante claro para mim que o silêncio é a mais forte das armas, desde que ele seja dissimulado por trás de algo sobre o que se deve guardar silêncio".

Mais o que é mais notável sobre essas cartas é a diferença de tom entre o filósofo e o escritor. Ambos genuinamente admiravam um ao outro, mas intelectualmente Heidegger dominava completamente seu interlocutor. Jünger não oferece a menor crítica de Heidegger, mas o contrário não é inteiramente o caso.

De fato, Jünger - diferentemente de seu irmão Friedrich Georg Jünger - não possuía uma mente genuinamente filosófica. Ele revela que as obras de Heidegger, sobre as quais ele sabia pouco, às vezes estavam acima de sua capacidade. Em novembro de 1967, ele comentou: "Seus textos são difíceis e dificilmente traduzíveis: assim eu sempre fico impressionado pela influência que eles exercem sobre os franceses inteligentes". Tudo indica que Jünger estava mais impressionado pelo carisma intelectual de Heidegger do que por seu pensamento propriamente falando. Ele também estava mais inclinado a visitar, mais ávido por manter relações com seu contemporâneo. Heidegger era mais relutante em se deslocar, mais apartado da "vida social" - mais preocupado com o essencial. Como Lao-Tsé disse sobre o sábio: "Ele não age, mas ele realiza".

Heidegger, ademais, disse explicitamente que em seus olhos Jünger não era um "pensador" (Denker). Ele era um homem que teorizava com base em sua experiência, no que ele viu e viveu (começando por suas experiências nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial), mas não a partir do que apenas pode ser pensado. Jünger, em outras palavras, tinha idéias mais do que pensamento. Ele era um "Erkenner", um homem que "reconhece", mais preocupado com abrir uma "nova ótica" do que com chegar a "novas verdades". É por isso que Heidegger escreve:

"Ele não possui a menor idéia sobre o que ocorre na 'objetificação' do mundo e do homem. Basicamente seu conhecimento permanece psicológico e moral... Ele sempre permanece dentro da metafísica... Porque Jünger não vê o que é singularmente 'pensável', ele considera a consecução da metafísica como a essência da vontade de poder como amanhecer de uma nova era, enquanto ela constitui apenas um prelúdio para a decrepitude rápida de todas as inovações recentes, destinadas a desabar no ennui de um nada de insignificância que incuba esse abandono do Ser que é próprio aos entes".

Linguagem difícil? Há mais.
Heidegger, em qualquer caso, esteve interessado em Jünger por um longo tempo. Em 1932, seu O Trabalhador, o grande livro teórico do veterano do fronte, chamou a atenção de Heidegger como poucas outras obras. Durante o semestre de inverno de 1939-40 na Universidade de Freiburg, Heidegger até mesmo devotou todo um seminário a esse livro. Os textos que ele escreveu sobre Jünger, reunidos em um volume de quase 500 páginas publicados na Alemanha em 2004 (volume 90 de suas obras completas, ainda em curso de publicação por Vittorio Klostermann!), testemunham eloquentemente.

Em Jünger, Heidegger admirava alguém que havia compreendido o mundo baseado na vontade de poder e havia esclarecido o papel desempenhado pela tecnologia nessa perspectiva. A Figura do Trabalhador está de fato presente no mundo na forma de poder. É pela Figura do Trabalhador que a Tecnologia, como máquina e instrumento, faz emergir a "mobilização total". Em uma referência direta a O Trabalhador Heidegger escreveu: "O trabalho...hoje se eleva ao nível metafísico dessa objetificação incondicional de todas as coisas presentes, que implementa seu ser na vontade de vontade" (Vorträge und Aufsätze).

Heidegger era um leitor admirador de Jünger, mas também um crítico. O diálogo que os dois homens mantinham, às vezes indiretamente, prova isso sem ambiguidade. O melhor jeito de apreciar o que os separa é ler de cabo a rabo os textos que eles dedicaram um ao outro em seus respectivos aniversários de 60 anos: o "Sobre a Linha" de Jünger (Über die Linie), (1950) e "Sobre 'A Linha'" de Heidegger (Über "die Linie") (1955). Ambos os textos dizem respeito à essência da tecnologia moderna e à luz que ela lança sobre o conceito de niilismo. É notável que Nietzsche constitui o eixo central do diálogo entre Heidegger e Jünger.

Em seu texto de 1950, Jünger em efeito toma o pensamento de Nietzsche como o ponto de partida para uma tentativa de avaliação do niilismo contemporâneo. Ele conclui com um tipo de otimismo de que o pior já passou. O mundo contemporâneo, ele diz, já passou do "ponto zero", i.e., o divisor de águas do niilismo, enquanto Heidegger afirma, ao contrário, que este mundo está mais do que nunca imerso no "esquecimento do Ser" do qual é impossível escapar a não ser que se abandone a linguagem da metafísica ("a linha zero, na qual a realização alcança seu fim, é no fim das contas a menos visível de todas").

Sem entrar muito em detalhes abstratos, uma resenha é necessária aqui. Nos dois volumes reunindo seus cursos sobre Nietzsche (1936-46), Heidegger afirma que ainda que o autor de Assim Falou Zaratustra feche o círculo da metafísica ocidental, não obstante ele permanece preso nela. A vontade de poder, em seus olhos, é apenas a "vontade de vontade", i.e., subjetividade exacerbada (é uma "vontade de si mesmo", uma vontade que depende de si ao mesmo tempo que é posta como seu próprio objeto). A época moderna de decadência é aquela do cumprimento da metafísica na forma da metafísica da vontade, da qual Nietzsche é o último representante. Para Nietzsche, basicamente, "poder e vontade possuem o mesmo sentido". Heidegger convida Jünger a pensar para além da metafísica nietzscheana da vontade de poder, a metafísica moderna da subjetividade da qual ele continua a depender.

Heidegger não tem senão a mais elevada opinião de Nietzsche. E de Jünger. Ele apenas o convida a pensar além. Ernst Jünger, se deve enfatizar, é um dos raros autores com os quais Heidegger concordou, após 1945, em manter diálogo contínuo, o que certamente significa algo.

Para o aniversário de 80 anos do autor de Em Tempestades de Aço, Heidegger enviou essa mensagem a ele: "Permaneça com o espírito luminoso de decisão que você sempre demonstrou na maneira bastante distinta pela qual você fala". O tipo de observação que se imagina seria muito mal expresso pelas mensagens de texto ou e-mails de hoje.

25/03/2012

Ernst Jünger - Que a Beleza nos Preserve do Mal

por João Barrento


Há escritores com uma obra tão reverberante que cega. Há existências tão intensas e complexas que o princípio-chave para as entender só pode ser o da contradição que as informa. Há textos cuja leitura descontextualizada pode provocar uma vertigem que só esfria quando os pensamos no lugar relativo que ocupam. Quando a tudo isto se vem juntar uma vida que atravessa todo o século XX, agindo nele e com ele, e procurando lê-lo a cada momento - estamos então perante um daqueles casos, uma daquelas obras que se agigantam, em relação aos quais todo o maniqueísmo está condenado ao fracasso. Esse é o caso, essa é a obra, de Ernst Jünger, verdadeiramente um autor do século (n. 1895) e certamente o mais controverso da literatura alemã dos últimos setenta anos, que soberanamente vem ignorando, e um catalizador das mais acesas discussões envolvendo as grandes ideologias deste século - anarquismo e fascismo, democracia e comunismo, nacionalismo conservador e sociedade aberta, direita reaccionária e nova esquerda, liberalismo e ecologismo..,

Jünger é uma dessas figuras titânicas que a história do pensamento e da acção faz surgir ciclicamente na Alemanha, de Lutero a Nietzsche e de Bismarck a Hitler, e que a nós nos assustam, estando como estão para lá daquela emocional idade do coração, de um telurismo ingénuo e de um realismo empírico que nos distinguem, a nós ibéricos. Também em Jünger há uma sobre-humanidade que se pode prestar a todos os excessos, e que nos é estranha, por mais estetizada que seja, ou precisamente porque é estetizada.

Mas nem em França, que ocupou durante a Guerra, mas onde é idolatrado, onde, se Francês fosse, há muito que teria cadeira na Academia, nem mesmo aí Jünger é "entendido". Como ele próprio escreve, referindo-se a Drieu de la Rochelle, sua alma gémea até à Segunda Guerra, mas com um fim mais trágico e prematuro, "é fácil determinar a sua posição política, mas mais difícil defini-la com precisão, porque as correntes do tempo agiram sobre ele de forma intensa, mas difusa." (dos Diários de 1992, em: Sinn und Form 1/1993). Hans Mayer, o grande historiador e crítico judeu da literatura deste século, apetrechado como ninguém para entender tais fenómenos, situa Ernst Jünger no espaço de inquietação, mal-estar e genialidade que é o do Doutor Fausto de Thomas Mann, o da figura do esteta que faz - tem de fazer? - um pacto com o "Mal". Na sua enorme capacidade de espanto e inocência, que o colocam fora do reino actual do "Trabalhador", Jünger parece confirmar, em cada obra, o princípio platónico de que do Belo só pode nascer o Bem. Mas cabe perguntar se, para um autor como este, o "Mal" tem existência histórica, raízes culturais, ou se é mera invenção de alguns (Hitler) que o põem em acção no mundo? Para o aristocrata Jünger, a barbárie é Hitler ("o problema era o seu carácter negativo", de resto "nada de especial", lê-se nos Diários (Siebzig verweht), com data de 22 de Fevereiro de 1992). Por isso ele o rejeita, o que não é difícil de entender num escritor da sensibilidade e do estatuto de Jünger. Mas significa isso que ele rejeita a ideologia que o tornou possível? Não significaria isso uma rejeição de parte de si próprio?

A questão é decisiva, porque implica uma leitura global do fenómeno Jünger, que é uma leitura a contrapêlo, com plena consciência de todas as suas contradições e da tão falada dualidade entre a primeira fase (a "vulgata alemã", como lhe chama Julien Hervier, seu tradutor em França, e que marcaria mais a imagem do escritor no seu próprio país) e o que vem depois de Sobre as Falésias de Mármore (1939), ou mesmo já de O Coração Aventuroso (1927) e da Carta da Sicília ao Homem da Lua (1930): ou seja, entre o "guerreiro" e o "esteta". Não há, ao que penso, nenhuma grande viragem, nenhuma Kehre em Ernst Jünger, o soldado não dá lugar ao escritor, porque o escritor continua, até hoje, a ter a postura do guerreiro (num mundo sem guerra), e o guerreiro já tinha em si o esteta nas trincheiras do Somme. Senão, como poderia Gide ter dito de Tempestades de Aço (In Stahlgewittern, 1920) que era "o mais belo livro de guerra" que jamais lera? Senão, porque escreveria Walter Benjamin, em 1930, que o "delírio juvenil" dos primeiros escritos mais não era do que a "deliberada transposição da arte pela arte para o plano da guerra", e a "mobilização total" a última expressão do idealismo alemão, a que agora se querem imprimir traços heróicos? Ainda em Die Schere (A Tesoura, 1990), o último livro de reflexões publicado por Jünger, a noção de "vida" é a de uma obra de arte (total), acima de toda a moral (p. 15). E, bem entendida, faz sentido ainda (Jünger não gosta da expressão: o sentido não é feito, existe!) a frase de Heiner Müller, depois de uma visita a Jünger em 1988: "O problema de Jünger é o problema do século: antes de conhecer as mulheres, conheceu a guerra!"

A questão é então, em Jünger como em Heidegger, a de saber se a ideologia informa ou não, antes e depois das "viragens", a filosofia e a estética. Não que eles estejam ao serviço da ideologia (embora neste ponto o caso Heidegger seja mais grave que o caso Jünger), como acontece com Winifred Wagner ou com o cinema de Leni Riefensthal, que não só sabe que está a imortalizar o nazismo, como é, nos seus filmes, a encarnação mesma da nova política estetizada e mediatizada. Não vejo como, nestes "casos", poderemos separar uma estética de uma ética que está nela. 



A complexidade de tais casos não pode servir de argumento para tabuizar tomadas de posição mais claras. Não temos saída, temos de tomar posição (como, aliás, Ernst Jünger sempre fez), embora sabendo que isso não vai muito com o espírito do tempo, mais marcado pelo eclectismo dos anarquistas conservadores, aristocratas sem militância, nacionalistas sem partido, pelos desiludidos e cansados da Razão, os místicos da natureza, os adeptos das sopas cósmicas e, claro, os heróis de imitação das novas "tempestades de aço" que agora, na era das guerras electrónicas em que o campo da honra se passou vergonhosamente para os visores e os écrans dos computadores, se desencadeiam nas ruas das cidades com tacos de basebol, navalha de ponta e mola e jerry-can incendiário - o kit básico de todo o radical de direita que se preza. É o heroísmo possível. Como escreve Nuno Júdice no seu último livro (Meditação Sobre Ruínas, 1994): "Ninguém é poeta nem herói/ quando o que não mata dói".

É óbvio que nada do que tem a ver com esta "geração rasca" pode ter a ver com Jünger - ela nem sabe quem ele é. Mas o facto, sobretudo numa sociedade como a da Alemanha de hoje, e que nos leva também a nós à esquizofrenia, é que a mediocridade das sociedades contemporâneas parece dar razão a Jünger, e ao mesmo tempo o coloca, como já dizia a sua amiga Banine, escritora caucasiana de língua francesa, no lugar sagrado do oráculo, como a estátua do Comendador no Don Giovanni. Aceita-se facilmente a leitura catastrofal de uma época que tudo simplifica e reduz ao "ou...ou" das eleições. Mas já não estou muito seguro se o "desterro" na floresta, a altivez do rebelde, servirão para muito mais que o reconhecimento, para uso privado, da "verdade" que essa atitude contém. Mais recentemente, aliás, Jünger dá um passo qualitativo, ao preferir a figura do "deserto", e a analogia com Santo Antão: "No deserto, espaço e tempo estão ainda mais próximos da origem do que nas próprias florestas - a pátria do visionário é o deserto, a do homem de acção a floresta" (Die Schere, 29). A força de atracção de Jünger vem precisamente dessa sua capacidade de figuração estética da vontade, do desejo, da nostalgia atávica, tanto mais envolvente quanto o nosso tempo foi "enfraquecendo", se esvaziou de figuras "fortes".

A princípio, tais figuras eram as do Soldado, do Trabalhador e do Desterrado, mais "tipos" que figuras, provenientes todos eles de uma nietzschiana vontade, e do sonho da aventura radical. Hoje - a par das figuras de sempre: caça, guerra, fagias (nos insectos e não só), a contemplação como trabalho, a estetização da violência natural, a morte - a grande figura jüngeriana, profética e meta-histórica, é cada vez mais a do anúncio do "regresso dos deuses", uma perspectiva que está já em Hölderlin (e também em Vico, que prevê, depois do Caos - o interim do século XXI para Jünger - uma nova idade teocrática). A partir desta perspectiva, Jünger vem pensando o tempo do mundo fora do tempo da vida e da História. Radicando na "ascendência maior de Diónisos", escreve e pensa, não com o seu tempo, não contra ele, não sobre ele, mas à margem dele e fora dele, com os olhos postos nos "deuses por vir", e "sabendo" que eles voltarão. No texto que escreveu para o catálogo da Bienal de Veneza de 1993, Jünger anuncia o regresso para o século XXII; em Die Schere, lembra já o "grande presságio" do fim do titanismo planetário que foi o afundamento do "Titanic", mas também a nova física que se serve da parábola e penetrou progressivamente no espaço deixado vazio pela "retirada dos deuses" (pp. 43; 16). São as "transições inquietantes" para um novo monismo espiritual: "Leibniz está de volta" (p. 26).

Um espírito como este teria necessariamente que retirar-se do mundo, o mundo só poderia hostilizá-lo e in-compreendê-lo. O que alguma crítica, em particular na Alemanha, vem dizendo, preocupada, é que este "sábio num século louco", nas suas leituras desse século e nas suas prognoses para o futuro (que trará, enfim, a superação - ou uma Verwindung heideggeriana - da era planetária do trabalho), volta a pisar o trilho ominoso da história da cultura alemã, o caminho das alternativas nebulosas oferecidas, em última análise, por uma palavra (e pelo seu conceito ambíguo), a mais escorregadia da língua alemã, que se abre tanto aos mais altos voos criativos como aos obscurantismos e às catástrofes ideológicas de toda a ordem: essa palavra é Geist - Espírito, Mente, Força, Interioridade. Thomas Mann apontava já, no célebre discurso de 1945 "A Alemanha e os Alemães", a "desproporção" contida neste conceito como um fatídico destino alemão. O arco incomensurável da obra de Ernst Jünger e da sua experiência do mundo é o do espírito fáustico (mais o voluntarista que o "técnico", que é o do Fausto engenheiro da Segunda Parte da obra de Goethe), um espírito da "música da verticalidade" que leva os alemães a ser "grandes instrumentistas, mas fracos admiradores da voz humana". É Balzac quem o diz, e acrescenta: "Os Alemães, que não sabem tocar os grandes instrumentos da liberdade, sabem naturalmente tocar todos os instrumentos musicais."

Perante tais figuras, a divisão instala-se, porque a leitura de uma obra - toda a obra, sem cesuras - como a de Jünger nos faz sentir, tanto o calafrio do horror, como o fascínio da dimensão do "grande tempo", de onde ressalta a in-significância das pequenas contingências que nos sustentam o quotidiano; tanto a beleza que ajuda a suportar a mesquinhez do século, como a mais perigosa
atracção do abismo. Hoje, até autores mais "neutros" como Botho Strauss, geralmente visto como fino analista dos nossos pequenos mundos, prega também já a necessidade de abalar o "democratismo" estável pelo perigo, o risco, a religação ao "grande tempo" - e isso, acrescenta, só a fantasia poética pode dar, e a fantasia poética só pode vir hoje da direita. Foi também assim nos anos vinte alemães.

Jünger é mais obsessivo e radical, como só o pode ser a obra de um alemão: perdendo de vista a medida do humano, esmagando-nos sob a massa enorme e transbordante da palavra reverberante com que há setenta anos vem dando corpo a uma e mesma vontade - de poder (apesar do seu recolhimento) e de sentidos últimos. Isso pode também ser feito através de uma certa "imagem irisada do não envolvimento", da carapaça de beleza de que se reveste a obra de Jünger depois dos seus inícios heróicos, e que é a facies hippocratica dessa estética do fascínio. Em Jünger, porém, tudo se torna mais complexo, porque, como se disse, a sua ética radica na sua estética e a sua estética é a sua ética. Se existe algo de assombrosamente forte em Ernst Jünger, isso é precisamente a sua ética: mas acontece que a sua ética é a ética do que não tem, não pode ter, qualquer ética: a natureza e o Ser. De uma tal ética está, naturalmente, excluído o homem.

A única maneira de chegar a um universo destes é aquela que o próprio Jünger tantas vezes sugere: a das "aproximações" (mas aproximações críticas). Homem nenhum se poderá identificar com uma obra destas, talvez não tanto pela sua escala, mas porque dela está ausente qualquer foco de humanidade propiciador de uma identificação. A história repete-se: os nossos melhores poetas são fascistas? Heidegger é/não é nazi? O Céline da Viagem é/não é o mesmo das Bagatelles pour un massacre? George Steiner lembrava que se pode ler Rilke - e "bem lido" - depois de despachar mais uns quantos judeus para a câmara de gás. A citada observação de André Gide sobre o primeiro livro de Jünger, saído das trincheiras, da leitura de Nietzsche, dos decadentes e de Spengler, mas também de um Tratado de Versalhes sentido por muitos alemães como uma "punhalada", é a fórmula de todas as contradições que Jünger em si contém: pode um livro de guerra ser "belo"? Aqui começa, sem que possa terminar, a grande perversão a que podem levar as visões autonomistas da estética. Na frieza de aço e na beleza transcendente desses olhares é afinal, o humano, demasiadamente humano que se manifesta. A parábola de Sobre as Falésias de Mármore, dirá Jünger a Bruce Chatwin, não é nada anti-nazi, "está acima de tudo isso". É a mesma atitude que permite hoje à nova direita remeter o "episódio" do nazismo para o plano de um "acidente", de uma crise necessária no grande processo planetário da catástrofe em que entrou, e de que tão depressa não sairá, a era do "Trabalhador". Nesta Age of Warhol em que quase todos querem ser famosos, nem que seja por um quarto de hora, a amplitude e a dimensão mítica de tais olhares, à escala do tempo do mundo, colocam-nos fora da História. E essa é a marca - insuportável- do seu totalitarismo.


14/03/2012

A Guerra como Experiência Interior

Por Ernst Jünger


De quando em quando, irrompe e eleva-se, nos horizontes do espírito, um novo astro de uma claridade tão luminosa que fere os olhos e não lhes consente o sono, toque a rebate de uma anunciação, sinal de uma viragem dos mundos, como sucedeu outrora com os Reis Magos vindos do Oriente. As estrelas ao redor precipitam-se no sei braseiro incandescente, as estátuas dos ídolos estilhaçam-se em cacos de barro, e uma vez mais todas as formas cunhadas fundem-se em mil fornos, para serem vertidas em novos valores.

São assim os tempos encapelados cuja espuma nos cerca por todos os lados: cérebro, sociedade, Estado, Deus, arte, Eros, moral: escombros, fermentação – ressurreição? As imagens esvoaçam incessantemente, os átomos rodopiam sem descanso nas caldeiras em ebulição das grandes cidades. E, contudo, esta tempestade terá de se dissipar, esta torrente escaldante haverá de arrefecer e se moldar à ordem. Sempre a fúria se despedaçou contra pardas ruínas, ou encontrou quem, com mão de ferro, a atrelasse ao seu carro triunfal.

Por quê está nosso tempo tão carregado de forças de destruição e de criação? Por quê traz no seio tamanhas promessas? Matem as febres o que matarem, a chama continuará na mesma a arder, fabricando, em mil retortas, os prodígios do futuro. É o que mostram, a despeito de todos os profetas, uma volta pela rua ou uma vista de olhos pelos jornais.

Foi a guerra que fez dos homens e dos tempos aquilo que são. Nunca uma raça como a nossa descera à arena da Terra para disputar entre si o poder de dominar a época. Porque nunca uma geração transpusera um portal tão sombrio e tão portentoso como foi esta guerra, para ressurgir na luz da vida. Eis o que não podemos negar, ainda que alguns o quisessem: o combate, pai de todas as coisas, é também nosso pai. Foi ele que nos martelou, cinzelou e temperou, para fazer de nós o que somos. E enquanto a roda da vida vibrar em nós, esta guerra será sempre o eixo em torno do qual ela gira. Talhou-nos para o combate, e combatentes seremos enquanto existirmos. Já terminou, é certo; os seus campos de massacre estão abandonados e amaldiçoados como a câmara de tortura ou o monte do patíbulo, mas o seu espírito entrou nos servos da sua gleba, e nunca os libertará do serviço. E se está em nós, está em toda parte, pois, contempladores no sentido mais criador, somos nós que formamos o mundo e não o contrário. Não o ouvis como ruge vindo de milhares de cidades, trovoada que nos rodeia e se encastela ameaçadora, como quando os anéis das batalhas nos cercavam? Não vedes como a sua chama arde nos olhos de cada um? De vez em quando, talvez adormeça, mas se acontece a terra tremer, é ele que jorra a ferver de todos os vulcões em chamas.

Não importa: o combate não só é nosso pai, é também nosso filho. Geramo-lo como ele a nós. Fomos martelados e cinzelados, mas também somos os que brandimos o martelo, manejamos o cinzel, ferreiros e aço faiscante simultaneamente, mártires dos nossos atos, movidos pelos nossos impulsos.

No casulo bem fechado de uma mesma cultura, vivíamos todos juntos, mais próximos do que homens alguma vez o foram, dispersos pelos nossos trabalhos e prazeres, circulando por praças banhadas de claridade e por poços subterrâneos, nos cafés onde nos rodeavam espelhos resplandecentes, as ruas, grinaldas carregadas de luz, os bares cheios de licores de colorido variável, as mesas de conferência e o último grito, a cada hora sua novidade, a cada dia seu problema resolvido, a cada semana sua sensação, no fundo, uma enorme e irresistível insatisfação.

Técnicos e produtivos, atingíamos, com o riso de Ben Akiba[1], o fim da arte, tínhamos resolvido os enigmas do universo, ou acreditávamos estar presentes a chegar lá. Alcançara-se quase o ponto de cristalização, o advento do super-homem estava próximo.

[1] O proverbial sorriso do rabi Akiba alude ao seu otimismo na esperança da reconstrução futura, respondendo ao choro pessimista dos rabis que o acompanhavam diante das ruínas do Templo de Jerusalém destruído, pelos Romanos.

19/10/2011

Sobre o Perigo

por Ernst Jünger

Entre os sinais da época em que nós entramos agora pertence a crescente intrusão do perigo na vida diária. Não há acidente ocultando-se por trás desse fato mas uma mudança compreensiva no mundo interior e exterior.

Vemos isso claramente quando lembramo-nos que importante papel foi assignado ao conceito de segurança na época burguesa passada. A pessoa burguesa é talvez melhor caracterizada como alguém que coloca a segurança entre os mais altos valores e conduz sua vida de acordo. Seus arranjos e sistemas são dedicados a garantir seu espaço contra o perigo que às vezes, quando raramente uma nuvem aparece para escurecer o céu, manifesta-se à distância. Porém, ele está sempre ali: ele busca com constância elemental romper as represas com as quais a ordem cercou-se.


A peculiaridade da relação burguesa com o perigo encontra-se em sua percepção dele como uma contradição irresolúvel com a ordem, ou seja, como sem sentido. Nisso ele diferencia-se de outras figuras como, por exemplo, o guerreiro, o artista, e o criminoso, que possuem uma relação altiva ou vulgar com o elemental. Assim a batalha, aos olhos do guerreiro, é um processo que completa-se em uma ordem superior; o conflito trágico, para o escritor, é uma condição na qual o sentido mais profundo da vida deve ser compreendido muito claramente; e uma cidade em chamas ou assolada pela insurreição é um campo de atividade intensificada para o criminoso. Por sua vez, os valores burgueses possuem tão pouca validade para o crente, pois os deuses aparecem nos elementos, como a sarça flamenjante não consumida pelas chamas. Através do azar e do perigo impele-se o mortal na esfera superior de uma ordem mais alta.

O supremo poder através do qual o burguês vê a segurança garantida é a razão. O mais perto que ele encontra-se do centro da razão, mais as sombras escuras nas quais o perigo oculta-se disperam, e a condição ideal que é a tarefa que o progresso deve realizar consiste na dominação mundial da razão através da qual a fonte do perigo não apenas é minimizada mas ultimamente completamente secada. O perigoso revela-se à luz da razão como sem sentido e renuncia a sua reivindicação sobre a realidade. Nesse mundo, tudo depende da percepção do perigoso como o sem sentido, assim no mesmo momento em que ele é superado, aparece no espelho da razão como um erro.

Isso pode ser demonstrado em todo lugar e em detalhe dentro dos arranjos intelectuais atuais do mundo burguês. Revela-se claramente no projeto de ver o Estado, que sustenta-se na hierarquia, e a sociedade, com a igualdade como seu princípio fundamental e sendo fundada através de um ato de razão. Revela-se no estabelecimento generalizado de um sistema de seguros, através do qual não apenas os riscos da política externa e doméstica mas também da vida privada deve ser uniformemente distribuída e assim subordinada à razão. Revela-se ainda nos muitos e muito confusos esforços de compreender a vida da alma como uma série de causas e efeitos e assim remove-la da imprevisibilidade na direção de uma condição previsível, e assim inclui-la dentro da esfera na qual a consciência governa.

Nesse sentido a garantia da vida contra o destino, esta grande mãe do perigo, aparece como um problema verdadeiramente burguês, que é então sujeito às mais diversas soluções econômicas ou humanitárias. Todas as formulações de questões no presente, sejam estéticas, científicas, ou políticas em natureza, movem-se na direção da reivindicação de que o conflito é evitável. Caso o conflito não obstante emerja, como não pode, por exemplo, ser ignorado em relação ao fato permanente da guerra ou da criminalidade, então tudo depende de provar ser isso um erro cuja repetição deve ser evitada através da educação ou da iluminação. Esses erros aparece pela única razão de que os fatores daquela grande equação - o resultado da qual tem a população do globo tornando-se uma humanidade unificada e fundamentalmente boa, bem como fundamentalmente racional, e portanto também fundamentalmente segura - ainda não alcançaram reconhecimento geral. A fé na força persuasiva dessas opiniões é uma das razãos pelas quais o iluminismo tende a superestimar os poderes dados a ele.

Uma das melhores objeções que já foi levantada contra essa valoração é que sob tais circunstâncias a vida seria intoleravelmente tediosa. Essa objeção jamais foi de uma natureza puramente teórica mas sim foi aplicada praticamente por aquelas pessoas jovens que, na escuridão enevoada da noite, deixaram seus lares para buscar o perigo na América, no mar, ou na Legião Estrangeira. É um sinal da dominação dos valores burgueses que o perigo espreite na distância, "lá longe na Turquia", em cujas terras cresce pimenta, ou onde seja que o burguês gosta de deplorar por não conformar-se a seus padrões. Pois o desaparecimento completo desses valores, porém, jamais será possível, não apenas porque eles estão semprep resentes mas acima de tudo porque o coração humano necessita não apenas de segurança mas de perigo também. Porém esse desejo é capaz de revelar-se na sociedade burguesa apenas como um protesto, e de fato aparece, na forma de protesto romântico. O burguês quase foi bem sucedido em persuadir o coração aventureiro de que o perigoso não encontra-se de modo algum presente. Assim tornam-se possíveis figuras que dificilmente ousam falar sua própria linguagem superior, quer seja do poeta, que compara-se ao albatroz, cujas poderosas assas não são mais que o objeto de uma curiosidade entendiada em um ambiente estranho e sem vento, ou a do guerreiro, que aparece como um vagabundo porque a vida de um lojista enche-lhe de nojo. Incontáveis exemplos poderiam mostrar como em uma era de grande segurança qualquer vida lucrativa separar-se-á das distâncias simbolizadas por terras estranhas, intoxicação, ou morte.

Nesse sentido a guerra mundial aparece como a grande linha vermelha de equilíbrio sob a era burguesa, cujo espírito explicava - isto é, acreditavva-se capaz de invalidar - o júbilo dos voluntários que saudaram a guerra atribuindo-o ou ao erro patriótico ou a uma suspeita luxúria pela aventura. Fundamentalmente, porém, esse júbilo foi um protesto revolucionário contra os valores do mundo burguês; foi um reconhecimento do destino como a expressão do poder supremo. Nesse júbilo uma transvaloração de todos os valores, a qual foi profetizada por espíritos exaltados, foi completada: após uma era que buscou subordinar o destino à razão, outra seguiu-se que viu a razão como serva do destino. Desse momento em diante, o perigo não mais era o objetivo de uma oposição romântica; era ao invés uma realidade, e a tarefa do burguês era novamente recolher-se dessa realidade e escapar para a utopia da segurança. Desse momento em diante, as palavras paz e ordem tornaram-se um slogan ao qual uma moral mais fraca recorreu.

Essa foi uma guerra que não apenas nações, mas duas épocas conduziram uma contra a outra. Como consequência, ambos vencedores e vencidos haviam aqui na Alemanha. Vencedores são aqueles que, como salamandras, atravessaram a escola do perigo. Apenas esses resistirão em uma época quando o perigo, não a segurança, determinarão a ordem da vida.


Precisamente por essa razão, porém, as tarefas que a ordem deve realizar tornaram-se muito mais amplas do que antes; essas tarefas devem ser realizadas onde o perigo não é a exceção, mas sim constantemente presente. Como um exemplo, a força policial pode ser mencionada. Ela transformou-se de um grupo de funcionários públicos em uma formação que já parece-se bastante com uma unidade militar. Do mesmo modo os vários partidos grandes reconhecem a necessidade de adotar meios de poder que expressam o fato de que a batalha de opiniões não será decidida somente através de votos e programas mas também pelos adeptos comprometidos a marchar em apoio a esses programas. Tais fatos não devem de modo algum ser isolados e considerados como uma mudança temporária ou transitória na paisagem política. Nem pode a inclinação pelo perigo ser ignorada nas iniciativas intelectuais, e é inconfundível que novas formas do espírito vulcânico estão em operação. Fenômenos como a moderna teoria atômica, a cosmogonia glacial, a introdução do conceito de mutação na zoologia, todas apontam claramente, de modo completamente separado de seu conteúdo real, o quão forte o espírito está começando a participar em eventos explosivos. A história das invenções também levanta cada vez mais claramente a questão de se um espaço de conforto absoluto ou um espaço de perigo absoluto é o objetivo final oculto na tecnologia. Completamente à parte da circunstância de que dificilmente uma máquina, dificilmente uma ciência já existiu que não preencheu, diretamente ou indiretamente, funções perigosas na guerra, invenções como o motor de automóvel já resultaram em perdas maiores do que qualquer guerra, não importa quão sangrenta.

O que caracteriza especialmente a era na qual encontramo-nos, na qual entramos cada vez mais fundo a cada dia, é o relacionamento íntimo que existe entre perigo e ordem. Pode ser expresso desse modo: o perigo aparece meramente como o outro lado de nossa ordem. O todo é mais ou menos equivalente a nossa imagem do átomo, que é completamente móvel e completamente constante. O segredo oculto aí é um novo e diferente retorno à natureza; é o fato de que nós somos simultaneamente civilizados e bárbaros, de que nós aproximamo-nos do elemental sem termos sacrificado a acuidade de nossas consciências. Assim apresenta-se como duplo o caminho através do qual o perigo penetrou nossa vida. Ele interferiu sobre nós primeiro de tudo como uma arena na qual a natureza é ainda mais vital. Coisas, "as quais só eram possíveis na América do Sul", agora são familiares a nós. A diferença é que o perigo, a partir de uma dimensão romântica, tornou-se desse modo real. Em segundo lugar, porém, nós estamos envuando o perigo de volta por todo o globo em uma nova forma.

Essa nova forma de perigo aparece na conexão mais próxima realizada entre os eventos elementais e a consciência. O elemental é eterno: como as pessoas sempre encontraram-se em conflito apaixonado com coisas, animais, ou outras pessoas, como é o caso hoje. A característica particular de nossa era, porém, é precisamente que tudo isso transpira na presença da mais aguda consciência. Isso encontra expressão acima de tudo na circunstância de que em todos esses conflitos o mais poderoso servo da consciência, a máquina, está sempre presente. Assim o eterno conflito da humanidade com a natureza elemental do mar apresenta-se na forma temporal de um dispositivo mecânico supremamente complicado. Assim a batalha aparece como um processo durante o qual o motor blindado move-se enfrentando homens através do mar, da terra, ou no ar. Assim o próprio acidente diário, com os quais nossos jornais estão repletos, aparecem quase exclusivamente como uma catástrofe de tipo tecnológico.

Para além de tudo isso a maravilha de nosso mundo, ao mesmo tempo sóbrio e perigoso, é o registro do momento no qual o perigo transpira - um registro que é ademais realizado onde quer que ele não capture a consciência humana imediatamente, por meio de máquinas. Não necessita-se de qualquer talento profético para prever que logo qualquer dado evento estará lá para ser visto ou ouvido em qualquer lugar. Já hoje dificilmente há um evento de importância humana em direção ao qual o olho artificial da civilização, a lente fotográfica, não está dirigido. O resulto geralmente são fotos de precisão demoníaca através da qual a nova relação da humanidade com o perigo torna-se visível de modo excepcional. Deve-se reconhecer que é uma questão aqui muito menos da peculiaridade das novas ferramentas do que de um novo estilo que faz uso das ferramentes tecnológicas. A mudança torna-se iluminadora na investigação da mudança nas ferramentas que há muito tem estado a nossa disposição, como a linguagem. Ainda que nosso tempo produza pouco em termos de literatura no sentido antigo, muito de significância é realizado através de relatórios objetivos de experiência. Nosso tempo é instigado pela necessidade humana - o que explica, entre outras coisas, o sucesso da literatura de guerra. Nós já possuimos um novo estilo de linguagem, um que gradualmente torna-se visível sob a linguagem da época burguesa. O mesmo, porém, é verdadeiro de nosso estilo como um todo; ele é reminiscente do fato de que o automóvel foi por um longo tempo construído na forma de uma carruagem puxada por cavalos, ou de que uma sociedade completamente diferente já há muito estabeleceu-se sob a superfício da sociedade burguesa. Como durante a inflação, nós continuamos por um tempo a gastar as moedas usuais, sem sentir que a taxa de câmbio não é mais a mesma.

Nesse sentido, pode ser dito que nós já mergulhamos fundo em novos e mais perigosos reinos, sem estamos conscientes deles.