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06/11/2022

Jafe Arnold - Pensando em Continentes: Hiperbórea e Atlântida na Concepção de Tradição de René Guénon

 por Jafe Arnold

(2018)


Introdução

A noção de civilizações perdidas que representam valores antitéticos ou superiores às sociedades humanas existentes cativou a imaginação humana e inspirou a investigação estudiosa por tanto tempo que se tornou indiscutivelmente uma das indagações mais consistentes na história das ideias. Desde o quarto século da antiguidade grega, quando um conto sobre a ilha desaparecida da Atlântida foi evocado no Timeu-Crítias de Platão para formar um contraponto à República ideal de Platão, a postulação de terras ou culturas perdidas e remotas como pontos de referência para sistemas de valores e visões de mundo passou a ser reconhecida como um tipo emblemático de formação de identidade, como na teoria da "orientação sagrada"[1] de Jeffrey Kripal ou na "orientalização" de Gerd Baumann. [2] De fato, como Martin Lewis e Karen Wigen apontaram em seu O Mito dos Continentes de 1997, a própria prática de distinguir espaços geográficos em relação a critérios tipológicos é uma das formas mais impactantes em que os humanos ordenam sua compreensão do mundo e está intimamente ligada a paradigmas ideológicos.[3] As terras empiricamente perdidas ou mesmo míticas imbuídas de características arquetípicas estão, como o estudioso americano Joscelyn Godwin demonstrou em seus estudos sobre os mitos da Hiperbórea e da Atlântida, entre os temas mais antigos e persistentes da história das ideias humanas a respeito das origens e do significado da vida na Terra, e até mais além.[4] Isto é especialmente relevante na história do esoterismo e do ocultismo ocultos ocidentais, sobre o qual Sumathi Ramaswamy apontou: "O ocultismo quase não tem sido escrutinado pelos estudiosos, e ainda assim isto é enormemente revelador dos trabalhos de perda que distinguem sua modernidade... A preocupação esotérica com os continentes perdidos tem sido amplamente depreciada tanto por estudiosos profissionais quanto por estudiosos independentes, mas eles falham ou se recusam a considerar por que o ocultismo fetichiza os lugares perdidos"[5].

05/07/2022

Jafe Arnold - Guénon na Rússia: O Tradicionalismo de Aleksandr Dugin

 por Jafe Arnold



Uma introdução laboriosa

Desde pelo menos 2014, quando a revista política americana de alto nível Foreign Policy considerou-o um dos "principais pensadores e agitadores globais"[1], o filósofo e figura política russo Alexander Dugin (1962-) figurou na vanguarda da atenção jornalística e acadêmica no Ocidente. Um dos poucos estudiosos ocidentais que escreveram sobre Dugin antes desta "globalização", desde então, avaliou que Dugin se tornou "o mais bem comercializado de todos os ideólogos russos, tanto na Rússia como no Ocidente"[2]. De fato, através de uma infinidade de meios de comunicação, Dugin tornou-se irrevogavelmente notório com títulos sensacionalistas como "o filósofo mais perigoso do mundo", "um dos seres humanos mais perigosos do planeta", "o cérebro de Putin", "o Rasputin de Putin", o guru do Kremlin", e outros epítetos que, independentemente de sua persuasão ou precisão, são endêmicos da impressão cada vez mais difundida de que a posição de Dugin no discurso internacional do século XXI marca uma espécie de "pedra de toque da controvérsia". Como ato simbólico desta proeminência e controvérsia, em setembro de 2019 o Instituto Nexus organizou um debate público entre Bernard-Henri Lévy e Dugin em Amsterdã que foi apresentado como uma "reformulação" de Settembrini e Naphta da Montanha Mágica de Thomas Mann[3].

No entanto, embora a esmagadora maioria da atenção dedicada a Dugin continue a ser estritamente política (e mais frequentemente sobre o personagem), um corpo literário em constante crescimento tem se mostrado útil para considerar o perfil e o corpus intelectual real de Dugin. Em particular, a filiação de Dugin e seu engajamento com a corrente do Tradicionalismo, originalmente exposto pelo intelectual francês René Guénon (1886-1951) e popularmente associado com uma gama de autores como Ananda Coomaraswamy (1877-1947), Frithjof Schuon (1907-1998), Julius Evola (1898-1974), Hossein Nasr (1933-), bem como, de forma mais contestada, Mircea Eliade (1907-1986) e outros. Embora Dugin tenha repetidamente, reivindicado explicitamente sua identidade como Tradicionalista desde os anos 80, o reconhecimento e o exame desta filiação só veio a ser abordado na literatura acadêmica ocidental nas últimas duas décadas. Sem dúvida, o impulso seminal nesta direção pode ser atribuído à influente monografia de Mark Sedgwick de 2004 sobre o Tradicionalismo, Contra o Mundo Moderno: O Tradicionalismo e a História Intelectual Secreta do Século XX, cujo prólogo foi aberto com nada mais nada menos que um relato do encontro de Sedgwick com Dugin em 1999 e que apresentava um capítulo inteiro dedicado a Dugin, nele identificado como um "Tradicionalista de importância central" que, Sedgwick apresenta, é "responsável pela última grande modificação [do Tradicionalismo] do século XX, equipando o Tradicionalismo para o Oriente Europeu"[4]. O livro de Sedgwick também apresentou uma das primeiras investigações históricas sobre as origens intelectuais de Dugin na era soviética do grupo dissidente ocultista-tradicionalista conhecido como o "círculo Yuzhinsky"[5]. Em um estudo posterior, Sedgwick consideraria Dugin "um dos principais expoentes do tradicionalismo russo", discernindo que "uma forma de tradicionalismo que é tanto distintamente soviética quanto distintamente russa está no coração da política de Dugin", e finalmente sugerindo que "dado que o intelectual permaneceu consistente ao longo dos anos enquanto o político mudou um pouco e o público mudou ainda mais", uma atenção mais séria deveria ser dedicada ao pensamento real de Dugin, particularmente ao tradicionalismo de Dugin, ao invés de suas associações políticas percebidas[6]. Nas palavras de Sedgwick para a Academia Americana de Religião: "sua prática espiritual [de Dugin] pode ser explicada em termos de Guénon, e sua atividade política pode ser explicada em termos de Evola"[7].

25/10/2021

Luca Siniscalco - Entrevista com Jafe Arnold: "Dugin, O Filósofo Mais Perigoso do Mundo"

 por Luca Siniscalco e Jafe Arnold

(2019)

Um dos aspectos mais estimulantes do estudo do esoterismo é sem dúvida a sua transversalidade temporal e a pluralidade das suas "gemações" internas: a combinação destes elementos permite um estudo diacrónico, baseado na articulação cronológica, bem como um sincrônico, através da comparação e estudo profundo de ideias, temas, arquétipos e figuras. Cruzar as duas metodologias não é uma tarefa fácil, mas pode conduzir a resultados sem precedentes, mesmo no que diz respeito à rigorosa contemporaneidade. É o que nos propusemos fazer nesta entrevista, que visa explorar as peculiaridades da investigação esotérica do conhecido intelectual russo Aleksander Dugin.

Uma leitura rápida dos títulos das suas obras e um olhar rápido sobre as fontes bibliográficas das suas obras é suficiente para compreender como a sua obra cobre uma vasta gama de cenários e disciplinas - da filosofia contemporânea à filosofia antiga, da geopolítica à sociologia, da antropologia à história das religiões, das relações internacionais ao esoterismo - e como a natureza complexa e proteiforme da sua produção intelectual não pode ser reduzida à vulgata do jornalismo ocidental, que até agora tem tematizado - muitas vezes em tons farsescos - apenas as suas reflexões sobre assuntos políticos atuais. Numa inspeção mais atenta, porém, torna-se claro que mesmo o Dugin dos tempos modernos, polemista político e eurasianista, recorre a estruturas conceituais, linguísticas e simbólicas que são intrinsecamente esotéricas nos seus argumentos. Dugin não só dedicou a maior parte dos seus esforços à publicação de obras metafísicas, histórico-religiosas, e esotéricas (poucas das quais, infelizmente, foram traduzidas para línguas europeias, e quase nenhuma delas é conhecida pelos estudiosos da corrente dominante), mas mesmo quando fala e escreve sobre questões distintas - política, atualidade, até cultura pop - as categorias interpretativas que adopta refletem sempre uma hermenêutica mítico-simbólica impregnada de esoterismo.

27/04/2016

Jafe Arnold - Tragédia & Farsa: Reconsiderando a Análise Superestrutural Marxiana de Movimentos Sociais Heterodoxos (Parte II)

por Jafe Arnold



Uma Reconsideração Heurística do Marxismo e da Modernidade na Eurásia


Na introdução a esta série, nós apresentamos e fornecemos algumas afirmações cursórias sobre o tópico geral de nossa investigação. Nós chamamos atenção para a aplicação problemática da tese de Marx sobre a "poesia do passado" (como apresentada no Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte) e a confusão dominante sobre a relação entre a superestrutura (ideologia, a "poesia") e a base (forças classistas objetivas) que se manifesta quando marxistas analisam e tentam identificar a trajetória de movimentos sociopolíticos, particularmente dos que são sincréticos na era moderna e pós-moderna, que geralmente desafiam estereótipos estéticos normativos, apresentando "pistas" superestruturais aparentemente "heterodoxas" e talvez "contraditórias", estas por causa do precedente falho disposto por Marx em contradição a seu próprio esquema, confunde marxistas em suas análises e não raro os leva a categorizações errôneas de movimentos ou Estados "progressistas" como "reacionários".


Nesta fase, nós nos aprofundaremos nos sustentáculos teóricos do marxismo enquanto ideologia da modernidade, com o objetivo de descobrir os paradoxos que subjazem o precedente estabelecido por Marx no Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte. Nós vamos prosseguir, então, apresentando os contornos gerais junto aos quais nosso estudo se desdobrará conforme examinamos o marxismo através de suas próprias lentes, reconsideraremos sua percepção de movimentos sociopolíticos heterodoxos e as implicações práticas e teóricas aí, e traçar a trajetória da hermenêutica paradoxal do marxismo na direção de uma ideologia política sincrética.

Marxismo, o Século XX e a Quarta Teoria Política


Há muito tempo já se tornou claro que a Primeira Teoria Política (1TP), o liberalismo, emergiu do século XX como a ideologia vitoriosa da modernidade. Este fato inevitável e suas implicações práticas tem sido analisados por um número de estudiosos em uma ampla variedade de campos. As outras duas principais teorias sociopolíticas, marxismo (com seus vários derivados) e fascismo (com suas várias correntes), foram postas uma contra a outra, demonizadas a partir de todas as direções, e sofreram derrotas decisivas em esferas cruciais em diferentes épocas pelo massivo complexo militar, ideológico e político-econômico da 1TP, que desde os anos 90 se tornou a norma aterradora para amplas faixas da população mundial. Agora, porém, conforme este "Fim da História" vai se revelando cada vez mais insustentável, intolerável e indesejável, atenção crescente vai se dando para as várias ideologias antiliberais da modernidade, com um olho para resgatar e analisar criticamente seus elementos nominais, bem como os antiliberais e antimodernos paradoxais.




Esta, por exemplo, é parte da obra em desenvolvimento da Quarta Teoria Política, que busca dissecar a 2TP e a 3TP, remover seus núcleos hermenêuticos derivados da modernidade, e assim absorver criticamente aquelas entre suas teses que possam ser mensuradas contra as realidades de criticar o liberalismo e a pós-modernidade sem arrastar a bagagem de seus preconceitos modernistas. Esta também é parte do po projeto de sincretismo político que busca reconsiderar os ritmos de coincidência entre as três teorias sociopolíticas da modernidade, sintetizar um novo entendimento dessas ideologias políticas, e empregar criticamente análises antiliberais para o fim de informar a nascente 4TP.



De particular interesse para nós no contexto e esquema de tal projeto é o marxismo. O marxismo foi a única das três ideologias políticas primárias da modernidade que desenvolve uma estrutura ideológica ampla e sistemática que se prestou para analisar de forma habilidosa uma gama bastante ampla de fenômenos. Em comparação com o obscurantismo dos jingoísmos do liberalismo e com alguns dos apelos emocionais fascistas a certos arquétipos finalmente canalizados em um projeto fundamentalmente modernista, o marxismo ofereceu a mais "científica" de todas as filosofias políticas "cientificistas" da modernidade. Ademais, um estudo da evolução do marxismo ao longo dos séculos XIX e XX, e mesmo de seus vários remanescentes "dogmáticos" hoje, revela que ele provou ser o esquema analítico mais dinamicamente autocrítico de todas as ideologias antiliberais. Em termos de movimentos sociopolíticos e projetos analíticos, o marxismo se provou mais duradouro que outras ideologias. Suas análises da lógica e trajetória do capitalismo, sua crítica do imperialismo moderno, e outras teses já foram até transplantadas para os arsenais de outras teorias e projetos políticos aparentemente contraditórios. Ademais, o liberalismo e os próprios liberais, reconhecendo, ou, mais precisamente, temendo a presciência de certas projeções marxistas, fizeram uso da própria estrutura marxista para melhor entender como fortificar suas posições e neutralizar qualquer oposição antiliberal.

Onde o marxismo falha, porém, e isso pode responder por boa parte das inadequações dos experimentos socialistas do século XX, é na compreensão e reconsideração dele próprio. Conquanto Marx e seus seguidores expuseram e formularam de forma brilhante teses contra aspectos cruciais do liberalismo, do capitalismo e do imperialismo capitalista, e até conseguiram liderar algumas revoluções com base na estrutura analítica autocrítica e dinamicamente aplicável, o marxismo, sem falar nos marxistas, comumente falharam em apreender as dimensões mais profundas de suas experiências revolucionárias. Ao invés, as premissas inerentemente modernistas do marxismo foram levadas à sua conclusão lógica e as grandes revoluções socialistas do século XX ou falharam em resistir ou reexaminaram criticamente seus preconceitos em relação aos paradigmas fundamentais da modernidade. O produto final, que assola a maior parte da esquerda do século XXI, foi uma série de "revisões" que, ao invés de escavar o "marxismo real", castrou e prendeu o marxismo ainda mais nas garras do liberalismo, finalmente colocando algumas de suas encarnações políticas em linha com a burguesia, com a política liberal e com a confusão e desilusão da pós-modernidade.

Marxismo e Modernidade - Contornos Introdutórios


É de supremo interesse que quando Vladimir Lênin se gabou de que "a doutrina marxista é onipotente porque ela é verdadeira", [2] seu ângulo para tal perspectiva pouco tinha a ver com o ângulo a partir do qual intelectuais e líderes revolucionários marxistas posteriores procederiam quando se engajando em exercício ideológico ou mobilização insurrecional. Para Lênin, o marxismo era "onipotente" e "verdadeiro" não porque era a motivação ideológica última para "servir o povo", "construir o Exército Vermelho" ou "reunir o povo ao redor do Partido e do Líder", mas porque ele era um "sucessor legítimo" para e representava a conclusão lógica e ampla do "melhor que o homem produziu no século XIX, como representado pela filosofia alemã, pela economia política inglesa e pelo socialismo francês".


Na percepção de Lênin, o valor do marxismo enquanto ideologia não era seu apelo idealista, apaixonado aos instintos rebeldes dos trabalhadores explorados, das "nacionalidades oprimidas", ou dos inconformistas alienados e incansáveis da intelligentsia, mas sua conformidade com, continuação da, e aplicação revolucionária (interpretar o mundo com o objetivo de mudá-lo) das ciências mais desenvolvidas produzidas pela modernidade. Que o caráter moderno do marxismo era a joia mais valorizada, incansavelmente defendida, para o maior e mais vitorioso líder comunista revolucionário do século XX deve imediatamente chamar a atenção de qualquer um que busque entender as origens, trajetória e natureza do marxismo enquanto ideologia revolucionária. Afinal, um dos argumentos mais amplamente vocalizados por seus defensores é precisamente que o marxismo é uma "ciência" que, com base em absorver e sintetizar criticamente todas as "descobertas" até então, tanto na escola analítica, como na escola continental, de filosofia europeia, representa um arsenal autocrítico de pensamento e práxis revolucionárias capazes de explicar e guiar a humanidade a uma nova fase na evolução histórica.

A dialética se desdobra diante de nós. O marxismo, ao digerir os produtos mais "progressistas" do pensamento moderno, simultaneamente os leva até sua conclusão lógica, finalmente revelando as contradições em suas manifestações abstratas (ideológicas), bem como concretas (socioeconômicas e políticas). A partir daí, o marxismo aponta para a irreversibilidade, inevitabilidade e desejabilidade de uma derrubada revolucionária do modo existente de produção (capitalismo) e sua ideologia (liberalismo), abrindo assim uma nova fase no desenvolvimento humano, que é aguardada para resolver essas contradições através de um novo modo de produção (socialismo -> comunismo).

Ao chamar pela reconstituição revolucionária da sociedade humana contemporânea, não apenas como uma inevitabilidade lógica, historicamente sancionada, mas também como um imperativo revolucionário, o marxismo pode ser considerado uma ideologia que é "contra o mundo moderno". Porém, é normalmente tomada como dada a medida em que isso é limitado, e os paradoxos que se tornam evidentes aí, sem mencionar as consequências dessa realidade para os experimentos socialistas do século passado. Na medida em que o mundo moderno é predominantemente capitalista, o marxismo, com sua proposta de uma substituição revolucionária do capitalismo pelo socialismo, é indubitavelmente uma ideologia de oposição. Porém, como Lênin esclarece bem profundamente, o marxismo em si é um produto da própria transição de paradigma filosófico e histórico, a modernidade, que estabeleceu as bases teóricas, epistemológicas e antropológicas para todas as três teorias políticas da modernidade: liberalismo, marxismo e fascismo. Enquanto o marxismo critica e analisa a lógica e trajetória da manifestação socioeconômica do liberalismo, o capitalismo, ele simultaneamente, enquanto ideologia da modernidade, partilha de alguns dos postulados fundamentais do liberalismo, sem mencionar o fato de que elogia e absorve os "avanços científicos" que acompanharam a derrubada dos resquícios da sociedade pre-moderna pelo liberalismo.

Essa realidade torna o marxismo apenas circunstancialmente, ou parcialmente, antagônico à trajetória da modernidade. Ademais, isso significa que, apesar de sua reivindicação partilhada com o liberalismo de ser uma ideologia universalmente aplicável, o marxismo foi um produto das experiências europeias da Renascença, da Reforma, da Revolução Científica e do Iluminismo, cuja soma total produziu a modernidade e as revoluções derivadas no pensamento e na organização da sociedade humana. Para elaborar este ponto e colocá-lo no âmbito específico de nossa discussão, vamos revisar brevemente exatamente o que significa "modernidade".

Modernidade pode ser compreendida tanto como uma era histórica, bem como um paradigma filosófico. De fato, foi precisamente a transição em paradigma filosófico na Europa Ocidental que assinalou o início de uma nova fase histórica como resultado das transformações ideológicas, tecnológicas, políticas e socioeconômicas dialeticamente conectadas com (no sentido de engendrando, bem como sendo refletido por) mudanças dramáticas no âmbito do pensamento. As proposições revolucionárias por modificarem a compreensão que os humanos tinham do mundo ao seu redor, como produzidas pelos movimentos acima mencionados e seus pensadores, justificavam e refletiam transformações na base das sociedades europeias. Suas teses, que primeiro e mais importantemente incluíam humanismo, secularismo, materialismo, progressismo e universalismo, bem como um eurocentrismo conjurado a partir de uma Tradição Ocidental falsificada, finalmente estabeleceram as fundações para todas as três das "grandes ideais" da modernidade. O marxismo está saturado com e foi elaborado com base nesses postulados.



O marxismo acabou sendo a tendência antiliberal mais duradoura e a mais comparativamente bem sucedida do século XX. Revoluções de centenas de milhões de pessoas foram realizadas sob seu estandarte e lideradas por seus pensadores; ele ofereceu um caminho não-capitalista de desenvolvimento socioeconômico para várias sociedades, e demandou enormes concessões e reações por parte do liberalismo e do capitalismo. Mesmo hoje, os movimentos e analistas que se mantiveram fieis a seus princípios continuam a exercer enorme influência e projetam poder considerável em partes seletas do mundo.

Não obstante, permanece um fato que o liberalismo e o capitalismo venceram a batalha pelo século XX. Apesar de todos os sucessos desse ou daquele país socialista ou movimento político marxista, foi o liberalismo que reivindicou o "Fim da História" e prosseguiu para construir uma nova ordem mundial em seus termos.

Em Busca do "Marxismo real"

Hoje, uma reconsideração e "revolucionização", em oposição a uma "revisão" pró-liberal, pró-capitalista ou pró-modernista, é necessária não apenas para retificar os erros dessa formidável tendência antiliberal do século XX, mas também para incorporá-la no impulso crescente de uma nova luta filosófica, ideológica, política e socioeconômica contra todas as bases e manifestações do mundo moderno que o marxismo previamente reduzia ao capitalismo.

À primeira vista, isso pode de fato parecer ser uma "revisão" do marxismo. Após uma análise mais profunda, porém, nós descobrimos que isso não significa descartar ou sair da estrutura analítica marxiana, mas usá-la para alcançar o que grandes marxistas do século XX foram incapazes de fazer: explorar os núcleos profundos e paradoxais do marxismo, que o situam enquanto uma ideologia condicionalmente e parcialmente antimoderna e ressuscitar certos elementos que jazem enterrados ou disfarçados sob o marxismo puramente "materialista" que vê a história do homem através de lentes liberais.

Isso envolve um número de ângulos. Isso significa invocar e analisar o marxismo "mitológico", "escatológico" ou "esotérico" que o marxismo nominal e o Marx do século XIX afirmaram ter superado e "posto de pernas para o ar". Isso significa dar um novo olhar para as razões pelas quais as revoluções "marxistas" e historicamente socialistas aconteceram em sociedades subdesenvolvidas, "pré-modernas". Isso similarmente demanda uma justaposição do marxismo com vários movimentos nominalmente não-marxistas que, apesar de usualmente identificados com a "direita" política, na verdade partilham de certas trajetórias e perspectivas complementares que reforçam ou, paradoxalmente, se interseccionam e confirmam uma à outra e sugerem a possibilidade de um sincretismo político capaz de reconciliar a foice e martelo industriais do comunismo com os antigos e esotéricos símbolos da Tradição. Isso necessariamente inclui um reconhecimento da coincidência entre a luta entre Capital e Trabalho e outras forças historicamente antagônicas, como fundar a luta do Trabalho na terra, em um marxismo continental contra o mar do liberalismo atlantista.

Em certa medida, isso não só significa ler Marx "a partir da direita" ou ler pensadores direitistas antiburgueses e antimodernos "a partir da esquerda", mas também buscar pelo embutimento dessas ideologias e projetos na carne dos "inimigos da sociedade aberta" i.e., os inimigos não só do capitalismo e da burguesia, mas da própria modernidade. Em geral, isso significa um exame dos erros qualitativos do marxismo desde a perspectiva de trabalhar através de seu próprio pensamento qualitativo e do revolucionamento subsequente de sua visão da história do mundo, o que colocaria Marx não apenas em linha com sua própria ciência proposta, mas na verdade exorcizaria a "ciência" fundamentalmente liberal de Marx e revelaria o marxismo oculto, o marxismo que toca os arquétipos profundos da consciência, da história e da escatologia até então não descobertos dentro do próprio marxismo. Só com base em tal retificação ideológica podemos então prosseguir para estudos de caso como previamente proposto pela série.

O produto final de tal marxismo revitalizado seria um "socialismo eterno", i.e., um socialismo livre dos preconceitos e limitações modernistas que finalmente o estrangularam, desacreditaram e o confundiram na teoria e na prática no século XX.

Alguns pensadores e movimentos já tentaram realizar este projeto. Nas décadas de 20 e 30, os nacional-bolcheviques da Alemanha e da Rússia e alguns eurasianistas tentaram transformar não apenas as concepções do marxismo enquanto ideologia, mas também diluir seus elementos modernistas para chegar a uma nova ideologia política.

Na década de 90, Gennady Zyuganov, como líder do Partido Comunista da Federação Russa em colaboração com tais intelectuais como Aleksandr Dugin, buscou reconceitualizar o socialismo soviético sobre uma nova base que permitisse a importância dos fatores "civilizacionais" e "espirituais" russos e mais profundos. Os movimentos "vermelho-marrons" na Rússia no início do século XXI também contribuíram para este processo. Dugin explorou e propôs orientações e perspectivas para escavar o que ele chama de "marxismo real" que, apesar de ignorado por marxistas "ortodoxos" ou "nominais", na verdade teve a maior influência sobre os socialismos do século XX. O próprio Centro para Estudos Sincréticos também buscou embarcar em uma "ressurreição" desse "marxismo das formas para além das imagens e coisas". 



Tal marxismo não remove as teses e análises cruciais de seu contexto histórico, seu embasamento, mas na verdade leva suas raízes ainda mais fundo no solo para atingir o centro encoberto dos verdadeiros significados de "revolução", "o povo", o "proletariado", "Terceira Internacional", o "ópio do povo", o "espectro rondando a Europa", e o slogan "Marx não está morto". Só uma abordagem assim pode resgatar o marxismo das garras da "política de identidade", determinar movimentos políticos genuinamente positivos (em oposição ao termo modernista de "progressista", e oferecer a teoria revolucionária para um movimento revolucionário, um "socialismo do século XXI" contra o mundo moderno em todos os seus aspectos. Tal produto inevitavelmente formaria parte de uma Quarta Teoria Política objetivando decifrar o paradigma, as contradições, os elos fracos, e a reconstituição revolucionária da ordem mundial existente que afirmou a morte de Marx e o Fim da História na década de 90.

Assim, nós propomos iniciar este trabalho teórico e integrá-lo em nossa critica das percepções marxianas de movimentos sociopolíticos nominalmente não-marxistas e nossa escavação das possibilidades no próprio marxismo "morto". 


04/10/2015

Jafe Arnold e Joaquin Flores - Tragédia e Farsa: Reconsiderando a Análise Superestrutural Marxiana de Movimentos Sociais Heterodoxos (Parte I)

por Jafe Arnold e Joaquin Flores



Utopia vs. Mito, a Poesia do Passado, e a Revolução Social - Uma Introdução Geral a esta Série

Introdução

Comecemos estabelecendo que houve três ideologias sócio-políticas da modernidade - liberalismo, comunismo e fascismo; a primeira, segunda e terceira teorias políticas, respectivamente. Novos desenvolvimentos no arranjo global de forças sócio-econômicas, ideológicas e geopolíticas em anos recentes nos forçam a examinar estas com novos olhos. Por um lado, precisamos reconhecer a herança filosófica comum de todas estas três ideologias na modernidade, e assim revelar as instâncias nas quais elas conscientemente ou inconscientemente se coadunam, enquanto pelo outro lado delinear por entre seus respectivos entendimentos de seus papeis como ideologias. Em particular, o objetivo desta série é reconciliar o esquema analítico marxiano com as características estruturais e superestruturais de novos e sincréticos movimentos sócio-políticos, em sua forma puramente estética, bem como em seus aspectos ideológicos mais profundos.

O ponto de partida de nossa investigação é o reconhecimento de que vivemos em um tempo extremamente ideológico, e ainda assim parece para muitos que não vivemos. Que muitos no Ocidente creiam que vivemos em um período "pós-ideológico" é, na verdade, testamento da saturação total da ideologia liberal. Desde a vitória do Ocidente liberal sobre a União Soviética e a proclamação liberal do "fim da história" (nas palavras de F. Fukuyama), o liberalismo se tornou tão entranhado em cada faceta da vida ao ponto de ser indistinguível da própria vida quotidiana em si mesma. Enquanto tal, ela provou ser a ideologia totalitária mais eficiente até então criada pela humanidade.

Liberalismo & Marxismo

O liberalismo apela a nossos instintos individuais inatos, mas o faz de tal maneira a guerrear contra nossos instintos coletivos igualmente inatos. Ambos esses instintos inatos - o individual e o coletivo - são partes integrais da experiência humana. Uma instância destacável da crua atomização imposta pelo liberalismo pode ser vista no fato de que o sexo parece ser um foco particular da ideologia liberal contemporânea, impulsionado de forma padrão como uma questão divisiva entre grupos político-midiáticos liberal-progressistas e liberal-conservadores [1]. Formular uma crítica ampla do liberalismo como a ideologia do capitalismo significa reexaminar como compreendemos movimentos anticapitalistas radicais hoje. Isso significa, em primeiro lugar, ousar reconsiderar e distinguir a base e a superestrutura em teorias marxianas sobre movimentos sociais heterodoxos (e aparentemente não-esquerdistas). Sobre este fundamento podemos proceder com um entendimento renovado com o qual analisar e então transcender (em teoria) questões particularmente divisivas.

Estas questões divisivas, de fato, não são fundamentais per se, mas são questões superestruturais que existem principalmente no reino das armadilhas discursivas; os tipos de formas de linguagem usados que nos dirigem a associar estas com outros reinos distintos de pensamento e atividade. Estes são modos e reinos que até então foram considerados pelos marxistas como hostis aos interesses históricos e materiais de classe do proletariado; eles estão associados com políticas de reação, pré-modernidade, e/ou com forças de classe da burguesia ou da pequena-burguesia em um modo de crise. Outras questões são étnicas, de gênero e de sexo, que dividem as forças do proletariado. A ossificação de uma cultura "globalista" politicamente correta neoliberal que as cercam serve para justificar o "imperialismo dos direitos humanos": estes representam exemplos cruciais da permuta entre teorias "antiliberais" (formalmente, elas não estão abertas para debate) pelo próprio paradigma liberal da modernidade.

Os elementos utópicos no liberalismo encontraram expressão em seu ramo de "progressismo", e os marxistas, tal como os socialistas utópicos antes, encontraram um chão comum com os liberais. O ramo futurista do fascismo também apelava a esse progressismo, e republicanos radicais, anarquistas, sindicalistas, bem como republicanos vermelhos na Itália estiveram entre os fundadores dessa terceira teoria política no plano italiano. O esquema progressista, que permitiu e engendrou a fertilização cruzada entre as três teorias políticas, as situa todas elas como teorias políticas modernas. Porém, o núcleo para teorias políticas futuras existe na segunda e terceira - ambas as quais propõem a questão do que seguirá a ordem capitalista (liberal) moderna.

Assim, há um erro inerente em pensar as três ideologias da modernidade em formas estáticas; pensá-las como estruturas que se situam sozinhas. É, então, errôneo contrastá-las com ideologias "sincréticas", ou considerar a terceira teoria política como distintamente sincrética, e a primeira e segunda não. Todas as três teorias políticas da modernidade influenciaram umas as outras; cada uma foi criada a partir de ideias não apenas daqueles que as precederam, mas que concretamente emergiram do mundo material realmente existente e de tudo que foi herdado dele. Cada teoria política não emergiu sob uma forma completa, e assim, por exemplo, o liberalismo hoje tem traços tanto do comunismo (i.e., marxismo) e do fascismo. Similarmente, o marxismo nasceu não apenas do liberalismo e de sua contemplação do feudalismo e da pré-modernidade, mas estava interagindo simultaneamente com; subsumindo aqui e rejeitando ali, as ideias do liberalismo radical, do nacionalismo, do existencialismo e do anarquismo, que são, não por acidente, todos juntos também as bases do fascismo.

Uma chave dada por Marx: O XVIII de Brumário

Para muitos que compreendem a trajetória do desenvolvimento histórico através de uma lente marxiana, poucas coisas parecem mais contraditórias em relação às próprias visões de Marx do que sua "correção" de Hegel nas primeiras linhas do Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte. O ensaio em si permanece como uma das melhores descrições de Marx de sua teoria do Estado capitalista. A análise dos marxianos é intelectualmente honesta quando ela opera com uma compreensão das condições objetivas e subjetivas nas quais a transformação histórica se dá, segundo o esquema analístico do materialismo histórico ou dialético. Ademais, ela exibe uma distinta fidelidade à ciência proposta quando olha objetivamente e sem viés emotivo para as formas superestruturais que tais transformações históricas assumem.

O problema identificável, então, ao se aplicar a mesma análise marxiana ao presente, isto é, quando ela se apoia nas dicas superestruturais à disposição e cede à pressão da cultura de ativismo, ela pode falhar particularmente quando observa movimentos sociais contemporâneos, isto é, do início do século XXI na era pós-moderna. Uma chave para compreender este problema, como uma introdução adequada a nossa investigação, pode estar em uma leitura revisada do primeiro capítulo do XVIII de Brumário.

Assim, será importante para nós examinar não apenas como esta correção é interpretada equivocadamente pelos marxistas, mas também talvez onde o próprio Marx poderia ser corrigido - ou talvez melhor, alinhado com sua própria ciência proposta. Isto levantará a questão do que isso significa no contexto do reino superestrutural da estética, cultura, palavras (ou armadilhas discursivas), ideais e símbolos. Se Marx parece se contradizer, pode ser importante virá-lo de cabeça para cima.

A confusão entre forma e substância não é apenas um problema teórico, mas um que possui impacto extraordinário sobre o presente: se socialistas radicais, anarquistas e comunistas estão hoje confiando em pistas superestruturais para determinar a identidade de seus "inimigos de classe", isto pode ser um equívoco trágico, e em retrospecto, uma farsa. Conforme começamos a sofrer com a "overdose de informação" da era da internet, e onde déficits de atenção batem record, na verdade é difícil não ser econômico quando se procura por certas pistas: comunistas hasteiam bandeiras vermelhas, anarquistas bandeiras negras, enquanto socialistas mimetizam liberais se privando de simbolismos abertos. Ao contrário, os socialistas usam linguagem e sintaxe "liberal" e "progressista" para atingir qualquer um à esquerda do centro. Todos os três, porém, na melhor das hipóteses ignoram, e na pior das hipóteses vilificam aqueles na centro-direita e mais além.

Marx vs. os marxistas: Subsunção total de todas as classes em um proletariado

O problema com a marginalização ou vilificação de pessoas na "centro-direita e mais além" é, obviamente, que em termos de processos eleitorais é efetivamente impossível ter sucesso neste terreno sem ideias "de centro-direita e mais além" apelando a membros do proletariado. É simplório demais varrer estas sob o tapete da "falsa consciência" sem colocar seriamente em questão o potencial para (e a realidade da) agência de classe em geral. Em conexão com isto está um problema na maneira pela qual grupos comunistas contemporâneos tem ignorado a teoria marxista real e simplificado sua definição de "proletário".

Ao contrário, não apenas ao olhar para a sociedade civil, mas também na teoria marxista, nós devemos compreender que sob condições do capitalismo tardio, i.e., modernidade tardia, que o desenvolvimento capitalista proletarizou todas as outras classes (pequeno-burguesa, etc.) através de várias maneiras. Todas as classes prévias, que existem hoje sob forma proletária, foram subsumidas pelo capital e proletarizadas; todas estão envolvidas no processo crítico de valorização. Por definição, portanto, todas estão envolvidas na produção de mais-valia. Todos os labores estão em análise final orientados para o acúmulo de capital; e todos estão em análise final alienados do trabalhador e acumulados pelo capitalista, através do ciclo de produção, dos produtos de dito labor.

Os mecanismos da acumulação de capital, no contexto do capitalismo tardio, não são apenas a apropriação de mais-valia sob a forma de salários na típica relação empregador-empregado; mas, ao invés, todas as relações de produção ou relações sociais estão engendradas para a acumulação de capital pelos capitalistas financeiros. Modos pré-capitalistas (aluguéis, taxas), capitalistas (salários), e capitalistas tardios (empréstimo/especulação/finanças) de apropriação de capital, são todos utilizados no capitalismo tardio como métodos de acumulação de capital.

Assim, classes que aparecem como gerenciais, pequeno-burguesas, lumpen, administrativas, etc. foram proletarizadas. Dessa forma suas lutas, quando dirigidas à ordem estabelecida, independentemente da poesia, (slogans, simbolismo, gritos de guerra, imagética e estandartes), são geralmente proletárias em substância ainda que não de forma aparente.

Assim no que concerne atalhos interpretativos, úteis que seja, eles possuem duras limitações por se referirem a interpretações majoritariamente desatualizadas de pistas estéticas e superestruturais em geral. Este é especialmente o caso conforme vários movimentos sociais emergindo em oposição ao capitalismo derivam de uma mistura aparentemente caótica ou dissonante de vários radicalismos. Estes até mesmo incluem aqueles que parecem e sentem como se originando da extrema-direita fascista, e podem de fato originar daí. Como exploraremos nesta série, estes são muitas vezes movimentos objetivamente proletários e anticapitalistas que estão envolvidos na estética e referências históricas do fascismo e de vários neofascismos na Europa, e nos EUA geralmente assumem a forma do constitucionalismo e do libertarianismo também.

Se, de fato, estes grupos radicalizados de "extrema-direita" estivessem de fato fazendo o trabalho da classe governante, mobilizando para esmagar iniciativas de poder operário em nome do Estado, da Igreja, e dos interesses de classe da pequena-burguesia (e das forças tradicionais da reação em geral), então a classificação marxista novecentista destes grupos como "fascistas" poderia ser de fato apta: nossos "atalhos" teriam servido.

De fato e similarmente também seria uma tragédia de grupos de combate "de esquerda" tais como os Antifa estivessem em verdade atacando outros movimentos proletários opostos ao capitalismo, que só calham de parecer permutações pequeno-burguesas reacionárias de poder classista.

Ao mesmo tempo não podemos definir diretamente a contra-mobilização contra grupos comunistas por grupos "de extrema-direita" como contra-mobilizações contra o proletariado enquanto classe. Objetivamente, estas são lutas relativamente pequenas entre grupos ideológicos distintos pertencentes ao proletariado (i.e., esquerda vs. direita), e mimetizam as lutas entre seitas religiosas, e não representam os interesses de uma classe contra outra classe. Auto-referências e simbolismo "comunista" vs. "fascista" são abstrações nocionais e de modo geral não se ligam materialmente a forças de classe proletária vs. pequeno-burguesa, respetivamente, ainda que remetam a elas abstratamente, i.e., no mundo das ideias.

Certamente, "dividir para conquistar" tem sido uma tática eficaz para a classe governante manter seu mando classista. Isso pode se estender muito além do que era previamente compreendido. E coloca em cheque o modo pelo qual compreendemos e interpretamos a suposta prole de vários movimentos sociais do século XX.

O Estado capitalista e seu aparato super-armado de poder estatal, sua burocracia complexa e grandes recursos, se apresenta como uma monstruosidade aparentemente inconquistável. Grupos marxistas revolucionários aparentemente empalidecem em comparação em termos de sua capacidade de projetar poder. Significativamente menos poderosos são os supramencionados movimentos  e grupos anticapitalistas não-marxistas, muitos nem mesmo se identificando com a esquerda, e em sua maioria assumindo uma perspectiva decididamente anticomunista em termos de ideologia nominal. Estes grupos fazem excelentes alvos substitutos para grupos revolucionários marxistas e anarquistas; é possível atacá-los nas ruas e espaços virtuais. Vitórias aqui servem para satisfazer a necessidade de ter vitórias, mas podem na verdade trabalhar contra os objetivos verdadeiros da luta contra o capitalismo.

Movimentos sociais sincréticos na Eurásia já estão superando o problema para o qual estamos olhando, e portanto alguns desses exemplos serão discutidos nesta série. Outros exemplos incluem o socialismo pan-árabe e pan-sírio (tal como o Ba-athismo ou o PSNS), bem como nacionalismos revolucionários na América Latina, a Teologia da Libertação, grupos revolucionários na área novorrussa da ex-Ucrânia, e outros. Eles tem influenciado nossas opiniões também, mas mais concretamente demonstram que soluções podem ser deduzidas e principalmente são mais do que "prova conceitual" de que tais empreendimentos podem ser realizados com grau elevado de eficácia.



Retornando a Marx em O Dezoito de Brumário

Marx escreve:

"Hegel comenta em algum lugar que todos os grandes fatos e personagens histórico-mundiais aparecem, por assim dizer, duas vezes. Ele se esquece de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda vez como farsa [...] E exatamente enquanto eles parecem estar ocupados com revolucionar a si próprios e as coisas, criando algo que não existia antes, precisamente em tais épocas de crise revolucionária eles conjuram ansiosamente os espíritos do passado para seu serviço, pegando emprestados deles nomes, slogans de batalha e roupas de modo a apresentar esta nova cena na história mundial em um disfarce honrado pelo tempo e com linguagem emprestada. Assim Lutero trajou a máscara do Apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente com o disfarce da República Romana e do Império Romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer melhor do que parodiar, primeiro 1789, então a tradição revolucionária de 1793-95. De maneira similar, o iniciante que aprendem um novo idioma sempre o traduz de volta para sua língua materna, mas ele assimila o espírito do novo idioma e se expressa livremente nele apenas quando ele transita nele sem rememorar o antigo e quando ele esquece a língua nativa".

"Quando pensamos sobre esta conjuração dos mortos da história mundial, uma diferença saliente se revela. Camille Desmoulins, Danton, Robespierre, Saint Just, Napoleão, os heróis bem como os partidos e as massas da velha Revolução Francesa, realizaram a tarefa de seu tempo - aquela de desagrilhoar e estabelecer a sociedade burguesa moderna - em trajes romanos e frases romanas. A primeira destruiu a fundação feudal e cortou as cabeças feudais que haviam crescido nela. A outra criou dentro da França as únicas condições sob as quais a livre competição poderia se desenvolver, alocaram terra adequadamente utilizada, e a poder produtivo desimpedido da nação empregado; e para além das fronteiras francesas varreu instituições feudais por todo lado, para fornecer, na medida do necessário, à sociedade burguesa na França um ambiente atualizado e adequado no continente europeu. Uma vez que a nova formação social foi estabelecida, os colossos antediluvianos desapareceram e com eles o romanismo ressuscitado - os Brutus, os Gracos, os publícolas, os tribunos, os senadores, e o próprio César. A sociedade burguesa em sua realidade sóbria engendrou seus próprios intérpretes e porta-vozes autênticos nos Says, Cousins, Royer-Collards, Benjamin Constants e Guizots; seus verdadeiros líderes militares se sentavam por trás de mesas de escritório e o cabeça-de-porco Luís XVIII era seu chefe político. Inteiramente absorvida na produção de riqueza e na competição pacífica, ela não mais se lembrava dos fantasmas do período romano que haviam velado em seu berço".

"Mas ainda sendo a sociedade burguesa tão anti-heroica, ela não obstante necessitava de heroísmo, sacrifício, terror, guerra civil, e guerras nacionais para gerar a si mesma. E nas austeras tradições clássicas da República Romana os gladiadores burgueses encontraram os ideais e as formas de arte, as auto-enganações, de que precisavam para ocultar de si mesmos o conteúdo burguesamente limitado de suas lutas e para manter sua paixão no plano superior da grande tragédia histórica" [2].

Por outro lado, esta passagem crucial é um dos trabalhos influentes de Marx na análise da experiência revolucionária e na dedução de conclusões teóricas; Marx afirma que "os homens fazem sua própria história, mas eles não a fazem como lhes apraz; eles não a fazem sob circunstâncias selecionadas por si mesmos, mas sob circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas desde o passado" [3].

Como exemplos, nós vemos que Marx reconta o retorno da Reforma Luterana ao Apóstolo Paulo, o apelo de Cromwell e dos ingleses ao Velho Testamento, e a estética romana da Revolução Francesa como casos nos quais transformações revolucionárias buscaram sua estética e apresentação no passado de modo a apresentar um tipo de legitimidade histórica e um senso de luta historicamente redimida contra a ordem contemporânea.

Hipótese vs. Experiência: A Teoria deve refletir a realidade

Ainda assim, em flagrante contradição a este reconhecimento presente de tão inegável realidade, Marx prossegue sugerindo que a futura revolução social "não pode tomar sua poesia do passado, mas apenas do futuro. Ela não pode começar consigo mesma antes que tenha se livrado de toda superstição do passado. As antigas revoluções demandaram rememorações da história mundial passada para suavizar seu próprio conteúdo" [4].

Por que Marx olha para um uso eficaz e provado da poesia do passado apenas para defender que a futura revolução social só pode tomar sua poesia do futuro? Marx propõe: "A revolução do século XIX deve permitir que os mortos enterrem seus mortos para chegar a seu próprio conteúdo" [5].

Daí o significado da fórmula "primeiro como tragédia, então como farsa": a apropriação do passado e de formas existentes é uma necessidade circunstancial tragicamente imposta, e uma repetição subsequente dela representa pouco mais que uma paródia falida, castrada, reacionária. Marx, apesar de reconhecer a importância do disfarce apostólico da Reforma ou das pretensões romanas da Revolução Francesa, chega ao ponto de denunciar a influência da "tradição de gerações mortas", como um "pesadelo no cérebro dos vivos" [6].

Ainda que tal avaliação feita por Marx possa estar de fato restrita a uma precognição relevante em referência ao golpe francês de 1851, a conclusão de que os "nomes, slogans de batalha, e trajes" tirados do passado em meio a luta revolucionária constituem inerentemente uma farsa reacionária e auto-abortiva é de importância séria e de grandes consequências. Nós propomos que ela é um equívoco.

E este é um equívoco, de fato uma contradição confusa na discussão de Marx sobre a relação entre a superestrutura (a "poesia") e a base (classe objetiva e forças econômicas), que ou levou a repercussões profundamente negativas nas análises produzidas por marxistas, ou foi efetivamente refutada por experiências revolucionárias passadas e contemporâneas.

Não apenas foi a "poesia do passado" eficaz em seu tempo, nós não podemos, em última análise, conceber uma maneira pela qual ela seja evitável. Ela foi realmente necessária. A revolução de 1917 não remetia apenas a sua própria promessa e futuro utópicos. Ela teve que se fortificar na mitologia de 1871, 1848 e 1792-94. E não só isso, mas também toda a "história todas as sociedades existentes até então é a história da luta de classes" (Manifesto Comunista, 1848). Não se pode julgar estas positivamente sem valorizá-las, e não se pode depositar valor na história sem a mitificar.

De fato, tornou-se excessivamente comum para marxistas resumir a presença de imagética, simpatias ou tonalidades antigas, medievais, pré-modernas ou mesmo burguesas primitivas como indicativas de uma natureza pró-capitalista, reacionária e contrarrevolucionária. Em realidade, eles estão equivocadamente denunciando movimentos que possuem o potencial para produzir mudanças sociais genuínas e ser uma parte importante da transformação revolucionária.

Nossa Proposta

Nós propomos compreender tais movimentos no sentido marxiano, ao contrário, como muitas vezes "revolucionários" mesmo quando trajando as roupagens do mito, mesmo quando portando a máscara da reação.

Mas perguntamos isto: por que deve ser o caso de que a revolução deve "deixar os mortos enterrar seus mortos"? Este foi de fato o caso, e é provável que seja o caso? A isto, nossa resposta é "Não".

Seriam os movimentos comunistas, anarquistas e socialistas hoje aproximadamente os mesmos de 150 anos atrás? Seriam os movimentos fascistas e de "ultra-direita" hoje aproximadamente os mesmos de 70 ou 100 anos atrás? Para ambas, nossa resposta é novamente "Não".

Estes grupos e movimentos passaram por tremendas mudanças, um século se passou com a estrutura agindo sobre a superestrutura e a superestrutura agindo sobre a estrutura, produzindo uma cadeia irreversível de fenômenos atrás de si. As perspectivas de Marx como expressas no Dezoito de Brumário já foram contraditas na prática. Porém, ao mesmo tempo, há elementos de verdade também: há diferentes perspectivas do passado, mas as pessoas podem ser unificadas por uma ideia comum sobre que tipo de futuro funcionaria. Ainda assim, nós vemos isso não como uma razão para condenar aqueles que usam o poder do mito em sua agitação e identidade, mas sim como razão para que aqueles que o compreendem não confundir sua poesia subjetiva com sua função objetiva.

Tal como o uso subjetivo do simbolismo e da linguagem de um partido ostensivamente comunista não o torna objetivamente comunista no sentido revolucionário e proletário do termo (podemos olhar para qualquer número de partidos eurocomunistas, por exemplo), a poesia e mito do fascismo não torna os grupos e movimentos que as usam objetivamente fascistas no sentido burguês reacionário do termo.

Também é importante relembrar: o movimento comunista não apenas no século XX, mas mesmo na época de Marx, também escreveu seus versos sobre o passado, sua própria poesia sobre a Revolução Francesa, Grachus Babeuf, August Blanqui, a Liga do Justo, a Conspiração dos Iguais, as Comunas, e daí em diante. Conforme eventos avançaram no tempo, este versos se tornaram cada vez mais distantes de nós. Os comunistas agora se referem ao passado e traçam sua origem "moderna" a uma época quase dois séculos atrás. Pode um movimento comunista não ter uma história? É possível que ele não lembre e mitifique a si próprio? Seriam as bandeiras vermelhas e negras hoje alusões ao grande ano de 1917 similares à conjuração dos "espíritos do passado a seu serviço, tomando emprestados nomes, slogans de batalha, e trajes de modo a apresentar esta nova cena na história mundial em um disfarce honrado pelo tempo e com linguagem emprestada?" Nós acreditamos que sim.

Olhar abertamente para estas questões estará entre as tarefas desta série. Nós convidamos nossos leitores a se unirem a nós conforme exploramos estas questões relevantes. Isso envolverá uma dissecação da complexa relação entre estrutura e superestrutura, que é uma que foi também abordada por modernistas de meados do século (os chamados pós-modernistas) e muito mais.

Isso demandará um olhar para a cultura, a evolução da cultura e subcultura jovem, e para movimentos sócio-políticos sincréticos e antiliberais de hoje. Estes traçam suas origens primariamente à segunda metade do século XX.

Algumas dessas coisas demandarão que olhemos para as concepções superestruturais de poesia; a poesia do passado vs. a poesia do futuro. É claro, poesia sobre o passado não é do passado, mas do presente - ela só é sobre o passado. Similarmente, a poesia do futuro não é do futuro, mas do presente. E, em ambos os casos, elas remetem ao presente - está para nós no presente, e no presente tudo pode ser feito. Neste sentido, estas - a poesia do passado e a do futuro - são ambas narrativas contemporâneas.

Se cumprimos nossa missão, levantaremos mais perguntas do que seremos capazes de responder, e esperançosamente provocaremos uma razão ainda melhor para desenvolver esta série ainda mais. Este é um tema vasto demais para qualquer quadro singular, e um que só podemos esperar rascunhar com alguns detalhes para o leitor.

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[1] Sexo e sexualidade, que de início nos parecem algo tão pessoal, são como linguagens na medida em que formam o tecido conectivo entre o indivíduo e o coletivo. Não nos deve surpreender, então, que o liberalismo foque hoje tanto de seu trabalho ideológico e intelectual na área de sexualidade e gênero. O liberalismo é atomizador, e induz um tipo de esquizofrenia social ao promover uma ideia social pudica de que nós somos todos consumidores privados e individuais. Ele é até mesmo pudico em sua comercialização exagerada da sexualidade. Ele produz um indivíduo "padrão", subsexualizado através da supersexualização, solitário em um mar de "pessoas demais"; desvalorizado e apto para consumo e produção dentro do ciclo capitalista; cercado por abundância e ao mesmo tempo alienado do produto de seu trabalho. O liberalismo é a ideologia do capitalismo na medida em que promove tudo isso.

[2] https://www.marxists.org/archive/marx/works/1852/18th-brumaire/ch01.htm#2

[3] ibid

[4] ibid

[5] ibid

[6] ibid