Mostrando postagens com marcador Martin Heidegger. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Martin Heidegger. Mostrar todas as postagens

19/06/2012

A Correspondência entre Jünger e Heidegger

por Alain de Benoist



Quando dois grandes homens - e que grandes homens, em verdade o maior filósofo do século XX e um de seus mais importantes escritores! - correspondem um com o outro, o que eles discutem? Nem sempre grandes coisas: eles também trocam trivialidades e falam de suas publicações, viagens, e procupações triviais. Mas às vezes o tom se eleva. E às vezes ele se torna sublime, como em 1956 quando Jünger consultou Heidegger sobre o sentido exato de uma máxima de Rivarol e recebeu um verdadeiro curso de filosofia, estupefante em profundidade, sobre os conceitos de tempo e movimento.

A correspondência de Ernst Jünger e Martin Heidegger começou em 1949 sobre planos para uma publicação periódica chamada Pallas a ser editada pelo ensaísta Armin Mohler (que foi secretário particular de Jünger de 1949 a 1953). Esse projeto não chegou a fruição - mas subsequentemente Jünger, junto com o historiador de religiões Mircea Eliade, criou outra publicação chamada Antaios. Sua correspondência continuou até a morte de Heidegger em maio de 1976. Publicada na Alemanha em 2008, ela está agora disponível em francês, belamente traduzida, edita, e comentada por Julien Hervier. Ela oferece um tipo raro de prazer.

Foi no ano anterior, ao fim de 1948, que Jünger pela primeira vez se encontrou com Heidegger em sua cabana na floresta de Todtnauberg. Depois ele escreveu: "Desde o início, havia algo - não apenas algo para além da palavra e do pensamento, mas além do próprio homem" (Rivarol e outros Ensaios).

Se estava então no período pós-guerra imediato, um tempo triste e doloroso quando os dois homens eram tratados como se eles fossem radiativos. Jünger, em 25 de junho de 1949, escreveu essa fantástica frase: "No curso dos últimos anos, ficou bastante claro para mim que o silêncio é a mais forte das armas, desde que ele seja dissimulado por trás de algo sobre o que se deve guardar silêncio".

Mais o que é mais notável sobre essas cartas é a diferença de tom entre o filósofo e o escritor. Ambos genuinamente admiravam um ao outro, mas intelectualmente Heidegger dominava completamente seu interlocutor. Jünger não oferece a menor crítica de Heidegger, mas o contrário não é inteiramente o caso.

De fato, Jünger - diferentemente de seu irmão Friedrich Georg Jünger - não possuía uma mente genuinamente filosófica. Ele revela que as obras de Heidegger, sobre as quais ele sabia pouco, às vezes estavam acima de sua capacidade. Em novembro de 1967, ele comentou: "Seus textos são difíceis e dificilmente traduzíveis: assim eu sempre fico impressionado pela influência que eles exercem sobre os franceses inteligentes". Tudo indica que Jünger estava mais impressionado pelo carisma intelectual de Heidegger do que por seu pensamento propriamente falando. Ele também estava mais inclinado a visitar, mais ávido por manter relações com seu contemporâneo. Heidegger era mais relutante em se deslocar, mais apartado da "vida social" - mais preocupado com o essencial. Como Lao-Tsé disse sobre o sábio: "Ele não age, mas ele realiza".

Heidegger, ademais, disse explicitamente que em seus olhos Jünger não era um "pensador" (Denker). Ele era um homem que teorizava com base em sua experiência, no que ele viu e viveu (começando por suas experiências nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial), mas não a partir do que apenas pode ser pensado. Jünger, em outras palavras, tinha idéias mais do que pensamento. Ele era um "Erkenner", um homem que "reconhece", mais preocupado com abrir uma "nova ótica" do que com chegar a "novas verdades". É por isso que Heidegger escreve:

"Ele não possui a menor idéia sobre o que ocorre na 'objetificação' do mundo e do homem. Basicamente seu conhecimento permanece psicológico e moral... Ele sempre permanece dentro da metafísica... Porque Jünger não vê o que é singularmente 'pensável', ele considera a consecução da metafísica como a essência da vontade de poder como amanhecer de uma nova era, enquanto ela constitui apenas um prelúdio para a decrepitude rápida de todas as inovações recentes, destinadas a desabar no ennui de um nada de insignificância que incuba esse abandono do Ser que é próprio aos entes".

Linguagem difícil? Há mais.
Heidegger, em qualquer caso, esteve interessado em Jünger por um longo tempo. Em 1932, seu O Trabalhador, o grande livro teórico do veterano do fronte, chamou a atenção de Heidegger como poucas outras obras. Durante o semestre de inverno de 1939-40 na Universidade de Freiburg, Heidegger até mesmo devotou todo um seminário a esse livro. Os textos que ele escreveu sobre Jünger, reunidos em um volume de quase 500 páginas publicados na Alemanha em 2004 (volume 90 de suas obras completas, ainda em curso de publicação por Vittorio Klostermann!), testemunham eloquentemente.

Em Jünger, Heidegger admirava alguém que havia compreendido o mundo baseado na vontade de poder e havia esclarecido o papel desempenhado pela tecnologia nessa perspectiva. A Figura do Trabalhador está de fato presente no mundo na forma de poder. É pela Figura do Trabalhador que a Tecnologia, como máquina e instrumento, faz emergir a "mobilização total". Em uma referência direta a O Trabalhador Heidegger escreveu: "O trabalho...hoje se eleva ao nível metafísico dessa objetificação incondicional de todas as coisas presentes, que implementa seu ser na vontade de vontade" (Vorträge und Aufsätze).

Heidegger era um leitor admirador de Jünger, mas também um crítico. O diálogo que os dois homens mantinham, às vezes indiretamente, prova isso sem ambiguidade. O melhor jeito de apreciar o que os separa é ler de cabo a rabo os textos que eles dedicaram um ao outro em seus respectivos aniversários de 60 anos: o "Sobre a Linha" de Jünger (Über die Linie), (1950) e "Sobre 'A Linha'" de Heidegger (Über "die Linie") (1955). Ambos os textos dizem respeito à essência da tecnologia moderna e à luz que ela lança sobre o conceito de niilismo. É notável que Nietzsche constitui o eixo central do diálogo entre Heidegger e Jünger.

Em seu texto de 1950, Jünger em efeito toma o pensamento de Nietzsche como o ponto de partida para uma tentativa de avaliação do niilismo contemporâneo. Ele conclui com um tipo de otimismo de que o pior já passou. O mundo contemporâneo, ele diz, já passou do "ponto zero", i.e., o divisor de águas do niilismo, enquanto Heidegger afirma, ao contrário, que este mundo está mais do que nunca imerso no "esquecimento do Ser" do qual é impossível escapar a não ser que se abandone a linguagem da metafísica ("a linha zero, na qual a realização alcança seu fim, é no fim das contas a menos visível de todas").

Sem entrar muito em detalhes abstratos, uma resenha é necessária aqui. Nos dois volumes reunindo seus cursos sobre Nietzsche (1936-46), Heidegger afirma que ainda que o autor de Assim Falou Zaratustra feche o círculo da metafísica ocidental, não obstante ele permanece preso nela. A vontade de poder, em seus olhos, é apenas a "vontade de vontade", i.e., subjetividade exacerbada (é uma "vontade de si mesmo", uma vontade que depende de si ao mesmo tempo que é posta como seu próprio objeto). A época moderna de decadência é aquela do cumprimento da metafísica na forma da metafísica da vontade, da qual Nietzsche é o último representante. Para Nietzsche, basicamente, "poder e vontade possuem o mesmo sentido". Heidegger convida Jünger a pensar para além da metafísica nietzscheana da vontade de poder, a metafísica moderna da subjetividade da qual ele continua a depender.

Heidegger não tem senão a mais elevada opinião de Nietzsche. E de Jünger. Ele apenas o convida a pensar além. Ernst Jünger, se deve enfatizar, é um dos raros autores com os quais Heidegger concordou, após 1945, em manter diálogo contínuo, o que certamente significa algo.

Para o aniversário de 80 anos do autor de Em Tempestades de Aço, Heidegger enviou essa mensagem a ele: "Permaneça com o espírito luminoso de decisão que você sempre demonstrou na maneira bastante distinta pela qual você fala". O tipo de observação que se imagina seria muito mal expresso pelas mensagens de texto ou e-mails de hoje.

04/05/2012

Que é Metafísica?

 Por Martin Heidegger

“Que é metafísica?” — A pergunta nos dá esperanças de que falará sobre a metafísica. Não o faremos. Em vez disso, discutiremos uma determinada questão metafísica. Parece-nos que, desta maneira, nos situaremos imediatamente dentro da metafísica. Somente assim lhe damos a melhor possibilidade de se apresentar a nós em si mesma.

Nossa tarefa inicia -se com o desenvolvimento de uma interrogação metafísica, procura, logo a seguir, a elaboração da questão, para encerrar-se com sua resposta .
 
O DESENVOLVIMENTO DE UMA INTERROGAÇÃO
METAFÍSICA

Considerada sob o ponto de vista do são entendimento humano, é a filosofia, nas palavras de Hegel, o “mundo às avessas’. É por isso que a peculiaridade do que empreendemos requer uma caracterização prévia. Esta surge de uma dupla característica da pergunta metafísica.

De um lado, toda questão metafísica abarca sempre a totalidade da problemática metafísica. Ela é a própria totalidade. De outro, toda questão metafísica somente pode ser formulada de tal modo que aquele que interroga, enquanto tal, esteja implicado na questão, isto é, seja problematizado. Daí tomamos a indicação seguinte: a interrogação metafísica deve desenvolver-se na totalidade e na situação fundamental da existência que interroga. Nossa existência — na comunidade de pesquisadores, professores e estudantes — é determinada pela ciência. O que acontece de essencial nas raízes da nossa existência na medida em que a ciência se tornou nossa paixão? Os domínios das ciências distam muito entre si. Radicalmente diversa é a maneira de tratarem seus objetos. Esta dispersa multiplicidade de disciplinas é hoje ainda apenas mantida numa unidade pela organização técnica de universidades e faculdades e conserva um significado pela fixação das finalidades práticas das especialidades. Em contraste, o enraizamento das ciências, em seu fundamento essencial, desapareceu completamente.
Contudo, em todas as ciências nós nos relacionamos, dóceis a seus propósitos mais autênticos com o próprio ente. Justamente, sob o ponto de vista das ciências, nenhum domínio possui hegemonia sobre o outro, nem a natureza sobre a história, nem esta sobre aquela. Nenhum modo de tratamento dos objetos supera os outros. Conhecimentos matemáticos não são mais rigorosos que os filológico-históricos. A matemática possui apenas o caráter de ‘exatidão” e este não coincide com o rigor. Exigir da história exatidão seria chocar-se contra a idéia do rigor específico das ciências do espírito. A referência ao mundo, que importa através de todas as ciências enquanto tais, faz com que elas procurem o próprio ente para, conforme seu conteúdo essencial e seu modo de ser, transformá-lo em objeto de investigação e determinação fundante. Nas ciências se realiza — no plano das idéias — uma aproximação daquilo que é essencial em todas as coisas.

Esta privilegiada referência de mundo ao próprio ente é sustentada e conduzida por um comportamento da existência humana livremente escolhido. Também a atividade pré e extracientífica do homem possui um determinado comportamento para com o ente. A ciência, porém, se caracteriza pelo fato de dar, de um modo que lhe é próprio, expressa e unicamente, à própria coisa a primeira e última palavra. Em tão objetiva maneira de perguntar, determinar e fundar o ente, se realiza uma submissão peculiarmente limitada ao próprio ente, para que este realmente se manifeste. Este pôr -se a serviço da pesquisa e do ensino se constitui em fundamento da possibilidade de um comando próprio, ainda que delimitado, na totalidade da existência humana. A particular referência ao mundo que caracteriza a ciência e o comportamento do homem que a rege, os entendemos, evidentemente apenas então plenamente, quando vemos e compreendemos o que acontece na referência ao mundo, assim sustentada. O homem — um ente entre outros — “faz ciência”. Neste “fazer” ocorre nada menos que a irrupção de um ente, chamado homem, na totalidade do ente, mas de tal maneira que, na e através desta irrupção, se descobre o ente naquilo que é em seu modo de ser. Esta irrupção reveladora é o que, em primeiro lugar, colabora, a seu modo, para que o ente chegue a si mesmo.

Estas três dimensões — referência ao mundo, comportamento, irrupção — trazem, em sua radical unidade, uma clara simplicidade e severidade do ser-aí, na existência científica. Se quisermos apoderar-nos expressamente da existência científica, assim esclarecida, então devemos dizer:

Aquilo para onde se dirige a referência ao mundo é o próprio ente — e nada mais.

Aquilo de onde todo o comportamento recebe sua orientação é o próprio ente — e além dele nada.

Aquilo com que a discussão investigadora acontece na irrupção é o próprio ente — e além dele nada.

Mas o estranho é que precisamente, no modo como o cientista se assegura o que lhe é mais próprio, ele fala de outra coisa. Pesquisado deve ser apenas o ente e mais — nada; somente o ente e além dele — nada; unicamente o ente e além disso — nada.

Que acontece com este nada? E, por acaso, que espontaneamente falamos assim? E apenas um modo de falar — e mais nada? Mas, por que nos preocupamos com este nada? O nada é justamente rejeitado pela ciência e abandonado como o elemento nadificante. E quando, assim, abandonamos o nada, não o admitimos precisamente então? Mas podemos nós falar de que admitimos algo, se nada admitimos? Talvez já se perca tal insegurança da linguagem numa vazia querela de palavras. Contra isto deve agora a ciência afirmar novamente sua seriedade e sobriedade: ela se ocupa unicamente do ente. O nada — que outra coisa poderá ser para a ciência que horror e fantasmagoria? Se a ciência tem razão, então uma coisa é indiscutível: a ciência nada quer saber do nada. Esta é, afinal, a rigorosa concepção científica do nada. Dele sabemos, enquanto dele, do nada, nada queremos saber.

A ciência nada quer saber do nada. Mas não é menos certo também que, justamente, ali, onde ela procura expressar sua própria essência, ela recorre ao nada. Aquilo que ela rejeita, ela leva em consideração. Que essência ambivalente se revela ali?

Ao refletirmos sobre nossa e xistência presente — enquanto uma existência determinada pela ciência —, desembocamos num paradoxo. Através deste paradoxo já se desenvolveu uma interrogação. A questão exige apenas uma formulação adequada: Que acontece com este nada?

A ELABORAÇÃO DA QUESTÃO

A elaboração da questão do nada deve colocar-nos na situação na qual se torne possível a resposta ou em que então se patenteie sua impossibilidade. O nada é admitido. A ciência, na sua sobranceira indiferença com relação a ele, rejeita-o como aquilo que ‘não existe”.

Nós contudo procuramos perguntar pelo nada. Que é o nada? Já a primeira abordagem desta questão mostra algo insólito. No nosso interrogar já supomos antecipadamente o nada como algo que “é” assim e assim — como um ente. Mas, precisamente, é dele que se distingue absolutamente, O perguntar pelo nada — pela sua essência e seu modo de ser — converte o interrogado em seu contrário. A questão priva-se a si mesma de seu objeto específico.

Se for assim, também toda resposta a esta questão é, desde o inicio, impossível. Pois ela se desenvolve necessariamente nesta forma: o nada “é” isto ou aquilo. Tanto a pergunta como a resposta são, no que diz respeito ao nada, igualmente contraditórias em si mesmas.

Assim, não é preciso; pois, que a ciência primeiro rejeite o nada. A regra fundamental do pensamento a que comumente se recorre, o princípio da nãocontradição, a “lógica” universal, arrasa esta pergunta. Pois o pensamento, que essencialmente sempre é pensado de alguma coisa, deveria, enquanto pensamento do nada, agir contra sua própria essência.

Pelo fato de assim nos ficar vedado converter, de algum modo, o nada em objeto, chegamos já ao fim com nossa interrogação pelo nada — isto, pressuposto que nesta questão a ‘lógica’ seja a última instância, que o entendimento seja o meio e o pensamento o caminho para compreender originariamente o nada e para decidir seu possível desvelamento.

Mas é por acaso possível tocar no império da ‘lógica’? Não é o entendimento realmente o senhor nesta pergunta pelo nada? Efetivamente, é somente com seu auxílio que podemos determinar o nada e colocá-lo como um problema, ainda que fosse como um problema que se devora a si mesmo. Pois o nada é a negação da totalidade do ente, o absolutamente não-ente. Com tal procedimento subsumimos o nada sob a determinação mais alta do negativo e, assim, do negado. A negação é, entretanto, conforme a doutrina dominante e intata da “lógica”, um ato específico do entendimento. Como podemos nós, pois, pretender rejeitar o entendimento na pergunta pelo nada e até na questão da possibilidade de sua formulação? Mas será que é tão seguro aquilo que aqui pressupomos? Representa o “não”, a negatividade e com isto a negação, a determinação suprema a que se subordina o nada como uma espécie particular de negado? “Existe” o nada apenas porque existe o “não”, isto é, a negação? Ou não acontece o contrário? Existe a negação e o “não” apenas porque “existe” o nada? Isto não está decidido; nem mesmo chegou a ser formulado expressamente como questão. Nós afirmamos: o nada é mais originário que o “não” e a negação.

Se esta tese é justa, então a possibilidade da negação, como atividade do entendimento, e, com isso, o próprio entendimento, dependem, de algum modo, do nada. Como poderá então o entendimento querer decidir sobre este? Não se baseia afinal o aparente contra-senso de pergunta e resposta, no que diz respeito ao nada, na cega obstinação de um entendimento que se pretende sem fronteiras?

Se, entretanto, não nos deixarmos enganar pela formal impossibilidade da questão do nada e se, apesar dela, ainda a formularmos, então devemos satisfazer ao menos àquilo que permanece válido como exigência fundamental para a possível formulação de qualquer questão. Se o nada deve ser questionado — o nada mesmo —, então deverá estar primeiramente dado. Devemos poder encontrá-lo.

Onde procuramos o nada? Onde encontramos o nada? Para que algo encontremos não precisamos, por acaso, já saber que existe? Realmente! Primeiramente e o mais das vezes o homem somente então é capaz de buscar se antecipou a presença do que busca. Agora, porém, aquilo que se busca é o nada. Existe afinal um buscar sem aquela antecipação, um buscar ao qual pertence um puro encontrar?

Seja como for, nós conhecemos o nada, mesmo que seja apenas aquilo sobre o que cotidianamente falamos inadvertidamente. Podemos até, sem hesitar, ordenar numa definição este nada vulgar, em toda palidez do óbvio, que tão discretamente ronda em nossa conversa:

O nada é a plena negação da totalidade do ente. Não nos dará, por acaso, esta característica do nada uma indicação da direção na qual unicamente teremos possibilidade de encontrá-lo?

A totalidade do ente deve ser previamente dada para que possa ser submetida enquanto tal simplesmente à negação, na qual, então, o próprio nada se deverá manifestar.

Mesmo, porém, que prescindamos da problematicidade da relação entre a negação e o nada, como deveremos nós — enquanto seres finitos — tornar acessível para nós, em si e particularmente, a totalidade do ente em sua omnitude? Podemos, em todo caso, pensar a totalidade do ente imaginando-a, e então negar, em pensamento, o assim figurado e “pensá-lo” enquanto negado. Por esta via obteremos, certamente, o conceito formal do nada figurado, mas jamais o próprio nada. Porém, entre o nada figurado e o nada “autêntico” não pode imperar uma diferença, caso o nada represente realmente a absoluta indistinção. Não é, entretanto, o próprio nada “autêntico” aquele conceito oculto, mas absurdo, de um nada com características de ente? Mas paremos aqui com as perguntas. Que tenha sido este o momento derradeiro em que as objeções do entendimento retiveram nossa busca que somente pode ser legitimada por uma experiência fundamental do nada.

Tão certo como é que nós nunca podemos compreender a totalidade do ente em si e absolutamente, tão evidente é, contudo, que nos encontramos postados em meio ao ente de algum modo desvelado em sua totalidade. E está fora de dúvida que subsiste uma diferença essencial entre o compreender a totalidade do ente em si e o encontrar-se em meio ao ente em sua totalidade. Aquilo é fundamentalmente impossível. Isto, no entanto, acontece constantemente em nossa existência.

Parece, sem dúvida, que, em nossa rotina cotidiana, estamos presos sempre apenas a este ou àquele ente, como se estivéssemos perdidos neste ou naquele domínio do ente. Mas, por mais disperso que possa parecer o cotidiano, ele retém, mesmo que vagamente, o ente numa unidade de “totalidade”. Mesmo então e justamente então, quando não estamos propriamente ocupados com as coisas e com nós mesmos, sobrevém-nos este em totalidade”, por exemplo, no tédio propriamente dito. Este tédio ainda está muito longe de nossa experiência quando nos entedia exclusivamente este livro ou aquele espetáculo, aquela ocupação ou este ócio. Ele desabrocha se “a gente está entediado”. O profundo tédio, que como névoa silenciosa desliza para cá e para lá nos abismos da existência, nivela todas as coisas, os homens e a gente mesmo com elas, numa estranha indiferença. Esse tédio manifesta o ente em sua totalidade.

Uma outra possibilidade de tal manifestação se revela na alegria pela presença — não da pura pessoa —, mas da existência de um ser querido.

Semelhante disposição de humor em que a gente se sente desta ou daquela maneira situa-nos — perpassados por esta disposição de humor — em meio ao ente em sua totalidade. O sentimento de situação da dis posição de humor não revela apenas, sempre à sua maneira, o ente em sua totalidade. Mas este revelar é simultaneamente — longe de ser um simples episódio — um acontecimento fundamental de nosso ser-aí.

O que assim chamamos ‘sentimentos não é um fenômeno secundário de nosso comportamento pensante e volitivo, nem um simples impulso causador dele nem um estado atual com o qual nos temos que haver de uma ou outra maneira.

Contudo, precisamente quando as disposições de humor nos levam, deste modo, diante do ente em sua totalidade, ocultam-nos o nada que buscamos. Muito menos seremos agora de opinião de que a negação do ente em sua totalidade, manifesta na disposição de humor, nos ponha diante do nada. Tal somente poderia acontecer, com a adequada originariedade, numa disposição de humor que revele o nada, de acordo com seu próprio sentido revelador.

Acontece no ser-aí do homem semelhante disposição de humor na qual ele seja levado à presença do próprio nada?

Este acontecer é possível e também real — ainda que bastante raro — apenas por instantes, na disposição de humor fundamental da angústia. Por esta angústia não entendemos a assaz freqüente ansiedade que, em última análise, pertence aos fenômenos do temor que com tanta facilidade se mostram. A angústia é radicalmente diferente do temor. Nós nos atemorizamos sempre diante deste ou daquele ente determinado que, sob um ou outro aspecto determinado, nos ameaça. O temor de... sempre teme por algo determinado. Pelo fato de o temor ter como propriedade a limitação de seu “de’ (Wovor) e de seu “por” ( Worum), o temeroso e o medroso são retidos por aquilo que nos amedronta. Ao esforçar-se por se libertar disto — de algo determinado —, toma-se, quem sente o temor, inseguro com relação às outras coisas, isto é, perde literalmente a cabeça.

A angústia não deixa mais surgir uma tal confusão. Muito antes, perpassa-a uma estranha tranqüilidade. Sem dúvida, a angústia é sempre angústia diante de..., mas não angústia diante disto ou daquilo. A angústia diante de... é sempre angústia por..., mas não por isto ou aquilo. O caráter de indeterminação daquilo diante de e por que nos angustiamos, contudo, não é apenas uma simples falta de determinação, mas a essencial impossibilidade de determinação. Um exemplo conhecido nos pode revelar esta impossibilidade.

Na angústia — dizemos nós — “a gente sente-se estranho”. O que suscita tal estranheza e quem é por ela afetado? Não podemos dizer diante de que a gente se sente estranho. A gente se sente totalmente assim. Todas as coisas e nós mesmos afundamo-nos numa indiferença. Isto, entretanto, não no sentido de um simples desaparecer, mas em se afastando elas se voltam para nós. Este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na angústia, nos oprime. Não resta nenhum apoio. Só resta e nos sobrevém — na fuga do ente — este nenhum’. A angústia manifesta o nada.

‘Estamos suspensos” na angústia. Melhor dito: a angústia nos suspende porque ela põe em fuga o ente em sua totalidade. Nisto consiste o fato de nós próprios — os homens que somos — refugiarmo-nos no seio dos entes. E por isso que, em última análise, não sou “eu” ou não és “tu” que te sentes estranho, mas a gente se sente assim. Somente continua presente o puro ser-aí no estremecimento deste estar suspenso onde nada há em que apoiar-se.

A angústia nos corta a palavra. Pelo fato de o ente em sua totalidade fugir, e assim, justamente, nos acossa o nada, em sua presença, emudece qualquer dicção do “é”. O fato de nós procurarmos muitas vezes, na estranheza da angústia, romper o vazio silêncio com palavras sem nexo é apenas o testemunho da presença do nada. Que a angústia revela o nada é confirmado imediatamente pelo próprio homem quando a angústia se afastou. Na posse da claridade do olhar, a lembrança recente nos leva a dizer: Diante de que e por que nós nos angustiávamos era “propriamente” — nada. Efetivamente: o nada mesmo — enquanto tal — estava aí.

Com a determinação da disposição de humor fundamental da angústia atingimos o acontecer do ser-aí no qual o nada está manifesto e a partir do qual deve ser questionado.

Que acontece com o nada?

A RESPOSTA À QUESTÃO

A resposta, primeiramente a única essencial para nosso propósito, já foi alcançada se tivermos a precaução de manter realmente formulada a questão do nada. Para isto se exige que reproduzamos a transformação do homem em seu ser-aí que toda angústia em nós realiza. Então captamos o nada que nela se manifesta, assim como se revela. Com isto se impõe, ao mesmo tempo, a exigência de mantermos expressamente longe a determinação do nada que não se desenvolveu na abordagem do mesmo.

O nada se revela na angústia — mas não enquanto ente. Tampouco nos é dado como objeto. A angústia não é uma apreensão do nada. Entretanto, o nada se torna manifesto por ela e nela, ainda que não da maneira como se o nada se mostrasse separado, “ao lado” do ente, em sua totalidade, o qual caiu na estranheza. Muito antes, e isto já o dissemos: na angústia deparamos com o nada juntamente com o ente em sua totalidade. Que significa este “juntamente com”?

Na angústia o ente em sua totalidade se torna caduco. Em que sentido acontece isto? Pois, certamente, o ente não é destruído pela a ngústia para assim deixar como sobra o nada. Como é que ela poderia fazê-lo quando justamente a angústia se encontra na absoluta impotência em face do ente em sua totalidade? Bem antes, revela -se propriamente o nada com o e no ente como algo que foge em sua totalidade.

Na angústia não acontece nenhuma destruição de todo o ente em si mesmo, mas tampouco realizamos nós uma negação do ente em sua totalidade para, somente então, atingirmos o nada. Mesmo não considerando o fato de que é alheio à angústia enquanto tal, a formulação expressa de uma enunciação negativa, chegaríamos, mesmo com uma tal negação, que deveria ter por resultado o nada, sempre tarde. Já antes disto o nada nos visita. Dizíamos que nos visitava juntamente com a fuga do ente em sua totalidade.

Na angústia se manifesta um retroceder diante de... que, sem dúvida, não é mais uma fuga, mas uma quietude fascinada. Este retroceder diante de... recebe seu impulso inicial do nada. Este não atrai para si, mas se caracteriza fundamentalmente pela rejeição. Mas tal rejeição que afasta de si é, enquanto tal, um remeter (que faz fugir) ao ente em sua totalidade que desaparece. Esta remissão que rejeita em sua totalidade, remetendo ao ente em sua totalidade em fuga — tal é o modo de o nada assediar, na angústia, o ser-aí —, é a essência do nada: a nadificação. Ela não é nem uma destruição do ente, nem se origina de uma negação. A nadificação também não se deixa compensar com a destruição e a negação. O próprio nada nadifica.

O nadificar do nada não é um epis ódio casual, mas, como remissão (que rejeita) ao ente em sua totalidade em fuga, ele revela este ente em sua plena, até então oculta, estranheza como o absolutamente outro —em face do nada.

Somente na clara noite do nada da angústia surge a originária abertura do ente enquanto tal: o fato de que é ente — e não nada. Mas este “e não nada”, acrescentado em nosso discurso, não é uma clarificação tardia e secundária, mas a possibilidade prévia da revelação do ente em geral. A essência do nada originariamente n adificante consiste em: conduzir primeiramente o ser-aí diante do ente enquanto tal.

Somente à base da originária revelação do nada pode o ser-aí do homem chegar ao ente e nele entrar. Na medida em que o ser-aí se refere, de acordo com sua essência, ao ente que ele próprio é, procede já sempre, como tal ser-aí, do nada revelado.

Ser-aí quer dizer: estar suspenso dentro do nada.

Suspendendo-se dentro do nada o ser aí já sempre está além do ente em sua totalidade. Este estar além do ente designamos a transcendência. Se o ser-aí, nas raízes de sua essência, não exercesse o ato de transcender, e isto expressamos agora dizendo: se o ser-aí não estivesse suspenso previamente dentro do nada, ele jamais poderia entrar em relação com o ente e, portanto, também não consigo mesmo.

Sem a originária revelação do nada não há ser-si-mesmo, nem liberdade.

Com isto obtivemos a resposta à questão do nada. O nada não é nem um objeto nem um ente. O nada não acontece nem para si mesmo nem ao lado do ente ao qual, por assim dizer, aderiria, O nada é a possibilidade da revelação do ente enquanto tal para o ser-aí humano. O nada não é um conceito oposto ao ente, mas pertence originariamente à essência mesma (do ser). No ser do ente acontece o nadificar do nada.

Mas agora devemos dar finalmente a palavra a uma objeção já por tempo demasiado reprimida. Se o ser-aí somente pode entrar em relação com o ente enquanto está suspenso no nada, se, portanto, somente assim pode existir e se o nada somente se revela originalmente na angústia, não devemos nós então pairar constantemente nesta angústia para, afinal, podermos existir? Não reconhecemos nós mesmos que esta angústia originária é rara? Mas, antes disso, está fora de dúvida que todos nós existimos e nos relacionamos com o ente — tanto aquele ente que somos como aquele que não somos — sem esta angústia. Não é ela uma invenção arbitrária e o nada a ela atribuído um exagero?

Entretanto, o que quer dizer: esta angústia originária somente acontece em raros momentos? Não outra coisa que: o nada nos é primeiramente e o mais das vezes dissimulado em sua originariedade. E por quê? Pelo fato de nos perdemos, de determinada maneira, absolutamente junto ao ente. Quanto mais nos voltamos para o ente em nossas ocupações, tanto menos nós o deixamos enquanto tal, e tanto mais nos afastamos do nada. E tanto mais seguramente nos jogamos na pública superfície do ser-aí.

E, contudo, é este constante, ainda que ambíguo desvio do nada, em certos limites, seu mais próprio sentido. Ele, o nada em seu nadificar, nos remete justamente ao ente. O nada modificada ininterruptamente sem que nós propriamente saibamos algo desta nadificação pelo conhecimento no qual nos movemos cotidianamente.

O que testemunha, de modo mais convincente, a constante e difundida, ainda que dissimulada, revelação do nada em nosso ser-aí, que a negação? Mas, de nenhum modo, esta aproxima o ‘não”, como meio de distinção e oposição do que é dado, para, por assim dizer, colocá-lo entre ambos. Como poderia a negação também produzir por si o ‘não” se ela somente pode negar se lhe foi previamente dado algo que pode ser negado? Como pode, entretanto, ser descoberto algo que pode ser negado e que deve sê-lo enquanto afetado pelo “não” se não fosse realidade que todo o pensamento enquanto tal, já de antemão, tem visado ao ‘não”? Mas o “não” somente pode revelar-se quando sua origem, o nadifícar do nada em geral e com isto o próprio nada foram arrancados de seu velamento. O “não” não surge pela negação, mas a negação se funda no “não” que, por sua vez, se origina do nadificar do nada. Mas a negação é também apenas um modo de uma revelação nadificadora, isto quer dizer, previa mente fundado no nadificar do nada.

Com isto está demonstrada, em seus elementos básicos, a tese acima: o nada é a origem da negação e não vice-versa, a negação a origem do nada. Se assim se rompe o poder do entendimento no campo da interrogação pelo nada e pelo ser, então se decide também, com isto, o destino do domínio da “lógica” no seio da filosofia. A idéia da “lógica” mesma se dissolve no redemoinho de uma interrogação mais originária.

Por muito e diversamente que a negação — expressamente ou não — atravesse todo o pensamento, ela, de nenhum modo, por si só, é o testemunho válido para a revelação do nada pertencente essencialmente ao ser-aí. Pois a negação não pode ser proclamada nem o único, nem mesmo o comportamento nadificador condutor, pelo qual o ser-aí é sacudido pelo nadificar do nada. Mais abissal que a pura conveniência da negação pensante é a dureza da contraatividade e a agudeza da execração. Mais esponsável é a dor da frustração e a inclemência do proibir. Mais importuna é a aspereza da privação.

Estas possibilidades do comportamento nadificador — forças em que o ser-aí sustenta seu estar-jogado, ainda que não o domine — não são modos de pura negação. Mas isto não as impede de se expressar no “não e na negação. Através delas é que se trai, sem dúvida, de modo mais radical, o vazio e a amplidão da negação. Este estar o ser-aí totalmente perpassado pelo comportamento nadificador testemunha a constante e, sem dúvida, obscurecida revelação do nada, que somente a angústia originariamente desvela. Nisto, porém, está: esta originária angústia é o mais das vezes sufocada no ser-aí. A angústia está aí. Ela apenas dorme. Seu hálito palpita sem cessar através do seraí: mas raramente seu tremor perpassa a medrosa e imperceptível atitude do seraí agitado envolvido pelo “sim, sim” e pelo “não, não”; bem mais cedo perpassa o ser-aí senhor de si mesmo; com maior certeza surpreende, com seu estremecimento, o ser-aí radicalmente audaz. Mas, no último caso, somente acontece originado por aquilo por que o ser-aí se prodigaliza, para assim conservar-lhe a derradeira grandeza.

A angústia do audaz não tolera nenhuma contraposição à alegria ou mesmo à agradável diversão do tranqüilo abandonar-se à deriva. Ela situa-se — aquém de tais posições — na secreta aliança da serenidade e doçura do anelo criador. A angústia originária pode despertar a qualquer momento no ser-aí. Para isto ela não necessita ser despertada por um acontecimento inusitado. À profundidade de seu imperar corresponde paradoxalmente a insignificância do elemento que pode provocá-la. Ela está continuamente à espreita e, contudo, apenas raramente salta sobre nós para arrastar-nos à situação em que nos sentimos suspensos.

O estar suspenso do ser-aí no nada originado pela angústia escondida transforma o homem no lugar-tenente do nada. Tão finitos somos nós que precisamente não somos capazes de nos colocarmos originaria mente diante do nada por decisão e vontade próprias. Tão insondavelmente a finitização escava as raízes do ser-aí que a mais genuína e profunda finitude escapa à nossa liberdade.

O estar suspenso do ser-aí dentro do nada originado pela angústia escondida é o ultrapassar do ente em sua totalidade: a transcendência.

Nossa interrogação pelo nada tem por meta apresentar-nos a própria metafísica. O nome metafísica vem do grego: tà metà physiká. Esta surpreendente expressão foi mais tarde interpretada como caracterização da interrogação que vai meta —trans “além do ente enquanto tal.

Metafísica é o perguntar além do ente para recuperá-lo, enquanto tal e em sua totalidade, para a compreensão.

Na pergunta pelo nada acontece um tal ir para fora além do ente enquanto ente em sua totalidade. Com isto prova-se que ela é uma questão “metafísica”. De questões deste tipo dávamos, no início, uma dupla característica: cada questão metafísica compreende, de um lado, sempre toda a metafísica. Em cada questão metafísica, de outro lado, sempre vem envolvido o ser-aí que interroga.

Em que medida perpassa e compreende a questão do nada a tota lidade da metafísica?

Sobre o nada a metafísica se expressa desde a Antiguidade numa enunciação, sem dúvida, multívoca: ex nihilo nihil fit, do nada nada vem. Ainda que, na discussão do enunciado, o nada, em si mesmo, nunca se torne problema, expressa ele, contudo, a partir do respectivo ponto de vista sobre o nada, a concepção fundamental do ente que aqui é condutora. A metafísica antiga concebe o nada no sentido do não-ente, quer dizer, da matéria informe, que a si mesma não pode dar forma de um ente com caráter de figura, que, desta maneira, oferece um aspecto (eidos). Ente é a figura que se forma a si mesma, que enquanto tal se apresenta como imagem, origem, justificação e limites desta concepção de ser são tão pouco discutimos como o é o próprio nada. A dogmática cristã, pelo contrário, nega a verdade do enunciado: ex nihilo nihil fit e dá, com isto, uma significação modificada ao nada, que então passa a significar a absoluta ausência de ente fora de Deus: ex nihilo fit —ens creatum. O nada toma-se agora o conceito oposto ao ente verdadeiro, ao summum ens, a Deus enquanto ens increatum. Também a explicação do nada indica a concepção fundamental do ente. A discussão metafísica do ente mantém-se, porém, ao mesmo nível que a questão do nada. As questões do ser e do nada enquanto tais não têm lugar. E por isso que nem mesmo preocupa a dificuldade de que, se Deus cria do nada, justamente precis a poder entrar em relação com o nada. Se, porém, Deus é Deus, não pode ele conhecer o nada, se é certo que o “absoluto” exclui de si tudo o que tem caráter de nada.

A superficial recordação histórica mostra o nada com o conceito oposto ao ente verdadeiro, quer dizer, como sua negação. Se, porém, o nada de algum modo se torna problema, então esta contraposição não experimenta apenas uma determinação mais clara, mas então primeiramente se suscita a verdadeira questão metafísica a respeito do ser do ente. O nada não permanece o indeterminado oposto do ente, mas se desvela como pertencente ao ser do ente.

“O puro ser e o puro nada são, portanto, o mesmo.” Esta frase de Hegel (Ciência da Lógica, Livro 1 WW III, p. 74) enuncia algo certo. Ser e nada copertencem, mas não porque ambos — vistos a partir da concepção hegeliana do pensamento — coincidem em sua determinação e imediatidade, mas porque o ser mesmo é finito em sua manifestação no ente (Wesen), e somente se manifesta na transcendência do ser-aí suspenso dentro do nada.

Se, de outro lado, a questão do ser enquanto tal é a questão que envolve a metafísica, então está demonstrado que a questão do nada é uma questão do tipo que compreende a totalidade da metafísica. A questão do nada pervade, porém, ao mesmo tempo, a totalidade da metafísica, na medida em que nos força a enfrentar o problema da origem da negação, isto quer dizer, nos coloca fundamentalmente diante da decisão sobre a legitimidade com que a ‘lógica impera na metafísica.

A velha frase ex nihilo nihil fit contém então um outro sentido que atinge o próprio problema do ser e diz: ex nihilo omne ens qua ens fit. Somente no nada do ser-aí o ente em sua totalidade chega a si mesmo, conforme sua mais própria possibilidade, isto é, de modo finito. Em que medida então a questão do nada, se for uma questão metafísica, já envolveu em si mesma nossa existência interrogante? Nós caracterizamos nossa existência, aqui e agora experimentada, como essencialmente determinada pela ciência. Se nossa existência assim determinada está colocada na questão do nada, deve então ter-se tornado problemática por causa desta questão.

A existência científica recebe sua simplicidade e acribia do fato de se relacionar com o ente e unicamente com ele de modo especialíssimo. A ciência quisera abandonar, com um gesto sobranceiro, o nada. Agora, porém, se torna patente, na interrogação, que esta existência científica somente é possível se se suspende previamente dentro do nada. Apenas então compreende ela realmente o que é quando não abandona o nada. A aparente sobriedade e superioridade da ciência se transforma em ridículo, se não leva a sério o nada. Somente porque o nada se revelou, pode a ciência transformar o próprio ente em objeto de pesquisa. Somente se a ciência existe graças à metafísica, é ela capaz de conquistar sempre novamente sua tarefa essencial que não consiste primeiramente em recolher e ordenar conhecimentos, mas na descoberta de todo o espaço da verdade da natureza e da história, cuja realização sempre se deve renovar.

Somente porque o nada está manifesto nas raízes do ser-aí pode sobrevirnos a absoluta estranheza do ente. Somente quando a estranheza do ente nos acossa, desperta e atrai ele a admiração. Somente baseado na admiração — quer dizer, fundado na revelação do nada — surge o “porquê’. Somente porque é possível o “porquê” enquanto tal, podemos nós perguntar, de maneira determinada, pelas razões e fundamentar. Somente porque podemos perguntar e fundamentar foi entregue à nossa existência o destino do pesquisador.

A questão do nada põe a nós mesmos que perguntamos — em questão. Ela é uma questão metafísica.

O ser-aí humano somente pode entrar em relação com o ente se se suspende dentro do nada. O ultrapassar o ente acontece na essência do ser-aí. Este ultrapassar, porém, é a própria metafísica. Nisto reside o fato de que a metafísica pertence à ‘natureza do homem”. Ela não é uma disciplina da filosofia “acadêmica”, nem um campo de idéias arbitrariamente excogitadas. A metafísica é o acontecimento essencial no âmbito de ser-aí. Ela é o próprio ser aí. Pelo fato de a verdade da metafísica residir neste fundamento abissal possui ela, como vizinhança mais próxima, sempre à espreita, a possibilidade do erro mais profundo. E por isso que nenhum rigor de qualquer ciência alcança a seriedade da metafísica. A filosofia jamais pode ser medida pelo padrão da idéia da ciência.

Se realmente acompanhamos, com nossa interrogação, a questão desenvolvida em torno do nada, então não nos teremos representado a metafísica apenas do exterior. Nem nos transportamos também simplesmente para dentro dela. Nem somos disso capazes porque — na medida em que existimos — já sempre estamos colocados dentro dela. Physei gár, o phíle, énestí tis philosophía te tou andrós diánoia (Platão, Fedro 279a). Na medida em que o homem existe, acontece, de certa maneira, o filosofar. Filosofia — o que nós assim designamos — é apenas o pôr em marcha a metafísica, na qual a filosofia toma consciência de si e conquista seus temas expressos. A filosofia somente se põe em movimento por um peculiar salto da própria existência nas possibilidades fundamentais do ser-aí, em sua totalidade. Para este salto são decisivos: primeiro, o dar espaço para o ente em sua totalidade; segundo, o abandonar-se para dentro do nada, quer dizer, o libertar-se dos ídolos que cada qual possui e para onde costuma refugiar-se sub-repticiamente; e, por último, permitir que se desenvolva este estar suspenso para que constantemente retorne à questão fundamental da metafísica que domina o próprio nada:

Por que existe afinal ente e não antes Nada?

28/09/2011

O Papel da Alemanha contra a Técnica

por Martin Heidegger

Essa Europa, estando num estado de cegueira incurável, sempre pronta para se apunhalar a si mesma, encontra-se hoje na grande tenaz, encurralada entre a Rússia de um lado e a América do outro. A Rússia e a América, consideradas metafisicamente, são a mesma coisa; a mesma fúria desolada da desenfreada técnica e da insondável organização do homem vulgar. Quando o recanto mais remoto do globo tiver sido conquistado pela técnica e explorado pela economia, quando um qualquer acontecimento se tiver tornado acessível em qualquer lugar a qualquer hora e com uma rapidez qualquer, quando se puder “viver” simultaneamente um atentado a um rei na França e um concerto sinfônico em Tóquio, quando o tempo for apenas rapidez, momentaneidade e simultaneidade e o tempo enquanto História tiver de todo desaparecido da existência de todos os povos, quando o pugilista for considerado o grande homem de um povo, quando os milhões de manifestantes constituírem um triunfo – então, mesmo então continuará a pairar e estender-se, como um fantasma sobre toda esta maldição, a questão: para quê? – para onde? – e depois, o que?

O declínio espiritual da terra está tão avançado que os povos ameaçam perder a sua última força espiritual que [no que concerne o destino do “Ser”] permite sequer ver e avaliar o declínio como tal. Esta simples constatação nada tem a ver com um pessimismo cultural, nem tão-pouco, como é óbvio, com um otimismo; pois o obscurecimento do mundo, a fuga dos deuses, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odienta contra tudo que é criador e livre, atingiu, em toda a terra, proporções tais que categorias tão infantis como pessimismo e otimismo já há muito se tornaram ridículas.

Encontramo-nos entre os tenazes. O nosso povo, estando no meio, sofre a maior pressão das tenazes, é o povo com mais vizinhos e por isso mais ameaçado, sendo assim o povo metafísico. Mas essa determinação, da qual temos toda a certeza, só poderá ser transformada em destino quando o povo criar uma ressonância em si próprio, uma possibilidade de ressonância para essa determinação, compreendendo a sua tradição de um modo criador. Tudo isto implica que este povo enquanto povo histórico se coloque a si mesmo e, com isso, a História do Ocidente, fora do centro dos seus futuros acontecimentos, repondo-se assim no domínio originário dos poderes do Ser. É que, se a grande decisão sobre a Europa não deverá precisamente ser tomada por via da destruição, só poderá então ser tomada por via de um desenvolvimento de novas forças histórico-espirituais a partir do centro.

___
Martin Heidegger - "Introdução à Metafísica"

27/08/2011

Heidegger e o Retorno às Origens

por Marcello Veneziani

Houve um filósofo, acima do resto, que foi o compêndio da rebelião contra o niilismo, ou melhor da vontade de transcendê-lo: Martin Heideger. Sua revolta foi radical porque pôs em jogo todos os pilares de nossa época, começando pela linguagem: os "valores" do século XX, suas devastações, deu desenraizamento, sua fuga da morte, o domínio do Ocidente da Técnica, o sentido do progresso, o domínio da política e seu declive. Para Heidegger, o século XX não foi senão o apêndice agonizante do pensamento ocidental, sua última e insensata manifestação onde consumiu-se e representou-se mais vistosamente a perda do Ser e o cumprimento exaustivo dos recursos especulativos, dos resíduos acumulados no tempo, da falta de sentido.

A linguagem de Heidegger é obscura, às vezes oracular, para não poucos inclusive impenetrável; gira em torna a seu próprio dizer, gosta de embarcar em exercícios hermenêuticos e filológicos que mais de uma vez encalham nas praias da retórica ou desviam-se pelos meandros do detalhe e do preciosismo do perfeito literato alemão. No temor de descarrilhar de seu sentido último ou de banalizar e alterar seu entendimento, Heidegger opeta por circunavegar no mar de seu próprio pensamento. Por isso mesmo, somente violentando o extremo rigor do heideggerianismo é possível extrair alguns pontos para colocar sob processo à modernidade. Neste caso, mais que em outros, a operação deve fazer-se com sumo risco e cuidado, com plena consciência de que a linguagem heideggeriana é a imagem filológica do teorema de indeterminação de Heisenberg: na medida em que ganha clareza, perde exatidão, e viceversa. Quiçá seja mais justo, mais correto, reproduzir os efeitos que produziu o heideggerianismo sobre nosso tempo, até o ponto de configurar-se como a filosofia mais radical do antiniilismo.

Em relação a seu tempo, Heidegger produz uma série de curtocircuitos: o primado do fazer sobre o pensar, que foi - desde Marx até o pensamento utilitarista - a bandeira dos novos tempos, encontra nele uma inversão integral. À décima primeira tese marxiana sobre Feuerbach, que marcou o século com a irrupção da filosofia na história através da ideologia e do partido entendido como intelectual coletivo, contagiando todas as experiências de nossa era, opõe-se, radicalmente, a linha de Heidegger. Nas páginas de seu livro O Caminho para a Linguagem, Heidegger escreve que "O pensamento não é o meio para o conhecer, o pensar traça sulcos no campo do Ser." Em outra de suas obras (Quê é Filosofia?) recorda aquilo que escreveu Nietzsche a propósito do pensamento que "deve emanar um forte aroma não muito diferente de um campo de trigo maduro em uma tarde de verão." Auscultação do Ser. Pensamento meditante versus pensamento calculante, diz Heidegger. Pensamento que escava no Ser contra pensamento que resolve-se no fazer. É própria de Heidegger a argumentação mais inexorável sobre o marxismo, corretamente entendido pelo filósofo em seus Seminários como "o pensamento de hoje, porque corresponde à situação na qual reina simplesmente a autoprodução do homem e da sociedade". Em efeito, segundo Heidegger, a autoprodução do homem dá origem ao perigo de sua autodestruição; aqui, junto ao marxismo, golpea-se ao coração mesmo do sonho prometeico do século XX, a convicção de que a raiz do homem seja o homem mesmo, como recitava Marx em seu livro Crítica da Filosofia do Direito em Hegel. Todavia existe um delgado fio que parece enlaçar a Heidegger e a Marx: essa espécie de traça gnóstica, que empurra Heidegger a individualizar nosso destino no signo de "um cárcere que portamos em nós por toda a vida." Porém a liberação dos grilhões, em Marx, advém com a liberação do reino da necessidade através do ideal salvífico da revolução; enquanto que em Heidegger a única possibilidade de salvação consiste em poder remontar o esquecimento do Ser, que exila ao pensamento ocidental da esfera do sagrado. Também Heidegger hipotetizou em seus Seminários de Zollikon uma insurgência "contra a irresistível potência da Técnica", confiando-a a "células de resistência que, sem espetacularidade, retenham a meditação e preparem a inversão à qual chegar-se-á um dia, quando a desolação universal devenha insustentável".


Aqui enxerta-se o mais implacável processo ao século XX, através da reimersão heideggeriana nas Raízes em uma época dominada pelo desenraizamento e pela desorientação ("a desorientação como destino mundial é a verdadeira cifra da alienação da qual falaram Johann P. Habel e Marx", escreve Martin Heidegger em sua Carta Sobre o Humanismo). "O enraizamento estável do homem de hoje no próprio terreno reduziu-se até o terreno do íntimo. Mais ainda: esta perda de raízes, a impossibilidade da época na qual chegamos a viver." (esceve em seu ensaio O Abandono). E repetindo as palavras de Johann P. Habel, Heidegger esreve: "Estejamos dispostos ou não a admiti-lo, somos plantas que devemos crescer enraizadas na terra, sob risco de não florescer nunca, nem mesmo dar frutos", e "é nobre aquilo que tem uma origem e permanece na origem do próprio ser". Em outra ocasião, em seus Ensaios e Discursos, Heidegger recorda que a palavra "cura" tem em grego o sentido original etimológico de "regressar ao lar": "o convalescente é aquele que reorre o mundo para retornar à casa, isto é, para dirigir-se à morada de seu destino".

O problema crucial de nosso tempo, assim pois, seria este: "Se o antigo modo de enraizar-se do homem perdeu-se, poderia encontrar-se então um novo fundamento, um novo terreno no qual enraizar-se?" Daí a tentativa heideggeriana de situar as raízes não no passado, senão em nosso futuro, no qual a origem coincide com o destino. "O início está agora - escreve Heidegger ao modo nietzscheano em seu Discurso sobre a autoafirmação da universidade alemã - não às nossas costas, como um evento dos tempos passados, mas sim na nossa frente e diante de nós". Melhor precisam-se suas reflexões em Sinais do Caminho, onde o recolher-se em sua essência assume a modalidade de um retorno, porém agrega: "Não trata-se, naturalmente, de um retorno aos tempos pretéritos em uma tentativa de restaurá-los de maneira artificial. Retorno, aqui, significa a direção para aquela localidade (o esquecimento do Ser) da qual a metafísica recebeu e continua tendo sua proveniência". Trata-se de um retorno ao lugar no qual o pensar e o poetizar "sempre estiveram". Na coincidência do pensar e do poetizar ressoa "a graça do Ser": a poesia aparece, então, como uma evocação da origem, um estado auroral no qual alberga-se a luz, a voz do Ser. Na poesia recolhe-se a espera pelo início, a origem, as raízes.


Heidegger traça o sentido transpolítico da "Konservative Revolution", retendo o traço saliente do retorno à origem não como um retorno para trás, senão como um atravessamento/aprofundamento do niilismo: assim escreve-o no admirável ensaio A Linha, em diálogo com Ernst Jünger. Podemos falar do paradoxo de um retorno ao futuro. A intuição heideggeriana está em recolher-se na essência do niilismo, remontando-o (e neste caso o remontar é um sinônimo do projetar) até encontrar suas raízes não niilistas, na convicção de que seu cumprimento coincida com seu esgotamento. Do mesmo modo a Técnica, destino do niilismo e da modernidade, não pode ser eludida ou rechaçada, porque inclusive quando evadimo-nos do reino da Técnica, a Técnica invade-nos; também nomeando-a desde fora permanecemos dentro. Similarmente, também enste caso a única via é a busca das raízes da técnica, sem cair na armadilha de considerá-la como puro instrumento; porque na essência da Técnica alberga-se o crescimento daquilo que salva, seguindo um célebre verso de Hölderlin ("Ali onde está o perigo, ali também está a salvação"). Também aqui reúne-se todo o sentido da "Konservative Revolution", que de algum modo foi definida como um modernismo reacionário.

À margem das implicações culturais e políticas do heideggerianismo, reafloram periodicamente as sombras "nazis" sobre Heidegger em uma tentativa de neutralizar, através da demonização, o alcance e a incidência histórica de seu pensar. Os "compromissos" de Heidegger com o regime nacional-socialista são evidentes (por outro lado, ele mesmo escreve que quem pensa grande erra também grande e que "todo aquele que é grande está na tempestade"), e a assonância de algumas de suas teses com aquelas que circulavam nos ambientes nacional-socialistas são inegáveis, porém é necessário sublinhar com clareza ao menos três coisas: Primeiro, em Heidegger permanece um desprezo pela condição política que situa-o fora de todo possível compromisso. Ele, como revelara em seus cursos universitários sobre Hölderlin, nos anos do nacional-socialismo, reconhecia-se na Antígona de Sófocles, "impolítico" em seu sentido de "suprapolítico", desprezando a autonomia da política e suas formas dominantes no século XX, pois estariam condenadas todas elas enquanto são formas do "esquecimento do Ser" no qual o poder está subordinado à Técnica. Em segundo lugar, Hannah Arendt recorda que seus cursos universitários durante a década de 1930 estavam centrados no juízo sobre as idéias nietzscheanas de vontade e de poder, nas quais podia evidenciar-se a essência mesma do nazismo e de outros muitos regimes modernos. Comentando o ensaio de Jünger O Trabalhador, Martin Heidegger escrevia em 1933 "Na atualidade domina no âmbito planetário a vontade de poder e tudo - comunismo, fascismo e democracia liberal - encontra-se hoje nesta realidade". Enfim, não podem ler-se, a não ser como simples propaganda demonizadora, as palavras de Heidegger em 1933 à luz dos supostos e muito mais que discutíveis campos de extermínio. Em qualquer caso não há um nexo entre suas palavras em defesa do enraizamento espiritual no sangue e na terra de um povo e os delírios do racismo. Em todo caso pode-se marginalmente observar que Heidegger (como, ademais, também Spengler e Schmitt, por exemplo) sentia-se mais próximo ao fascismo italiano que ao nacional-socialismo. Em seu livro sobre Heidegger, Nolte recorta como Mussolini havia protegido o filósofo alemão (como fez também com Jünger, ou com Niekisch, ou inclusive com Freud) através de Roberto Alfieri, seu embaixador em Berlim.



No pensamento heideggeriano e em sua obra vigorosa ficam muitos traços de antimodernismo através da reapresentação dos grandes tabús do século, não somente sobre a comunidade e o enraizamento, senão também sobre a morte e o sagrado. Bastará recordar sua implacável crítica a nossa época assinalada pelo rechaço supersticioso da morte: "A quotidianidade - escreve em O Ser e o Tempo - é inseparável do tomar cuidado e do evitar o obstáculo tétrico e inativo do pensar a morte...referida ao 'mais tarde'". Daí o desvio da vida autêntica que caracteriza nossa condição contemporânea. Porém pensar a morte, pensar-se no umbral do morrer, desvelando a condição humana, é também a origem para pensar o outro grande convidado de pedra de nosso tempo: o sagrado. O sagrado recorre constantemente as páginas heideggerianas sobre o Ser e sua revelação, para explicitar-se por fim em sua célebre invocação: "Agora, somente um Deus pode salvar-nos". Porque "a filosofia não poderá produzir nenhuma imediata modificação do estado atual do mundo (...) e resta como única possibilidade a de preparar, no pensar e no poetizar, uma disponibilidade para a aparição de um Deus ou para a ausência do Deus da decadência, pois na presença do Deus ausente nós decaimos." Porém uma inversão da condição atual, agrega, somente será possível "a partir do mesmo lugar do mundo do qual surgiu o moderno mundo técnico"; portanto "não há um espaço diligente para a assunção do budismo zen ou de outras experiências orientais do mundo. Para mudar o modo de pensar é necessário a ajuda da tradição européia, e de sua reapropriação. O pensamento vem modificado somente por aquele pensamento que tem a mesma origem e o mesmo destino." O Ocidente deverá encontrar em suas raízes a energia para cruzar o novo milênio. É aqui onde enxertam-se as memoráveis páginas de Heidegger contra o americanismo. Escrevia em 1942: "Hoje sabemos que o mundo anglo-saxão do americanismo está decidido a aniquilar a Europa, quer dizer, à Pátria e o início do que é ocidental. Aquilo que é inicial é indestrutível." Sublinhando a equivalência metafísica entre os EUA e a URSS sob o signo do domínio da Técnica desenfreada, Heidegger anota, em meados da década de 1930, nas páginas de sua Introdução à Metafísica, "seu ilimitado materialismo e sua invasão demoníaca (no sentido de destruição maléfica) que ataca todo valor, toda espiritualidade, destruindo-a e fazendo-a passar por mentira". Em 1960 sua crítica ao americanismo transcende os horizontes europeus para referir-se à totalidade do planeta: "Se hoje os povos subdesenvolvidos, dos quais tanto fala-se, devem receber em doação as prestações, os sucessos e os úteis da Técnica moderna, esta demanda, temo, virá acompanhada da destruição de tudo o que é-lhes próprios e conatural, a substituição de tudo o que é-lhes natural por aquilo que é-lhes estranho e forasteiro".

Destruição e extirpação. Em uma palavra: desenraizmento. O mal do século XX, segundo Heidegger.

07/12/2010

Tormenta Subterrânea

por Martin Heidegger



A tormenta subterrânea retumba,
inaudível para todos os muitos, prossegue
em âmbitos supramundanos -
distante golpe do seer.
Mundo e terra há muito misturados,
perturbados na lei de sua contenda
subtraem às coisas toda circunscrição.
Número se arrebata na vazia quantidade,
nunca mais doa laço e imagem.
Vige como "sendo" o que "vive",
mas "viver" só continua vivendo do clamor
de uma ruidosa suposição,
que já à próxima retarda.
Todavia, eles velam -
os secretos vigilantes
de uma insurgida transformação:
distante golpe do seer
entre turvo fazer e o que é feito.
 
 
* Seer (Seyn) -> "Meditações; Capítulo IV - Acerca do Projeto do Seer"
O Seer - nada divino, nada humano, nada mundano, nada terreno - e, contudo, tudo isto junto como o entementes - inexplicavel, sem efeito, para além de poder e de impotência essencia-se o seer.

Incontornavel para o homem, uma vez que ele se encontra assim no aberto do ente, ele mesmo sendo, comportando-se, postando-se em relação ao ser.

A partir do ente, o seer nunca é explicável, porque a essenciação do seer aponta para o abissal, que recusa toda a apelação ao ente, uma vez que o abismo impele unicamente para o interior do seer. Por isto, a fundação da verdade do seer não pertence ao homem presente e "vivente", mas ao ser-aí (dasein) para a insistência na qual o ser-humano precisa, de tempos em tempos, se transformar.

29/10/2010

Pátria e Tradição

"Sei por experiência e pela história humana que tudo que é essencial e grande somente pôde surgir quando o homem tinha uma Pátria e estava enraizado em uma Tradição."
(Martin Heidegger)