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22/07/2011

O Espírito e o Poder

por Ramiro de Maeztu

Esta é uma crise espiritual, "uma crise do pensamento econômico", disse o Sr. Oliveira Salazar, chefe do Governo português, e consiste, segundo o Sr. Pequito Rebelle, "em que o espírito não logra dominar e organizar a economia". O mundo econômico deveria ser governado pelo espírito, já que não tem outro objeto que satisfazer as necessidades da vida. Porém materializamo-nos, o que quer dizer que o espírito deixou-se cair em um ideal materialista. Nós vimos, seguimos vendo na matéria um fim em si mesmo, e não mero instrumento. O resultado é que a matéria nos transborda. Não podemos, não sabemos organizá-la. Há um excesso de produção e um déficit de organização, e ainda que a super-produção parece que deveria ser excesso de riqueza, como a única riqueza que adquire o valor que lhe é própria é a orgânica, quer dizer, a que satisfaz, sem perturbações, as necessidades humanas, o resultado daquele excesso inicial de produtos é uma paralisação do trabalho, que implica a pobreza para muita gente...

...O corolário filosófico de Pequito Rebello é que o materialismo econômico faz com que o homem perca o fundamento de sua personalidade, com a que, "fiel a sua espiritualidade, mostra-se investido de sua realiza sobre si mesmo e sobre as coisas". O paradoxo e o problema econômico que há neste fato dependem de que o homem perca a capacidade de manejar as coisas precisamente por não haver preocupado-se mais que em armazenar o maior número possível de coisas. Não empenhou-se mais que em multiplicar a produção, para livrar-se a todo custo da possibilidade de escassez e, em efeito, consegue acumular montanhas de algodão, de lã, de trigo, imensos frigoríficos cheios de carne, enormes depósitos de automóveis, montanhas de carvão e de minério de ferro, astronômicas cifras de disponibilidades nos bancos, suficiente número de engenheiros e operários especialistas para triplicar as indústrias, e tudo sobra: dinheiro, técnica, mão-de-obra, produtos. E não há maneira de trocar o trigo excedente na Argentina pelo carvão excedente em Gales, porque o que há em excesso, simplesmente há em excesso...

O decisivo é que o grande fracasso vem do grande êxito. A modernidade propôs-se a acabar de uma vez com a escassez de que padeceu a humanidade em outro tempo. Há 50 anos sonhava em povoar os desertos da Argentina, do Canadá e da Austrália, levando a eles as multidões em excesso na Europa. Depois pendou que não teria tempo para cambiar de território tanta gente e inventou a maneira de cultivar os desertos por meio do trator e da segadeira, sem necessidade de povoá-los previamente. Assim obteve com facilidade relativa excesso de produtos. Porém o que não averiguou-se é a maneira de levar os alimentos excedentes às bocas dos que necessitam, sem ser por quantidades que degradam e desmoralizam os que recebem-nas. A elas apelam os países mais endinheirados, como Inglaterra e os Estados Unidos, porém os desempregados não satisfazem-se, porque não são meramente bocas, senão espírito. Necessitam de pão, porém também propriedade e interesse no trabalho, carinho e cultura, fé, esperança e caridade. E onde não há capitais acumulados para distribuir aos operários sem trabalho, parece que os povos tem que escolher entre organizar-se em ditaduras, para fazer frente à revolução, ou abandonar-se à codícia e aos ressentimentos dos agitadores...


19/06/2011

Parvoíce Antitradicionalista

"Se as idéias antitradicionalistas valessem mais que nossa tradição, esta teria tornado-se uma espécie de pré-história, mas apenas um pouco melhor conhecida. Isso é o que se tem desejado fazer nesses anos ao chamarem 'homens das cavernas' aos espanhóis amantes das glórias do passado. Porém quando pergunta-se pelos títulos das idéias que julgam-se novas, os inimigos hão de guardar silênico, se não preferem envolver-se em retórica inane. Porque a árvore é conhecida por seus frutos e os seus não aparecem. Nem uma filosofia que sustente-se, nem um sistema de Direito satisfatório, nem o bem-estar do povo, nem uma grande arte, nem história, nem poesia. Um trágala perpétuo, uma ameaça incessante, um insulto permanente. São estes os títulos das novas idéias? A arte pela arte? Não produziu uma única grande obra em país algum. A economia individualista? É a mãe dos problemas sociais. O socialismo? Arruina aos povos. A democracia? É a incapacidade para o governo. O liberalismo espiritual? É o triunfo da difamação. O bacharelado enciclopédico? Como quase todo o cômputo de Instrução pública não serve senão para infiltrar nos espíritos o horror ao trabalho. Repitamo-nos para consolar-nos, que a maioria dessas coisas foram-nos trazidas por gente de boa-fé, que lançaram-se a buscar pelo mundo o que necessitávamos. Porém não esqueçamos que acompanhavam-nas e empurravam-nas os ressentidos, os negadores, os anormais, que não moviam-se senão por impulsos destrutivos, que, pelo visto não satisfizeram-se em despedaçar o que foi o mais generoso e humano de todos os Impérios que houveram no mundo."
(Ramiro de Maeztu)