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15/07/2017

Mark Hackard - Disney Manifesta

por Mark Hackard



Ao passo que nos aproximamos de outro dia da independência na América, vale a pena refletir sobre o significado do status excepcional tão anunciado de nosso país. Nossa terra é de fato bela e abençoada de muitas maneiras, lar de milhões de almas amáveis e generosas. Mas fingir que tudo está bem seria como assobiar ao passar por um cemitério. Os Estados Unidos, devemos lembrar, nunca foi concebido como uma nação orgânica, mas como um construto revolucionário, o arauto de uma Novus Ordo Seclorum em seu alvorecer. E então o seu progresso está sempre irrealizado, sua natureza não é o ser, mas o transformar-se, a sua vastidão um laboratório para alquimia social em escala continental. E ainda, de todas as tentativas para identificar o significado do sonho americano, nenhuma representou sua essência de maneira mais apta do que um humilde monge ortodoxo, o abençoado Fr. Seraphim Rose:

"Pode-se tomar, como símbolo de nossos tempos despreocupados, divertidos, de auto adoração, a Disneylândia americana; se assim o for, nós não devemos deixar de reconhecer por trás dela o símbolo mais sinistro que mostra para onde a “geração eu” está realmente indo: o Gulag soviético".

Fr. Seraphim escreveu essas palavras em 1982, o ano de seu repouso aos 48 anos, e o seu significado hoje só pode ser considerado profético. Nativo do sul da Califórnia, Fr. Seraphim viu a Disneylândia como a analogia mais apropriada para o Ocidente moderno e seu principal estado, a América. Nenhum lugar encerra melhor uma sociedade de falsidade, “diversão”, e narcisismo do que o reino mágico, ele próprio o centro de um império midiático cujos tentáculos governam incansavelmente segmentos de mercado da infância à maioridade, bombardeando populações em todo o mundo com “entretenimento” instrumentado, ou seja, guerra psicológica, subversão com um sorriso. E enquanto a América batalha pelo seu destino, realizando de maneira cada vez mais perfeita os princípios revolucionários de liberdade e igualdade, então nós testemunhamos a evolução da Civilização da Disneylândia em sua expressão máxima, o Gulag digital.

Nunca antes, dizemos a nós mesmos freneticamente, fomos tão livres, enquanto a NSA e transnacionais gigantes do ramo da tecnologia constroem uma rede de monitoramento outorgando aos nossos soberanos um controle sem precedentes sobre cada aspecto da vida. Nunca fomos tão liberados e “empoderados” como agora, nós declaramos em frenesi orgiástico, enquanto toda e qualquer ligação tradicional é sistematicamente reduzida a trilhas de risadas enlatadas. Nações, tribos, culturas, devem todas desaparecer para incorporar uma nova e melhorada classe de escravos consumidores para servir melhor aos desígnios de nossos mestres oligarcas. Cada distinção humana, até mesmo entre homem e mulher, deve ser eliminada à medida que o poder sobre a hereditariedade será domínio da elite tecnocrática governante, os incipientes deuses-máquinas. 

A distopia não está em um futuro remoto e obscuro; a distopia é agora. Bem-vindo à Terra do Amanhã. Nós descendemos mais em direção à fantasia ao invés de trilhar o caminho difícil do arrependimento, escravizados a telas brilhantes que jogam com nossos desejos mais ínferos. A América Disney, o fim da história, representa o triunfo do simulacro de apocalipse de Jean Baudrillard. Uma cópia sem o original, o simulacro chega como anunciante da nossa dissolução, com o absurdo cartunesco e irreal defendido como nobre e correto. Uma falsa religião no espírito do Grande Inquisidor de Dostoiévski ganha forma perante nossos olhos – o tour misterioso do milagre pós-moderno. Sacramentos são invertidos para celebração pública, e a própria humanidade desintegra-se no reino da quantidade. Eu me tornei Pateta, o destruidor de mundos.

“Não viva de mentiras”, Aleksandr Solzhenitsyn nos aconselhou. Se aproxima rapidamente o tempo em que desafiar a falsidade da ordem estabelecida irá trazer não só sanções legais e administrativas, mas violência organizada. As mentiras desmascaradas revelam a face de seu criador, que deseja apenas morte espiritual. O homem faustiano trocou sua alma pelo reino mágico de Mamon, um parque de diversões-e-campo de concentração de alta tecnologia. A civilização da Disneylândia e suas ilusões vai durar apenas por um curto período de tempo, assim como o mundo e toda a sua glória, embora nesse meio tempo ela irá tornar-se mais bestial em sua desumanização e perseguição da verdade. Que Deus nos conceda – tanto homens como todos os povos, especialmente os americanos nesse dia – a força férrea do arrependimento, que possamos suportar até o final.

18/08/2015

Mark Hackard - O Bombardeiro da Paz

por Mark Hackard



Nos últimos meses de 2010, os EUA haviam intensificado sua campanha aérea sobre terras tribais pashtun que se situam ao longo de uma montanhosa e parcamente definida fronteira paqui-afegã. No curso de 102 dias, 58 ataques contra operativos da Al-Qaeda e do Talibã (bem como contra um número alto, porém desconhecido, de inocentes) foram realizados pela Força Aérea e pela frota de veículos aéreos não-tripulados da CIA.

Tanto jihadistas como civis são incinerados por mísseis hellfire sem muita atenção da mídia, e soldados e fuzileiros americanos que caem em combate não tem como esperar coisa muito melhor. Porém, uma morte conectada à guerra no Hindu Kush certamente atraiu atenção em Washington: a de Richard Holbrooke, o Representante Especial do Departamento de Estado para o Afeganistão e o Paquistão.

Holbrooke, responsável pela coordenação diplomática do conflito, morreu de uma aorta rompida em 13 de dezembro. Desde então, a imprensa e a administração Obama derramaram torrentes de elogios sobre esse "gigante da diplomacia americana". Mas talvez o tributo mais adequado ao homem tenha sido o papel cada vez maior de drones assassinos na execução de políticas, como relatado desde o noroeste do Paquistão. Apesar de suas experiências anteriores no Vietnã, Richard Holbrooke passou a crer firmemente em redenção por poder aéreo coercitivo. No bombardeio há progresso; no bombardeio deveremos encontrar a paz.

À luz de seu zelo missionário, as realizações e histórico de Holbrooke merecem exame. Ele foi, como o estudioso dos Bálcãs Srdja Trifkovic notou, um arquiteto central e de certas maneiras a personificação do intervencionismo americano. À parte seu status elevado em Foggy Bottom, Holbrooke representava um nexo de governo, interesses de Wall Street e influência de ONGs. Nessa capacidade, ele foi por décadas um impositor efetivo e enérgico da Pax Americana. Onde projetos geopolíticos americanos cruzavam com pontos de crise na Eurásia, Holbrooke era enviado para explorar a situação. Seus métodos de negociação consistiam principalmente na apresentação de ultimatos e punições correspondentes por desobediência.

A década de 90 seria a década em que Holbrooke ganharia sua fama. Conforme a antiga Iugoslávia se despedaçava em conflitos étnicos e religiosos, os EUA buscavam impôr sua dominação sobre a região. As guerras balcânicas daquela década foram algo brutal e complexo, mas para Holbrooke e a administração Clinton era tudo muito simples: os sérvios precisam ser diminuídos. Aqui, também, estava a perfeita oportunidade para se exercer poder americano em prol do progresso humano. Nos vales montanhosos do sudeste da Europa, os fantasmas da história só poderiam ser exorcizados com uma barulhenta demonstração de força. Como um profeta de Washington, Holbrooke iluminaria o caminho para uma Sociedade Aberta com munições guiadas por laser.

Os papeis nessa peça teatral moralista já estavam distribuídos: muçulmanos bósnios virtuosos e vitimizados, croatas mais ou menos toleráveis, e sérvios malignos, até mesmo selvagens. O fato de que o presidente bósnio Alija Izetbegovic e seu par croata Franjo Tudjman eram gangsters do mesmo molde que o sérvio Slobodan Milosevic não era registrado pelas elites da política externa americana - o roteiro já estava escrito, e tinha que ser seguido. A direção desse cenário por Holbrooke lhe garantiria seguidores no Ocidente, com os Acordos de Dayton de 1995 sendo projeto seu.

A fórmula favorita de Holbrooke de intimidação e bombardeio aéreo foi aplicada repetidamente para forçar Belgrado a se submeter às demandas americanas, primeiro de criar o Estado bósnio e então de separar o Kosovo da Sérvia em 1999. O seguinte pedido a seu colega Strobe Talbott esclarece Holbrooke, amante e libertador da humanidade, em toda sua retidão beligerante:

"Este é um momento crítico para nós pessoalmente, nossa responsabilidade para com a nação e a coisa certa a fazer. Dê-nos bombas para diplomacia. Dê-nos bombas para a paz. Precisamos bombardear para tornar nossa diplomacia efetiva. E não nos segurarmos".

Seria um erro ver tal apelo como meramente outro exemplo do dito de Clausewitz sobre a guerra como instrumento da política, pois ela está enraizada em uma visão muito mais ampla e de longo alcance. O homem criado quaker por pais judeus ateístas desenvolveu uma fé inabalável na violência redentora, a destruição revolucionária necessária para moldar um novo mundo. Nisso ele era uma alma irmã dos radicais oitocentistas e neoconservadores contemporâneos como Paul Wolfowitz. O desejo apaixonado de Holbrooke por bombas foi concedido, a influência americana na Europa justificada, e novos micro-estados muçulmanos estabelecidos nos Bálcãs.

Holbrooke usualmente explicaria suas ambições políticas no contexto de sua história familiar e etnia. Sua mãe havia fugido da Alemanha na década de 30, seu pai de Varsóvia. Um secularista convicto, como muitos outros homens assim Holbrooke ainda assim se orgulhava de sua herança judaica e evidentemente mantinha um forte laço emocional com Israel e o sionismo. E apesar de ele ter nascido em Nova Iorque, em seu coração ele se identificava com o refugiado alienado.

Por insistência da mídia, pressupõe-se que devamos associar o falecido Holbrooke fundamentalmente com compaixão e saudá-lo pro lançar seu nome por trás de inúmeras iniciativas humanitárias. Ainda assim, demonstrações públicas de virtude não retratam plenamente o espírito da carreira de Holbrooke e sua missão maior. Por trás da retórica moralista e de projetos de ajuda dignos de celebridades estava uma clara veia de animosidade em relação à cultura tradicional e os povos da Europa.

O que impulsionava Holbrooke tanto quanto simpatia por certas classes de vítimas era uma profunda hostilidade ao cristianismo, principalmente pela civilização ortodoxa, que tem permanecido significativamente fora da órbita americana. Assim, ele não foi apenas ativo mas entusiástico em garantir que a Sérvia seria pulverizada por uma campanha aérea da OTAN e roubada da província do Kosovo. Hoje o Kosovo é o maior conduíte europeu para a heroína afegã e um centro de tráfico ilegal de órgãos, além de abrigar uma das maiores bases americanas no continente. Holbrooke também nunca cansou de recomendar a entrada da Turquia na UE e era um promotor ativo de proxies jihadistas na Europa ocupada.

Se uma política provavelmente antagonizaria a Rússia, Holbrooke provavelmente a apoiaria. Da expansão da OTAN, a revoluções coloridas e programas de "sociedade civil" a tensões na Ossétia do Sul, ele consistentemente buscava interferir na periferia de Moscou. Sérvios desafiadores e os nacionalistas retrógrados no Kremlin tinham que conhecer seu lugar no Admirável Mundo Novo, e precisavam assim ser punidos e humilhados até que abraçassem sua subjugação. Se a Rússia em algum momento tivesse carecido dos meios de se defender, Holbrooke indubitavelmente teria estado pronto para implementar o modelo Kosovo no Cáucaso.

Todo o estilo e substância da obra de Holbrooke pode ser destilada em uma qualidade: não compaixão, mas agressão. A antiga prática imperial de dividir para conquistar só foi ampliada pelo discurso da ideologia dos "direitos humanos", e clipes de refugiados veiculados pela CNN serviam como desculpa conveniente para lançar mísseis contra infraestrutura civil. Onde estava, então, a lendária compaixão de Holbrooke por sérvios "expurgados" em Krajina e no Kosovo, ou por aqueles sequestrados, executados e explorados como doadores de órgãos no mercado negro? E as vítimas da Operação Força Aliada da OTAN? Elas não merecem a menor lembrança; nem, aliás, cristãos do Levente ao Timor Leste. Holbrooke tinha pouco tempo para se importar com os massacres dos timorenses na década de 70, enquanto ele estava obtendo caças contra-insurgentes para os assassinos indonésios. Isso não é pacificação, mas predação.

O teórico russo da renovação cultural Ivan Ilyn descreveu os bolcheviques que tomaram o poder em sua terra natal como aventureiros internacionalistas. Entre os supostos estadistas de nossa era, Richard Holbrooke exibia a marca do messianismo impiedoso característico de um Lênin ou Trótski. Ele, também, era um aventureiro internacionalista e o herdeiro espiritual de uma geração anterior de homens que promoveram a causa da revolução global. A morte de Holbrooke na aventura afegã é um prenúncio pouco sutil do que vem por aí: tal como o marxismo soviético, a ordem liberal marcha de seu momento de exaltação à aniquilação em meio a um terreno familiar.

Comentaristas tem lamentado o vácuo na política externa americana causado pela saída de um diplomata insubstituível. Em realidade há muito tem havido um nada sobrepujante no globalismo americano; o próprio Holbrooke, a grande máquina de demolição, incorporava este fenômeno melhor do que ninguém. Ele prestou serviços inestimáveis ao Império, tornando o mundo seguro tanto para a MTV como para os mujahedin, para a Ikea e o ELK. O que permanece é uma trilha de morte, as baixas infligidas para aproximar o homem a uma fraternidade de consumo, o composto para um futuro perfeito de liberdade e igualdade.

Richard Holbrooke proferiu estas palavras em uma entrevista em 2010 para descrever o programa político jihadista, mas ele não captou a ironia. Sua frase expõe tão bem quanto a longa guerra por democracia universal:

"É puro niilismo. Eles não representam absolutamente nada além de destruição, e eles destroem as vidas das pessoas deu ma maneira aleatória e insana".


01/04/2015

Mark Hackard - Philby e a Traição do Ocidente

por Mark Hackard

Tradução por Carolina Santos



No florescer da arena da espionagem internacional, um nome, mais que outros, evoca uma imagem de uma paciente, magistral traição, a presença insidiosa do inimigo no próprio santuário. Não importa qual país eles sirvam, é esperado que gerações de trainees de inteligência e contra-inteligência conheçam bem o seguinte nome: Philby. Há meio século, Harold Adrian Russell "Kim" Philby (1912-1988) permanece tanto na história da espionagem quanto na literatura popular, o traidor por excelência, o agente de penetração profunda que fez seu próprio caminho ao topo da inteligência britânica para fornecer à Rússia soviética os mais guardados segredos da Coroa.

O choque da traição de Philby reverberou por todo o Establishment britânico, enquanto em retrospectiva, o caso nos fala mais sobre a depravação social, cultural e espiritual de uma elite inteira, mais do que apenas das façanhas sórdidas de um espião.

Uma nova visão acerca da mais notória das verdadeiras histórias de espiões, "A Spy Among Friends: Kim Philby and the Great Betrayal" captura não apenas o trabalho em si de Philby para a M16 e a KGB, mas também examina a trilha de vidas destruídas que ele deixou em seu rastro. Usando entrevistas e materiais arquivados, o jornalista Ben McIntyre realizou um trabalho para saber como e os porquês de um homem britânico de alta classe ter enviado dezenas de agentes ocidentais para o outro lado da Cortina de Ferro até seus relentos, trazido miséria e ruína para suas diversas esposas, e destruído as carreiras de seus colegas e amigos íntimos. Philby era um traidor com uma causa; ele espionava não por dinheiro ou adrenalina, mas sim porque sinceramente acreditava em um futuro radiante prometido pelo comunismo. 

Desde 1934, quando um recém graduado de Cambridge’s Trinity College, foi recrutado pela inteligência soviética, até sua dramática deserção em Beirute em 1963, Philby nutriu uma fé interior inabalável em sua missão, uma convicção mantida até sua morte.

A conversão do jovem Philby ao marxismo dificilmente se consideraria extraordinária – em toda a Europa do entre guerras, a ideologia comunista estava em voga entre intelectuais, e a União Soviética era vista como um experimento promissor na criação de uma nova sociedade. Assim, mais quatro colegas de classe de Philby também seriam leais à Moscou, formando o "Cambridge Five", uma rede de agentes que mesmo hoje é celebrada pela sucessora da KGB, a SVR, como um clássico exemplo de penetração de longo prazo.

A causa imediata para as classes instruídas ocidentais recorrerem ao marxismo pode ser encontrada na severa crise que primeiramente estagnou a Grã Bretanha, América do Norte e o continente europeu no amanhecer da década de 1930, com empobrecimento, instabilidade política e a ascensão do fascismo. Enquanto o privilegiado Philby e seus amigos não eram diretamente afetados pela depressão, a moda intelectual mantinha que o materialismo dialético e o socialismo estatal revolucionário eram a resposta à civilização capitalista que havia falhado.

A liberal democracia já havia se revelado como fraude conforme oligarcas expandiam suas propriedades de forma proporcional à miséria dos trabalhadores comuns.  Dificilmente um sistema de pensamento alienígena nascido na estepe eurasiática, a tentação totalitária nasceu das filosofias de governo do Ocidente moderno. 

Nascido em Lahore e com um nome inspirado no herói de "Great Game’", de Rudyard Kipling, Kim Philby foi uma criança do Império Britânico. E a milhares de quilômetros de Punjab, liderou um empreendimento global fundado sob os princípios lockeanos do liberalismo clássico, do poderio científico-industrial e da tradição de comércio marítimo de Cartago, Atenas e Veneza. O pai ausente de Philby, John Philby, havia feito sua carreira como um conceituado orientalista nos moldes de Lawrence da Arábia e servia como um "conselheiro" ao rei Ibn Saud. O jovem Philby recebeu uma educação clássica, em grande parte dentro das mais prestigiadas escolas públicas. Mesmo "Deus, Rei e Pátria" tendo sido o credo do serviço para a elite administrativa do império, poucos, se é que algum, desses homens acreditavam, de fato, em Deus da mesma forma que seus ancestrais, enquanto "rei" e "pátria" tornaram-se mera máscara retórica para os desígnios das predatórias dinastias bancárias. Como o melhor amigo de Philby e oficial M16 Nicholas Elliot declarou, eles serviam "rei, pátria, classe e clube", dificilmente uma fórmula inspiradora. 

A insípida e ego-gratificante ideologia do humanismo liberal iluminista, junto com as cada vez mais consistentes doutrinas empiricistas de Hume, Bentham e Darwin, havia esvaziado instituições sociais – e o Cosmos – de qualquer significado transcendente.  Era de se imaginar que um jovem aristocrata como Philby iria buscar uma nova revelação no marxismo, a narrativa salvífica de um reino terreno tornado perfeito pela revolução proletária. Em seu trabalho secreto para o partido, Kim Philby aplicou as conclusões lógicas dos princípios materialistas que a filosofia liberal havia ultimamente produzido; ele buscou a destruição de uma já então decadente Grã-Bretanha da partir de dentro para o alvorecer de uma nova e transformadora era. Assim como o asceta Ortodoxo Fr. Seraphim Rose tão bem diagnosticou, o jovem radical estava apenas consumando um processo iniciado bem antes dele pelos campeões da "liberdade" e da "razão":

O liberal, o homem mundano, é o homem que perdeu sua fé; e a perda da fé perfeita é o início do fim da ordem erguida sobre essa fé. Aqueles que buscam a preservação do prestígio da verdade sem crer nela oferecem a mais potente arma para todos os seus inimigos; uma mera fé metafórica é suicida. O radical ataca a doutrina liberal a cada ponto, e o véu de retórica não é proteção contra o forte impulso de sua lâmina afiada. O liberal, sob esse ataque persistente, dá ré ponto após ponto, forçado a admitir a verdade das acusações lançadas contra ele sem ser capaz de contrariar essa verdade crítica, negativa, com qualquer verdade positiva própria; até que, após uma transição longa e gradativa, de súbito ele acorda para descobrir que a Velha Ordem, não defendida e aparentemente indefensável, foi derrubada, e que uma nova verdade, mais 'realista' - e mais brutal - tomou o espaço".

A espionagem é o negócio de traição, e até seus camaradas e colegas agentes de Cambridge Guy Burgess e Donald Maclean fugirem para Moscou em 1951, o negócio era bom para Philby. Promovido após a Segunda Guerra Mundial para liderar operações anti-soviéticas e então enviado a Washington como o representante do MI6, o amistoso e produtivo infiltrado conquistou amigos com facilidade. Ele também conseguiu ser nomeado cavaleiro, a Ordem do Império Britânico, dada a ele pela Rainha Elizabeth. Para que não pensemos nessa honraria como uma mera aberração, lembremos o lamento de Edmund Burke:

"A era da cavalaria se foi. A dos sofistas, economistas e calculadores, triunfou; e a glória da Europa está extinta para sempre".

Que Philby e Anthony Blunt, outro dos Cinco de Cambridge e Inspetor das Imagens do Rei, foram condecorados antes de sua traição ter sido exposta pelo MI5 é perdoável, mas eles próprios eram sintomas de uma patologia mais profunda. A cavalaria em nossa era, como cada outra coisa de valor, foi sistematicamente sujeita à lógica de inversão. Como explicar de outra forma títulos nobiliárquicos dados a mestres da usura, promotores da anti-cultura e rock stars dissolutos? E quanto a "Sir" Jimmy Savile, DJ da BBC e famoso confidente da Família Real, que por décadas cometeu estupros contra incontáveis crianças de toda a Grã-Bretanha, ou as várias dúzias de parlamentares e burocratas do governo que só agora foram implicados em organizações de pedofilia e assassinato infantil? Muito mais do que a espionagem, malignidade dessa natureza porta diretamente a estampa do satânico; quisera Deus despertasse Artur e seus cavaleiros para varrer essa imundície da terra verde e agradável da Inglaterra.

Guerreiro frio até o fim, Philby reivindicava seu próprio papel dúplice no confronto bipolar entre capitalismo e comunismo. Só que desconhecido para as fileiras de cada lado, o resultado planejado desse confronto dialético era a tirania universal. Assim como os marxistas apelavam para a inevitabilidade da história, a superclasse plutocrática ocidental - muito abertamente através de teóricos de H.G. Wells e Aldous Huxley a Bertrand Russel e Zbigniew Brzezinski - tem celebrado a supremacia da "ciência" para justificar sua vontade de poder total. O Estado Mundial tecnocrático, um sonho de louco que ameaça se transmutar em nossa realidade, faria com que o projeto soviético parecesse brincadeira de criança. Kim Philby era sem dúvida um traidor; níveis acima dele, criminosos muito mais pomposos tem engendrado a aniquilação da família, da herança nacional e religiosa, e da própria essência da identidade humana. Aí reside a maior das traições. 

22/02/2014

Mark Hackard - Ucrânia à Beira da Guerra Civil: Sangue no Maidan

por Mark Hackard



A Ucrânia cambaleia à beira de uma guerra civil, e como de costume a mídia ocidental não tem sido de ajuda em lançar luz sobre a situação conforme ela se desenrola. À parte de fotos evocativos de confrontos entre formações legionárias da polícia Berkut e seus duros oponentes nacionalistas na Maidan Nezalezhnosti (Praça da Independência), tudo que podemos esperar da mídia hegemônica é a seguinte narrativa fantasiosa:

* Quando o corrupto presidente ucraniano Viktor Yanukovych rasgou o Acordo de Associação à União Européia que ele deveria assinar em novembro de 2013, "protestos pacíficos" foram lançados por kievenses pró-ocidentais ávidos por um futuro europeu.

* A ira popular apenas se intensificou após Yanukovych concordou com um tratado de cooperação econômica com a Rússia de Vladimir Putin em 17 de dezembro. A oprimida e libertária Ucrânia estava sendo sugada para a órbita sombria de Moscou. Apenas os galantes manifestantes poderiam deter esse processo.

* A batalha por Kiev continua já que o instável regime promulgou leis draconianas limitando a liberdade de reunião em uma tentativa de se manter no poder. A Ucrânia é a nova linha de frente na luta pela democracia, Big Macs geneticamente modificados, e guerra psicológica via Disney e MTV.

Realidades estratégicas, porém, raramente se encaixam no roteiro de um conto moral feito para a TV. A história por trás das cenas concerne um impulso pelos EUA de cortar uma ressurgimento da Rússia onde realmente importa: na Ucrânia.

Comentaristas de política externa americana prefeririam desviar o foco dos fatos que desacreditam sua narrativa preferida; a primeira dessas é a ativação por Washington de um modelo atualizado para pôr em prática um golpe de estado em Kiev. Por mais de uma década agora, o público americano tem sido levado a acreditar que ondas sucessivas de "poder popular" tem emergido para derrubar governantes opressores por toda Eurásia e Oriente Médio, todos os quais apenas por acaso estavam em contradição com interesses americanos. Nada disso foi acidental; de Belgrado e Tblisi a Minsk e Kishinev, a CIA e o Departamento de Estado tem organizado operações de mudança de regime com graus de sucesso variáveis. A "Revolução Laranja" de 2004 do queridinho ocidental Viktor Yuschchenko murchou ignominiosamente, mas a valiosa posição geográfica da Ucrânia e suas fissuras étnicas e culturais a tornaram novamente o alvo de ações de sabotagem americana.

A questão da integração européia somente forneceu um pretexto necessário para iniciar esse último round do Grande Jogo. O que porta-vozes e colunistas de Nova Iorque também omitem em dizer a suas audiências é a natureza da potencial "associação" de Kiev com a União Européia - o país teria se tornado uma colônia econômica de interesses corporativos ocidentais, completa com o esquartejamento da capacidade industrial ucraniana e uma austeridade esmagadora, ordenada pelos bancos, já familiar aos atuais residentes da União Européia. O acordo em si foi originalmente promovido pela elite oligárquica da nação, o verdadeiro poder por trás de qualquer presidência em Kiev. Bruxelas buscava adquirir a Ucrânia barato, oferecendo menos de 1 bilhão de dólares para cobrir suas suas dívidas de mais de 17 bilhões mais os enormes danos que seriam causados à economia ucraniana com a assinatura. A Rússia, em contraste, aprofundou a parceria com seu vizinho designando 15 bilhões de dólares para a dívida ucraniana, formando empresas conjuntas em indústrias pesadas estratégicas e estabelecendo os preços do gás abaixo do valor de mercado.



Desde a declaração oficial de soberania da Ucrânia em 1991, a corrupção de qualquer administração presidencial nunca foi uma questão digna de se debater. Ainda assim Yanukovych e apoiadores fundamentais como Rinat Akhmetov finalmente começaram a compreender que o Acordo de Associação em si seria uma receita garantida de ruína econômica e catástrofe política, mesmo enquanto os oficiais europeus publicamente apresentaram o acordo como a Ucrânia "escolhendo a Europa" ao invés da Rússia. Vendo poucos benefícios tangíveis nesse arranjo obviamente desigual, o regime em Kiev encontrou parceiros de negociação mais amistosos no Kremlin de Putin do que entre tipos como a Chanceler Angela Merkel e a Baronesa Catherine Ashton.

Os principais instrumentos do Ocidente em abalar uma reação russo-ucraniana mais próxima são os grupos de oposição que tomaram Kiev e estão atualmente engajados em combate urbano com a polícia além de tomar capitais regionais. Mas muitos desses "manifestantes", causa célebre hoje entre os tomadores de decisão nos EUA, são na verdade nacionalistas extremos que vem primariamente da Galícia, composta das três províncias no extremo ocidente da Ucrânia. Muitas vezes católicos e previamente sob séculos de governo poloneses e austro-húngaro, os galicianos nutrem uma forte animosidade contra o leste ortodoxo e russófilo e a Criméia.

Os antepassados recentes dos atuais combatentes no Maidan outrora preenchiam as fileiras de toda uma Divisão Waffen-SS, e grupos majoritariamente galicianos como Batkivschyna, "Pátria", e Svoboda, "Liberdade", se veem como promovendo a causa de seus ancestrais por independência nacional do odiado jugo moscovita. É uma quase certeza que Washington está não apenas fornecendo à oposição ucraniana cobertura diplomática vocal (incluindo ameaçar com sanções) e coordenação extensiva e ajuda logística através de um conjunto de ONGs como Freedom House e o NED. Redes de inteligência americana, junto de aliados do MI6, BND e o serviço polonês, muito provavelmente tem estado ativamente apoiando os nacionalistas revoltosos, que são chamados de "manifestantes pacíficos" da mesma maneira que os mercenários jihadistas que destruíram a Líbia e a Síria são "combatentes da liberdade" e partidários do caos são celebrados como "ativistas de direitos". Quaisquer sejam suas aspirações, os ultras são efetivamente tropas de choque em um jogo geopolítico mais amplo.

As terras ao longo do Dnepr e do Don não são apenas o coração histórico da civilização eslava oriental; elas formam o pilar de uma postura de segurança viável da Rússia em relação a Europa. Para uma compreensão adequada dos objetivos da política externa americana na Ucrânia, é válido relembrar a análise de Zbigniew Brzezinski, estrategista emérito das elites financistas internacionais:

"Sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um Império Eurasiano... Porém, se Moscou retomar controle sobre a Ucrânia, com seus 46 milhões de pessoas e grandes recursos bem como seu acesso ao Mar Negro, a Rússia automaticamente recupera os meios necessários para se tornar um poderoso Estado imperial, abarcando Europa e Ásia".

Brzezisnki também fala bastante de suas esperanças para a imposição da democracia liberal sobre a Rússia - indubitavelmente devido a seu afeto filantrópico tremendo pelo povo russo. As únicas coisas que ele consistentemente detesta sobre aquela nação são sua soberania, sua identidade e o Cristianismo Ortodoxo.

É uma Rússia soberana que impede a América governada por banqueiros de realizar plenamente o sonho inumano de um panopticon planetário; portanto Brzezinski e seus acólitos no aparato de segurança nacional dos EUA prepararam seu inimigo para subversão e desmembramento. Comparada ao financiamento extraoficial contínuo pelos EUA de movimentos islâmicos separatistas no Cáucaso, a coreografia de uma revolução na Ucrânia é um método um tanto quanto barato de desestabilizar a periferia sulista da Rússia. Não apenas isso lançaria sombra sobre as Olimpíadas de Sochi, como também causaria caos sobre grandes projetos energéticos como o South Stream. Como em Kosovo, lançar o caos acompanhado de retórica liberal-humanitária pode fornecer uma desculpa pronta para a introdução de forças da OTAN na região.

Após o sucesso de Putin em 2013 de impedir um ataque contra a Síria e fortalecer a posição do Kremlin no Mediterrâneo Oriental, Washington está agora canalizando seus esforços para solapar qualquer consolidação do poder russo na Eurásia. Sua grande oportunidade está em explorar os cismas que abalam a sociedade ucraniana para instalar outro governo pró-ocidental em Kiev e preparar o palco para uma presença militar americana apenas centenas de quilômetros de Moscou. Porém a Rússia parece apreciar as lições que aprendeu da Revolução Laranja da década passada e não está no humor para tolerar certas noções.

Com a esperança de evitar uma guerra civil, existe na Ucrânia a distinta possibilidade de uma partição futura que veria o leste industrial e o litoral do Mar Negro sob proteção russa enquanto os ocidentais preencheriam seu destino europeu. Então que os ultras galicianos sejam festejados por seus benfeitores com paradas em Paris, Londres e Berlim; diplomatas americanos e os eurocratas dificilmente saberão o que os atingiu.