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09/01/2015

Christopher Pankhurst - "Je Ne Suis Pas Charlie"

por Christopher Pankhurst



Assim como praticamente todo mundo que está comentando sobre o massacre no Charlie Hebdo eu não sabia praticamente nada sobre essa publicação salvo pela publicidade que ela recebeu subsequentemente. Do que eu pude ver ela parecer se especializar em charges satíricas de uma variedade grosseira e não muito engraçada. Apesar do fato de que eu me oporia à maioria de suas perspectivas editoriais eu ainda acho que o que aconteceu no dia 7 de janeiro em Paris é bastante triste. Mas então já havia alguma coisa triste sobre uma revista publicada por esquerdistas idosos que se percebiam como parte da vanguarda do radicalismo político.

Outro cartunista do sistema com ilusões similares de um status de dissidente é Steve Bell do The Guardian. Sua resposta ao massacre foi desenhar os assassinos vestindo roupas bobas e perguntando, "Por que os idiotas ainda riem de nós?". Ninguém está rindo, Steve. Eu suponho que isso possa provocar uns risos de uma criança de cinco anos que ainda ache palhaços engraçados, mas o fato é que não há nada especialmente digno ou elogiável sobre esse tipo de caricatura em particular. Se ele deixa de ser engraçado, então começa a ser um exercício em uma triste frustração.

Talvez eu não esteja entendendo muito bem as coisas. Eu até gosto de Calvin & Hobbes, e minha exposição enquanto criança à obra de Charles Schultz me deu uma profundidade de compreensão filosófica que eu jamais fui capaz de recapturar quando adulto. Desenhos que escarrancham o vácuo entre a inocência e a experiência podem evocar um senso blakeano do paraíso perdido da infância, e momentaneamente fornecer alívio do stress da vida quotidiana. Os cartoons do Charlie Hebdo, em contraste, parecem incorporar os piores aspectos da infância, sendo pueris, ofensivos e ressentidos. 

É claro, muitos levantarão a objeção de que meu gosto pessoal em cartoons é irrelevante; que o importante é que devemos todos nos solidarizar com o Charlie Hebdo diante desse ataque brutal a nossas liberdades. Mas eu considero essa posição como profundamente falha. Primeiramente, eu questionaria a natureza da "liberdade" que está sendo defendida. Como outros já apontaram, não há absolutamente nenhuma liberdade de expressão na Europa para aqueles que querem dizer algo radicalmente divergente da narrativa multicultural dominante. Isso é verdadeiro tanto para muçulmanos quanto para a direita radical. A liberdade de expressão que aqueles que adotaram o slogan "Je suis Charlie" advogam é a liberdade para um milieu esquerdista amplo que apoia o multiculturalismo, e não para as opiniões dissidentes.

Em segundo lugar, eu discordo da visão de mundo proposta pelo Charlie Hebdo e sua gente. Alguns poderiam ver isso como sendo de pouca visão diante da verdadeiramente real ameaça islâmica. Mas eu diria que é a construção de falsas alianças que é de visão curta. A equipe do Charlie Hebdo e o milieu esquerdista geral jamais apoiaram ninguém da direita dissidente que tenha sido preso por suas opiniões e eles não começarão a apoiá-los agora. Essa não é uma discordância menor dentro de uma igreja ampla. Eu discordava da política do Charlie Hebdo antes de 7 de janeiro, e eu ainda discordo dela agora. Eu não vou alterar minha visão de mundo em resposta aos assassinatos.

Em terceiro lugar, eu não apoio a publicação de material criado deliberadamente para ofender as sensibilidades religiosas das pessoas. Talvez eu deva acrescentar rapidamente que eu não apoio a censura desse material, nem o assassinato dos responsáveis por ele. Mas também não posso aceitar a elevação desse tipo de material à epitome da civilização ocidental. Ouvindo nossos políticos falando dá até para pensar que a provocação crua da parte mais íntima da religião islâmica é a culminação para a qual a cultura ocidental tem evoluído por dois milênios. Vamos ignorar o fato de que Nick Griffin foi julgado, e completamente condenado por todos os políticos do sistema, por dizer coisas relativamente singelas em comparação ao que era publicado pelo Charlie Hebdo. A hipocrisia é notável, mas não muito surpreendente. Mas essa é a diferença entre a liberdade de expressão de esquerda e a liberdade de expressão de direita. Eles nunca farão uma distinção explícita, mas ela está lá para quem procurar por ela.

Alguns sugeriram que os cartunistas do Charlie Hebdo deveriam ser admirados por sua coragem e eu concordaria com isso. Suas ações parecem ter sido pensadas para provocar os muçulmanos e eles sabiam que esse era um caminho perigoso. Eles certamente mostraram coragem nesse sentido. Mas a qualidade mais admirável é a coragem combinada com sabedoria, e o Charlie Hebdo certamente carecia dessa qualidade. Seu senso de radicalismo consistia em um "foda-se" vazio dirigido a um sistema que já se havia degenerado logo após o 68. É o radicalismo da geração Monty Python, eternamente dando tapinhas nas próprias costas por uma iconoclastia que já estava ultrapassada há uns anos.

Os esquerdistas e multiculturalistas que estão agora tão determinados em proteger valores burgueses como a "liberdade de ofender" viraram suas costas à juventude trabalhadora da Europa há muito tempo atrás. Suas prioridades são claras. Ao invés de confrontarem a difícil tarefa de construir um futuro para sua juventude eles preferem jogar jogos tolos e irresponsáveis, lançando para todo lado a única citação de Voltaire que conhecem em um pique de narcisismo prepotente. Tudo isso tem menos que ver com idéias nobres de liberdade do que com a auto-indulgência de uma elite entediada. A juventude trabalhadora da Europa tem questões mais urgentes para lidar, como o caso de Rotherham (só para dar um exemplo) demonstrou.

Eu não posso me unir ao clamor de afirmar "je suis Charlie" porque eu penso que tal posição é esquizofrênica. Os apoiadores da liberdade de expressão apoiam esse direito para aqueles que defendem o multiculturalismo, mas eles apoiam prisão e censura para aqueles que se opõem. E em busca dessa falsa liberdade de expressão se espera que todos apoiemos a rudeza pueril dirigida àqueles cuja integração dentro do multiculturalismo está se provando a mais difícil. É como se os multiculturalistas na verdade, lá no fundo, não acreditassem na própria retórica, e desejassem solapar seu próprio projeto por meio de um ato petulante, ainda que reprimido, de provocação infantil. Isso é literalmente insano. Je ne suis pas Charlie. 

17/03/2012

Kony 2012 & Guerra de Quinta Geração

por Christopher Pankhurst



A campanha viral Kony 2012 gerou uma enorme quantidade de interesse. O vídeo postado no Youtube foi visto mais de 70 milhões de vezes em menos de uma semana.

O vídeo trata de Joseph Kony, o líder do Exército de Resistência do Senhor (LRA), uma milícia ugandense notória por seu sequestro de crianças que são então treinadas como soldados ou escravas sexuais. A ONG Invisible Children lançou o filme Kony 2012 em 5 de março com o objetivo de publicizar seus crimes e encorajar protestos. Eles esperam garantir sua prisão antes do fim de 2012.

A campanha Kony 2012 já conseguiu um sucesso massivo em gerar uma enorme publicidade. Ela efetivamente utilizou e ampliou as técnicas existentes de conexão social e campanha viral. E ela também tem sido criticada por neocolonialismo. Mas há outras questões relativas à campanha Kony 2012 sobre as quais nós deveríamos refletir. Essas questões tem relação com as tecnologias emergentes de Guerra de Quinta Geração. Seria Kony 2012 uma operação de guerra de quinta geração?

O modelo de guerra de quinta geração teve sua gênese em um artigo publicado na Marine Corps Gazette em 1989 entitulada "A Face Mutante da Guerra: Em Direção à Quarta Geração". Nesse artigo, Lind e companhia desenvolveram um modelo de guerra moderna descrito em termos de quatro gerações de desenvolvimento evolutivo. A primeira geração da guerra moderna era caracterizada pelo uso de linha e coluna, e de mosquetes. Essa geração foi exemplificada nas guerras napoleônicas. A segunda geração utilizou uma tecnologia mais impiedosa, como metralhadoras e rifles, e era taticamente mais móvel. A Primeira Guerra Mundial representa o ápice da guerra de segunda geração. A terceira geração foi o modelo dominante para a maior parte do resto do século XX. Ela tentou ultrapassar a linha de frente do inimigo através de infiltração e movimento rápido, e novamente utilizou tecnologias mais mortíferas como tanques. Ela é caracterizada pela blitzkrieg.

O artigo então defende que uma quarta geração da guerra estava emergindo. A quarta geração da guerra "provavelmente será amplamente dispersa e pouco definida; a distinção entre e guerra e paz será relativizada até o ponto da anulação. Ela será não-linear, possivelmente ao ponto de não ter campos de batalha ou frontes definidos. A distinção entre 'civil' e 'combatente' pode desaparecer". Operativos da guerra de quarta geração não serão necessariamente identificáveis como combatentes; ao invés eles se misturarão com a sociedade do inimigo até o momento de atacar. Obviamente, os ataques de 11/09 se encaixam muito bem nesse modelo.

Desde a publicação de "A Face Mutante da Guerra" tem havido tentativas de atualizar o modelo generacional para incluir uma quinta geração. Na guerra de quinta geração, o campo de batalha engloba a totalidade das esferas social, política, ideológica, científica, econômica e militar. É possível, e em muitos sentidos desejável, que os combatentes da guerra de quinta geração não saibam quem eles estão lutando, ou nem mesmo que eles estão lutando. Espera-se que todo o arsenal das tecnologicas NBIC (Nano-Bio-Info-Cogno) seja utilizado na guerra de quinta geração, ainda que de modos extremamente imprevisíveis, e talvez até invisíveis. Uma característica marcante da guerra de quinta geração é a manipulação do contexto dos observadores do conflito. Ao invés de focar na derrota física do inimigo, a guerra de quinta geração reconhece o potencial para que novas tecnologias manipulem os sistemas de crença dos observadores que podem apoiar ou se opôr ao conflito.



É possível que Kony 2012 esteja sendo utilizado, talvez mesmo sem o conhecimento da ONG Invisible Children, para realizar uma operação de guerra de quinta geração? Há fortes razões para suspeitar que este pode ser o caso.

Uma das armas mais potentes dessa campanha viral é a mira focalizada sobre "formadores de opinião" e "elaboradores de políticas" que podem ser contatados diretamente através de uma astuta interface na mesma página do vídeo. O propósito desse contato é manter a campanha no foco da mídia através dos formadores de opinião, e forçar os elaboradores de políticas a manter a uma presença americana na África Central. Como é afirmado no vídeo, Obama autorizou o envio de 100 "consultores americanos" à África Central para ajudar na caçada por Kony. "Foi a primeira vez na história que os EUA tomaram essa decisão porque o povo demandou. Não por autodefesa mais porque era certo". Ou, talvez, por causa do petróleo.

A descoberta de petróleo no Rifte de Albertina na Uganda, pode, para os de mentalidade mais cínica, oferecer uma excelente razão para o envio de forças americanas à Uganda. É certamente esperado que ela leve a um conflito, e um possível resultado pode ser visto olhando-se para os campos de petróleo da Nigéria.

O rico Delta do Níger ten sido cenário da possivelmente mais bem sucedida campanha de guerra de quinta geração da última década. Henry Okah tem sido lembrado como "uma das pessoas mais importantes vivas hoje, um brilhante inovador na guerra. Um verdadeiro guerrilheiro global". Ele é o cérebro por trás do Movimento pela Emancipação do Delta do Níger (MEND), uma organização dedicada a reter uma maior quantidade de petróleo para os nigerianos. Na busca por este objetivo, o MEND tem sabotado campos de petróleo, roubado petróleo, e tomado funcionários de petrolíferas como reféns. Essas ações todas objetivam tornam mais difícil para a Shell continuar suas operações no Delta. O MEND conseguiu reduzir em 29 bilhões de dólares a produção de petróleo da Shell.

O financiamento do MEND é minúsculo em comparação, já que ele opera como um ator de guerra de quinta geração. Mercenários são contratados por SMS para trabalhos específicos, assim a filiação é nebulosa. A publicidade para os ataques do MEND é gerada através de e-mails para redes de notícia clamando responsabilidade; mas a organização em si permanece invisível. Esse tipo de perturbação do sistema é facilmente copiada por seguidores simpáticos, assim a prisão de Okah (em 2008) não levou ao fim do MEND. Ao invés, Okah forneceu um modelo de guerra de quinta geração que permite que grupos outrora desconectados realizem ações em nome do MEND.

Quer a América faminta por petróleo estivesse vendo Kony como um possível imitador das táticas de Okah ou não, é irrelevante. Removê-lo em todo caso servirá ao motivo tático oculto de estabelecer uma presença militar na Uganda. Essa intervenção deveria, a primeira vista, ter sido extremamente impopular. Os americanos perderam a maior parte de seu apetite por intervenções estrangeiras, e os oponentes mais vocais são normalmente jovens estudantes universitários. Se há um componente oculto de guerra de quinta geração em Kony 2012 ele é primariamente dirigido a mobilizar jovens esquerdistas anti-imperialistas para forçar o governo americano a relutantemente intervir em um conflito estrangeiro.

Ao invés do modelo familiar de intervenção ocorrer e se arrastar apesar do inevitável atrito com a opinião pública, a ONG Invisible Children forneceu um modelo alternativo através do qual a intervenção se torna primeiro uma questão não-governamental, moral. Como o vídeo afirma, "porque nós não podíamos esperar para que instituições ou governos se posicionassem nós agimos por contra própria, com nosso tempo, talento e dinheiro". Ao desempenhar o papel de filantropos humanitários e apartidários, a Invisible Children tem sido capaz de angariar um enorme apoio para suas ações, e parece um pequeno passo para então pressionar o governo para que forneça alguns "consultores" para auxiliar em sua boa obra. Ao usar as tecnologias emergentes de redes sociais e campanha viral tem sido possível alcançar o amálgama perfeito entre sentimento de protesto anti-belicista e intervencionismo americano.

Eu suspeito que as pessoas que comandam a ONG Invisible Children não sejam senão decentes. Como afirmado antes, é parte do modelo de guerra de quinta geração que os atores en conflito possam não perceber que estão engajados. Enquanto eu estou disposto a dar o benefício da dúvida à Invisible Children, eu não sou estúpido o bastante para estender a mesma cortesia ao governo americano.

O deslocamento de militares americanos para um país no qual acabou de se descobrir petróleo não é mera coincidência. O que nós estamos testemunhando é a manipulação do "protesto" de modo a ocultar intenções políticas estrangeiras. O governo americano pode afirmar bem honestamente que ele foi forçado a intervir na Uganda graças a um apoio popular sem precedentes. O sucesso da campanha Kony 2012 sugere que essa será uma área de crescente interesse para as forças armadas americanas. Eu não finjo saber como que essa operação de guerra de quinta geração misturou-se com a ONG Invisible Children mas eu não tenho dúvidas de que foi isso o que ocorreu. Quando nós perguntamos "quem lucra?" nós normalmente encontramos o culpado.




24/11/2011

A Música do Futuro

por Christopher Pankhurst

Um interregnum é um tempo de máxima possibilidade. Aprumados como estamos entre o fim da velha cultura europeia e a possibilidade de uma nova e renascida cultura europeia é útil refletir um pouco sobre a direção que nossa nova cultura deve tomar.

Que a velha cultura morreu será óbvio para qualquer um que tenha alguma sensibilidade para tais questões. A grande tradição musical que alcançou seu ápice com Bach, e que subsequentemente buscou expressão através do gênio individual de Beethoven e Schubert, teve sua marcha fúnebre nas Metamorphosen de Strauss. Essa obra intensamente triste para cordas evocava a grandeza destruída das casas de ópera alemães em que Strauss teve tantos sucessos, e que, como a própria tradição musical, estavam em ruínas na década de 40. Atonalidade, serialismo, jazz, todas passeavam arrogantemente e em certo sentido vingativamente sobre a tuma da tradição ocidental. Agora, na segunda década do século XXI, a feiúra tornou-se tão onipresente que nós estamos em risco de esquecer o que torna a beleza digna em primeiro lugar.



A tradição musical europeia era tão grandiosa, tão intensamente bela, que alguns apoiadores da cultura europeia querem reviver o cadáver e fazê-lo, como um zumbi demente, reviver seus maiores sucessos. Nós devemos ser claros em reconhecer que não importa quão sublime a música de nossa cultura passada foi, ela agora pertence a uma cultura que morreu. Não importa quão triste possa ser pensar que essa grande tradição jamais cantará novamente, nós não devemos ser indevidamente sentimentais no que concerne tais questões. Tudo morre, e nossa velha cultura europeia não é exceção.

Isso não quer dizer que devamos deixar de reconhecer a grandeza de nossa tradição. Ao contrário, nós devemos honrar nossos ancestrais falecidos e aprender com eles. O que não podemos suportar é qualquer engajamento em uma verborragia inútil de ressurreição cultural. Não haverá retorno da velha tradição musical europeia. Uma insistência doentia na superioridade da cultura defunda sobre todas as formas presentes resulta em um tipo de necrofilia cultural, e tende ao tipo de enervação cultura que está sendo explícitamente resistida. Resumidamente, é algo fútil.

Não houve uma gênese única para nossa cultura musical, mas o Concílio de Trento (1545-1653) é às vezes tomado como sendo a parteira do contraponto. Nessa conferência eclesiástica a questão do contraponto foi discutida. A questão era controversa porque era sentido por alguns que o contraponto estava sendo utilizado para mera ornamentação, com valor de entretenimento. Enquanto o cantochão permitia clareza completa nas linhas vocais da escritura, o contraponto tendia (assim argumentava-se) a obscurecer o texto pelo emprego de técnicas musicais elaboradas que demandavam adulação por si mesmas. A música era feita para ser um mero veículo da adoração a Deus. Lendas relatam que o compositor Palestrina persuadiu o Concílio dos méritos do contraponto compondo uma missa que utilizava essa técnica de modo tão belo que eles aceitaram sua aplicação como uma arte adequada à adoração.

Em todo caso, o contraponto, ou polifonia, veio a ser o modo quintessencialmente europeu de expressão em forma musical. Enquanto o resultado do Concílio permitiu ao gênio de Bach emergir em toda sua glória ele também, inadvertidamente e tortuosamente, levou à atual degeneração da música. Por que? Porque a decisão do Concílio inaugurou a possibilidade da composição musicial poder existir por conta própria, apartada da busca do numinoso.

O propósito de toda arte Tradicional é encontrar expressão para a apreensão numinosa, recriar o inefável através de um simulacro simbólico. Tão logo este imperativo retire-se da função criativa os apetites e desejos do homem tornam-se uma matéria válida para a expressão artística. O resultado final de tal processo, inevitavelmente, é o tipo de egoísmo degenerado mascarada como arte que nós vemos em todo lugar no Ocidente hoje.

Esse declínio de uma arte numinosa a uma arte pessoal pode ser mapeado de diversas formas mas, para o século XX, a emergência de numerosos modismos avant garde na música clássica é um bom exemplo. Para a maioria das pessoas, atonalidade, serialismo, et al., parecem ser demasiado desprovidas de alma. Essa opinião do senso comum possui uma grande medida de verdade, na medida em que essas formas musicais tentam elevar um senso de novidade e esperteza intelectual a uma posição que demanda adoração.

Aqui, talvez seja sábio ter em mente a origem da palavra 'cultura' no latim colere. Colere significa "habitar" daí a palavra "colônia" também derivada. "Cultivo", como na agricultura, é outra palavra derivada de colere, que então assume o sentido adicional de respeito e adoração, de onde "culto" desenvolve-se. Esse exercício etimológico é necessário porque alerta-nos para o fato de que a cultura era tradicionalmente relacionada ao respeito pela própria terra.

Dessa posição a importância da arte folclórica torna-se clara. Dessa arte folclórica é possível desenvolver uma cultura superior que esteja preocupada com a adoração do numinoso, mas é essencial notar que essa forma de adoração do numinoso cresce a partir de uma comunidade popular, enraizada. Dentro desse modelo de arte Tradicional não há lugar para arte "nova" ou "esperta". Adorar a própria soberba é mediocrizar o que significa ser humano.

Defensores da cultura europeia podem, como resultado de seu declínio, parecer estarem remontando dias de glória que nunca realmente existiram (ao menos não do modo em que imaginamos hoje). Esse conservadorismo cultural nunca pode ser realmente bem sucedido porque a cultura, mesmo enquanto retenha fidelidade à tradição perene, deve ser uma foma de vida dinâmica. O espírito que cria arte grande e duradoura é o mesmo espírito que é encontrado nos campos de batalha, ou na dor altruísta da mãe em trabalho de parto, mas não no espírito de um curador de museu. Esse espírito (se aceitarmos que o numinoso encontra expressão através do homem ao invés do oposto) buscará articulação em formas vitais, viventes, e não necessariamente respeitará nossas noções de gosto.



Ouça "Das Wirthaus" do Winterreise de Schubert, e então "Whilst the Night Rejoices Profound and Still", do Soft Black Stars do Current 93. Eu sugeriria que o tom aguda tristeza que permeia ambas canções brota da mesma fonte. Sugerir que uma é um clássico do cânon ocidental e condenar a outra ao status de Entartete Musik trai uma atitude que é cegada pela santimônia da anti-modernidade. Apenas o mais decidado taxonomista da arte europeia seria capaz de discernir qualquer distinção significativa entre as duas peças musicais. Em verdade, considerando que Schubert estava criando o molde para a canção pop moderna (curta, lírica, a emoção em primeiro plano, etc.) e que David Tibet está ativamente buscando uma forma de expressão mais profunda e espiritual, poder-se-ia dizer que Tibet é um exemplar maior de cultura europeia. Heresia para aficionados, sem dúvida, mas o que mais além de esnobismo sustenta sua opinião?


A perspectiva de Oswald Spengler será pertinente aqui. Em Declínio do Ocidente ele compara a Dies Irae cristã com a Völuspá pagã e encontra, "a mesma vontade determinada de superar e romper todas as resistências do visível". (1) Em nossa arte europeia encontra-se de tempos em tempos o mesmo espírito faustiano manifestando-se de várias formas superficialmente distintas. Como Odin, esse espírito vaga incansavelmente, envergando e descartando máscaras conforme sua conveniência. A tarefa importante para nós é discernir a verdadeira essência dentro da forma. No momento presente de nossa cultura esse espírito não é encontrado no mundo da música clássica.

Ao longo do século XX, é verdade, houve algumas obras musicais importante, até mesmo numinosas, criadas na tradição musical clássica. Pode-se considerar Ligeti, Messiaen, Pärt, et al. Mas essas obras tendem cada vez mais a serem criadas por gênios individuais excêntricos capazes de criar arte apesar da cultura, e não por causa dela.

A Tradição musical europeia costumava ser sinônima com música sacra, e enquanto tal estava firmemente ligada ao objetivo de presenciar o numinoso. Este era um projeto apoiado e financiado pelos poderosos das sociedades europeias. A arte elevou-se como um imperativo orgânico, articulando a alma do Ocidente em um nível superior.

Hoje não há uma única cultura europeia em existência em qualquer lugar no mundo. Consequentemente, o tipo de arte que surgiu de culturas passadas do Ocidente não é mais possível. Não há em lugar algum uma cultura europeia superior baseada em comunidades locais homogêneas pequenas, unidas por observâncias sagradas compartilhadas. Sem a existência de tal cultura, não pode haver continuação da corrente artística do passado.

Análogo ao desenvolvimenti e declínio da tradição musical é o declínio de nossa tradição literária. À época de Shakespeare, a literatura inglesa ainda era baseada em certas formas tradicionais autênticas (Hamlet, afinal, era originalmente uma saga germânica), mas a decadência de um cosmopolitanismo sofisticado já estava em evidência. Quando Macbeth lamenta que ,"Os multitudinosos mares encarnadinos/Fazendo do verde um vermelho", a supérflua segunda linha é simplsmente um eco elegante dos neologismos estrangeiros na primeira. Essa capacidade voraz de roubar palavras estrangeiras é uma das razões da eloquência de Shakespeare, mas também significava que a poesia já estava apelando aos desejos estéticos do homem ao invés de servir ao grande imperativo de santificar suas qualidades superiores. A tradição literária mais antiga, como evidenciada nos Eddas, nas Sagas, e nos poemas de batalha, buscavam tornar os feitos do homem sagrados imortalizando o heróico e santificando sua emulação.

Por volta da época de Wordsworth o declínio da literatura era tão preocupante que ele e Coleridge tentaram revive-la apresentando uma nova forma de balada poética. Eles tentaram descargar a retórica ornamentada e de corosa que havia tornad-se tão popular na poesia, e retornaram a uma tradução mais simples, quase campesina. As mais espiritualmente inclinadas Songs of Innocence and Experience de William Blake também tentaram um uso mais simples do inglês. Uma ação de retaguarda similar foi efetivada no século XX quando T.S. Eliot tentou reinventar a literatura através da utilização de diferentes registros discursivos e da justaposição de perspectivas distintas. O circo da pós-modernidade foi a recompensa por seus esforços.

A fasa do ciclo cultural que nós agora alcançamos é talvez a mais excitante de todas, já que contém a maior possibilidade. As estruturas de poder moribundas do Ocidente estão desabando ao nosso redor. O espírito faustiano do Ocidente não olhará para essas estruturas desprovidas de alma para sua manifestação, mas ao invés para formas novas, emergentes. Essas podem aparecer no mundo pretensioso da arte hermética ou, igualmente, em formas bem mais populares. O que é importante não é a pretensão de esnobismo, baseada em um gosto supostamente "refinado", mas a essência interna da forma da arte independentemente de seus meios de aparência. Coomaraswamy define bem a questão:

"A distinção não é tanto uma de cultura aristocrática em relação a cultura campesina quanto uma de culturas aristocráticas e campesinas em relação a culturas burguesas e proletárias...Um tradicional não deve confundir-se com uma arte acadêmica ou meramente ornamental; a tradição não é uma mera fixação estilística, nem meramente uma questão de sufrágio geral. Uma arte tradicional possui finalidades fixas e meios certificados de operação, tem sido transmitida em sucessão papilar desde um passado imemorial, e retem seus valores mesmo quando, como no presente, saiu de moda. As artes hieráticas e folclóricas são ambas tradicionais... Uma arte acadêmica, por outro lado, não importa quão grande seja seu prestígio, e quão elegante ela possa ser, pode muito bem e geralmente é de um tipo sentimental, profano, pessoal, e anti-tradicional". (2)

Como Coomaraswamy indica tanto em sua obra, são frequentemente as classes inferiores que são mais hábeis em preservar os ensinamentos Tradicionais porque elas são menos suscetíveis aos encantos do cosmopolitanismo sofisticado do que seus compatriotas mais afluentes. Essa opinião é bastante contra-intuitiva para muitos que percebem as classes mais educadas como sendo os melhores exemplares de cultura. É verdade que quando uma cultura está em seu ápice de realização seus frutos vem da elite. Mas quando essa elite apoia uma cultura degenerada, expressa através do materialismo, do hedonismo, e do egoísmo, nós devemos olhar para outras, talvez desprezadas, formas de expressão artística para encontrar algo que seja mais autenticamente europeu.

Se a roda há de virar uma vez mais e a cultura europeia há de experimentar uma nova fase de criação isso será possível apenas com a criação de novos tipos de sociedade que desprezem as pressuposições materialistas, globalistas, e autoritárias do tempo presente. Tais sociedades devem ser baseadas em comunidades menores, mais rurais, mais auto-suficientes. A vacuidade da cultura moderna é uma consequência de modos enervantes de vida que promovem ideologias abstratas, e relacionamentos virtuais, tudo sob a ordem do capital e do desgaste do numinoso. A arte Tradicional erguer-se-á apenas (à parte de ocasionais indivíduos de gênio) a partir de comunidades menores baseadas em relações sociais mais pessoais, e em uma compreensão mais autêntica da terra e da passagem das estações. Apenas em tais circunstâncias pode um novo (e ainda assim imemorialmente antigo) entendimento numinoso surgir.

Nesse momento nós devíamos estar buscando a formação de agrupamentos ao estilo Männerbund que garantam o ethos guerreiro necessário para a formação de tais comunidades. Esses agrupamentos são prováveis de serem formados em claques subculturais um tanto rebeldes, uma das quais já vimos na cena Black Metal. A cena Black Metal norueguesa foi demonstrada, em um livreto pelo escrito austríaco Kadmon (3), como sendo uma remanifestação inconsciente da Oskorei, a Caçada Selvagem.

Na Noruega, em tempos pagãos, grupos cúlticos de homens jovens solteiros cavalgavam com selvageria pela sua área local à época do Solstício de Inverno. Em comum com suas contrapartes posteriores no Black Metal eles vestiam-se como cadáveres, cometiam atos de incêndio premeditado, e fazia uma grande cacofonia. A relevância disso para a continuação da Tradição Musical europeia não será compreendida para muitos, mas o elemento-chave é que os músicos do Black Metal estavam restaurando um equilíbrio natural para o que havia tornado-se doentio. Os antigos grupos cúlticos ao estilo Männerbund não estavam simplesmente causando caos pelo caos. Eles possuíam uma função sagrada, e operando no Solstício de Inverno eles eram um contraponto "escuro" às celebrações de fertilidade "claras" da Primavera. Ambos são necessários para que o equilíbrio seja mantido.

Eu não estou tentando sugerir que o Black Metal é necessariamente o tipo de música que todos deveriam ouvir ainda que algumas faixas, tais como "Det Som Engang Var" do Burzum, possuam uma inegável beleza austera. Ao invés eu estou preocupado com o reconhecimento da manifestação do espírito numinoso faustiano do Ocidente independentemente de como esteja mascarado. Mais prosaicamente, nós seremos comovidos apenas por aquilo que fala efetivamente a nós. Sem dúvida é verdade que a tradição clássica representa a mais eloquente expressão da música europeia, mas a voz mais eloquente não é sempre a única que comover-nos-á mais urgentemente.


Na ausência de uma cultura funcional europeia as manifestações autênticas do espírito ocidental erguer-se-ão às margens da cultura. Quer seja no Black Metal, na música folk, no neofolk, ou em algo ainda por emergir, a questão importante é se estes grupos subculturais mantem uma conexão com a essência numinosa do espírito europeu. O fato de que há tanta estética pagã e ocultista nos gêneros supramencionados é causa para celebração já que demonstra uma preocupação em expressar uma visão-de-mundo autenticamente europeia e numinosa.

Se as novas formulações musicais expressadas através do black metal, do neofolk, ou do que seja são "melhores" ou "piores" que os clássicos do cânon europeu precedente é uma questão irrelevante. Talvez essas formas modernas sejam menos realizadas e menos musicalmente articuladas do que as formas precedentes. Mas a questão é que, na ausência de formas contemporâneas, autenticamente europeias, de expressão no idioma clássico, a existência dessas expressões populares do espírito faustiano deveria ser celebrada sem reservas. Não importa quão juvenis eles possam ser enquanto gêneros musicais (e aqui eu uso o termo "juvenil" apenas como um ponto de comparação musical com a tradição clássica - estes músicas não são pueris) permanece verdadeiro que um grande carvalho crescerá apenas de uma noz, e não de um galho caído.

Desde a Renascença o deus Orfeu tem sido uma figura arquetípica para a música europeia. Seu era o poder de enfeitiçar a natureza à submissão através de sua arte, um atributo assaz faustiano. Quando a mulher de Orfeu, Eurídice, morreu Orfeu viajou ao submundo e pela majestade de sua música persuadiu Hades e Perséfone a permitirem que Eurídice acompanhassem ele para casa, assim desafiando a morte. Os deuses do submundo estabelecem uma condição: que Orfeu não olhe para trás. Conforme Orfeu emerge vai emergindo do submindo ele é acometido de anseio por Eurídice e vira-se para olhar para ela, mas ela não havia ainda seguido para a Terra, então ela foi arrastada de volta, dessa vez para nunca mais voltar. Essa história é salutar para todos aqueles preocupados com o futuro da cultura europeia.