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30/10/2011

O Mito e a Vanguarda

Por Adriano Scianca


O problema da linguagem

Todo movimento autenticamente revolucionário – isto é, portador de projetos radicalmente inovadores e originais a tudo aquilo que se experimentou e em tudo e por tudo heterogêneo e alternativo com respeito ao mundo sócio-político no qual irrompe – inevitavelmente se choca com o problema da linguagem.

Isto acontece porque todo movimento “novo” deve necessariamente fazer uso de uma linguagem “velha”, impregnada da sensibilidade e da lógica própria do mundo ao qual se queria subverter. Além disso, não poderia acontecer de outra forma: a linguagem é sempre a linguagem recebida. Observa com lucidez um filósofo contemporâneo – embora muito distante de nossa perspectiva – que “um sujeito que fosse a origem absoluta do próprio discurso e o construísse “em todas as suas peças”, seria o criador do verbo, o Verbo em pessoa” [1], seria, portanto, o Deus da Bíblia que cria ex nihilo, sendo o “totalmente outro” a respeito do mundo, estando então fora da história e da linguagem. O homem, em troca, encontra-se sempre na linguagem; uma obra de engenharia lingüística lhe resulta completamente impossível, já que sempre deve atuar com os “instrumentos” que encontra em seu lugar. Mas atuar com “instrumentos” pensados para finalidades completamente distintas a respeito das quais se propôs nem sempre é cômodo.

Pensemos em Heidegger – mas problemas análogos já se apresentam em Nietzsche –, que deixa inacabada sua obra prima, Ser e Tempo, porque carece de uma linguagem apropriada; em certo momento ao pensador alemão “lhe faltavam as palavras”, já que todas aquelas disponíveis estão irremediavelmente empapadas da visão de mundo dominante no Ocidente. Mas para que o problema aqui abordado não resulte excessivamente abstrato e individualista, pensemos também em todos aqueles movimentos políticos e culturais que passaram à história com o nome de Konservative Revolution: observando aos slogans, aos lemas, aos títulos dos livros, aos nomes dos distintos grupos, não se pode mais do que perceber certo gosto pelo oximoro, pelo paradoxo, pela violação aberta dos cânones e dos esquemas comuns; pensar em um socialismo que seja também nacional, em uma aristocracia que funda suas raízes no povo, em uma democracia desvinculada da tutela do liberalismo plutocrático, em um cristianismo que afirme valores germânicos (isto é, pagãos) – tudo isto possui origens de muitíssima maior profundidade do que uma simples ânsia por originalidade.

Por detrás de tudo isso se encontra melhor exposta a incapacidade de definir-se a si mesmo de maneira adequada através da linguagem dominante e há, portanto, uma vontade de síntese, uma tentativa de pensar de forma simultânea o que sempre se concebeu como distinto. Um exemplo a mais, porém desta vez mais concreto: pensemos em nós mesmos; ponhamo-nos em relação aos grandes temas da atualidade e tratemos de tomar parte no debata tal e como nos vem apresentado pelos meios de comunicação.

E bem, estamos com a retórica angelical, enjoativa, igualitária e hipócrita dos pacifistas, ou com a cruzada feita a base de bible & business de George W. Bush? Estamos contra os bárbaros imigrantes islâmicos em nome do Ocidente cristão ou somos filo-imigracionistas intransigentes, seguidores do cosmopolitismo e da mestiçagem étno-cultural? Estamos na corrida desenfreada de “desenvolvimento” neoliberal, ou a favor do “retorno” a uma civilização neopastoral, fora da história, ao estilo das últimas tribos africanas? De maneira mais banal: somos de direita ou de esquerda? Estas são as alternativas que nos propõe o mundo contemporâneo. Nosso desconforto ante estas é evidente, já que a posição que deve ser tomada nos parece sempre uma terceira a respeito das quais nos são dadas. Isto acontece na medida em que somos realmente revolucionários, utilizamos uma linguagem diferente. A linguagem do mito.

O mito

Segundo Giorgio Locchi [2], todo movimento que encarne uma tendência histórica nova se apresenta sob uma forma mítica. O mito, precisamente pelo fato de ser “novo” não pode falar uma linguagem totalmente in-formada por valores a ele antiéticos e, todavia, não possui outras formas expressivas a sua disposição; por isso, nasce sob o signo da ambigüidade, sua expressão é o paradoxo.

A respeito dos códigos lingüísticos dominantes, a expressão mítica aparece como heresia, como transgressão, como unidade dos opostos. Isto acontece precisamente em virtude da violação – mais ou menos consciente – da dialética da linguagem utilizada. A linguagem que se parasita se desenvolve e articula-se, de fato, mediante a instituição de pares de opostos e de contrários – que, no caso do igualitarismo são, entre outras, cristianismo/ateísmo, comunismo/capitalismo, nacionalismo/internacionalismo, direita/esquerda, individualismo/coletivismo, reação/progresso, etc. – que refletem a auto-reflexão ideológica do universo político-cultural imperante. A expressão mítica faz um curto-circuito nesta dialética ao não pensar nos contrários como tais. As palavras fundamentais são, por tanto, “falsificadas”. Significados novos são derramados em significantes velhos. Têm-se assim um uso instrumental da linguagem, que não deve mais “explicar” analiticamente, mas deve agora evocar, tocar uma sensibilidade profunda que vai mais além da simples razão. A unidade dos contrários, própria do mito, é dada pelos Leitbilder (imagens condutoras) das quais fala Armin Mohler [3].

Os Leitbilder são os mitemas, as unidade primárias da estrutura mítica, do Weltbild, isto é, da imagem do mundo. São símbolos evocativos, imagens condutoras de uma idéia do mundo. A criação e a difusão dos mitemas instaura um fluxo comunicativo, isto é, a rede das relações humanas mediante a qual o próprio mito se diz e fala. Comunicar é, de fato, instaurar relações, vincular-se aos outros, descobrir afinidades ou idiossincrasias. Os indivíduos estão necessariamente abertos ao próprio contexto comunicacional; se comunicando, tendem também a reconhecerem-se, tendem a tomar posição junto aos quais sentem-se afins. A disposição mítica de quem profere o discurso mítico, na prática, tende a “excitar” a disponibilidade mítica de quem acolhe ao discurso. Quem consiga situar-se como centro da estrutura dos signos lingüísticos do discurso mítico – para utilizar a linguagem “estruturalista” própria – logra dominar (embora somente parcialmente: a linguagem não se domina nunca como uma coisa) o fluxo comunicativo, logra impor-se na produção dos símbolos e se situa como vanguarda metapolítica.

A vanguarda

Portanto, dominar a linguagem. Impor uma nova lógica que desconstrua os paradigmas dominantes, que dissolva e volte a plasmar as formações. A vanguarda deve distinguir-se por “uma ação sistemática e culturalmente subversiva, que trate de introduzir no circuito de idéias “envenenadas”, que trate não tanto de influenciar, demonstrar, convencer, organizar burocraticamente, como de chocar, fascinar, criar dúvidas, gerar necessidades, fazer com que cresçam consciências, produzam atitudes e condutas desestabilizadoras. Deve, em uma palavra, falar e saber falar a linguagem do mito, criar a partir de si mesma seu próprio público, atrair plenamente a atenção tanto das tendências espontâneas de refutação política da realidade do Sistema em suas variadas articulações, como dos arquétipos romântico-faustianos que ainda circulam no inconsciente coletivo europeu”[4].

Chocar e seduzir. Mas, para isto, é preciso de outro estilo, que saia definitivamente da ritualística vazia da nostalgia, dos slogans banais e idiotas, do conformismo sectário. Superar os estereótipos, falar uma linguagem nova, repudiar as lógicas do Sistema para impor outras novas, enfrentar-se ao presente e projetar o futuro – aqui está o nosso objetivo. Devemos praticar – como já o fez brilhantemente a Nouvelle Droite em seu período de ouro – a lógica do terceiro incluso: se participa no debate sustentando sempre uma terceira opinião (logicamente utilizando a cabeça: inovar apenas por inovar é um exercício estéril) em comparação às oposições opostas em que se dividem os seguidores do Sistema.

Deste modo, eles são colocados diante de um discurso novo, para o qual não estão preparados, obrigando-os a tomar um posicionamento e a redefinir os alinhamentos. Os indivíduos habituados, por convicção ou costume ao discurso dominante, nos consideram algo já previsível, nos atribuem de ofício uma identidade composta de ignorância e prepotência, de nostalgia e intolerância, de preconceito e arrogância. Nossa missão é surpreender-lhes, fazer com que se explodam pelos ares as lógicas e os ritmos impostos, escapar às classificações e às etiquetas. O que importa é estar no mundo contemporâneo sempre dispostos a enfrentar-nos com este e a aceitar seus desafios sem ser deste mundo, pertencendo a outra raça, a outro estilo, ligados a outros mitos e a outros valores. Somente assim pode-se escapar de dois comportamentos especulares, mas igualmente perigosos: a ânsia de tomar posição, de participar, de ser recuperados pelo Sistema e admitidos na discussão entre as “pessoas civis”, e a oposta retirada para debates esotéricos e insignificantes, todos internos a um micro-ambiente isolado do mundo.

Depois de tudo, a mesma Nouvelle Droite, embora aqui se tenha tomado ela como exemplo positivo, não aplicou esta estratégia senão de forma parcial, limitando-se ao discurso cultural e filosófico, quase como se uma idéia por si mesma inovadora se tornasse revolucionária pelo simples fato de ser dita. A elaboração ideológica em sentido estrito, contudo, deve integrar-se a uma ação global e diversificada, mais ambiciosa e de maior alcance embora, ao mesmo tempo, mais humilde e concreta.

O mito se afirma com qualquer linguagem possível, embora e sobre tudo, com a do exemplo e da ação, afirmando cotidianamente uma presença ativa na sociedade e sobre seu território; presença que, por sua vez, não sirva para reclamar suborno ou uma cadeira, mas que seja, ao contrário, a demonstração concreta de que a alternativa é possível. Somente amadurecendo a capacidade de manter e afirmar tal presença no coração da sociedade, poderemos arrancar das indignas mãos da caravana new-global o monopólio do pensamento alternativo, atraindo por conseguinte para o nosso campo, todas os instintos de rebelião e as tentativas de revolta, tratando assim de “dar forma” e de mobilizar conscientemente tais sentimentos expressados até agora somente em estado bruto. Somente este esforço constante em direção a uma abertura ao mundo contemporâneo pode permitir-nos falar a verdadeira linguagem do mito, que por sua natureza, é sempre provocadora (pro-vocar, isto é, etimologicamente, “chamar para fora”, ou seja, convidar, desafiar, tentar, excitar, incitar; em uma palavra: mobilizar).

A alternativa é o fechamento orgulhoso em um gueto que se crê comunidade, em uma seita que se crê aristocrática, fora do mundo e dos desafios da contemporaneidade, eternamente tarde na história, por todos desconhecida e ignorados mesmo antes de condenados e proscritos.

Cabe a nós a escolha.
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Fonte: Centro Studi La Runa

Extraído de Orion n° 228, setembro 2003.

[1] Jacques Derrida, La struttura, il segno e il gioco nel discorso delle scienze umane, in La Escrittura e la diferenza, Einaudi, Turín 2002.

[2] Cfr Giorgio Locchi, Wagner, Nietzsche e il mito sovrumanista, Akropolis, Roma 1982.

[3] Cfr. Armin Mohler, La Rivoluzione Conservatrice in Germania 1918-1932. Una guida, Akropolis/La Roccia di Erec, Florencia 1990.

[4] Stefano vaj, Introduzione alla prima edizione de Il Sistema per uccidere i popoli di Guillaume Faye (SEB, Milano 1997).

31/08/2011

Assim não é, porém parece

por Adriano Scianca



Em um bom artigo de uns anos atrás, Charles Champetier identificava o novo rosto do inimigo em um triplo sistema de domínio composto por técnica, mercado e espetáculo. As figuras tradicionais do enfrentamento político, explicava Champetier, ficaram já obsoletas; ao dia de hoje o poder exerce-se mediante mecanismos impessoais que não executam-se em momentos e lugares simbólicos, senão em todo instante e em todas as partes.



Mais que por uma estrutura de poder, o sistema está hoje constituído por uma dimensão existencial, na qual todos estamos imersos. Assim é, porque a nova forma do domínio não prevê uma imposição externa, senão mais exatamente uma absorção em seu interior. Nós vivemos na técnica, no mercado, no espetáculo.



Todo aspecto de nossas existências que não possa-se redirigir a tal esquema é "normalizado" ou suprimido: o que não é eficaz é superado, o que não é rentável é absurdo, o que não é visível é inexistente. O resultado é o mundo sem sentido: a economia produz por produzir, a técnica progride por progredir, o espetáculo mostra por mostrar. O que em seu momento era um meio submetido a oturos fins, agora é fim em si mesmo. Volta à nossa mente a frase de Nietzsche sobre o niilismo como ausência de resposta ao porquê. Pois bem, a profecia cumpriu-se. Vivemos em um mundo que, como diria Alain de Benoist, não sabe para onde ir, porém não deixa de afirmar que somente há um modo para dirigir-se.



Espetáculo e Realidade



O espetáculo está formado por aspectos individuais do mercado e da técnica que constituem um conjunto autônomo que engloba o âmbito da informação e das representações coletivas. Observaram-no já Adorno e Horkheimer em tempos insuspeitos: "os filmes, a rádio e os semanários constituem, em seu conjunto, um sistema. Todo setor é harmonizado em seu interior e todos são entre si". E tudo isso apesar do tão ostentado pluralismo: "as distinções enfáticamente afirmadas" entre os diferentes produtos culturais, continuavam os dois filósofos judeus, "mais que estar fundadas sobre a realidade e derivar desta, servem para classificar e organizar aos consumidores, e para tê-los em um punho mais sólidamente. Para todo o mundo está previsto algo para que ninguém possa escapar; as diferenças são inculcadas e difundidas artificialmente".



O que vemos muda continuamente, porém segue sendo constante o domínio da visão da imagem espetacularizada. Em nossa sociedade, de fato, a visão substituiu tanto a ação como a reflexão. Não crê-se mais do que naquilo que vê-se. O que é visto suplanta o que é vivido. O espetáculo, diz Guy Debord, não é outra coisa que "o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real". A visão espetacularizada converte-se na única possibilidade de existência dos entes.



Daí deduz-se que a sociedade do espetáculo não é somente o reino da mentira (ainda que mentiras puras e simples há aos montes), senão mais exatamente a autêntica dimensão da não-verdade absoluta, a dimensão em que é impossível ter uma experiência da verdade, o mundo em que existe somente o que situa-se sob a luz dos refletores, enquanto que o que demora-se em sua existência autêntica é como se ficasse em uma escuridão originária. Como moscas diante de um cristal, damo-nos cabeçadas para alcançar uma realidade que não captamos sem entender quem e o quê interpõe-se entre nós e ela.



Deste modo, não obstante, nossa capacidade de compreensão e de comunicação fica irremediavelmente comprometida. A sociedade do espetáculo entra em nós e transforma-nos desde o interior. Em particular, nossa personalidade é desarticulada em três níveis distintos: nível informativo, nível social e nível psíquico.



Ver e Não Entender



O nível informativo é aquele no qual o espetáculo atua deformando nossa percepção do mundo. "Tudo o que sabes é falso", escreveu recentemente alguém, e resulta difícil discordar.



Hoje nós já não estamos em condições de compreender o que sucede ao nosso redor sem recorrer às respostas pré-fabricadas ou a paradigmas simplestas que são-nos administrados deliberadamente. O esquema moral dos "bons" e dos "maus" já foi inserido à força entre nossas estruturas mentais implícitas, e nossa "liberdade de pensamento" consiste simplesmente em assignar a cada figurante a posição à qual está destinado a pertencer. As peças do quebra-cabeças é-nos dada pela televisão e o encaixe é necessariamente o estabelecido, porém a final de contas, quando juntamos as peças ninguém põe-nos uma pistola na nuca: para a maioria isso basta-lhe para autoproclamar-se "livre". A multiplicação dos canais informativos acabou por coincidir com a total ausência de informação real.



Um símbolo eloquente a respeito é o ataque às torres gêmeas, ao mesmo tempo o acontecimento e o anti-acontecimento por excelência. O 11 de Setembro é o momento da transparência absoluta, da informação global realizada, o espetáculo que reúne ao mesmo tempo toda a humanidade diante do aparelho de televisão para assistir em tempo real ao mesmo acontecimento registrado por milhares de câmeras. Porém ao mesmo tempo, estamos diante de um anti-acontecimento, diante da mistificação mais absoluta da realidade, da ficção completa. É certo, todos nós vimos. E não obstante, ignoramos todos os seus aspectos. Sabemos com absoluta certeza que algo aconteceu, porém este algo estã tão próxima da essência mesma do mecanismo espetacular que é um concentrado de falsidade em estado puro. Não há nenhuma imagem que tenhamos visto tantas vezes como a dos aviões chocando-se; porém ao mesmo tempo, não há nenhum fato histórico do qual saibamos menos. Ver e não entender é já nosso destino. A compreensão ou a análise resultam-nos inacessíveis; fica-nos somente o estupor e a indiferença, o medo e a diversão, a histeria e a apatia, administrados em doses alternadas, segundo as exigências do sistema.



Desestruturação do Social



O nível social é aquele no qual a personalidade dos indivíduos e seu vínculo com os outros são desestruturados e remodelados com base em uma lógica mercantil. "O espetáculo não é um conjunto de imagens senão uma relação social entre indivíduos, intermediada pelas imagens", observava já Debord.



Não vivemos mais que relacionando-nos com os outros, porém hoje não existe vínculo social que não esteja submerso no espetáculo. Aqui, mais que os telejornais, o que vale são as séries de ficção, os reality shows e o "star system" em geral. Ao propôr determinados modelos, a sociedade do espetáculo penetra nas relações interindividuais e reproduz-se. A competição darwinista, o moralismo hipócrita, o individualismo decadente, o etnomasoquismo, a vaidade narcisista, a pequena mesquinhez, o conformismo mais vazio, a superficialidade mais desconcertante e a ignorância mais abismal elevados a norma: é em tudo isso que estamos imersos quotidianamente graças ao bombardeio midiático. Predomina a banalidade como linguagem, o que significa não tanto que diz-se coisas banais como que não é-se capaz de comunicar mais do que através da banalidade. Quer dizer: fala-se e não diz-se nada.



É a culminação da alienação: "a consciência espetacular, prisioneira em um universo degradado, reduzido pela tela do espetáculo por trás da qual foi deportada sua própria vida, não conhece mais que os interlocutores fictícios que falam-lhe unilateralmente de sua mercadoria e da política de sua mercadoria".



A Grande Família



Tal mecanismo alienante, para fazer-se sedutor, não pode mais que travestir-se de fingida autenticidade. A tendência ao "realismo" da televisão atual na realidade trata de criar uma espécie de "familiaridade" com a ficção da tela, tentando apaixonar o público com pequenos casos insignificantes com os que possa identificar-se. "Dizem que com uma segunda tela mural tens à Família ao teu redor constantemente" diz Julie Christie em Fahrenheit 451 de Truffaut.



É assim precisamente: a "Grande Família" envolve-te e engloba-te. Descobres-te chamando pelo nome uns desconhecidos que viu na tela como se fossem teus amigos íntimos. Sente-os próximos, parecem-se a ti. Porém em realidade és tu o que estás começando a ser como eles. Estes shows, de fato, não representam a realidade. Constroem-na. Não são descritivos senão normativos. Não mostram o que é senão o que deve ser. O mesmo pode-se dizer do culto dos famosos e dos aspectos mais privados de suas existências: o indivíduo "normal" vê-se empurrado às fofocas sobre a vida sentimental dos milionários ignorantes e viciados divinizados pelos meios e fantasia dessa maneira sobre uma vida que nunca poderá ter porém que servir-lhe-á como modelo para orientar a sua. Vivemos em um mundo de famosos truncados, que ao sonhar somente com o estilo de vida dos tediosos astros de aparência que estão podres de dinheiro, mostram que já interiorizaram um certo desprezo por si mesmos, por suas próprias origens sociais e culturais.



Graças à sociedade do espetáculo começamos a odiar a parte de nós que segue sendo autêntica, verdadeira, enraizada, a parte que se não fosse desintegrada impedir-nos-ia de ter acesso ao Olimpo midiático, tal e como prevê o classismo pós-moderno que separa quem aparece de quem não aparece.



A Devastação dos Cérebros



O nível psíquico, ademais, é o da autêntica desarticulação da personalidade a um nível inclusive fisiológico. Somente há que pensar na ação desestruturante que pode exercer no cérebro.



Como sabe-se, o cérebro funciona graças à sinergia do hemisfério esquerdo e do hemisfério direito. Os dois hemisférios elaboram as informações de modos distintos destinados depois a entrelaçar-se harmonicamente: o hemisfério esquerdo raciocina de um modo que poderíamos definir analítico, linear, consequente, científico, digital, o direito, de modo intuitivo, simbólico, imaginativo, sintético, analógico.



Agora, revelou-se como o uso das novas tecnologias midiáticas está em condições de criar estruturas mentais prioritárias, favorecendo determinadas faculdades (as "digitais") em detrimento das centrais para o pensamento simbólico e relacional. Outros identificaram em tal separação a origem da barbarização de nossa sociedade e da extensão da violência niilista como fim em si mesma.



Aqui não falamos de atitudes ou de mentalidades, senão de organização cognitiva e inclusive neuronal. Somente há que pensar que a televisão modificou já o modo em que usamos nossos olhos e está contribuindo inclusive para desequilibrar nossoas valores hormonais.



E isso não é tudo: a autorizada revista especialista Pediatrics, por exemplo, levou a cabo estudos que demonstraram como nos Estados Unidos o cérebro das crianças forma-se de acordo com os tempos televisivos - nos quais tudo sucede rápidamente, como relâmpagos breves e repentinos - tanto que já não logram concentrar-se quando não recebem o mesmo tipo de estímulo veloz. Um número cada vez maior de crianças já não é capaz de concentrar-se nunca, nem sequer durante algum minuto. Estamos dando vida ao zumbi global, único cidadão possível do mundo pós-humano que estamos preparando.



A Rebelião Espetacular



Assim as coisas, como enfrentar-se à tirania do espetáculo? O caminho empreendido pela maioria é o do extremismo. O extremismo é a excessividade efêmera do gesto, a disposição a conferir aos próprios discursos uma visibilidade que supere durante um momento em intensidade a monotonia do já-visto, sem sair, não obstante, do paradigma da visão espetacularizada. Este encontra-se, como pode-se intuir, totalmente dentro da sociedade do espetáculo.



A nível macro-histórico e macropolítico, o extremismo converte-se em terrorismo: a final de contas, o mito do "choque de civilizações" (Ocidente vs. Terrorismo Islâmico) não é mais que a versão global e atualizada do mito dos "extremismos opostos" (anticomunismo reacionário vs. antifascismo reacionário). Muda a intensidade (e o caráter trágico) porém não os resultados. O potencial revolucionário do extremismo é, de fato, igual a zero.



É mais: jogando um papel no interior da sociedade do espetáculo, o extremista e o terrorista não somente não põem em questão nada, senão que convertem-se inclusive em elementos funcionais do sistema que de palavra queriam combater, adotam o semblante de figurantes em uma representação maior que eles. E muitas vezes nem ao menos são necessários os elencos dirigidos por outros: estes encontram por si mesmos seu próprio lugar na comédia, espontâneamente assumem a parte que foi-lhes assignada.



O Pensamento Radical



Fora da comédia, e, ao contrário, disposto a incendiar todo o teatro, encontra-se, por sua vez, quem saiba assumir posições radicais.



O radicalismo é a antítese do extremismo. O primeiro é silencioso, vivido, de longo alcance, operativo; o segundo é ruidoso, encenado, míope, inútil. Não centrado nos gestos senão nas ações, o radicalismo é, etimilógicamente, a capacidade de ir à raiz. À raiz de si mesmo acima de tudo: o pensamento radical está sempre enraizado. Ou melhor, deve está-lo: quem aventura-se no reino do nada deve ter uma identidade forte para não assumir ele mesmo as aparências do inimigo. Porém o pensamento radical significa também ir à raiz dos problemas, compreender os acontecimentos em profundidade, sabendo colocá-los em perspectiva.



Escola de autenticidade e de realismo, o pensamento radical é hoje a única via transitável que com razão pode-se definir revolucionária. Assim é, porque a primeira obrigação de toda vontade revolucionária é o de descer concretamente à realidade, mais além da histeria e da utopia, as duas únicas alternativas que a sociedade do espetáculo oferece-nos. Portanto, atuar para voltar ao real. Gerar novas consciências. Redespertar consciências adormecidas. Sair da capa sufocante da novidade para voltar, finalmente, a ver as estrelas.



O mundo no qual vives não existe.



Tudo o que sabes é falso.



Abra os olhos.



Agora.