13/09/2011
Sobre o FMI
12/09/2011
Céline: um Escritor Ainda Maldito
Há 50 anos desaparecia Louis Ferdinand Céline, o maior escritor do século XX. Seu nome figura – ou melhor, figurava –, na compilação das celebrações nacionais de 2011 publicada pelo Ministério da Cultura. Furor, uivos, histeria... Serge Klarsfeld, presidente da “Associação de filhos e filhas dos judeus deportados da França”, exigiu a Frédéric Mitterrand, ministro da Cultura, “a retirada imediata desta compilação e a eliminação das páginas dedicadas a Céline. Ele não é somente o autor de “Viagem ao Fim da Noite” e “Morte a Crédito”, mas também de panfletos antissemitas, como “Bagatelas Para um Massacre” e “A Escola de Cadáveres”. Klarsfeld ameaça: “Se ele não concordar em renunciar a inclusão de Céline nas celebrações nacionais, esperamos que o Primeiro Ministro ou o Presidente da República tomem alguma determinação. Nossa resposta será dura”. Klarsfeld recordou que a Licra (lobby judaico francês) e ele mesmo pressionaram a François Mitterrand por ter posto uma coroa de flores a cada 11 de novembro sobre a tumba do Marechal Petáin, como gesto de honra ao herói de Verdún. Mitterrand finalmente teve de abandonar o poder em 1993.Então, Jaen Jaurés também deve ter o ostracismo, como Céline?
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Fonte: ID Press
05/09/2011
Ernst Jünger e O Trabalhador: Uma trajetória vital e intelectual entre os deuses e os titãs
Resignei-me em ser Vítima

Certo dia, movida pela curiosidade provinda das minhas inclinações, debrucei-me sobre as colunas da imprensa que se intitulavam do povo.
Andava à cata de companhia... Não é, porventura, verdade que, cada vez que, correndo os olhos pelas páginas de um livro, estamos, a rigor, procurando antes uma companhia do que um roteiro a seguir ou um guia que nos oriente?
Quem sabe se não foi por isso que corri os olhos pela imprensa esquerdista do País? Porém, não encontrei, nem companhia, nem roteiro e nem qualquer guria que me orientasse.
É bem verdade que os jornais do povo esbravejavam contra o capital e contra os capitalistas com o linguajar rude e forte, desmascarando as iniqüidades do regime social, que oprimia o País. Porém, nos detalhes e ainda no fundo da prédica, percebi sem dificuldades a influência de idéias remotas separadas do autenticamente argentino: sistemas e fórmulas alheias aos nossos pontos de vista, concebidas pelas mentes de homens estranhos à nossa cultura e sentimentos nacionais. Notava-se logo que eles desejavam para o povo argentino, não aquilo que ele aspirava. A constatação pôs-me em alerta. Havia outra coisa que ainda repugnava meu espírito: a solução para a injustiça social era a mesma para todos os povos e países do mundo. Eu, porém, considerava inconcebível que, para destruir esse grande mal, fosse preciso aniquilar, concomitantemente algo tão elevado como a Pátria.
Nesta altura, quero deixar claro que até alguns anos passados, muitos sindicalistas argentinos, patrocinados por organizações estrangeiras, consideravam a Argentina e seus símbolos, como meros preconceitos do capitalismo e da religião.
Mais tarde, comecei a desconfiar daqueles veementes defensores do povo. Pela leitura daquela imprensa deduzi que, em minha Pátria, a iniqüidade social só poderia ser banida por uma Revolução, por ventura, internacional, do exterior e conduzida por seres alheios à nossa cultura. Não cabiam, para mim, senão soluções nacionais, resolvendo problemas visíveis, com soluções simples, ao contrário das rebuscadas teorias econômicas. Isto é, optar por soluções patrióticas, próprias para remir o próprio povo. Assim, perguntava-me: Para que aumentar ainda mais os sofrimentos das vítimas dessa injustiça, tirando-lhes os anseios de Pátria e de Fé, a que estão acostumadas? Por conseguinte, seria como tirar da paisagem o firmamento que a emoldura.
Em vez de atacar a Pátria e a Religião, por que tais dirigentes não tratam de uni-las a favor desse mesmo povo? Suspeitei de que aquela gente trabalhava mais para o enfraquecimento da moral da nação do que pelo bem-estar do operariado. Por isso, não gostei da solução.
Embora sabendo pouco da situação global, tinha a orientação do coração e do sentido comum. Pesarosa, voltei às minhas meditações anteriores, convencida de que não possuiria lugar naquela luta inglória. Resignei-me a viver em minha revolta íntima e que, agora, se somava àquela outra, gerada no meu coração, oriunda da deslealdade daqueles pretensos condutores do povo, cuja traição acabara de descobrir. Resignei-me em ser vítima.
02/09/2011
O Mito da “Crise Econômica”
Todos falam da crise econômica, uns por ignorância, outros por má fé e a maioria por inércia mental. E, contudo, se existe algo que apareça com nitidez mediana é o fato de ser impossível existir crise econômica alguma.
A crise é simplesmente financeira.
Porque, se a Economia é composta de três partes – Produção, Consumo e Distribuição –, a falha está, única e exclusivamente, na última parte, a menos “econômica” das três.
Em efeito, se as máquinas progridem a ritmo geométrico e a demografia ocidental permanece estacionária, quando não em retrocesso, é evidente que a Economia deveria melhorar quase que diariamente e os preços baixarem. Se uma Comunidade produz mais bens e serviços em uma unidade de tempo, sem aumentar sua população ou aumentando a um ritmo claramente inferior à produtividade, baixar-se-iam em espiral os preços pela simples dinâmica dos fatos.
Contudo, todos sabem que não é assim. Por quê? Por que as empresas quebram em milhares por todo o Ocidente, enquanto só progridem insultuosamente os Bancos e entidades de “serviços financeiros”? Como é possível que este fato claríssimo não chame a atenção e provoque a indignação dos demais? Mesmo sem aprofundar-se no problema, sem a necessidade de estudar brevemente a problemática e a operação da Finança, deve parecer claro, até mesmo para a inteligência mais medíocre que, se a produção alcança cotas inimagináveis, faz isso somente por alguns anos, enquanto as pessoas continuam desejando consumir, o atual defeito somente pode ser encontrado na distribuição; isto é, na Finança.
FINANÇA E PODER
Quando aludimos à enfermidade da Distribuição, causadora da atual crise “econômica”, nos referimos, insistimos, à Finança. Com isto, entramos no problema do dinheiro, este instrumento de troca de bens e serviços do qual quase nada se sabe.
Especialmente na Espanha, o desconhecimento acerca da natureza do dinheiro é quase incrível, inclusive entre altos cargos diretivos das empresas. A crença geral é que se trata de uns pedaçinhos de papel com os quais se “compram” coisas.
A realidade é que esses pedacinhos de papel ou metal representam no conjunto de um país ocidental, apenas 4% do que é o verdadeiro “dinheiro”. Em grandes potências industriais, como os EUA, não chegam sequer a 3%.
Na realidade, o que as pessoas chamam de “dinheiro”, não são mais do que uns “trocados”.
O restante é uma fenomenal sobre-estrutura de créditos, manejada por Bancos; ou melhor, pelo sistema bancário. Uma ficção que ameaça levar ao mundo à bancarrota, como já o fez durante a década de 30.
Em toda comunidade humana regida por princípios sérios e éticos, o objetivo da produção é o consumo e não a rentabilidade do capital.
A indústria, a agricultura e os serviços devem cobrir a demanda real – exclusivamente real e não a artificial, gerada por um excesso de publicidade –, e não assegurar benefícios inauditos ao atual sistema usureiro que impera.
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Joaquín Bochaca em "Texto para um programa político de alternativa ao sistema"
Fonte: ID Press
Da Guerra e Suas Definições
31/08/2011
Esse Inquebrável Núcleo Noturno: ou, do Erotismo
Não existe nenhuma definição verdadeiramente satisfatória do erotismo, essa qualidade propriamente humana que leva ao desejo sexual pela via da mútua invenção. O erotismo não é o contrário do pudor, o qual possui sentido somente na medida em que promove o desejo. Tampouco é o contrário da pornografia, que é sugestiva (sua grande vantagem) quando, mostrando absolutamente tudo revela, por isso mesmo, que não havia nada de essencial ali para se ver. D.H, Lawrance, por certo, já havia dito tudo quando denunciava a hipocrisia de uma sociedade que condena a pornografia ao mesmo tempo em que se mantém cega ante sua própria obscenidade. Qualquer discurso publicitário, qualquer discurso pertencente à lógica do mercado é, hoje, sem dúvidas, infinitamente mais obsceno do que uma vagina aberta e exposta em primeiro plano fotográfico.
Durante séculos, o erotismo foi denunciado como sendo o contrário dos “bons costumes” porque, ao excitar as paixões sensuais, contradizia a uma moral baseada na desvalorização da carne. Contrariamente a outras religiões, o cristianismo sempre foi incapaz de elaborar uma teoria do erotismo: não por haver ignorado ao sexo, mas, ao contrário, por tê-lo convertido em uma obsessão negativa. Passado o tempo dos mártires, a abstinência converteu-se em marca da vida devora e a sexualidade no campo privilegiado do pecado. A atividade sexual, considerada como um mal menor, somente foi admitida no campo da conjugalidade. A igreja condenava uma sexualidade desvinculada de finalidade procriadora, ao mesmo tempo em que cultivava o ideal virginal de uma procriação sem sexualidade. Por este motivo, sem duvidas, o discurso sobre o sexo se manteve circunscrito durante tanto tempo no âmbito literário, médico ou simplesmente vulgar, embora seja revelador que, em todos os tempos, o nu serviu como base para o ensino das belas artes, ao ser considerado como a mais idônea exemplificação da categoria de belo.
A modernidade nascente empreendeu seguidamente um vasto trabalho de dessimbolização cuja vítima foi o erotismo. Ao basear-se na idéia do ser humano como individuo auto-suficiente, era impossível pensar em uma diferença sexual que, por definição, implica no incompleto e no complementário. O caráter pejorativo atribuído às paixões e às emoções – supostas geradoras de “preconceitos” – correu casais, por outro lado, com o auge da força do individuo a favor do racionalismo cientificista. Viu-se então desvalorizada a inteligência sensível – do corpo –, seja como portadora de pulsões “arcaicas” ou, como proveniente de uma “natureza” da qual o homem, por fazer-se propriamente humano, estava chamado a emancipar-se. A modernidade, por último, converteu sistematicamente o interesse em necessidade e a necessidade em desejo. Sem ver que o desejo não se reduz precisamente ao interesse.
Autor de uma bela Antologia histórica das leituras eróticas, Jean-Jacques Pauvert considera que, “no ano 2000, apesar das aparências, o erotismo quase já desapareceu, se é que não desapareceu completamente”. Pode parecer surpreendente esta declaração de um especialista. Na realidade, não faz senão constatar que o erotismo, ontem amarrado por uma censura que o condenava à clandestinidade e à proibição, encontra-se, hoje em dia, ameaçado exatamente pelo contrário. Assim como a onipresença da imagem impede a vista, de forma que a grande cidade constitui, na realidade, um deserto; assim também, o sexo ensurdecedor converte-se em inaudível. A onipresença das representações sexuais priva a sexualidade de toda sua carga. Contrariamente ao que imaginam os reacionários pornofóbicos, herdeiros da nova ordem moral reagana-papista, a pornografia mata o erotismo por excesso, em lugar de ameaçá-la por sua falta. Trata-se também de um efeito da modernidade. O processo moderno de individualização conduziu, em primeiro lugar, de fato, à constituição da intimidade e, logo, em nome de um ideal de transparência, à transformação dialética da intimidade em exibição. Este passo da intimidade ao exibicionismo (tomado como “testemunho” e, por tanto, como critério de verdade) fica perfeitamente ilustrado pela emissão Loft Store, concentrada especular (e crepuscular) da sociedade atual, que é somente caricaturesca para melhor ilustrar seus traços distintos: mísero voyeurismo e estupidez consentida; espaço fechado, programado pela lei do dinheiro; exclusão interativa sobre a base de uma insignificância absoluta. Não é de se surpreender que as massas estejam fascinadas por este espelho que lhes tende: vêm em pequeno o que, cada dia, vivem no grande.
O sexo é hoje incitado a ser como o diapasão do espírito dos tempos: humanitário, higienista e técnico. A normalização sexual encontra novas formas que já não tentam reprimir o sexo, mas converter-lo em uma mercadoria como as demais. A sedução, muito complicada, converte-se em uma perda de tempo. O consumo sexual tem de ser prático e imediato. Objeto maquinal, corpo-máquina, mecânica sexual: a sexualidade já não é mais um assunto de receitas ao serviço de uma pulsão escópica da quantidade. No mundo da comunicação, o sexo tem deixar de ser o que sempre foi: um esboço de comunicação tão mais deleitoso conforme se localiza sobre um fundo de incomunicabilidade. Em um mundo alérgico às diferenças, que desde muitos pontos de vista reconstruiu social e culturalmente a relação entre os sexos desde o horizonte de um dimorfismo sexual atenuado, e que teima em ver nas mulheres “homens como os demais” quando, na realidade, elas são o outro do homem; pretende-se que o sexo deixe de “alienar” quando, na realidade, é um jogo de alienações voluntárias. O erotismo é morto pelo desejo politicamente correto de suprimir a correlação de forças que se estabelece ora a favor de um sexo e ora a favor de outro, em uma mutua conversão. O mata porque nenhuma relação amorosa pode ser implantada em plena igualdade, mas tão somente em um conflito, em uma instável desigualdade que permita dar a volta em todas as situações. O sexo não é, senão, descriminação e paixão, atração ou repudio igualmente excessivos, igualmente arbitrários, igualmente injustos. Em tal sentido, não é exagerado dizer que o verdadeiro erotismo – selvagem ou refinado, bárbaro ou lúdico – segue sendo, mais do que nunca, um tabu.
A vontade de suprimir a transgressão mata, por sua vez, ao erotismo. Porque há muitas normas em matéria sexual, assim como as há em tudo. O erro consiste em crer que são normas morais. O outro erro é o de imaginar-se que qualquer comportamento pode erigir-se em norma, ou que a existência de uma deslegitima, por sua mera existência, tudo o que está fora das normas. O erotismo implica na transgressão, com a condição de que tal transgressão, contudo, seja possível sem deixar de ser transgressão; isto é, sem ser instituída como norma.
Entre os “jovens dos subúrbios” (para os quais as mulheres não são mais do que uns buracos rodeados de carne), as idiotas profissionais de formas siliconadas e as revistas femininas convertidas em manuais de sexologia pubo-pélvica, o erotismo se apresenta hermeticamente bloqueado em toda a parte. Os jovens, em particular, têm de fazer frente a uma sociedade que é, por sua vez, muito mais permissiva e muito menos tolerante que no passado. Assim como a dominação conduz à desapropriação, a também pretensa libertação sexual conduziu somente, no fim, a novas formas de alienação. Mas o sexo, por ser algo que pertence, antes de tudo, ao reino do incerto e do turvo, sempre se esgueira ante a transparência. O exibicionismo é algo ainda mais opaco do que a censura, pois a este desejo de transparência responde sempre com a metáfora. Quando se tenta iluminá-lo com projetores, o mundo do sexo opõe-se afortunadamente a tal iluminação, fato que André Breton denominava seu “inquebrantável núcleo noturno”.
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[Revista Eléments nº 102, setembro de 2001, Robert de Herte (pseudônimo de Alain de Benoist)]