10/10/2026

Aleksandr Dugin - Der Arbeiter: Sobre Ernst Jünger

 por Aleksandr Dugin

(1995)


Ernst Jünger é o maior escritor alemão moderno, cujo percurso literário e político é um símbolo clássico de tudo o que foi vanguardista, vivo e inconformista na cultura europeia do século XX. Participante e testemunha de duas guerras mundiais, um dos principais teóricos da Revolução Conservadora alemã dos anos 20 e 30, inspirador do nacional-socialismo que rapidamente se tornou um "dissidente de direita" após a ascensão de Hitler ao poder, tendo sobrevivido ao ostracismo durante o período do totalitarismo nazista e, no entanto, alvo de repúdio por parte dos vencedores durante a "desnazificação", conseguiu, com seu talento e profundidade de pensamento, superar os preconceitos dos "democratas" – Jünger é hoje, com justiça, considerado um emblema do século XX, o intérprete dos sentimentos não apenas de uma "geração perdida", mas de um "século perdido", repleto de uma luta apaixonada e dramática, dos últimos surtos sagrados da vida nacional contra o profanismo asfixiante da modernidade tecnicista e universalista.

03/10/2026

Jean Meyer - A Maquinação Jesuíta no Imaginário Russo

 por Jean Meyer

(2015)



Introdução


Em 1888, podia-se ler no Tserkovnyi Viestnik (O mensageiro eclesiástico) um artigo assinado A. K. e intitulado "Novaia jezuitskaya machinatzia", "Uma nova maquinação jesuíta" (1888-14, col. 277-280). Denunciava Basil Livantsky, pseudônimo com o qual não se disfarçava muito bem o russo católico Mijail Zherebtsov, autor de um livro publicado no mesmo ano, em Friburgo de Brisgau: Protoprosviter Janychev i novyi doctrinalnyi krisis v russkoi tserkvi (O P. Janychev e a nova crise doutrinal na Igreja russa). "A maquinação jesuíta" aparece de maneira recorrente sob penas russas desde finais do século XVI até nossos dias. Em cada uma das grandes crises históricas, o tema do complô tramado pelos jesuítas se manifesta: a embaixada do jesuíta italiano Antonio Possevino, em tempos de Ivan o Terrível;1 a União de Brest em 1596 e o surgimento dos greco-católicos, denunciados como "uniatas"; no Tempo dos Distúrbios com os "falsos Dimitri" e a presença dos poloneses em Moscou até 1613; a existência da Companhia de Jesus no império de Catarina a Grande, Paulo e Alexandre I, quando Roma a havia suprimido; a passagem de russos ortodoxos ao "latinismo", exemplificado pelo príncipe Ivan Serguievich Gagarin, sacerdote e jesuíta; o ativismo de vários jesuítas na Rússia e na URSS, quando a Revolução desperta em Roma a ilusão da próxima catolicização da Ortodoxia (1917-1929); um ativismo semelhante, com menos ilusões, a partir de 1989. Cada uma daquelas etapas da história da Rússia proporcionou elementos para que se perpetue e adquira uma dimensão mítica o tema da conspiração, do complô, da "maquinação jesuíta".

28/09/2026

Alexei Nilogov - Entrevista com Geydar Dzhemal: Caos Manipulado: O Poder contra a Humanidade

 por Alexei Nilogov e Geydar Dzhemal

(2013)



Geydar, como comentaria a afirmação do filósofo Aleksandr Dugin de que na Rússia não existe pós-modernismo, mas predomina o arqueomodernismo, quando o arcaico e o moderno se capturam mutuamente, e como resultado se produz a sobreposição do querigma (princípio racional) sobre a estrutura (princípio mitológico)?


Dentro da história do intelectualismo atual, o pós-modernismo é a última linha de defesa do clube liberal mundial, que entrou na fase de crise.

A crise dos liberais concretamente deve-se a que a economia de ar especulativa, de fato, “comeu” os ativos reais e para seguir com os processos de mobilização social no mundo simplesmente não há recursos. Por outras palavras, hoje é impossível levar a cabo a modernização de uma grande parte da humanidade, porque para isso… não é que não haja dinheiro – o dinheiro pode-se imprimir! – mas não há capital real que se possa converter no património para os milhares de milhões de pessoas que vivem na periferia mundial.

Dado que o projeto de mobilização é impossível, o pós-modernismo proclama o fracasso do pensamento projetista. Vulgarizando, é como se um impotente com aspecto de sábio anunciasse que deitar-se com as mulheres já não está na moda.

No entanto, em 2000, afastando os liberais, que pela sua essência antropológica são “chandalas” – boêmia desclassificada, não desprovida de certa criatividade –, ao poder na Rússia acederam os “burocratas” – outra seção parapolítica dos desclassificada, que pela sua essência representam o lumpen, organizado como corporação.

23/09/2026

Geydar Dzhemal - O Legado de Kirillov

 por Geydar Dzhemal

(2007)



O «super-homem» como o mito principal do modernismo


No século XX, a Humanidade provou claramente a si mesma como um sujeito coletivo primariamente orientado para a mitologia. Paradoxalmente, os povos orientais, como habitantes do sertão arcaico dos grandes impérios coloniais, foram exaltados com paixão pelos tradicionalistas ocidentais como guardiões da sabedoria sagrada. Subitamente, numa vertente do modernismo, eles revelaram-se muito mais racionais e positivos do que os seus mentores «brancos». A mentalidade da burguesia nacional do Egito à Índia, ou da Birmânia ao Vietnã, coincidia surpreendentemente com os pilares das doutrinas do Iluminismo, dos racionalistas que acreditavam no triunfo da razão, na felicidade de todos os seres humanos unanimemente concordes num contrato social entre si.

Por outro lado, o homem ocidental, desde o final do século XVIII, demonstrou o enraizamento numa «rotina» militante, que dá explicações positivistas e mecanicistas do universo, confiante de que o conforto burguês é a principal meta da história. Subitamente, este filisteu ocidental libertou-se da repulsiva mente antiga e ergueu as cores do romantismo sangrento, que está para além dos horizontes de qualquer explicação racional.

10/09/2026

Geydar Dzhemal - A Crise da Realidade

 por Geydar Dzhemal

(2010)


Apocalipse – amanhã!

Os contornos da guerra, a revolução e o mundo


1


A crise atual não é mais do que a pequena cãibra que sacode a pele do animal agonizante que está morrendo. Esse animal é a civilização mundial. Esta civilização não é composta apenas pelo formato liberal da "civilização humana", arraigado nas megacidades do Ocidente impregnadas de especulação e falsidade. O globalismo é essa quimera que, assim como o animal mitológico, possui as asas da águia, garras de leão, cabeça humana e a cauda de serpente. Ou seja, que além da megacidade ocidental, fazem parte do globalismo atual as selvas da África, as favelas de Taipé industrial, as montanhas do Tibete, os desertos, nos quais, assim como há mil anos, se levantam as tendas dos beduínos. Tudo isso faz parte da estrutura global, unida pela infinita multitude de vasos capilares – desde as mesmas tendas dos beduínos até os arranha-céus de Manhattan!

28/08/2026

Geydar Dzhemal - O Stalinismo como Forma de Reação Internacional

 por Geydar Dzhemal

(2004)


A maioria dos nossos contemporâneos identifica o stalinismo com as pessoas mais velhas - "gente do passado" que pertence às camadas mais desfavorecidas da sociedade russa, ou jovens marginais que mal sabem o que defendem. Se dissessem a esses "otimistas" que o stalinismo real nos rodeia por todos os lados, que, sem ir mais longe, está nas chamadas "reformas" - eles não acreditariam! A verdade é ainda mais espetacular - provavelmente veremos o stalinismo apoderar-se do planeta.

Em 1917 ocorreu um fato sem precedentes na história: no território ocupado pelo Império Russo foi eliminado de uma vez o sistema elitista que era um importante elo do sistema planetário de domínio e exploração. Apenas numa ocasião histórica anterior ocorreu algo semelhante - quando em 1789 se produziu a Revolução Francesa. Mas aquele experimento acabou vinte e cinco anos mais tarde com a restauração monárquica. As execuções dos aristocratas na guilhotina não afetaram na realidade mais do que a parte mais passiva da aristocracia liberal, aquela que não estava preparada para defender os seus privilégios com armas. Na sequência da restauração, a classe dirigente francesa saiu fortalecida e ampliada graças à incorporação dos arrivistas napoleônicos e da alta burguesia, depois de ter passado por uma espécie de perestroika modernizadora.

21/08/2026

Geydar Dzhemal - Terror e Revolução

 por Geydar Dzhemal

(2004)


No mundo, foi iniciado o processo de globalização. O seu caráter é mais político-administrativo do que econômico. E é levado a cabo a um ritmo cada vez mais acelerado, acima das soberanias nacionais, interesses regionais e problemas humanitários. Os acontecimentos de 11 de Setembro e a subsequente reação dos EUA confirmaram a opinião generalizada de que o instrumento da globalização é a guerra mundial. A experiência demonstra-nos que as duas guerras mundiais ocorridas no século XX foram etapas necessárias para a integração política do mundo sob a direção de um reduzido grupo de potências ocidentais. Hoje somos testemunhas de como, sobre a onda da histeria anti-islâmica, ressurgiu a nova Entente (e novamente com a participação da Rússia), cuja missão consiste em concluir a globalização à força e em tempo recorde. Está claro que as classes dirigentes das potências imperialistas, para se consolidarem, apesar das suas diferenças, e em prol do objetivo comum, também precisam de ter uma plataforma ideológica comum. Esta função de ponto comum é desempenhada pelo chamado "terrorismo internacional" – um fenômeno de origem mais do que suspeita. Vemos como explodem residências em bairros populares, como aviões caem sobre os arranha-céus cheios de escritórios, como sobre os inocentes cidadãos espalham o pó contaminado com o antraz, e ondas de pânico percorrem a maré humana, espalhando-se por todo o planeta. Quem o faz e porquê? Que fins propõem esses "terroristas internacionais"? Psicólogos, politólogos contestam em uníssono: o objetivo dos terroristas é semear o medo, mas não nos dizem: medo de quem e para quê? Se os organizadores dos atentados gastam enormes recursos, sacrificam as suas próprias vidas – então este medo tem de ter alguma finalidade? Até agora, as consequências daquelas ações destrutivas foram aproveitadas em benefício dos regimes que reforçaram o controle policial sobre os cidadãos, restringiram as liberdades, colocaram sob controlo os meios de comunicação, levaram a cabo mudanças políticas, golpes de Estado inclusive, baseando-se apenas no choque e no pânico das massas e no cassetete ideológico chamado "terrorismo internacional". Se tudo isso é levado a cabo por terroristas islâmicos, então teríamos de reconhecer que não são mais do que uma subseção dos serviços secretos do Ocidente e que realizam um trabalho suicida com o fim de reforçar o domínio ocidental sobre o mundo inteiro, incluindo aquela parte do globo ocupada pelo Islã.

17/08/2026

Alvaro D'Ors - Premissas Morais para uma Nova Abordagem da Economia

 por Alvaro D'Ors

(1990)


Devo dizer, de entrada, que o que poderia ser o "pathos" da minha intervenção hoje é anticapitalista. A economia atual é uma economia capitalista, e a minha posição é radicalmente anticapitalista. Embora possa parecer um pouco exagerada, a minha opinião é que, como regime económico, o capitalismo atualmente é moralmente pior do que o comunismo. Quando falamos de comunismo, estamos a pensar numa ideologia que inspirou o comunismo da nossa época e que é algo totalmente reprovável; é uma heresia ou, se se quiser, uma forma de apostasia como tantas outras. Mas o comunismo em si mesmo, ou seja, a ideia de supressão da propriedade privada, ainda que não seja algo que eu defenda como regime natural, parece-me, no entanto, muito menos nocivo do que o capitalismo.

Há algo muito claro para uns olhos ingénuos nestes tempos, que é o facto de o comunismo, simplesmente como comunidade de bens, ter sido exaltado pelo cristianismo, de tal modo que os nossos primeiros cristãos, como bem sabemos pelos "Atos dos Apóstolos", tinham todos os bens em comum e, ao longo da história, se repetiu, com diferentes modalidades, mas com uma grande persistência, que certos movimentos que buscam a perfeição cristã começaram por prescindir da propriedade e ter tudo em comum, praticamente tudo. Quer dizer que a ideia do comunismo, de supressão da propriedade particular, pode resultar, diríamos, menos natural para uma convivência ordinária, mas, em si mesma, não tem nada de pecaminoso. Pode falar-se de um "comunismo cristão", mas não de "consumismo cristão": o consumismo capitalista é essencialmente anticristão.

15/08/2026

Geydar Dzhemal - O Mistério de Outubro

por Geydar Dzhemal

(2004)



Para falar da essência religiosa da revolução, não seria demais recordar o conhecido conto das Mil e Uma Noites, em que um pescador tira do oceano com sua rede um cântaro selado com o selo de Salomão. Quando quebra o selo, do cântaro sai um gigantesco e horrendo gênio (ifrit), que diz ter estado encerrado dentro durante três mil anos. O gênio conta ao pescador que durante os primeiros mil anos de encarceramento pensava dar a quem o libertasse todo o ouro do mundo, durante os segundos mil anos pensava cumprir todos os desejos de quem o libertasse e durante os últimos mil anos – matá-lo. Os iniciados costumam interpretar a história com o gênio como uma parábola da influência que a tradição de Abraão exerce sobre a história e o destino da humanidade. Devemos pensar que o gênio (ifrit) representa na tradição islâmica a força ctônica destrutiva, energia de ordem inferior. Está preso no cântaro de barro – substância da qual foi criado o primeiro homem. Para entender a história do ponto de vista do monoteísmo é muito importante compreender que a energia destrutiva de colossal potência está encerrada dentro da matéria úmida e inerte.

08/08/2026

Geydar Dzhemal - O Neoleninismo como Doutrina Revolucionária do Século XXI

 por Geydar Dzhemal

(2003)


O espaço político da Rússia pós-soviética foi limpo com zelo de qualquer resquício de ideologia. Sistemas e métodos de análise foram substituídos pelas "tecnologias políticas", construídas sobre técnicas bastante primitivas de intriga psicológica e informativa. Como resultado, o cidadão russo médio minimamente cultivado encontra-se preso entre clichês muito pobres quanto à explicação do que aconteceu com seu país, com o mundo e com ele mesmo.

Deformada pelo mesmo clichê ideológico, aparece na cultura política de hoje a figura de Vladimir Lênin.

06/08/2026

Alberto Buela - Direitos Humanos como Desvalor

 por Alberto Buela

(2013)


Há muitos anos que escrevemos sobre o tema dos direitos humanos e o temos abordado de diferentes ângulos: a) direitos humanos de primeira, segunda e terceira geração, b) direitos humanos e ideologia, c) direitos humanos ou direitos dos povos, d) direitos humanos: crise ou decadência.

Desta vez, vamos refletir sobre os direitos humanos como um desvalor ou, se quisermos que seja mais compreensível, como uma falsa preferência.

É sabido que a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pelas Nações Unidas no final de 1948, afirma em seu artigo 3º que: Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Com o que os legisladores corretamente vieram nos dizer que os direitos humanos proclamados alcançam o homem enquanto indivíduo, isto é, fazendo parte de um gênero e uma espécie: animal rationale ou zoon lógon éjon, como gregos e romanos gostavam de dizer.

02/08/2026

Julius Evola - Dante Templário?

 por Julius Evola

(1951)


Foi por meados do século passado que, no que diz respeito a Dante, começaram a tornar-se de domínio comum dados que atuaram como desmancha-prazeres nos estudos dantescos, destacando, do Poeta e da sua obra, aspectos inesperados e enigmáticos. Esta ação perturbadora manifestou-se sob um duplo aspecto. 

Para os estudos dantescos acadêmicos e, em geral, segundo os critérios estéticos prevalecentes, a obra dantesca só deveria ser considerada à luz da «arte», e todos os elementos de caráter moral (e geralmente além disso não se via mais nada) devendo valer apenas de forma acessória e subordinada. Em segundo lugar, não se nutriam dúvidas sobre a ortodoxia católica de Dante: em Dante gostava-se de exaltar um dos maiores expoentes do pensamento católico medieval. 

29/07/2026

Julius Evola - Uma Linguagem Codificada na Divina Comédia

 por Julius Evola

(1954)



Data de 1927 uma obra que deveria ter marcado uma revolução no campo dos estudos dantescos, mas que, após algumas discussões num âmbito restrito, hoje parece ter deixado mais ou menos as coisas no ponto em que estavam: sinal, este, da obtusa força de inércia própria aos hábitos e aos cânones de certa crítica oficial firmemente instalada nos postos de comando da cultura e do ensino italiano. A obra a que aludimos tinha por título: Il linguaggio segreto di Dante e dei Fedeli d’Amore e autor era Luigi Valli, nobre figura de pensador, de erudito e de homem político (foi também um dos primeiros expoentes militantes do nacionalismo), que viria a morrer não muitos anos após a saída daquele livro quase na linha de combate: no decurso de uma das suas numerosíssimas e apreciadas conferências destinadas a defender e a elucidar as suas teses. Estas dizem respeito a uma dimensão secreta e ignorada não só de Dante, mas também da literatura que se costuma designar como a dos «Fiéis do Amor» e que tem estreitas relações com o «doce estilo novo». A dizer verdade, as teses de Valli não eram novas e inusitadas senão com referência à Itália, e ao plano de rigorosa crítica em que vinham agora formuladas.

18/07/2026

Julius Evola - Enquadramentos Dantescos

 por Julius Evola

(1939)


Quem examinasse a obra recentíssima de Merezhkovsky sobre «Dante», que viu pela primeira vez a luz traduzida para o italiano por Küfferle (Ed. Zanichelli, Bolonha, 1939), receberia uma impressão oposta à que pode dar outra obra do mesmo escritor, saída também há pouco na Itália, sobre «Tolstói e Dostoiévski». 

Com efeito, ao ler esta segunda obra, podia-se ser incentivado unicamente pelo nome do autor: mas, uma vez enfrentada a leitura, fica-se agradavelmente surpreso ao constatar que Tolstói e Dostoiévski, como também os seus personagens e os seus problemas, no fundo não servem a Merezhkovsky senão como pretexto, como pontos de partida para enfrentar grandes problemas espirituais que certamente transcendem o plano da simples literatura. Na obra sobre Dante, pelo contrário, nós vemos que o autor no fundo fica aquém do argumento a analisar e a interpretar. Isto, pode-se dizê-lo no entanto de um ponto de vista todo particular. Se se tem em vista o nível dos chamados «estudos dantescos», pode-se sem dúvida dizer que a obra de Merezhkovsky está «em ordem», é rica de sugestões felizes, de efetivas dramatizações, de enquadramentos que já remetem a problemas espirituais e religiosos gerais. As coisas, porém, passam-se de outro modo, se se tem em vista não o Dante da comum exegese literária, teológica ou psicológica, o Dante dos vários Passerini, D’Ovidio, Papini e companhia, mas aquele Dante secreto, que já começou a ser pressentido por um Aroux, por um Rossetti, depois por um Pascoli e com traços sempre mais claros por um Guénon e por um Valli. No que diz respeito à interpretação de Merezhkovsky ser «esotérica» perante as comuns avaliações dantescas, ainda assim ela aparece em grande medida profana quando é este segundo Dante que se tem em vista. 

12/07/2026

Aleksandr Dugin - O Tempo de Lyapunov

 por Aleksandr Dugin

(1995)


Na física moderna, que explora principalmente “as condições não controladas” e os sistemas caóticos, há um termo técnico para se referir a isto – “o tempo de Lyapunov”. Este termo designa um momento, quando em um certo processo (físico, mecânico, quântico, e inclusive biológico) se ultrapassa seus limites precisos (ou probabilísticos) de previsibilidade e se entra em uma etapa caótica. Em outras palavras, a trajetória de um certo processo está subordinada a leis estritas apenas durante um certo momento em tempo real. Além deste momento, a “normalidade” se acaba e o “tempo de Lyapunov” paradoxalmente se apodera dele (ou para ser mais preciso, o “tempo positivo de Lyapunov”). As características deste “tempo” são muito curiosas. Ao contrário do tempo físico-mecânico normal, o qual é visto pela física clássica como uma quantidade essencialmente reversível (isto quer dizer que o tempo é fundamentalmente um eixo estático, adicionando uma quarta dimensão às três dimensões do espaço; em referência ao modelo educacional de Einstein), o “tempo de Lyapunov” flui irreversível, apenas em uma direção, e, consequentemente, não consiste em uma trajetória definitiva (em um espaço de quatro dimensões), mas em eventos, movimentos completamente imprevisíveis, alguns dos quais são arbitrários, acidentais, irregulares. Os processos que ocorrem durante o “tempo de Lyapunov” são caóticos em contraste com os da mecânica clássica.

18/06/2026

Aleksandr Dugin - À Espanha Negra

 por Aleksandr Dugin

(2018)



Prefácio à edição espanhola de A Quarta Teoria Política


“Ser” local vs “não ser” universal


A Quarta Teoria Política não tem um destinatário sociocultural definido. Ela se dirige a cada pessoa desgostosa com o estado das coisas neste mundo, a cada pessoa suficientemente profunda para tentar buscar as causas e razões deste estado. Duvidamos que os temas tratados no livro despertem o interesse das pessoas que estão contentes com tudo, que estão satisfeitas com as alternativas atuais em política, cultura, sociedade, ou que estão preocupadas apenas com sua adaptação individual ao status quo ou correção de certos tecnicismos. Mas para os profundamente descontentes este livro pode ser útil. Nesta ocasião não há grande diferença entre um europeu e um latino-americano, entre um muçulmano e um russo, entre um asiático e um africano: em todos os continentes e em todas as sociedades há aqueles que tomam consciência e sabem que hoje tudo se joga em uma carta e que todos nós devemos responder à pergunta principal – ser ou não ser. Claro que cada sociedade e cada cultura dá ao conceito “ser” (igualmente ao “não ser”) seu próprio sentido. No entanto, a Modernidade (contemporaneidade) tem um traço característico: ela está apresentando seu paradigma universal. Por isso sua estrutura é global. Esta estrutura da contemporaneidade global está nos atacando em todas as sociedades. É um desafio para todos. Antes de propor alternativas (que podem ser locais ou universais), é preciso discernir sua essência. Podemos dizê-lo de outra forma: o sujeito do conceito “ser” muda segundo o contexto cultural, enquanto que “não ser” pode ser total. O modelo global da ordem mundial nos propõe “não ser”. Aceitando-o nós estamos entrando na zona de padronização. Rejeitando-o (mas isso seria possível apenas depois que tomássemos consciência de tudo o que decidimos rejeitar) estamos reconquistando o direito de ser em toda a extensão da palavra, o direito de ser nós mesmos (salvar nossa identidade) e fazer-nos a nós mesmos (ou seja, ganhar, criar essa identidade).

14/06/2026

Richard Spence - Estrela Vermelha sobre Shambala: A Inteligência Soviética, Britânica e Estadunidense e a Busca pela Civilização Perdida da Ásia Central

 por Richard Spence

(2008)


Em seu caminho através dos desertos da Mongólia em 1921, o escritor e refugiado polaco Ferdinand Ossendowski testemunhou um comportamento estranho por parte de seus guias mongóis. Parando seus camelos no meio do nada, eles começaram a rezar com grande seriedade enquanto um estranho silêncio caía sobre os animais e tudo ao redor. Os mongóis mais tarde explicaram que este ritual tinha lugar sempre que “o Rei do Mundo em seu palácio subterrâneo reza e averigua o destino de toda a gente sobre a Terra” [1].

De diversos lamas Ossendowski aprendeu que este Rei do Mundo era governante de um reino misterioso mas supostamente muito real: Agharti. Em Agharti, disseram-lhe, “os doutos panditas (mestres de artes e ciências budistas) escrevem em tabuletas de pedra toda a ciência do nosso planeta e dos outros mundos” [2]. Qualquer um que tivesse acesso ao reino subterrâneo teria acesso a um conhecimento incrível, e poder.

11/06/2026

Bertrand Garandeau - A Geografia Sagrada de Dugin: A Rússia no Coração da Tradição

 por Bertrand Garandeau

(2016)


Normalmente no centro de atenção devido à sua suposta influência no Kremlin, Alexander Dugin retomou e desenvolveu o conceito geopolítico da Eurásia. Através desta noção, ele preconiza o recurso à geografia sagrada e à tradição na geopolítica contemporânea.

Para Dugin, a geopolítica não é uma ciência como qualquer outra. Se a alquimia e a magia desapareceram em favor das suas formas seculares modernas, que são a química e a física, a geografia sagrada dos antigos mantém-se viva através da geopolítica. Recordando a teoria do Heartland do geopolítico britânico Mackinder, Dugin faz da Eurásia a peça-chave da geografia sagrada. Com a Rússia no seu centro, a Eurásia encarnaria o último bastião da tradição no hemisfério norte, o único capaz de lutar eficazmente contra a modernidade.

06/06/2026

Ivan Ilyin - O Espírito Cavalheiresco

 por Ivan Ilyin

(1933)


"Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova em mim um espírito reto". Salmo 51:10


Através de todas as grandes discórdias dos nossos dias, no meio da catástrofe, da tragédia e da perda, nos conflitos e tentações, devemos lembrar de uma coisa e viver por ela: a manutenção e a propagação de um espírito de serviço cavalheiresco. Primeiro e acima de tudo dentro de nós mesmos, e depois, dentro dos nossos filhos, dos nossos amigos e dos afins. Devemos proteger este espírito como algo sagrado; devemos fortificá-lo naqueles em quem confiamos, nos que confiam em nós, e naqueles que buscam a nossa direção. Isto é o que devemos defender nos nossos líderes e pastores, insistindo e até exigindo. Este espírito é como o ar e o oxigénio da salvação nacional da Rússia, e onde ele acaba, implanta-se imediatamente uma atmosfera de podridão e decadência, aberta ou oculta no Bolchevismo.

03/06/2026

Werner Brauninger - Ernst Jünger frente ao Nacional-Socialismo

por Werner Brauninger

(1994)



“Anelamos do fundo do nosso coração a vitória do nacional-socialismo, conhecemos o melhor das suas forças, o entusiasmo que o leva; conhecemos o sublime dos sacrifícios que lhe são consentidos fora de toda a dúvida. Mas sabemos também que não poderá abrir-se um caminho combatendo… mais do que se renunciar a todo aporte residual saído de um passado terminado”[1]. Estas frases foram escritas por Ernst Jünger durante o verão de 1930. Por que, pergunta-se hoje, Jünger não encontrou o caminho aderindo ao movimento desse homem, aparentemente capaz de transportar e de impor as ideias de Jünger e do “novo nacionalismo” na realidade do poder e da política? Minha intenção, no que segue, não é uma análise meticulosa, profunda, sistemática da história das ideias. Aponta apenas a mostrar como uma personalidade individual e carismática do temperamento de Ernst Jünger, que celebrou seus 100 anos em março passado, pôde manter sua originalidade na era da Kampfzeit da NSDAP.