por Geydar Dzhemal
(2012)
Ao longo dos séculos, o tema do governo mundial foi objeto de fantasias políticas, sonhos e projetos entre muitos pensadores preocupados com a paz mundial e o bem-estar. O governo mundial parecia a panaceia para todos os males que afligem a humanidade. Na realidade, o próprio surgimento do conceito do governo mundial centralizado rompia com a Idade Média e abria caminho para as iniciativas que mais tarde foram batizadas como “Modernidade”.
Mas é apenas uma ilusão progressista pensar que tais concepções são o produto da mentalidade da Época Moderna. Na realidade, a ideia do governo mundial ou, mais exatamente, do “Rei do mundo” é uma ideia perfeitamente tradicional oculta, própria de muitos sistemas simbólicos. De maneira evidente, o governante do mundo está presente na metafísica budista e na teologia católica. Pax Romana – o Império Romano – também se fundamentava na ideia da união de todos os povos sob o comando de um único centro imperial. Antes de Roma, a tentativa mais significativa de criar o governo mundial foi realizada por Alexandre Magno – 300 anos antes de Jesus Cristo. Mais sucesso na mesma direção obteve Gengis Khan, cujo império durou mais tempo… Em outras palavras, a ideia de um mundo unificado governado por um só homem está presente na consciência religiosa desenvolvida e na prática histórica. Certamente, também os impérios coloniais de alguma forma formavam o governo mundial, sobretudo levando em conta que alguns deles eram governados por parentes.
Por trás da ideia do governo mundial sempre esteve a ideia monárquica, coisa natural se levarmos em conta seu caráter simbólico-oculto. Do ponto de vista dos portadores da consciência tradicionalista, a humanidade em qualquer caso está governada a partir de um centro oculto aos profanos, que de uma ou outra maneira controla os governantes e líderes das nações que estão à vista de todos. Embora aqui já entraríamos na conspiração…
Mas sim, indubitavelmente, existiu a intenção dos monarcas na véspera da Primeira Guerra Mundial de aproveitar o choque e o sobressalto provocados pelo enfrentamento bélico das nações europeias para se livrar das democracias parlamentares que coexistiam com o establishment monárquico em praticamente todo o mundo ocidental. Em essência, a ideia era muito simples: a culpa por desencadear a guerra era dos partidos políticos e dos banqueiros. No caso do bom termo deste plano, os monarcas – pais de seus respectivos povos – assumiriam o governo, dissolvendo os parlamentos e entregando aos tribunais os presidentes dos partidos e os deputados como inimigos da humanidade. Certamente, acaso não votaram todos eles pelos orçamentos de defesa, não votaram pela guerra?
O plano dos monarcas no início do século XX não funcionou. O curso da guerra escapou de seu controle e o lado vencedor foram os nacional-liberais. Em alguns países, o fracasso da “conspiração monárquica” derivou mesmo no fim do Antigo Regime.
A ideia do governo mundial “brilhou” com nova força com a criação da Liga das Nações e sobretudo já depois da Segunda Guerra Mundial com a fundação da ONU. Mas nesta nova etapa, o tema foi acompanhado do aparecimento no cenário político de uma nova classe – a burocracia internacional, uma realidade quase desconhecida até a Segunda Guerra Mundial.
O aparecimento da burocracia mundial representava o fim do liberalismo em suas formas clássicas, a chegada dos neoliberais a todas as estruturas de comando político e econômico e o ocaso da democracia eleitoral que parecia uma conquista inalienável da época moderna.
O próprio conceito de democracia foi mudando radicalmente ao longo dos últimos duzentos anos. No século XIX, sobressaltado pelas guerras napoleônicas e o posterior crescimento do movimento revolucionário na Europa, os monarcas se viram obrigados a mudar seu posicionamento na consciência das massas. O liberalismo e a difusão das ideias do Iluminismo francês entre os de baixo obrigaram a Igreja a se distanciar de assumir diretamente as decisões políticas do establishment monárquico. O rei continuava sendo o ungido por Deus, mas aparecia cada vez mais não como uma figura metafísica, e sim como um líder nacional. A figura coroada se convertia no símbolo da alma coletiva da nação. A nação, por sua vez, adquiria os traços de uma união mística, convertendo-se numa espécie de “igreja civil” alternativa. Em outras palavras, no século XIX, volta à história o fenômeno do paganismo político, característico do mundo pré-cristão, em primeiro lugar greco-latino. O paganismo político, relacionado com a união nacional mistificada (na qual os limites entre os conceitos de “nação” e “povo” vão se apagando até sua prática fusão) exige a democracia como a expressão ritual da mística da terra. Vox populi – vox dei – o inconsciente coletivo se converte num valor político e recebe voz própria.
Nesta circunstância, as monarquias são repensadas como a legitimação, a partir de cima, daquilo que representa a verdadeira fonte de direito a partir de baixo. É exatamente o que começa a ser chamado de “a monarquia burguesa”. Em seu espaço social, ocorre uma rápida marginalização da tradicional classe feudal dos proprietários hereditários da terra-guerreiros (nobreza meritória). Para o primeiro plano passa a aristocracia da corte, que não tem nenhuma conexão com o recém-aparecido eleitorado e que representa o contrapeso cosmopolita ao onipresente terceiro estado “que pensa em termos nacionais”. O monarca converte-se num mediador dentro do triângulo “Igreja – aristocracia – povo”.
A “Igreja civil”, que nasce do paganismo político das camadas baixas, rapidamente se transforma no assim chamado “corpo social”, que já no último quartel do século XIX se converte num sério estorvo para o velho establishment. O “corpo social” gera a “opinião pública”, cria precedentes para o desenvolvimento da mentalidade agressiva liberal, e a partir de um certo momento a iniciativa política abandona o palácio, transferindo-se para os parlamentos, tribunais de júri, redações dos grandes jornais etc. Trata-se do estágio inicial da democracia moderna.
A segunda etapa da ideia democrática começa quando a anterior chega à sua culminação lógica. Sobre a onda do fortalecimento da identidade nacional, nasce o nacional-liberalismo de extrema direita, que leva ao aparecimento de figuras carismáticas – líderes alternativos aos monarcas. A figura clássica deste tipo foi Mussolini, que ao longo de toda a sua carreira política posou como a alternativa nacional a Vítor Emanuel. Mussolini não tinha forças para livrar-se do rei e da Igreja e por isso teve que aceitar a Concordata – o acordo político entre o Vaticano, a monarquia e a burocracia do partido fascista. Outros tiveram uma situação mais vantajosa. Hitler acedeu ao poder depois de ter ganho as eleições. Era lógico que mantivesse o antigo kaiser no exílio holandês, eliminado para o Reich qualquer insinuação de retorno ao regime monárquico. Nos novos estados nacionais, surgidos após a desintegração da Áustro-Hungria, os líderes carismáticos tiveram-no ainda mais fácil, pois por trás das nações burguesas das novas formações praticamente não existia nenhuma clara tradição monárquica.
O princípio do Führer que triunfou tanto na ala radical-direitista da Europa, como no seu flanco radical de esquerda, foi a consequência lógica da primeira etapa emocional-nacionalista da democracia europeia, por isso o conteúdo do segundo período que começou imediatamente depois de 1945 está determinado pela principal preocupação do establishment de não permitir no futuro o aparecimento dos Hitler, Mussolini, Antonescu, Horthy ¡e tampouco de Stalin! Na realidade, o fenômeno do “degelo de Khrushchev” enquadrava-se dentro da reação das classes dominantes ocidentais perante a ameaça da nova personificação da alma coletiva popular na pessoa do herói histórico de plantão. Neste período, chamam “democracia” a sucessão de partidos tão parecidos como gémeos, todos eles encabeçados por insignificantes figuras cinzentas, incapazes de empreender nenhuma aventura desestabilizadora. A interminável sucessão dos primeiros-ministros em França antes de De Gaulle é o exemplo clássico e mais evidente do que ocorria na cena política mundial. Tanto Churchill como De Gaulle são vistos como figuras carismáticas, perigosas para a democracia, e são expulsos para fora de jogo. Nos Estados Unidos, suprime-se a possibilidade de terceiro mandato para o presidente; na URSS, condena-se primeiro o voluntarismo de Stalin e depois o de Khrushchev, e impõe-se o estilo de “direção colegial”. Neste período do desenvolvimento da democracia, a nação tem o direito de se expressar através de cautelosas nulidades que mastigam os estereótipos liberais politicamente corretos. A “alma popular” é desconstruída, a ideia de “nação” é racionalizada e reduzida ao conjunto de pessoas que possuem a mesma cidadania.
O verdadeiro triunfo da democracia começa com a chegada dos neoliberais e a emancipação da burocracia internacional do ditado imperial das grandes potências que haviam fundado a ONU. Nestas condições, leva-se a cabo uma drástica separação das esferas da legitimidade e dos plenos poderes. Por um lado, está o estado nacional – não é tão fácil removê-lo do caminho, pois internamente tem a corporação bastante poderosa da própria burocracia, assim como a “opinião pública” bastante ativa. Por outro lado, estão a legitimidade e os poderes dos acordos internacionais, convênios e convenções.
A maioria dos países assina todo o tipo de convênios, nos quais no primeiro ponto consta a sua prioridade com respeito às leis nacionais. Todos os acordos – tanto se tratam de direitos humanos como de expulsão de fumos tóxicos para a atmosfera – possuem a hegemonia jurídica e triunfam sobre a legislação nacional. Quando o procurador russo toma posse, pronuncia o juramento no qual promete cumprir as obrigações internacionais que têm força de lei no território da Federação Russa.
O que significa que a burocracia internacional, que está diretamente relacionada com a aplicação prática de todos estes acordos, está mais legitimada que os seus colegas da corporação das burocracias nacionais.
O que é a democracia nesta terceira etapa, a mesma na qual a ONU, a UE e a NATO levam toda a humanidade sobre as asas dos seus bombardeiros? A democracia atual significa a máxima transparência de cada país concreto perante o governo mundial. Chamam-lhe transparência informativa, transparência, direitos do homem, etc., mas a essência é a mesma: o território ocupado por uma determinada comunidade não deve representar um obstáculo para a vontade política das estruturas corporativas internacionais.
Para assegurar isto, é necessário que esta comunidade deixe de existir como tal e se converta no movimento browniano dos indivíduos atomizados. É necessário eliminar toda a mística que trate da “alma coletiva”, “sangue e solo” e demais “mitologia fascistoide”.
Os instrumentos ótimos para a desconstrução desta solidariedade étnica são o feminismo, o movimento gay, a contraposição de todo o tipo de minorias à maioria, etc. De maneira que se, nos começos da sua manifestação histórica, a democracia era o sinônimo da vontade da maioria, agora a democracia é diretamente o contrário: o desmembramento da maioria e a sua substituição pela arbitrariedade dos marginais e dos outsiders.
Logicamente, trata-se apenas de um período de transição. Numa determinada etapa, quando a maioria deixa de o ser, porque os mecanismos da sua solidariedade estão quebrados, desaparece a necessidade das minorias. Já agora podemos observar as primeiras manifestações da mais férrea ditadura que traz consigo o triunfo definitivo do governo mundial. A falta de direitos dos pais com respeito aos seus próprios filhos, a falta de direitos dos cidadãos perante as forças de segurança… Os direitos do homem transformam-se na falta de direitos que se vai multiplicando e já não encontra oposição por parte da protestação ideológica (que praticamente não existe) ou por parte da nação organizada (está de joelhos). Resta muito pouco – acabar com alguns últimos enclaves grandes das burocracias nacionais, que têm acesso às tecnologias modernas de defesa, e o governo mundial poderá dar-se por um facto consumado.
