por Claudio Mutti
(1997)
Na Hungria, circula uma espécie de "lenda evoliana". Nos anos 30, Julius Evola efetivamente esteve em Budapeste, onde proferiu uma conferência em Óbuda, no Castelo Zichy. De fato, o próprio Evola, no texto da sua "autodefesa", proferida em 1951 perante o Tribunal de Júri de Roma, afirma "ter sido convidado para falar em sociedades estrangeiras, abertas apenas aos principais expoentes do pensamento tradicional e aristocrático europeu"; neste contexto, citou expressamente a "Associação Cultural" da Condessa Zichy. As ocasiões para se deslocar a Budapeste não faltavam a Evola. A Hungria fazia parte dessa área de "países vizinhos" (vizinhos da Alemanha) nos quais Evola desenvolveu a sua "atividade propagandística", conforme um relatório secreto da Ahnenerbe aponta à atenção de Heinrich Himmler em 1938.
Uma coisa é certa, no entanto: os autores húngaros citados por Evola não são numerosos: há Endre Ady, Lajos Ligeti, Franz Lehár e alguns outros. Evola dedica, contudo, certa atenção a outros dois autores húngaros: Károly Kerényi (1897-1973) e seu aluno Angelo Brelich (1913-1977). Ele assinalou a existência destes dois autores aos leitores da Bibliografia fascista: Brelich por ocasião da tradução italiana da sua primeira obra, publicada por um instituto universitário de Budapeste, e Kerényi pela edição de Die antike Religion, publicada pela Zanichelli. Estes dois escritores húngaros nunca deixaram de receber as homenagens de Evola: Brelich publicará dois artigos nas colunas do Diorama Filosofico quindicinale, uma publicação dirigida por Evola para o Il Regime Fascista, enquanto Kerényi atraiu novamente a atenção de "Ea" (pseudônimo de Evola) pela sua Einführung in das Wesen der Mythologie.
Kerényi fundara em Budapeste, em 1935, um círculo literário, o "Sziget" (= a "Ilha"), com um escritor que foi o primeiro a ocupar-se seriamente da obra de Evola na Hungria: Béla Hamvas (1897-1968). «O meu mestre é Béla Hamvas» dirá dele Sándor Weöres (1912-1989), o Rimbaud húngaro. Em 1927, a Föváresi Könyvtár (a Biblioteca da capital húngara) contratou Hamvas como bibliotecário. Foi assim que tomou conhecimento de Revolta Contra o Mundo Moderno e de Imperialismo Pagão, obras cuja difusão assegurou, traduziu vários excertos, nomeadamente num dos seus ensaios de 1935, dedicado à "literatura da crise". Hamvas disse da obra de Evola: «Evola não é um especialista: não é nem um sociólogo nem um psicólogo nem um historiador, não se ocupa de gnoseologia, não privilegia o ponto de vista da biologia ou da estética ou da política ou da moral ou da filologia. O objeto do seu pensamento é o "inteiro"... e portanto o "inteiro" na crise».
Num artigo do ano seguinte também, Hamvas cita apenas os dois livros de Evola, Revolta... e Imperialismo Pagão. Em 1942, Hamvas publica um ensaio sobre Guénon, no qual "Leopold Ziegler e Julius Evola", constantemente associados um ao outro, são apresentados como os pioneiros de uma conversão necessária da inteligência europeia ao tradicionalismo. Em 1943, Evola é novamente citado em A láthatatlan történet (= A História Invisível), onde Hamvas escreve que Revolta... é "o seu maior livro". Entre 1943 e 1944, Hamvas escreve uma grande obra de síntese, Scientia Sacra. Sobre Evola, Hamvas diz que, com Guénon e Ziegler, o tradicionalista italiano forma a tríade mais significativa no campo dos estudos tradicionais. No entanto, segundo Hamvas, convém distinguir, na obra de Evola, os trabalhos de importância decisiva, como os sobre o indivíduo absoluto e sobre a tradição hermética, dos trabalhos como Revolta... e Imperialismo Pagão, que "dão a impressão de ter sido escritos de maneira precipitada".
Após a guerra, na sequência da condenação proferida pelo grande inquisidor György Lukács ("a prova viva da tolerância do regime" segundo uma curiosa opinião de François Fejtö), Hamvas é colocado no índice; é privado do seu posto de trabalho e rejeitado para a margem da sociedade. Alguns exemplares dos seus livros, contudo, conseguem escapar ao pilão e circulam sob o manto, alimentando uma cultura subterrânea cujos textos de referência são os de Hamvas mas também os de Evola. Assim, durante os anos do "socialismo real", pôde formar-se uma "segunda geração" de evolianos, cujo principal expoente foi András László e os primeiros tradutores húngaros de Evola, Franco de Fraxino e Renée Kelemen. O teólogo e filósofo László começou a proferir conferências em 1975 na ilegalidade para grupos de vinte a trinta pessoas, e é a este trabalho clandestino que se deve a emergência de uma "terceira geração" de evolianos húngaros.
A primeira tradução húngara de um excerto de um livro de Evola após 1944 provém de Máscaras e Rostos do Espiritualismo Contemporâneo. Surgiu em 1990 numa revista de inspiração antroposófica (Steiner), intitulada Harmadik Part (= Terceira Margem). Mas o evento decisivo para a difusão dos escritos de Evola teve lugar em março de 1991, quando sai em Budapeste Öshagyomány. Tradicionális Szellemi Mühely (= A Tradição Primordial. Laboratório do Espírito Tradicional), uma revista da "Escola da Tradição e da Transcendência", fundada um ano antes por Arpád Szigeti. Sob a direção do próprio Szigeti, Öshagyomány continuará a ser publicada até junho de 1995. Dos vinte fascículos publicados, onze acolherão diversos excertos de livros de Evola (de A Doutrina do Despertar, A Tradição Hermética, Metafísica do Sexo, Introdução à Magia e O Oriente e o Ocidente), a par de escritos de René Guénon, de Mircea Eliade e de outros autores, na sua maioria húngaros. Em 1992, a Escola inaugura uma coleção de livros, "os livros da tradição primordial"; edita assim Guénon, Schuon e um volume reunindo as traduções do Tao Te Ching, interpretado por Evola, e excertos de Máscaras e Rostos...
Sob a supervisão de László, Rudolf Szongott e Róbert Horváth fundam em 1994 a Arkhé, uma revista que curiosamente tem o mesmo nome da editora fundada em Milão nos anos 70 por um húngaro emigrado em Itália, László Tóth. Se a editora Arché de Milão, fundada por Tóth, publicou vários títulos de Evola, a revista Arkhé de Budapeste reserva desde a sua nascença um lugar de honra a Julius Evola. De facto, o primeiro número, imediatamente após a apresentação, abre com dois textos retirados de Introdução à Magia e de O Arco e a Clava, aos quais se segue um terceiro, também retirado de O Arco e a Clava, mas colocado mais adiante na revista. Outros excertos destes dois livros de Evola foram traduzidos nos números subsequentes da Arkhé.
Um longo excerto de Revolta contra o Mundo Moderno foi traduzido em 1995 para os Quaderni di Pendragon, uma revista editada pelas prensas universitárias de Debrecen e que se apresenta como um "periódico de espírito tradicional". Outro texto, retirado de O Arco e a Clava, ilustrado por uma foto de Evola e traduzido por Monika Imregh, surgiu no mesmo ano na elegante revista Noe. Esta é editada por um círculo cujo motor é o grupo musical Actus, que, num dos seus discos editado em 1995 e intitulado Das Unbenennbare (= O Inominável), introduziu uma passagem explicitamente inspirada em Evola: Der ewigliche Akt des Prinzips (= O Ato Eterno do Princípio). Ainda em 1995, por ocasião da tentativa de dar vida a uma Liga Panônica, flanqueada por uma Frente Panônica), mensário político dirigido por József Bognár, que, desde o seu primeiro número, alinhou citações de Evola. Nomeadamente, o seu n° 4 publica uma foto de Evola e publica uma entrevista com András László, onde este afirma que «René Guénon e Julius Evola... representam os fundamentos mais importantes da doutrina tradicionalista». No n° 5, Miklós Kórleónisz define Evola como "uma das maiores figuras do tradicionalismo espiritual e metafísico". No n°6, encontra-se um artigo de Evola sobre o Imperador Juliano. O n°7 publica em capa uma foto de Evola e acolhe um artigo de Gianfranco De Turris sobre a fortuna do evolianismo em Itália hoje. Em 1996, a editora Camelot inaugurou a coleção Regulus pela publicação de um folheto reunindo os escritos de Evola que têm como tema comum "a raça do homem em fuga".
Hoje, portanto, na Hungria, a obra de Evola circula em meios relativamente restritos, porque ainda não se encontrou lá uma editora suficientemente importante para assumir a sua difusão numa escala maior, dirigindo-se a um público mais vasto. Róbert Horváth escreve: «Nenhum indivíduo, nenhum círculo dos evolianos húngaros pôde ainda até hoje realizar o grande avanço. Sem dúvida, aquele que, na Hungria, fez mais do que todos os outros pela difusão das ideias de Evola é András László. Pelas suas conferências, uma nova geração chegou à idade adulta; os principais oradores deste círculo —Rudolf Szongott, Csaba Szmorad, Ferenc Buji, Tibor Imre Baranyi— puderam retomar o fio da Tradição espiritual e metafísica. Na medida em que estes homens puderam conservar a Tradição e desenvolvê-la, onde se concentraram no essencial, assistimos na Hungria a mais do que a simples divulgação das obras de Evola e a publicação dos seus livros. Ver-se-ão os resultados nos próximos cinco anos: a doutrina tradicional vive na Hungria, graças àqueles de quem acabámos de falar, mas também porque as pessoas veem os efeitos perversos dos fenómenos anti-tradicionais, pseudo-tradicionais e contra-tradicionais. Tudo isto concorre para um renascimento, com o nome e os ensinamentos de Julius Evola».
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