20/04/2026

Alex Graham - O Nacionalismo Cosmopolita de Ravel

 por Alex Graham

(2025)


Hoje marca o 150º aniversário do nascimento de Maurice Ravel, um dos compositores mais importantes da França. A música de Ravel é facilmente reconhecível pelo seu som sobrenatural e colorido e pelas suas harmonias e orquestrações inovadoras.

Tal como o seu aluno e amigo Ralph Vaughan Williams, Ravel era muito original, mas rejeitava o iconoclasmo popular entre muitos dos seus contemporâneos. A sua música destaca-se pela ênfase na melodia e pelo uso de formas tradicionais, assim como por uma sensibilidade claramente francesa.

15/04/2026

Collin Cleary - Que Deus Odin Adorou?

por Collin Cleary

(2011)



I

Introdução


Na Edda Poética, Odin narra sua descoberta das runas:


Sei que pendi da árvore fustigada pelo vento
Nove noites inteiras,
Ferido pela lança, consagrado a Odin,
Eu mesmo consagrado a mim,
Naquela árvore de que ninguém sabe

De que raízes ela se ergue.
Não me ergueram um chifre nem me deram pão;
Olhei para baixo –
Gritei em alta voz –
Agarrei as runas, agarrei-as clamando,
Dali caí novamente ao chão.[1]


Esta é uma das passagens mais famosas da Edda, e uma das mais misteriosas. Ela parece representar um ato de autossacrifício, através do qual Odin adquire as runas. Mas como Odin pode sacrificar-se a si mesmo? O que isto pode significar? Claro, se Odin é o deus supremo, o Pai de Todos, então não há um deus maior a quem ele possa se sacrificar. Mas isso dificilmente elimina o mistério. Se Odin é o deus supremo, por que ele precisa fazer algo para adquirir as runas? Por que ele já não as possui, simplesmente em virtude de ser Odin? E ainda assim, ele faz algo: sacrifica-se a si mesmo. Este ato (que dá ao termo “autossacrifício” um significado totalmente novo) sugere irresistivelmente que há uma dualidade em Odin; que existem dois “Odins”: aquele que tem o segredo das runas, e aquele que quer adquiri-lo. Neste ensaio — que é um exercício altamente especulativo na interpretação do mito — sugerirei que o Odin que fala nesta passagem, e em geral o Odin que nos é familiar, representa uma metade de uma divindade complexa: a metade que aparece. Odin é a “face” deste deus, que transcende as aparências e nunca nos aparece em sua totalidade.

10/04/2026

Joakim Andersen - Kafka contra Kafka

 por Joakim Andersen

(2025)


Franz Kafka (1883-1924) é um dos grandes escritores da era moderna, notadamente graças à sua variante particular do realismo mágico. Trata-se de alguma forma de um realismo social mágico, de uma mito-sociologia que evidencia a dimensão oculta e incompreensível do mundo moderno.

Coisas estranhas acontecem na vida quotidiana do mundo moderno: «Quando Gregor Samsa acordou uma manhã de seus sonhos agitados, encontrou-se em sua cama, transformado num inseto gigantesco». O Processo e O Castelo são descrições brilhantes da burocracia, mesmo que seus personagens principais sejam mais ou menos tão heroicos quanto os de Lovecraft.

07/04/2026

Kazuhiro Hayashida - Fronteiras entre as Civilizações do Altai-Amur e do Rio Amarelo

 por Kazuhiro Hayashida

(2025)


De acordo com a ortodoxia acadêmica, a pré-história japonesa é geralmente descrita como uma transição linear do período Jōmon para o Yayoi, entendendo-se este último como sucessor direto do primeiro. No entanto, na realidade, o complexo cultural Yayoi, caracterizado pelo cultivo de arroz, bronze e ferro, surgiu como uma fronteira civilizatória meridional que fluía das bacias dos rios Amarelo e Yangtzé, enquanto, ao mesmo tempo, no final do período Jōmon, também estavam a entrar no arquipélago elementos do norte do Amur, como motivos animais, práticas de caça e técnicas militares. Por outras palavras, as ondas de civilização provenientes tanto do norte como do sul penetraram no Japão de forma paralela e foi precisamente no seu ponto de interseção que surgiu um espaço cultural integrador. A razão pela qual o mundo acadêmico não reconheceu esta estrutura paralela é porque continua ligado a um modelo evolucionista simplista —«Jōmon = primitivo, Yayoi = progressista»— e, portanto, carece da perspectiva de situar estas fronteiras civilizatórias como contemporâneas. Sustento que apenas através desta compreensão paralela norte-sul se pode definir com precisão o Japão como uma zona de dupla fronteira de contato civilizatório.

05/04/2026

Geydar Dzhemal - Luta de Classes no Século XXI: Parte V - O "Islã Político" e o Governo Mundial

 por  Geydar Dzhemal

(2012)


Muitas pessoas acostumadas a que o Islã político é um fator antiocidental, não conseguem aceitar a coexistência e até colaboração entre o Islão radical e a burocracia internacional, que atuam conjuntamente em alguns pontos quentes do planeta.

Lembramos que no seu dia os Estados Unidos apoiaram a resistência afegã e a sua ala internacional contra o assim chamado contingente limitado soviético. (Ali foi, por sinal, onde se criou a marca da dita “Al-Qaeda”, que não é mais do que a nomenklatura dos comandantes militares de formato internacional, que podem ser mobilizados para as atividades militares em determinados lugares). 

03/04/2026

Claude Bourrinet - A Revolução e as Estrelas

 por Claude Bourrinet

(2025)


Para que haja revolução, não basta decretá-la, ou pensar que uma revolta (a dos Coletes Amarelos, por exemplo, seja suficiente), ou que uma crise económica vai empurrar a população para os seus últimos redutos (pelo contrário, uma ditadura feroz pode daí nascer e achatar qualquer sobressalto).

As revoluções nascem quando se tem um mundo a defender, ou um mundo a conquistar.