26/11/2018

Julius Evola - A Mulher como Mãe e a Mulher como Amante

por Julius Evola



Já comentamos que no domínio da manifestação e da “natureza” o masculino é metafisicamente, de fato, o correlativo complementar do feminino, mas que ademais ele reflete o caráter do que é anterior e superior à Díade. Sobre o plano humano disso deriva que enquanto todas as relações baseadas sobre a Díade tem para a mulher um caráter essencial e esgotam a lei natural de seu ser, este não é o caso para o homem, na medida em que ele é verdadeiramente homem. Tais relações são as relações sexuais em sentido estrito e as relações entre mãe e filho. Não é por erro que, em toda civilização superior, não se tenha considerado o homem como verdadeiramente homem até que haja sido submetido a este laço duplo, do da mãe e o da mulher, esgotando na esfera correspondente o sentido de sua existência. Já recordamos que nos próprios “ritos de passagem”, ou da puberdade, a consagração nos povos primitivos da virilidade e a agregação a uma “sociedade de homens” se apresentam como uma superação dessa esfera naturalista. A Raquel bíblica diz: “Dá-me um filho; senão, morro”. Há textos bíblicos que ressaltam a “inexorabilidade” da mulher enquanto afeita à maternidade e à sexualidade, das quais ela “jamais se sacia” (1). E não é tanto enquanto pessoa como por um impulso metafísico pelo qual a mulher tenderá a levar o homem sob o jugo de uma ou de outra.

21/11/2018

José Javier Esparza - Revisar Spengler: Da Filosofia da Vida à Filosofia da Crise?

por José Javier Esparza



Quando a sombra de um autor (um filósofo, um político, um poeta...) gravita sobre a alma de uma época que não é a sua, as razões podem ser de dois tipos. Um, o interesse dos mandarins do poder cultural por reatualizá-lo, relê-lo e interpretar suas ideias de acordo com a ideologia social oficial: lhe serão dedicados seminários na Universidade, artigos nos jornais de grande circulação, programas biográficos na televisão, etc., e finalmente será adaptado (digerido) pelo sistema; dois exemplos recentes: Ortega e Unamuno. O outro tipo de razões pelas quais um autor pretérito pode permear o ânimo de uma época determinada é a vigência de suas ideias, a retidão de suas intuições, a presença molesta de sua concepção do mundo nos foros onde se ventila qual há de ser o pensamento oficial: ele será ignorado, não se escreverá sobre ele nos jornais, nem se falará dele na televisão, mas suas ideias, como uma sombra fatídica, acompanharão os oradores do pensamento oficial obrigando-os a criticar continuamente as posições desse autor. Tal é o caso de Spengler, mais conhecido em nossos dias pelas críticas que dele se fazem do que pelas coisas que disse e pensou. Não obstante, é precisamente em seu pensamento que se encontra a chave de sua vigência, da pós-modernidade à epistemologia moderna, e passando pela literatura de antecipação. É neste marco que conceitos tipicamente spenglerianos como decadência (a da Europa), homem felash (o homem ocidental) e pessimismo (o nosso) encontram sua melhor acomodação. 

11/11/2018

Alberto Buela - Nem Direita, Nem Esquerda

por Alberto Buela



O lúcido pensador italiano Marcello Veneziani começa um belo artigo sobre o antiglobalismo com a seguinte observação: 

“Se você prestar atenção neles, os anti-G8 são a esquerda em movimento: anarquistas, marxistas, radicais, católicos rebeldes ou progressistas, pacifistas, verdes, revolucionários. Centros sociais, bandeiras vermelhas. Com o complemento iconográfico de Marcos e do Che Guevara. 

Logo te dás conta de que nenhum deles põe em discussão o Dogma Global, a interdependência dos povos e das culturas, o caldeirão e a sociedade multirracial, o fim das pátrias. São internacionalistas, humanitários, ecumenistas, globalistas. Mais: quanto mais extremistas e violentos são, mais internacionalistas e antitradicionais resultam”. [1]

Toma-se consciência de que a oposição a partir da esquerda à globalização é só uma postura que se esgota em uma manifestação. Seattle, Gênova, Nova Iorque, Porto Alegre, mas não acontece nada, “o mundo segue girando”, como dizia Discepolín. É que a política do “progressismo”, como observou argutamente o filósofo, também italiano, Massimo Cacciaria, ordena os problemas mas não os resolve. [2]

08/11/2018

Alfredo Abad - Nicolás Gómez Dávila: Um Interlocutor de Nietzsche

por Alfredo Abad



"Ler Nietzsche como resposta é não entendê-lo. Nietzsche é uma imensa interrogação". (Gómez Dávila, 2005c, 162)

Entre os livros da biblioteca gomez-daviliana(1), os de Nietzsche possuem uma presença definitiva. Encontramos a obra completa em sua antiga edição Musarion que inclui as obras de Nietzsche e suas cartas. Esta presença do autor alemão dentro das preferências de Dom Nicolás é significativa, não necessariamente pela presença física de seus livros na biblioteca, mas antes de tudo pela presença de seu pensamento na obra do colombiano.

As alusões diretas a Nietzsche ao longo dos escritos gomez-daviliana são muito escassas. Não obstante, o pensamento do exegeta é uma clara conversação que se enfrenta com a imanência contida na finitude estabelecida pelo filósofo de Röcken. Gómez Dávila dialoga com Nietzsche porque ambos autores de enfrentam com o mesmo problema: a transcendência e seu papel dentro do horizonte humano. A arremetida de Nietzsche frente à tradição confronta de forma indefectível Deus enquanto conceito central da metafísica do Ocidente, e certamente, as derivações que dele se desprendem, entre elas a subjetividade, a moral, a verdade. Não se trata só de um aspecto no qual dois pensadores assumem uma mesma ideia e cheguem a resultados distintos a partir de suas apreciações. Como Nietzsche, Gómez Dávila centra sua atenção sobre o Ocidente, ambos oferecem um panorama propício para identificar a sua origem, seu percurso, seu legado e certamente, seus resultados.

04/11/2018

Aleksandr Dugin - Sobre os Significados da História

por Aleksandr Dugin



Falemos sobre a História.

Em nossa sociedade, a crença mais comum acerca da História é de que esta se trata do conhecimento dos fatos passados. No entanto, essa não é só uma definição incorreta, como também completamente falsa: na realidade, não se trata nem de conhecimento, nem de fatos, nem do passado. O âmago da questão reside em outro lugar.

O homem vive no Tempo e, simultaneamente, em meio a um nexo de pensamentos. Pensamento e Tempo estão estreitamente vinculados, inextricavelmente entrelaçados entre si, de modo que são inseparáveis. Em outras palavras, todo pensamento (em um sentido lógico ou em um sentido geral) necessariamente se constrói a partir de um eixo princípio-e-fim, da premissa à conclusão. Logo, qualquer raciocínio, qualquer pensamento, é na verdade uma micro-história, caracterizada por um início, um processo de resolução, um resultado final e − o que é mais importante − um significado. O pensar pressupõe significado.