21/03/2026

Geydar Dzhemal - Luta de Classes no Século XXI: Parte I - Época Atual como Campo de Batalha entre Clãs Burocráticos Mundiais

 por Geydar Dzhemal

(2012)



Indubitavelmente, o maior mérito do marxismo consistia em que utilizava a “abordagem de classe”. Essa expressão específica define ao mesmo tempo várias posturas intelectuais. Em primeiro lugar, trata-se da doutrina da luta de classes. Representa o fundamento e o nervo do marxismo. Segundo esta doutrina, a humanidade, cuja principal ocupação consiste no intercâmbio de substâncias com o meio que a rodeia, divide-se em grupos que desempenham papéis distintos dentro deste intercâmbio. Diferenciam-se pela sua relação com o processo de produção e o consumo dos bens. No marxismo, as classes definem-se estritamente do ponto de vista da economia, de maneira “materialista”. No entanto, há que assinalar que o marxismo não consegue manter a pureza da sua abordagem materialista e tinge-se de entusiasmo irracional quando fala do papel messiânico libertador da missão do proletariado. Um segundo momento importante da abordagem de classe, além da própria doutrina, é a análise de classe. O que significa que, por trás do que ocorre na cena política, o marxismo busca a luta de grupos que perseguem os seus interesses de grupo concretos. Se se trata da história, apenas há que determinar em que época que classes estão a atuar. Por exemplo, seria estranho tentar compreender através das realidades da “Situação da classe operária em Inglaterra” (trabalho de Engels) a situação em Florença do século XIV: tratam-se de classes distintas! Mas se os atores de cada época estão determinados, a compreensão de qualquer acontecimento converte-se em algo fácil e divertido…

Após o colapso do sistema socialista, o marxismo ficou desacreditado tanto como ideologia política como método científico. A sua desconstrução começou pelo menos trinta anos antes do final formal da partocracia soviética. Por um lado, surgiu o fenômeno do eurocomunismo que desafiou a visão dogmática, oficial de Marx na URSS. Na Europa, começaram a acrescentar ao materialismo histórico a psicanálise, o existencialismo e, inclusive, o nietzscheanismo, preparando assim os coquetéis ideológicos dificilmente digeríveis para Moscou. Mas também o próprio Moscou era “bom”: depois de se livrarem de Khrushchov, os “anciãos do Kremlin”, doentes e desejosos de encontrar a tranquilidade, idealizaram a convergência com o capitalismo e mataram a mais viva célula do marxismo-leninismo – renunciaram publicamente à tese da ditadura do proletariado.

O Kremlin soviético anunciou que a luta de classes na URSS tinha terminado, o proletariado tinha-se convertido na classe operária, que ainda ocupando o privilegiado lugar central, se tinha tornado muito boa ao longo do meio século do poder soviético e já não queria ditar. Como que se tinha construído um estado popular para todos, no qual logicamente existiam diferenças entre distintos grupos (por exemplo, entre os professores e os pastores), mas que não eram tão fundamentais.

A sociedade global atual consome a experiência da história soviética a colheradas como uma medicina milagrosa. Um dos momentos mais importantes desta experiência é a compreensão de que a abordagem de classe acarreta um colossal perigo para a ordem mundial. Precisamente por isso, todos os recursos da mediocracia atual estão mobilizados para a lavagem cerebral do homem-massa mundial para o convencer do mito de uma sociedade comum, da causa comum, da solidariedade liberal de Strauss-Kahn com a empregada doméstica da Guiné e do pintor morto de fome com o príncipe do Mônaco. Todos vivem para a felicidade e o bem-estar no paraíso liberal, onde um por cento dos abastados possui 90% das riquezas da Terra.

Falar doutra maneira, assinalar qualquer tipo de desigualdade político-social nesta sociedade politicamente correta significa extremismo e discurso de ódio (hate speech). Metem-te na cadeia. A desigualdade só existe na horizontal e não na vertical: lamentável desigualdade de algumas minorias. Os gays ainda não são totalmente iguais aos heterossexuais, as mulheres ainda não neutralizaram totalmente o fator masculino, as minorias nacionais nalgum lugar ainda não dominam sobre a maioria étnica, mas luta-se contra isso. Qualquer tentativa de assinalar que na sociedade atual os poderosos não só não desejam o bem a tudo o que é vivo, como, convencidos, tendem para o mal, encontrará tais medidas de força e perseguição jurídica, que os tempos totalitários soviéticos, em comparação com os atuais, parecem cor-de-rosa.

Deve devolver-se à politologia atual a análise de classe como um método impecável. O problema consiste em que, em primeiro lugar, já não há classes que havia nos tempos de Marx ou, inclusive, do Stálin maduro. E em segundo lugar: também nos tempos de Marx a verdadeira natureza das classes se diferenciava da que figurava na sua doutrina.

É inútil agarrar-se ao materialismo histórico. Não aguenta a crítica lógica, porque os impulsos materialistas não formam história. A história é um motivo dramático que tem sentido e que pressupõe que dentro do Grande Tempo humano se esconde uma intenção. A história é o conflito entre os tipos de consciência, apenas velado pelos interesses egoístas. Na realidade, ainda Hegel assinalava que o Espírito universal utiliza os homens como instrumentos, implicando-os na ação através das suas paixões, desejos e interesses. Os homens pensam que estão a resolver os assuntos do seu sucesso pessoal e na realidade convertem-se nas marionetes do Espírito universal (Ideia).

O homem atual do socium liberal global está desclassado desde o início, independentemente da sua fortuna e estatuto social (a única exceção são o clero e a aristocracia hereditária, mas deles falaremos mais tarde). Está desclassado, antes de mais, porque está desprovido de estamento. Por outras palavras, não possui a moral estamental, ideologia, orientações que nitidamente determinavam uns ou outros grupos funcionais numa sociedade hierárquica vertical. Mas isto não quer dizer que o socium de hoje, o espaço político das megacidades, esteja desprovido de vertical. A principal divisão que salta à vista mesmo com uma análise superficial é a divisão entre o elemento desclassado, que não está organizado, mas sofre a organização e controle, e outro elemento, aparentemente também desclassado, que está organizado e que organiza e controla os demais. Numa linguagem simples, trata-se da polarização social entre a população e os funcionários.

O segredo desta polarização consiste em que, do ponto de vista antropológico-social, tanto o burocrata como o homem da rua pertencem exatamente ao mesmo tipo. Trata-se do desenraizado habitante da cidade, medianamente instruído, que na época pós-burguesa (após 1945) adquiriu novos direitos, possibilidades e liberdades. Para este lumpen de novo tipo – ao contrário do velho lumpen que eram proletários desempregados criminalizados – o desaparecimento no mundo ocidental do pós-guerra de uma nítida estrutura estamental representa, ao mesmo tempo, o desaparecimento da disciplina real. Os pais e avós do plâncton da megacidade anterior à guerra levavam pancadas em casa, as sova dos mestres na escola e conheciam o seu lugar social. Aqueles entre eles que conseguiam alcançar o posto de algum “mestre” respeitavam-se enormemente a si mesmos e ao sistema que lhes proporcionava o estatuto de “parafuso” para os converter em “pessoas”.

As gerações do pós-guerra lembram as partículas do movimento browniano: estão atomizadas, apenas se submetem à pressão da lei policial, são oportunistas ao máximo e orientam-se em maior ou menor grau para o parasitismo social. Por isso, a fronteira entre aqueles que ficam na rua – ou no melhor dos casos – nos insignificantes escritórios, e aqueles que acedem aos Gabinetes, determina-se apenas pela capacidade de disciplina e a disposição para manter as relações corporativas de comando e obediência. Fora destes gabinetes fica o lumpen desorganizado. No seu interior penetra o lumpen organizado. Como regra, este tipo de burocracia estatal forma-se a partir do elemento desclassado do qual menos gerações separam da “terra”. Por outras palavras, o burocrata nacional ainda se lembra do avô camponês.

A burocracia nacional afirma-se sobre três pilares, organicamente relacionados com a mentalidade campesina, que nas condições urbanas ou se decompõe ou se converte nas virtudes do aparato: anonimato, procedimento e disciplina. O procedimento é aquilo graças ao qual o burocrata tem o poder. É a barreira guarda-linha e por a transpor a burocracia estatal cobra o tributo à sociedade. A mercadoria que produz a burocracia é a assinatura de autorização no documento. O procedimento só funciona nas condições da disciplina mais estrita, quando todas as engrenagens da máquina estão perfeitamente encaixadas umas nas outras. No trabalho do aparato não há lugar para a iniciativa, arranques pessoais, ficam excluídos os altos e baixos psicológicos. Por isso, para a corporação burocrática, a presença de uma personalidade minimamente destacada é um pecado imperdoável. O mundo dos gabinetes é uma estrutura de rede, na qual estão sentados os zeros humanos que se comunicam telepaticamente uns com os outros.

A base comum que atravessa estas três posições – anonimato, procedimento e disciplina – é a ânsia de segurança, do previsível, arraigada nos genes campesinos. A segurança como garantia estatal do presente, como a pensão pelos anos servidos, como o inevitável da existência de um mesmo sistema estatal amanhã e depois de amanhã, graças aos quais o lumpen organizado se livra do terror existencial perante o meio natural, que para ele, como o novo habitante da cidade, se converte no imprevisível meio da megacidade.

A sociedade urbana, o lumpen desorganizado do grande mundo fora do gabinete – é o inimigo do funcionário do aparato, mas desde há algum tempo tem um inimigo muito mais terrível e real.

A nossa época de transição crítica caracteriza-se por uma cruel luta entre duas macrocorporações burocráticas. Por um lado, a já descrita burocracia nacional: exército de parasitas sem rosto, com raízes campesinas e as tecnologias procedimentais. Eles atuam num meio que compreendem, que fala a sua língua, vivem dos meios atribuídos pelos orçamentos, que se formam das bolsas dos seus concidadãos, tratam com o sistema político que entendem dos partidos e movimentos por trás dos quais está “o eleitorado”. As suas competências permanecem dentro de uns determinados limites e as relações com as corporações dos funcionários de estado de outras nações regulamentam-se segundo os procedimentos específicos internacionais que eles entendem.

Por outro lado, ao longo das últimas décadas, formou-se uma nova corporação de burocratas internacionais. Nos anos do pós-guerra, várias superpotências e grandes potências, que dividiram o mundo entre si, criaram para o governar as uniões supraestatais de tipo civil e militar, a primeira das quais foi, claro, a ONU. Num princípio, os aparatos dos funcionários destas organizações supraestatais dependiam totalmente das capitais imperiais que atribuíam os meios para o seu funcionamento. Mas pouco a pouco essas estruturas complicaram-se, cresceram e independentizaram-se praticamente por completo dos seus patrocinadores iniciais, convertendo-se em estruturas burocráticas independentes. A complexidade e o carácter multissetorial da burocracia internacional, o entrelaçamento das suas distintas subseções foram crescendo em avalanche ao longo das últimas décadas. Hoje podemos falar de pelo menos três tipos principais de burocracia internacional.

O primeiro tipo é a burocracia supraestatal, na qual entra em primeiro lugar o complexíssimo aparato da ONU e da sua filial humanitária – UNESCO. São os intermináveis comités e comissões, é – não esqueçamos – a dimensão militar (“missões de paz”), a educação, beneficência e a defesa dos direitos. A burocracia supraestatal é a que mais perto se aproximou do ambicioso projeto da formação do governo mundial. 

O segundo tipo da burocracia internacional é a sua seção interestatal. A ele pertencem os aparelhos das formações supranacionais regionais como a União Europeia, a Liga dos Estados Árabes, Organização dos Estados Americanos, etc. Paradoxalmente, essas estruturas têm mais liberdade burocrática que as formações globais que teoricamente estão por cima e pertencem à ONU: assim, por exemplo, na União Europeia os estados membros não têm direito ao veto. Não esqueçamos também uma secção especial da burocracia interestatal – a burocracia de uniforme que comanda os blocos militares. Apesar da desaparição do campo socialista, agora há tantos como há meio século.

E, por último, a burocracia não estatal. São os aparelhos dos fundos internacionais, das organizações benéficas como a Anistia Internacional ou Greenpeace, assim como as associações desportivas internacionais.

Estas três seções principais formam uma força que não tem as limitações das burocracias nacionais. Para eles não existem os eleitorados, orçamentos, políticos nacionais como os fatores com os que há que contar. Por isso, a burocracia internacional e a nacional estão separadas pela indubitável incompatibilidade dos interesses tanto econômicos como políticos. Têm diferentes donos, distintas fontes de financiamento, diferentes métodos de controle. E o mais importante – têm distintos conceitos de como manter a sua própria segurança. Hoje são como dois dragões que lutam entrelaçados num abraço mortal. A Líbia, o Egito, a Tunísia, que se transformaram ante os nossos olhos, são na realidade os campos de batalha nos quais a burocracia internacional venceu os aparelhos das soberanias nacionais.