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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Horacio Cagni - A Influência da História Clássica e da Guerra Antiga no Realismo Político Estadunidense

por Horacio Cagni[1]



Se bem o realismo político - tal como todo ismo - é uma expressão ambígua, no léxico político ele é um conceito central, que apela "ao modo de ser das relações de poder, consideradas independentemente dos desejos e preferências dos atores ou das teorias, mais ou menos explicitamente normativas, dos espectadores". É a realidade, então, a que opõe resistência aos desejos e pulsões subjetivas, uma realidade "que vale, apesar de sua finitude, mais que o desejado ou idealmente imaginado e, portanto, o real também é limite, dor e sofrimento" (Portinaro, 2007:18). Enquanto o realismo político, como o gnoseológico, se retrotrai à realidade - entendida de qualquer modo - , ele atribui a ela um valor positivo. Desnecessário dizer que esta escola de pensamento e de ação se nutre dos grandes ensinamentos da história.

Na atualidade existe a tendência a considerar a política externa da grande potência estadunidense, sobrevivente do mundo bipolar fenecido, como o produto de poderes indiretos que, através dos distintos componentes da constelação de poder, atuam no empíreo internacional com o embasamento puro e exclusivo da força. Não obstante, é fundamental considerar que o realismo político estadunidense, uma escola que, com altos e baixos, há duas décadas marca sua política internacional, tem bases teóricas complexas e firmes. Intelectuais relevantes como Hans Morgenthau e George Kennan antes, e Zbigniew Brzezinski e Henry Kissinger depois - muitos deles europeus emigrados aos EUA -, foram as mentes ocultas por trás do agir político de Washington no mundo. Resulta interessante relembrar outros pensadores, alguns de influência demonstrada na direita norte-americana, e outros, representantes do neoconservadorismo estadunidense atual.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Horacio Cagni - Spengler na América do Sul

por Horacio Cagni



O alemão Oswald Spengler (1880-1936) é um dos pensadores mais controvertidos do século. Sua morfologia das culturas, expressada em sua obra fundamental A Decadência do Ocidente (1918-1922) e outros livros, teve uma grande repercussão na produção historiográfica dos anos vinte e trinta, e uma enorme influência nas idéias da época, influência que se prolonga, com altos e baixos, até nossos dias. Filósofo da história, homem vindo das ciências exatas e da biologia, nunca se considerou um catedrático senão um educador, e particularmente um educador da juventude alemã, um expoente da realidade de sua pátria e da Europa de seu tempo, de uma época de profunda crise.

Spengler, que havia escrito a primeira parte de A Decadência em meio a grandes dificuldades, se converteu rapidamente em um dos personagens mais importantes do mundo intelectual germânico, e não só nesse âmbito. Era comentado pelos críticos, visitado pelos jornalistas dos mais variados países, criticados pelos catedráticos e assediado pelos curiosos, naquela Munique povoada de presságios.

É que o filósofo da decadência não se limitava a ser um frio especialista em culturas comparadas e suas leis homólogas, senão que também era um pensador sensível, lastimado pelos acontecimentos em que se encontrava sua amada pátria no pós-guerra, de modo que também, ao não querer ser um simples "pensador de escrivaninha", se converteu em um notável escritor político.

A recepção de Spengler na América do Sul foi bastante precoce. A morfologia das culturas do filósofo de Blankenburg, com suas oito culturas diferenciadas, coloca a ocidental como uma mais, e se bem Spengler afirma a preferência de si mesmo, adverte com clareza que o Ocidente, se bem domina a cena há séculos, não veio antes de outras formas culturais superiores, nem escapa à decadência implacável de toda civilização. Era uma crítica direta ao eurocentrismo. Precisamente, a obra fundamental do filósofo sai à luz no fim da Grande Guerra, quando os orgulhosos ideais do Iluminismo e as finezas da Bélle Époque haviam ficado enterrados no lodo das trincheiras. Spengler tinha preparado seu primeiro volume já em 1916, porém encontrou editor em 1918 e, se não produto da derrota alemã, seu êxito se deveu a um estado sombrio de ânimo, que se conjugava perfeitamente com o atraente título.

Essa sensação de finitude, de acabamento de uma grande civilização, que projetavam os horrores do conflito, motivou em muitos intelectuais sulamericanos - a maioria conhecia bem ao Velho Continente - uma série de reflexões sobre os tempos futuros. Saul Taborda, um argentino cordobês que havia estudado na Alemanha, exemplifica claramente esse novo espírito: "A Europa fracassou. Já não há de guiar o mundo. A América, que conhece seu processo evolutivo e assim também as causas de sua derrota, pode e deve acender o fogo sagrado da civilização com os ensinamentos da história. Como? Revisando, corrigindo, depurando e transmutando os valores antigos, em uma palavra, retificando a Europa. A Europa necessitava de colônias abundantes em produtos e riquezas, e colônias fomos até hoje e seguiremos sendo enquanto a cultura americana não seja outra coisa que um pálido reflexo da cultura européia. Revisar, corrigir, desfazer ou transmutar os valores europeus, custe o que custar, é a missão que nos compete nesse instante decisivo da história".

Ainda não havia aparecido o Tomo II de Decadência quando o Dr. Ernesto Quesada, antes que em nenhum outro lugar do mundo fora da Alemanha, dedicava todo o ano de 1921 à "sociologia relativista spengleriana", quarenta e quatro conferências ditadas em sua cátedra nas Universidades de Buenos Aires e La Plata. Não só estava inteirado o acadêmico argentino das teorias de Spengler, também conhecia as críticas aparecidas até então. Faz referência a inúmeras delas, principalmente na Alemanha, mas também às de Croce, na Itália, por exemplo. Pelo visto, Quesada estava em Buenos Aires inteirado até dos artigos dos periódicos; e aquela não era, precisamente, uma era de comunicações de massa.

Quesada pediu a Spengler que lhe enviasse um curriculum. O alemão respondeu através de um amigo do catedrático argentino: "Comunico ao senhor para o prof. Quesada os poucos dados que lhe podem ser de utilidade. Nascido em 1880 em Blankenburg, no Harz, estudei, no Ginásio - de conhecida filiação clássica - da Fundação Franke, na cidade de Halle. Cursei nas universidades de Halle, Berlim e Munique, dedicando-me às matemáticas e às ciências naturais, sem interessar-me mormente pelas disciplinas filosóficas. De 1908 a 1911 fui a Hamburgo e ali organizei as coleções de ciências naturais. Em 1911 renunciei, e me trasladei a Munique, onde - repentinamente e com assombro meu - 'encontrei' minha filosofia. Em relação a minha evolução mental pouco tenho a dizer, porque até então a filosofia era a disciplina que mais longe estava de mim. Na prática, as idéias de meu livro se baseiam principalmente na arte, na matemática e na história política, com poucas reflexões filosóficas puras. Mais que isso não saberia o que poder comunicar que despertasse interesse".

Apesar de Quesada fazer em seus cursos uma exposição quase literal da teorética spengleriana, com poucas anotações à margem, tem o mérito especial de ter vislumbrado a novidade e riqueza de idéias da Decadência, contribuindo de tal modo a sua difusão na Argentina e América do Sul, que conseguiu ser tido em conta por um homem tão distante como o próprio Spengler.

É sabido que a "morfologia das culturas" spengleriana contempla oito culturas distintas: egípcia, chinesa, babilônica, indiana, árabe ou magiana, antiga, mexicana e ocidental. Quando estuda algumas como a antiga, a magiana e a ocidental, os conhecimentos que demonstra possuir Spengler são enormes, mas estes se reduzem consideravelmente no caso particular da mexicana.

Foi então que o Dr. Quesada apresentou a Spengler elementos sobre as culturas americanas. Quando o renomado curso de 1921 apareceu anunciado no Münchener Nachrichten, o argentino recebeu uma carta que assinalava: "Spengler está vivamente interessado por tudo que se refira às culturas americanas e roga lhe envie uma bibliografia da questão em alemão, francês e inglês, pois não possui outros idiomas; encontra deficiente tudo o que conhece na literatura germânica. Lhe atrai especialmente a cultura maia e inca; tem o conceito, que deseja comprovar com dados fáticos, de que as culturas maias, aztecas e inca apresentam fenomenologia análoga que a grecorromana clássica. Quando à maia quiche, suas grandes cidades em Yucatán, com seus 300 a 400 mil habitantes, sepultados hoje sob o humus das florestas centroamericanas, demonstram um desenvolvimento artístico análogo ao realismo da plástica grega do último período porém carece de elementos suficientes de estudo e lhe interessa muito que o senhor lhe transmita o quando possa lhe servir a seu objetivo".

Finalmente, o próprio Spengler lhe escreve diretamente: "Dos informes que recebo de seu curso vejo que o senhor dá importância particular à omissão das grandes culturas americanas em meu livro. Da mexicana me ocupo várias vezes na segunda parte, porém me foi impossível obter material sobre as sulamericanas, não conheço nada de importância, suspeito que na América devem ter aparecido obras importantes porém estão escritas em espanhol, que não domino: em todo caso não encontrei nem rastro delas em nossas bibliotecas. Ficaria especialmente endividado com o senhor se pudesse me facilitar informação". É assim que o "mago das culturas" recorreu a um catedrático sulamericano para se informar sobre o acontecer histórico.

Na imprevisibilidade do acontecer universal, nada igual ao que ocorreu com as culturas americanas, abrupta a violentamente destruídas quando estavam em seu zênite, "como um transeunte esmaga uma flor; essa cultura é o único exemplo (se refere à mexicana) de morte violenta". E aponta a semelhança de sua evolução com a cultura antiga ou clássica: "precisamente um traço antigo, a falta de vontade de poder na técnica, é a que determinou a índole de seu armamento e fez possível a catástrofe. O mais terrível é que nem mesmo foi tal destruição uma necessidade para a cultura do ocidente; a realizaram de modo privado uns quantos aventureiros, sem que ninguém na Alemanha, Inglaterra e França suspeitasse do que se passava na América. Essa é a melhor prova de que a história humana carece de sentido".

Evidentemente, Spengler não tinha demasiada informação sobre a América; em rigor existia pouco conhecimento do mundo pré-colombiano e não havia muito publicado. Ainda quando na segunda parte de A Decadência - e por influência de seu colega argentino - se haja ocupado mais, com alguns breves porém interessantes aportes sobre o México, deixando os incas para algumas menções vagas. Dado que se refere a influências de culturas com alma própria sobre outras reais, pode-se deduzir que não considerava aos incas uma cultura absolutamente "própria" como a mexicana. Se faz outra reflexão, considerando "a história religiosa de incas e maias, perdida para nós" nascendo em épocas correspondentes a Alexandre e a ascensão do grupo de religiões mágicas no território situado entre o mundo antigo e a Judéia". Por outro lado, e apesar das dificuldades de interpretação, em A Decadência arrisca algumas homologias entre a cultura mexicana e outras desde uma época primitiva - Copán, Chichén Itza, Palenque - até um "helenismo" maia e a culminação na cultura nahuatl com o caráter urbano de Uxmal, a "romanização" e o "cesarismo" até a irrupção dos "bárbaros aztecas" e o final abrupto às mãos de uma barbárie ainda maior e mais heróica, a irrupção dos homens de Cortés, em meio a uma "segunda religiosidade" azteca, tanática e de vontade de morte, muito distanciada da religião maia "impregnada de espírito".

Spengler nunca esteve suficientemente informado para arriscar uma hipótese concreta sobre as culturas americanas. De todo modo, não interessa aqui aprofundar a concepção spengleriana das culturas americanas, senão comprovar a influência que a relação com Ernesto Quesada significou em suas indagações. Logo de seu extenso curso sobre a teoria sociológica spengleriana, o argentino foi visitar o filósofo da decadência em sua casa de Munique; assim se iniciou uma amizade muito proveitosa para ambos. Quesada difundiu as teses spenglerianas nos centros acadêmicos sulamericanos através de diversos escritos e conferências, e o alemão sem dúvida deve ter absorvido muitos dados de suas conversas com aquele, que não deixou de lhe observar o vazio existente em sua obra sobre o ciclo pré-colombiano. Ao menos a reflexão sobre Juan Manuel de Rosas - "uma poderosa figura de estilo prussiano representativo da aristocracia contra o jacobinismo" - parece impossível de não ter sido inspirada nos diálogos com o filho de Vicente Quesada, testemunha e protagonista daquela época.

O acadêmico argentino ficou muito impressionado por "esse monge leigo que vive em um par de cômodos repletos de livros, em um terceiro andar de um subúrbio silencioso, com um modesto letreiro manuscrito na porta de seu departamento, no qual pede aos visitantes que lhe comuniquem antecipadamente o objetivo de sua visita, por ter tão pouco tempo disponível".

Quesada assinalava a Spengler que os fenômenos sociais europeus eram distintos aos americanos, como o eram os asiáticos e africanos, portanto era importante estudar os fenômenos históricos pelos quais passavam as diversas agrupações sociais em suas manufestações vitais. Spengler sustentava que a cultura americana atual era uma prolongação da européia, cujas manifestações senis copiava, enfatizando o caráter materialista e o pensamento em dinheiro, quer dizer os arquétipos decadentes. O argentino replicava que isso era aplicável à América anglo-saxã e sua indústria, comércio e banca "cartaginesas", porém no caso da América do Sul, sem uma sociedade impregnada pelo fermento anglo-saxão, onde o elemento branco era uma minoria em relação aos descendentes das antigas populações pré-colombianas.

O argentino insistia no caráter distintivo da "Outra América", baseando-se na antiga cultura de Tiahuanaco, cujas ruínas havia visitado, para apontar que um novo ciclo cultural poderia ser americano, pois as forças que portantos anos haviam ficado em barbecho, agora podiam despertar. Recorde-se que uma das afirmações mais contundentes de Spengler é a de que o próximo ciclo cultural seria russo - uma mescla de elementos cristãos ortodoxos, bolcheviques e dostoievskianos - pois o russo pensa sem dinheiro, é uma alma religiosa, segundo desenvolve em Decadência, As Duas Faces da Rússia e Anos Decisivos.

Quesada sai à frente de seu colega, aventurando a possibilidade americana. "A lei histórica dos ciclos culturais leva a direção de Oriente a Ocidente, de modo que, após o ciclo cultural ocidental, hoje eminentemente europeu, deveria logicamente seguir um ciclo cultural americano, porém não anglo-saxão, senão sulamericano, com caráter claramente indigenista e não caucásico. Não admite Spengler tal possibilidade, porém lhe falta o conhecimento in situ do problema americano para poder compará-lo com o problema eslavo. Se a alma russa é alheia à cultura ocidental, também o é a alma indígena americana; se aquela, mais próxima à natureza que à civilização urbana é de índole comunitária e religiosa, coisa análoga sucede com a outra; se a população eslava tem que despertar para servir de fermento à nova vida cultural, parecida coisa teria que suceder com a população indígena americana. No fundo, a alma indígena americana é virgem como a alma eslava, porque vive em contato direto com a natureza e é refratária à civilização urbana, com todas as suas lacras físicas e morais; a situação espiritual é a mesma".

Quesada, é importante assinalar, insistia nos aspectos que faziam uma identidade cultural americana, pensamento, este, produto de sua raiz católica, fazendo observações a Spengler, de fé luterana, acerca do particular do destino americano e de sua distintiva memória histórica. As observações mais significativas do estudioso argentino se referem ao "relativismo não comtiano senão einsteniano onde a queda dos corpos não é vertical senão cuva de parábola, o tempo não é absoluto, o espaço é relativo" da teoria spengleriana, assim como ao contraste entre o campo, atemporal e tradicional, frente à urbe cosmopolita desencadeada.

Resulta curioso observar a coincidência entre as afirmações de Quesada - e a impressão que Spengler causou quando ambos se encontraram - e as de Adelqui Carlomagno, veterano jornalista argentino, que fez uma reportagem sobre o pensador de Blankenburg, publicada no diário La Nación, de Buenos Aires. "Me apresentei, simplesmente, me anunciando como um estrangeiro que desejava conhecê-lo; às cinco da tarde, sem nenhum tropeço, como deve ser, eu me enfrentava com um dos homens mais curiosos e extraordinários do po pós-guerra; é mais fácil se entrevistar com Spengler que com qualquer dos 'ases' que temos por aqui".

Carlomagno faz um retrato vívido do entrevistado: "Um desses sábios alemães que nossa imaginação concebeu e sobre os quais não admitimos variantes de nenhuma espécie. Cabeça quadrada e absolutamente rasurada, grandes e grossos óculos, pouca estatura e engenhoso sorriso germânico que muitas vezes supria as poucas palavras. Spengler me pareceu mais sábio ainda: declarou com certa ênfase que jamais havia sido professor de qualquer universidade nem pensava sê-lo. Em lugar principal, coroando a cena, se destacava, no conjunto severo e harmônico do despacho, um busto de Napoleão. O Dr. Spengler não falava mais que alemão e um pouco de italiano, nem francês, nem inglês; conversamos em italiano deficiente. Disse que quiçá em anos vindouros aceitaria um convite que já se havia feito para um ciclo de conferências pelos EUA, Argentina e Japão".

O jornalista recebeu de presente um retrato autografado e uma última edição de A Decadência, com uma estranha dedicatória e um pensamento: "no 'Imperium' dos séculos XX e XXI, quiçá um Imperador da América do Sul desempenhará um papel importantíssimo". Porém Adelqui Carlomagno não crê no ciclo americano: "Tão velhos como a Europa ao transplante do século XV, estramos como ela na velhice espiritual. A América cristaliza mais que a Europa a obra dos séculos padronizando no mecanicismo e na uniformidade modernas todo o acervo da velha cultura. Nossos amigos do norte o compreenderam há muito tempo, quiçá sem querê-lo, realizando o ideal mecânico, o último ideal de toda civilização. A Europa já é história, a América chegou tarde, quase não a tem. Não fazemos mais que imitar o definitivamente feito, elaborando novas idoelogias e propostas culturais, combinando o de sempre em um círculo vicioso. Só ficam possibilidades técnicas. Gentilmente, Spengler quisera que essa bandeira última da riqueza material, a organização e a técnica a leve alguém na América do Sul".

Mais além da interessante entrevista a Spengler, o fantasma da nova cultura que sucederá à européia se une, quase sempre, à visão "calibanesca" que os intelectuais sulamericanos tiveram sempre respeito pela potência do norte, visão acentuada desde o desenlace da Guerra Hispano-Americana de 1898. José Rodó, Rubén Dario, Miguel Cané, Paul Groussac e tantos outros, destacaram permanentemente a oposição entre as duas Américas, aquela do titanismo e esta enraizada, a seu juízo carregada de possibilidades futuras.

Os conteúdos políticos da teorética spengleriana não passaram desapercebidos a seus críticos, e em tal sentido hão de se compreender as objeções que desde o âmbito românico se fazem a Spengler. Enquanto os críticos anglo-saxões se preocupam pelas consequências antidemocráticas de suas afirmações, os franceses e italianos enfatizam a tradição marcadamente prussiana do filósofo, seu gosto pelo vitalismo nietzscheano, a aquisição - tipicamente alemã a seu juízo - de elementos das ciências naturais aplicadas às culturas, tudo o que, segundo eles, termina por se converter em uma doutrina mais do pangermanismo.

Nessa linha de pensamento, unido à crítica de orientação marxista, podemos encontrar a parte que dedica Spengler em suas reflexões sobre Heráclito um estudioso muito sério da filosofia antiga, como foi o italiano Rodolfo Mondolfo, exilado na Argentina. Sabido é que Spengler se doutorou em filosofia na Universidade de Halle em 1904, com um estudo sobre a concepção energética de Heráclito. Mondolfo foi um dos grandes especialistas no Obscuro de Éfeso. Em 1947 prologa a edição castelhana da tese do prussiano, traduzida por sua mulher, Augusta. O ensaio de Spengler constitui a interpretação mais puramente energética do efésio, apresentado como um ser isolado dos outros pré-socráticos, que buscavam um princípio substancial de todas as coisas. Heráclito, na interpretação spengleriana, afirma a idéia de um acontecer puro, desprovido de substância, regido pela lei da impermanência. Nada permanece na natureza nem na vida humana, só o puro devir, unívoco, incessante, em uma contínua luta de opostos. É indubitável que essa concepção foi a base de toda a reflexão de Spengler sobre as culturas e as distintas manifestações de seu espírito.

"A simpatia de Spengler por Heráclito - assinala Mondolfo - procedia das sugestões que acreditava encontrar para sua própria orientação, apesar de sua teoria histórica da incomunicabilidade mútua das culturas, que tinha nesse ensaio sua primeira afirmação. Não obstante, se associava a ela a idéia de um processo análogo dos distintos ciclos culturais, idéia pela qual Heráclito, sustentador aristocrático da luta como criadora de toda distinção real, tanto na natureza como na história, parecia justificar por antecipado a moderna pretensão do Herrenvolk alemão a uma dominação mundial. E para Spengler...revestia particular interesse a interpretação de Heráclito em sentido energético".

A visão de Spengler foi muito criticada nos círculos sulamericanos, onde a maioria de seus intelectuais eram de formação católica. Em outro artigo publicado em La Nación, Manuel Gálvez, pensador católico de notável influência no nacionalismo argentino, revisava a concepção das culturas do alemão, cuja obra, se bem a considerava uma interpretação nova, brilhante, poética e artística, "não poderia nunca ser escrita por um latino; é impossível para um latino aceitar suas doutrinas essenciais (não se pode englobar como cultura árabe oito séculos de cristianismo e a Santo Agostinho, por exemplo - fazendo alusão à idéia spengleriana da cultura magiana abarcativa do cristianismo oriental - modifica os quadros culturais a gosto, etc). Parece Ameghino - um antropólogo muito controverso - ainda que não tão absurdo e grotesco".

Para Gálvez, o desdobramento que Spengler realiza do cristianismo é um disparate, pois a religião cristã é uma só. E em um arrebato de latinidade "maurrasiana", considera a Alemanha um "país bárbaro" em comparação com os EUA, e até mesmo Goethe era "um jovem bárbaro, como dizia Maurice Barrés", a arte de Wagner também é "bárbara". A Alemanha fala de cultura e não de civilização porque "carece do bom gosto latino; em nome da cultural se cometeram na Alemanha atrocidades, combate pela cultura - Kulturkampf - foi chamada a campanha de Bismarck contra a liberdade e a existência da Igreja Católica". E continua: "Pois se isso não bastasse, Spengler se esforça em diminuir os gregos, os romanos e o Renascimento, e em engrandecer os hindus, os chineses e os alemães. Nos acreditávamos os únicos civilizados e eis aqui que outros, considerados por nós como bárbaros, resultam criadores de 'culturas', tão importantes quanto a nossa, senão superiores", para concluir: "não houve senão uma única civilização: a greco-latino-cristã".

As idéias de Gálvez, com suas afirmações apodíticas, emergem naturais e espontâneas, refletindo as premissas e limitações do nacionalismo católico, um fenômeno que não se circunscreve à Argentina, onde foi muito forte como influência intelectual e fracassou sempre politicamente. Outros pensadores católicos se ocuparam do pensador da decadência, sem chegar aos extremos de Gálvez. Por exemplo, o peruano Jorge del Busto Vargas, professor universitário, amigo e colaborador do mentor da intelectualidade católica do país andino, De la Riva Agüero.

Ao refletir sobre a civilização como estágio terminal de uma cultura, Busto Vargas assinala que "por essa tese se inclina, em nosso meio, o Dr. José de la Riva Agüero, ainda que sem participar do 'tom despectivo' com que Spengler fala da civilização. Para de la Riva, civilização é o estágio final dos processos sociais em que diversas culturas vem a se somar e compor o sincretismo dos últimos períodos". Quanto à crítica final de Busto Vargas, aponta o "elemento semítico frente ao grego em Spengler, porque não há uma idéia cíclica total senão um 'epígono sem brilho', quer dizer que o elemento cristão está deslocado". O epílogo é que, com sua tese da cultura inconclusa "Spengler resulta indigenista, é o fundamento teórico das correntes indigenistas, alheio à mensagem de Cristo e dos valores da cultura ocidental". Note-se que essa opinião é a antítese da de Quesada. Fica, uma vez mais, ao descoberto a profunda influência que tem as idéias, o lugar e a conjuntura histórica na formação acadêmica e cultural das pessoas.

Apesar de ter sido Spengler um escritor político muito comprometido e um crítico acerbo da República de Weimar - o que não significa que haja cerrado fileiras com o nacional-socialismo, como muitos lhe acusaram - suas idéias políticas foram, em geral, menos atendidas na América do Sul que sua obra principal sobre a morfologia das culturas. Não obstante, se conserva uma carta de Spengler, datada em Widermayerstrasse 26, Munique, 19 de janeiro de 1927, a propósito de uma tiragem limitada de Prussianismo e Socialismo, dirigida a um tradutor desconhecido em Buenos Aires: "Muito estimado Sr. B. Tenho que lhe agradecer muito especialmente seu envio e o trabalho que você se tomou com meu pequeno escrito. Eu mesmo não domino o idioma espanhol, porém outros que leram o manuscrito não economizaram elogios. Falando em termos gerais, esses pequenos trabalhos políticos são compreensíveis somente do ponto de vista alemão e destinados somente para a Alemanha. Porém, dado o interesse que a obra maior encontrou nessa, devido especialmente à atividade de Ernesto Quesada, creio que também Prussianismo e Socialismo, que se relaciona com aquela, será julgado adequadamente. Portanto estou muito de acordo em que sua tradução, talvez com uma introdução sua, saia nas publicações das universidades argentinas. Seria talvez conveniente aludir ao conteúdo dos outros dois escritos: Reconstrução do Reich e Deveres Políticos da Juventude Alemã, que de certa maneira formam a continuação. Se você não os possui terei um prazer especial em enviá-los. O saúdo com a maior consideração. Spengler".

Ao ser editado na Alemanha Anos Decisivos, cuja fama eclipsou momentaneamente A Decadência, saíram um par de artigos em La Nación que não só eram elogiosos, senão claramente partidários do novo regime instaurado na Alemanha, coisa estranha em um diário de raizame tão liberal. Claro que eram tempos muito distintos: "Spengler é um educador político, no sentido em que se chamou a Hegel de educador da geração de Bismarck. A guerra mundial (primeira) destruiu o equilíbrio de estado dos grandes estadistas, não solucionou nada, apartou a Rússia da Europa e asiatizou a luta interior que começou com a 'Inglaterra interna' seguiu com Karl Marx. Em 12 de outubro de 1910, milhares de jovens procedentes de todos os lugares da Alemanha se reuniram no Hoher Meissner na Turíngia, e logo de uma deliberação intensa, condensaram sua vontade em uma fórmula: a juventude alemão livre quer, por própria determinação e responsabilidade, plasmar sua vida com sinceridade íntima.

Lutavam contra o esnobismo e o materialismo, produto da trivialização espiritual. Era Nietzsche, que privava contra Marx e Haeckel, mais ainda contra o positivismo. Não era questão de mudar a constituição, senão de se libertar dos resultados errôneos da civilização materialista. Os chefes dessa juventude foram Moeller van den Bruck e Oswald spengler, que assinalava: não há que reclamar direitos senão obrigações, a liberdade é serviço e não despreocupação, a comunidade é superior ao indivíduo". E o autor da nota faz uma longa exegese de Reconstrução do Reich Alemão e uma demolição prolixa do parlamentarismo de Weimar, para terminar com um elogio do Reicharbeitsdienst.

Algumas das reflexões sobre Spengler foram essenciais, e tentaram transcender os aspectos ideológicos, ainda quando quase sempre evidenciavam seus embasamentos, premissas e pontos de partida. Cedo, em 192, o decano dos filósofos uruguaios, Aquiles Oribe, pronunciou um discurso na Universidade da República, em Montevidéu, por motivo do primeiro aniversário da Junta de História Nacional, à qual pertencia, dedicado à doutrina spengleriana. É uma vasta e muitas vezes tediosa exposição sobre todas as idéias filosóficas, científicas, e políticas clássicas e aquelas em voga por então, muito a gosto com a retórica academicista e erudita da época. Expoente natural do ideal positivista de sua pátria, Oribe denuncia a doutrina de Spengler como "determinista em sua essência ideal e tradicionalista, e nacionalista em suas consequências imediatas, o homem ocidental tem como característica lutar contra o destino. Na filosofia spengleriana falta por completo este sentimento tão típico do homem moderno: a liberdade como princípio de ação. Temperamento imperialista, a leitura de seu livro sugere a impressão de estar escrito em defesa dessa doutrina: ao homem ocidental chegou a hora do imperialismo, por exigência de uma cultura que decai. Spengler quer desvirtuar o que é impossível, negar o confirmado pela história: a lei da harmonia da civilização, a do progresso que marcha com o mundo, que leva a humanidade a um fim, que nunca poderá prever nossa finita e limitada inteligência".

Lançando mão de Metchnikoff, Niebuhr, Altamira, Forner, Darwin, assim como Napoleão, José de San Martín e São Tomás de Aquino, o uruguaio tenta demonstrar a primazia da ciência, da iniciativa e da vontade no desenvolvimento humano e a importância dos grandes homens que contribuíram eficazmente para o desenvolvimento histórico: "O homem é, pois, o sujeito da história". Uma vez mais, a importância do contexto em que se desenvolvem acadêmicos e pensadores resulta de importância crucial.

Por outra parte, em um capítulo dedicado a Spengler em um ensaio, José Maria Rosa critica o conceito de afinidade morfológica na teorética do prussiano, pois dita maneira de expressar a arte, a arquitetura e as matemáticas muito pouco tem que ver com as nações que se agitam na história. "Pois a história - sustenta Rosa - é história do social; a história não é a evolução humana senão a evolução social. Em todo caso, a morfologia spengleriana é uma morfologia, talvez genial, da história do pensamento individual, não da história em si".

Para Rosa, a idéia spengleriana de cultura se situa fora do social, na medida em que é uma unidade de pensamento individual, portanto estranha à nação. "Uma nação é, para nós, uma unidade do pensamento coletivo: a exteriorização na ordem social de um culto religioso...a nação é o verdadeiro culto religioso, opomos a nação à cultura spengleriana, com a mesma oposição que distancia o social do individual, a religião do profano. Não é rigorosamente exato que os homens somos impotentes perante o determinismo da história: não podemos nada como homens, mas podemos tudo como sociedade".

É sabido que tanto a monarquia, o deísmo e seu Deus nacional, como as teologias políticas secularizadas, o culto abstrato à pátria e suas tradições, podem constituir elementos de aglutinação e coagulação nacional. Note-se que, enquanto por então a Alemanha - já no Terceiro Reich - possuía um forte culto nacional, na Argentina os intelectuais, escritores e artistas estavam buscando a coagulação identitária e coletiva, em uma época de incertezas e problemas, que só se conformará razoavelmente com a vinda do peronismo. A este espírito corresponde a contribuição de Rosa.

Pela mesma época, o filósofo Francisco Romero, discípulo de Alejandro Korn e catedrático das Universidades de Buenos Aires e La Plata, dedicava umas páginas, em geral elogiosas, ao autor em questão. Coincide com Ortega y Gasset em que, se bem Spengler carecia de originalidade, pôs marca própria em suas meditações, baseadas nos eternos temas fundamentais: "mais de uma intuição profunda sua está já passando ao domínio comum como logro definitivo; setores parciais de sua obra podem ser desmontados do conjunto e conservam isolados todo seu prestígio". Resgata Hans Freyer (Sociologia como Ciência da Realidade, 1930) que sustenta que Spengler sente "o íntimo conflito a cuja tensão atribui a nervosa vitalidade e fecundidade do pensamento spengleriano: o contraste entre a condição solitária e perecedora das culturas, e a plena e concreta realidade atribuível ao devir histórico".

Para Romero, a visão organicista de Spengler coincide com a de Leo Frobenius, e critica esse biologismo que leva a conclusões radicalizadas: "este autor contribuiu mais que ninguém antes que ele a que o homem dessa cultura se compreenda e eleve a plena consciência de si. O discutível é se essa alma ou princípio vem desde tão longe quanto ele imagina, e se o fáustico é um motivo último. Quanto ao final obrigado e à não transmissibilidade das culturas, suas conclusões são, pelo menos, prematuras". Romero menciona um autor então muito renomado, Spranger, o antepondo a Frobenius e Spengler, pois a biologia moderna sustentará que as linhas de evolução ora se truncam, ora se prolongam. Ao não se propor o problema do espírito, o irremediável conflito entre o espírito e a vida, a Spengler resta um legado amargo - "o homem é um animal de rapina" - dirá em O Homem e a Técnica, uma resposta a O Lugar do Homem no Cosmo, de Max Scheler, "um testamento, uma trágica vontade de negação".

Conjuntamente com a Argentina, foi Chile o país em que Spengler teve a recepção mais favorável. Na década de trinta apareceram várias edições de suas obras na capital, Santiago: A Decadência do Ocidente  (Ed. Osiris, Biblioteca de Autores Célebres, 4 volumes); O Homem e a Técnica (Ed. Cultura, 1934); Prussianismo e Socialismo (Edições Nacionais e Estrangeiras, 1935); Anos de Decisão (Ed. Ercilla, 1937) e Seis Ensaios (Ed. Mundo Novo, 1937, é a tradução dos Politische Schriften, sem Prussianismo e Socialismo, substituído por outro referente às relações entre economia e política fiscal desde 1750). Não há que esquecer que, por então, o Chile vivia uma forte influência de idéias filofascistas e nacionalistas revolucionárias, abonando um terreno favorável à difusão da doutrina política spengleriana.

Também do Chile provém um dos estudos mais sérios, e o mais exaustivo como exegese no âmbito sulamericano, da teoria spengleriana, a cargo do professor Armando González Rodríquez, cuja obra se divide em três partes, as duas primeiras referentes à morfologia das culturas e a restante às idéias políticas de Spengler. A leitura do livro quase permite dizer que poderia sublinhar a das obras do prussiano, tal o grau de sistematicidade e clareza da vasta exegese do chileno. Quiçá ali também estriba o ponto fraco dessa contribuição, os poucos acréscimos próprios à temática, assim como quando toma partido como pensador cristão, quase sempre em notas no pé da página. O próprio autor, na Introdução, assinala que não pretende mais que fazer uma síntese da obra spengleriana. Não obstante, algumas observações são muito pertinentes.

Por exemplo, quando observa que Spengler, que tão convictamente reconheceu sua dívida intelectual com Goethe e Nietzsche, não menciona a Vico entre os 600 nomes citados em A Decadência (Rosa e Romero, entre outros, fazem a mesma observação) ou como quando aponta: "em suas primeiras obras sobre o número já Spengler antecipa duas de suas características mentais: a tendência às afirmações rotundas e apriorísticas, que não se cuida de demonstrar e abandona à credulidade do leitor e o gosto pelas interpretações místicas, esotéricas (por exemplo ao afirmar 'a existência dos números é um mistério')".

Quando repassa as afirmações apodíticas de Spengler sobre a máquina, assinalando-a como uma usurpação dos poderes divinos, uma coisa demoníaca, para um crente o destronamento de Deus, o chileno sustenta: "essa afirmação é de uma verdade atual e permanente com relação à fé cristã. Porque, no melhor dos casos, a máquina serve para ajudar o homem nos afazeres de sua existência material, para lhe dar comodidade e bem-estar o cristianismo autêntico deve se desentender: a máquina serve ao sentido hedonista e naturalista da existência, o que nos inspira Satanás". Ou bem: "não pareça inverossímil aos leitores o agnosticismo tão radical de Spengler. Em maior ou menor grau constitui, por dizer assim, a tônica do pensamento moderno; é um pensador agnóstico, subjetivista, tão radicalmente quanto é possível sê-lo não obstante, seu temperamento era de um metafísico, portanto, recorre a noções e explicações metafísicas em última instância ou, se preferir, para encobrir uma absoluta ausência de explicação".

À luz da experiência histórica do pós-guerra, González Rodriguez arrima outras críticas: a, em sua opinião, flagrante contradição do alemão ao sustentar em Decadência que "a literatura não pode alterar o curso dos acontecimentos", e em Anos Decisivos "lhe reconhecer um papel enorme nos movimentos políticos da Ásia e África", ou bem ao avaliar suas profecias. "Uma profecia a curto prazo sobre a Rússia já se demonstrou falaz. Nos disse que o regime soviético não resistiria a uma derrota, nem mesmo a uma vitória. Igualmente errou ao julgar o Japão quase invulnerável, e não menos ao afirmar que povos como a China e a Índia, fellachs, já não poderiam voltar a desempenhar um papel de primeira magnitude na história. Um de muito maior vulto foi o erro de prognóstico sobre os Estados Unidos, ao qual não assignava nem passado nem futuro (Anos Decisivos). Decididamente, as profecias a curto prazo são perigosas". As observações parecem óbvias, e, não obstante, a dinâmica do acontecer universal é sempre tão mutante; ao menos em relação a Rússia, do papel do Japão e da expansão e limites do poder atlantista, a roda dos tempos parece estar girando uma vez mais.

Pela mesma época, o catedrático de filosofia León Dujovne também fez um estudo bastante pormenorizado da obra principal de Spengler, mas também de sua tese sobre Heráclito e outros livros menores. Encontra a influência de Flinders Petrie e sua obra As Revoluções da Civilização (1911), assim como do Conde de Gobineau e seu Ensaios sobre a Desigualdade, que reafirma a decadência inelutável. Nas questões do dia, "o texto de Prussianismo e Socialismo justifica em medida ainda maior que o de A Decadência a inclusão de Spengler entre os doutrinários da Revolução Conservadora alemã. Este é o título de um livro de Edmond Vermeil, no qual um extenso capítulo dedicado a Spengler demonstra como em Decadência aparecem idéias que são um prelúdio de O Mito do Século XX de Alfred Rosenberg, um dos principais teóricos do Nacional-Socialismo de Hitler". A crítica central de Dujovne é que "Spengler quer descrever como é a história da humanidade e com sua morfologia histórica no fundo a nega, porque exclui da vida humana a esperança do futuro, esperança que parece inseparável do símbolo primário da cultura do ocidente, sobre tudo do cristianismo ocidentalizado".

Por último, com só quatro páginas de crítica entre trinta e cinco dedicadas ao prussiano, Dujovne se lamenta que "o continente americano não conta nem para o exame da cultura do ocidente nem para as visões proféticas de Spengler. Alguma alusão aos Estados Unidos da América do Norte não diminui a impressão geral que se recolhe de seus escritos e dos quais resultaria que nosso continente, apesar de suas riquezas naturais e de sua população humana não é um fator ponderável no destino do mundo".

Finalmente, nos anos setenta, os politólogos Vicente Massot e Horacio Cagni publicaram em Buenos Aires uma obra sobre o pensador fáustico, abarcando os distintos aspectos de sua teorética, que teve certa repercussão nos meios acadêmicos nacionais e, inclusive, no exterior. O segundo dos nomeados escreveu outros ensaios sobre a discussão de idéias em torno ao pensamento de Spengler. Paralelamente, o diário A Nova Província, de Baía Branca, publicou um conto inédito de Spengler em castelhano - O Vencedor - escrito em 1910, ambientado na guerra russojaponesa de 1904-5.

Voltando a Quesada em relação aos tantos críticos de Spengler, sempre reivindicou a seu colega alemãos frente aos acadêmicos de então, especialmente os neokantianos, o grupo mais numeroso dos críticos de A Decadência. Perguntando-lhe o argentino ao alemão, em Munique, porque não respondia às críticas e guardava sempre silêncio, este lhe teria respondido sorrindo: "não teria nem tempo nem calma para prosseguir meus trabalhos, se assim o fizera; meu livro deve se defender somente e se bem não desconheço a ninguém o direito de julgá-lo como melhor entenda, ao invés não me considero obrigado a entrar em polêmica com meus críticos". Pelo visto, o prussiano não seguia as regras desse esporte alemão que, ao dizer de Treischke, consistia em trasladar as discussões acadêmicas ao plano pessoal.

Por sua vez, Quesada era um dos últimos expoentes de uma brilhante geração argentina. Os tempos da nação opulenta, dona da metade do PIB sulamericano, com classes dirigentes altamente preparadas, que passeavam seu brilho intelectual pelas academias de todo o mundo - e sua frivolidade pelos salões parisienses - estavam chegando a seu fim. Diferentemente da maioria da intelectualidade sulamericana de então, Quesada havia estudado na Alemanha do Kaiser, não em Londres ou Paris; sua segunda esposa, Leonora Deiters, era alemã. Por iniciativa sua foi criado o Instsituto Iberoamericano de Berlim e sua revista correspondente Arquivo Iberoamericano, sendo nomeado professor honorário da Universidade da capital alemã.

Quando Spengler decidiu em 1927 tirar umas férias pela área mediterrânea - tinha transtornos cardiovasculares e circulatórios que finalmente o levaram à morte - não pôde menos que se encontrar com o matrimônio Quesada em Avignon, onde lhes expôs suas "perguntas fundamentais", que estava escrevendo. Em 1933 o prussiano volta sobre o tema das culturas americanas em um "número especial Quesada", do Ibero Amerikanische Archiv, no qual reconhece que, a diferença das demais culturas regularmente estudadas, dessas não se sabe praticamente nada, devido à imprecisão de sua cronologia e dos resultados arqueológicos.

Quesada, que havia nascido em 1858, se teria retirado de toda atividade e ido viver na Europa em 1928, morrendo na Suíça seis anos mais tarde. Com Spengler seguiu vendo-se no ínterim, inclusive em uma oportunidade em Munique - ainda quando não podemos constatá-lo fidedignamente - se reuniram com o recordado Coriolano Alberini.

Morto Quesada em 1934, se conserva uma carta de Spengler dirigida à esposa, Leonora, na qual se faz eco de seus problemas de saúde e econômicos, porém lhe diz que não pode ajudá-la muito, se bem está disposto a visitá-la em Munique e ver assim de contribuir de alguma forma. É um final triste para uma relação tão frutífera para dois espaços geoculturais tão vastos.

Ainda que muitos foram os que se ocuparam de Spengler na América do Sul, ninguém representou a ponte que entre Velho e Novo Continente significou Dom Ernesto Quesada, cuja morte seu colega prussiano sentiu particularmente. Na sexta-feira 8 de maio de 1936, apenas ingressadas as tropas italianas em Addis Abebba, falecia por sua vez o pensador prussiano. Então Jorge Luis Borges escreveu uma elegia notável, breve e comovente. "Seis anos tardou Spengler em escrever A Decadência do Ocidente. Seis obstinados anos, em um bordel de Munique, em um lugar sombrio que dá a uma pobre paisagem de chaminés de telhas manchadas. Então, não tinha livros. Passa as manhãs na biblioteca pública, almoça em refeitórios para operários, toma, quando está enfermo, vastas e ardentes quantidades de chá. Até 1915 termina a revisão do primeiro volume. Não tem amigos. Secretamente se compara com a Alemanha, que também está só.

No verão de 1918 A Decadência do Ocidente apareceu em Viena. Suas páginas varonis, redatadas no tempo que vai de 1912 a 1917, não se contaminaram nunca do ódio peculiar desses anos. Em 1920 começou a glória. Spengler alugou um departamento sobre o Isar, comprou com amorosa lentidão milhares de livros, colecionou armas persas, turcas e hindus, escalou altas montanhas e se negou à persistência dos fotógrafos. Escreveu sobre tudo. Oswald Spengler morreu em meados desse ano. Sua concepção biológica da história se poderá discutir, mas não se estilo esplêndido".

Spengler no segundo pós-guerra foi quase esquecido. A razão profunda podemos rastrear no auge da sociedade ocidental, particularmente do ocidente americanizado, se bem Spengler nunca incluiu os EUA em sua concepção do Ocidente. Quiçá há algo de razão em dizer que Spengler foi deixado de lado por ter se oposto às idéias e tendências vigentes na sociedade contemporânea, e que resultaram vitoriosas. Porém o pensador da decadência renasceu nas últimas décadas, toda vez que os temporais não deixaram de cingir sobre a civilização ocidental, agora expandida a escala planetária, e que não resolveu nenhum de seus problemas logo do fim do bipolarismo, ao contrário ainda inaugurou outros.

Em síntese, a recepção de Spengler na América do Sul foi ampla, porém em geral sua teoria não foi tratada com profundidade. O filósofo da decadência vinha a denunciar a queda da Europa, sua retirada como primeira figura do empíreo mundial, e para muitos pensadores sulamericanos supunha a possibilidade de tomar a posta na renovação dos ciclos culturais. Os círculos católicos do Novo Continente se enfrentaram com as idéias de um homem que supunham agnóstico, enquanto aos positivistas lhes molestava seu relativismo. Em todo caso, a teorética spengleriana abria muitas questões angustiosas em relação ao futuro de um continente que desesperadamente buscava - e ainda busca - encontrar uma identidade definitiva e uma inserção no contexto mundial, segundo suas inegáveis potencialidades e valores. E ninguém como Ernesto Quesada significou essa viagem de ida e volta entre dois mundos debruçados sobre um passado difícil e um futuro enigmático.

Em cumprimento do testamento de Dom Vicente G. Quesada, seu filho Erneste tentou doar a biblioteca conjunta de ambos - quase 82 mil volumes, especializados em temas sulamericanos, ademais dos documentos de família, testemunhos dos principais eventos da história diplomática argentina - a instituições de seu próprio país. Nem a Universidade de Buenos Aires, nem a Biblioteca Nacional resolveram nada, e inclusive argumentaram falta de espaço para o legado. Quesada, jubilado em 1921, em uma viagem à Alemanha em 1927 começou as gestões para situar a Biblioteca ali. Em carta a Rómulo Zabala de dezembro de 1929, Quesada sustenta ter a consciência tranquila ao levar seus livros e documentos tãl onge, visto o fracasso em seu país.

O Ibero Amerikanisches Institut de Berlim se iniciou em 1930 com a doação do fundo Quesada, ao qual logo se acrescentou o do presidente do México, Plutarco Elias Calles, com uns 25 mil volumes. O arquivo familiar de Vicente Quesada se enviou ao morrer Ernesto em Spiez, Suíça, em 1934. Instalado inicialmente próximo do Palácio Real berlinês, o Instituto passou em 1941 à vila dos Siemens, nos arredores da capital do Reich, e não pôde escapar aos bombardeios do fim da guerra. Parte do legado Quesada se perdeu naqueles dias sombrios; outra parte, em poder dos russos, começou a ser devolvido. Com a queda do Terceiro Reich, o Instituto ficou no setor norteamericano de Berlim, e foi dissolvido. Não obstante, renasceu das cinzas. Hoje, o Iberoamericano possui a maior biblioteca especializada do mundo, depois da de Austin, Texas, com mais de um milhão de volumes. Se alguém quer comprovar empiricamente o resultado da recepção de Spengler na América do Sul - e a retribuição que em incentivos essa lhe fez ao pensador fáustico - pode se dirigir à Postdammer Strasse 37, onde, à entrada do Instituto Iberoamericano, os respectivos bustos em imponente granito negro de Vicente e Ernesto Quesada dão as boas vindas a estudiosos de todo o mundo.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Messianismo Tecnológico - Ilusões e Desencanto

por Horacio Cagni


As contradições do progresso, e particularmente a tremenda experiência das guerras do século XX puseram sobre o tapete os alcances da ciência e da técnica, obrigado pensadores de toda origem e procedência a se interrogarem angustiosamente sobre o destino de nossa civilização.

Ao analisar aspectos emblemáticos como os gulags soviéticos, o genocídio armênio pelos otomanos, ou o holocausto - o extermínio de judeus pelo nazismo na Segunda Guerra Mundial - assim como as consequências do eufemisticamente chamado bombardeio estratégico anglo-americano - que, tanto em dito conflito como em outros posteriores, era simples terrorismo aéreo - se pode concluir que esses massacres em série são consequência da planificação e organização próprias das indústrias de grande escala. A morte industrial, a objetificação de um grupo social ou de um coletivo a destruir, resulta óbvio para os estudiosos do holocausto e do aniquilamento racial, como para aqueles que se dedicaram à revisão do aniquilamento social que realizaram os comunistas com burgueses, reacionários ou "desviacionistas".

Em todos os casos, a distância que a tecnologia põe entre vitimários e vítima assegura a despersonalização dessa última, convertida em simples material a exterminar; os que estão amontoados esperando o fim em um campo de concentração perante o administrador de sua morte, como os trasfegados civis que estão sob a mira do bombardeiro, não são mais que simples números sem rosto. A responsabilidade do genocídio se dilui na imensa estrutura  tecnoburocrática, o que Hannah Arendt chamava de "a banalidade do mal".

É útil recordar que, ao longo de todo o século passado, numerosas vozes se ergueram, lucidamente, para denunciar os limites da técnica e os perigos do messianismo tecnológico. A técnica, chave da modernidade, se constituiu em uma religião do progresso, e a máquina resultou igualmente venerada e exaltada por liberais, comunistas, nazifascistas, reacionários e progressistas.

Guerra e Técnica - A Crítica de Ernst Jünger

Escritor, naturalista, soldado, morto mais que centenário pouco antes do ano 2000, Ernst Jünger foi a testemunha lúcida e o crítico agudo de uma das épocas mais intensas e cataclísmicas da história, desse século tão breve, que Eric Hobsbawm situa entre o fim da belle époque em 1914, e a queda do Muro de Berlim e da utopia comunista, em 1991.

Nunca se insistirá o suficiente que, para entender Jünger e as correntes espirituais de seu tempo, que também é o nosso, a chave, uma vez mais, é a Grande Guerra. O primeiro conflito mundial foi a grande parteira das revoluções desse século, não só no plano ideológico e político senão no das ideias, da ciência e da técnica. Pela primeira vez todas as instâncias da vida humana se subsumiam e subordinavam ao especto bélico. Era a consequência lógica da Revolução Industrial, o orgulho da Europa, porém ademais necessitou da conjunção com um novo fenômeno sociopolítico, que George Mosse definiu com acerto "a nacionalização das massas". Em todos os países beligerantes, porém acima de tudo em Itália e Alemanha, culminava o processo de coagulação nacional e de exaltação da comunidade. Países que haviam chegado tarde, mercê das vicissitudes históricas, à conquista de uma unidade interior - como os assinalados - haviam encontrado finalmente essa unidade no front. Nas trincheiras se deixava de lado os dialetos, para mandar e obedecer na língua nacional; no bairro e sob a avalanche de fogo se vivia e se morria de forma absolutamente igualitária.

Constrangidos perante tamanho desastre, esses homens "civilizados" se depararam com o fato de que sua única arma e esperança eram a vontade, e seu único mundo os camaradas do front. Atrás haviam ficado os orgulhosos ideais do Iluminismo. O jogo da vida em boas formas e a retórica folhetinesca-parisiense ficavam enterrados no lodo de Verdun e Galicia, nas rochas do Carso e nas frias águas do Mar do Norte.

A catástrofe não só significou o afundamento do positivismo senão que demonstrou até que ponto havia avançado a técnica em seu desenvolvimento desmedido, e até que grau o ser humano estava submetido a ela. Soldados e máquinas de guerra eram uma mesma coisa, juntamente com seus Estados-Maiores e a cadeia de produção bélica. Já não existia frente e retaguarda, pois a mobilização total se havia apoderado da alma do povo. Jünger, oficial do exército do Kaiser, chamou de Materialschlacht - guerra de material -a essa nova espécie de combate. Nas operações bélicas, tudo se tornava material, inclusive o indivíduo, que não podia escapar da operação conjunta de homens e máquinas que nunca chegava a entender.

Quando se leem as obras de Jünger sobre a Grande Guerra - editadas por Tusquets - como Tempestade de Aço ou O Bosque 125, o relato das ações bélicas se torna monótono e abrumador, como deve ter sido a vida quotidiana no front, suspensa no risco, que insensibiliza a força de mortificação. Em A Guerra como Experiência Interior, Jünger aceita a guerra como um fato inevitável da existência, pois existe em todas as facetas da ocupação humana: a humanidade nunca fez outra coisa além de combater. A única diferença estriba na presença omnimoda e despersonalizante da técnica, porém sempre somos mais fortes ou mais fracos.

A literatura criada pela Grande Guerra é numerosa, e às vezes magnífica. A partir de O Fogo de Henri Barbusse, que foi a primeira, uma série de obras contaram a dor e o sacrifício, como a satírica O Lodo de Flandes, de Max Deauville, Guerra e Pós-Guerra de Ludwig Renn, Caminho do Sacrifício de Fritz von Unruh, e as reconhecidas Nada Novo no Front, de Erich Remarque e Quatro de Infantaria, de Ernst Johannsen, que deram lugar a filmes. Em todas essas obras campeia a sensação de impotência do homem frente à técnica desencadeada. Porém, mais além de sua excelência literária, todas se esgotam na crítica da guerra e o sentido desejo de que nunca se volte a repetir a tragédia.

Jünger foi muito mais longe; compreendeu que esse conflito havia destruído as barreiras burguesas que ensinavam a existência como busca do êxito material e observação da moral social. Agora afloravam as forças mais profundas da vida e da realidade, o que ele denominava "elementais", forças que através da mobilização total se convertiam em parte ativa da nova sociedade, formada por homens duros e jovens, uma geração abissalmente diferente da anterior.

O novo homem se baseava em um "ideal novo"; seu estilo era a totalidade e sua liberdade a de se subsumir, de acordo à categoria da função, em uma comunidade na qual mandar e obedecer, trabalhar e combater. O indivíduo se subsume e tem sentido em um Estado total. Indivíduo e totalidade se conjugam sem trauma algum mercê à técnica, e seu arquétipo será o trabalhador, símbolo no qual o elemental vive e, ao mesmo tempo, é força mobilizadora. Se bem o exemplo é o operário industrial, todos são trabalhadores por cima de diferenças de classe. O tipo humano é o trabalhador, seja engenheiro, capataz, operário, quer se encontre na fábrica, no escritório, no café ou no estádio.

Oposto ao "homem econômico" - alma do capitalismo e do marxismo por igual - surgia o "homem heróico", permanentemente mobilizado, seja na produção, seja na guerra. Essa distinção entre homem econômico e homem heróico a havia esboçado cedo o jovem Peter Drucker em seu livro O Fim do Homem Econômico, de 1939, fazendo alusão ao fascismo e ao nacional-socialismo, que irrompiam na história desde as mãos de "artistas da política", que haviam vislumbrado a missão redentora e salvífica da unidade nacional nas trincheiras em que haviam combatido.

O trabalhador é "pessoa absoluta", com uma missão própria. Consequência da era tecnomaquinista, é pertença e identidade com o trabalho e a comunidade orgânica à qual pertence e serve, assinala Jünger em seu livro Der Arbeiter, um de seus maiores ensaios, escrito em 1931. O mais importante dessa obra é a consideração do trabalhador como superação da burguesia e do marxismo: Marx entendeu parcialmente o trabalhador, pois o trabalho não se submete à economia. Se Marx acreditava que o trabalhador devia se converter em artista, Jünger sustenta que o artista se transforma em trabalhador, pois toda vontade de poder se expressa no trabalho, cuja figura é dito trabalhador.

Quanto ao miolo do pensamento burguês, este renega toda desmedida, tentando explicar todo fenômeno da realidade desde um ponto de vista lógico e racional. Este culto racionalista despreza o elemental como irracional, terminando por pretender um esvaziamento de sentido da existência mesma, erigindo uma religião do progresso, onde o objetivo é consumir, garantindo-se uma sociedade pacífica e sem sobressaltos. Para Jünger isso conduz ao mais venenoso e angustiante entediamento existencial, um estado espiritual de asfixia e morte progressiva. Somente um "coração aventureiro", capaz de dominar a técnica assumindo-a plenamente e dando a ela um sentido heróico, pode tomar a vida de assalto e, desse modo, assegurar ao ser humano não simplesmente existir senão realmente ser.

Outros Críticos do Tecnomaquinismo

A princípios dos anos 30, apareceram na Europa, acima de tudo na Alemanha, uma série de escritores cujas obras se referiam à relação do homem com a técnica, onde a vontade como eixo da vida resulta em uma constante. Assim ocorre em O Homem e a Técnica, de Oswald Spengler - que segue as premissas nietzscheanas da "Vontade de Poder" - A Filosofia da Técnica, de Hans Freyer, Perfeição e Fracasso da Técnica de Friedrich Georg Jünger - irmão de Ernst - e os seminários do filósofo Martin Heidegger, todos contemporâneos do já citado O Trabalhador. (O livro de seu irmão Friedrich foi editado imediatamente depois da Segunda Guerra, porém havia sido escrito muitos anos antes e pelas vicissitudes do conflito não pôde sair à luz). Porém essas questões não eram privativas do mundo germânico, pois não devemos esquecer dos futuristas italianos liderados por Filippo Marinetti, nem ao Luigi Pirandello de Manivelas, aos escritos do francês Pierre Drieu La Rochelle - como La Comédie de Charleroi - e o filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin.

O autor de O Pequeno Príncipe, o notável escritor e aviador francês Antoine de Saint Exupéry, também faz diversas reflexões sobre a técnica. Em seu livro Piloto de Guerra há uma página significativa, quando assinala que, em plena batalha da França em 1940, em uma granja, uma árvore anciã "sob cuja sombra se sucederam amores, romances e tertúlias de gerações sucessivas" obstaculiza o campo de tiro "de um tenente artilheiro alemão de 26 anos", que termina por derrubá-la. Receoso de empregar seu avião como máquina assassina, St. Ex, como o chamavam, desapareceu em voo de reconhecimento em 1944, sem que se haja encontrado seus restos. Sua última carta dizia: "Se volto, o que posso dizer aos homens?"

Também o destacado jurista e politólogo Carl Schmitt se propôs a questão da técnica. Bem cedo, em seu ensaio clássico O Conceito do Político afirma que a técnica não é uma força para neutralizar conflitos senão um aspecto imprescindível da guerra e do domínio. "A difusão da técnica - assinala - é imparável", e "o espírito do tecnicismo é quiçá maligno e diabólico, porém não pode ser descartado enquanto mecanicista, ele é a fé no poder e domínio ilimitado do homem sobre a natureza". A realidade, precisamente, demonstrava os efeitos do messianismo tecnológico, tanto na exploração da natureza, como no conflito entre os homens. Em um corolário à obra antecitada, Schmitt define como processo de neutralização da cultura a esse tipo de religião do tecnicismo, capaz de crer que, graças à técnica, se conseguirá a neutralidade absoluta, a tão desejada paz universal. "Porém a técnica é cega em termos culturais, serve por igual à liberdade e ao despotismo...pode aumentar a paz ou a guerra, está disposta a ambas coisas em igual medida".

O que ocorre, segundo Schmitt, é que a nova situação criada pela Grande Guerra abriu passagem a um culto da ação viril e da vontade absolutamente contrária ao romantismo do século XIX, que havia criado, com seu apoliticismo e passividade, um parlamentarismo deliberativo e retórico, arquétipo de uma sociedade carente de formas estéticas. É inegável a influência dos escritos de pós-guerra de Jünger - a guerra forjadora de uma "estética do horror" - na mente de Schmitt. Porém a essa desesperada busca de uma comunidade de vontade e beleza, capaz de conjurar o Golem tecnológico mediante uma barbárie heróica, não escapava praticamente ninguém naqueles tempos. Hoje é fácil olhar para trás e assinalar tantos pensadores de qualidade como "sepultadores da democracia de Weimar" e "preparadores do caminho do nazismo". Esse olhar superficial sobre um período histórico tão intenso e complexo se impôs ao calor das paixões, apenas terminada a Segunda Guerra Mundial e, logo, mais ainda desde que o jornalismo se apoderou progressivamente da história e da ciência política. A realidade é sempre mais profunda.

Naqueles anos de Weimar, os alemães em sua maioria sentiam a frustração de 1918 e as consequências de Versalhes; os jovens buscavam com afã encarnar uma geração distinta, edificar uma sociedade nova que reconstruísse a pátria que amavam com desespero. Foi uma época de incrível florescimento na literatura, nas artes e nas ciências, e obviamente, isso se trasladou ao campo político. Por então, Moeller van den Bruck, Spengler e Jünger - malgrado suas diferenças - se transformaram em educadores dessa juventude, através de escritos e conferências. A estética völkisch, popular, que era anterior ao nacional-socialismo, abarcava todos os aspectos da vida quotidiana. A maioria dos pensadores abjuravam do débil parlamentarismo da República surgida da derrota, e no coração do povo, a Constituição de Weimar estava condenada. Por acaso não havia sido um êxito editorial O Estilo Prussiano, de Moeller van den Bruck, que propunha uma educação pela beleza? E Heidegger? Em sua alocução do solstício de 1933 dirá: "os dias declinam/nosso ânimo cresce/chama, brilha/corações, acendam".

O interessante é que todos coincidiam. O católico Schmitt, quando em sua análise Queda do Segundo Império sustentava que a principal razão estava na vitória do burguês sobre o soldado; neoconservadores como August Winning, que distinguia entre comunidade de trabalho e proletariado, e como Spengler com seu "prussianismo socialista"; o erudito Werner Sombart e sua oposição entre "heróis e comerciantes", e, ademais, os denominados nacional-bolcheviques. O mais conspícuo dos intelectuais nacional-bolcheviques, Ernst Niekisch, havia conhecido Jünger em 1927; a partir daí elaborará também uma reflexão sobre a técnica. Seu breve ensaio A Técnica, Devoradora de Homens é uma das análises mais lúcidas do messianismo tecnológico, e uma das maiores críticas da incapacidade do marxismo para compreender que a técnica era uma questão que escapava ao determinismo economicista e às diferenças de classe. Também é de Niekisch um dos melhores comentários de O Trabalhador de Jünger, obra da qual tinha um grande conceito. Todos eles tentaram dotar à técnica de um rosto brutal, porém ainda humano, demasiado humano, único achado do mundo, como sustentou Nietzsche.

Certamente, todas essas energias foram aproveitadas pelos políticos, que não pensavam nem escreviam tanto, porém podia franquear as barreiras que os intelectuais não se atreviam a ultrapassar. Esses novos políticos possuíam essa nova filosofia: já não procediam de quadros nem eram profissionais da política senão "artistas do poder", como dizia Drucker. Lênin abriu o caminho, porém homens como Mussolini e Hitler, e muitos de seus sequazes, eram arquétipos dessa nova classe. Provinham das trincheiras do front, eram condutores de um movimento de jovens, tinham uma grande ambição, desprezavam o burguês, se bem confundiam suas ideias de salvação nacional com o lastre oitocentista de diversos preconceitos.

O Fim de uma Ilusão

Schmitt coincidia com Jünger em seu desprezo do mundo burguês. Na concepção jüngeriana, tão importante era o amigo como o inimigo: ambos são referentes da própria existência e lhe outorgam sentido. O postulado significativo da teorética schmittiana será a específica distinção do político: a distinção entre amigo e inimigo. O conceito de inimigo não é aqui metafórico senão existencial e concreto, pois o único inimigo é o inimigo público, o hostis. Preocupado com a ausência de unidade interior de seu país logo do vexame de 1918, vislumbrando em política interior o custo da debilidade do Estado liberal burguês, e em política externa as falências do sistema internacional de pós-guerra, Schmitt, a princípio, se comprometeu profundamente com o nacional-socialismo. Chegou a ser um dos principais juristas do regime. Acreditava encontrar nele a possibilidade de realização do decisionismo, a encarnação de uma ação política independente de postulados normativos.

Jünger, atento ao que denominava "a segunda consciência mais lúcida e fria" - a possibilidade de ver a si mesmo atuando em situações específicas - foi mais cuidadoso, e se distanciou progressivamente dos nacional-socialistas. Sem dúvida, seu lado conservador havia vislumbrado os excessos do plebeísmo nazi-fascista e sua força niveladora. Também Schmitt começou a ver como elementos medíocres e indesejáveis se entroncavam no regime e adquiriam cada vez mais poder. Heidegger, ao princípio tão entusiasta, se havia distanciado do regime em pouco tempo. Spengler morreu em 1936, mas os havia criticado desde o início.

Não obstante, havia diferenças de fundo. Spengler, Schmitt e Jünger acreditavam que um Estado forte necessitava de uma técnica poderosa, pois o primado da política podia reconciliar técnica e sociedade, soldando o antagonismo criado pelas lacras da revolução industrial e tecnomaquinista. Eram antimarxistas, antiliberais e antiburgueses, porém não antitecnológicos, somo sim era Heidegger; este se havia retirado ao bosque a ruminar sua reflexão sobre a técnica como obstáculo ao "desocultamento do ser", que tão magistralmente explicitara muito depois.

Outro aspecto no qual coincidiam Jünger, Schmitt e também Niekisch, era em sua consideração como a Rússia stalinista se alinhava com a tendência tecnológica imperante no mundo. Ao finalizar os trinta, duas nações aparentavam se sobressair como exemplo de uma vontade de poder orientada e subsumida em uma comunidade de trabalhadores, malogrado seus princípios e sistemas políticos diferentes: o Terceiro Reich e a URSS stalinista (em menor medida também a Itália fascista). Porém, obviamente, suas classes dirigentes não eram permeáveis às considerações jüngerianas ou schmittianas, pois a carcaça ideológica não podia admitir atitudes críticas. A Jünger e a Schmitt lhes ocorreu o mesmo: não foram considerados suficientemente nacional-socialistas e começaram a ser criticados e atacados. Schmitt se refugiou na teorização - brilhante, sem dúvida - sobre política internacional.

Quanto a Jünger, sua concepção do "trabalhador" foi rechaçada pelos marxistas, acusando-a de cortina de fumaça para tapar a irredutível oposição entre burguesia e proletariado - quer dizer "fascista" - tanto como pelos nazis, os quais não encontravam nela nem rastros de problemática racial. Em seu exílio interior, Jünger escreveu um de seus romances mais importantes. Nos Penhascos de Mármore; constitui uma reflexão profunda, em chave simbólica, sobre a concentração do poder e o mundo desencadeado pelos "elementais". Mediante uma prosa hiperbólica e metafórica, denuncia a falácia da união de princípios guerreiros e idealistas quando falta uma metafísica de base. Certamente que essa obra, editada em vésperas da Segunda Guerra Mundial, foi considerada, não sem razão, uma crítica do totalitarismo hitlerista, porém não se esgota ali. O escrito vai mais longe, pois se refere ao mundo moderno onde nenhuma revolução, por mais restauradora que se precise, pode evitar a queda do homem e seus dons de tradição, sabedoria e grandeza.

Jünger sempre foi um cético. Em A Mobilização Total há um parágrafo esclarecedor: "Sem descontinuidade, a abstração e a crueza se acentuam em todas as relações humanas. O fascismo, o comunismo, o americanismo, o sionismo, os movimentos de emancipação de povos de cor, são todos saltos em favor do progresso, até ontem impensáveis. O progresso se desnaturaliza para prosseguir seu próprio movimento elemental, em uma espiral feita de uma dialética artificial". Contemporaneamente, Schmitt assinalava: "Sob a imensa sugestão de inventos e realizações, sempre novos e surpreendentes, nasce uma religião do progresso técnico, que resolve todos os problemas. A religião da fé nos milagres se converte em seguida em religião dos milagres técnicos. Assim se apresenta o século XX, como século não só da técnica senão da crença religiosa nela".

Se ambos pensadores acreditavam em uma tentativa de ruptura do ciclo cósmico desencadeado, rapidamente terão perdido suas esperanças. Os próprios desafiantes do fenômeno mundial de homogeneização - cujo motor era a técnica originada no mundo anglo-saxão da revolução industrial - como o nacional-socialismo e o sovietismo, mal podiam levar para a frente esse processo de ruptura quando constituíam parte importante, e em muitos casos a vanguarda, do progresso tecnológico. Não há escapatória possível para o homem atual e o princípio totalitário, frio, cínico e inevitável que Jünger vislumbrou desde suas primeiras obras, e que seguiu desenvolvendo até seu final, será a característica essencial da sociedade mundialista.

O desenlace da Segunda Guerra Mundial, com seu horror desencadeado, liquidou a possibilidade de entronização do tão desejado "homem heróico" e consagrou o "homem econômico" ou "consumista" como arquétipo. Esse evidente triunfo da sociedade fukuyamiana se deveu não só à prodigiosa expansão da economia senão essencialmente, ao auge tecnológico e à democratização da técnica. Isso não implica, não obstante, que o homem seja mais livre; se crê livre enquanto participa de democracias quadrimestrais, habitante do shopping e escravo do televisor e do computador, produtor e consumidor em uma sociedade que realizou o milagre de criar a ânsia do desnecessário; a aparente calma em que vive esconde aspectos ominosos.

A tecnologia despersonalizou totalmente o ser humano, o que se evidencia na macroeconomia virtual, que esconde uma espantosa exploração, desigualdade e miséria, assim como nas guerras humanitárias, eufemismo que subsume a tragédia das guerras interétnicas e pseudo-religiosas, vestimenta da exploração dos recursos naturais por parte das potências mundiais. Desde o FMI até a invasão do Iraque, o "filisteu moderno do progresso" - Spengler dixit - é, sob suas múltiplas manifestações, gênio e fugira.

Em seus últimos tempos, Jünger estava farto. Seu conselho para o rebelde era furtar-se à civilização, à urbe e à técnica, refugiando-se na natureza. O atual silêncio dos jovens - sustentava em O Passo na Floresta - é mais significativo ainda que a arte. À queda do Estado-Nação lhe seguiu "a presença do nada a secas e sem enfeites. Porém desse silêncio podem surgir novas formas". Sempre o homem vai querer ser diferente, vai querer algo distinto. E, como a calma que precede a tormenta, todo estado de quietude e todo silêncio é enganoso.