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sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Quê é a Política?

Por Eduardo Hernando Nieto

Antes de tudo quero agradecer o convite que me foi feito a fim de dar este pequeno bate-papo introdutório a respeito de um tema tão vital, mas ao mesmo tempo tão desconhecido como é o da político e o político. Comecemos então fazendo uma análise do coneito e uma interpretação do político. Isso é importante porque ultimamente se escuta nos meios de imprensa as opiniões de diversos personagens relacionados com a política nacional, falando sobre o caráter “técnico” de suas declarações. Ao dizer é óbvio que o que se busca é mostrar uma imagem de neutralidade e imparcialidade tido em conta de que o político nesses tempos se encontra contaminado. Nada deseja se chamar político e melhor pareceria ser o que o técnico se está revestido, de uma aura positiva e boa.

Vamos conhecer então o que significa em realidade a política e o que é o político, e nos daremos conta de que quando alguém diz que é um técnico o que pretende apresentar-se como uma pessoa com essas características e que quer ser visto como alguém à margem do político, tal contenção resultará não só negativa senão talvez até absurda.

Para o momento, temos que entender que a política não é uma atividade má ou negativa, senão todo o contrário. Por outra parte, quero salientar que a político é também uma atividade extremamente complexa. Não é uma atividade que pode ser levada a cabo por qualquer pessoal simplesmente por ter a intensão de participar na política. Creio que os resultados desta tendência a massificar a atividade política – e que dito seja de passagem não somente ocorre no Perú senão também no exterior – demonstra como é que há muitas pessoas que ignoram realmente o significado da prática política e mais ainda que desconhecem o que representa o conhecimento político. Em resumo, para ser um político de verdade, os bons desejos ou inclusive a honestidade não bastam.

Da mesma forma, tampouco basta inclusive agora que também parece uma necessidade que os que participam na política tenham uma conduta ética e moral irrepreensível. Evidentemente se requere que seja assim, mas tampouco isso será suficiente. Em outras palavras, não basta ser um homem honrado e não basta ser um homem interessado na política para poder se envolver no âmbito político, porque antes disso se requere fundamentalmente o ter um conhecimento político.

Se qualquer se nós sair à rua e começar a perguntar às pessoas, por exemplo sobre sua opinião sobre o novo gabinete ministral, encontrará uma senhora saindo do mercado e nos dirá que “esse senhor tem cara de boa gente” ou “esta pessoa já tem experiência na política”, etc. Quê significa isto? Essas pessoas que alguém entrevista na rua estão dando opiniões políticas, e opiniões políticas podem elas ter quaisquer seja de nós. O vendedor da esquina, o chofer de taxi, o padre da paróquia, o empresário, ou seja, qualquer. Isso sim, sem embargo, não é suficiente, e de feito pode ser inclusive até perigoso. Creio que é fundamental, para iniciarmos neste âmbito político, fazer uma distinção entre o que significa Conhecimento Político do que significa Opinião Pública. A opinião política é algo que tem uma caráter geral e que apela a um grande universo enquanto que o conhecimento político não pode cair nesse terreno tão vago e ao mesmo tempo tão expandido em termos quantitativos.

Creio que a melhor maneira de visualizar a distinção entre conhecimento e opinião é mediante um gráfico. Se traçarmos uma circunferência, podemos ver que a opinião política corresponde a uma parte desta, que muito bem poderia ser um segmento que corresponde ao traçado de uma reta que vá do centro à periferia da circunferência, se dizermos que nossa circunferência corresponde a uma roda de bicicleta, então a opinião pública correponderá aos raios de uma bicicleta. Se perguntarmos às pessoas qual é sua opinião sobre um tema x, quiçá o ambulante ou taxista poderá ter uma opinião a respeito, mas terá uma opinião parcial, já que vai estar localizada em uma pequena parte da circunferência, ou seja, essa pessoa poderá ter acesso à televisão, talvez a algum diário, não a todos os diários (presumamos um econômico), e nesse sentido, a informação que vai obter sobre o mundo vai ser uma opinião reduzida do total. Agora bem, podemos seguir comparando e assinalemos por exemplo que a governanta se pode encontrar também em outra parte da circunferência, ela certamente conhece o âmbito doméstico, o que ocorre no seu bairro, etc, poderá ter certas idéias, mas não necessariamente poderá ter uma visão ampla e concreta da situação política. Se eu sou empresário, talvez possa ter uma conhecimento da bolsa, o que ocorre fora do Perú, como sobem as ações, etc, se sou um pequeno empresário conhecerei o que ocorre em meu âmbito esfera, mas olho, somente vou poder dar uma opinião política desde meu âmbito desde o segmento da circunferência na qual eu me encontro. Agora bem, se sou um advogado, vou poder ter muito conhecimento das leis que o Estado Peruano emite, posso também conhecer o que dizem os meus clientes, ou temas específicos, mas não necessariamente vou ter todo o conhecimento que se requer para atuar na política.

Em resumo, opinião política representará uma visão parcial da política desde nosso próprio âmbito de ação, desde nossa própria forma de vida. Sem embargo, quando nós estamos expressando a necessidade de contar com um conhecimento político, o que temos que pensar (voltando ao nosso exemplo) é que este se localiza no centro da circunferência. Esse centro permite ter uma visão completa da realidade, quiçá podemos dizer que isso é o Estado oou a cidade e portanto quem tem que atuar desde a política necessariamente deverá estar também no centro da circunferência, e essa localização permitirá ter acesso a todas as partes da mesma. Conhecimento político é conhecimento do todo.

Para isso, deve ficar muito claro que quem entra na política teria que conhecer todos os âmbitos de tarefa social, e isso significa muitos anos de estudos e de reflexão tanto de temas práticos como também fundamentalmente de temas teóricos. Essa é então a primeira idéia que queria implantar. O primeiro que temos que fazer, se queremos envolvermos a sério no âmbito político é fazer essa distinção entre Opinião e Conhecimento.

Alguns poderão dizer que a anterior é uma idéia pouco democrática, porque não está considerando todos como iguais, mas efetivamente quando nasce a política, sempre teve essa um caráter diferenciado e de feito a hierarquia corresponde à estrutura orgânica e funcional típica de toda cidade antiga. Obviamente, o feito que existem hierarquias não significa que se trate de uma sociedade injusta ou uma sociedade totalitária. Em realidade, se nós vamos ao conceito da política, esse provém em concreto do término Polis, que significa cidade, uma cidade é uma unidade, mas eu diria ainda mais, é um órgão vivente, claro que em termos p´raticos é um conjunto de pessoas que habitam um espaço e que graças a que habitam em uma espaço delimitado, fechado, podem manter relações físicas que vão servir para criar e manter relações de amizade. Por certo, ao existir essa unidade podemos afirmar que todos somos cidadãos, todos somos habitantes dessa polis. Agora bem, nas origens da Polis, os habitantes eram filhos de pessoas que haviam nascido nessa Polis, e que por sua vez vinham de um antepassado comum ou um herói fundador. É interessante tomar em conta esses antecedentes, porque a idéia de um antepassado comum ou um herói fundador significa que gera a sangue que depois vai estendendo a medida que nascem novas pessoas que incorporam à cidade. Há aí uma relação importante que permite manter a unidade, mas deve aclarar-se que nessa época o sangue não teria um significado biológico, porque evidentemente o herói fundador não é um herói de tipo físico, senão transcendental, que se encontra mais além do espaço e do tempo, e isso faz com que a idéia de sangue tenha outras características e não necessariamente materiais. Mas o que resulta relevante é que há uma identificação comum com um princípio de origem com um princípio fundador.

O fato de que eu possa ser descendente desse herói fundador implica que os demais indivíduos que habitam esse espaço comum (a Polis) também compartilham essa identificação, portanto, eu posso chamar outro cidadão da Polis de irmão, e gerar uma relação de confiança que significa fé ao próximo. E essa fé implica que eu creio em tudo o que o outro me diga, porque se está demonstrando tal como é e não está se cobrindo com nenhuma roupagem nem está tratando de dizer ou parecer algo que não é. Claro está que dentro de uma cidade podem dar-se muitas atividade e por isso é importante saber diferenciar nossas atitudes e talentos, não todos podem fazer tudo, de aí que a cidade antiga opera também em função ao reconhecimento de linhagens e tradições e esta é precisamente uma das razões pelas quais a Polis respondia ao modelo orgânico corporativo.

Certamente, a confiança somente se estabelece em uma cidade onde habitam essas pessoas que estão integrados por esses laços que acabo de dizer. Sem embargo, e para fazer um pouco de história, no momento do qual se manifestavam estas relações de confiança e de amizade já haviam começado a plantar-se também dúvidas, por exemplo, à respeito à existência desse herói fundador e de repente à veracidade de toda esta narração mítica, que dava explicação e sentido à Polis ou à sua justificação no espaço e no tempo.

Por exemplo, recordando seguramente suas aulas de filosofia, tiveram ouvido falar dos sofistas, os sofistas eram personagens que estavam orientados à política ou melhor dizendo ao espaço público, mas com claras intenções pessoais e talvez até crematísticas. Nesse sentido, eles se converteram em grandes mestres da arte da retórica, mas ligada não ao convencimento (que implica o concurso da razão) senão à persuasão, a fim de que aquelas pessoas que normalmente procediam de famílias endinheiradas pudessem aprender a arte da persuasão e dessa maneira pudessem ocupar um cargo relevante de governo, claro está, que para os sofistas e a políticas começava a parecer-se com uma técnica de governo e manipulação e não tinha que ver com a felicidade da coletividade em sua totalidade.

Assim pois, os sofistas tendiam a relativizar qualquer concepção de verdade, diziam também que se baseavam mais em realidades empíricas, quer dizer, dar características de verdade somente a feitos visíveis, a coisas reais, e claro toda essa idéia de herói fundador entrava no plano da religião e da filosofia, e não podia ser contestado de maneira empírica. Em resumo, para mim esses sofistas, ao começarem a criticar esse fundamento religioso, ao começar a duvidar desse princípio fundador, o que vão fazer é começar a fragmentar a cidade, por que se nós duvidamos do princípio fundador, então não se pode reconhecer o outro como irmão já que não compartilhamos mais o “sangue”. O outro poderá começar a ter idéias distintas e a se sentir diferente com respeito aos demais, inclusive poderia ver seu antigo irmão como inimigo ao que não deve nenhuma lealdade. Isso é basicamente o que vai começar a se reproduzir, e é nesse momento precisamente que vai nascer a filosofia política, que dá uma nova interpretação ao término política e que vai ser, por sua vez, relevante para nós e que ademais recorda o que já havíamos assinalado anteriormente.

Os sofistas, ao duvidarem de um princípio, geram uma relativização de valores, e como consequência disso, vamos ter já uma forma de pensamento mais individualista, em que cada qual vá começar a pensar por si próprio, e já não vou ver o outro como parte de minha família senão simplesmente como alguém diferente. Nessas circunstâncias é que a cidade começa a sofrer um processo de fragmentação e fractura devido exclusivamente ao fato de que já se está diluindo esse princípio transcendental que nos dava unidade e significado. Em outras palavras, estávamos ante a transformação de um corpo orgânico em um modelo mecânico na qual as partes individuais não se entendem como órgãos integrantes senão como agregados artificiais e que são autônomos e independentes. De aí, que a tarefa assinada à filosofia política clássica seja a de recuperar a unidade e o modelo orgânico – corporativo.

É nesse contexto e relação a que acabamos de estreitar que se pode trazer a colação outra interpretação do significado da política, já que também a política pode se apreciar na seguinte equação: Política-Polis-Polemos. Polemos é outro término grego, que se entende como conflito, luta, ou contradição que precisamente vá a ocorrer quando se expande esse pensamento de sentido individualista. Essa Polemos nos conduz necessariamente à seguinte pergunta, “luta para quê?”, a luta que vai eprender-se é a luta para recuperar a unidade que se está perdendo ou que já está perdida, e esse é o outro significado importante que devemos entender com respeito à política ou ao conceito de Polis ligado à política.

Resumindo, temos por um lado a política ligada inicialmente à unidade, a uma grande corporação, e por outro lado a política é vinculada à luta pela unidade, ante a presença de correntes que tendem a dissolução da unidade, que se dirigem à fragmentação da Polis, e que como consequência dessa polarização ou fragmentação não somente se vai perder a noção de unidade senão que também a medida que passa o tempo se vai dando mais conflitos que serão anônimos, quer dizer que cada sujeito vai tratar de ter sua própria verdade ou seu próprio princípio e que vai ser evidentemente diferente ao de outro, e também diferente ao de outro, e assim sucessivamente, por isso o que antes era um espaço de unidade se transforma agora em um cenário no qual existem sujeitos (indivíduos) que lutam para defender suas idéias ou princípios e a cidade praticamente desaparece.

Essa, no fundo, é a história que finalmente forma parte do nascimento da filosofia política moderna, vai se repetindo a medida que o tempo passa, po exemplo vocês têm princípios dos séculos XVI e XVII, uma série de guerras civis onde já uma unidade religiosa se dilui totalmente como era a católica e então temos um conjunto de facções que estão em pugna e em luta, e claro esta luta tem que acabar em algum momento porque a fragmentação não é boa para nada, não somente porque põe em risco a cida de cada um de nós senão porque também torna a vida infeliz. Essa luta nesse contexto dos séculos XVI e XVII se termina com a aparição do Estado Moderno, o mesmo que evidentemente é quem vai fazer prevenir todo o sistema religioso da esfera pública, a esfera estatal, e portanto aparentemente vai evitar assim os conflitos.

Agora que temos uma primeira impressão com respeito ao tema de origem do conceito do político, vamos estudar ligeiramente isso que eu denominei de conceito antigo da política, e que é quem vai produzir finalmente a primeira comcepção do político e quiçá a concepção política que por ser tão próxima às origens da tradição deve ser mantida e de pronto perceberemos que todavia de mantém.

Sendo uma realidade a presença dos sofistas e produzida também essa instabilidade que está manifestando-se na Polis pela tendência individualista, se se quer pragmática, de privilegiar somente o âmbito da opinião – recordem novamente os sofistas, falam, falam muito bem, mas o fazem tentando persuadir – se começa a assegurar uma dinâmica nova no plano político. Se busca no princípio contar com a simpatia do grupo, que nos apoia e que se adere ao nosso discurso e conclusões, etc. Como dizemos, a tarefa de persuasão implica basicamente trabalhar a níveis bastante superficiais da natureza humana, quer dizer, o retórico, a pessoa que maneja a retórica, vai tratar de criar imagens, levantar exemplos, etc, e todas essas coisas que podem comover um auditório que está escutando, isso é algo típico do plano da opinião, porque a opinião sempre vai ser epidérmica, simples e muito relativa. Lamentavelmente, essa característica dos sofistas de enxerga em nossa vida cotidiana quando vemos como flutuam as encostas políticas segundo o estado de ânimo das pessoas. A opinião é algo que não vai ser fixo nem constante senão que vai ser absolutamente relativa, e essa é uma diferença que a destacamos desde o início do debate. Nós não podemos construir uma cidade com idéias relativas ou volúveis porque assim não se poderá ter estabilidade.

Bem, estava mencionando essa atividade dos sofistas que criaram uma série de problemas e isso vai levar por exemplo a que surja a Filosofia Política. A filosofia política de todo governo tem uma única virtude e é a de resolver essa pergunta: “Qual pode ser o melhor regime político?” Aqui há duas coisas que temos que considerar: o fato de que eu me preocupo pela busca do melhor regime político significa em primeiro lugar que estou consciente, que sei, que existe algo que se chama bom regime político, já estou partindo de uma verdade objetiva, que existe o melhor regime político.

Sem embargo, e em segundo lugar, eu também estou partindo do fato de que ainda não se pôde manifestar – e talvez nunca se poderá – tal regime no mundo, por isso é que o busco. Isso é importante porque corresponde, por exemplo, à necessidade de contar com um espaço de liberdade e de discussão para aproximarmo-nos a esse melhor regime político. Justamente a visão científica e inclusive a visão legal não vão ter necessariamente essa característica de abertura porque sempre se vai mover em função de conceitos fechados ou regras fixas e que não permitem sua discussão, sua oposição ou deliberação. De pronto, pareceria ser que para a grande maioria de acadêmicos tal regime perfeito já existe, o Estado Constitucional de Direito.

Enquanto o que significava a busca do melhor regime político, ali haviam diversas opções, seria inclusive ocioso mencionar as classificações aristotélicas, mas talvez o que poderíamos ter em conta seria resolver a questão do que seria um bom regime político. A resposta depende da realidade? Quero dizer que o regime se acomoda ao contexto, deve ter as características de um regime misto? Quê significa um regime misto? Em realidade, se bem é certo que o contexto é importante devemos ter em conta que as formas de governo transcendem o espaço e tempo e nesse sentido o essencial é a proximidade ao regime misto que significa simplesmente compartilhar o melhor de cada uma das formas de governo que existem: o governo de um, o governo de alguns, o governo de muitos (que se deve entender finalmente como o governo de todos). Teríamos que fazer então uma combinação prudente entre todos porque por exemplo o ideal seria que o melhor regime político seria o governo de todos, mas isso seria esquecer o que já temos mencionado anteriormente, quero dizer, a distinção entre opinião e conhecimento. Não todos têm conhecimento político, portanto, promover um regime no qual o governo é de todos seria totalmente catastrófico, porque teríamos que incorporar esse grande espaço de opinião. Isso seria igual no caso do regime de muitos.

Normalmente, nesse contexto antigo, quando de falava de “um ou de alguns”, se entendia que esse “um ou alguns” se referia a aquelas pessoas que estariam mais próximas ao pensamento e a ação política. Sem embargo, o governo misto não procuraria um governo somente de um ou de alguns, porque olho, não devemos esquecer que dita classificação teria que localizar-se dentro de uma comunidade orgânica funcional, daí segue que sempre seria necessária a presença e o trabalho de muitos também.

Efetivamente, a idéia da constituição ou de regime misto teria que considerar a incorporação de cada um desses setores dentro da representação, mas claro que assumindo sempre que teria que se ter certa hierarquia, por tal idéia que os poucos estariam mais próximos ao conhecimento e os muitos mais próximos à opinião[1].

Isso não significa que se trata de um regime injusto ou arbitrário, como fomos insistindo, porque finalmente a tarefa da Filosofia Política, a tarefa que teriam encomendada os pensadores que estava nesse plano, era a de educar aos que se encontravam mais longe do conhecimento a fim de que pudessem incorporar-se paulatinamente a esse nível, porque isso no fundo era um processo em direção ao estrato superior, isso se chamava educação ou Paideia, e isso é o que finalmente buscavam tanto Sócrates como Platão e Aristóteles, é dizer, transformar opiniões em conhecimento, e como estamos falando do político, transformar opinião política em conhecimento político, esse é então o objetivo que temos que considerar, que devemos tomar em conta.

Temos indicado também a presença do princípio de identidade que também permita a geração de confiança. Sem confiança não é possível ter uma estabilidade na cidade. E a confiança somente se vai manifestar quando possa ter um princípio que unifique a todos os membros da cidade. No contexto antigo, nós teríamos que a religião era o princípio unificador, tanto no mundo pré-cristão como no mundo cristão. Sem embargo, vamos advertir também que o contexto moderno, o que veremos em um momento mais, se vai caracterizar pela morte dos princípios. Sem embargo, é preciso assinalar que existiu um espaço intermediário entre o mundo da religião e o do ceticismo, e onde poderiam aparecer certos princípios ainda finalmente débeis, nos referimos às ideologias que tentaram preencher o vazio deixado pela religião. Certamente, a ideologia permitia uma identificação e facilitava ademais uma relação de confiança entre as pessoas que compartilham dita ideologia.

Fazendo uma parêntesis, recordemos como nesses anos se tem mencionado e escrito tanto sobre a crise dos partidos políticos sem encontrar aparentemente uma explicação, a resposta a essa crise é muito simples: não pode haver partido político sem ideologia. Tampouco pode haver partidos políticos sem intelectuais que manejem a ideologia, que possam transmití-la às hierarquias mais baixas do partido. Porque todo partido político tem que ser hierárquico. Ademais, um partido político representa também o que chamamos de aprendizagem. Eu posso ingressar como membro de base, mas graças a que vou estudando e participando na vida corporativa vou ascendendo, mas isso significa que vou ir aprendendo nesse processo de ascensão, também, tem que ver com chegar a certo nível no qual se encontrariam quem está a cargo do conhecimento da ideologia e que podem por sua vez ir transmitindo-a a cada um dos militantes e estamentos. Mas, para isso, necessariamente temos que tomar em conta que é fundamental a ideologia, e a ideologia por certo tem que ser complexa, porque se fosse simples qualquer um poderia ter acesso a ela, com o qual não se necessitariam mestres nem líderes, nem instrutores, nem tampouco poderíamos falar de distintas instâncias com a qual não haveria partido político.

Voltando agora ao tema e fechando o parêntesis, a identidade permite cooperação e coordenação, sem este elemento a Polis poderia sucumbir ou poderia finalmente desaparecer. Nesse sentido, se torna relevante o absolver a pergunta sobre o conceito do político nesse contexto antigo. Sabemos perfeitamente que a um nível interno a política é filosofia política e aponta à busca do melhor regime político, mas que passa com a política para fora, no plano externo. Basicamente vamos a partir do mundo grego e ali advertimos a presença de uma pluralidade de identidades, quer dizer, um conjunto de Polis, por exemplo: Esparta, Creta, Atenas, Tebas, etc. Cada uma delas representa uma identidade política. O mundo desde a caída, sempre tem sido pluriverso e não um universo, sempre tem estado constituído por distintas coletividades, distintas corporações que se vão diferenciando por história, tradições, etnias, etc.

Desde que se produz essa caída (e estou assumindo como caída uma idéia metafísica que implica uma fragmentação da unidade primitiva), o uno torna-se pluralidade e se gera uma tensão. Essa situação que aparece narrada no discurso teológico como a perdida do paraíso por parte de nossos pais Adão e Eva, mas que pode ser recordado pelo mito ou pelo imaginário coletivo através de múltiplos relatos como o despedaçamento do cadáver de Osiris, ou inclusive com o do corpo de Tupac Amaru, tem gerado então que o plano real se manifeste sempre em termos de pluralismo e diferença, quero dizer, configurado por muitas corporações políticas, e que sem embargo vão distinguir-se umas de outras.

Essa análise real nos faculta a chegar a outra definição do Político: a distinção entre amigo e inimigo, que é a categoria que devemos empregar no âmbito político externo. Por exemplo: Esparta poderá gerar uma aliança com Creta por certas circunstâncias, quer dizer, podem unir-se porque sabem que Tebas é uma Polis muito grande, forte, e que deseja tomar seu território. Quando Tebas decide se opor coletivamente a Esparta e Creta, desde esse momento Tebas se converte em um Inimigo Político, porque está pondo em perigo a existência da coletividade. A relação política vai ser então uma relação entre amigo e inimigo, é a distinção que devemos empregar e que não implica necessariamente algo negativo ou que incorpora um julgamento de valores, nesses termos o inimigo político é um inimigo público e a definição de um inimigo público é a de uma corporação, um corpo que abertamente se enfrenta a mim ou que pelo menos potencialmente vai gerar um perigo para minha coletividade.

O termo inimigo público devemos entender em sua real medida, porque o inimigo deve-se identifica-lo como é e ir a combate-lo como, mas não assumir que o inimigo pode ser objeto de ódio, preconceitos ou desprezo, talvez agora o inimigo seja objeto destes sentimentos, mas em tempos antigos isso não funcionava assim. Não posso sentir ódio por meu inimigo, porque ele me faria pensar inclusive no aniquilamento do meu inimigo, coisa que não seria adequado, em princípio porque não vai com a natureza humana, e em segundo lugar, porque o inimigo é em princípio uma Polis, que por uma cicunstância se converteu em inimiga. O que vou fazer é simplesmente neutralizar o inimigo, o inimigo se neutraliza, mas não se aniquila, pelo menos essa era uma regra clássica que deveria se manter.

Agora vamos fazer uma excursão em torno do sentido da política moderna. No contexto moderno vamos ter em princípio certos fatos, certos acontecimentos que vão mudar completamente esse mundo anterior, esse mundo clássico ou antigo. O primeiro que vai ocorrer no mundo moderno é a aparição dessa distinção entre espaço público e espaço privado, ou espaço político e espaço moral. A raíz dessa dicotomia ou separação tem que ver com a aparição de um conceito muito caro também para a modernidade como o que é o conceito de autonomia. A Autonomia (eu escolho meus fins) implicará então em uma viragem profunda no sentido da Polis clássica. Imaginem o que significará a presença desse conceito, que é entendido como uma forma de liberdade absoluta ou de poder absoluta do indivíduo, com respeito ao cenário da cidade. Se todos os sujeitos que vivem na cidade se reconhecem como sujeitos autônomos, como sujeitos que têm sua própria lei, então vai ser muito difícil que possam aceitar a presença de um princípio universal, um princípio geral ou objetivo. Não estarão então com capacidade de integrar-se como coletividade, porque cada um pretenderá ser autônomo e isso significará ademais que muitos planos de vida poderão ser divergentes e antagônicos. Mas, ao mesmo tempo, haverão planos de vida que serão importantes para a coletividade como por exemplo o converter-se em mestre ou médico enquanto que outros até poderão ser prejudiciais para a coletividade como o dedicarmos ao narcotráfico por exemplo, mas o grane em tudo isso é que basicamente se terão que respeitar todos os planos de vida por igual, pois fazer discriminações entre planos de vida seria tomar como deficientes ou não tomar em sério a quem tem optado por planos que seriam considerados por outros como prejudiciais ou negativos.

Isso definitivamente poderia pôr em perigo o que o contexto antigo tornava muito em conta, isso é, as atitudes, talentos, e capacidade, de cada um para poder realizar certas atividades. Quantos de vocês gostariam ser cantores, mas não possuem boa voz para ele?. De igual maneira de poderia falar de qualquer outra atividade ou profissão, mas para isso se necessitarão capacidades ou dons que contribuam para realizar da melhor maneira essa atividade ou profissão, e precisamente ali está a sabedoria do indivíduo com conhecimento político, quer dizer, de saber localizar cada pessoa em sua função, porque cada pessoa tem certas aptidões para certas atividades. O erro nasceria ao se colocar alguém que não tem aptidões para determinado trabalho em um rol que não lhe corresponde, em dito caso, o prejuízo seria então para todos.

Logo que a autonomia começa a decantar, surge imediatamente o mundo da legalidade, o mundo do direito, que vai derrubar o espaço público ao serviço do espaço privado, assim pois, teremos agora um Estado que oriente sua atividade à proteção da segurança e da vida dos sujeitos autônomos. Isso é em realidade o nascimento do Estado absolutista. A primeira forma de Estado que existe no Ocidente. Uma vez que aparentemente se logra manejar esse elemento da segurança, a gente sente que há demasiada concentração de poder. Por isso, uma vez que passa esse estado de caos, a gente vai começar a exigir outras coisas, já não é suficiente a segurança, é nesse momento no qual começa a ser absolutamente relevtante o tema da liberdade individual, e mais especificamente ainda, o tema da propriedade privada, e teremos agora a continuação o nascimento de uma forma de Estado que podemos chamar de Estado Liberal, destinado à proteção da vida dos indivíduos, da liberdade individual e da propriedade. Se trata de uma defesa radical do âmbito doméstico já que finalmente será nesse lugar onde existirá o sujeito autônomo e onde seus interesses ou suas expectativas sempre vão estar lugados a um mundo estreito e reduzido. Por exemplo, minha família, meus amigos, meu trabalho, minha universidade, e a medida que passa o tempo esse mundo privado se vai fazendo muito mais importante e relevante e a mim já não me vai interessar o espaço público (espaço coletivo) que mal ou bem todavia poderia nos recordar do sentido da política antiga. Finalmente, o espaço público somente interessa em função à utilidade que possa oferecer a meu mundo doméstico.

O contexto atual representa então – como já espiram muitos críticos da políticas moderna – um estreitamente do ambiente público que se torna subsumido pelo espaço privado, em realidade, se trata de uma privatização do público que opera nitidamente quando o econômico se translada ao político e inclusive o subordina. Isso acontece porque por que a política expressa agora uma perspectiva individualista e doméstica, eliminando assim toda conexão com o coletivo. Por isso, o que aparentemente parecia ser início da modernidade e do nascimento do Estado moderno uma dicotomia entre o espaço público ou privado, ambos em permanente equilíbrio, vai a converter-se agora na hegemonia e domínio absoluto do privado.

Portanto, quando digo que estou interessado na política, ou quero esse cargo porque sou político, ou necessitamos ministros políticos, todos – e inclusive o mesmo interessado - , interpretam isso como algo negativo porque ao dizer político ou atividade política significaria simplesmente que estou tratando de satisfazer meus interesses privados e portanto todos vão querer ser chamados de técnicos ao invés de políticos, já que na atualidade o técnico implica imparcialidade, neutralidade, e até alguém poderia entender também proveito geral ou bem-estar coletivo. Nesse sentido, me parece muito importante reativar novamente o significado dos conceitos. Então, teríamos que entender que esse espaço deveria ir crescendo, mas aqui há trabalho para os teóricos, porque um conceito moderno como o de autonomia, por exemplo, estaria demasiado enraizado como para poder dispor e sem embargo sabemos que a ampliação do espaço público pode ser difícil contando com o conceito de autonomia de um lado, como poder manejar o âmbito privado, o da autonomia, com o âmbito político, o da totalidade? Em todo caso, caberia, sem embargo, digamos, entender a autonomia não como uma mera eleição individual senão como auto-realização, por exemplo.

Também seria desejável impulsionar o espaço público através de uma nova compreensão dos direitos individuais, digamos se nos perguntamos: como podem ser defendidos de melhor maneira os direitos e as liberdades? Por acaso a resposta não teria que ser através de uma cidade. Uma república é o lugar idóneo para o florescimento das liberdades, mas sabemos que para que exista uma cidade ou uma república antes devem haver cidadãos e os cidadãos sabemos também que antepõem suas obrigações e direitos.

Evidentemente, se requere da presença de uma “cidade” que proteja esses direitos e liberdades, senão teremos uma cidade integrada, então nada vai ter garantia de seus direitos ou liberdades. Agora bem: como de mantém a unidade da cidade? Fundamentalmente, em base a obrigações cívicas, portanto, a obrigação é mais importante que o direito, e o fazemos simplesmente pelo fato de defender as liberdades, com esse argumento, quer dizer, com a proteção da liberdade através da cidade, o que vou a ter que reivindicar é: cumpre primeiro tua obrigação com respeito aos demais e depois tua exigência, tua liberdade, teu poder. Lamentavelmente, essa visão tem sido pouco considerada devido à influência do discurso legal, do discurso político, do discurso do Direito, porque o discurso lehal ou jurídico sempre é baseada na proteção das liberdades e nos direitos, sobre todas as coisas.

Quero concluir então reclamando o lugar natural e próprio da política, e esse lugar não pode ser outro que o da cidade, mas a cidade em concreto e não em abstração. Quando o discurso de globalização nos fala da aldeia global ou dos políticos – técnicos nos apresentam a nova realidade do mundo unificado, não estão se referindo à verdadeira cidade senão a uma abstração que está constituída por direitos abstratos, espaços privados e quiçá o único real sejam os milhões de desempregados e marginais por fome e miséria do sistema imperante. A verdadeira cidade, a que aspira buscar o melhor regime político para dito bem-estar de sua população tem que ser o espaço ideal para o desenvolvimento de uma vida política saudável e com sentido. Espero então que esta palavras possam despertar em suas mentes e corações a necessidade de buscar com paciência e entusiasmo o verdadeiro significado da política e do político.

[1] Sobre isso se pode revisar o texto de Leo Strauss, “Quê é a educação liberal?” em Liberalismo antigo e moderno, Buenos Aires, Katz, 2007.

sábado, 9 de julho de 2011

A Propósito da Teologia Política e do Problema da Linha

por Eduardo Hernando Nieto

1. A Natureza da Linha e a Crise da Política

A crise do político que via-se vindo com força desde inícios do século XX segundo advertiam "profetas" como Weber, Schmitt ou Spengler, percebe-se claramente hoje com a convulsão social que gira ao redor da perda de significados dos conceitos, particularmente os políticos, como também com a  grave alteração do que foram os espaços, os papéis e as funções sociais tradicionais.

Tal confusão aprecia-se por exemplo no plano sexual quando começamos a ter problemas para distinguir os sexos e inventam-se conceitos ambíguos como o de "gênero", no aspecto político por sua vez, faz-se já complicado discernir entre os âmbitos públicos ou privados ou pior ainda, diferenciar o amigo do inimigo, e a vagueza também exibe-se quando resulta impossível falar de hierarquias, de centros e periferias, do real e do ideal ou finalmente no plano moral, do bem e do mal.

Certamente, a gravidade e perversidade deste fenômeno, como demonstraremos logo, é usualmente "anestesiada" recorrendo à linguagem "acadêmica", descrevendo esta nova realidade simplesmente como uma manifestação natural da chamada pós-modernidade que caracteriza-se justamente pela relativização dos conceitos e pela conseguinte eliminação das hierarquias, forma típica, dito seja de passagem, que acompanhou a modernidade cartesana. Inclusive, para os filósofos pós-modernos, herdeiros diretos do discurso marxista, como Lyotard, Foucault ou Derrida, esta situação mais bem poderia ser vista de modo positivo na medida que a superação e anulação final das hierarquias consideram-se como um signo de plenitude democrática, falando-se assim da transcendência ou anulação do poder e finalmente da afirmação da igualdade plena.

Não obstante, para entender este fenômento e compreender acima de tudo a natureza do perigo que ronda por trás desta situação, segundo nossa leitura particular, vamos recorrer inicialmente ao apoio da Teologia Política, e ao conceito da linha ou katechon. Assim pois, desde a Teologia Política, toda esta situação de crise social e anomia não é senão fruto de um processo acelerado de indiferenciação daquilo que permitia anteriormente a separação e a conseguinte definição de espaços e papéis, isto é, do nomos, (de acordo à linguagem jurídica), da linha, (desde a perspectiva metapolítica), ou katechon, o selo que continha a chegada do iníquo ou anticristo como afirmava a revelação dentro do contexto teológico.

A idéia de limite sempre esteve associada ao homem e sua natureza, assim o entenderam filósofos clássicos como Sócrates, Aristóteles e Platão, teólogos como Santo Agostinho ou São Tomás e inclusive filósofos modernos como Montesquieu, Tocqueville ou Stuart Mill, os quais com maior ou menor intensidade compreenderam que a virtude e a justiça dependiam da existência de uma ordem política, assumindo que esta ordem somente poderia ser viável sempre que pudessem definir-se claramente limites, inclusive de caráter interno.

Neste sentido, a política teve também o objetivo de situar e delimiar espaços dentro da terra, vale dizer, em conseguir manter uma linha de separação que definisse também os objetos, quer se tratasse por exemplo de uma comunidade, de uma família, uma Igreja, do Estado, ou da propriedade ou mantendo uma divisão entre contrários, o meu e o teu, ou o bom e o mau, desde uma perspectiva qualitativa, isto é, na busca do melhor regime político que nascia da tentativa de harmonizar os opostos.

Se bem é verdade que tem sido usual o associar a idéia de separação ao pensamento moderno, ao menos em seus inícios, e na política moderna ao liberalismo e à democracia, não obstante, como já vimos no contexto antigo também estava muito presente a idéia de nomos ou linha, tratando-se neste caso de uma separação que não buscava isolar os espaços senão integrá-los em um todo coerente mantendo a diversidade dentro da unidade orgânica, garantia última do regime justo.

Assim pois, o nomos como sustentava acertadamente o teórico político e jurista alemão Carl Schmitt, produzia então um ordenamento dentro de um espaço físico estabelecendo imediatamente significados e sentidos. O nomos podia entender-se também como o ato inicial de possessão da terra:

"A história de todo povo que fez-se sedentário, de toda comunidade e de todo império inicia-se pois, em qualquer forma com o ato constitutivo de uma tomada da terra. Isso também é válido enquanto ao começo de qualquer época histórica. A ocupação de terra precede não só logicamente, senão também historicamente à ordenação que logo seguir-lhe-á. Contém assim a ordem inicial do espaço, a origem de toda ordenação concreta posterior e de todo direito ulterior. A tomada de terra é o enraizar no mundo material da história."

Schmitt ao mencionar o conceito katechon, ou nomos, associava-o fundamentalmente ao catolicismo, no qual a linha divisória marcava o terreno eclesiástico e político porém mantendo uma relação ainda quando poderia ser que no fundo a autoridade eclesiástica mantivesse uma preponderância na medida em que o Império ou a Respublica Christiana havia-se construído em função à revelação e à tentativa de evitar a concentração de poder. O katechon neste caso podia entender-se também como autoridade, como auctoritas.

"A unidade medieval de império e sacerdócio na Europa Ocidental e Central não foi uma concentração de poder em mãos de uma pessoa. Estava baseada desde o princípio na diferenciação entre potestas e auctoritas como duas linhas distintas de ordem dentro da mesma ampla unidade. As diferenças entre Imperador e Papa não são, portanto diferenças absolutas, senão unicamente ordens nas quais perdura a Respublica Christiana."

Por isso, a negação do katechon seria o chamado Cesarismo que surgiria ao redor da Revolução Francesa constituindo um regime político presumidamente todo poderoso porém em termos reais muito débil em relação ao Império porque o verdadeiro poder requer também da autoridade que era algo que o Cesarismo descartava gerando assim um regime político secular e inimigo da Teologia Política, quer dizer, negador do katechon e da autoridade, portanto, inimigo da ordem.

Certamente, Schmitt destacou sempre o caráter espaço-temporal e voluntarista da política, em contraste com a dinâmica abstrata e atemporal que percebia-se por exemplo no discurso jurídico e político moderno de induvidável raioz kantiana, assim mesmo a política entendida como nomos ou como katechon implicava uma tomada de posição que criava identidades e permitia assim o reconhecimento e a consolidação de comunidades delimitadas pela própria política. De fato, o nomos e seu caráter concreto estava ainda presente no discurso dos filósofos clássicos, em particular Aristóteles, entendendo-se basicamente como "a forma imediata na qual faz-se visível, enquanto ao espaço, a ordenação política e social de um povo."

Por certo, que a própria idéia de linha ou nomos conduzia-nos à imagem do traçado como ato de vontade ou decisão, uma ação que implicava no fundo uma recriação do ato fundacional do mundo, entendido este como ordem natural ou divina, a qual significava que a política não podia desligar-se de seu fundamento metafísico e teológico.

A presença do nomos envitava então a anomia que seria no fundo uma manifestação da indecisão, indefinição e relativismo. Neste sentido, verdadeiros inimigos da política ou do nomos seriam então a ausência de decisão ou vontade, por um lado, e pelo outro, a promovida neutralidade frente aos valores, típica característica do liberalismo contemporâneo.

Assim pois, a ausência de decisão observar-se-ia dentro de contextos como o do Mercado, por exemplo, pois este seria o espaço da "não decisão" e da "ordem espontânea", enquanto que no caso da neutralidade, falaríamos do Estado Liberal contemporâneo precisamente ao ser este o maior promotor da indiferença no tema dos valores e do individualismo que nega o respeito por qualquer princípio político ou verdade objetiva.

Indubidavelmente, a carência de conhecimento político no mundo atual faz passar desapercebido este problema que resulta na prática crucial pois poderia explicar muitos dos acontecimentos que vem-se decantando hoje e que tem que ver diretamente com a perda de propósitos e sentidos na vida dos homens, com os conflitos que se suscitam pela falta de identidade, a ausência de status e a luta pelo reconhecimento. Por isso mesmo, é que a indiferenciação do nomos significaria abrir as portas ao caos e a desordem.

Chegados a este ponto é pertinente apresentar-se algumas perguntas, o que é que produziu este fenômeno de perda do nomos? Por quê os limites foram transbordados? E o mais importante, como poder-se-ia recuperar o katechon?

Sem dúvida, que são perguntas complexas porém quiçá a última seja muito mais difícil de responder. Pelo visto, a raiz do decaimento da linha está dado pelo incremento do poder e da força nos homens. Se reconhecemos na linha um limite que não pode ser ultrapassado, o poder crescente que veio concentrado o homem moderno serviu para ultrapassar a linha e inclusive apagá-la, com isso então destapou-se "o selo), como rezava a revelação, trazendo o conseguinte caos e anomia generalizada.

Este poder concentrado, chama-se em realidade Técnica Moderna que tem que ver diretamente com esta crise de política. Não por gosto, aquieles que interessaram-se durante o século XX pelo problema do katechon, como Jünger, Schmitt, Heidegger ou Spengler, olharam com grande suspeição o desenvolvimento da técnica.

A técnica moderna, à diferença da antiga como sustentava Heidegger não pretende "re-velar" ou "des-cobrir" como a antiga poiesis, mas sim desafiá-lo:

"O que é a tecnologia moderna? Também é revelação. Somente quando nos permitimos prestar atenção a sua característica fundamental é quando a tecnologia moderna se nos mostra. E não obstante, a revelação que se dá através da tecnologia moderna não se manifesta da maneira de trazer a nós no sentido da poiesis. O revelar que subjaz à tecnologia moderna é o do desafio (Herausforden), que coloca à natureza na pouco razoável demanda de que nos providencie energia que possa ser extraída e armazenada como tal."

Paradoxalmente, esta técnica que podia servir para construir e expandir a vida e o bem-estar e que era também fruto da divisão do trabalho, possuía um lado maligno no sentido de poder outorgar uma força igualmente poderosa para destruir e alienar o homem de sua essência, quer dizer, tinha o poder de remontá-lo fora da natureza e fora de sua própria natureza, desumanizando-o. Porém, esta técnica ademais, servia para relativizar espaços e fazê-los perder significado, como quando empregávamos os elevadores em um edifício deixando vazios e sem uso as escadas, excluindo-as da realidade; ou quando a concentração de áreas comerciais em distintos lugares da cidade, começava a constituir uma série de guetos sem contato entre si, acentuando assim a fragmentação da cidade e a afirmação de diferenças radicais.

O poder da técnica no campo da biologia poderá servir também para deixar completamente aberto o âmbito da privacidade como observamos no caso do projeto genoma humano, que permite por exemplo gerar uma quantidade de informação sobre a pessoa que não somente a torna vulnerável mas senão que na prática terminará por reduzir sua autonomia a níveis inaceitáveis. Com a técnica então a dualidade do escuro e do luminoso, se desvanece em favor da luz, a qual no plano social pode ler-se como a "publicidade do privado" que terminar assim por acabar com a privacidade.

No fundo, a técnica moderna proporcionava um poder excessivo aos homens que terminava por desvirtuar a figura da autoridade, outorgando a seus detentores uma capacidade tal que já não podiam ser controlados por nada nem por ninguém. Em realidade a técnica ao final podia mais bem ser útil somente a ela mesma e já não à humanidade, tal e como advertia também o próprio historiador Oswald Spengler:

"A civilização converteu-se ela mesma em uma máquina que tudo o que faz ou quer fazer, o faz maquinisticamente. Hoje pensa-se em cavalos de vapor, já não se veem e contemplam as cascatas sem convertê-las mentalmente em energia elétrica. Não se vê um prado cheio de rebanhos pastando sem pensar no aproveitamento de sua carne. Não se tropeça com um belo ofício antigo, de uma população todavia alimentada de seiva primordial, sem sentir o desejo de substituí-lo por uma técnica moderna. Com sentido ou sem ele, o pensamento quer realização. O luxo da máquina é a consequência de uma construção mental. A máquina, é, em último termo, um símbolo como seu ideal oculto, o perpetuum mobile, é uma necessidade espiritual e anímica porém não vital."

Porém, os maiores perigos radicavam não somente em que a linha ao final podia ser varrida pela técnica senão também porque sem ser necessariamente eliminada esta podia ser objeto de manipulação e alteração arbitrária. Quer dizer, que a técnica brinda também a possibilidade de "jogar" com sua localização e colocá-la segundo conveniência em qualquer lugar. Um exemplo do dito encontramos claramente na promovida "sociedade civil" e seus produtos conhecidos como Organismos Não-Governamentais (ONGs), conceito que possui tal ambiguidade que por momentos aparece situada dentro do âmbito privado porém também dentro do espaço público. Assim, quando trata-se de participar no governo "assessoram", ocupam cargos públicos e cobra do erário Estatal como se tratassem de organizações políticas escolhidas popularmente gozando por isso de representação política, porém quando o assunto tem que ver com o controle ou a supervisão então imediatamente identificam-se com o espaço privado buscando assim neutralizar qualquer ato de fiscalização, quer dizer, reivindicam uma imunidade.

Esta situação, ademais de gerar mal-estar pela desonestidade e injustiça do fato, produz uma sensação de real confusão, que é também um signo claro do processo de indiferenciação do katechon. A confusão é no fundo um símbolo inequívoco de anomia exagerada, quer dizer, de uma situação na qual esta supera ao nomos e gera esta atmosfera tão nefasta que estaria avisando a próxima desaparição do nomos da terra.

Avaliado já o problema da perda do nomos, encontramos que sua gestação dá-se com a chegada à técnica moderna, que é a sua vez resultado do desenvolvimento da própria modernidade. Uma modernidade que em si mesma é um processo contraditório e que se acelera diariamente.

Agora bem, se o nomos pode interpretar-se como um ato de vontade, é induvidável que sua restauração passa pelo terreno político, do poder e da decisão, porém o poder como vimos requer limites, quer dizer, que deixe de ser somente poder e transforme-se em autoridade. Não obstante, o contexto atual dificilmente presta-se para entender a natureza da autoridade que ademais requer de fundamentação filosófica ou teológica mais não científica. Assim mesmo, o outro grave problema encontramos com a própria presença hegemônica da técnica que não podemos anular ademais de ser isto também um absurdo. O nomos requer então de uma técnica que possa ser limitada e em cujo caso necessitará também de pessoas que possam controlar dita técnica e que se possa reorientá-la a fim de que ela mesma possa contribuir a restaurar a ordem com o traçado da linha.

Consequentemente, a tese sugerida por Leo Strauss, em relação à recuperação da filosofia política e da educação liberal junto com a possibilidade de retomar a concepção do Estado decisionista nos termos de Carl Schmitt, seriam duas alternativas necessárias neste objetivo. Trata-se então de constituir por um lado cidadãos virtuosos que estejam em condições de manejar e moderar seus sentimentos para poder reomar o sentido real da política, enquanto que pelo outro, de afirmar um Estado que oriente e fixe sentidos e valores e não que permaneça impávido como aconselham os impulsores do Estado neutro do liberalismo contemporâneo e do Mercado. Somente assim poderemos retomar o sentido do katechon, quer dizer, graças ao reencontro com a filosofia política e com a teologia política.


sábado, 16 de outubro de 2010

Democracia de Massas ou Democracia Representativa?

por Eduardo Hernando Nieto

Na prática política democrática podemos encontrar basicamente duas possibilidades concretas, ou bem falamos de uma democracia participativa ou propomos uma teoria elitista da democracia, no primeiro caso se pensa que a democracia (leia-se poder) deve ser expandido e que deve chegar a todos os âmbitos da vida humana, por sua vez a teoria elitista considera que não é bom que todos participem porque ou bem estão incapacitados de fazê-lo ou porque sempre estarão buscando satisfazer seus interesses pessoais.

Nesse sentido, de acordo com a natureza do sistema clássico da democracia representativa inspirada evidentemente na democracia elitista, essa se sustentava no princípio aristocrático como assinala Carl Schmitt: "A forma política da Aristocracia se baseia no pensamento da representação. Porém a consequência desse princípio formal fica debilitado e atenuado, porquanto não é uma única pessoa, mas sim uma pluralidade de pessoas a quem se representa."

Evidentemente, o propósito da representação era o de conservar uma ordem na qual se mantinha uma separação entre Opinião e Conhecimento, precisamente, a visão da democracia participativa, se caracterizaria pela negação das separações e por consequência a abolição da diferença entre Opinião e Conhecimento, o quê desde meu ponto de vista resultaria nefasto como veremos imediatamente.

Como assinalava, o Sistema de Representação se elaborou com base na organização das separações a partir da proposta elitista sustentada precisamente na distinção entre opinião e conhecimento, o sistema representativo devia ser inicialmente uma "representação do conhecimento político", porém, o Estado Burguês de Direito, quer dizer, o Estado Liberal tratou de integrar de alguma maneira os princípios aristocráticos junto com o princípios democrático participativo, e isso ficou expresso na configuração do Sistema Bicameral:

"A fundamentação e formulação do sistema bicameral clássico para o liberalismo burguês do século XIX, se encontra em Benjamin Constant. Concebe a Câmara Alta como uma representação especial, e tenta dividir a representação estabelecendo diversos objetos da mesma. A câmara de deputados surgida do sufrágio é um representante da inconstante opinião pública; a Câmara Alta, baseada na herança, representante da duração e da continuidade (durée, em contraste com "opinião"). Ao "poder real" como neutro, ao Executivo, como aplicação e ao poder judicial já não lhes chama "representativos". Com diversas modalidades se reprete o pensamento de que uma Câmara Baixa, dominada por opiniões e maiorias cambiantes e baseada no número e na quantidade, deve se pôr ao lado de uma representação especial da estabilidade e da qualidade. (...)"

Assim pois ficava claro apesar da inclusão do elemento participativo o caráter elitista da democracia representativa, considerando que aos fundadores da democracia representativa não lhes preocupava que as eleições pudessem ter como resultado uma distribuição desigual de cargos, e sobretudo afirmando a superioridade dos representantes em relação a seus votantes:

"Acreditava-se firmemente que os representantes eleitos deveriam sobressair em relação à maioria dos eleitores no que concerne a riqueza, talento e virtude. Na época em que se estabeleceu o governo representativo, a porcentagem da população que constituía o eleitorado variava de país para país."

Era indubitável então que o regime representativo era altamente racional e que de alguma maneira tentava harmonizar as duas perspectivas democráticas destacando sempre essa distinção entre os poucos e os muitos.

Lamentavelmente, a democracia liberal contemporânea ao estar baseada em um fundamento "científico" e não "filosófico" passou por alto esses antecedentes da democracia liberal clássica, ignorando sua origem elitista e sobretudo sua distinção entre Episteme (Conhecimento) e Doxa (Opinião), ao fazer isso, não osmente está traindo suas origens mas sim que inevitavelmente nos leva à Democracia de Massas, quer dizer, à democracia estritamente participativa - ao menos em teoria - , onde "qualquer um" pode ascender ao poder e onde quem ascende a este não tem a menor ideia do que fazer com ele, pois carecem precisamente de conhecimento político que em outras circunstâncias poderia orientá-los nesse sentido.

Tradução por Raphael Machado