por Geydar Dzhemal
(2012)
Todas as discussões sobre a “Nova Ordem Mundial” que tiveram lugar no discurso social mundial desde os anos 30 do século XX e até os neoconservadores de Bush não foram na realidade mais do que discussões sobre a nova formação político-social que vem substituir tanto o capitalismo como o socialismo. O socialismo via-se a si mesmo como a saída para a fase final do progresso histórico, mas está claro que esta ambição era ignorada tanto no Reich, como nos Estados Unidos do modelo 11 de setembro. O socialismo, em definitivo, não representava uma ruptura radical com a história mundial anterior. Para esta rutura faltava-lhe o principal: não superava o critério liberal da “boa vida” – o livre consumo dos bens materiais.
Claro que no socialismo estava presente a corrente religiosa ascética do anticonsumismo, a visão mística da revolução a partir de baixo, mas esta visão não superava os marcos do cosmismo, estava determinada pelo horizonte do titanismo, arraigado na camada arcaica da atitude perante o mundo. Este cosmismo titânico dentro do conjunto do fenômeno socialista era marginal com respeito à linha geral materialista.
No entanto, o discurso sobre a “Nova Ordem Mundial” necessariamente pressupõe uma reorientação cardinal e a colocação como pedra de toque daquilo que a corrente intelectual dominante dos séculos XIX e XX considerava como algo periférico e descartável, mais concretamente trata-se da “metafísica”.
A metafísica volta hoje ao primeiro plano dos subentendidos políticos, ao espaço da “Grande sociologia”. Volta de maneira renovada, depois de que os jazigos da herança intelectual comum da humanidade foram desmontados e limpos pela desconstrução pós-modernista. Hoje, novamente, resulta que tudo o que ocorre no mundo não ocorre em nome do que há neste mundo…
É característico que os economistas e politólogos atuais evitam utilizar o termo “formação político-social”. Está relacionado com a visão marxista providencialista da história, que para os “clássicos” se dividia em cinco “formações”, como os tons da música chinesa. Primitiva, escravista, feudal, capitalista, e, por último, aquela mesma, “a nossa”…
Hoje o conceito de “formação” foi substituído pela expressão mais politicamente correta de “regime tecnológico”. Os atuais donos do discurso não se apressam a mostrar as suas cartas. Preferem evitar as insinuações acerca da teleologia escatológica do tempo. As formações levam ao final da história, mas pode haver uma multitude de regimes tecnológicos.
Do mesmo modo, a velha economia política foi substituída pela economics que promovem e ensinam em todos os centros de formação da management. Tudo isso se pode definir como os “subterfúgios do período de transição”. Seu objetivo é não afugentar a presa, ou seja, a humanidade obediente às leis que povoam as selvas da megálope mundial.
Claro que também a divisão marxista nas cinco formações era mitológica e metodologicamente defeituosa. No “providencialismo cosmista” marxista, apesar do monismo filosófico sublinhado com insistência e a referência à dita infraestrutura na forma da eterna “necessidade de comer e de vestir”, no entanto, estava ausente a ideia da verdadeira unidade da humanidade no tempo. Esta unidade não se pode entender pensando que o escravo na antiga Roma e o proletário de Birmingham têm as mesmas necessidades biológicas. Na realidade, a unidade histórica da humanidade como sujeito coletivo desde o momento de sua aparição e até o final escatológico consiste em que é a portadora de um mesmo problema, independentemente das circunstâncias do tempo e do lugar e das peripécias da trama histórica.
O eterno problema da humanidade que atravessa toda a história é o problema da absoluta oposição e despiadada luta entre os dois polos metafísicos: o ser e a consciência. Precisamente esta oposição conforma o segredo de um fenômeno como o tempo.
A duração no seu sentido físico não forma o tempo por si mesma. A duração não possui um caráter irreversível, todos os elementos baralhados no processo da duração física podem mudar-se de posição, se não possuem o significado que converte a sua sucessão em irreversível. Por outras palavras, existe um abismo entre a duração que se refere aos objetos e o tempo, que representa um argumento na sua dinâmica que vai de um princípio a um final. Assinalamos aqui a diferença absoluta que existe entre um processo químico ou qualquer outro processo natural e, por exemplo, a ação que se desenvolve no palco de um teatro; ação na qual é impossível mudar os elementos de lugar e que pressupõe um ponto de partida e um final. Mas o padrão do argumento, que forma o tempo em diferença da simples duração, é a vida humana, que tem começo e final. A questão não é que com a morte o homem desaparece; também os animais e os objetos inanimados desaparecem. O assunto está em que em cada segundo (com cada contração do músculo do coração) da vida do homem, ele é o espelho do seu inevitável final, percebe a morte como o critério da sua unicidade e a base do seu testemunho individual sobre o ser. Justamente “a vida para a morte” é o que converte a duração em tempo. Por sua vez, o meta-argumento coletivo que se refere ao conjunto da humanidade converte o tempo em História.
A consciência da morte em cada momento da vida forma o “aqui e agora” da consciência que está testemunhando. Na realidade, essa é a consciência como tal, porque todo o resto – conhecimentos, sensações, impressões, emoções – são as objetivações do Eu real, que se fazem possíveis graças a esta presença permanente da morte em cada instante vivido.
O tempo vital pode ser gasto de duas maneiras. Ou o homem de alguma maneira participa no gigantesco e complexo mecanismo da sociedade, ou converte-se em monge no deserto, cospe no teto ou sai do jogo social de qualquer outra maneira. Se o homem é um membro da sociedade, o seu tempo vital é alienado e convertido em capital. Pode ser um desempregado ou um bandido. Em ambos os casos, a sua existência cria inúmeras novas relações sociais, proporciona trabalho aos empregados dos escritórios de emprego ou polícias, de uma ou outra maneira transforma-se no produto interno bruto. Tudo o que nos rodeia, desde o ídolo tribal trazido de África, até ao pedaço de cerâmica de uma escavação arqueológica, é o tempo materializado das gerações passadas, transformado no capital vivo que atua continuamente.
Capital (e capitalismo) sempre existiram, porque desde o momento do aparecimento da sociedade tem existido a alienação do tempo, que era convertido em “o ser enlatado”. O fenômeno do homem universal não é mais do que o reflexo do puro ser no espelho do nosso mundo. É de que justamente falam os pensadores tradicionais quando refletem sobre o microcosmos e macrocosmos, a “imagem e semelhança”, as analogias entre o de cima e o de baixo. Mas em qualquer reflexo é preciso separar o aspecto da autenticidade do da ilusão. O reflexo reproduz o original, mas não o é. O ser que fora de nós é “eterno”, refletido na imagem da humanidade, converte-se no “ser no tempo”.
Sociedade é uma gigantesca máquina que extrai a essência do autêntico do fator humano para devolvê-lo ao ser universal objetivo. Pode-se dizer que a sociedade é o permanente cobrador de impostos supra-histórico que cobra a cada nascido o imposto no interesse do dono metafísico, com respeito ao qual todos os faraós e césares não são mais do que atores que interpretam o seu papel.
O defeito do marxismo revolucionário consistia exatamente nisso: na ausência da dimensão metafísica, pelo que o conceito da alienação convertia-se em extremamente banal, reduzido em essência a uma representação perfeitamente liberal sobre o conteúdo da personalidade humana na sua relação com o meio. O marxismo também não podia, sem trair-se a si mesmo, colocar a questão do conflito entre o ser e a consciência como o conteúdo central da economia política.
O problema do capital é a desproporção entre o seu preço em forma alienada e o preço do tempo vital que ainda não se converteu no “ser enlatado” deixado pelas gerações precedentes. Ponhamos um exemplo. O Faraó, como o “capitalista” da sua época, dispunha do tempo vital dos seus súditos. Traduzido ao dinheiro de agora, mal custava nada. O Faraó transformava este tempo nos canais de irrigação, palácios e pirâmides. Desde o começo da temporada turística no Egito, inaugurada por Napoleão em 1799, e até ao dia de hoje, os turistas que tinham vindo para ver as pirâmides deixaram mais dinheiro do que custava todo o tempo vital dos antigos egípcios, gasto na sua construção.
À medida da crescente mobilização do fator humano dentro da dinâmica do assim chamado “progresso”, esta desproporção não faz mais do que aumentar. Hoje, o valor do tempo vital da absoluta maioria dos habitantes do nosso planeta é extremamente pequeno comparado com o conjunto do capital planetário, cujo preço se revaloriza continuamente em alta. Essa desproporção é muito mais importante que a falta de paridade entre a quantidade de dinheiro que circula pelo mundo e o preço total de tudo o que pode ser comprado (embora ambos os desajustes estejam relacionados). Simplesmente falando, os sete mil milhões de humanos que vivem sobre a terra “valem” X, ao passo que o capital conjunto, no qual entram as ações de todas as companhias, e os quadros do Louvre, e uma multitude de intermináveis relações sociais… vale 7 X. Estes sete bilhões de habitantes, segundo o seu preço, distribuem-se de uma maneira muito desigual. Bilhões deles realmente “valem” X ou quase, enquanto o preço dos restantes seis bilhões se aproxima do zero. No entanto, a manutenção da vida de todos os sete bilhões supera com sobras os benefícios do capital conjunto. Por outras palavras, a humanidade atual não cobre as despesas da sua manutenção. Em teoria, poder-se-ia pensar em levar os restantes seis bilhões ao nível dos primeiros bilhões, à maneira de como os bolcheviques converteram os 150 milhões da população arcaica analfabeta numa das sociedades mais avançadas da época industrial. Mas para realizar semelhante façanha, é preciso gastar muito mais meios dos recursos financeiros que existem no mundo atualmente. Para converter o continente africano em Manhattan, hoje já não restam aquelas damas da corte às quais poder tirar os diamantes. Só há uma solução: tirar radicalmente à economia global a responsabilidade pela existência desses seis bilhões de pessoas que sobram.
É para isso que se precisa o governo mundial! Enquanto existirem as soberanias nacionais que são sujeitos de direito internacional e membros da ONU, toda a tensão conflituosa, acumulada na humanidade, manifestar-se-á nos enfrentamentos entre esses sujeitos, os estados nacionais.
Hoje está-se a criar outro nível de conflito: a burocracia internacional contra as soberanias nacionais. É uma fase intermédia, transitória. A conversão da burocracia internacional no governo mundial de pleno direito significará a possibilidade de passar dos conflitos horizontais de rede ao conflito global na vertical, quando os de cima poderão declarar a guerra diretamente aos de baixo a nível mundial, e não somente aos talibãs, ou ao ditador Saddam ou ao desastrado Assad. O conflito entre os de cima e os de baixo, liberto do deformador prisma dos estados nacionais, dará a possibilidade de criar a nova sociedade livre das desproporções quantitativas, na qual se realizará a forma ideal da escravatura, baseada na obrigação psicológica. Essa escravatura, apoiada pelas últimas tecnologias informáticas e novas fontes de energia, será, segundo os planos dos estrategas do governo mundial, o salto para a Idade de Ouro, onde nenhuma crise poderá afetar a multitude de futuras gerações. Neste caso, a elite tradicionalista confia em resolver definitivamente a eterna oposição entre o ser e a consciência (que cria todas as crises em última instância) a favor do ser.
