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12/02/2012

A Causa do Povo

por Robert de Herte

Como sensibilizar um povo tão desencantado e anestesiado como o nosso, se não fazendo ficar alerta ante perigos imaginários? Assim escreveu Tocqueville em sua obra "O Antigo Regime e a Revolução". Hoje, esses perigos imaginários são de que a classe política midiática tira de sua cartola para desviar a atenção dos perigos reais e fazer o povo esquecer sua própria impotência. As denúncias de "populismo", a "ameaça populista", a "deriva populista", a "tentação populista" – se realiza fora de toda evidência constatavel. Desde o início dos anos oitenta, este termo, que anteriormente pouco utilizado, fez uma aparição estrondosa no discurso público. Atualmente funciona como uma desqualificação política ao assimilá-los, contraditoriamente, a um nível de categoria de análise.

Certamente que hoje o populismo é, acima de tudo, um estilo ou tendência. Como tal, pode ser combinado com quase qualquer ideologia: o populismo nacional-populismo, ultra-liberal, populismo de esquerda, o trabalho pró-populista, etc. O populismo pode ser democrático ou solidarista reacionária e xenófoba. É um termo “camaleônico”, absolutamente maleável à conveniência, de modo que o discurso da mídia ou o pseudo-intelectual pode satanizá-lo sem qualquer conteúdo verificável, e pode ser aplicado a qualquer situação. Daí a sua "hiper-utilização polêmica" (Pierre-André Taguieff), que em última análise, impede sua decodificação em tipologias e definições.

Como estilo, o populismo é principalmente aplicado em casos do tipo "catch all", que multiplicam as promessas de uma perspectiva essencialmente demagógica. Seus líderes, tribunos de mandíbulas apertadas com sorriso telegênico*, exploram as angústias e ressentimentos, capitalizam os medos, as misérias e as angústias sociais, muitas vezes, desiganando com frequência bodes expiatórios, mas sem jamais colocar em questão a lógica do capital. Sua posição mais corrente consiste em apelar ao povo contra o sistema vigente. Esta "chamada ao povo" é claramente enganosa, talvez porque a noção de "povo" pode ser entendida sob muitos pontos de vista. Este populismo tem também o seu componente "ingênuo", quando limita-se a elogiar as "habilidades inatas" do povo, certamente "espontâneos" de seus juízos, o que torna inútil qualquer mediação. Poderíamos dizer que os populistas não fazem política com relutância. Sempre correm o risco de cair, ou em uma atitude puramente apolítica, ou em em uma prática vociferante de dizer idiotices nos discursos.

Ainda assim, por mais criticável que seja, este populismo tem o valor de um sintoma. Reação dos “de baixo” contra os "de cima", daqueles que confundem cargos de poder com o desfrute de privilégios, representa ante toda a rejeição de uma democracia representativa que já não representa a mais ninguém. Protesta contra as ruínas apodrecidas das grandes instituições suportadas pelo país 'real', revelando um sistema político disfuncional que já não mais atende às expectativas dos cidadãos e que se mostra incapaz de garantir a permanência do vínculo social, testemunha uma rarefação do clima político, um afastamento cada vez maior da "classe política". Ela revela uma crise da democracia, recentemente analisada por Gerard Mendel como "uma tendência de fundo onde sucessivamente se dessacraliza a autoridade, se perde a fé nas ideologias globalistas na convergência “de gestão" dos grandes partidos, e se instala o sentimento difuso de que as forças econômicas são as verdadeiramente poderosas”. Tal fórmula populista surgiu desde que os cidadãos se afastam das urnas pela simples razão de que já não esperam nada de seus resultados.

Nestas condições, a denúncia de "populismo" esconde muitas vezes uma tendência para desarticular o protesto social, tanto por parte de uma direita preocupada com seus próprios interesses, como de uma esquerda já massivamente conservadora e afastada do povo. Isto permite que uma nova classe ociosa e corrompida, cuja principal preocupação é a "deslegitimação de todos aqueles para quem o povo é uma causa a defender o benefício daqueles para quem o povo é um problema a ser resolvido" (Annie Collovald), ver o povo com desprezo. Que o "apelo ao povo" pode por si só ser denunciada como uma patologia política, e mesmo uma ameaça para a democracia, é em si mesmo revelador. Esquecer que na democracia, o povo é o único depositário da soberania. E ainda mais quando esta se encontra confiscada.

Reduzido a mera postura, o populismo se converte em sinônimo de demagogia, ou melhor mistificação. Mas o populismo pode existir sob uma forma política integral, ou seja como um sistema de idéias organizado. Tem até mesmo seus grandes precursores: Ludditas e cartismo inglês, agraristas americanos e populistas russos (narodnitchestvo), sindicalistas revolucionários e representantes do socialismo francês de tipo associativo adesão associativa, sem esquecer de seus grandes teóricos, de Henry George a Bakunin, de Nicolas Tchernychevski a Pierre Leroux, Benoit Malon, Sorel e Proudhon.

Como política, o populismo se manifesta através de um compromisso com as comunidades locais ao invés da "Grande Sociedade". Não é amigo nem do Estado nem o mercado, chegando a rejeitar tanto o individualismo liberal quanto o estatismo. Tem como objetivo a liberdade e a igualdade, mas é inerentemente anti-capitalista, pois observa claramente que a primazia de “todo mercado” liquida com todas as formas de vida em comum às quais está ligado. Aspira a uma política coerente com as aspirações populares, com base na moral popular que possui grande desconfiança para com a "classe política", e pretende criar novos espaços de expressão coletiva, com base em uma política de proximidade. Postula a participação dos cidadãos na vida pública como algo mais importante do que as "regras institucionais" do jogo de poder. Em resumo, da um papel fundamental no conceito de subsidiariedade. É por isso que é explicitamente contra as elites políticas e midiáticas, diretivas e burocráticas.

Na medida em que é anti-elitista, o verdadeiro populismo é, portanto, incompatível com os sistemas autoritários a que temos tendência a assimilar. É também incompatível com os belos discursos dos auto-proclamados líderes que dizem falar em nome do povo, mas têm o cuidado de não lhe dar a palavra. Sempre que seu impulso venha de cima, ou por obra de um tribuno demagógico que se aproveita dos protestos sociais ou do descontentamento popular sem deixar o povo expressar-se, saímos do populismo propriamente dito.

Posto na sua própria perspectiva, o populismo tem mais futuro do que a política institucional, que precisamente tem cada vez menos futuro. Atualmente, é o único capaz de sintetizar o eixo justiça social-segurança que tende a suplantar o eixo esquerda-direita dos conflitos sociais clássicos. É desta forma que oferece uma alternativa à hegemonia neoliberal, nada mais que baseada na política representativa. Ao propor a revalorização da política local graças a uma concepção responsável da democracia participativa, pode desempenhar um papel libertador. Desta maneira se reencontra com seu papel de origem: servir à causa do povo.

11/05/2011

A Direita "Anticomunista"


"As necessidades da luta obscurecem frequentemente as suas razões. O movimento tornou-se suficiente em si mesmo: não nos interrogamos mais sobre as causas do nosso envolvimento. Passa-se isso com o anticomunismo, que alimenta agora os pontos de vista mais diferentes numa zona de consenso equívoca. A direita é anti-soviética, os liberais também, os sociais-democratas igualmente, sem esquecer os marxistas críticos que acham que Marx foi “traído” por Estaline e os comunistas dissidentes que souberam “distanciar-se”.Nota-se bem a confusão.

A nossa oposição ao comunismo é completa e não temos desejo algum de viver num regime como o soviético. Isto seria provavelmente escusado dizer, mas ainda melhor se o dizemos. Mas pensamos também que o anticomunismo deve encontrar o seu fundamento fora de si mesmo; que a hostilidade em relação ao Kremlin não deve servir de pretexto para aceitar outras lealdades, que a política tem as suas leis próprias, que não se reduzem integralmente nem à moral nem à ideologia.

O nosso anticomunismo não tem portanto nada de primário. Ele deriva de uma oposição ao universalismo igualitário, onde o comunismo não é mais que um representante entre outros. Ele não poderia pois, aos nosso olhos, servir de catalizador para aceitar, nomeadamente, um liberalismo que se situa na mesma filiação genealógica, crendo também na igualdade ”natural” de todos os seres humanos, e vendo também ele na economia o paradigma por excelência de todos os factos sociais (recordemo-nos oportunamente que a sociedade existente que mais se aproxima da sociedade ideal, como Marx a imaginou, é a dos Estados Unidos da América).

Os liberais, motores do anticomunismo contemporâneo, raciocinam de forma muito diferente. Os objectivos de Marx parecem-lhes, frequentemente, bastante estimáveis. São os meios para lá chegar que eles rejeitam. Quando eles criticam o regime comunista é para denunciar os atentados à “liberdade”, a “ferocidade da repressão” e a violação do sacrossanto princípio dos “direitos do homem”.E se atacam a doutrina é com a intenção de mostrar que ela desemboca fatalmente no “despotismo”.Este ponto de vista é um pouco limitado. O despotismo é sem dúvida criticável mas o comunismo não se resume ao facto de que contraria a “liberdade”( não é de resto o único a fazê-lo; subversão, infiltração, espionagem, assassinatos, golpes de Estado: estes são os métodos da CIA, tanto como os do KGB). Portanto, todos os anticomunismos não se equivalem. Que uma direita, outrora mais segura sobre os seus princípios, a sua matéria, se tenha fixado na crítica liberal, diz muito sobre a sua cegueira e explica porque alguns defensores da “preferência nacional” preferem acima de tudo… o regime de Reagan.

Quanto à liberdade, digamos claramente que é algo que para nós prima tudo o resto: é a liberdade colectiva, a liberdade do povo e da nação. Neste fim de milénio é acima de tudo a liberdade da Europa que nos preocupa. A noção de “Ocidente” é uma noção doravante desprovida de sentido, que permite aos E.U.A. estabelecer a lei sem o dizer, instituindo-se como o “líder natural” deste ectoplasma. A URSS procede do mesmo modo, pretendo agir como a capital do socialismo instituído. Americanização de um lado, russificação do outro. Os Estados Unidos: um futuro sem passado; a URSS: um passado sem futuro. A Oeste: o imobilismo sob a efervescência; a Este: a dinâmica sob a estabilidade. Os Estados Unidos funcionam segundo a lógica do espaço, a URSS joga com o factor tempo. A isto juntam-se os constrangimentos da geopolítica: o “bloco continental” é uma realidade. O comunismo é um bonito termo - a doutrina do bem comum – mas resultou mal. Há aqueles que dizem “antes vermelhos que mortos”. Há aqueles que aceitam ser “americanos em vez de soberanos”. Face às duas superpotências “cosmopoliciais” rejeitemos de uma vez só o que sucessivamente tem produzido o comunismo e o liberalismo. Não evitaremos jamais sobre nós uma ditadura aceitando uma hegemonia."
(Robert de Herte)

10/01/2011

Breve Tratado de Rebelião

por Robert de Herte

No seu Tratado do Rebelde, Ernst Jünger escrevia em 1951: «Duas qualidades são indispensáveis ao rebelde. Ele recusa aceitar por sua a lei dos poderes instituídos, quer eles usem a propaganda ou a violência. E ele está decidido a defender-se». Dominique Venner acrescenta, nas páginas deste número, que o que em todas as épocas os rebeldes tiveram em comum «foi terem descoberto, por vias diferentes, uma incompatibilidade absoluta entre o seu ser e o mundo no qual lhes seria necessário viver».

O rebelde recusa a ordem do mundo no seio do qual foi jogado. Recusa-a em nome de uma legitimidade que excede toda a legalidade. Recusa-a porque é em si mesmo que encontra a legitimidade e a norma – não que ele as decalque simplesmente sobre aquilo que ele é, mas porque sabe que ele próprio é também o resultado de uma norma que o ultrapassa. E a sua recusa é total. O rebelde é aquele que não cede, desdenhando daquilo com que o procuram deslumbrar: honrarias, interesses, privilégios, reconhecimentos. À mesa de jogo, ele é o que não joga: o espírito do tempo embate nele como a água na pedra. Espírito livre, homem livre, ele não coloca nada acima da liberdade do espírito e da pessoa. Ele é a própria liberdade. «É rebelde quem quer que seja colocado pela lei da sua natureza em ligação com a liberdade» (Ernst Jünger).

Mas ele não é somente um insubmisso. Certamente, como o resistente ou o dissidente, o rebelde é a prova viva de que uma alternativa é sempre possível. Mas a sua rebelião não está somente ligada às circunstâncias. Ela é de ordem existencial. O rebelde sente fisicamente a impostura, sente-a instintivamente. Tornamo-nos dissidentes, mas nascemos rebeldes. O rebelde é rebelde porque qualquer outro modo de existência lhe é impossível. O resistente deixa de o ser quando deixa de ter meios de resistir. O rebelde, mesmo aprisionado, continua a ser um rebelde. É por isso que, ainda que possa perder, nunca está vencido. Os rebeldes nem sempre podem mudar o mundo. 

O mundo, esse, nunca os conseguiu mudar.

Face a um mundo pelo qual não sente mais que desprezo ou desgosto, o rebelde não pode satisfazer-se com a indiferença, porque essa está ainda demasiado próxima da neutralidade. O rebelde é feito para a luta, mesmo que ela não ofereça esperança. Ele não é, então, um renunciante. O rebelde sente-se estrangeiro ao mundo em que vive, mas sem nunca deixar de querer nele viver: ele sabe que só se pode nadar contra a corrente na condição de não se abandonar o leito do rio. Pertencendo a essa minoria que desde sempre preferiu o perigo à servidão, ele sabe que o respeito de si deve sempre ser conquistado. O seu afastamento puramente interior não impede o contacto, porque esse contacto é necessário à luta. E se ele «recorre à floresta» não é para aí se refugiar – ainda que seja frequentemente um proscrito –, mas para aí reaver forças vivas. «A floresta está presente por todo o lado, prossegue Jünger. Existem florestas no deserto, como nas cidades, onde o rebelde vive escondido sob a máscara de qualquer profissão. Existem florestas na sua pátria como sobre qualquer outro solo onde se possa desenvolver a sua resistência. Mas existem sobretudo florestas na própria retaguarda do inimigo.»

O revolucionário persegue um objectivo, o que não é necessariamente o caso do rebelde. O rebelde pode perfeitamente lutar por afirmar um estilo. Ele luta porque não pode fazer outra coisa que lutar. O revolucionário pretende chegar a um fim onde o rebelde encarna antes de tudo um estado de espírito. Semelhantemente, o rebelde despreza a escalada extremista e a manipulação supostamente eficaz dos slogans. Ele não é dos que se limitam a anunciar o Apocalipse em ter o mínimo meio de o remediar. Antígona é estranha ao narcisismo da radicalidade. 

Por relação ao «curso da História», o rebelde sabe, por outro lado, identificar o momento e agarrar esse momento. Para romper o cerco, para tentar introduzir um grão de areia na máquina, ele raciocina sobre situações concretas. Determina a sua estratégia de acordo com o que vê surgir sob os seus olhos, não de acordo com modelos ultrapassados. O rebelde é, antes de tudo, dinâmico. Ele dinamiza o pensamento e torna esse pensamento dinâmico. Não é soldado, mas guerrilheiro. Ele não leva a cabo operações regulares mas lança ataques inesperados. Não está atrás de uma linha da frente, mas atravessa todas as frentes.

O rebelde pode ser activo ou meditativo, homem de conhecimento ou de acção. Sobre o plano estratégico, pode ser carvalho ou junco, raposa ou leão. Há rebeldes de todos os tipos. Na ordem do pensamento, Hugues Rebell, o bem falado Georges Darien, Péguy, Bernanos, Orwell, foram ao seu tempo rebeldes, tal como, mais recentemente, Jack Kerouac, Dominique de Roux, Burroughs, Pasolini, Xavier Grall, Mishima ou Jean Cau. Guy Debord foi também ele um rebelde, mesmo se a sua obra é hoje objecto de uma recuperação póstuma, sinal de que estamos já no para além do Espectáculo. Na ordem da acção, depois de tantos outros «mobilizadores do povo», poderíamos citar o subcomandante Marcos que, sem ter nunca cometido um só atentado, defende de maneira exemplar as liberdades dos índios de Chiapas. De Robin dos Bosques aos «zapatistas»: uma mesma linha!

Sempre houve rebeldes. Mas o mundo actual reserva-lhes um lugar muito particular. Na época da modernidade, o rebelde surgia muito aquém do revolucionário: era reputado por lhe faltar clara consciência ideológica e preferir, às estratégias longamente pensadas, o jogo desordenado das reacções instintivas. Hoje que a modernidade finda, ele reencontra o seu lugar. A mundialização faz da Terra um mundo sem exterior, um mundo sem outro, que já não pode ser atacado a partir de um ponto para além de si. 

Um tal mundo não está tanto votado à explosão como à depressão implosiva. O rebelde está apto para este mundo precisamente porque fomenta redes e propaga as suas ideias de forma viral. Neste sentido, ele é também uma figura pós-moderna, mas uma figura de oposição. Num mundo cada vez mais homogéneo, ele é a própria singularidade. Ele é um ponto opaco num mundo votado à transparência totalitária, um sujeito que permanece real num mundo de objectos virtuais, um insurrecto por excelência num mundo policiado e tornado policiador. Um estrangeiro que podíamos excluir, de pleno direito, em nome da luta contra a exclusão, se ele não se tivesse previamente excluído a si mesmo. É por isso que, de um certo modo, o futuro pertence ao pensamento rebelde, a esse pensamento que desenha clivagens inéditas, esboça uma topografia nova, prefigura um outro mundo. Porque a história permanece sempre aberta.

Jünger diz ainda que chama rebelde «àquele que, isolado e privado da sua pátria pela marcha do universo, se vê deixado ao nada». Escreve também: «Quando todo um povo prepara o seu recurso às florestas, torna-se uma potência temível.»

23/12/2010

O Mercado

"A 'lei do mercado' – ou seja, a lei dos mercadores – tomou o lugar dos imperativos da soberania nacional, da preservação do patrimônio, do enraizamento das culturas, da retransmissão da herança. Tudo pode ser cedido a quem mais ofereça, àquele que mais coloque sobre a mesa. A riqueza que não possa ser objeto de comércio ou troca não vale nada. O próprio homem não vale mais do que valem as coisas que possui. O homem 'tecnomorfiza-se'. Torna-se um objeto. (...) A rentabilidade material dita-nos a curto prazo o que devemos fazer; determina a nossa opção."
(Robert de Herte)

07/12/2010

Homo Economicus

"Nenhum sistema - liberal ou socialista - fundado sobre a autonomia integral e a primazia do econômico, procura a satisfação geral. O homo-economicus existe, mas não é um homem feliz. A satisfação das suas necessidades materiais, das suas necessidades centradas sobre apenas uma esfera, não apazigua o seu desejo. Pelo contrário, reforça-o, torna-o tão insaciável como frustrado. Toda a concepção da sociedade fundada sobre o bem-estar, sobre o 'welfare', não pode senão fracassar na sua ambição de suscitar a felicidade. Esta resulta da apropriação pelo homem do seu ser próprio, da apropriação pelo homem de uma personalidade específica no interior de uma identidade coletiva - enquanto a sociedade mercantil, massificada, desculturalizante, despersonalizante, não se constrói senão pela aglomeração de homens-massa, ou seja, sobre as ruínas das diferenças e das personalidades."

27/11/2010

Terceira Função

"Não desprezamos a economia. A economia não é o diabo. Pelo contrário, a 'terceira função' é tão necessária como as outras. É necessária no seu lugar. As três funções são complementares; são indissociáveis. Mas devem estar hierarquizadas: o social na dependência do econômico, o econômico na dependência do político. E a soberania justificada pelas formas de autoridade que a fazem legítima. Restabelecer no seu lugar a primeira função, a terceira na sua, colocar fim ao 'reino da quantidade', à concepção da economia como destino, ao social como razão de ser da política, é tudo a mesma coisa."
(Robert de Herte)

06/10/2010

O Rebelde

por Robert de Herte

"No seu Tratado do Rebelde, Ernst Jünger escrevia em 1951: 'Duas qualidades são indispensáveis ao rebelde. Ele recusa aceitar por sua a lei dos poderes instituídos, quer eles usem a propaganda ou a violência. E ele está decidido a defender-se'. Dominique Venner acrescenta nas páginas deste número, qeu o que em todas as épocas os rebeldes tiveram em comum 'foi terem descoberto, por vias diferentes, uma incompatibilidade absoluta entre o seu ser e o mundo no qual lhes seria necessário viver'.

O rebelde recusa a ordem do mundo no seio do qual foi jogado. Recusa-a em nome de uma legitimidade que excede toda a legalidade. Recusa-a porque é em si mesmo que encontra a legitimidade e a norma - não que ele as decalque simplesmente sobre aquilo que ele é, mas porque sabe que é também o resultado de uma norma que o ultrapassa. E a sua recusa é total. O rebelde é aquele que não cede, desdenhando daquilo com que o procuram deslumbrar: honrarias, interesses, privilégios, reconhecimentos. À mesa de jogo, ele é o que não joga: o espírito do tempo embate nele como a água na pedra. Espírito livre, homem livre, ele não coloca nada acima da liberdade do espírito e da pessoa. Ele é a própria liberdade. 'É rebelde quem quer que seja colocado pela lei da natureza em ligação com a liberdade' (Ernst Jünger).

Mas ele não é somente um insubmisso. Certamente, como o resistente ou o dissidente, o rebelde é a prova viva de que uma alternativa é sempre possível. Mas a sua rebelião não está somente ligada às circunstâncias. Ela é de ordem existencial. O rebelde sente fisicamente a impostura, sente-a instintivamente. Tornamo-nos dissidentes, mas nascemos rebeldes. O rebelde é rebelde porque qualquer outro modo de existência lhe é impossível. O resistente deixa de o ser quando deixa de ter meios de resistir. O rebelde, mesmo aprisionado, continua a ser um rebelde. É por isso que, se pode perder, nunca está vencido. Os rebeldes nem sempre podem mudar o mundo. O mundo, esse, nunca os conseguiu mudar.

Face a um mundo pelo qual não sente mais que desprezo ou desgosto, o rebelde não pode satisfazer-se com a indiferença, porque essa está ainda demasiado próxima da neutralidade. O rebelde é feito para a luta, mesmo que ela não ofereça esperança. Ele não é, então, um renunciante. O rebelde sente-se estrangeiro no mundo em que vive, mas sem nunca deixar de querer nele viver: ele sabe que só se pode nadar contra a corrente na condição de não se abandonar o leito do rio. Pertencendo a essa minoria que desde sempre preferiu o perigo à servidão, ele sabe uqe o respeit ode si deve sempre ser conquistado. O seu afastamento puramente interior não impede o contato, porque esse contato é necessário à luta. E se ele 'recua para a floresta' não é para aí se refugiar - ainda que seja frequentemente um proscrito -, mas para aí reaver forças vivas. 'A floresta está presente por todo o lado, prossegue Jünger. Existem florestas no deserto, como nas cidades, onde o rebelde vive escondido sob a máscara de qualquer profissão. Existem florestas na sua pátria como sobre qualquer outro solo onde se possa desenvolver a sua resistência. Mas existem sobretudo florestas na própria retaguarda do inimigo.'

O revolucionário persegue um objetivo, o que não é necessariamente o caso do rebelde. O rebelde pode perfeitamente lutar por afirmar um estilo. Ele luta porque não pode fazer outra coisa que lutar. O revolucionário pretende chegar a um fim onde o rebelde encarna antes de tudo um estado de espírito. Semelhantemente, o rebelde despreza a escalada extremista e a manipulação supostamente eficaz dos slogans. Ele não é dos uqe se limitam a anunciar o Apocalipse sem ter o mínimo meio de o remediar. Antígona é estranha ao narcisismo da radicalidade.

Por relação ao 'curso da História', o rebelde sabe, por outro lado, identificar o momento e agarrar esse momento. Para romper o cerco, para tentar introduzir um grão de areia na máquina, ele raciocina sobre situações concretas. Determina a sua estratégia de acordo com o que vê surgir sob o seus olhos, não de acordo com modelos ultrapassados. O rebelde é, antes de tudo, dinâmico. Ele dinamiza o pensamento e torna esse pensamento dinâmico. Não é soldado, mas guerrilheiro. Ele não leva a cabo operações regulares mas lança ataques inesperados. Não está atrás de uma linha da frente, mas atravessa todas as frentes.


O rebelde pode ser ativo ou meditativo, homem de conhecimento ou de ação. Sobre o plano estratégico, pode ser carvalho ou junco, raposa ou leão. Há rebeldes de todos os tipos. Na ordem do pensamento, Hugues Rebell, o bem falado Georges Darien, Péguy, Bernanos, Orwell, foram ao seu tempo rebeldes, tal como, mais recentemente, Jack Kerouac, Dominique de Roux, Burroughs, Pasolini, Xavier Grall, Mishima ou Jean Cau. Guy Debord foi também ele um rebelde, mesmo se a sua obra é hoje objeto de uma recuperação póstuma, sinal de que estamos já no para além do Espetáculo. Na ordem da ação, depois de tantos outros 'mobilizadores do povo', poderíamos citar o subcomandante Marcos que, sem ter nunca cometido um só atentado, defende de maneira exemplar as liberdades dos índios de Chiapas. De Robin Hood aos 'zapatistas': uma mesma linha!

Sempre houve rebeldes. Mas o mundo atual resevar-lhes um lugar muito particular. Na época da modernidade, o rebelde surgia muito aquém do revolucionário: era reputado por lhe faltar clara consciência ideológica e preferir, às estratégias longamente pensadas, o jogo desordenado das reações instintivas. Hoje que a modernidade finda, ele reencontra o seu lugar. A mundialização faz da Terra um mundo sem exterior, um mundo sem outro, que já não pode ser atacado a partir de um ponto para além de si. Um tal mundo não está tanto votado à explosão como à depressão implosiva. O rebelde está apto para este mundo precisamente por que fomenta redes e propaga as suas ideias de forma viral. Neste sentido, ele é também uma figura pós-moderna, mas uma figura de oposição. Num mundo cada vez mais homogêneo, ele é a própria singularidade. Ele é um ponto opaco num mundo votado à transparência totalitária, um sujeito que permanece real num mundo de objetos virtuais, um insurrecto por excelência num mundo policiado e tornado polícia. Um estrangeiro que podíamos excluir, de pleno direito, em nome da luta contra a exclusão, se ele não se tivesse previamente excluído a si mesmo. É por isso que, de um certo modo, o futuro pertence ao pensamento rebelde, a esse pensamento que desenha clivagens inéditas, esboça uma topografia nova, prefigura um outro mundo. Porque a história permanece sempre aberta.

Jünger diz ainda que chama rebelde 'àquele que, isolado e privado da sua pátira pela marcha do universo, se vê deixado ao nada'. Escreve também: 'Quando todo um povo prepara o seu recuo às florestas, torna-se uma potência temível.'"