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07/08/2021

Kerry Bolton - O Partido Nacionalista Alemão de Stálin

por Kerry Bolton

(2014)


Em uma reunião entre Josef Stálin e líderes do Partido da Unidade Socialista (Sozialistische Einheitspartei Deutschlands: SED) na zona soviética da Alemanha ocupada, realizada em 31 de janeiro de 1947, Stálin perguntou que porcentagem de alemães (em todas as zonas de ocupação) eram "elementos fascistas", e "que influência eles mantinham nas zonas ocidentais"? Otto Grotewohl respondeu que era uma pergunta difícil de responder, mas que ele podia dar a Stálin listas de ex-membros do Partido Nacional-Socialista "em posições de liderança nas zonas ocidentais". Stálin não havia feito a pergunta com o objetivo de expurgar a Alemanha de "fascistas", mas com a possibilidade de recompor antigos membros do partido nacional-socialista em outro partido, que promoveria o nacionalismo e o socialismo dentro do contexto de uma Alemanha soviética. Ele também estava interessado nos possíveis padrões de votação dos "elementos fascistas", caso houvesse um plebiscito sobre a unificação alemã. A opinião de Grotewohl era de que eles eram "todos reacionários". O ponto de vista de Stálin era diferente. Seria possível organizar os "fascistas" na zona soviética sob um nome diferente? Ele apontou aos líderes da SED que sua política de "exterminar os fascistas" não era diferente da dos EUA, afirmando: "Talvez eu devesse acrescentar este curso [de organizar um partido nacionalista] para não empurrar todos os antigos nazistas para o campo inimigo?"[1].

Enquanto as zonas ocidentais procuravam proibir qualquer remanifestação política do nacional-socialismo, Stálin estava explorando as possibilidades de integrar tais elementos em uma nova Alemanha soviética. A reticência que ele recebeu dos líderes da Unidade Socialista estava baseada em uma reação tipicamente marxista. Entretanto, usa-se o marxismo para derrubar uma nação e um Estado, não para construir um. Stálin, como corretamente lamentou Trotsky, havia "traído" a revolução bolchevique[2] ao reverter possivelmente todos os programas marxistas que haviam sido erguidos por Lênin, Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Sverdlov, et al., que haviam sido em sua maioria expurgados ou liquidados por Stálin[3].

28/04/2020

Kerry Bolton - A Resposta Corporativista

por Kerry Bolton

(2019)



Quando um Estado cai no caos e na falência, seja do tipo econômico ou moral, pode haver uma reação das partes saudáveis remanescentes do povo na direção da regeneração. Oswald Spengler referiu-se em “O Declínio do Ocidente” a esta época como um retorno do "Cesarismo" e a derrubada da plutocracia. Embora seja uma reação, ela é, no entanto, revolucionária, porque o estado de decadência é tão avançado que apenas uma mudança radical, não apenas nas estruturas de governança, mas na psicologia das pessoas, é necessária. É literalmente uma "revolução", na medida em que procura um regresso às origens.

Na época da decadência da Civilização Ocidental - que tem vindo a ocorrer através de transformações como a Reforma, incluindo a de Henrique VIII, a "Revolução Gloriosa", a Revolução Cromwelliana, a Revolução Jacobina, a Revolução Industrial, a Revolução Americana e as revoluções de 1848 - cada passo minou ainda mais a ordem social e abriu caminho, geralmente em nome do "povo", para um aumento da influência dos interesses comerciais, até se alcançar a fase de plutocracia (domínio do dinheiro).

25/11/2017

Kerry Bolton - Foi o Bolchevismo um Produto do Messianismo Tradicional Russo?

por Kerry Bolton



Com o centésimo aniversário da Revolução Bolchevique em Outubro de 1917, a Rússia ainda é em grande parte produto daquele legado. Mas e quanto ao bolchevismo em si? O bolchevismo despertou forças contraditórias. Este artigo defende que a facção vitoriosa não foi a do marxismo doutrinário, mas sim que ela foi moldada pela "Rússia eterna", e metamorfoseada em algo distante do marxismo, como Trotsky e muitos outros marxistas lamentaram. Neste artigo, o bolchevismo é reexaminado como produto de uma longa tradição, focando nas opiniões do dissidente russo Mikhail Agursky.

28/03/2017

Kerry Bolton - A Tradição e a Usura: O Conflito Perene

por Kerry Bolton



"A mais aborrecida de todas as formas de obter dinheiro e com justa razão, é a usura, porque nela, o lucro procede do dinheiro mesmo e não dos objetos naturais. O dinheiro estava destinado ao uso de troca, e não para incrementar a si mesmo por meio dos juros".


O termo juros que significa a criação de dinheiro a partir do dinheiro se aplica também a sua multiplicação. De todos os modos possíveis de obter riquezas este é o mais contrário à natureza [1], segundo Aristóteles (384-322 a.C.).


A Usura através das Épocas


A definição de usura de Aristóteles é, talvez, a mais convincente que jamais se fez. A usura, como se definiu originalmente, é qualquer dinheiro feito de um empréstimo. Originalmente não significava juros excessivos em um empréstimo, mas qualquer juros. As mudanças sutis na definição ajudaram a corromper e subverter o espírito tradicional da usura e, finalmente, tornar a usura vitoriosa. A oposição cristã, e particularmente católica, à usura foi fundada sobre a afirmação de Lucas sobre dar sem esperar nada em troca, e nos preceitos do Antigo Testamento contra a cobrança de juros. A Igreja ortodoxa não foi menos inequívoca. São Basílio escreveu do usurário:


"Se ele te houvesse podido enriquecer para que teria chegado a tuas portas? Chegou a elas buscando socorro, mas encontrou com seu inimigo. Teu fardo era aliviar e socorrer sua miséria, mas tu tornas maior a sua pobreza, tentando apurar as faculdades de um homem infeliz: como aquele médico que ao invés de dar saúde ao enfermo com suas visitas, a retirasse pelo contrário as poucas forças que encontra nele. A este modo tu fazes féria, e te utilizas das calamidades dos miseráveis [...] Ignoras que é maior o aumento de pecados, que é o que espera colher com a usura do dinheiro emprestado?".


"...O que recebes do pobre, excede todos os modos de desumanidade. Tiras utilidade e lucro das calamidades, de lágrimas colhes prata. Afogas e sufocas ao desnudo, e açoitas ao faminto: nunca exercitas a misericórdia, nem mesmo vem à imaginação o parentesco que se tem com o humilhado..." [2].


A Igreja ortodoxa, não obstante, como a católica, se tornou ambígua com o passar dos séculos e isso permitiu a subversão das doutrinas tradicionais. Surgiram questões relativas à natureza da usura como pecado, e outros equívocos que propiciaram a deriva [3].

A oposição à usura foi uma característica perene das culturas tradicionais através do tempo e do espaço, com a intuição de que há algo não natural, parasitário e rotundamente pecaminoso nisso. Quando uma civilização aceita a usura como prática comercial normal, como faz a civilização ocidental, é um sintoma de um ciclo de decadência avançado, como explicaram tanto Brooks Adams como Oswald Spengler.

A sabedoria tradicional proporcionou advertências e proibições desde tempos imemoriais. As escrituras védicas da antiga Índia (2.000-1.400 a.C.) chamam ao usurário de kusidin, um prestamista que cobra juros. Um brahmana (sacerdote) e um kshatriya (guerreiro) tinham como proibida a prática da usura. Vasishtha, A Sagrada Lei dos Aryas, afirma: "Deus pesou na balança o crime de matar a um bramana culto contra o crime de cobrar juros; o assassino do brahmana permaneceu na parte superior, o cobrador de juros afundou para baixo" [4]. Não obstante, assim como nas civilizações ocidentais e clássicas, a definição da usura foi comprometida com o tempo. Pelo segundo século d.C. as Leis de Manu definem a usura como algo acima de uma taxa de juros "legal", depois do que os juros não podem mais ser recuperadas. O fato de que havia agora um tipo de juros legal absoluto, no lugar de estabelecer uma proibição geral, indica um comprometimento do tipo que surgiu na cristandade ocidental e na Grécia e Roma clássicas. Ademais, assim como com a isenção dos judeus das leis sobre a usura sob a Cristandade medieval, se permitia à casta dos comerciantes hindus o comércio da usura. "Para investir dinheiro em juros, para ser joalheiro, para cuidar do gado, do cultivo e do comércio, estas são declaradas como ocupações da casta vaisya" [5].

Siddharta Gautama Buda regressou a uma postura inequívoca: "Discerne-se o sustento incorreto como o sustento incorreto, e o sustento correto como o sustento correto. E qual é o sustento incorreto? A intriga, a persuasão, a insinuação, o menosprezar e cobrar juros. Isto é o sustento incorreto" [6].

Plutarco (46-127 d.C.), em seu ensaio Sobre a inconveniência de contrair dívidas, descreveu os usurários como "horríveis", "como abutres" e "bárbaros". Catão o Velho (234-149 a.C.) comparou a usura ao assassinato. Cícero (106-43 a.C.) afirmou que "estes benefícios são desprezíveis, os que incorrem no ódio dos homens, tais como os dos prestamistas de dinheiro em usura".


O analista financeiro contemporâneo Sidney Homer, que trabalhava para Salomon Bros., e o professor Richard Sylla, em seu estudo histórico das taxas de juros, afirmam que a primeira lei conhecida sobre o tema foi a de Hamurabi, do ano 1.800 a.C., durante a primeira dinastia da Babilônia, que estabelece a taxa máxima de juros de 33 1/3% anual "para os empréstimos de grãos, reembolsáveis em espécie, e no 20% anual para empréstimos de prata em peso". Documentos sumérios, ao redor do ano 3.000 a.C., "mostram o uso sistemático de crédito baseado em empréstimos de grãos em volume e empréstimos de metais, em peso. Usualmente, estes empréstimos levavam juros". "Já no 5.000 a.C. no Oriente Médio, azeitonas, figos, nozes ou sementes de cereal foram provavelmente emprestados aos servos, aos agricultores pobres ou aos dependentes, e se esperava que uma porção incrementada da colheita fosse devolvida em espécie". "As primeiras taxas históricas se registravam no nível de 20-50% anual para empréstimos de grãos e de metal" [7]. Daí que a usura seja tão antiga quanto a cobiça, e também o são os esforços para resistir a ela por parte daqueles que buscam manter uma conexão com a Divindade.


No ano 600 a.C. na Grécia, Sólon estabeleceu leis sobre os juros quando a dívida excessiva causou uma crise econômica. Do mesmo modo, em Roma, as Doze Tábuas do 450 a.C., que estabeleciam as bases do direito romano, depois de que a dívida onipresente já estivesse causando escravidão e crise, fixaram um tipo de juros máximo de 8 1/3% anual. Quando Brutus tentou cobrar da cidade de Salamis 48% para um empréstimo, Cícero o lembrou de que o máximo legal era de 12%. O tipo de juros muitas vezes era de 4%. Alguns gregos "usurários" cobravam 25% anual, e até 25% por dia [8].

Os judeus do Antigo Testamento tinham proibida a usura entre si: "Não exigirás de teu irmão; usura de dinheiro; usura de comestíveis; usura de qualquer coisa que se empreste sob usura" [9]. De forma decisiva para a história, aos judeus foi dado um código moral dual que lhes permitia, entre outras coisas, cobrar juros aos não-judeus, e isso deu lugar a milhares de anos de tragédia igualmente para judeus e gentios: "A um estranho podes emprestar com usura; mas a teu irmão não exigirás o emprestado com usura, para que o Senhor teu Deus te bendiga em tudo quanto puseres mão na terra, à qual entras para tomar posse dela" [10].

Essas proibições, assim como o caráter ético e moral geral do Novo Testamento, e a herança clássica, inclusive aristotélica, herdada pela Igreja Católica, estabeleceram a base para a Doutrina Social da Igreja, na qual a oposição à usura era um elemento central. No ano 325 d.C., o Concílio de Niceia proibiu a usura entre os clérigos. Sob o imperador Carlos Magno (768-814 d.C.), a proibição se estendeu aos leigos. Aqui a usura significava puramente a obtenção de mais do que o que foi emprestado. Isso está de acordo com o que Lucas (6:35) declarou ao dizer que não se deve esperar mais do que aquilo que se dá. Em 1.139, o Concílio de Latrão, Em Roma, declarou que a usura é um roubo, e que os usurários teriam que dar restituição. Nos séculos XII e XIII, também foram condenadas as estratégias que ocultavam a usura. Em 1.311, o Concílio de Vienne declarou que qualquer um que afirmasse que a usura não era pecado era um herege e devia ser excomungado (Decretos: 29).

Dante (1265-1321) colocou usurários no sétimo nível do Inferno, onde o usurário passaria a eternidade com uma pesada bolsa de dinheiro ao redor de seu pescoço. Dante escreveu: "De cada pescoço caía pendurado uma enorme sacola, cada uma marcada com sua própria b esta e suas próprias cores como um escudo de armas. Sobre estes seus olhos cheios de lágrimas apareceram à festa" [11].

Mas a Igreja em geral permitiu aos judeus praticar a usura, e as pessoas de alto e baixo nível se endividavam com os judeus usurários, até que a tensão se tornava intolerável e ocorria um pogrom. Por outra parte, quando as leis contra a usura se afrouxaram, o pretexto foi uma adaptação de Deuteronômio 23:20, permitindo que os emprestadores cristãos cobrassem usura nos empréstimos aos não-cristãos, tal como muçulmanos, que por sua parte tinham proibida mesmo assim a usura, que o Corão chama de o pecado da ribanceira [12]. A escapatória para o prestamista muçulmano foi a de ser capaz de cobrar uma "cota" por um empréstimo, no lugar de juros. A atitude da Igreja desde os tempos medievais se fez inconsistente, enquanto em alguns lugares a usura ficou proibida, em outros lugares se permitiu o que eu seu lugar foi chamado "juros", justificando-se pela recuperação das "perdas" do prestamista, tais como o atraso no pagamento. Daí que os lombardos, como os judeus, também se identificaram com o empréstimo de dinheiro, não cobrando "usura", mas um "juro" tão alto quanto de 100%. Gênova se converteu em um centro da banca de negócios onde se exercia a usura e a Igreja se sentia impotente para atuar.

Na Inglaterra medieval os empréstimos pessoais podiam oscilar entre 52-120% ao ano, dependendo da garantia. Frederico o Belo da Áustria pedia emprestado a 80%, enquanto que os comerciantes na Itália podiam pedir emprestado em 5-10%. A Coroa da Espanha pagava 40% para os empréstimos a curto prazo, enquanto que os comerciantes holandeses podiam pedir emprestado a 1 1/4% [13].

A Usura Triunfante

A Reforma marcou o começo de uma revolta contra a ordem moral tradicional da Europa, e a atitude protestante perante a usura era mais equívoca, Zwinglio, Lutero e Calvino declaram que existem circunstâncias nas quais a usura é aceitável. Com a divisão da Igreja e o Estado, os teóricos da economia começaram a escrever em defesa da usura como uma forma "progressista" do comércio, sentando as bases da amoral perspectiva mercanil que agora se apodera da maior parte do mundo. O empréstimo de dinheiro foi defendido como um "serviço", um conceito que agora se dá por dado em quase todo o mundo, como sustenta o jurista francês Molinaeus em seu Tratado sobre os Contratos e a Usura, do século XVI. A Igreja proibiu o livro de Molinaeus e o obrigou a se exilar, mas suas ideias se espalharam. É significativo uqe a Inglaterra fosse a primeira a estabelecer um tipo de juros legal, no 10%, em 1545, sob Henrique VIII, considerando a rebelião na Fé que ele introduziu. A usura foi proibida sete anos mais tarde. De acordo com Homer e Sylla: "Durante a Reforma muitos líderes protestantes defenderam o juros e o crédito. Como resultado, a doutrina sobre usura, que havia matido um firme controle sobre os judeus e os cristãos durante 2.000 anos, se debilitou e finalmente se abandonou" [14].

Um século mais tarde, o foco no pensamento econômico se deslocou à Holanda, onde a usura foi defendida como produtiva e essencial pelos teóricos da economia, tais como Claudio Salmasius (1588-1653). A Holanda se converteu no centro da banca, e o modelo para o Banco da Inglaterra, fundado como uma instituição privada de empréstimos ao Estado em 1694 [15]. Os filósofos utilitaristas ingleses tais como Adam Smith e Jeremy Bentham, que escreveu Uma Defesa da Usura. justificaram a utilidade social da usura. Outros pais da economia inglesa, David Ricardo, Jean Baptiste Say e John Stuart Mill, foram mais longe ao dizer que não deve haver restrições às partes contratantes no empréstimo de dinheiro. 

A revolução puritana de Cromwell completou a obra de Henrique VIII e a usura foi legitimada [16].

A Revolução Francesa de 1789 abriu o caminho para novos avanços da usura sobre as ruínas dos vestígios do que restava da ordem social tradicional na Europa. Como Oswald Spengler assinalou em A Decadência do Ocidente, A Hora Decisiva e Prussianismo e Socialismo, indo tão longe quando à Roma clássica, as "revoluções" em nome do "povo", em geral, foram manipuladas pela plutocracia contra a ordem social tradicional que resistiu contra o reino de Mammon. As "revoluções coloridas" de hoje, em nome da "democracia", financiadas por George Soros e outros plutocratas, instalam a plutocracia em Estados que mostram sinais de resistência. A Revolução Francesa, presságio tanto da luta de classes do socialismo quanto do livre-comércio do liberalismo, foi precursora no nome da "Liberdade, Igualdade, Fraternidade". Um dos primeiros atos dos revolucionários foi a legalização da usura, que até então havia estado proibida, até o Decreto de 2 e 3 de outubro de 1789 [17].

A guerra napoleônica afundou a Europa em uma dívida colossal com sua conseguinte devastação social, moral e política posterior. Se estabeleceu o padrão para a "era moderna". Uma era de agitação revolucionária em toda a Europa, que chegou às distantes colônias, e que terminou com a derrota de Napoleão em 1815, as várias décadas de agitação trouxeram os Rothschild e outros prestamistas como verdadeiros amos da Europa, enquanto Metternich da Áustria tratou de restabelecer uma ordem social para a Europa baseada no Trono e no Altar. O historiador Adam Zamoyski escreve:

"Todos os governos na Europa empenharam o que fosse possível para pagar os empréstimos dos tempos de guerra. A Grã Bretanha havia gasto mais em termos reais do que o faria na Primeira Guerra Mundial, e sua dívida nacional era astronômica. A Rússia a havia multiplicado por vinte vezes entre 1801 e 1809, e seria mais que o dovro novamente em 1822. A Áustria esteve tecnicamente falida: nas três décadas seguintes uma média de 30% das rendas do Estado seria desviada para o serviço dessa dívida" [18].

Zamoyski afirma que os cinco irmãos Rothschild, (que haviam sido colocados estrategicamente nas capitais da Europa por seu pai, Mayer Amschel Rothschild), "e em especial James em Paris e Salomon em Viena, haviam emprestado à maior parte dos governos da Europa, e em particular aos da Áustria e França, grandes somas de dinheiro em troca de bônus do governo... Metternich tinha vínculos estreitos com os Rothschild, os quais haviam resolvido para ele muitas dificuldades no passado e que agora havvia pedido que a dívida de 400 mil francos de sua sogra fosse amortizada" [19].

Quanto à Igreja Católica, "Os Estados Papais estavam falidos em 1832, e Metternich salva o Papa persuadindo à casa bancária dos Rothschild de Viena que lhe proporcionasse um empréstimo". [20]

Missão da Rússia

Em uma época em que o domínio de Mammon culminou e o dinheiro realmente é, literalmente, a raiz de "muitos males" e a via de perdição de nações inteiras [21], a Rússia é vista cada vez mais em todo o mundo como o Katehon que resiste a um sistema que é, em termos bíblicos, o Anticristo. Sem dúvida, é de importância transcendental que em 2015 a Igreja ortodoxa pedisse um "sistema financeiro ortodoxo" na Rússia, baseado na tradição e, como o Islã, o repúdio da usura [22]. Nenhuma outra questão é mais importante e mais urgente. É de esperar um toque de alarme que verá a Rússia marcar o caminho como o único meio de libertar à humanidade para longe da adoração universal do bezerro de ouro. 

____________________________________

[1] Aristóteles, Politics, Libro I: 10: 5).

[2] Homily 12 on the Psalms, San Basilio el Grande.

[3] “Excursus on usury,” http://orthodoxchurchfathers.com/fathers/npnf214/npnf2121.htm

[4] Part II, Ch. 2: 40-42.

[5] Parasara smrti 1.63.

[6] Siddharta Gautama Budha, Sermon on the Eightfold Path, Majjhima Nikaya Suttra, 117:5.

[7] Sidney Homer and Richard Sylla, A History of Interest Rates, Wiley, 2005, inter alia.

[8] Ibid.

[9] Deut. 23:19.

[10] Deut. 23:20.

[11] Dante, Inferno, Canto XVII.

[12] Al-Baqarah, 2:275.

[13] Homer and Sylla, op. cit.

[14] Ibid., p. 77.

[15] K R Bolton, The Banking Swindle, Black House Publishing, London, 2013, p. 16.

[16] Brooks Adams, The Law of Civilisation & Decay (1896), p. 233, online : http://archive.org/details/lawcivilization00adamgoog).

[17] “Usury”, Catholic Encyclopaedia, 1917, http://www.newadvent.org/cathen/15235c.htm

[18] A. Zamoyski, Phantom Terror, Harper Collins, London 2014, p. 97.

[19] Ibid., pp. 384-385.

[20] Ibid., pp. 473.

[21] I Tim. 6: 10.

[22] Anastasia Bazenkova, “Orthodox Church Calls for Alternative Financial System in Russia,” The Moscow Times, August 11 2015, http://www.themoscowtimes.com/business/article/orthodox-church-calls-for-alternative-financial-system-in-russia/527781.html

05/07/2016

Kerry Bolton - Brexit e a Falácia da "Independência" Britânica

por Kerry Bolton




Nigel Farage do Partido da Independência do Reino Unido se referiu ao referendo que, por pouco, viu os britânicos votando pelo abandono da União Europeia como marcando o "Dia de Independência" da Grã-Bretanha. O Brexit foi promovido em boa medida em cima da premissa de que a União Europeia é responsável pelo multiculturalismo britânico, e que a imigração ameaça o modo de vida britânico. Há uma certa euforia resultante da crença de que isso significa o início do renascimento britânico. Há algumas falhas sérias nesses argumentos.

Primeiramente, os problemas britânicos com a imigração e o multiculturalismo não se originam primariamente da participação na União Europeia. Segundo o Departamento Nacional Britânico de Estatísticas: "624.000 pessoas imigraram para o Reino Unido até setembro de 2014, um aumento estatístico significativo em relação aos 530.000 dos 12 meses anteriores. Há aumentos estatísticos significativos na imigração de cidadãos de fora da UE (de 49.000 para 292.000) e cidadãos (não-britânicos) da UE (de 43.000 para 251.000)". A maior parte dos imigrantes britânicos nunca veio da UE. Enquanto a Grã-Bretanha verá uma redução na imigração vinda da Espanha, Polônia, Itália, etc., eles não verão essa redução de países africanos e resultados como resultado do Brexit.

O Brexit foi promovido com base em um retorno à independência britânica. O que "independência" significa realmente? Independência de quem e para quem? Talvez seja possível dizer que a Grã-Bretanha não tem sido independente, isto é que a Grã-Bretanha não tem tido soberania para fazer política com base apenas em interesses britânicos, desde a criação do Banco da Inglaterra em 1964. Nigel Farage mencionou que o Brexit era um voto contra os grandes bancos mercancis e contra as corporações. É verdade que esses interesses queriam que a Grã-Bretanha permanecesse na União Europeia. Mas como o poder das instituições financeiras sobre o Reino Unido vai diminuir um pouquinho que seja ao se abandonar a UE? A Grã-Bretanha ainda vai estar pegando dinheiro emprestado com bancos internacionais. A Grã-Bretanha ainda vai estar fazendo comércio através do sistema comercial global facilitado pelos bancos. Brexit não significa que a Grã-Bretanha passará a emitir seu próprio crédito estatal, ou que ela começará a fazer comércio por escambo, fora do sistema financeiro internacional. Nem o próprio Partido da Independência do Reino Unido possui uma política financeira que inclua uma reforma bancária: ela se baseia em reforma tributária e reduzir ajuda a outros países. O sr. Farage até mesmo disse em seu discurso de vitória em relação ao Brexit que a Grã-Bretanha será "global". Como este tipo de sentimento se encaixa com a palavra "independência" de seu próprio partido? A mesma situação se aplica aos outros partidos "eurocéticos" que agora demandam que suas nações realizem um referendo sobre a participação na UE. Geralmente, esses partidos, ditos "de direita", acreditam em economia de mercado e comércio global.

Talvez haja visões da Grã-Bretanha retornando às velhas preferências comerciais da Commonwealth? Esse era o ideal do National Front durante seu ápice na Grã-Bretanha nos anos 70; construir um bloco de Domínios Brancos que resistiria ao financismo internacional. A oportunidade para isso se foi há muito tempo. Nova Zelândia, Austrália e Canadá já sucumbiram aos arranjos comerciais globalistas como o TTPA, e ao livre-comércio com a China e outras economias asiáticas em expansão, que são em si parte do sistema financeiro internacional. 

E quanto a outras áreas importantes da "independência", como a política externa? A Grã-Bretanha continua na ONU, uma versão internacional da burocracia da UE. A Grã-Bretanha é o quinto maior contribuinte financeiro da ONU, fornecendo 5% do orçamento anual da ONU e 6.7% de seu orçamento "pacificador" para 2015.

A Grã-Bretanha é o quarto maior contribuinte para o orçamento da OTAN, com 10.5%. A Grã-Bretanha é parte dessa organização militar global, junto a outros países da UE e muitos outros, para o propósito de manter uma "nova ordem mundial" baseada na hegemonia americana. Porém, de maior importância do que as contribuições financeiras para a OTAN é a subserviência a interesses globalistas.

Em conclusão, o Brexit não fez nada para estabelecer a Grã-Bretanha como um Estado soberano, resgatar a Grã-Bretanha do impasse multiculturalista ou avançar políticas soberanas na economia, finanças e política externa. Ela estará buscando mercados dentro do mesmo sistema globalista, pagando dívidas para os mesmos bancos internacionais e enviando tropas segundo as necessidades globalistas. Há ainda o prospecto da saída da Escócia do Reino Unido para continuar ligada à UE. O Sinn Fein também comentou que eles demandarão que a Irlanda do Norte se una à Irlanda para permanecerem na UE. Neste evento, o povo de Ulster reagirá, com o prospecto de uma guerra civil bastante sangrenta. O prospecto agora é que não haverá Reino Unido, para o bem ou para o mal.

Em prol de algumas economias em relação ao orçamento da UE limitando a recepção de imigrantes europeus, a Grã-Bretanha não ganhou nada em prol de sua independência ou por sua integridade cultural. O que foi alcançado por dar aos britânicos a ilusão de liberdade e renascimento. 


05/12/2015

Kerry Bolton - A Rússia de Spengler

por Kerry Bolton



Teria sido fácil para considerar Oswald Spengler, autor do epocal O Declínio do Ocidente (volume um foi publicado no verão de 1918) como  um russófobo. Ao fazê-lo o papel da Rússia no desenrolar histórico dessa era para a frente poderia ser facilmente desprezado, oposto ou ridicularizado por adeptos de Spengler, enquanto na Rússia seus insights sobre morfologia cultural seriam compreensivelmente mal vistos como partindo de um nacionalista alemão eslavófobo. Porém, enquanto Spengler, como muitos outros da época posterior à revolução bolchevique, considerasse - parcialmente a Rússia como o líder asiatizado de uma "revolução colorida" contra o mundo branco, ele também considerava outras possibilidades.

A "Alma" da Rússia

Spengler considerava os russos como formados pela vastidão da planície terrestre, como inatamente antagônicos à Máquina, como enraizados no solo, como irrepreensivelmente camponeses, religiosos e "primitivos". Porém, quando Spengler escreveu sobre essas características russas ele estava fazendo referência aos russos como um povo ainda juvenil, em contraste ao Ocidente senil. Daí o russo "primitivo" não é sinônimo da "primitividade" como popularmente compreendida àquela época em relação a povos tribais "primitivos". Nem deve ser isso confundido com a percepção hitlerista do "eslavo primitivo" incapaz de construir seu próprio Estado.

Para Spengler, o "camponês primitivo" é a fonte da qual uma raça retira seus elementos mais saudáveis durante suas épocas de vigor cultural. A agricultura é a fundação de uma Alta Cultura, permitindo que comunidades estáveis diversifiquem o trabalho nos especialismos dos quais a Civilização procede.

Segundo Spengler, cada povo possui sua alma, uma concepção alemã derivada do Idealismo de Herder, Fichte, etc. Uma Alta Cultura reflete esta alma, seja em sua matemática, música, arquitetura; tanto nas artes como nas ciências físicas. A alma russa não é idêntica à alma faustiana ocidental, como Spengler a chama, ou à alma "magiana" da civilização árabe, ou à clássica dos helenos e romanos. A Cultura Ocidental que foi imposta sobre a Rússia por Pedro o Grande, que Spengler chama de Petrinismo, não passa de um verniz.

A base da alma russa não é o espaço infinito - como no imperativo faustiano do Ocidente (Spengler, 1971, I, 1983), mas sim a planície ilimitada (Spengler, 1971, I, 201). A alma russa expressa seu próprio tipo de infinitude, ainda que não o do ocidental que se torna até escravizado por sua própria técnica ao fim de seu ciclo vital. (Spengler, 1971, II, 502) (Ainda que poderia ser dito que o sovietismo escravizou o homem à máquina, um spengleriano citaria isso como um exemplo de petrinismo). Porém, civilizações seguem seu próprio curso de vida, e não se pode ver as descrições de Spengler como juízos morais, mas sim como observações. O encerramento para a Civilização Ocidental segundo Spengler não pode ser o de criar ainda mais formas grandiosas de arte e música, que pertencem à época juvenil ou "primaveril" de uma civilização, mas dominar o mundo sob uma mandato tecnocrático-militar, antes de decair no esquecimento como civilizações mundiais anteriores. É após este declínio ocidental que Spengler aludiu à próxima civilização mundial sendo a da Rússia.

A arquitetura russa ortodoxa não representa o infinito na direção do espaço que está simbolizado pelas torres das catedrais góticas da Alta Cultura do Ocidente, nem o espaço fechado da mesquita da Cultura Magiana, (Spengler, 1971, I, 183-216) mas a impressão de assentar-se sobre um horizonte. Spengler considerava que esta arquitetura russa "não era ainda um estilo, apenas a promessa de um estilo que despertará quando a verdadeira religião russa despertar". (Spengler, 1971, I, p.201) Spengler estava escrevendo sobre a cultura russa como um forasteiro, e ele mesmo reconhecia as limitações disso. É, portanto, útil comparar seus pensamentos sobre a Rússia com os de russos notáveis.

Nikolai Berdyaev em A Ideia Russa afirma o que Spengler descreve:

"Há aquilo na alma russa que corresponde à imensidão, à vagueza, à infinitude da terra russa, a geografia espiritual corresponde com a física. Na alma russa há um tipo de imensidão, uma vagueza, uma predileção pelo infinito, tal como a que é sugerida pela grande planície da Rússia". (Berdyaev, 1).

"Socialismo Russo"

No que concerne a alma russa, o ego e vaidade do homem e cultura ocidentais estão ausentes; a persona busca crescimento impessoal no serviço, "no mundo-irmão da planície". O Cristianismo Ortodoxo condena o "Eu" como "pecado". (Spengler, 1971, I, 309) O conceito russo de "nós" ao invés de "Eu", e de serviço impessoal à vastidão da própria terra implica outra forma de socialismo distinto do marxismo. É talvez neste sentido que o stalinismo procedeu segundo linhas às vezes antitéticas ao bolchevismo pensado por Trótski et al. (Trotski, 1936)

Um comentário de uma visitante americana à Rússia, Barbara J. Brothers, parte de uma delegação científica, afirma algo similar à observação de Spengler:

"Os russos possuem um senso de conexão consigo e com outros seres humanos que simplesmente não é parte da realidade americana. Não é que a competitividade não existe; a questão é que simplesmente sempre parece haver mais consideração e respeito pelos outros em qualquer dada situação".

Do ethos tradicional russo, intrinsecamente antitético ao individualismo ocidental, incluindo suas relações de propriedade, Berdyaev escreveu:

"De todos os povos no mundo, os russos possuem o espírito de comunidade; no mais alto grau o modo de vida russo e as maneiras russas são desse tipo. A hospitalidade russa é uma indicação desse senso de comunidade". (Berdyaev, 97-98)

Taras Bulba

A literatura nacional russa partindo de 1840 começou a expressar conscientemente a alma russa. Primeiramente, o Taras Bulba de Nikolai Vasilievich Gogol, que junto com a poesia de Pushkin fundou uma tradição literária russa; isto é, verdadeiramente russa, e distinta da literatura anterior baseada na alemã, na francesa e na inglesa. John Cournos fala disso em sua introdução a Taras Bulba:

"A palavra falada, nascida do povo, deu alma e asa à literatura; apenas vindo à terra, à terra nativa, lhe foi permitido voar. Vindo da Pequena Rússia, a Ucrânia, com sangue cossaco nas veias, Gogol injetou seu próprio vírus saudável em um corpo fraco, soprou seu próprio espírito viril, o espírito de sua raça, em suas narinas, e deu ao romance russo sua direção até o dia de hoje.

Taras bulba é um conto sobre a formação do povo cossaco. Nessa formação popular o inimigo exterior desempenha um papel crucial. O russo foi formado fundamentalmente como resultado de batalhas ao longo de séculos contra tártaros, muçulmanos e mongois".

Sua sociedade e nacionalidade eram definidas pela religiosidade, como as do Ocidente pelo Cristianismo Gótico durante sua época "primaveril", em termos spenglerianos. O recém-chegado a um Setch, ou aldeia permanente, era saudado pelo Chefe como um cristão e como um guerreiro: "Bem-vindo! Você crê em Cristo?" - "Sim", respondia o recém-chegado. "E você crê na Santíssima Trindade?" - "Sim" - "E você vai à igreja?" - "sim". "Agora faça o sinal da cruz". (Gogol, III)

Gogol retrata o desprezo que se tinha pelo comércio, e quando o comércio havia penetrado entre os russos, ao invés de ser mentido confinado a não-russos associados ao comércio, isso é considerado como um sintoma de decadência:

"Eu sei que a ignomínia encontrou seu caminho para nossa terra. Os homens só se importam em ter suas pilhas de grãos e feno, e seus rebanhos de cavalos, e que seu hidromel possa estar seguro em seus porões; eles adotam, sabe-se-lá que costumes muçulmanos. Eles falam de forma desprezível com suas línguas. Eles não se importam em falar seus reais pensamentos com seus compatriotas. Eles vendem suas próprias coisas a seus próprios camaradas, como criaturas desalmadas em um mercado... . Que eles saibam o que irmandade significa em solo russo!" (Spengler, 1971, II, 113)

Aqui podemos ver um socialismo russo que está a um mundo de distância do materialismo dialético adumbrado por Marx, o sentimento místico de "nós" forjado pela vastidão das planícias e pelo imperativo de irmandade acima da economia, imposto por aquela paisagem. O sentimento de missão de mundo da Rússia possui sua própria forma de messianismo, seja expressa pela Ortodoxia cristã ou pela forma não-marxiana de "revolução mundial" sob Stálin, ou ambas em combinação, como sugerido pela reaproximação posterior entre Stalinismo e a Igreja a partir de 1943 com a criação do Conselho para Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa (Chumachenko, 2002). Em ambos os sentidos e mesmo nas formas embrionárias tomando lugar sob Putin, a Rússia é consciente de uma missão mundial, expressa hoje no papel da Rússia em forjar um mundo multipolar, com a Rússia tendo um papel principal na resistência ao unipolarismo.

O comércio é preocupação para estrangeiros, e as intrusões trazem com elas a corrupção da alma russa e de sua cultura em geral: na fala, na interação social, no servilismo, solapando a "irmandade" russa, o sentimento russo de "nós" que Spengler descreveu. (Spengler, 1971, I, 309)

A irmandade cossaca é retratada por Gogol como o processo formativo na construção do povo russo. Este processo não é um biológico, mas espiritual, transcendendo até o laço familiar. Spengler similarmente tratou a questão racial mais como uma de alma do que uma de zoologia. (Spengler, 1971, II, 113-155) Para Spengler a paisagem era crucial para determinar o que se torna "raça", e a duração de famílias agrupadas em uma paisagem particular - incluindo nômades que possuem uma extensão definida de deslocamento - formam "um caráter de duração", que era a definição spengleriana de "raça". (Spengler, II, 113) Gogol descreve este processo formativo "racial" entre os russos. Longe de ser um nacionalismo racial agressivo, é uma irmandade mística em expansão sob Deus:

"O pai ama seus filhos, a mãe ama seus filhos, os filhos amam seu pai e mãe; mas isto não é como aquilo, irmãos. A besta selvagem também ama sua prole. Mas um homem pode se relacionar apenas por similaridade de mente ao invés de sangue. Tem havido irmandades em outras terras, mas nunca nenhuma irmandade tal como a que há em nosso solo russo". (Gogol, IX)

A alma russa nasce no sofrimento. O russo aceita o destino da vida a serviço de Deus e de sua Pátria. Rússia e fé são inseparáveis. Quando o velho guerreiro Bovdug é mortalmente ferido por uma bala turca suas palavras finais são exortações à nobreza do sofrimento, após o que seu espírito alça voo para se unir a seus ancestrais. (Gogol, IX) A mística da morte e do sofrimento pela Pátria é descrita na morte de Taras Bulba, quando ele é capturado e executado, suas palavras finais sendo de ressurreição:

"Aguardem, o tempo virá quando vocês aprenderão o que é a fé ortodoxa russa! O povo já o fareja longe e perto. Um czar surgirá do solo russo, e não haverá poder no mundo que não se submeterá a ele!". (Gogol, XII)

Pseudomorfose

Um elemento significativo da morfologia cultural de Spengler é a "Pseudomorfose Histórica". Spengler traçou uma analogia a partir da geologia. Quando cristais de um mineral estão embutidos em uma camada de rocha, onde "fissuras e rachaduras ocorrem, a água se infiltra, e os cristais são gradualmente trazidos para fora de modo que no devido tempo apenas seu molde oco permanece". (Spengler, II, 89)

"Pelo termo 'pseudomorfose histórica' eu proponho designar aqueles casos em que uma Cultura estrangeira mais velha jaz tão massivamente sobre a terra que uma Cultura jovem, nascida nessa terra, não consegue respirar e falha não só em atingir formas de expressão puras e específicas, mas até mesmo em desenvolver sua própria consciência plena de si. Tudo que emerge das profundezas da alma jovem é lançado nos velhos moldes, sentimentos jovens se endurecem em obras senis, e ao invés de se empinar em seu próprio poder criativo, ele só pode odiar o poder distante com um ódio que cresce até se tornar monstruoso". (Ibid.)

Uma dicotomia tem existido por séculos, começando com Pedro o Grande, de tentativas de impôr um verniz ocidental sobre a Rússia. Isso é chamado de Petrinismo. A resistência a essas tentativas é o que Spengler chamou de "Velha Rússia". (Spengler, 1971, II, 192) Spengler também descreveu essa dicotomia.

Nikolai Berdyaev escreveu em termos similares aos de Spengler: "A Rússia é uma seção completa do mundo, um Leste-Oeste colossal. Ela une dois mundos, e dentro da alma russa dois princípios estão sempre engajados em uma luta - o oriental e o ocidental". (Berdyaev, 1).

Com a orientação da política russa na direção do Ocidente, a "Velha Rússia" foi "forçada a uma história falsa e artificial". (Spengler, II, 193) Spengler pensou que a Rússia havia sido dominada pela cultura ocidental tardia:

"Artes e ciências de um período tardio, iluminismo, ética social, o materialismo das cidades globais, foram introduzidos, ainda que neste tempo pré-cultural a religião fosse a única língua pela qual o homem compreendia a si e ao mundo". (Spengler, 1971, II, 193)

Em 1863, escrevendo para Dostoievski, Ivan Sergyeyevich Aksakov (fundador do grupo "Eslavófilo" anti-petrinista) notou que "A primeira condição de emancipação para a alma russa é que ela deve odiar Petersburgo com toda sua força e toda sua alma". Moscou é santa, Petersburgo satânica. Uma lenda popular apresentava Pedro o Grande como o Anticristo.

O ódio do "Ocidente" e da "europa" é o ódio por uma Civilização que já havia atingido um estágio avançado de decadência no materialismo e buscava impôr sua primazia pela subversão cultural ao invés dep elo combate, com sua perspectiva urbanita e monetarista, "envenenando a cultura ainda não nascida no ventre da terra". (Spengler, 1971, II, 194) A Rússia era ainda uma terra em que não havia burguesia e nenhum sistema de classes verdadeiro, mas apenas senhor e camponês, uma visão confirmada por Berdyaev, escrevendo: "As várias linhas de demarcação social não existiam na Rússia; não havia classes preponderantes. A Rússia nunca foi um país aristocrático no sentido ocidental, e igualmente não havia burguesia". (Berdyaev, 1)

As cidades que emergiram vomitaram uma intelligentsia, copiando a intelligentsia do Ocidente Tardio, "ávidos por desvendar problemas e conflitos, e abaixo, um campesinato desenraizado, com todo aquele pesar e ansiedade metafísicas...perpetuamente nostálgicos pela terra aberta e odiando amargamento o mundo cinzento e pétro no qual o Anticristo os havia tentado. Moscou não tinha alma adequada". (Spengler, 1971, II, 194) Berdyaev ressalta de forma similar sobre o petrinismo da classe superior que "a história russa era um conflito entre Oriente e Ocidente dentro da alma russa". (Berdyaev, 15)

Messianismo Russo

Berdyaev também afirma que enquanto o petrinismo introduziu uma época de dinamismo cultural, ele também colocou um fardo pesado sobre a Rússia, e uma desunião de espírito. (Ibid.) Porém, a Rússia possui seu próprio senso religioso de Missão, que é tanto universal quanto a do Vaticano. Spengler cita Dostoievski que escreveu em 1878 que "todos os homens devem se tornar russos, primeiro e fundamentalmente russos. Se a humanidade geral é o ideal russo, então todo mundo deve em primeiro lugar se tornar russo". (Spengler, 1963, 63n) A ideia messiânica russa encontrou uma expressão de força Os Possuídos de Dostoiévski, onde, em uma conversa com Stavrogin, Shatov diz: 

"Reduzir Deus ao atributo de nacionalidade?...Ao contrário, eu elevo a nação a Deus... O povo é o corpo de Deus. Cada nação é uma nação apenas na medida em que tenha seu próprio Deus particular, excluindo todos os outros deuses na terra sem qualquer reconciliação possível, desde que creia que por seu próprio Deus ele conquistará e expulsará todos os outros deuses da face da terra... A única nação 'portadora de Deus' é a nação russa..." . (Dostoievski, 1992, Parte II:I:7,265-266)

Spengler viu a Rússia como estando fora da Europa, e mesmo como "asiática". Ele até mesmo via um renascimento ocidental vis-à-vis a oposição à Rússia, que ele considerava como liderando a "revolução colorida" contra os brancos, sob o manto do bolchevismo. Porém também havia outros destinos que Spengler viu no horizonte, que haviam sido previstos por Dostoievski.

Uma vez que a Rússia houvesse derrubado suas intrusões estrangeiras, ela poderia olhar com outra perspectiva sobre o mundo, e reconsiderar a Europa não com ódio e vingança mas em parentesco. Spengler escreveu que enquanto Tolstoi, o petrinista, cuja doutrina foi precursora do bolchevismo, era a "Rússia passada", Dostoievski era a "Rússia vindoura". Dostoievski como representante da "Rússia vindoura" "não conhece" o ódio da Rússia pelo Ocidente. Dostoievski e a velha Rússia são transcendentes. "Seu poder apaixonado de viver é suficientemente compreensivo para abarcar todas as coisas ocidentais também". Spengler cita Dostoievski novamente: "Eu tenho duas pátrias, Rússia e Europa". Dostoievski como o portador de uma alta cultura russa "passou para além tanto do petrinismo como da revolução, e de seu futuro ele olha para trás por sobre elas com ode longe. Sua alma é apocalíptica, desejosa, desesperada, mas de seu futuro ele está certo". (Spengler, 1971, II, 194)

Para os "Eslavófilos", dos quais Dostoievski era um, a Europa é preciosa. O Eslavófilo aprecia a riqueza da alta cultura europeia, ao mesmo tempo que percebe que a Europa está em um estado de decadência. Berdyaev discutiu o que ele considerou uma inconsistência em Dostoievski e nos eslavófilos em relação a Europa, mas uma que é compreensível quando consideramos a diferenciação crucial de Spengler entre Cultura e Civilização:

"Dostoieviski chama a si mesmo de um eslavófilo. Ele pensava, como o fazia também um grande número de pensadores sobre o tema da Rússia e da Europa, que ele sabia que a decadência estava se estabelecendo, mas que um grande passado existe nela, e que ela fez contribuições de grande valor para a história da humanidade". (Berdyaev, 70)

É notável que enquanto essa diferenciação entre Kultur e Zivilisation é atribuída a uma tradição filosófica particularmente alemã, Berdyaev comenta que ela estava presente entre os russos "muito antes de Spengler", ainda que derivando de fontes alemães:

"É de ser notado que muito antes de Spengler, os russos traçaram a distinção entre 'cultura' e 'civilização', que eles atacaram a 'civilização' mesmo quando permaneciam apoiadores da 'cultura'. Essa distinção na verdade, apesar de expressa em uma fraseologia distinta, seria encontrada entre os eslavófilos". (Ibid.)

Dostoievski era indiferente ao Ocidente tardio, enquanto Tolstoi era um produto dele, o Rousseau russo. Imbuídos com ideias do Ocidente tardio, os marxistas buscavam substituir uma classe governante petrina por outra. Nenhuma das duas representava a alma da Rússia. Spengler observou: "O verdadeiro russo é o discípulo de Dostoieviski, ainda que ele possa não ter lido Dostoievski, ou qualquer outro, não, talvez porque ele não possa ler, ele é ele próprio Dostoievski em substância". A intelligentsia odeia, o camponês não. (Ibid.) Ele eventualmente derrubaria o bolchevismo e qualquer outra forma de petrinismo. Aqui nós vemos Spengler inequivocamente afirmando que a civilização pós-ocidental será russa:

"Aquilo pelo que esse povo desassentado anseia é sua própria forma vital, sua própria religião, sua própria história. O Cristianismo de Tolstoi foi um equívoco. Ele falava de Cristo, mas queria dizer Marx. Mas ao Cristianismo de Dostoievski os próximos mil anos pertencerão". (Ibid.)

Sobre a verdadeira Rússia, como Dostoievski a expressou, "nem uma única nação já foi alguma vez fundada sobre princípios da ciência ou da razão". (Dostoievski, 1872, II:I:VII)

À época em que Spengler publicou A Hora da Decisão em 1934 ele concluiu que a Rússia havia derrubado o petrinismo e as vestimentas do Ocidente tardio, e ainda que ele chamasse a nova orientação da Rússia de "asiática", ele disse que ela era "uma nova Ideia, e uma ideia com um futuro também". (Spengler, 1963, 60) Esclarecendo, a Rússia olha para o "Oriente", mas enquanto o ocidental assume que "Ásia" e Oriente são sinônimos de mongol, a etimologia da palavra "Ásia" vem do grego Aσία, ca. 440 a.C., se referindo a todas as regiões a leste da Grécia. (Ibid. 61) Durante seu tempo Spengler viu que na Rússia,

"raça, língua, costumes poulares, religião, em sua forma presente...todos ou qualquer um deles pode e será fundamentalmente transformado. O que vemos hoje, então, é simplesmente o novo tipo de vida que uma vasta terra concebeu e irá fazer emergir presentemente. Não é definível em palavras, nem está seu portador consciente disso. Aqueles que tentam definir, estabelecer, ditar um programa, estão confundindo a vida com uma frase, como o faz o bolchevismo governante, que não é suficientemente consciente de sua própria origem cosmopolita, racionalista e euro-ocidental". (Ibid.)

Na Rússia Spengler já via em 1934 que "de marxismo genuíno há pouco, excetuando nomes e programas". Ele duvidava que o programa comunista seja "realmente levado a sério ainda". Ele via a possibilidade dos vestígios de bolchevismo petrino serem derrubados, para ser substituído por um tipo oriental "nacionalista" que atingiria "proporções gigantescas". (Spengler, 1963, 63) Spengler também se referiu à Rússia como paradoxalmente o país "menos perturbardo pelo bolchevismo", (Ibid., 182) e sugeriu que a "face marxiana só foi trajada para benefício do mundo exterior". (Ibid., 212) Uma década após a morte de Spengler a direção da Rússia sob Stálin havia perseguido definições mais claras, e o bolchevismo petrino havia se transformado da maneira que Spengler previu. (Brandenberger, 2002)

Conclusão

Como na época de Spengler, como séculos antes, continuava a existir duas tendências na Rússia: a Russa Antiga e a Petrina. Nem um, nem o outro espírito domina atualmente, ainda que sob Putin a Velha Rússia lute para ressurgir. Spengler em uma palestra publicada para a Convenção de Negócios Reno-Vestfaliana em 1922 se referiu ao "antigo, instintivo, difuso, inconsciente e subliminar impulso que está presente em todo russo, não importa o quão metodicamente ocidentalizada sua vida consciente possa ser - um anseio místico pelo Sul, por Constantinopla e Jerusalém, um espírito cruzado genuíno similar ao espírito que nossos ancestrais góticos tinham em seu sangue, mas que dificilmente podemos apreciar hoje". (Spengler, 1922)

O bolchevismo substituiu uma forma de petrinismo por outra forma, limpando o caminho "para uma nova cultura que algum dia surgirá entre Europa e Ásia. É mais um início do que um começo". O campesinato "algum dia se tornará consciente de sua própria vontade, que aponta em uma direção totalmente diferente". "O campesinato é o verdadeiro povo russo do futuro. Ele não se permitirá perverter ou sufocar". (Ibid.).

Spengler, o antimarxista arquiconservador, seguindo a tradição alemã de realpolitik, considerava a possibilidade de uma aliança russo-alemã em seu discurso de 1922, o Tratado de Rapallo sendo um reflexo dessa tradição. "Um novo tipo de líder" despertaria na adversidade, para "novas cruzadas e conquistas lendárias". O resto do mundo, repleto com um anseio religioso, mas que cai sobre chão infértil, está "rasgado e cansado suficiente para lhe permitir subitamente assumir um novo caráter sob as circunstâncias adequadas". Spengler sugeriu que "talvez o próprio bolchevismo mude dessa maneira sob novos líderes". "Mas a Rússia silenciosa e profunda" voltaria sua atenção para o Oriente Próximo e Extremo, como um povo de "grandes extensões interiores". (Ibid.)

Ainda que Spengler postulasse os ciclos orgânicos de uma Alta Cultura passando pelas fases vitais de nascimento, vigor, maturidade, velhice e morte, deve-se ter em mente que um ciclo de vida pode ser perturbado, abortado, rompido ou acometido por doença, a qualquer momento, e findar sem se realizar. Cada um tem sua analogia na política, e há muitos russófobos ávidos por aleijar o destino da Rússia com contaminações políticas, econômicas e culturais. O bloco soviético caiu por contágio interno e externo.

O que Spengler previu para as possibilidades da Rússia, ainda a realizar sua missão histórica, messiânica e de escopo mundial, pode agora estar se desabrochando se a Rússia conseguir aparar pressões de dentro e de fora. A revogiração da Ortodoxia é parte desse processo, como o estilo de liderança de Putin, distinto de um Ieltsin, por exemplo. Do que quer que a Rússia seja chamada externamente, seja monárquica, bolchevique ou democrática, há uma Rússia interior - eterna - que perdura e aguarda a sua hora no palco histórico mundial.

Referências

Nikolai Berdyaev, The Russian Idea, MacMillan Co., New York, 1948

D Brandenberger, National Bolshevism: Stalinist culture and the Formation of Modern Russian National Identity 1931-1956. Harvard University Press, Massachusetts, 2002

T A Chumachenko, Church and State in Soviet Russia, M. E. Sharpe Inc., New York, 2002

H Cournos,‘ Introduction’, N V Gogol, Taras Bulba & Other Tales, 1842, http://www.gutenberg.org/files/1197/1197-h/1197-h.htm

Dostoyevski, The Brothers Karamazov, 1880

Dostoyevski, The Possessed, Oxford University Press, 1992

Spengler, Prussianism and Socialism, 1919

Spengler, ‘The Two Faces of Russia and Germany’s Eastern Problems’, Politische Schriften, Munich, 14 February, 1922

Spengler, The Hour of Decision, Alfred A Knopf, New York, 1963

Spengler, The Decline of The West, George Allen & Unwin, London, 1971

Leon Trotsky, The Revolution Betrayed: what is the Soviet Union and where is it going?, 1936

29/05/2015

Kerry Bolton - Soberania Financeira como Pré-Requisito para Soberania Política e Regeneração Cultural

por Kerry Bolton

Tradução por Victor Cavalcanti



A menos que um Estado-Nação tenha controle sobre seu próprio sistema bancário e financeiro, falar de soberania nacional, tanto por algum movimento ou pelo governo, é vazio. Ainda que o setor bancário seja algo evitado, hoje, por muitos movimentos e pensadores como se fosse algo fora do domínio de preocupação tanto pela Esquerda ou pela Direita. De fato, a Esquerda raramente tocou no assunto, e continua a se recusar a fazê-lo, se contentando com os slogans banais sobre tributação e nacionalização de propriedade. Como o movimento socialista têm mostrado, nacionalização significa pouco e, frequentemente, nada no que diz respeito a garantir soberania financeira e, consequentemente, política. Frequentemente, um chamado “banco estatal”, como o Banco da Reserva da Nova Zelândia ou o Banco da Inglaterra, e muitos outros, dão a aparência de soberania financeira. Na realidade, não significam nada disso. Um banco estatal, como esses que são comuns, há muito tempo, nas sociais-democracias, meramente servem como meios pelos quais o Estado pede emprestado do setor privado e normalmente de setores financeiros internacionais.

Durante a Grande Depressão, bancos centrais eram promovidos como uma panaceia para os altos e baixos e para assegurar estabilidade econômica e financeira. Enquanto Paul Warburg, da dinastia bancária internacional Warburg, tinha previamente redigido a conta para o Banco da Reserva Federal dos EUA – e este era promovido como um “banco estatal” –, no começo da década de 1930, Otto Niemeyer do Banco da Inglaterra, percorria o Império Inglês promovendo a ideia de bancos estatais, como o Banco da Inglaterra. Estes seriam baseados em obrigacionistas privados. Na Nova Zelândia, o Banco da Reserva foi criado em 1933. Esse banco, como todos os bancos centrais do tipo, contudo, meramente serviu como um meio estatal de emprestar de fontes privadas. Historiador de Harvard e Georgetown, o Dr. Caroll Quigley, próximo de círculos governamentais, afirmou que o propósito desses bancos era “formar um sistema financeiro único em uma escala internacional, que manipulasse a quantidade e circulação de dinheiro, de tal forma que eles fossem capazes de influenciar, se não controlar, os governos de um lado e as indústrias de outro."(1)

O parlamentar Louis T. McFadden, que por dez anos serviu como Presidente do Comitê Parlamentar do Banco e da Moeda dos Estados Unidos, e foi também um banqueiro, expôs a natureza do Sistema de Reserva Federal e as operações do sistema internacional de débito e finanças em discursos no Congresso Americano. Em 1932, McFadden afirmou na Câmara, sobre Banco da Reserva Federal:

"Essa instituição maligna tem empobrecido e arruinado o povo dos Estados Unidos, têm levado a si mesma à falência, e praticamente levou à falência o nosso Governo. Ela fez isso através dos defeitos da lei sob a qual opera, através da má administração desta lei pela Reserva e através das práticas corruptas dos abutres endinheirados que a controlam. Algumas pessoas pensam que os Bancos da Reserva Federal são instituições governamentais dos Estados Unidos. Eles são monopólios privados, que predam o povo dos Estados Unidos para seus próprios benefícios e seus clientes estrangeiros; vigaristas e especuladores estrangeiros domésticos; e credores predatórios e ricos".(2)

Experiência da Nova Zelândia

Em 1936, O Governo Trabalhista da Nova Zelândia nacionalizou o Banco da Reserva, comprou os obrigacionistas privados e fez do banco um instrumento da política estatal. Como mencionado, a nacionalização, por si mesma, contudo, significa pouca coisa ou nada, se tal “banco estatal” meramente age como meio para emprestar crédito criado privadamente, e, portanto, meramente escora a dívida acumulada no sistema bancário internacional. O Primeiro Governo Trabalhista da Nova Zelândia foi eleito principalmente por causa da questão bancária. Ao contrário de hoje, as massas do povo entendiam as questões bancárias e financeiras muito mais profundamente do que nossos acadêmicos e economistas atuais. A Grande Depressão deu ímpeto para uma demanda mundial pela reforma bancária, antes da qual homens práticos como C. H. Douglas, na Inglaterra, que formulou a teoria do Crédito Social e ainda antes dele, o inventor Arthur Kitson; Gottfried Feder na Alemanha, que fez uma campanha pela “ruptura da escravidão dos juros”(3) e Silvio Gessell na Áustria, desenvolveram suas ideias sobre reforma bancária, as quais foram largamente aceitas.

O Governo Trabalhista da Nova Zelândia esteve entre os mais bem sucedidos em suas reformas bancárias, principalmente graças ao icônico político Trabalhista John A. Lee, um veterano de guerra de um braço só, que estava determinado a manter as promessas do Partido Trabalhista, apesar das tentativas de comprometê-las feitas por fabianos ortodoxos como o Ministro da Finança, Walter Nash. Desde 1933, após a Conferência do Partido Trabalhista, o partido adotou uma polícia pelo total e completo controle das “máquinas financeiras da nação”. Lee apontou que em outros países (Inglaterra e Austrália) onde o Trabalhismo tinha assumido o poder, eles recusaram-se a tomar tais medidas no que diz respeito às máquinas financeiras, e suas políticas ao lidar com a Depressão não deram em nada (4). Nos nove pontos sobre finança que saíram da Conferência do Partido em 1933, a primeira demandava “imediato controle pelo Estado de todo o sistema bancário. O Estado deve ter exclusiva autoridade na questão de crédito e circulação”. A questão de crédito seria baseada nas necessidades produtivas do país (5).

A função do Banco estabelecida na Seção 1 da Lei do Banco da Reserva era “regular e controlar o crédito e a moeda na Nova Zelândia” para o “bem estar econômico e social da Nova Zelândia”. O Banco assinaria embaixo de qualquer empréstimo que o Governo desejasse fazer, e o Tesouro tinha o poder de emprestar do Banco da Reserva o montante completo da renda estimada para o ano. O Banco também tinha o completo controle sobre a posse do câmbio da libra esterlina, o que Lee explicou como sendo de “vital importância” para controlar o “movimento internacional de capital financeiro gangster que pode ocorrer em tempos de emergência política” e pode “prejudicar o crédito externo de um país”. A subseção 3, cláusula 18 da Lei deu ao Governo autoridade sobre as operações dos bancos comerciais e eles respondiam ao Estado (6).

O sucesso da Nova Zelândia foi mais evidente e durou mais tempo na criação do crédito estatal do Banco da Reserva, emitido com 1% de juro, para o financiamento do programa estatal de habitação. Este programa não apenas proveu casas bem-construídas em seções de um quarto de acre com alugueis baixos, onde era habitual para as famílias plantarem suas próprias hortas e frequentemente criarem aves domésticas, como também a construção e o spin-off do programa proveu trabalho para 75% dos desempregados da Nova Zelândia. Uma injeção massiva de crédito estatal na economia significou que não havia dívida acumulada pelo Estado ou pelo povo, e que foi feito, além disso, sem causar inflação.

O Banco da Reserva também emitiu crédito estatal com baixos juros para a indústria de laticínios, e os lucros feitos pelo Estado nestes avanços foram relocados para um Fundo Consolidado voltado para a agricultura (7).

Em um documento do Governo, “Habitação Estatal na Nova Zelândia”, o projeto era explicado como se segue:

"Crédito do Banco da Reserva: para financiar suas propostas, o Governo adotou o método um pouco incomum de usar crédito do Banco da Reserva, reconhecendo, portanto, que o fator mais importante em custos de habitação é o preço do dinheiro – o juro é a porção mais pesada de um aluguel comum. O recém-criado Departamento (Ministério das Obras) foi, portanto, capaz de obter o uso dos fundos à menor taxa possível de juro, a taxa sendo de 1% para os primeiros 10 milhões de libras avançados, e um por cento e meio em próximos avanços. As somas avançadas pelo Banco da Reserva não foram registradas ou assinadas por outras instituições financeiras. Essa ação moldou a intenção do Governo de demonstrar que é possível para o Estado usar o crédito do país para beneficiar o próprio país. Essa medida pioneira pelo Governo Trabalhista, financiar um largo projeto estatal inteiramente com crédito estatal, foi bem sucedida sem ser acompanhada por inflação ou qualquer outro efeito colateral contrário nos quais os economistas ortodoxos insistiriam que aconteceria". (8)

A Nova Zelândia não foi a primeira nem a última nação a inaugurar um sistema bancário soberano, embora tenha durado pouco. Em Alberta, Canadá, ao mesmo tempo, um partido de Crédito Social foi eleito, e apesar de ter sido barrado em toda ocasião pelas Cortes, emitiu “Certificados de Prosperidade” (9). Antes disso, um esquema parecido foi tentado na pequena cidade de Woergle, na Áustria, e ao fazer isso, essa comunidade se livrou da miséria, mas então foi obrigado pelo Governo a descontinuar seus planos e foi jogada de volta à miséria(10). Durante a década de 1930, comunidades nos EUA arquitetaram seus próprios esquemas. Embora não seja politicamente ou academicamente conveniente dizer isso, mas a Alemanha, Itália e Japão, todos eles, conseguiram superar a Depressão ao trazer o sistema bancário sob o controle do Estado e emitindo crédito estatal para obras públicas. Eles fizeram em larga escala o que a Nova Zelândia fez em uma escala limitada (11).

O milagre que foi a Argentina de Perón foi atingido, em medida significante, pelo entendimento peronista de que a soberania nacional não pode ser atingida sem soberania econômica. Isso é, por sua vez, um pré-requisito primário para o objetivo peronista de justiça social como o fator unificante para qualquer nação genuína. Perón afirmou, “no sistema capitalista, a moeda é um fim e não um meio, e seu valor absoluto a tudo subordina, incluindo o homem”(12). O Dr. Arturo Sampay, projetista da constituição peronista de 1949, um acadêmico legal e internacionalmente aclamado, sucintamente explicou, após a destituição de Perón:

"A maneira moderna com a qual um país desenvolve a economia não é mais através anexação pura e simples de território, como era o método durante os séculos dezoito e dezenove, mas através do manejo do seu próprio crédito e moeda. De fato, o desenvolvimento de um país é através da política de investimento. Quem quer que dê as ordens sobre crédito e sobre expansão ou contração do fornecimento de dinheiro, controla o desenvolvimento do país (13)".

O assessor econômico de Perón, Arturo Jauretche, deu um relato detalhado sobre a importância do crédito estatal, incluindo sua relação com a soberania nacional, dizendo que a nacionalização bancária é “fundamental para implementação de uma política nacional”.

Quem administra o crédito controla mais do que apenas a emissão da moeda. Ao controlar o crédito, o comércio de exportação e importação também é controlado. O controle do crédito pode encorajar certas formas de produção e enfraquecer outras; determinar o que deve ser produzido e o que não deve, o que pode e o que não pode chegar aos mercados, e consequentemente as vendas e o consumo também é controlado (14).

Jauretche explicou com exatidão o caráter orgânico do crédito, como sendo nada mais do que um meio para a troca, um método conveniente de permutação de bens e serviços:

"O segredo da prosperidade ou do declínio, desenvolvimento ou atraso, está nos bancos. As leis e organizações empresariais são apenas a anatomia da sociedade econômica. Mas o dinheiro é a fisiologia do comércio de uma sociedade. O dinheiro é o sangue circulando por dentro, e o preço do dinheiro, sua abundância ou escassez, é determinada pelo sistema bancário (15)".

Contudo, crédito e moeda têm se tornado comodidades em si mesmas, compradas e vendidas com lucro (usura). Sem o entendimento desta premissa, todo o resto é loucura em termos de política, economia e até arte e moralidade. A questão é a subordinação do papel do dinheiro; quase literalmente como destronar o culto a Mammon.

Jauretche também explicou como bancos criam crédito quando afirmou, “Bancos criam dinheiro através de crédito, porque o crédito é convertido de depósitos múltiplas vezes, e a abundância ou escassez de dinheiro sólido em circulação é uma reflexão do número de vezes que um banco multiplica sua capacidade de empréstimo”. Isso é chamado de “banco da reserva fracional” e têm sido o método de criação de crédito por séculos, permitindo bancos privados criarem crédito que só é suportado por uma fração do montante das reservas reais que os bancos têm em mãos. Sempre que um depósito é feito por um cliente do banco, o banco é capaz de criar e emprestar crédito muito mais vezes do que o montante depositado. O banco, então, taxa juros (usura) naquele crédito. Portanto, o devedor deve pagar com riqueza real – criado pelo seu próprio trabalho –, não apenas o valor do empréstimo que foi criado, do nada, por um registro em um livro de contas (ou um computador), mas também o juro adicionado. É assim que o sistema internacional bancário funciona. Quando uma nação se torna tão endividada que não pode mais manter o pagamento de juros em empréstimos, ela deve ou cancelar os demais empréstimos para pagar empréstimos passados, ou deve começar a vender bens estatais e recursos, em um processo que é frequentemente chamado de “privatização”, e adotar “medidas de austeridade”, que causam desarticulação social, estagnação econômica e pode ser um meio pelo qual a finança internacional derruba governos inconvenientes através de “revoluções espontâneas” bem planejadas e financiadas. Nós vimos isso acontecer por muitas décadas por todo o mundo ocidental, e desde a implosão do bloco soviético, nos antigos estados soviéticos. O resultado é a “globalização” e a concentração crescente de riqueza por oligarcas e plutocratas. Esses estados que resistam ao processo são frequentemente bombardeados até a submissão, e seus chefes de estado são demonizados, presos ou linchados em nome da “democracia” e dos “direitos humanos”.

O professor Carroll Quigley explicou também o mecanismo de criação de crédito e seu desenvolvimento histórico:

"Cedo ficou claro que o ouro precisa estar em mãos apenas para uma fração dos certificados para poder ser apresentado como pagamento... Em efeito, a criação de crédito em papel maior do que a reserva disponível significa que os banqueiros estavam criando dinheiro do nada. A mesma coisa poderia ser feita de outra forma. Os banqueiros descobriram que remessas e cheques sacados sobre depósitos por depositantes e transferidos para uma terceira pessoa frequentemente não eram convertidos em dinheiro pelos últimos, mas eram depositados em suas próprias contas. De acordo com isso, foi necessário aos banqueiros ter em mãos em dinheiro real não mais do que uma fração dos depósitos que provavelmente seriam sacados e convertidos em dinheiro, o resto poderia ser usado para empréstimos, e se esses empréstimos eram feitos ao criar uma conta (para depositar) para o mutuário, que, por sua vez, sacaria cheques dela ao invés de retirar dinheiro, esses depósitos ou empréstimos criados também poderiam ser cobertos adequadamente ao manter a reserva a apenas uma fração do seu valor. Esses depósitos criados também eram uma criação de dinheiro a partir do nada...  William Patterson, contudo, ao obter a Carta Régia do Banco da Inglaterra em 1694, disse: 'o banco tem o lucro sobre o juro de todo o dinheiro que ele mesmo cria a partir do nada'". (16)

Perón conta que em 1946 uma delegação do Fundo Monetário Internacional estava pronta para visita-lo quando ele foi eleito. A sua rejeição à filiação da Argentina ao FMI também estava pronta. Ele afirmou, entre os motivos:

"Para nós, o valor da nossa moeda estava fixada no país, e nós estávamos estabelecendo taxas de acordo com nossas necessidades e conveniências. Para o câmbio internacional nós recorremos à troca e, assim, a nossa moeda real foram as nossas mercadorias. A realidade permanente das manobras monetárias internacionais de todos os tipos, nas quais o sistema insidioso foi criado, não nos deram qualquer outra saída caso não quiséssemos ser roubados com impunidade". (17)

Mammon versus Cultura

Ezra Pound, e o poeta neozelandês Rex Fairburn, ambos se tornaram interessados em Crédito Social mais ou menos ao mesmo tempo e pelas mesmas razões. Como Perón, Sampay e Jauretche em sua rebelião contra a plutocracia após a Segunda Guerra Mundial, os dois poetas perceberam que a questão do desenvolvimento maior do homem, que quer dizer, sua cultura, está impactada pelo materialismo, representado pelo papel do dinheiro. Oswald Spengler apontou, no resultado da Primeira Guerra, que a Civilização Ocidental estava em declínio há séculos, e que a guerra trouxe a questão ao ponto da crise. Ele viu a plutocracia reinando por trás da social-democracia. Olhando para os ciclos análogos de civilizações anteriores, Spengler afirmou que o dinheiro reina durante épocas de decadência, antes de uma reação que supere a plutocracia(18).

Esta destruição do dinheiro era chamada de “Socialismo” por Spengler, um conservador, enquanto todo pensamento que colocava o dinheiro no centro era tratado por ele como capitalista, incluindo o comunismo, que não visa transcender o pensamento monetário, mas expropria-lo. Desta maneira, nós devemos entender como os poetas Pound e Fairburn viram uma terceira via que poderia superar o reino do dinheiro e retornar a um estado-cultura. Pound se voltou para o “Fascismo” porque ele pensou que tal militância era precisa para derrubar a plutocracia. Fairburn considerou o Crédito Social como suficiente. Na Inglaterra, o Crédito Social surgiu de uma forma militante com os Camisas Verdes, dos quais as formações paramilitares, comícios, marchas e arremessos de tijolos pintados de verde em janelas de bancos, viram um lugar além do Partido Comunista e dos Camisas Negras de Mosley.

O papel do dinheiro na Decadência Cultural

Contudo, antes de Spengler, existiu a Lei da Civilização e da Decadência, de Brooks Adams, agora pouco conhecida, a qual Ezra Pound recomentou como essencial para entender as causas do declínio e da destruição da cultura. Adams pode ser lido proveitosamente junto com Spengler. Adams esboça a força enervante do dinheiro na estética e moralidade de uma Civilização. Adams defendia que “o comércio é antagonista à imaginação”. Onde um estado é comercialmente baseado, como são a maioria dos estados do mundo atualmente, a estética estagna. Consequentemente, a grande era Gótica que sintetiza o florescer da Civilização Ocidental (que Spengler chamou de época da “Primavera”) não se desenvolveu nas cidades-estados de Veneza, Genoa ou Florença, “nem qualquer escola pura de arquitetura prosperou na atmosfera mercantil”(19). Os efeitos enervantes, causados pela energia gasta em atividades mercantis são explicados em termos que se encaixam bem com as conclusões de Spengler sobre o papel do pensamento-monetário no ciclo-final de uma Civilização. Adams escreve:

"Sempre que uma raça é tão ricamente dotada com o material energético que não gasta toda a sua energia com a luta diária da vida, o excesso pode ser armazenado em forma de riqueza; e esse estoque de energia armazenada talvez seja transferida de comunidade para comunidade, talvez por conquista, ou por superioridade na competição econômica. Por maior que seja o estoque de energia acumulada por conquista, uma raça deve, cedo ou tarde, alcançar o limite de sua energia bélica, quando entra na fase de competição econômica".

Mas, como o organismo econômico difere radicalmente do emocional e bélico, o efeito da competição econômica têm sido, talvez invariavelmente, dissipar a energia acumulada pela guerra.

Quando a energia excedente foi acumulada em tal ponto de superar a energia produtiva, ela se torna a força social controladora. Daí em diante, o capital é autocrata, e a energia se concentra nos organismos melhor equipados para dar expressão ao poder do capital. Neste último estado de consolidação o intelecto econômico, e, talvez, científico, é propagado, enquanto a imaginação se esvai, e os tipos artísticos, emocionais e bélicos de humanidade decaem. Quando a celeridade social foi atingida em tal ponto que o desperdício de material energético é tão grande que os estoques imaginativos e bélicos falham em reproduzir-se, a competição intensa aparece para gerar dois tipos econômicos extremos – o usurário em seu aspecto mais formidável e o camponês, do qual o sistema nervoso é mais bem adaptado para prosperar em nutrição escassa. Por fim, um ponto deve ser atingido quando a pressão não pode ir mais além, e então, talvez, um dos dois resultados se segue: um período estacionário talvez sobrevenha, o que talvez dure até que seja acabado pela guerra, pela exaustão ou pelos dois combinados, o que parece ter sido o caso do Império Romano Oriental; ou, como aconteceu com o Ocidental, a desintegração pode se estabelecer, a população civilizado talvez pereça, e uma reversão pode tomar lugar em uma forma primitiva de organismo.

A evidência, contudo, parece apontar para a conclusão de que, quando uma sociedade muito centralizada se desintegra, sob a pressão da competição econômica, é porque a energia da raça foi esgotada. Consequentemente, os sobreviventes de tal comunidade faltam com o poder necessário para uma concentração renovada, e devem provavelmente permanecer inertes até que sejam supridos com material energético fresco pela infusão de sangue barbárico(20).

Onde um povo falha em ser revigorado com “sangue barbárico”, e continua estagnado, eles são o que Spengler chamou de Fellaheen, não mais dentro do escopo da história, inerte de século a século, a massa campesina e urbana habitando dentro das sombras da ruína do que foram, antes, grandes monumentos. Ezra Pound e Fairburn perceberam que, da perspectiva estética, existe mais a ser contribuído para a questão econômica do que da economia ou política por si mesmas. T. S. Elliot também defendeu a reforma econômica, como também o fez Hilaire Belloc e G. K. Chesterton, enquanto outros esteticistas, como W. B. Yeats e D. H. Lawrence, que se rebeleram contra a ignorância dos tempos, o fizeram sem perceber os fatores econômicos envolvidos. Fairburn e Pound sabiam exatamente quais processos estavam em jogo na corrosão do organismo cultural.

O “Com Usura” (Canto XLV) de Pound, reflete lucidamente a maneira pela qual a primazia do dinheiro, como mostrado por Spengler e Adams, intervém na cultura de uma sociedade, agindo como um contágio do organismo social, no trabalho, ofício, arte, religião e tudo o mais associado com a Alta Cultura: 

Com usura, nenhum quadro é feito para durar e viver conosco,
mas é feito para vender, e vender rápido...
Quem lavra a pedra é afastado da pedra
O tecelão é afastado do tear...
COM USURA
A lã não chega ao mercado
A ovelha não dá lucro com usura...
A usura enferrujou o cinzel
Enferrujou a arte e o artesão...(21)

Pound afirmou sucintamente em uma seção de três sentenças sobre Kulturmorphologie em um panfleto escrito em Roma em 1942: “Para repetir: um especialista, olhando para uma pintura (de Memmi Goya, ou qualquer outro) deveria ser capaz de determinar o nível de tolerância de usura na sociedade na qual ela foi pintada”(22).

Fairburn escreveu um poema sobre temas muito similares aos “Com Usura” de Pound, mas inteiramente independentemente, em seu “Dominion”:

"A casa dos governantes, guardada por eunucos, e sobre o arco do portão essas palavras gravadas: AQUELE QUE CONTESTA OS USURÁRIOS PÕE EM RISCO O ESTADO".

Dentro dos portões, o séquito do mal, os instrumentos dos governantes: crostas retiradas dos corpos dos capitães escravizados bem-pagos e cabos do exército do privilégio partindo o pão da tirania, vestindo a farda da extorsão; e aqueles que mantêm os registros do declínio, estaticistas e arquivistas, virando as páginas com mãos frias, computando a nossa ruína em algemas perfumadas. Para os escravizados, o trabalho árduo; o dever e adoração do deus-esmeril; a apoteose dos meios, a profanação dos fins; a degradação da hoste dos vivos; a celebração de uma missa negra que projeta a sombra de uma missa vermelha.

Essa é a nossa cidade de papel, construída no solo da dívida, mantida contra todos os ventos pelo peso-de-papel da dívida. As multidões passam lentamente, ou param e observam, e aqui e ali, com olhos lentos, o ócio está aglomerado nas bocas das lojas de gramofone em um retumbar de música que enche o ar amarrotado com flores de papel e aromas artificiais e paixões sem dores em um paraíso de amor imaginário(23).

O Desafio dos Tempos: destruir Mammon

Com os EUA, cuja fundação começa com Puritanismo, um edifício foi construído que combinava messianismo com o conceito de lucro como Divino. A cultura da América foi distorcida como consequência, e hoje está no fundo da depravação, como uma epidemia global proclamadas como tal por fanáticos neoconservadores, como o Tenente-Coronel Ralph Peter, e promovida pelo Departamento de Estado dos EUA em aliança com uma miríade de ONGs ao redor do mundo (24). Pretendem que o mundo inteiro seja recriado nesta imagem, no “solo da dívida e aromas artificiais”, como Fairburn coloca.

O Sr. E. Fyodorov, do grupo parlamentar russo “Nossa Soberania”, e o Movimento da Liberação Nacional, aludiram à necessidade de nacionalizar o Banco Central da Rússia, o qual, ele declara, não responde ao presidente ou ao Estado. Ele afirma que “a maioria dos problemas” da Rússia estão relacionados com o Banco Central, baseado em uma constituição que foi esboçada por conselheiro dos EUA, permitindo influência externa política e econômica (25). Fyodorov expressou um discernimento raro ao dizer que “a maioria dos problemas” se centraliza ao redor do sistema bancário. Isso se aplica não somente à Rússia, mas também para a maioria do mundo, desde que o mesmo sistema opera globalmente. O banco central estatal da Nova Zelândia foi pelo mesmo caminho de ser separado do parlamento. Portanto, mais do que “nacionalização” é preciso. O Banco da Reserva da Nova Zelândia permaneceu nacionalizado por oito anos. Foi apenas separado do parlamento sob a Lei do Banco da Reserva em 1989. Até aquele tempo, existia para implementar a política econômica estatal. Contudo, como John A. Lee lamentou desde o começo, este banco nacionalizado nunca libertou a Nova Zelândia da finança internacional, apesar da emissão de crédito estatal para alguns projetos públicos. As intenções foram comprometidas pelo partido que nacionalizou o banco.

Até que chegue o momento em que um estado tenha lideres de vigor que vão quebrar as amarras da finança internacional e seus tentáculos infiltradores, faz pouca ou nenhuma diferença se um banco é nacionalizado ou privatizado. Também até que chegue este momento, qualquer discussão sobre soberania nacional real é nada mais do que retórica. Uma vez que o banco central russo é nacionalizado, a próxima tarefa é assegurar que o Estado russo assuma a prerrogativa e a tarefa de criar e emitir o seu próprio crédito.

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(1) - C. Quigley, Tragedy and Hope, New York, Macmillan Co., 1996, p. 51.
(2) - Louis T. McFadden, United States Congressional Record, United States Government Printing Office, Washington, DC, 10 June 1932, p. 12595
(3) - G. Feder, “Manifesto for the Breaking of the Bondage of Interest”, Munich 1917. Mesmo ano em que Douglas formulou Crédito Social. Feder afirmou que “dinheiro não é e não deve ser nada além de um câmbio em troca de trabalho”.
(4) - John A. Lee, Money Power for the People: A Policy for the Future Suggested, Lee, Auckland, 1937), p.2.
(5) - Ibid., p.3
(6) - Ibid., pp. 6-7.
(7) - Lee, 1937, p.8.
(8) - C. Firth and G. Wilson, “State Housing in New Zealand”, Ministry of Works, Government Printing Office, Wellington, 1949.
(9) - K. R. Bolton, The Banking Swindle, London, 2014, p.10.
(10) - Bolton, ibid., pp. 84-86
(11) - Bolton, ibid., pp. 103-117.
(12) - Juan Peron, “Banking and Credit”, Buenos Aires, ca. 1951.
(13) - Sampay citado por Bolton, Peron and Peronism, London, 2014, p.
(14) - Arturo Jauretche, “On the Nationalisation of Banks”, 9 February 1960.
(15) - Jauretche, ibid.
(16) - Carroll Quigley, Tragedy and Hope, Macmillan Co., New York, 1966, p. 48.
(17) - Juan Peron, “Argentina and the International Monetary Fund”. Cited in Bolton, Peron and Peronism. A maneira pela qual os EUA minou a economia da Argentina e bloqueou as exportações da Argentina para a Europa é explicado neste livro do escritor, Peron and Peronism.
(18) - Oswald Spengler, The Decline of the West, George Allen & Unwin, London, 1971, Vol. II, Chapter XIII, “The Form-World of Economic Life”.
(19) - Brooks Adams, The Law of Civilization and Decay, Macmillan, London, 1896, vi. http://www.archive.org/details/lawcivilization00adamgoog
(20) - Brooks Adams, x.
(21) - E. Pound, Ezra Pound: Selected Poems 1908-1959 (London: Faber & Faber, 1975), “Canto XLV: With Usura”, pp. 147-148.
(22) - Ezra Pound (1942) A Visiting Card, Peter Russell, London, 1952, p.25.
(23) -  A. R. D. Fairburn, (1938) “Dominion” I and IX, http://www.nzepc.auckland.ac.nz/authors/fairburn/dominionfull.asp
(24) - K. R. Bolton, Revolution from Above, Arkots. 2011.
(25) - E. Fyodorov, “The National Liberation Movement in Russia Today”, Journal of Eurasian Affairs, Vol. 2, no. 1, 2014, p.18.