por Sertorio
(2018)
A sociedade russa iniciou a sua deriva em direção à revolução em 1861, quando a libertação dos servos deu início a um caminho de reformas ocidentalizantes que puseram fim ao sistema que governou durante séculos o império dos czares. A maior parte dos críticos dessas políticas eram defensores do pensamento progressista e liberal; para eles, a principal objeção que se podia enunciar contra as reformas era a sua insuficiência, o seu conservadorismo, os seus resquícios arcaicos. Perante esta corrente maioritária encontravam-se vozes discordantes, como a de Liev Tolstói e o seu utopismo cristão e agrário, negador da cultura e da civilização, que provocavam agitação pela sua interpretação radical do Evangelho. Mas nem tudo na Rússia era niilismo, também surgiram observadores lúcidos que viam com muita antecedência os perigos que se aproximavam não só para o império dos Romanov, mas para toda a civilização: a este seleto número pertence Konstantin Leontiev (1831–1891), ensaísta muito desconhecido na Europa e esquecido na sua pátria desde 1917.
Nascido no seio de uma família nobre e latifundiária da Rússia central, Leontiev levará uma vida viajante ao serviço da diplomacia russa nos Balcãs, até que uma crescente vocação religiosa o leve a abandonar a vida ativa, tomar as ordens e dedicar-se à contemplação. Nos seus últimos anos residirá no mosteiro de Optina Pustyn e morrerá no da Trindade de São Sérgio. Apesar de uma pertença inicial ao círculo progressista de Turguêniev, Leontiev foi-se desligando do liberalismo e virou para opções abertamente reacionárias, que o levarão inclusive a enfrentar-se aos pan-eslavistas, corrente principal do nacionalismo russo. Escritor elegante e bom polemista, a sua obra ficou dispersa ou inédita e foram os seus amigos que a salvaram para a posteridade com a publicação dos seus escritos em 1913.
Perante o entusiasmo progressista da sua época, Leontiev vê com desconfiança os sinais aparentemente mais vitoriosos do avanço técnico, como a ferrovia e a indústria. Numa resenha da vida do arcebispo Nicanor de Odessa (1826–1890), expõe as ideias deste pensador ortodoxo acerca do fim das florestas e dos recursos naturais que traria a extensão do progresso técnico, assim como a degradação da vida com a chegada de novas necessidades e, sobretudo, pelo domínio do afã de lucro e da pressa, essa velocidade endiabrada da técnica que o homem não é capaz de travar. Isto, escrito no século XIX, foi verdadeiramente original, já que ninguém era capaz de ver os limites e perigos do avanço técnico naquela época de entusiasmo pela máquina, exceto Júlio Verne.
A atitude de Leontiev perante o Ocidente era uma mistura muito russa de admiração e rejeição. Se bem que elogiasse a complexidade criadora e a fortaleza das instituições europeias, também via a iminente decadência da nossa civilização e considerava o homem ocidental e os seus ideais progressistas como um agente nocivo, tal como intitulou no seu ensaio O europeu comum, arquétipo e ferramenta da destruição universal, publicado em 1912 e escrito possivelmente entre 1872 e 1884. Leontiev vê no progresso oitocentista um apogeu da máquina e uma simplificação brutal da sociedade humana. Todo um processo revolucionário cujo fim último é um Estado mundial que acabe com a individualidade e iguale e simplifique as sociedades à maior glória de uma burguesia codiciosa e os seus dois deuses tutelares: a máquina e o dinheiro. Em relação ao seu país, anuncia o perigo comunista (no seu tempo impensável), que se imporia na Rússia como resultado da sua ocidentalização e das tendências atávicas do campesinato.
Como pensador, Leontiev antecipa Spengler, embora de maneira menos erudita e coerente. Na sua obra Bizantinismo e mundo eslavo (1875), afirma que os Estados e as culturas passam por três fases: a primeira, de simplicidade originária. A segunda, de eclosão da complexidade, que seria o momento de maior esplendor da cultura e do Estado, que na Europa Ocidental se situaria entre os séculos XVI e XVIII, e um processo final de simplificação e igualitarismo, que no nosso continente teria começado a partir de 1789. Também estabeleceu um período de longevidade para as culturas e as suas formas estatais que alcançaria uma extensão máxima de entre mil e mil e duzentos anos. Estas teorias voltarão a encontrar-se um século depois na etnogênese de Lev Gumilev, o grande pensador eurasianista russo. Neste livro também critica acerbadamente Tchernichevski e a sua obra Que Fazer?, o romance essencial do radicalismo russo que inspirará o título de um dos ensaios mais importantes de Lênin. Quarenta anos antes das revoluções que acabaram com a velha Rússia, adverte: “Todo o grande princípio, levado até às suas últimas consequências com parcialidade e espírito sectário, não somente se pode converter em mortífero, mas em suicida. Assim, por exemplo, se levarmos a ideia da liberdade pessoal até às suas últimas consequências, pode-nos conduzir, por meio da mais extrema anarquia, a um comunismo despótico para além de toda a imaginação, à violência legal e constante de todos sobre cada um ou à escravidão do indivíduo”. Não podia ser mais profético em relação ao processo que levou de fevereiro a outubro de 1917. Também indica nessa obra que os três elementos que garantiam a fortaleza do império russo, a comunidade campesina (o mir), a autocracia e a igreja ortodoxa, estavam a ser minados com as reformas liberais de Alexandre II e a recepção das ideias europeias pela intelligentsia. Entre 1917 e 1921, a Rússia conheceu uma rebelião agrária que bem se pode dizer que foi a vingança do mir contra todos aqueles que pretenderam destruí-lo.
Leontiev só foi publicado na Europa pelas Editions L'Age d'Homme em França; merece a pena mergulhar nas suas páginas.
