Mostrando postagens com marcador Friedrich Nietzsche. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Friedrich Nietzsche. Mostrar todas as postagens

05/08/2012

A "Razão" na Filosofia


Por Friedrich Nietzsche

1.
Os senhores me perguntam o que são todas as idiossincrasias dos filósofos?... Por exemplo, sua falta de sentido histórico, seu ódio contra a representação mesma do vir-a-ser, seu egipcismo. Eles acreditam que desistoricizar uma coisa, torná-la uma sub specie aeterni, construir a partir dela uma múmia, é uma forma de honrá-la. Tudo o que os filósofos tiveram nas mãos nos últimos milênios foram múmias conceituais; nada de efetivamente vital veio de suas mãos. Eles matam, eles empalham, quando adoram, esses senhores idólatras de conceitos. Eles trazem um risco de vida para todos, quando adoram. A morte, a mudança, a idade, do mesmo modo que a geração e o crescimento são para eles objeções - e até refutações. O que é não vem-a-ser; o que vem-a-ser não é... Agora, eles acreditam todos, mesmo com desespero, no Ser. No entanto, visto que não conseguem se apoderar deste, eles buscam os fundamentos pelos quais ele se lhes oculta. "É preciso que uma aparência, que um 'engano' aí se imiscua, para que não venhamos a perceber o ser: onde está aquele que nos engana?" "Nós o temos, eles gritam venturosamente, o que nos engana é a sensibilidade! Esses sentidos, que por outro lado são mesmo totalmente imorais, nos enganam quanto ao mundo verdadeiro. Moral: conseguir desembaraçar-se do engano dos sentidos, do vir-a-ser, da história, da mentira. História não é outra coisa senão crença nos sentidos, crença na mentira. Moral: dizer não a tudo o que nos faz crer nos sentidos, a todo o resto da humanidade. Tudo isto é o “povo”. Ser filósofo, ser múmia, apresentar o monótono-teísmo através de uma mímica de coveiros! - E antes de tudo para fora com o corpo, esta idéia fixa dos sentidos digna de compadecimento! Este corpo acometido por todas as falhas da lógica, refutado, até mesmo impossível, apesar de ser suficientemente impertinente para se portar como se fosse efetivo!"...

2.
Eu coloco de lado, com elevado respeito, o nome de Heráclito. Se o povo dos outros filósofos rejeitou o testemunho dos sentidos porque esses indicavam a multiplicidade e a transformação, ele rejeitou seu testemunho porque indicava as coisas como se elas possuíssem unidade e duração. Também Heráclito foi injusto com os sentidos. Estes não mentem nem como crêem os Eleatas, nem como ele o acreditava - eles não mentem de forma alguma. O que nós fazemos com seus testemunhos é que introduz pela primeira vez a mentira. Por exemplo, a mentira da unidade, a mentira da coisidade, da substância, da duração... A "razão" é a causa de falsificarmos o testemunho dos sentidos. Até onde os sentidos indicam o vir-a-ser, o desvanecer, a mudança, eles não mentem... Mas Heráclito sempre terá razão quanto ao fato de que o Ser é uma ficção vazia. O mundo "aparente" é o único: o mundo verdadeiro" é apenas um mundo acrescentado de maneira mendaz...

3.
- E que finos instrumentos de observação temos em nossos sentidos! Este nariz, por exemplo, do qual nenhum filósofo ainda falou com veneração e gratidão. Ele é mesmo em verdade o mais delicado dos instrumentos que se encontram à nossa disposição: ele consegue constatar diferenças mínimas de movimento, que o próprio espectroscópio não constata. Hoje não possuímos ciência senão enquanto nos decidimos por aceitar os sentidos: por torná-los mais incisivos, por armá-los, por fazê-los aprender a pensar até o fim. O resto é algo que nasceu abortado e que ainda-não-é-ciência: Metafísica, Teologia, Psicologia, Teoria do Conhecimento. Ou ciência-formal, teoria dos signos: exatamente como a lógica e aquela lógica aplicada, a matemática. Nelas a efetividade não se apresenta absolutamente como problema nem sequer uma única vez. Elas tampouco se interessam pela colocação da questão acerca de que valor em geral possui uma convenção de signos tal como a lógica. –

4.
A outra idiossincrasia dos filósofos não é menos perigosa: consiste em confundir as coisas últimas com as primeiras. Eles colocam no início enquanto início o que vem no fim (infelizmente! pois não devia vir em momento algum!): os "conceitos mais elevados", os conceitos mais universais e vazios, a derradeira fumaça da realidade que evapora. De novo, uma tal disposição é apenas a expressão de seu modo de venerar: o mais elevado não tem o direito de surgir do mais baixo, não tem de modo algum o direito de ter surgido... Moral: tudo o que é de primeira linha precisa ser causa sui. A proveniência a partir de algo diverso vale como objeção, como colocação em dúvida de seu valor. Todos os valores superiores são de primeira linha, todos os conceitos mais elevados, o ser, o incondicionado, o Bem, o verdadeiro, o perfeito. Nenhum deles pode ter experimentado o vir-a-ser, conseqüentemente todos precisam ser causa sui. Nenhum deles pode porém ser ao mesmo tempo desigual entre si, pode estar em contradição consigo mesmo... É assim que eles descobrem seu conceito estupendo de "Deus"... O derradeiro, o mais tênue, o mais vazio é posto como o primeiro, como causa em si, como ens realissimum... Ah! A humanidade levou realmente a sério as dores cerebrais desses doentes, desses tecelões de teias de aranha! - E ela pagou caro por isso!...

5.
problema do erro e da aparência. Outrora tomava-se a transformação, a mudança, o vir-a-ser em geral como prova da aparência, como um sinal de que algo tinha se apresentado que necessariamente nos conduzia ao erro. Hoje, ao contrário, vemos até que ponto o fato de o preconceito da razão nos obrigar a fixar a unidade, a identidade, a duração, a substância, a causa, a coisidade, o Ser, nos enreda de certa maneira no erro, nos leva necessariamente ao erro. Assim, estamos certos de que, sobre a base de uma verificação rigorosa junto a nós mesmos quanto a esse ponto, o erro está aí. O que se passa aqui, portanto, não é diverso do que acontece com os movimentos dos grandes astros: no que concerte a eles, os nossos olhos são os advogados contínuos do erro; no que concerne ao preconceito da razão, é nossa linguagem. Segundo seu aparecimento, a linguagem pertence ao tempo da forma mais rudimentar de psicologia. Inserimo-nos em um fetichismo grosseiro quando trazemos à consciência os pressupostos fundamentais da linguagem metafísica: ou, em alemão, da razão. Esse fetichismo vê por toda parte agentes e ações; ele crê na vontade enquanto causa em geral; ele crê no "Eu", no Eu enquanto Ser, no Eu enquanto Substância, e projeta essa crença no Eu-substância para todas as coisas. - Só a partir daí a consciência cria então o conceito "coisa"... Por toda parte, o Ser é introduzido através do pensamento, imputado como causa. Somente a partir da concepção do "Eu" segue, enquanto derivado, o conceito "Ser"... No começo encontra-se a grande imposição do erro: a assunção de que a vontade é algo que atua - de que a vontade é uma faculdade... Hoje sabemos que ela é meramente uma palavra... Muito mais tarde, em um mundo milhões de vezes mais esclarecido, veio com espanto à consciência dos filósofos a segurança, a certeza subjetiva na manipulação das categorias da razão. Eles concluíram que elas não poderiam provir da empiria - toda a empiria já se encontra para eles em contradição. De onde elas provém então? - E na índia, tanto quanto na Grécia, cometeu-se o mesmo engano: "é preciso que já tenhamos estado ao menos uma vez em um mundo mais elevado (ao invés de em um muito inferior: o que teria sido a verdade!) e que aí tenhamos nos sentido em casa. É preciso que tenhamos sido divinos, pois temos a razão!" De fato, nada teve até aqui um poder de convencimento mais ingênuo do que o erro do Ser - tal como foi formulado, por exemplo, pelos eleatas: pois ele abarca toda e qualquer palavra, toda e qualquer frase, que pronunciamos! - Também os oponentes dos eleatas sucumbiram à sedução de seu conceito de Ser: Demócrito entre outros, quando inventou seu átomo... A “razão” na linguagem: oh! mas que velha matrona enganadora! Eu temo que não venhamos a nos ver livres de Deus porque ainda acreditamos na gramática...

6.
As pessoas ficarão gratas para comigo, se resumir uma visão tão essencial e tão nova em quatro teses: facilitarei com isso a compreensão e provocarei a contradição.

Primeira Proposição. Os motivos que fizeram com que se designasse "este" mundo como aparente fundamentam muito mais sua realidade. - Um outro tipo de realidade é absolutamente indemonstrável.

Segunda Proposição. As características que foram dadas ao "Ser verdadeiro" das coisas são
características do não-Ser, do Nada. Construiu-se o "mundo verdadeiro" a partir da contradição com o mundo efetivo: de fato, o mundo verdadeiro é um mundo aparente, à medida que não passa de uma ilusão ótica de ordem moral.

Terceira Proposição. Criar a fábula de um mundo "diverso" desse não tem sentido algum se pressupusermos que um instinto de calúnia, de amesquinhamento, de suspeição da vida não exerce poder sobre nós. Neste último caso, nos vingamos da vida com a fantasmagoria de uma "outra" vida, de uma vida "melhor".

Quarta Proposição. Cindir o mundo em um "verdadeiro" e um "aparente", seja do modo cristão, seja do modo kantiano (um cristão pérfido no fim das contas) é apenas uma sugestão da décadence: um sintoma de vida que decai... O fato de o artista avaliar mais elevadamente a aparência do que a realidade não é nenhuma objeção contra essa proposição. Pois "a aparência" significa aqui uma vez mais a realidade; só que sob a forma de uma seleção, de uma intensificação, de uma correção... O artista trágico não é nenhum pessimista. Ele diz justamente sim a tudo que é digno de questão e passível mesmo de produzir terror, ele é dionisíaco...

10/07/2012

Niilismo e Sentido da Vida em Nietzsche

por Julius Evola



Entre os muitos livros escritos sobre Nietzsche, aquele de Robert Reininger, traduzido aqui, merece ser indicado, por duas razões.

A primeira razão é que no âmago de seu livro estão as soluções para os problemas do sentido de existência que Nietzsche tentou dar no sofrimento de seu pensamento, de sua própria existência. O autor afirma corretamente que este problema, e o problema bastante ligado da linha de orientação a ser escolhida para a própria existência, isto é, da ética, são centrais para Nietzsche, já que várias posições teóricas que ele adota, que diferem bastante umas das outras, possuem apenas um caráter subordinado. Elas servem, por assim dizer, experimentalmente; uma vez adotadas, experimentadas, e testadas em relação a esse problema, elas foram progressivamente deixadas para trás - como demonstrado por Reininger - em contínuas "superações", de uma maneira reminiscente a de "uma chama que se move para frente sem deixar nada para trás".

O segundo ponto de interessa, no exame do pensamento nietzscheano a partir do ângulo particular escolhido por Reininger, é a importância dada ao "valor situacional" possuído por uma problemática que não deixou de ser tópica. Reininger diz corretamente que a figura de Nietzsche também possui o valor de um símbolo; sua pessoa encarna também uma causa; "É pela causa do homem moderno que se luta aqui: o homem não mais possui raízes no mundo sagrado da tradição, oscilando entre os picos de civilização e os abismos de barbarismo, buscando por si mesmo; tentando, isto é, criar um senso satisfatóri ode propósito para uma existência completamente abandonada a si mesma". O problema assume forma como o do homem na época do niilismo, do "grau zero de todos os valores", da era na qual "Deus está morto", todos os suportes externos desaparecem, e o "deserto cresce".

Nietzsche havia previsto o "niilismo europeu", e o considerou como a conclusão fatal do pensamento moderno, tendo contribuído para sua finalização, por meio de sua crítica de todos os valores, ideais e ídolos. O ponto fundamental porém é que, para Nietzsche, este não é o ponto final, mas sim algo a ser deixado para trás, uma vez que haja servido a uma função especial e positiva. De fato, Nietzsche considerou a si mesmo como o "primeiro perfeito niilista da Europa, que, porém, mesmo agora já viveu a totalidade do niilismo, até seu fim, deixando-o para trás, fora de si mesmo". A problemática de Nietzsche é portanto aquela da era pós-niilista. Ela aborda o homem que, tendo passado sem medo sobre um abismo, sente que não deve voltar atrás. (Portanto, observamos de passagem, aqueles que, com base em algumas oscilações nas posições de Nietzsche, sempre tão saturadas de um poder emocional intenso e incansável, tem fantasiado sobre uma possível conversão religiosa, ou falando diretamente, cristã, tem estado no caminho completamente equivocado). A função positiva do niilismo reside no teste perigoso da liberação completa do indivíduo; se ele não quiser cair, ele tem que encontrar, em si mesmo apenas, um ponto firme, e se fazer capaz de uma afirmação absoluta. Portanto, o niilismo é "instrumentalizado", à serviço da ascensão de um tipo superior e de uma nova moralidade. Por meio de sua destrutividade espiritual, ele cria uma situação de desafio. E é precisamente aqui que, por meio do duro conflito, um sentido absoluto de existência é buscado e encontrado, e, para além do homem, o "super-homem" é trazido à existência.

Valerá a pena olhar de modo mais aproximado para esta posição, porque a situação suposta, com a lucidez de um visionário, por Nietzsche, não é efetivamente diferente daquela da era atual, dado que a profunda crise existencial, que a caracteriza, ainda não foi superada.

Como Reininger demonstra, o ponto de máximo perigo é ultrapassado com sucesso apenas se a lei que o homem superior intacto estabelece para si mesmo assume o mesmo caráter de incondicionalidade que era derivado previamente de algo externo e transcendente - ainda que se possua liberdade e o "além do bem e do mal" como sua base, e seja expressada não mais como um "tu deves", mas como um "eu quero". Nessa conexão, Reininger não está errado em notar a analogia aparentemente paradoxal entre a ética de Nietzsche aquela de Kant: ambas são "moralidades absolutas". Ademais, o próprio Nietzsche afirmou claramente que ele havia simplesmente desmascarado as realidades decadentes, falsas, enganosas, "demasiado humanas" que se ocultavam por trás de toda moralidade comum de modo a abrir caminho para uma moralidade superior, e opor essa "grande moralidade" à "pequena moralidade" do rebanho, das mentes ansiosas, dependentes de bengalas e fantasmas. Portanto, o "imoralismo" exibido e proclamado por Nietzsche tão frequentemente e com tanto gosto é meramente dirigido a "escandalizar o burguês".

Portanto, se quisermos apreender os aspectos positivos e essenciais da solução de Nietzsche, nós não devemos nos deixar desviar por todas aquelas descrições dela, quase sempre ditadas por um "animus" controverso, no qual apenas o individualismo e uma glorificação da "Vida" como pura imanência parecem proeminentes. Em verdade, o individualismo de Nietzsche é associado com uma estrita disciplina interior, quase com um ascetismo viril, ao invés de religiosamente auto-mortificante. Reininger não é o único autor a ter percebido que, nesse sentido, a afirmação da vida de Nietzsche possui mais características em comum com a "negação" dela de Schopenhauer, do que com uma identificação passiva e gananciosa dela. Não apenas a "vontade-de-vida" é transformada em "vontade-de-poder", mas também, um princípio soberano é sempre postulado que se distancia dos instintos, e que despreza, não apenas o hedonismo, mas também o eudemonismo (a doutrina que busca a felicidade ao invés do mero prazer). E mesmo quando o "dionisianismo" é exaltado, quando é revindicado um direito "para além do bem e do mal", quando a abertura para toda experiência "pagã" interessante é defendida, rejeitando como covardia toda inibição das paixões e impulsos das profundezas, essa dimensão superior é sempre pressuposta. É o pré-requisito essencial para aquele que é capaz de permanecer de pé e criar valores em meio ao "deserto que cresce", já que ele garante que esse deserto não assume controle sobre ele.

Por essa mesma razão, não se deve cometer o erro de ver a glorificação nietzscheana da "Vida" como mero naturalismo. Se, como foi dito, a posição de Nietzsche envolve uma afirmação absoluta, para além do puro ser instintivo, é óbvio que, no conceito de "Vida", mesmo que se queira mantê-lo como central, algo que a transcende é implicitamente introduzido, ou, se você preferir, que, na "Vida", exaltada contra cada incompreendidade "Pós-Vida", deve-se admitir não apenas a própria coisa, mas também um poder que transccende e o domina. Infelizmente, Nietzsche não encontrou seu próprio caminho para a percepção da "transcendência" que se operava nele, para seu reconhecimento e incorporação dela em seu ideal, e essa talvez seja uma causa de sua tragédia e colapso final.



Uma vez que este equívoco duplo frequente, envolvendo o individualismo por um lado, e o conceito de "Vida" por outro, é removido, nós pensamos que pode ser interessante ressaltar, brevemente, a distância que separa a orientação nietzscheana essencial da atmosfera de anarquismo que se prolifera nesses dias em muitas das correntes que fluem entre as estruturas rachadas de um mundo profanado e de uma absurda sociedade "contestada". Na verdade, esse anarquismo, seja individualista ou coletivista, se reduz a uma revolta confusa, irracional e desprovida de centro. A intolerância indiscriminada por todas as disciplinas e laços, ditada somente pelos impulsos da parte instintiva e natural do indivíduo, que não quer reconhecer qualquer coisa para além de si mesmo, é muito claramente a característica predominante nesses movimentos, para além das várias razões ou pretextos dados pelo "sistema" ou pelas estruturas do mundo de tempos recentes. Assim, é tão significativo quanto natural que, nesses movimentos hodiernos, Nietzsche seja absolutamente ignorado, ainda que ele tenha sido o primeiro e maior dos rebeldes. O fato é que, no material humano, não há nada que corresponda ao pensamento de Nietzsche; as verdadeiras afinidades eletivas - plebéias - dessas movimentos são reveladas em suas frequentes colusões com o marxismo e seus subprodutos, em sua fórmula de pacifismo histérico e "integracionismo" absurdo, e em sua consequente colusão com o "terceiro mundo" e as mais baixas profundezas da sociedade e da raça, enquanto que o limite constituído por intelectuais semi-letrados aparece em uma ampliação confusa no valor atribuído a pensadores medíocres tais como Marcuse, que se contenta com suas posições mais ou menos legítimas de rejeição (que não são de importância central para uma verdadeira revolta), não percebendo a vacuidade e a extrema trivialidade utópico-idílica da alternativa que ele propõe, presseguindo como ele faz a partir de uma sociologia aberrante massivamente dependente de Freud. Nietzsche não pertence de modo algum a esse mundo, como é instintivamente aparente. Por causa de seu caráter aristocrático e exclusivista, seu alto nível de engajamento, e sua estatura interior que ele implica, o caminho nietzscheano seria objeto de rejeição específica por todos esses movimentos de "protesto", que bem pode ser definidos em termos de uma "revolução do vácuo", se sua relação exata com a mais séria problemática de uma era niilista de dissolução foi até mesmo percebida.

Para tornar isso mais claro, é necessário explorar ainda mais os termos nos quais a ética de Nietzsche tem tentado se definir.

Se nos confinássemos rigorosamente ao princípio da afirmação pura de uma "Vida livre", é claro que qualquer posição avaliativa seria absurda. Não haveria fundação a partir da qual avaliar, e defender, por exemplo, as formas de uma vida plena e ascendente, desdobrando uma "vontade-de-poder", como contra aquelas da direção oposta, "decadente", e em particular aqueles que, segundo Nietzsche, solaparam civilizações "sadias" e "superiores" por meio de sua moralidade. Elas, afinal, também são "vida", e "para além do bem e do mal", parte de seu fluir, sua criação e destruição, e seria absurdo assumir uma posição, que porém Nietzsche continuamente e veementemente faz, evidentemente com referência a um fator superior.

Se esse fator, ao qual a ética de Nietzsche deve sua marca específica, é buscado, ele aparece condicionado por sua individualidade. O princípio, em primeira instância, é  a afirmação da própria natureza. Essa se torna a única norma, o "imperativo categórico" autônomo: ser si próprio, se tornar si próprio. A concepção "realista" peculiar à última fase do pensamento de Nietzsche pode então agir como fundamento teórico, e, não tivesse ocorrido o trágico obscurecimento de sua mente, ela muito provavelmente teria se desenvolvido em uma eliminação dos aspectos biológicos e "naturalísticos" crus que continuam a arranhá-lo (um defeito de Reininger é o de se apegar em excesso a esses aspectos). Em essência, essa é uma visão de um mundo despido de tudo meramente humano, "idealístico", irreal, e finalístico que foi banhado nele - mas, entender os sentimentos de Nietzsche em relação a isso, o que ele escreveu entre os picos das montanhas, sobre a purea das "forças livres ainda não manchadas pelo espírito", é sugestivo. Como após uma catarse, apenas o "real" ("natureza") permanece, na forma única do "ser" e do "poder".

Considerado esse background, que, de certa forma, confirma os temas niilistas, o indivíduo pode apenas encontrar apoio e raiz naquilo que ele é em sua própria natureza profunda, em seu "ser", sua identidade imutável. Fidelidade a esse ser, afirmação dele, é portanto o que dá conteúdo à moralidade nietzscheana, como sua orientação geral, por assim dizer. É a primeira terra seca, na qual, porém, Nietzsche não se detém, já que, aqui, basicamente, a mesma indeterminação que encontramos em relação a "Vida" aparece novamente. Sob o signo do puro "ser si próprio", deve-se ser capaz de assumir, de querer, de afirmar absolutamente o que se é, mesmo quando, em sua própria natureza, não há nada que corresponde ao ideal positivo do "super-homem" anunciado por nosso filósofo, quando a própria vida e o próprio destino expressam corrupção, perversidade, declínio, ignomínia. É por isso que, ao apegar-se ao princípio supracitado, o único valor ético restante seria o da "autenticidade". Finalmente, teria que ser dito que aquele que, sendo "inferior" por natureza, é ele próprio, possui a coragem de ser absolutamente si próprio, seria superior àquele que gostaria de desenvolver uma "superioridade" que não é enraizada em seu ser autêntico.

Se, mais recentemente, alguns existencialistas tem estado contentes em pôr fim a essas posições, eles foram fatalmente deixados para trás por Nietzsche. Quando ele faz de si mesmo o propagador imperioso de uma nova moralidade, ele indica o que procede de uma natureza particular, uma "natureza nobre", projetando o que ele mesmo sentiu que ele era, ou aspirava ser. Nos deparamos, portanto, com uma moralidade de "orgulho" (oposta, como indicado por Reininger, a uma de amor ou medo) e de "distinção"; com uma reafirmação da característica fundamental da qual nós já façamos, aquela de uma personalidade soberana tão distante do "rebanho" quanto da parte meramente natural de si mesmo. O que Nietzsche nos apresenta, de novo e de novo, é o tipo para o qual é natural ser resoluto, auto-confiante, disposto a assumir cada responsabilidade, direto, resistente a tudo que é grosseiro e "demasiado humano", duro, inflexível certamente (e em relação a si mesmo em primeiro lugar), mas também capaz de um jeito espontâneo da "virtude que dá a si mesma", que brota da atitude interior e da superabundância da mente, e não de um sentimentalismo fraco; alguém que não busca se esquivar de nada que possa nos colocar à prova, que permanece intocado pelos aspectos trágicos, escuros e absurdos de sua existência, graças à lei positiva e independente que lhe dita seu ser.

Como é superabundantemente claro, a ética nietzcheana pós-niilista de auto-afirmação pura e fidelidade a si próprio leva diretamente ou indiretamente a um ideal desse tipo. A partir da lei genética de "ser si próprio", é essa lei precisa que portanto se diferencia em Nietzsche, e dá a marca específica a sua moralidade. É nesses termos - como notado por Reininger - que o tipo do "super-homem positivo" deve ser compreendido, não levando seriamente as referências polêmicas sobre certas figuras históricas, ou a famosa "besta loira", deixando de lado a exaltação da força pura e da vontade de poder amorfa (um poder sobre o qual se deve perguntar: o que fazer com ele? - como Zaratustra pergunta a alguém que aspira se libertar de todos os laços: livre, para que?), deixando de lado também o super-homem barroco do estilo d'Annunziano, os resultados fomentados da pomposidade de um suposto Herrenvolk, factualmente distante de qualquer virtude aristocrática, e as fraquezas de um incompreendido racismo biologicista.

Se nós deixarmos de lado as sobras e restos do "Nietzsche menos que óptimo" - o que muitas vezes, infelizmente, despertou a maior ressonância - é nos termos acima descritos que aparece o "super-homem positivo", o homem que permanece de pe´, mesmo, e acima de tudo, em um mundo niilista, devastado, absurdo, sem deuses. O "super-homem" aparece portanto como um ideal individual de elite, não como um estado humano "evolucionário" hipotético, geral, futuro, a ser tornado quase objeto de uma cultura programada, como foi sugerido por outro dos delírios de nosso filósofo, em uma certa fase de seu pensamento.

Como o leitor de seu livro verá, Reininger traz esses conteúdos à luz ao separar o essencial do acessório, través dos contorcionismos do pensamento de Nietzsche, mostrando assim a efetiva contribuição positiva que o "imoralista" Nietzsche deu para a ética. De nossa parte, nós estamos convencidos de que o que Nietzsche tem para oferecer hoje nessa conexão não foi de modo algum desacreditado na luta por um sentido de existência, desde que se evite aquele colapso, aquela "revolução do vácuo", e aquele anarquismo plebeu, inferior, o qual, como foi mencionado, a profunda crise do mundo moderno gerou em tal quantidade. Em realidade, hoje, dada uma discriminação e adaptação adequadas, poucas éticas oferecem tantas idéiasi mportantes para os estudantes da problemática pós-niilista, que rejeitou qualquer caminho à retaguarda, e encara o teste de uma nova e perigosa liberdade. Pode-se até mesmo considerá-la como pedra de toque para a própria natureza, para a própria vocação autêntica.

Será evidente quanto respeito, compreensão, e sentido de medida o autor deste livro trouxe À consideração da pessoa e ao pensamento de Nietzsche. Possuindo uma posição como professor de filosofia na Universidade de Viena, sua exposição é mais próxima a um estudo filosófico do que ao estilo atual de ensaio tópico. Nós reduzimos em nossa edição a dificuldade que o uso de certos termos filosóficos podem constituir para uma certa categoria de leitores, explicando tais termos ou pelo uso de equivalentes.

27/07/2011

"Somos todos iguais!"

"A primeira vez que estive em casa dos homens, pratiquei a tolice que cometem todos os solitários, a grande tolice de me instalar na praça pública.
Dirigindo-me a todos, não me dirigia a ninguém. (...) Mas na manhã seguinte vi brilhar uma verdade nova; aprendi a dizer: 'que me importam a praça pública e a populaça e a algazarra festiva e as orelhas compridas da populaça!'.
Homens superiores, aprendei comigo esta verdade: na praça pública ninguém acredita nos Homens superiores. E se quereis falar na praça pública, fazei-o; mas a populaça dirá piscando os olhos: 'Somos todos iguais.''Homens superiores — assim fala a populaça piscando os olhos —, não há Homens superiores, somos todos iguais. O Homem é apenas um homem — diante de Deus somos todos iguais!'"
(Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)


13/06/2011

Não permanecer preso...

41. É preciso dar a si mesmo provas de que se está destinado à independência e ao mando; e isso no tempo oportuno. Não se deve evitar suas provas, ainda que elas talvez sejam o jogo mais perigoso que se possa jogar, e apenas provas, por fim, das quais sejamos as únicas testemunhas, sem a presença de qualquer outro juiz. Não permanecer preso a uma pessoa: ainda que seja a mais amada – toda pessoa é uma prisão, e também um recanto. Não permanecer preso a uma pátria: ainda que seja a mais sofredora e mais necessitada – de uma pátria vitoriosa, já é menos difícil desligar seu coração. Não permanecer preso a uma compaixão: ainda que seja com relação a homens superiores, cujo raro martírio e desamparo um acaso nos permitiu vislumbrar. Não permanecer preso a uma ciência: ainda que ela atraia alguém com as descobertas mais preciosas, que parecem reservadas justamente a nós. Não permanecer preso a sua própria libertação, àquela lasciva lonjura e país longínquo do pássaro, que voa sempre mais longe nas alturas para ver sempre mais abaixo de si – o perigo daquele que voa. Não permanecer presos às nossas próprias virtudes e nos tornarmos, como um todo, vítimas de alguma particularidade nossa, por exemplo, de nossa “hospitalidade”: o que é o perigo dos perigos para almas superiormente constituídas e ricas, que lidam consigo mesmas dispendiosamente, quase com indiferença, e que levam a virtude da liberalidade tão longe até que chegue a se tornar um vício. É preciso saber preservar-se: a prova mais forte de independência.


Trecho de: Friedrich Nietzche - Além do Bem e do Mal

08/06/2011

Espíritos Livres - Novos Filósofos

44. Depois de tudo isso, ainda preciso dizer expressamente que esses filósofos do futuro também serão espíritos livres, muito livres – tão certo quanto eles também não serão meramente espíritos livres, mas algo ainda mais, mais elevado, maior e fundamentalmente distinto, que não quer ser mal-interpretado e confundido com outra coisa? Mas, ao dizer isso , sinto quase tanto em relação a eles quanto em relação a nós, que somos seus arautos e precursores, nós, espíritos livres! – sinto a obrigação de varrer para longe de nós todo um velho e estúpido preconceito e mal-entendido que turvou como um nevoeiro o conceito de “espírito livre” por tempo demasiado. Em todos os países da Europa, assim como na América, há quem hoje cometa abusos com esse nome, uma espécie de espíritos muito estreita, aprisionada, agrilhoada, que quer mais ou menos o contrário daquilo que se encontra em nossos propósitos e instintos – para não falar que, em vista desses novos filósofos vindouros, eles devem ser antes de tudo janelas fechadas e portas aferrolhadas. Eles pertencem, para dizê-lo numa só e horrenda palavra, aos niveladores, esses falsamente denominados “espíritos livres” – como eloqüentes e escrevinhadores escravos do gosto democrático e de suas “idéias modernas”: todos eles homens sem solidão, sem solidão própria, rapazes toscos e bem-comportados, aos quais não se deve negar coragem nem costumes respeitáveis, só que eles são acanhada e ridiculamente superficiais, sobretudo na sua inclinação fundamental de ver nas formas da sociedade antiga até agora existente mais ou menos a causa de toda miséria e fracasso humanos: no que, felizmente, a verdade vem a estar de pernas para o ar! O que gostariam de obter com todas as forças é a felicidade campestre do rebanho, universal, verde, com segurança, inofensividade, bem-estar, facilitação da vida para todo mundo; as duas cantilenas e doutrinas mais cantadas chamam-se “igualdade de direitos” e “compaixão para com tudo que sofre” – e o próprio sofrimento é tomado por eles como algo que se deve eliminar. Nós, os contrários, que abrimos um olho e uma consciência para a questão de saber onde e como até agora a planta “homem” cresceu nas alturas com mais vigor, somos da opinião de que isso ocorreu toda vez sob as condições contrárias, que para isso a periculosidade de sua situação teve antes de crescer até a exorbitância, sua força inventiva e dissimuladora (seu “espírito” – ), de desenvolver-se sob prolongada pressão e coação até tornar-se algo sutil ou ousado, sua vontade de vida, de elevar-se até chegar a ser absoluta vontade de poder: – somos da opinião de que a dureza, a violência, a escravidão, o perigo na rua e no coração, o ocultamento, o estoicismo, a arte de tentador e a diabolice de toda espécie, de que tudo que no homem é mau, terrível, tirânico, rapinante e ofídico serve tão bem para a elevação da espécie “homem” quanto o seu contrário: – nós até mesmo dizemos o bastante quando apenas dizemos isso, e nos encontramos, em todo caso, com o nosso falar e calar nesse aspecto, na outra ponta de toda a moderna ideologia e aspiração de rebanhos: como seus antípodas, talvez? Será de admirar que nós, “espíritos livres”, não somos exatamente os espíritos mais comunicativos? Que nós não desejamos, em cada aspecto, revelar do que um espírito que pode se libertar e para onde ele talvez seja então impelido? E quanto à importância da perigosa fórmula “além do bem e do mal”, com a qual, pelo menos, nos resguardamos de ser confundidos com outros: nós somos algo diverso dos “libres-penseurs”, “liberi pensatori”, “livres pensadores” ou seja lá como for que todos esses honrados porta-vozes das “idéias modernas” gostam de se denominar. Estivemos em casa em muitos países do espírito, pelo menos na condição de hóspedes; esgueirando- nos sempre outra vez do recanto abafado e agradável em que a afeição e desafeição , a juventude, a origem, o acaso de pessoas e livros, ou mesmo a fadiga das andanças pareciam nos cativar ; cheios de maldade para com os chamarizes da dependência que se encontram escondidos em honras, ou dinheiro, ou cargos, ou entusiasmos dos sentidos; gratos inclusive à privação e às vicissitudes da doença, pois sempre nos livraram de alguma regra e de seu “preconceito”, gratos para com deus, diabo, cordeiro, e verme entre nós, curiosos que chegam ao ponto do vício, investigadores que chegam ao ponto da crueldade, com dedos que não hesitam diante do inapreensível, com dentes e estômagos para o mais indigesto, prontos para todo ofício que exija agudeza e sentidos aguçados, prontos para a ousadia, graças a um excesso de “livre-arbítrio” com almas de fachada e de fundos, às quais ninguém vê facilmente seus propósitos últimos , com fachadas e fundos que nenhum pé deveria percorrer até o fim, ocultos sob o manto da luz, conquistadores , ainda que pareçamos, ordenadores e colecionadores desde manhã até a noite, avarentos de nossa riqueza e de nossas gavetas abarrotadas, econômicos no aprender e no esquecer, inventivos em esquemas, às vezes orgulhosos de tábuas de categorias, às vezes pedantes, às vezes corujas do trabalho mesmo em dia claro; e até, caso seja necessário inclusive espantalhos – e hoje é necessário: ou seja, na medida em que somos os amigos natos , jurados, ciumentos da solidão, a nossa própria, mais profunda, mais noturna, mais meridiana solidão: – semelhante espécie de homem somos nós, nós, espíritos livres! E talvez vós também sejais algo disso, vós, vindouros? Vós, novos filófosos?


Trecho de: Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal

11/02/2011

Cansaço do Homem

"No fundo nos sobrepomos a todo o demais, posto que nascemos para uma existência subterrânea e combativa; uma e outra vez saímos à luz, uma e outra vez experimentamos a hora áurea do triunfo - e nesse momento aparecemos tal como nascemos, inquebrantáveis, tensos, dispostos a conquistar algo novo, algo mais difícil, algo mais distante todavia, como um arco a quem as privações só conseguem tornar mais rígido. Porém de vez em quanto - e supondo que existam protetores celestiais, situados mais além do bem e do mal - condedam-me um olhar, um único olhar tão somente a algo perfeito, a algo totalmente realizado, feliz, poderoso, vitorioso, no qual todavia haja algo a temer! Um olhar a um homem que justifique ao homem, um olhar a um caso afortunado que complemente e redima ao homem, por razão do qual me seja lícito conservar a fé no homem!... Pois assim estão as coisas: o encolhimento e a nivelação do homem encerram nosso máximo perigo, já que essa visão cansa... Hoje não vemos nada que aspire a ser maior, descemos cada vez mais baixo, mais baixo, na direção de algo débil, mais manso, mais prudente, mais plácido, mais medíocre, mais indiferente, mais cristão - o homem, não há dúvida, se torna cada vez 'melhor'... Justo nisso reside a fatalidade da modernidade, ao perder o medo ao homem perdemos também o amor a ele, o respeito por ele, a esperança nele, mais ainda, a vontade dele. Atualmente a visão do homem cansa - quê é hoje o niilismo senão isso?... Estamos cansados do homem."
(Friedrich Nietzsche, Trecho de "Genealogia da Moral")

07/02/2011

Nós, os Ricos de Espírito

"Nós, os ricos de Espírito, vivemos nossa atualidade porque estamos escravizados à época e às suas pequenas e grandes misérias...faremos o que sempre temos feito: nos disfarçamos de profundidade, para assim cavalgar a onda dos tempos e surgir novamente limpos, porque somente a verdade sobrevive à profundidade."
(Friedrich Nietzsche)

08/01/2011

Somente o mais nobre é de máxima dureza

"'Por que tão duro? - disse certa vez o carvão ao diamante - acaso não somos parentes próximos?'

Por que tão brandos, irmãos? Assim eu vos pergunto - acaso não sois meus irmãos? Por que tão brandos e acomodados? Por que há tanta negação e retratação em vosso coração? Por que igualmente tão pouco destino em vosso olhar? E se não estáis dispostos a ser destino e a ser inexoráveis, como um dia poderíeis chegar a triunfar comigo?

E se vossa dureza não quer fulminar, cortar e desfazer, como poderíeis um dia criar comigo?

Pois todos os criadores são duros. E vos há de parecer gozo inefável por vossa mão sobre os milênios como se fossem cera. Inscrever na vontade de milênios qual bronze. Somente o mais nobre é de máxima dureza.

Tornai-vos duros! Eis aqui a nova tábua irmãos, que coloco sobre vós..."
(Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)

01/11/2010

Conservação do que é Enfermo

"Trabalhar com uma consciência tão radicalmente tranqüila na conservação de tudo que é enfermo e doente, quer dizer, trabalhar real e verdadeiramente no pioramento da raça européia...

Tais são os princípios que têm dominado até agora, com sua 'igualdade perante Deus', o destino da Europa, até que acabou formando-se uma espécie diminuída, quase ridícula, um animal de rebanho, um ser dócil, enfermiço, medíocre, o europeu de hoje".
(Friedrich Nietzsche)

30/09/2010

A Transvaloração dos Impotentes

"Já se percebe com que facilidade o modo de valoração sacerdotal pode derivar daquele cavalheiresco-aristocrático e depois desenvolver-se em seu oposto; em especial, isso ocorre quando a casta dos sacerdotes e a dos guerreiros se confrontam ciumentamente, e não entram em acordo quanto ao vencedor. Os juízos de valor cavalheiresco-aristocráticos tem como pressuposto uma constituição física poderosa, uma saúde florescente, rica, até mesmo transbordante, juntamente com aquilo que serve a sua conservação: guerra, aventura, caça, dança, torneios e tudo o que envolve uma atividade robusta, livre, contente.

O modo de valoração nobre-sacerdotal - já o vismo - tem outros pressupostos: as quais criam para ele uma situação suficientemente difícil no que concerne a guerra. Os sacerdotes são, como sabemos, os mais terríveis inimigos - por quê? Porque são os mais impotentes. Na sua impotência, o ódio toma proporções monstruosas e sinistras, torna-se a coisa mais espiritual e venenosa. Na história universal, os grandes odiadores sempre foram sacerdotes, também os mais ricos de espírito - comparado ao espírito da vingança sacerdotal, todo espírito restante empalidece.

A história humana seria uma tolice, sem o espírito que os impotentes lhe trouxeram - tomemos logo o exemplo maior. Nada do que na terra se fez contra "os nobres", "os poderosos", "os senhores", "os donos do poder", é remotamente comparável ao que os judeus contra eles fizeram; os judeus, aquele povo de sacerdotes que soube desforrar-se de seus inimigos e conquistadores apenas através de uma radical transvaloração dos valores deles, ou seja, por um ato da mais espiritual vingança. Assim convinha a um povo sacerdotal, o povo da mais entrenhada sede de vingança sacerdotal. Foram os judeus que, com apavorante coerência, ousaram inverter a equação de valores aristocrática (bom = nobre = poderoso = belo = feliz = caro aos Deuses), e com unhas e dentes (os dentes do ódio mais profundo, o ódio impotente) se apegaram a esta inversão, a saber, "os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem-aventurança - mas vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda eternidade os maus, os crueis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também eternamente os desventurados, malditos e amaldiçoados!..."

Sabe-se quem colhe a herança dessa transvaloração judaica... A propósito da tremenda, desmesuradamente fatídica iniciativa que ofereceram os judeus, com essa mais radical das declarações de guerra, recordo a conclusão a que cheguei num outro momento (Além do Bem e do Mal, §195) - de que com os judeus principia a revolta dos escravos na moral: aquela rebelião que tem atrás de si dois mil anos de história, e que hoje perdemos de vista, porque foi vitoriosa..."
(Friedrich Nietzsche, Genealogia da Moral, Ensaio I, Capítulo 7)

26/09/2010

A Decadência dos Instintos

"O todo do Ocidente não mais possui os instintos a partir dos quais crescem as instituições, a partir dos quais cresce um futuro: talvez nada antagonize mais seu 'espírito moderno' do que esses instintos. Vive-se para o dia, vive-se muito rápido, vive-se muito irresponsavelmente: precisamente isso é o que é chamado 'liberdade'. Aquilo que faz com que uma instituição seja uma instituição é desprezado, odiado, repudiado: teme-se o perigo de uma nova escravidão no momento em que a palavra 'Autoridade' é até mesmo falada alto. Isso é o quão longe a decadência avançou nos instintos valorativos de nossos políticos, de nossos partidos políticos: instintivamente, eles preferem o que desintegra, o que acelera o fim."
(Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos)

18/09/2010

A Humanidade do Presente e do Futuro

"Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem se tornará incapaz de gerar uma estrela dançante. Ai! o que se aproxima, é a época do homem mais desprezível, do que nem poderá desprezar a si mesmo.
Olhai! Vou mostrar-lhes o Último Homem:
'O que é amar? O que é criar? O que é desejar? O que é uma estrela?' Assim falará o Último Homem, piscando o olho.
A terra ter-se-á então tornado exígua, nela se verá saltitar o Último Homem, que apequena todas as coisas. A sua espécie é tão indestrutível como a do pulgão; o Último Homem será o que viver mais tempo.
'Descobrimos a felicidade', dirão os Últimos Homens, piscando o olho.
Terão abandonado as regiões onde a vida é dura; pois precisam de calor. Ainda amarão o próximo e se roçarão por ele, porque é necessário calor.
A doença, a desconfiança hão-de parecer-lhe outros tantos pecados; é só preciso ver onde se põem os pés! Insensato é aquele que ainda tropeça nas pedras e nos homens!
Algum veneno de vez em quando coisa que proporciona sonhos agradáveis. E muito veneno para acabar, a fim de ter uma morte agradável.
Trabalhar-se-á ainda, porque o trabalho distrai. Mas ter-se-á cuidado para que esta distração nunca se torne cansativa.
Uma pessoa deixará de se tornar rica ou pobre, são duas coisas demasiado penosas. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas demasiado penosas.
Nenhum pastor e um só rebanho! Todos quererão a mesma coisa, todos serão iguais; quem quer que tiver um sentimento diferente entrará voluntariamente no manicómio.
'Noutro tempo toda a gente era doida', dirão os mais sagazes, piscando o olho.
Ser-se-á sagaz, saber-se-á tudo o que se passou antigamente; desta maneira se terá com que zombar sem cessar. Ainda haverá querelas, mas depressa surgirá a reconciliação, com medo de estragar a digestão.
Ter-se-á um pouquinho de prazer durante o dia e um pouquinho de prazer durante a noite; mas reverenciar-se-á a saúde.
'Descobrimos a felicidade', dirão os Últimos Homens, piscando o olho."
(Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)

14/09/2010

Força e Liberdade

"Qual é o critério de liberdade nos indivíduos e nos povos? A resistência que é preciso superar, o esforço que demanda o manter-se acima. (...) Nenhum povo importante que chegou a ser um povo de valia, chegou a sê-lo sob instituições liberais; só um grave perigo fez dele algo digno de veneração: o perigo nos dá a noção de nossos recursos, nossas virtudes, nossas armas, nosso espírito, nos obriga, em suma, a sermos fortes...Primeiro Axioma: há que estar obrigado a ser forte ou senão, não se é nunca. Esses grandes semeadores do homem forte, do tipo humano mais forte que já se deu na história, as comunidades aristocráticas ao estilo de Roma e Veneza, entendiam a liberdade exatamente no sentido em que eu entendo a palavra 'liberdade': como algo que se tem e não se tem; que se quer, que se conquista..."
(Friedrich Nietzsche)

11/09/2010

Sejam nossas virtudes, virtudes do prejuízo!

As virtudes do prejuízo.

"A sociedade não reconhece pois senão as virtudes que lhe são proveitosas ou que ao menos não lhe sejam nocivas (as que podem ser exercidas sem dano ou trazendo benefícios, por ex. a justiça). Estas virtudes do prejuízo não podem pois ter nascido na sociedade, visto que, ainda hoje, no seio do menor agrupamento social que se constituia a oposição se eleva contra ela. São estas, portanto, vitudes de quem têm curso entre os homens que não são iguais, virtudes inventadas pelo indivíduo que se sente superior, virtudes próprias ao dominador com este pensamento ultimo: "Eu sou demais poderoso para aceitar um prejuízo visivel, e nisto mesmo tenho uma prova do meu poder": - Por consequencia, uma virtude vizinha à altivez."

Nietzsche, em "O viandante e sua sombra".

"E o que deve ser criador no bem e no mal deve começar por ser destruidor e quebrar os valores."


"Aniquile-se tudo quanto pode ser aniquilado pelas nossas verdades! Há ainda muitas casas a edificar!”
Assim falava Zaratustra.

Sejam nossas virtudes, virtudes do prejuízo!

Fidalgo