segunda-feira, 28 de março de 2016

Aleksandr Dugin - A Relevância do Marxismo para a Teoria do Mundo Multipolar

por Aleksandr Dugin



(Trecho do livro Teoria do Mundo Multipolar)

O marxismo e o neo-marxismo nas Relações Internacionais (RI) são extremamente úteis à Teoria do Mundo Multipolar (TMM) como arsenal doutrinário crítico do universalismo da civilização ocidental e da sua pretensão a superioridade moral baseada nos fatores de sua superioridade financeira, material e tecnológica. A civilização ocidental da era moderna optou pela via capitalista e, assim, limitou seus horizontes. Não obstante, a encarnação material do sucesso em um alto nível de desenvolvimento e de eficácia econômica das ações dos mercados e, mais recentemente, na prioridade dada ao desenvolvimento do setor financeiro, podem ser decisivos somente se aceitarmos o padrão capitalista, não só a nível material, mas também no nível dos valores sociais, culturais e espirituais. Foi o que demonstrou perfeitamente Max Weber, que identificou o capitalismo como a expressão da ética protestante, a partir do qual a recompensa do homem no decorrer da vida, por meio do sucesso e da riqueza, é um reflexo direto de sua dignidade moral. A equiparação da riqueza à moral, característica da sociedade ocidental da era moderna, possui raízes religiosas e culturais. O Capital e o capitalismo tornaram-se não só o critério do poder, mas também o critério da verdade.

O marxismo desafia semelhante abordagem e, embora reconheça a influência do Capital, rejeita sua pretensa superioridade moral. A ética marxista organiza-se de modo oposto: o Bem se encontra na classe trabalhadora (proletariado) que, sob o capitalismo, encontra-se escravizada pela parasítica classe burguesa. No marxismo, rico é sinônimo de Mal. Consequentemente, o desenvolvimento material, e a concentração de Capital em determinado país, não querem dizer nada, podendo demonstrar até mesmo que um tal pais configura-se como uma das sociedades mais injustas, más, devendo, como tais, serem rejeitadas.

Na análise das RI, tal ética marxista leva à apreciação moral do “abastado Norte” e do sistema capitalista como uma expressão histórica, geográfica e social do mal mundial. O Ocidente não só não se manifesta como um modelo a seguir, nem na Terra Prometida – na qual se encontraria a solução para todos os problemas –, como também se torna a cidadela da exploração, do engano, da falsidade, da violência e da injustiça.

Sem concordarmos com todas as conclusões dogmáticas desta abordagem acerca da revolução mundial e do papel messiânico do proletariado, a TMM aceita a abordagem marxista no que diz respeito a sua apreciação da natureza e da origem do Ocidente capitalista, denunciando-o como um modelo de exploração assimétrica que impõe os seus critérios civilizacionais (capitalismo, livre mercado, demanda pelo lucro, materialismo, consumismo, etc.) a todos os povos e sociedades. O capitalismo é o aspecto econômico-material do universalismo e do colonialismo ocidental. Ao aceitarmos a lógica do Capital, mais cedo ou mais tarde seremos obrigados a aceitar e a reconhecer o Ocidente e a sua civilização como guias, pontos de orientação, modelos exemplares e horizontes de desenvolvimento: o que está em completa contradição com a ideia de uma ordem mundial multipolar e da valorização da pluralidade civilizacional. Algumas civilizações podem aceitar a prosperidade material e a forma capitalista de atividade econômica como aceitáveis e desejáveis, mas outras podem ser que não. O capitalismo não é obrigatório e não é também a única forma de organização econômica. Pode ser aceito ou rejeitado. A equiparação do bem-estar material à dignidade moral pode ser justificada por uns e rejeitada por outros. Portanto, para a TMM, o vetor anticapitalista do marxismo, e do neo-marxismo nas RI, bem como a denúncia característica do modelo de desenvolvimento dependente, são componentes que podem ser bem aplicados. O mesmo vale para a crítica do “abastado Norte” e ao apelo à oposição ao sistema mundial. Sem esta resistência e oposição será impossível o advento do mundo multipolar. 

A principal diferença entre a TMM e a teoria neo-marxista do sistema mundial (bem como em relação aos projetos de Negri, Hardt e de outros altermundialistas) consiste no fato da TMM não reconhecer, em absoluto, o fatalismo histórico das teorias marxistas, que insistem na premissa do capitalismo como uma fase generalizadamente obrigatória e universal do desenvolvimento histórico, a qual será seguida da fase igualmente fatal e irrevogável da revolução proletária. Para a TMM, o capitalismo é uma forma empiricamente fixa de desenvolvimento da civilização ocidental-européia, enraizada na cultura desta e difundida quase em escala planetária. Mas uma análise profunda do capitalismo nas sociedades não-ocidentais demonstra, com certa consistência, a sua natureza simuladora e superficial, dotada de propriedades semânticas muito distintas e representando sempre algo atípico e diferente da formatação socioeconômica que prevalece no Ocidente moderno. O capitalismo surgiu no Ocidente e pode tanto continuar a evoluir como perecer. Mas a sua expansão para além do mundo ocidental, embora condicionada pela tendência expansionista do Capital, não tem razão de ser nas sociedades não-ocidentais onde ele projeta-se. Cada civilização possui sua própria noção de tempo, história, economia e lógica de desenvolvimento material. O capitalismo invade as civilizações não-ocidentais como perpetuador das práticas coloniais e, como tal, pode e deve ser rejeitado, ser alvo de resistência, como se se tratasse de uma agressão por parte de uma cultura e de uma civilização alienígena. Assim, a TMM insiste na luta contra o “Norte rico”, que é travada atualmente em todos os pontos do mapa da humanidade e, principalmente, no “Segundo Mundo” (a semi-periferia, nas palavras de I. Wallerstein). O mundo multipolar não deve surgir depois do liberalismo (como acreditam os neo-marxistas), mas ao invés do liberalismo. Assim sendo, a luta contra o liberalismo não deve se dar em nome daquilo que irá substituí-lo depois que este se instalar em escala planetária, mas já, de modo a não permitir que ele alguma vez se estabeleça em escala mundial. Para as civilizações não-ocidentais é desnecessário passar pela fase do desenvolvimento capitalista. Tampouco é necessário mobilizar suas populações em prol da revolução proletária. As elites e as massas dos países da “semi-periferia”, a despeito dos neo-marxistas, não estão de todo obrigados a dividirem-se socialmente e a integrarem-se nas duas classes internacionais – a burguesia mundial e o proletariado mundial –, perdendo, assim, todas as suas características civilizacionais. Pelo contrário, as elites e as massas pertencentes a uma mesma civilização devem reconhecer a sua identidade comum, cujo significado deve pesar mais que o da identidade de classe. Se em relação à solidariedade internacional da burguesia e, em menor extensão, do proletariado, os marxistas possuem alguma razão (pois se tratam de Estados capitalistas e burgueses nos quais, de fato, domina a lógica do Capital), no caso das civilizações não-ocidentais as coisas não podem ser colocadas desta forma. O topo e a base no mundo islâmico, por exemplo, estão muito mais cientes da sua cultura islâmica do que seus equivalentes classistas em outras civilizações – em particular no Ocidente. E este sentimento de comunhão, de unidade, não deve ser corroído e nem abalado (seja pelo cosmopolitismo liberal, pelo neo-marxismo ou pelo anarquismo de tipo internacionalista), devendo, ao contrário, ser fortalecido, aprofundado e preservado.

O mundo multipolar, principalmente em seu estágio contra-hegemônico inicial, deve ter como base a solidariedade entre todas as civilizações na sua oposição às práticas colonialistas e globalistas do “Norte rico”. Tal luta deve unir as elites e as massas dentro das suas civilizações, pois o critério das classes (a elite como burguesia e as massas como o proletariado) é uma projeção do padrão ocidental. Nas civilizações não-ocidentais existem, de modo empírico e evidente, estratos sociais mais altos e mais baixos, mas a sua semântica sociológica e cultural difere do modelo redutor no qual o único critério decisivo é o da posse dos meios de produção. A TMM apela à solidariedade das elites e das massas na construção dos pólos do mundo multipolar e na organização dos grandes espaços, de acordo com os caracteres culturais e históricos de cada sociedade.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Claudio Mutti - A Geopolítica das Religiões

por Claudio Mutti



A geopolítica como um método de investigação não se limita a trabalhar nas relações internacionais e nos fatos militares. Entre os fatores que se busca identificar e entender, há que incluir o fator religioso.

Se o século XIX e outra vez na primeira metade do século XX a intelectualidade secular do Ocidente havia profetizado o desaparecimento progressivo e inevitável da religião como um resultado final da modernização econômica e social, a segunda metade do século XX foi a encarregada de mostrar a falta de fundamento de tal expectativa. De fato, apesar de que a modernização alcançou dimensões mundiais, desde há várias décadas as diferentes áreas do planeta se veem afetadas por um fenômeno de renascimento religioso, enfaticamente definido por Gilles Kepel como "a vingança de Deus" (1), que levou a alguns observadores a falar inclusive de "dessecularização do mundo". (2)

As implicações geopolíticas desse fenômeno se fazem evidentes quando se considera que a afiliação religiosa em geral contribui decisivamente para fortalecer o senso de identidade de uma nação ou comunidade de nações, ou inclusive, em alguns casos, para voltar a configurar a identidade. No mundo muçulmano, por exemplo, não raro se manifesta a tendência "em tempos de emergência, a individuar a própria fonte principal de identidade e de lealdade na comunidade religiosa, quer dizer, em uma nova identidade não definida por critérios étnicos ou geográficos, mas pelo Islã" (3). Na Índia, "uma nova idenidade hindu se está estabelecendo como resposta às tensões criadas pela modernização e pela alienação" (4). Na Rússia, o renascimento da religião é o produto de um "ardente desejo de encontrar uma identidade que só pode ser proporcionada pela Igreja Ortodoxa, a única que ainda não rompeu relações com o passado antigo da nação" (5).

Assim que, há vinte anos, os estudiosos da geopolítica tinham que tomar nota do aumento de peso geopolítico das religiões, que de certo modo havia substituído às ideologias do mundo bipolar. As religiões, segundo escreveu o general Jean, "desempenham um papel em alguns casos de identificação unificadora e coletiva, no fortalecimento do nacional, como na Polônia, mas em outros de divisão, como na Bósnia ou na Tchecoslováquia, e como poderia ocorrer na Ucrânia e no próprio Ocidente entre os protestantes e os países católicos, entre os dois últimos e a ortodoxia, assim como entre o cristianismo e o islã, entre o islã e o hinduísmo, e assim sucessivamente" (6). No que concerne, em particular, aos países católicos como Itália, o general se referiu à importância da doutrina social da Igreja em relação a um fenômeno como a política de imigração e a própria posição política da Itália no Ocidente.

O fator religioso volta a confirmar seu aspecto de parâmetro básico da geopolítica, quando nos fixamos na "paisagem" confessional que corresponde às zonas de crise e conflito, como Ucrânia, Iraque e Palestina.

Ucrânia é parte de uma área pluriconfessional, habitada principalmente por pessoas de religião ortodoxa e católica; seu território é atravessado pelos mesmos limites que separam o catolicismo da ortodoxia, de modo que a parte ocidental de confissão católica grega ("uniatas") olha para a Europa, enquanto que a oriental, ortodoxa, se dirige à Rússia. Trata-se assim de um típico "país dividido", se queremos reestabelecer a categoria estabelecida pelo teórico do "choque de civilizações", que insistiu no "cisma profundo que divide a cultura da Ucrânia oriental ortodoxa e a Ucrânia ocidental uniata" (7) identifica a bipartição cultural da Ucrânia com sua divergência confessional. "A linha divisória entre a civilização ocidental e a civilização ortodoxa, escreve Huntington, de fato, atravessa o coração do país (...) Uma grande parte de sua população adere à Igreja uniata, que segue o rito ortodoxo mas reconhece a autoridade do Papa (...) A população no leste da Ucrânia, ao contrário, sempre teve um forte predomínio da religião ortodoxa e do idioma russo" (8).

Inclusive no Iraque, a situação de instabilidade política se relaciona com a distribuição da população em diferentes grupos étnico-religiosos. Depois da destruição do Estado ba'athista, a divisão em três entidades separadas (xiitas, sunitas e curdos) foi sancionada por uma Constituição que estabelece uma forma federal, o que debilita o governo central, reservando a ele somente as decisões relativas à defesa e política externa. Em uma situação desse tipo, não foi difícil para os bandos terroristas apoiados pelos EUA e seus aliados no Golfo estabelecer nos territórios sunitas do Iraque um suposto "califado". Mas inclusive este fenômeno grotesco e de caricatura é objeto da "geopolítica das religiões", porque o autoproclamado "califado" do autoproclamado "Estado Islâmico no Iraque e Síria" (ISIS) está inspirado em uma ideologia sectária que tem sua origem na matriz wahhabi-salafista, da qual já nos ocupamos em outro número da "Eurasia" (9).

No que concerne a Palestina, a verdadeira natureza do regime sionista não pode ser resolvida simplesmente nos termos de uma usurpação territorial inspirada em uma ideologia nacionalista, nem pode se reduzir a uma tentativa criminosa de cometer a limpeza étnica da Palestina através da destruição e expulsão da população nativa. Em realidade, quanto ao projeto sionista é o produto de um pensamento judaico laico e secular, não obstante suas raízes se encontrem em um messianismo desviado, de maneira que é lícito assumir "que o Estado judeu não é um Estado nacionalista 'que usa a religião' para lograr seus próprios desígnios, mas que, ao contrário, trata-se de um Estado aparentemente laico utilizado pela contrainiciação para a realização de seus planos: uma falsificação da teocracia judaica e uma restauração sacrílega da soberania espiritual e temporal do povo judeu (10)." Uma perspectiva tal sugere que a resistência palestina não esgota seu significado na dimensão de uma luta trágica e heróica pela subrevivência, mas que o povo palestino está desempenhando o papel de um verdadeiro katechon, sendo colocado na defesa da Terra Santa para impedir a destruição dos Santos Lugares que impedem a reconstrução do Templo projetado pelos "fanáticos do Apocalipse". 

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1. Gilles Kepel, La revanche de Dieu, Seuil, Paris 1991.
2. George Weigel, Religion and Peace: An Argument Complexified, “Washington Quarterly”, 14 (Primavera 1991), p. 27.
3. Bernard Lewis, Islamic Revolution, “New York Review of Books”, 21 gennaio 1988, p. 47.
4. Sudhir Kakar, The Colors of Violence: Cultural Identities, Religion, and Conflict, cit. in: Samuel P. Huntington, Lo scontro delle civiltà e il nuovo ordine
mondiale, Garzanti, Milano 2000, p. 135.
5. Suzanne Massie, Back to the Future, “Boston Globe”, 28 marzo 1993, p. 72.
6. Carlo Jean, Geopolitica, Editori Laterza, Roma-Bari 1995, p. 77.
7. Samuel P. Huntington, Lo scontro delle civiltà e il nuovo ordine mondiale, cit., pp. 38-39.
8. Samuel P. Huntington, Lo scontro delle civiltà e il nuovo ordine mondiale, cit., p. 239.
9. Claudio Mutti, L’islamismo contro l’Islam?, “Eurasia”, 4, 2012, pp. 5-11.
10. Abd ar-Razzâq Yahyâ (Charles-André Gilis), La profanation d’Israël selon le Droit sacré, Le Turban Noir, Paris s. d., p. 58.

domingo, 20 de março de 2016

Gustave Le Bon - Introdução de "Psicologia das Multidões"

por Gustave Le Bon

Tradução por A.J. Ellendersen



As grandes insurreições que precedem trocas de civilizações como a queda do Império Romano e a fundação do Império Árabe, parecem à primeira vista determinadas mais especialmente por transformações políticas, invasões estrangeiras, ou a derrubada de dinastias. Mas um estudo mais atento destes eventos demonstra que por trás de suas causas aparentes, a causa real é geralmente vista como sendo uma profunda modificação nas ideias dos povos. As verdadeiras agitações históricas não são aquelas que nos espantam por sua grandiosidade e violência. As únicas importantes mudanças das quais a renovação de civilizações resulta, afetam ideias, concepções, e crenças. Os memoráveis eventos da história são efeitos visíveis de alterações invisíveis do pensamento humano. A razão para esses grandes eventos serem tão raros é que não há nada tão estável em uma raça quanto a base hereditária de seus pensamentos.

A presente época é um desses momentos críticos em que o pensamento da humanidade está sofrendo um processo de transformação.

Dois fatores fundamentais estão na base de tal transformação. O primeiro é a destruição das crenças religiosas, políticas e sociais em que todos os elementos de nossa civilização estão enraizados. O segundo é a criação de condições inteiramente novas de existência e pensamento como resultado das descobertas científicas e industriais modernas.

As ideias do passado, embora semi-destruídas, sendo ainda bastante poderosas, e as ideias que devem substituí-las estando ainda em processo de formação, a era moderna representa um período de transição e anarquia.

Não é fácil dizer, até agora, o que um dia será formado a partir deste período, de certa forma, necessariamente caótico. Quais serão as ideias fundamentais a partir das quais as sociedades que nos sucederão serão construídas? Não sabemos no presente momento. No entanto, está claro que sejam quais forem as direções em que as sociedades do futuro serão organizadas, elas terão que contar com um novo poder, com a última força soberana sobrevivente dos tempos modernos, o poder das multidões. Nas ruínas de tantas ideias previamente consideradas fora de discussão, e hoje decaídas ou decaindo, de tantas fontes de autoridade destruídas por sucessivas revoluções, este poder, que sozinho emergiu em seus lugares, parece logo destinado a absorver os demais. Enquanto todos as nossas antigas crenças estão cambaleando e desaparecendo, enquanto os velhos pilares da sociedade estão cedendo espaço um por um, o poder da multidão é a única força que nada ameaça, e cujo prestígio se encontra em contínua ascensão. A era que estamos prestes a adentrar será, em verdade, a Era das Multidões.

Há menos de um século, a política tradicional dos Estados europeus e as rivalidades de soberanos eram os principais fatores a modelar eventos. A opinião das massas dificilmente contava, e no mais das vezes de fato não contava em absoluto. Hoje são as tradições que costumavam obter na política, e as tendências individuais e rivalidades de governantes que não contam; enquanto, ao contrário, a voz das massas se tornou preponderante. É essa voz que dita sua conduta aos reis, cujo empenho é o de tomar notas de suas elocuções. Os destinos das nações são elaborados, no momento, no coração das massas, e não mais no conselho de príncipes.

A entrada das classes populares na vida política — isto é, na verdade, sua progressiva transformação em classes governantes — é uma das características mais notáveis de nossa época de transição. A introdução do sufrágio universal, que foi exercido por um bom tempo mas pouco influenciou, não é, como se poderia imaginar, o traço distintivo dessa transferência de poder político. O crescimento progressivo do poder das massas aconteceu primeiramente através da propagação de certas ideias, que implantaram-se lentamente nas mentes dos homens, e mais tarde por meio da gradual associação de indivíduos dispostos a acarretar a realização de concepções teóricas. É por associação que multidões vieram a procurar ideias relativas a seus interesses, muito claramente definidas, embora não particularmente justas, e que alcançaram uma consciência de sua força. As massas estão fundando sindicatos diante dos quais as autoridades capitulam, uma após a outra; estão também fundando associações trabalhistas, que apesar de todas as leis econômicas tendem a regular as condições de trabalho e salários. Eles retornam a assembleias em que o governo está empossado, representantes descaradamente sem iniciativa e independência, e reduzidos no mais das vezes a nada mais que porta-vozes dos comitês que os escolheram.

Hoje as reivindicações das massas estão se tornando mais e mais nitidamente definidas, e equivalem a nada menos do que uma determinação para destruir completamente a sociedade tal como ela existe hoje, com uma visão que a faz nos remeter àquele comunismo primitivo que foi a condição normal de todas os grupos humanos anteriores à alvorada da civilização. Limitações das horas de trabalho, a nacionalização das minas, estradas de ferro, fábricas, e o solo, a distribuição igual de todos os produtos, a eliminação de todas as classes superiores em benefício das classes populares, etc., tais são estas reivindicações.

Pouco adaptadas a raciocinar, multidões, ao contrário, são rápidas ao agir. Como resultado de sua presente organização, sua força tornou-se imensa. Os dogmas cujo nascimento estamos testemunhando terão em breve a força dos antigos dogmas; isto é, a força tirânica e soberana de estarem fora de discussão. O direito Divino das massas está prestes a tomar o lugar do direito Divino de reis.

Os escritores que se beneficiam da benevolência de nossas classes médias, aqueles que melhor representam suas ideias estreitas, suas visões algo prescritas, seu ceticismo um tanto superficial, e seu egoísmo às vezes um pouco excessivo, exibem profundo alarme frente a esse novo poder que eles vêem em ascensão; e para combater a desordem nas mentes dos homens eles estão enviando apelos desesperados àquelas forças morais da Igreja pelas quais eles professavam a princípio tanto desdém. Eles nos falam sobre a falência da ciência, retornam em penitência a Roma, e nos lembram dos ensinamentos de verdade revelada. Esses novos convertidos esquecem que é tarde demais. Tivessem eles de fato sido tocados pela graça, tal operação não poderia ter a mesma influência em mentes menos preocupadas com as inquietações que assediam esses recentes aderentes à religião. As massas repudiam hoje os deuses que seus admoestadores ontem repudiaram e ajudaram a destruir. Não há qualquer poder, Divino ou humano, que possa forçar uma corrente a retornar à sua fonte.

Não houve falência alguma da ciência, e a ciência não tem responsabilidade alguma pela presente anarquia intelectual, nem pela constituição do novo poder que está emergindo do interior desta anarquia. A ciência nos prometeu a verdade, ou no mínimo um conhecimento destas relações tal como nossa inteligência é capaz de apreender; ela nunca nos prometeu a paz ou a felicidade. Soberanamente indiferente aos nossos sentimentos, ela é surda para nossas lamentações. É necessário que nos esforcemos a conviver com a ciência, uma vez que nada pode trazer de volta as ilusões que ela destruiu. Sintomas universais, perceptíveis em todas as nações, nos mostram o rápido crescimento do poder das multidões, e não nos permitem supor que ele esteja destinado a cessar sua ascensão em uma data próxima. Seja qual for o destino que ele nos reserve, nós teremos que nos submeter a ele. Todo raciocínio contra ele é uma mera e vã guerra de palavras. Certamente é possível que o advento ao poder das massas marque um dos últimos estágios da civilização ocidental, um retorno completo àqueles períodos de anarquia confusa que parecem sempre destinados a preceder o nascimento de toda nova sociedade. Mas poderia esse resultado ser evitado?

Até agora estas conscienciosas destruições de uma civilização esgotada tem constituído a tarefa mais óbvia das massas. De fato, não é somente hoje que isto pode ser rastreado. A história nos conta, que do momento em que as forças morais em que uma civilização repousa perdem sua força, sua dissolução final é acarretada por aquelas multidões brutais e inconscientes, conhecidas, com razão suficiente, como bárbaros. Civilizações até hoje foram somente criadas e dirigidas por uma pequena aristocracia intelectual, jamais por multidões. Multidões são potentes somente para a destruição. Seu governo é sempre equivalente a uma fase de barbárie. Uma civilização envolve regras fixas, disciplina, uma passagem do estado instintivo ao racional, antecipação do futuro, um grau elevado de cultura — todas elas condições que multidões, deixadas por si mesmas, têm invariavelmente demostrado-se incapazes de realizar. Em consequência da natureza puramente destrutiva de seu poder, multidões agem como aqueles micróbios que aceleram a dissolução de corpos enfraquecidos ou mortos. Quando a estrutura de uma civilização está podre, são sempre as massas que acarretam a sua perdição. É em tal conjuntura que sua missão-chefe é plenamente visível, e em que por um tempo a filosofia do número parece ser a única filosofia da historia.

Estará o mesmo destino reservado para a nossa civilização? Há fundamento para temer que este seja o caso, mas não estamos ainda em uma posição para estarmos certos disso.

Seja como for, estamos fadados a nos resignar ao reino das massas, dado que a improvidência tem derrubado, em sequência, todas as barreiras que pudessem ter mantido a multidão em cheque.

Temos um conhecimento muito sutil destas multidões que estão começando a ser objeto de tanta discussão. Estudantes profissionais de psicologia, tendo vivido longe delas, sempre as ignoraram, e quando, afinal, eles voltaram sua atenção para esta direção foi apenas para considerar os crimes que multidões são capazes de cometer. Sem dúvida existem multidões criminosas, mas multidões virtuosas e heroicas, e multidões de diversos outros tipos, também devem ser consideradas. Os crimes de multidões constituem somente uma fase particular de sua psicologia. A construção mental de multidões não deve ser aprendida meramente por um estudo de seus crimes, assim como a de um indivíduo por uma mera descrição de seus vícios.

No entanto, com efeito, todos os mestres do mundo, todos os fundadores de religiões ou impérios, os apóstolos de todas as crenças, estadistas eminentes, e, em uma esfera mais modesta, os meros chefes de pequenos grupos de homens, foram sempre psicólogos inconscientes, possuidores de um conhecimento instintivo e frequentemente muito acertado sobre o caráter de multidões, e é seu conhecimento preciso deste caráter que os permitiu tão facilmente estabelecer sua maestria. Napoleão possuía uma intuição maravilhosa sobre a psicologia das massas do país em que reinava, mas ele, em certos momentos, equivocou-se completamente quanto à psicologia de multidões pertencentes a outras raças; e é por este equívoco que ele se envolveu, na Espanha e notavelmente na Rússia, em conflitos nos quais seu poder recebeu golpes que estavam destinados dentro de um curto espaço de tempo à ruína. Um conhecimento da psicologia das multidões é hoje o último recurso do estadista que deseja não governá-las — isto está se tornando uma questão difícil — mas a qualquer custo não ser governado demais por elas.

É apenas obtendo alguma espécie de compreensão acerca da psicologia das multidões que pode-se entender o quão sutil é a ação, sobre elas, de leis e instituições, o quão impotentes elas são para defender qualquer opinião que não seja sobre elas imposta, e que não é com regras baseadas em teorias de pura igualdade que elas devem ser conduzidas, mas sim através da busca pelo que produz uma impressão nelas e pelo que as seduz. Por exemplo, deveria um legislador, desejando impor um novo imposto, escolher aquele que teoricamente seria o mais justo? De maneira alguma. Na prática, o mais injusto talvez seja o melhor para as massas. Sendo ele ao mesmo tempo o menos óbvio, e aparentemente o menos oneroso, ele será facilmente tolerado pela maioria. É por esta razão que um imposto indireto, seja o quão exorbitante for, sempre será aceito pela multidão. Sendo pago diariamente em frações de um farthing[1] em objetos de consumo, ele não interfirirá nos hábitos da multidão, e passará despercebido.

Substitua-o por um imposto proporcional nos salários ou renda de qualquer outro tipo, a ser pago em montante fixo, e sendo esta nova imposição teoricamente dez vezes menos onerosa que a outra, ela acarretaria protesto unânime. Isso resulta do fato de que um montante relativamente alto, que parecerá imenso, e consequentemente golpeará a imaginação, foi substituído pelas imperceptíveis frações de um farthing. O novo imposto pareceria brando apenas se fosse economizado farthing por farthing, mas este procedimento econômico envolve um nível de previsibilidade de que as massas são incapazes.

O exemplo que precede é um dos mais simples. Sua pertinência será facilmente percebida. Ela não escapou à atenção de um psicólogo tal como Napoleão, mas nossos modernos legisladores, ignorantes como são a respeito das características da multidão, são incapazes de apreciá-la. A experiência não os ensinou até agora, em grau suficiente, que os homens nunca modelam sua conduta sob o ensinamento da razão pura.

Muitas outras aplicações práticas podem ser feitas a partir da psicologia das multidões. Um conhecimento desta ciência lança a mais vívida luz em um número enorme de fenômenos históricos e econômicos totalmente incompreensíveis sem ela. Devo ter a ocasião de demonstrar que a razão pela qual o mais notável dos historiadores modernos, Taine, compreendeu em alguns momentos tão imperfeitamente os eventos da grande Revolução Francesa, é que jamais ocorreu pra ele o estudo do gênio de multidões. Ele tomou como seu guia no estudo deste complicado período o método descritivo a que recorrem os naturalistas; mas as forças morais estão quase ausentes no caso dos fenômenos que os naturalistas estudam. No entanto, são precisamente estas forças que constituem as verdadeiras molas propulsoras da história. Por consequência, visto meramente por seu lado prático, o estudo da psicologia das multidões merece ser experimentado. É tão interessante decifrar os motivos das ações dos homens quanto determinar as características de um mineral ou uma planta. Nosso estudo do gênio das multidões pode apenas ser uma breve síntese, um simples resumo de nossas investigações. Nada mais deve ser exigido dele do que algumas visões sugestivas. Outros hão de trabalhar no terreno mais meticulosamente. Hoje nós tocamos somente a superfície de um solo quase virgem.

[1] Farthing, originário da palavra inglesa “fourthing”, foi uma unidade monetária britânica, produzida entre 1860 e 1956, que equivalia a um quarto (1/4) de centavo ou penny.

Retirado de "Psicologia das Multidões" (Psychologie des Foules, ou The Crowd: A Study of the Popular Mind), Gustave Le Bon, 1895

sábado, 19 de março de 2016

Jordi de la Fuente - Estado

por Jordi de la Fuente



Introdução

"Está na natureza do Estado o apresentar-se tanto em relação a si mesmo como frente a seus súditos, como o objeto absoluto. Servir a sua prosperidade, a sua grandeza, a seu poder, essa é a virtude suprema do patriotismo. O Estado não reconhece outra, tudo o que lhe serve é bom, tudo o que é contrário a seus interesses é declarado criminoso; tal é a moral dos Estados". - Mikhail Bakunin

Muito se especula sobre os limites do Estado como instituição cuja função é a organização política da sociedade dentro de um marco legal. Se pensa sobre o marco legal, de sua origem: é obra do povo, de seus representantes? Ou é tudo isso um discurso que mantém atrás do cenário o Estado, o que cria a legalidade, e o que perpetua o estado de coisas atual?


sábado, 12 de março de 2016

Eric Mader - Gnosticismo: Reconsiderando a Mãe de Todas as Heresias

por Eric Mader

Tradução por M. Oltramari



Se alguém procura uma rápida definição de gnosticismo antigo, é provável que encontre algo assim:

Gnosticismo:

Um movimento religioso que floresceu no Império Romano entre os Séculos II e VI D.C.

Identificados como hereges tanto pelos Cristãos como pelos Judeus, os gnósticos ensinavam que o mundo não foi criado pelo verdadeiro Deus, mas por um ser menor, deficiente, chamado de O Demiurgo, que rege sob sua criação, o nosso mundo, com a ajuda de poderes administrativos chamados de Arcanos. Enquanto o local do verdadeiro Deus (O Pleroma, ou “Plenitude”) se encontra além dessa criação defeituosa, sendo o objetivo do gnóstico escapar da armadilha que é esse mundo e retornar para aquele.

De acordo com os gnósticos, os seres humanos possuem uma centelha divina não pertencente a essa criação menor, mas que continuaria reencarnando aqui a não ser que fosse redimida através da gnose (o conhecimento libertador acerca das nossas verdadeiras origens). Seres humanos estavam divididos em três tipos: os espirituais (aqueles predestinados à salvação), os psíquicos (aqueles que poderiam alcançar uma forma de salvação através da gnose e várias práticas de purificação) e os materiais (aqueles que por sua natureza estavam permanentemente atados ao domínio material). Portanto, a religião gnóstica era caracterizada por um desprezo radical pelo mundo (entendido como uma prisão) e pelo corpo (a cela individual de cada um). Fontes antigas demonstram que em certos grupos esse desprezo levou a um rigoroso ascetismo, e em outros a uma rigorosa libertinagem (uma vez que as leis morais eram simplesmente parte da armadilha criada pelo Demiurgo, alguns gnósticos ensinavam que os espiritualmente liberados deviam demonstrar sua liberação quebrando tantas leis quanto fosse possível).

Gnósticos cristãos consideraram Jesus como um mensageiro do verdadeiro Deus, enviado de Pleroma para trazer os ensinamentos libertadores da gnose. Eles rejeitaram a doutrina ortodoxa de que Jesus morreu para expiar pelos pecados dos homens. De acordo com os gnósticos, o mal no mundo não resultava do pecado humano, mas da criação defeituosa do Demiurgo, ou seja, o mundo era mal porque seu criador era mal. Enquanto cristãos ortodoxos aceitavam o Antigo Testamento como parte de suas escrituras sagradas, os gnósticos viam no Antigo Testamento uma representação do Demiurgo. Somente Jesus era enviado do “Pai”, isto é, o verdadeiro Deus.

Devido ao seu rigoroso desprezo pelo mundo e sua concomitante rejeição das normas sociais, a maioria dos escolásticos entenderam que o gnosticismo foi uma religião de revolta radical. Os bogomilos na Europa oriental e os cátaros do medievo no sul da França são considerados como encarnações tardias da religião gnóstica. Uma coleção de antigas escrituras gnósticas enterrada foi descoberta perto da cidade egípcia de Nag Hammadi em 1945.

Em poucos parágrafos temos aqui um exemplo de como o gnosticismo é tipicamente definido em aulas universitárias e enciclopédias. É uma apresentação clássica sustentada em estudos modernos do gnosticismo tal como vemos em The Gnostic Religion de Hans Jonas. Pelo hábito da repetição ela se tornou mais ou menos padrão. Mas essa definição é realmente apta para descrever as crenças e práticas dos gnósticos antigos? Quão apropriada ela é em relação ao que encontramos nos textos de Nag Hammadi? Afinal de contas, a maioria dos elementos dessa definição foram construídos antes da descoberta desses escritos. Através dos escritos gnósticos existentes e disponíveis agora, os escolásticos devem ser capazes de chegar a um entendimento mais detalhado do que era possível anteriormente. As leituras que eles realizaram dos textos de Nag Hammadi mudaram o nosso entendimento acerca desse antigo movimento religioso?

Em seu livro Rethinking “Gnosticism”: An Argument for Dismantling a Dubious Category Michael Allen Williams avalia a legitimidade dessas definições usuais e as considera seriamente incompletas. Ler o seu estudo é perceber o quanto essa coisa chamada “gnosticismo” é uma amálgama de caricaturas acadêmicas modernas e aceitação desprovida de senso crítico dos escritos de heresiólogos como Santo Ireneu e Epifânio de Salamina. Talvez essa confiança fosse algo inevitável dada a falta de fontes originais de outrora. Mas agora, com a riqueza dos evangelhos e tratados gnósticos descobertos no Egito as coisas mudaram. O trabalho de Williams se propõe a revelar a dimensão das mudanças necessárias.

A metodologia geral de Williams é simples: toma as atuais apresentações acadêmicas da religião gnóstica e as compara ponto por ponto com o que nós realmente encontramos nos escritos gnósticos. E ainda: toma as apresentações que os heresiólogos antigos fazem dos gnósticos e realiza uma comparação similar. As apresentações que os gnósticos fazem deles mesmos em seus escritos corresponde às doutrinas atribuídas a eles por Ireneu? Eles correspondem ao que nós escutamos da comunidade de acadêmicos modernos? Se a resposta é não, porque?


Se Williams estiver certo, a nossa ideia de gnosticismo como uma religião antiga não estaria de acordo, em aspectos importantes, com a ideia dos próprios gnósticos antigos. A nossa compreensão das doutrinas e comportamentos gnósticos (em relação ao corpo, à sociedade, à ética) frequentemente colocou ênfase nos pontos errados. E nossa apresentação das práticas gnósticas ainda está embasada nos heresiólogos, ainda que suas descrições tenham sido desmentidas pelos escritos de Nag Hammadi.

Em suma, o gnosticismo é normalmente apresentado como uma religião de revolta e negação do mundo: uma religião adotada por estrangeiros em um estado de rebelião contra as normas sociais. Acreditava-se que os gnósticos haviam construído uma barreira entre eles mesmos e o mundo que os cercava revertendo mecanicamente os valores sociais dominantes. Essa noção dos gnósticos empreendendo um tipo de negação sistemática de tudo que a sociedade sustentava como sagrado originou-se principalmente de observações selecionadas a partir das leituras que os gnósticos faziam das escrituras hebraicas (por exemplo, eles frequentemente entendiam a serpente no Jardim do Éden de uma maneira positiva, enquanto Yahweh, entendido como o Demiurgo, era visto negativamente). Porém, como Williams aponta, esses exemplos de interpretações das escrituras gnósticas não indicam necessariamente uma atitude rebelde em relação à sociedade como um todo. Utilizando modelos desenvolvidos em estudos sociológicos de movimentos  religiosos, Williams argumenta que em muitos casos o mais provável era o oposto: os gnósticos estavam interpretando as ideias judaico-cristãs do divino de maneiras mais harmônicas com as sociedades predominantemente pagãs nas quais eles viviam. O argumento de Williams aqui é convincente.  A nossa interpretação do comportamento gnóstico como uma postura de revolta contra a sociedade nos foi empurrada pelos heresiólogos, quem, por motivos óbvios, procuravam retratar os gnósticos como rebeldes contra a ortodoxia. Portanto, é anacrônico afirmar que os gnósticos eram pervertidos sociais.

Williams considera da mesma forma a questão do “determinismo gnóstico”: a afirmação moderna, repetida frequentemente, de que os gnósticos acreditavam que a humanidade estava dividida em tipos diferentes (os espirituais, os psíquicos, os materiais) ou raças diferentes (a raça de Seth, a raça de Cain), e o desfecho doutrinal dessas divisões de que o potencial de cada indivíduo para a salvação já estaria determinado pelo nascimento. Williams demonstra que essa noção moderna do determinismo gnóstico não é sustentada pelos textos originais. Uma leitura cuidadosa dessas fontes demonstra que um indivíduo não “nasce incluído” na raça de Seth: em realidade é um status que se pode alcançar ou receber. A raça de Seth é mais uma comunidade espiritual do que uma “raça” biológica no sentido moderno. O mesmo aplica-se à divisão em três tipos: o status de espiritual de um indivíduo é considerado tendo em vista seu comportamento: é possível perder esse status ao abandonar a verdade, portanto nascer como um espiritual não é garantia de salvação. A afirmação de que os gnósticos eram elitistas no sentido de acreditarem-se predestinados à salvação (salvos em essência) é errônea. Williams demonstra que havia no mínimo tanta flexibilidade nessas noções gnósticas quanto há em doutrinas protestantes recentes acerca do eleito.

Com essas observações eu apenas arranhei a superfície desse estudo extenso e detalhado. Williams oferece uma discussão importante acerca da hermenêutica gnóstica (a sua prática de interpretação bíblica) e reconsidera as noções gnósticas do corpo e como elas estão relacionadas a diferentes doutrinas de salvação. Uma preocupação constante do seu livro -e talvez eu tenha sido irresponsável ignorando-a até agora- é a validade do próprio termo “gnosticismo”. Com base nas inúmeras desvantagens que Williams vê nesse termo -a sua ambiguidade e a bagagem que carrega- ele sugere que os escolásticos refiram-se a “tradições bíblicas demiúrgicas” quando discutem muito do que tipicamente se chama de “gnosticismo”. Ele procura demonstrar que: 1º) os povos antigos que chamamos de “gnósticos” não utilizam esse termo, e 2º) escolásticos modernos tiveram dificuldade para estabelecer um conjunto estável de características para o gnosticismo: isto é, nós ainda não conseguimos definir com clareza o que é o gnosticismo. O argumento que Williams coloca ao final é que esse termo impediu a nossa compreensão dos antigos movimentos religiosos em questão. Ele fez com que gerações de acadêmicos se agarrassem a falsos problemas e construíssem argumentos com base em pressupostos não examinados. Essa é uma acusação muito séria. Se Williams está certo ou não nessas afirmações -algo que não estou em posição de julgar- parece óbvio que seu livro trouxe muitas novidades no campo de estudos “gnósticos”. É evidente que muitas de suas novas perspectivas à respeito dos “gnósticos” se originaram diretamente da tentativa de pensar além (no âmbito acadêmico e heresiológico) do “gnosticismo” enquanto categoria.

No entanto, o livro de Williams não é apenas para escolásticos. Até mesmo um leitor ligeiramente familiar com os escritos de Nag Hammadi pode ganhar muito com a leitura dessa obra. De maneira elucidativa, ele inicia o livro com um capítulo resumindo os mitos ou doutrinas de quatro importantes tradições gnósticas: o mito do Apócrifo de João; a doutrina do professor valentiniano Ptolomeu; o mito ensinado por Justino, o Gnóstico; e os ensinamentos de Marcião. Esses quatro exemplos diferentes são tratados repetidamente em todo o estudo com o objetivo de elucidar vários aspectos. Williams estruturou Rethinking Gnosticism de uma maneira que o permitiu escrever tanto para seus colegas escolásticos como para os leitores em geral. É uma estratégia de sucesso em todos as partes, que faz com que a leitura do livro seja fascinante para qualquer um interessado em “gnosticismo”, nos textos de Nag Hammadi ou na história do Cristianismo.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Eugene Montsalvat - A Direita Alternativa: Uma Autópsia

por Eugene Montsalvat



Quando o amplo movimento agora chamado "direita alternativa" pareceu surgiu por volta de 2010, as esperanças eram bem elevadas. O então editor do Occidental Quarterly afirmou que ele esperava que isso introduziria jovens conservadores a coisas como a Nova Direita europeia, a Terceira Posição, a Revolução Conservadora, o Tradicionalismo, e o anticapitalismo de direita. O objetivo de ampliar suas mentes e afastar conservadores americanos das picuinhas partidárias usuais na direção de questões mais radicais e importantes não foi atingido. Ao invés, ela levou a uma solidificação dos piores elementos do conservadorismo americano, agora repaginado como algo vanguardista. Ao invés de se tornar ponta-de-lança para o pensamento de figuras conservadoras revolucionárias ou novo-direitistas como Oswald Spengler, Alain de Benoist ou Aleksandr Dugin entrar no discurso político americano, ela se tornou um foco de atração para aqueles que querem defender o capitalismo contra populações de QI baixo, todas as suas teorias estando embasadas na terminologia mais imatura retirada dos esgotos da internet. Ao invés de levar a um novo movimento revolucionário nos EUA, simplesmente recuperou algumas das ideias conservadoras americanas mais retrógradas do passado com uma estética mais "vanguarda" projetada para atrair os elementos mais juvenis da sociedade. A direita alternativa falhou em articular as críticas necessárias à ordem atual, deixando o campo da ideologia populista nacional vazio de uma alternativa real e desesperadamente necessária. A direita alternativa em seu estado atual não tem futuro. Ela deve ser reformada com o poder de olhar para além das barreiras artificiais de esquerda e direita, barreiras definidas pela elite hostil da política americana.

Talvez o traço mais unificador das várias correntes na direita alternativa americana é seu foco nas definições biológicas de raça. Certamente, a compreensão científica das diferenças humanas possui seu lugar. Porém, uma definição meramente materialista é na melhor das hipóteses insuficiente, na pior delas contraprodutiva. No melhor caso, é um passo no longo processo de tirar uma pessoa do paradigma do igualitarismo liberal na direção de uma concepção filosófica das diferenças humanas. Nesse sentido, uma compreensão biológica da desigualdade humana deve ser vista como uma fase transitória. Sim, humanos são realmente diferentes biologicamente, porém essa concepção biológica da diferença é apenas uma compreensão superficial das diferenças humanas essenciais. Para uma compreensão mais profunda da desigualdade humana, devemos avançar para além do materialismo biológico, que replica uma compreensão racionalista e iluminista do mundo, e adentrar na doutrina Tradicionalista sobre raça, como compreendida por Julius Evola. Há um aspecto biológico, realmente, porém nós devemos também transcender na direção de um entendimento da "raça da alma" e uma "raça do espírito".

Com "raça da alma", nós podemos falar sobre as várias características espirituais que definem um certo povo. Assim, se alguém segue uma moralidade judaica, essa pessoa pode ser membro da "raça judaica da alma" ao mesmo tempo sendo inteiramente gentia em sentido biológico. Quanto à "raça do espírito", ela define como diferentes pessoas em uma sociedade se relacionam com o divino. Nas civilizações antigas, diferentes sexos e classes sociais adoravam diferentes deuses. Os patrícios romanos representam uma "raça do espírito" diferente dos plebeus romanos, e os brâmanes hindus representam uma "raça do espírito" diferente dos ksatriyas. As mulheres representam uma "raça do espírito" diferente dos homens. Certamente, nessa concepção tripartite de raça, os três aspectos de biologia, alma e espírito estão entrelaçados. Porém, isso não pode ser simplesmente reduzido à biologia da qual todas as coisas fluem. Essa obsessão com distinções científicas entre raças e a necessidade de mensurar cada diferença biológica (e eu realmente me refiro a cada diferença) está muito longe de um entendimento profundo, filosófico, das distintas essências espirituais dos povos que caracterizavam as raízes antigas de nossa civilização. Ademais, isso é patentemente pouco inspirador, já que homem algum vai atacar uma metralhadora para defender um estudo sobre QI. Os homens morrem por visões superiores e transcendentes do ser. É melhor falar sobre o espírito da nação do que entediar pessoas comuns até as lágrimas com tabelas demonstrando diferentes medições cranianas.

Na pior das hipóteses, a concepção biológica de raça leva a uma reiteração de preconceitos iluministas liberais. Ela assume, tal como os neo-ateístas representados por tipos como Richard Dawkins fazem, que todas as questões podem ser reduzidas a meras explicações racionais, científicas. Isso pode levar ao que é geralmente chamado de "elitismo cognitivo". Ela assume que o QI é o árbitro final de valor humano. Isso é absolutamente desastroso para qualquer ideologia política que busque afirmar a identidade livre e única de povos. Se um certo povo possui um QI maior, por que deveríamos ver como imoral se ele conquistar os menos inteligentes? Se este é o caso, então Hong Kong deveria governar o mundo, e nenhuma outra nação deveria se impôr. Ao invés de afirmar diferenças, o elitismo cognitivo afirma a dominação de um povo em detrimento de outros. Ao invés de afirmar o direito de todos os povos de cultivarem sua identidade étnica e cultura tal como a ideologia etnopluralista defendida pela Nova Direita europeia faz, ela involui em um tipo de triunfalismo branco onde o fato de que brancos possuem um QI maior que alguns outros povos significa que eles são superiores, e estão assim justificados em destruir outras culturas. Isso é essencialmente similar ao darwinismo social vitoriano que foi usado para justificar o domínio do Império Britânico. Enquanto alguns possam olhar para essa era como o ponto alto da civilização europeia, ele deve ser visto pelo que é: um período de exploração, tanto dos povos colonizados, como dos trabalhadores pobres das próprias nações coloniais, que lideraram o caminho para a globalização da sociedade e para a emergência do capitalismo internacional como o paradigma econômico dominante, questões que continuam a nos afetar hoje. Este tipo de raciocínio vitoriano ainda encontra ressonância nas visões econômicas da direita alternativa americana.

Entre as grandes falhas da direita alternativa americana tem sido sua incapacidade de criticar o sistema capitalista. Ele é visto como um sistema justo, suas falhas e erros ou são ignorados ou a culpa é colocada em algum outro grupo racial. Eles citarão, de modo darwiniano, que pessoas com QI mais alto ganham mais, e que nações com QI médio alto são mais ricas, então os ricos merecem tudo o que tem, e qualqeur tentativa de redistribuir riqueza é "disgênica", ainda que a vasta maioria das pessoas patrióticas, trabalhadoras e medianas se beneficiasse com um retorno, mesmo que parcial, ao Estado de Bem-Estar da América de Eisenhower, um período para o qual eles ironicamente olham com nostalgia por causa de seus valores sociais sadios. Ainda assim, o período de dominação branca europeia pelo capitalismo é visto como uma marca de orgulho europeu e o zênite da civilização europeia. Eles consideram o sofrimento da vasta maioria dos brancos sob o capitalismo antes da emergência do Estado de Bem-Estar no século XX, como narrado por autores clássicos como Charles Dickens, Jack London, Upton Sinclair ou Louis-Ferdinand Céline, como ou merecido ou irrelevante, se é que eles dão alguma consideração.

Ademais, essa combinação de fetichismo com QI e ideologia de mercado leva a uma defesa contraditória e confusa das fronteiras nacionais. Direitistas alternativos americanos reconhecem que comunidades imigrantes de países com baixo QI médio tendem a votar em favor do Estado de Bem-Estar; portanto, nós devemos controlar nossas fronteiras para salvar o capitalismo. Essa análise é ruim em vários níveis. Primeiro e mais importante, são os capitalistas americanos que trazem os imigrantes, legalmente ou ilegalmente, para cortar os salários de trabalhadores nascidos nos EUA. A mais forte oposição a propostas de fechar a fronteira ou limitar a imigração vem da própria classe capitalista americana. A liderança de companhias famosas como eBay, Google, PayPayl e Yahoo liderou esforços para convencer o Congresso a aprovar leis ampliando a imigração. A direita alternativa não consegue compreender que a oposição à interferência no fluxo de trabalho e capital entre países tem sido uma faceta fundamental do capitalismo desde a época de Adam Smith e Bastiat, que se opunham ao protecionismo mercantilista. Como o importante pensador da Nova Direita europeia, Alain de Benoist, afirmou em seu clássico ensaio, "Imigração: O Exército de Reserva do Capital": "Quem criticar o capitalismo, ao mesmo tempo que aprova a imigração, sendo o proletariado sua primeira vítima, é melhor silenciar. Quem criticar a imigração, ao mesmo tempo que silencia sobre o capitalismo, deve fazer o mesmo". Capitalismo e imigração em massa são dois lados da mesma moeda. Eles não conseguem entender que o capitalismo não aceita fronteiras, seja fisicamente ou mentalmente, no que concerne a busca pelo lucro. Se o Estado-Nação, a família tradicional, ou a religião ficarem no caminho, eles devem ser descartados. Citando Alain de Benoist novamente, em "Essa Direita que não se importa com seu povo":

"Eles ainda não entendem que o capitalismo é intrinsecamente globalista, porque ele demanda a abolição de fronteiras ('laissez faire, laisser passer!'). Por razão de sua propensão à ilimitação, ele não pode existir sem revolucionar constantemente as relações nacionais, ou sem ver as identidades nacionais como estando entre tantos outros obstáculos para a expansão do mercado globalizado. O modelo antropológico que ele leva, que é o de um indivíduo que está sempre buscando a maximização de seu próprio interesse, está tanto em funcionamento no liberalismo econômico como no liberalismo social, e os axiomas do interesse e o maquinário do lucro são pilares da ditadura dos valores mercantis".


Foi sob o capitalismo, não sob o socialismo, que o feminismo, o multiculturalismo, a teoria de gênero, e a liberação sexual encontraram suas mais poderosas expressões. Porém, ao invés de reconhecer este fato, a direita alternativa recorre à teoria do "marxismo cultural".


"Marxismo cultural" pode significar muitas coisas. Em uma interpretação extrema, é uma perspectiva altamente conspiratória que propõe que os soviéticos infiltraram vários órgãos governamentais, acadêmicos e empresariais nos EUA com o objetivo de enfraquecer os valores morais da sociedade para torná-la mais adequada para uma revolução comunista guiada pelos soviéticos. Em outra, ela pode significar a influência dos pensadores da Escola de Frankfurt na sociedade. Nós podemos rapidamente descartar a primeira, considerando que coisas como homossexualidade eram punidas severamente na URSS, e que, após uma fase inicial de liberação sexual, Stálin reprimiu essa lassidão moral, limitando o divórcio e o aborto. No Bloco Oriental, o "movimento hippie", onde existisse, era visto com suspeitas e sujeito a repressão por suas raízes americanas. As origens dessa teoria da conspiração tendem a voltar ao testemunho do dissidente soviético Yuri Bezmenov, que se tornou uma figura popular em círculos anticomunistas americanos, onde ele frequentemente coletava taxas para repetir em palestras o que as pessoas já acreditavam. Curiosamente, a direita alternativa toma as afirmações de um imigrante preenchendo um nicho no mercado americano a sério. Em contraste, não foi a KGB, mas a CIA que apoiou a arte moderna como um desafio ao "realismo socialista" de inspiração clássica na URSS, e contratou a radical Gloria Steinem como agente para este fim. De fato, a CIA recebeu muitos comunistas anti-stalinistas em seu "Congresso para a Liberdade Cultural", que foi estabelecido em 1950 para atrair esquerdistas para uma posição anti-soviética. Ademais, nós devemos notar que muitas figuras da Escola de Frankfurt culpadas pelo "marxismo cultural" em versões menos conspiratórias encontraram um refúgio do nazismo não na URSS, mas nos EUA.

A Escola de Frankfurt é considerada como uma das principais bases para o desenvolvimento da ideologia freudo-marxista, particularmente por seu notável membro, Herbert Marcuse. Outro é o pensador judeu-alemão Wilhelm Reich, que também encontrou refúgio nos EUA após perseguição nazista. No livro de Marcuse Eros e Civilização, a liberação sexual está misturada com ideias sobre libertação da alienação econômica também. Porém, Marcuse modifica a base fundamental do marxismo. A história não é mais explicada pela luta de classes, mas como uma luta contra a repressão, com o capitalismo moderno sendo o tipo mais repressivo de sociedade. Esse desvio da teoria marxista clássica mostra o motivo pelo qual a Escola de Frankfurt não foi bem recebida na URSS. Ao invés de demandarem um socialismo no qual os desejos individuais estivessem sujeitos aos objetivos de um planejamento central pelo benefício da nação, ele defende uma plena liberalização dos desejos humanos. Essa crítica provou ser popular nos campi universitários americanos e influenciou os radicais da década de 60, que defendiam uma revolução através do "rock n' roll, drogas e sexo nas ruas", em uma frase notável de John Sinclair. Porém, a ideologia da gratificação sensorial total foi completamente assimilada pelo capitalismo. Depravação na música, nos filmes e na televisão alimentou os cofres das grandes corporações midiáticas, sem mencionar a ascensão simultânea da indústria pornográfica. Na verdade, essa ideologia se encaixa perfeitamente com o capitalismo: o cliente sempre tem razão, e os desejos hedonistas se tornam ainda mais escolhas de consumo para serem satisfeitas pelo mercado. Certamente, a ideologia da gratificação sensorial ilimitada criou novos campos vastos de exploração para o capitalismo.

Ademais, essa ideologia radical da nova esquerda demonstrou um efeito maligno sobre a centro-esquerda hegemônica, que, apesar de não ser marxista, trabalhava no domínio clássico da política classista, lutando por um Estado de Bem-Estar maior e pelos direitos do proletariado (deve-se notar a imensa ironia de alguns elementos da direita alternativa olharem com saudades para os "bons e velhos dias" da América pré-1968, quando o Estado de Bem-Estaro e o poder sindical estavam em seu ápice). Abandonando preocupações caras aos corações do trabalhador médio, a esquerda hegemônica gradualmente adotou ideologias como o feminismo, o pró-imigracionismo e a libertação homossexual. Enquanto a classe trabalhadora padece com dificuldades cada vez maiores, e valores tradicionais são apagados, o capitalismo é mais forte do que nunca. Porém, a direita alternativa permanece proximamente ligada ao capitalismo, apesar de críticas a várias facetas do capitalismo, tal como a usura, desde uma perspectiva europeia tradicional vindo desde Aristóteles e dos antigos gregos, dos Pais da Igreja, e Tomás de Aquino. De fato, a história do anticapitalismo conservador é muito mais longa e profunda, mesmo nos EUA quando olhamos para figuras como Ezra Pound e Padre Coughlin, do que a história da defesa conservadora do capitalismo. Essa contradição aparente passa desapercebida pela direita alternativa.

Essa falta de vontade de transitar além da perspectiva capitalista americana trouxe algumas consequências geopolíticas para a direita alternativa. Ainda que ela ocasionalmente demonstre uma postura menos belicista que o conservadorismo americano hegemônico, normalmente tendendo a um não-intervencionismo paleoconservador, ela ainda expressa uma certa paranoia da Guerra Fria em relação ao socialismo. Em uma nota positiva, a atitude tóxica em relação a Rússia foi razoavelmente moderada, ainda que por razões do aparente masculinismo de Putin mais do que por uma consideração séria de sua política externa. E ainda assim, essa russofobia não desapareceu. Há muitos no milieu que foram enganados pela propaganda do banderismo em se alinharem com a UE e a OTAN contra a Nova Rússia. Ademais, a atitude da direita alternativa em relação ao socialismo na América do Sul ainda é uma de hostilidade e neocolonialismo. Figuras como Hugo Chávez e Juan Perón são demonizadas, e a ideologia do socialismo, ao invés do capitalismo neocolonial americano, é culpada pelos sofrimentos da América Latina. Eles exaltam aquele lacaio da CIA, Augusto Pinochet, enquanto fantasiam sobre arremessar "comunistas" de helicópteros para salvar o capitalismo. É grosseiramente hipócrita para um movimento que afirma ser nacionalista elogiar um homem que derrubou o governo de seu próprio país com apoio estrangeiro e que então entregou bens públicos para corporações multinacionais sem qualquer lealdade para com qualquer nação.

Ademais, enquanto rejeitam as tentativas mas egrégias de neocolonialismo neoconservador no Oriente Médio, eles em sua maioria subscrevem às teses oferecidas por Samuel Huntington em O Choque de Civilizações, que reduz os problemas no Oriente Médio a um choque de civilizações entre Europa e Islã. Isso ignora completamente os papeis que o colonialismo europeu, e o neocolonialismo sionista e americano posterior, desempenharam em desestabilizar a região. A maioria dos muçulmanos não estão imigrando para a Europa em prol da jihad, mas porque eles foram desenraizados pelo capitalismo, pelo colonialismo e por guerras importadas do Ocidente, e são recebidos como uma fonte de mão-de-obra pelos capitalistas ocidentais. Isso, por sua vez, leva a direita alternativa a abraçar figuras como Geert Wilders ou movimentos como a Liga de Defesa Inglesa, que atacam o Islã sem dizer uma única palavra sobre o sionismo ou o capitalismo. Eles saboreiam perversamente relatos extravagantes de estupros e assassinatos por imigrantes. Eles confundem os sintomas do problema, fundamentalmente a imigração, com suas causas raízes: a interferência americana e sionista no Oriente Médio. Alguns, ainda que certamente não todos, na direita alternativa tem chegado ao ponto de afirmar que Israel é um Estado nacionalista étnico modelo e um bastião da civilização ocidental contra o Islã. Porém, eles nem consideram por um momento o que a civilização ocidental significa hoje. Eles se aliariam a feministas, homossexuais, liberais e sionistas contra o Islã meramente porque o Islã condena esses traços que se permitiu enraizar no Ocidente. Nesse caso, eu recomendaria que eles consultassem o pensador italiano radical Giorgio Freda, que disse aos nacionalistas que quisessem defender a "civilização europeia":

"Temos falado em termos de 'civilização europeia', sem nem mesmo arranhar a superfície dessa expressão e sem verificá-la, indo às profundezas do problema: se existe, em realidade, uma civilização europeia homogênea, e quais são os coeficientes autênticos de seu significado à luz de uma situação histórica global na qual a guerrilha latino-americana adere muito mais proximamente a nossa visão de mundo do que o espanhol vassalo de padres e dos EUA; onde o povo guerreiro do Vietnã do Norte, com um estilo heróico, sóbrio, espartano está muito mais perto de nossa concepção da existência do que o trato digestivo italiano, ou o francês ou alemão do Ocidente; onde o terrorista palestino está muito mais perto de nossos sonhos de vingança do que o inglês judaizado (europeu? eu duvido)".

Dançando ao som dos slogans neoconservadores e sionistas de "defender valores ocidentais", a direita alternativa se alinhou com os elementos mais tóxicos dentro da civilização ocidental, os elementos emblemáticos da própria decadência cultural que eles atacam. É absurdo que a direita alternativa subitamente passe de atacar essas coisas para defendê-las quando são atacados por outra cultura. Ao invés de atacarem as raízes do problema, eles atacam apenas seus sintomas, e preparam o palco para mais caos no Oriente Médio e Europa.

E para coroar isso tudo, todas essas posições da direita alternativa são articuladas das maneiras mais imaturas e cruas imagináveis. O influxo maciço de pessoas de fóruns virtuais, como o /pol/ do 4chan, no milieu da direita alternativa deu uma coloração de "calouro" a seu discurso. Ao invés de bons argumentos, memes e slogans abndam, muitas vezes de péssimo gosto. Eles ridicularizam negros usando os estereótipos mais banais, ao invés de tentarem instilar um senso de nacionalismo negro que ajudaria na revolta nacionalista contra o liberalismo. Eles se referem a políticos que eles consideram insuficientemente conservadores como "cornos" ou "cornoservadores", se referindo de maneira bastante freudiana a esse fenômeno sexual. A terminologia sexual grosseira continua com referências a esquerdistas como "consolos" e afirmando que pessoas que passaram para o lado liberal foram "carimbadas", se referindo à infecção por HIV por via anal. Isso, é claro, tem apelo com crianças rebeldes, e amplia sua base de apoio entre elas, já que ler livros sérios e desenvolver ideias plenamente articuladas tem apelo entre uma porção cada vez menor da população. Porém, nenhum intelectual sério pode entreter uma ideologia baseada em piadas internas subculturais virtuais, sem contar a vasta maioria da população em geral. Como pode um trabalhador desempregado que teve seu ganha-pão destruído pela globalização e pela imigração pensar que a ideologia dessa claque virtual tem algo a lhe oferecer? É risível que a direita alternativa afirme ser a voz do populismo nacionalista. Ao contrário, quando a direita alternativa consegue ser mencionada pela mídia hegemônica, ela é usada como uma vara curta por liberais para atacar as preocupações legítimas de trabalhadores, que obviamente não tem nada a ver com isso, em relação a imigração associando-os com uma subcultura tão quixotesca quanto essa. As preocupações há muito ignoradas dos trabalhadores e patriotas merecem supostos porta-vozes melhores do que capitalistas adolescentes pueris que estão preocupados com que a imigração ameace seu neoliberalismo.

A direita alternativa não conseguiu desenvolver ideias novas e revolucionárias. No pior dos cenários, ela ameaça macular a causa do populismo nacionalista e se tornar um bicho-papão usado por liberais apenas para deslegitimar preocupações com imigração, identidade nacional e globalização. Nós devemos nos perguntar como podemos melhorar a qualidade do discurso. Em um nível bastante básico nos EUA, nós podemos ampliar o conhecimento sobre a verdadeira herança populista nacional, aquela que desafiou tanto o liberalismo social quanto o liberalismo econômico. Nós podemos nos referir aos velhos líderes sindicais que se opunham à imigração tal como Denis Kearney, e o autor socialista clássico americano Jack London. Nós podemos olhar para figuras da década de 30 como Ezra Pound e o Padre Charles Coughlin, que se opunham à usura. Ademais, nós podemos ampliar nossas mentes lendo a obra de figuras nacionalistas anticapitalistas ao longo da história do planeta, que podem ser encontradas entre movimentos como a Revolução Conservadora e a Noda Direita europeia. Também, nós podemos ousar até fazer análises nacionalistas de movimentos tipicamente considerados de esquerda, desenvolvendo sínteses ideológicas e buscando bases comuns, assim ampliando nosso apelo para esquerdistas que similarmente sentem o chamado da identidade nacional.

Finalmente, nós devemos começar a construir movimentos sérios e desenvolver think-tanks que produzam ideias sérias ao invés de memes. Precisamos começar a olhar para fora do sistema e dos confis do conservadorismo simplista americano e da regurgitação de ideias defuntas. Precisamos ver que a restauração da soberania nacional implica a restauração do controle econômico para o povo, não para corporações globais ou grandes empresários que podem voar para algum paraíso fiscal. Precisamos nos tornar autenticamente, intransigentemente revolucionários. Precisamos desenvolver a coragem de atravessar barreiras ideológicas impostas pela classe governante, encontrar a coragem de cruzar o abismo e a vontade de encarar ideias verdadeiramente radicais. Libertar a nação não é uma tarefa fácil. É uma tarefá que demandará imenso sacrifício, uma disciplina espartana, e um desprezo pela política convencional. Certamente, haverá os negadores que estarão contentes em pular na última campanha eleitoral na esperança de poderem resolver todos os nossos problemas com legislação. Haverá as massas de ideólogos perplexos enfeitiçados nas falsas dicotomias do sistema que reagirão com ira incoerente quando fronteiras ideológicas forem apagadas. Ainda assim, nossa grande tarefa está aí, e nós não vamos ser abalados.

Eu gostaria de convidá-los para participarem de uma nova iniciativa: a formação do Instituto para Estudos Nacional-Revolucionários. Por todo o mundo, a ideologia de revolução nacional, onde uma sede por justiça econômica e um senso profundo de identidade nacional se encontram, tem assumido muitas formas, mas essa corrente permanece ignorada no mundo anglófono. É agora, neste momento, quando a sobrevivência de nosso povo está sob risco, que essa luta deve começar. O futuro será nosso, ou não teremos futuro.