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28/10/2016

Javier Iglesas - Juan Domingo Perón e o Socialismo Nacional

por Javier Iglesias



Nota: O autor do texto, de origem espanhola e falangista, era dirigente do peronismo, líder do Movimento dos Sin Techo (Sem Teto) de Buenos Aires, em setembro de 1996, foi assassinado na capital argentina em uma emboscada pela Policia Menemista.

Introdução

As realizações e conquistas sociais do peronismo em sua primeira etapa de governo (1946-1955) são tantas e tão importantes que, entre os próprios seguidores do dito movimento, é comum entre os próprios seguidores de dito movimento interpretá-las como o fruto de uma revolução totalmente realizada, uma espécie de ‘’Idade de Ouro’’ dos trabalhadores e do povo argentino, que  com algumas variações de detalhes, podem e devem recuperar mediante a organização e a luta.

Paradoxalmente essa versão do peronismo como uma revolução ‘’concluída’’ que deve ser repetida e se recuperar, não coincide, minimamente, com o que pensavam aqueles que a levaram a cabo no passado, nem muito menos e em especial, com os planejamentos do próprio General Juan Domingo Perón. Para todos eles, a riquíssima experiência política, econômica e social do período de 1943-1955 é apenas o início de uma transformação revolucionária muito mais profunda e, no que concerne a economia, o verdadeiro começo da gradual socialização dos meios de produção. 

Que esse objetivo de socialização é afirmado explicitamente e desde um princípio por importantes setores do movimento peronista, pode provar-se com a simples leitura dos estatutos da CGT aprovados em seu congresso extraordinário de abril de 1950. Em seu preâmbulo (NT: relatório que antecede uma lei ou decreto), depois de afirmar que ‘’A Doutrina Peronista magistralmente exposta por seu criador, o General Perón, define e sintetiza as aspirações fundamentais dos trabalhadores argentinos e lhes aponta a verdadeira doutrina, com raiz e sentido nacional, cuja ampla e leal aplicação há de forjar uma Pátria justa, livre e soberana’’, fundamentam essa definição ideológica no fato de que:

‘’O Processo de realização tende à gradual socialização dos meios de produção e por sua vez impõe ao proletariado o dever de participar e gravitar desde o terreno sindical para fortalecer as conquistas da Revolução Peronista, para consolidá-los no presente e alargá-las no futuro.’’[1]

A inequívoca definição do Movimento Operário Argentino – qualificado habitualmente pelo General Peron como a ‘’coluna vertebral’’ do peronismo - não é, por outro lado, uma simples declaração setorial. Em uma ocasião tão importante como o 1º de maio de 1952, em seu discurso direcionado aos legisladores argentinos como motivo da inauguração do 86º período ordinário de seções do Congresso Nacional, o próprio Líder Justicialista afirma bruscamente:

‘’Assim como a classe de homens que trabalham vai subsistindo aos representantes do individualismo capitalista no panorama politico, também a classe dos homens que trabalham vai substituindo progressivamente as empresas individualistas, com as novas organizações do tipo cooperativo. Isso significava que os trabalhadores, pela natural evolução econômica de nosso sistema, vão adquirindo progressivamente a propriedade direta dos meios capitais de produção, do comércio e da indústria. Este caminho, pelo qual avançam os trabalhadores argentinos, tem um longo, mas fecundo, percurso e possibilitará o acesso do povo à sua própria economia. O velho ideal do povo, com a plena posse de seus direitos políticos, sociais e econômicos, se realizará então, e naquele momento a justiça social alcançará o ápice de seus objetivos totais e a doutrina peronista será a mais bela e absoluta das realidades.’’[2]

Que o peronismo fundacional aspirava á total socialização dos ‘’bens capitais de produção, do comércio e da indústria’’ resulta, então, irrefutável, mais além do ritmo dessa socialização; ritmo que, como eé natural, depende mais da mutante relação de forças nacional e internacional que das questões ideológicas ou esquemas teóricos de salão. 

Terceira Posição

Quando, a partir dos próprios textos peronistas, afirmamos que o peronismo aponta para a socialização dos meios de produção, estamos coincidindo com a acusação do ‘’nacionalismo’’ fascistizante e antiperonista segundo o qual o justicialismo seria ‘’um movimento que sai do capitalismo e caminha para o comunismo’’? [3] Obviamente não. Os criadores da Doutrina Peronista sempre salientaram seu caráter de ‘’Terceira Posição’’; porém, seus postulados anticapitalistas, diferentes dos do coletivismo totalitário e burocrático marxista. No discurso já citado em 1º de maio de 1952 é também Perón o que realça magistralmente esse ‘’terceirismo’’ econômico peronista:

‘’Para o capitalismo a renda nacional é produto do capital e pertence ineludivelmente aos capitalistas. O coletivismo crê que a renda nacional é produto do trabalho comum e pertence ao Estado, porque o Estado é proprietário total e absoluto do capital e do trabalho. A doutrina peronista sustenta que a renda do pais é produto do trabalho e pertence, portanto, aos trabalhadores que a produzem. ’’[4]

O peronismo não confunde, portanto, socialização com estatização. É anticapitalismo mas pretende, diferentemente do marxismo, não entregar os meios de produção a um gigantesco Estado-Patrão ditatorial, mas diretamente aos próprios trabalhadores. Se trata de uma concepção com muita semelhança com o que será conhecido como ‘’socialismo autogestionário’’[5] ainda que também se possa considerar as posições do anarcossindicalismo e do ‘’sindicalismo revolucionário’’ europeu anterior à Segunda Guerra Mundial, algo que vem tendo destaque em recentes estudos ideológicos imparciais como o de Cristian Buchruker: ‘’Mais que do socialismo clássico, o peronismo em gestação adotou ideias fundamentais do anarcossindicalismo hispano-francês, o qual já tinha uma tradição não negligenciável no sindicalismo argentino. Se trata aqui de duas exigências. a) o protagonismo político direto do sindicato (não por mediação do partido) sobretudo através da greve geral como instrumento de ação; e b) O objetivo distante de uma administração dos meios de produção pelos próprios sindicatos." [6]

Pós-Marxismo Revolucionário

Deve se destacar, por outro lado, que o ‘’terceirismo’’ peronista não implica necessariamente "equidistância" em respeito ao capitalismo e ao comunismo. Isso foi esclarecido por Perón: ‘’pensamos que tanto o capitalismo como o comunismo são sistemas já superados pelo tempo. Consideramos ao capitalismo como a exploração do homem pelo capital e o comunismo como a exploração do indivíduo pelo Estado. Ambos ‘insetificam’ à pessoa mediante sistemas distintos. Acreditamos em mais; pensamos ainda, que os abusos do capitalismo são a causa e o comunismo o efeito. Sem capitalismo, o comunismo não teria razão de ser, acreditamos igualmente que, desaparecida a causa, se daria o processo de desaparecimento do efeito. ’’ [7]

Quer dizer, o objetivo do peronismo não é outro que fazer desaparecer o capitalismo, a causa de todos os problemas econômicos, políticos e sociais, o que, por si mesmo, impedirá que surja um ‘’efeito’’ indesejado: o capitalismo estatal ‘’insetificante’’ comunista. Essa distinção é de grande importância porque hoje,  perante a passagem das burocracias ex-comunistas da URSS e da Europa para o bando capitalista encabeçado pelos arquibandidos ianques, não faltam flautista suspostamente ‘’peronistas’’ que declaram ‘’superada’’ a Terceira Posição e ‘’recomendam’’ a ‘’aceitação do triunfo capitalista’’ A esses provedores de álibis de hesitação e do mais infame renunciamento convém repassar os luminosos pensamentos de Perón e da companheira Evita: ‘’O peronismo não pode confundir-se com o capitalismo, com o qual não tem nenhum ponto em comum. Isso é o que viu Perón, desde o primeiro momento. Toda a sua luta pode se reduzir a isso: No campo social, lutar contra a exploração capitalista.’’[8]

O Peronismo, por tanto, se enfrenta implacavelmente ao capitalismo independentemente de o comunismo existir ou não. Sua rivalidade com o marxismo é no terreno da eficácia revolucionaria: ver quem consegue derrubar finalmente ao injusto sistema capitalista. Daí as orientações precisas do General Perón: ‘’Nós somos a cabeça do movimento nacional revolucionário. A nenhum partido ou movimento deve permitir colocar-se em uma atitude mais 'revolucionaria' que a nossa. O dia em que isso ocorrer, teríamos perdido nossa ‘razão de ser’ como movimento, ao sermos substituídos na condução popular. Aos justicialistas que se coloquemm em atitudes ‘conformistas’’ ou ‘conciliadores’ para com o sistema imperante em nossa pátria, há que expulsá-los do Movimento sem ilusões. São inimigos do povo e, portanto, nossos inimigos’’ [9]

A deserção das cúpulas marxistas, quer sejam socia-democratas ou comunistas, da frente revolucionária à qual supostamente pertenciam, resolve na prática o pleito entre o peronismo e o marxismo ao provar que o único anticapitalismo e anti-imperialismo possível na atualidade é o corporizado nos Movimento Nacional-Populares e Terceiristas de Liberação: autêntico peronismo argentino, bolivarianos da Venezuela, fundamentalismo revolucionário islâmico das nações e povos muçulmanos, resistência torrijista armada no Panamá, etc. Os escassos núcleos, que com melhores desejos que resultados, ainda estão tentando manter o apego à velha liturgia comunista tradicional, antes ou depois abandonarão as murchas e superadas bandeiras do comunismo para integrar-se plenamente às pujantes forças do nacionalismo popular revolucionário da Terceira Posição. 

Processo de Socialização

Sendo o General Perón o condutor de um processo revolucionário real e não um utopista de gabinete, é logico que o largo processo de sua produção teórica mais que dedicar-se a teorizar sobre a sociedade futura se concentra nos problemas práticos de um governo de libertação nacional e social, ou, após a contrarrevolução oligárquica de 1955, na luta concreta para a recuperação do poder por parte do povo argentino. Isso não significa que o processo de socialização advogado seja tão a longo prazo que se converta em uma simples e inoperante expressão de desejos ou fórmula retórica. Na verdade, o líder máximo justicialista expõe de forma constante e repetidamente as fórmulas especificas que, a seu juízo, revestirá esse processo de socialização não-estatista. Uma interessante contribuição doutrinaria nesse sentido é o vertido em uma longa conferência concedida em 1970 ao jornalista uruguaio Carlos Maria Gutierrez, correspondente do jornal Prensa Latina. Diante da pergunta, "Você crê que teria que chegar, no caso da tomada do poder, à destruição de estruturas burguesas; digamos, da livre imprensa, para empregar o termo corrente? Ir mais além do que se passou entre 1950 e 1955?" Perón responde sem a menor dúvida: ‘’Nós estávamos fazendo, mas estávamos fazendo através de um sistema. Que já havia empresas... As cervejarias do pais estavam todas nas mãos de uma cooperativa do sindicato de cervejeiros. Eu pensava fazer o mesmo com as ferrovias, enquanto suprimia o déficit; entregá-los ao sindicato dos ferroviários. E havia fábricas, como ... da Lanera del Sur ... a ... não me recordo como se chamava, que já estavam sob esse sistema.

A concepção é essa: um promotor de empresa emprega cem milhões para promover uma empresa. Até que ele tenha retirado esses cem milhões, mais seus juros, essa empresa deve ser exclusivamente dele. Mas quando haja retirado seu capital, acrescido de juros razoáveis, essa empresa já não é dele, é de todos que trabalham lá. Essa é a concepção cooperativista da empresa. Por esse sistema, você vai levando tudo na direção de cooperativas; cooperativas onde trabalham patrões, trabalhadores e todos, mas que trabalham na produção.
Agora se isso não acontecer com todas as empresas, o Estado, no final terá que assumir o controle daqueles onde não tenha se realizado.’’[10]

Se trata de uma citação tão extensa quanto instrutiva que nos mostra um modo (não o único proposto por Perón) de chegar gradualmente e sem derramamento de sangue à entrega dos bens de produção aos trabalhadores; realça a concepção cooperativista-sindical desse processo de socialização e, por sua vez, recupera exemplos concretos com os quais o peronismo no poder avançou nessa direção. 

Cooperativas e Peronismo 

A concepção das formas cooperativas de propriedade como um dos meios principais de socialização não-estatista da economiaé lógica ‘’porque, como destaca Perón, é um ideal justicialista que todo o processo econômico caia em mãos dos ‘homens que trabalham’ e o sistema cooperativo tende a isso’’[11]

Que não se trata de uma mera declaração retórica salta à vista se comparamos, por exemplo, as cifras relativas ao cooperativismo argentino entre 1946 e 1951. Entre essas datas, o número de cooperativas passa de 1.299 a 2.400, o número de associados de 500.000 a 800.000, o capital subscrito (em milhões de pesos) de 95 a 350, e as operações efetuadas (também em milhões) de 361 a 2.000. Ou dito de outra forma: Em apenas cinco anos o setor cooperativo aumenta em 100% em seu número, em 60% em associados, em 260% de capital subscrito e em 440% as operações realizadas.

Esse gigantesco salto se aprofunda mais a partir de 1952 e, sobretudo, com a promulgação do Segundo Plano Quinquenal. Em sua exposição de 1º de maio desse ano, O General Perón mostra essa linha estratégica na economia: ‘’As cooperativas agrárias tem merecido nosso total apoio, como que elas são, na economia social da doutrina peronista, unidades de ação econômica que realizam o acesso dos homens que trabalham à posse total do instrumento e dos frutos de seus esforços. A ajuda em crédito fornecida às cooperativas alcançou em cinco anos a soma de 1.000 milhões de pesos e seguem em progressivo aumento. Assinalo como norma definida para o futuro a de preferir no crédito às organizações cooperativas sobre as empresas de caráter individual. Chegaremos progressivamente a deixar em mãos da organização cooperativa agrária todo o processo econômico da produção. Não deve haver no país um so agricultor que não seja cooperativista, porque a organização cooperativa é para o trabalhador agrário o que a organização sindical é para o trabalhador industrial, sem que isso signifique que a indústria não possa se organiza de forma cooperativa.’’ [12]

A cooperativização-socialização total dos meios de produção é, portanto, um objetivo explícito do peronismo. Essa cooperativização se concentra em um princípio sobretudo no terreno agrário, por ser essa uma área econômica de mais fácil socialização e onde, ademais, existe uma notável tradição de organizações cooperativas antes do Justicialismo, mas se expande para atingir o fim assinalado pelo General Perón: ‘’As cooperativas como unidades básicas justicialistas para a organização nacional da produção, da indústria e do comércio.’’ [13]

Estado Revolucionário

A defesa que o peronismo faz do modelo cooperativo de organização econômica, não pode nem deve confundir-se com as fantasias reformistas que sobre as cooperativas tem grupos pequeno-burgueses como os diversos destacamentos do Partido Socialista do reputado gorila Juan B. Busto. O Movimento Nacional de Liberação criado por Perón, ao contrário dos ditos grupos social-democratas, sabe que, embora pareça um truísmo recordá-lo, o sistema capitalista está criado para que triunfem os capitalistas e, portanto: ‘’Os fracassos do cooperativismo, em tempos de economia capitalista, são explicáveis e perfeitamente lógicos: uma cooperativa, expoente perfeito de economia social, não podia conciliar seus interesses nem podia enfrentar-se com os monopólios do capitalismo’’ [14] Para evitar isso faz falta um ordenamento político e social, um Estado, que comande as ‘’regras do jogo’’ capitalistas e as substitua por outras do tipo revolucionário, popular, anticapitalista e pró-cooperativista, haja vista que ‘’sem dúvidas o movimento cooperativo não pode ir adiante sem o apoio do Governo. Em todas as partes do mundo as cooperativas tem fracassado quando tiveram contra si o Governo. ‘’ [15]

Especificamente, isso significa:

1º) Arrebatar da oligarquia o controle sobre os setores fundamentais da economia. Segundo a constituição justicialista de 1949, em seu artigo 40, esses setores fundamentais são a importação e a exportação, minerais, quedas de agua, jazidas de petróleo, de carvão e de gás, e as demais fontes naturais de energia, com exceção dos vegetais, assim como os serviços públicos. Corresponde sua propriedade, em um princípio, ao Estado ainda que, como vimos, a medida que avança o processo revolucionário parte dessas atividades pode passar as mãos dos trabalhadores do setor por meio de suas cooperativas operárias ou sindicatos. É possível também, como mostra o casa SEGBA, a existência de formas intermediarias de cogestão operário-estatais assim como empresas com sua condução em três partes: Estado-Trabalhadores-Usuários.

2º) Uma planificação indicativa que, sem cair nos erros centralistas burocráticos da planificação do tipo estatista-comunista, impeça que com o velho conto do ‘’livre mercado’’ acabem manipulando a economia um punhado de grandes empresas estrangeiras ou nativas. ‘’A ostentada ’liberdade de economia’ não passou nunca de uma ficção, desde que, à economia ou o Estado dirige ou fazem, em seu lugar, grandes consórcios capitalistas, com a diferença que o primeiro pode fazê-lo em beneficio do povo; no entanto, esse ultimo normalmente faz em seu prejuízo." [16]

3º) Formas de apoio direto do Estado às cooperativas e empresas sindicais, o que inclui desde o apoio em crédito preferencial ate a contratação direta por parte do Estado naquelas tarefas que normalmente fica pela conta de empresas capitalistas. Aqui convém recordar uma afirmação direta do General Perón aos membros do Comitê Central e delegados regionais da CGT que visitaram a residencial presidencial de Olivos em 9 de agosto de 1950: ‘’O Governo está disposto a dar às cooperativas operarias a oportunidade para que façam negócios que lhes permitam ganhar muito dinheiro: em lugar de dá-las, como se fazia antes, a entidades capitalistas.’’

4º) O combate ideológico contra sobrevivências da mentalidade burguesa individualista, promovendo a consciência de formas de economia social e cooperativa, especialmente entre os jovens. O segundo plano quinquenal, por exemplo, em seu parágrafo IV.G.14 sustenta:  ‘’A difusão dos princípios de cooperativismo e da constituição de cooperativas escolares e estudantis serão patrocinadas pelo Estado a fim de contribuir na formação da consciência nacional cooperativista e prestar serviços úteis aos alunos.’’ [17]

Socialização Integral

Quando anteriormente recordávamos que para o General Perón as cooperativas deviam tender a se converter nas ‘’unidades básicas justicialistas para a organização nacional da produção, da indústria e do comércio’’, fica claro que a socialização-cooperativização que o peronismo propunha não se reduz ao nível de cada empresa ou unidade econômica de produção. Isso porque apesar da entrega de todas as empresas para seus próprios técnicos e trabalhadores organizados em cooperativas, impedir tanto a exploração do homem pelo homem (capitalismo), como la exploração do homem pelo Estado (comunismo), nem por isso resolve todos os problemas da economia. Para começar, não assegura a igualdade de oportunidades posto que existem setores econômicos mais produtivos que outros e, dentro de cada setor econômico, empresas maiores e menores, mais modernas e mais atrasadas, etc. Tampouco se garante uma real solidariedade nacional desde o momento em que essas empresas cooperativadas se desenvolvem no marco de uma economia de mercado necessariamente se provocará uma brutal competição entre as empresas, considerando cada coletivo operário ou cooperativa um rival na busca pelo beneficio a outros coletivios operários cooperativos.

Para evitar esses possíveis efeitos negativos o General Perón  impulsiona cooperativas não isoladas mas sim a ‘’universalização da organização cooperativa’’ [18] mediante a Federação de Cooperativas de cada ramo de produção. Estas, estruturadas democraticamente e de baixo para cima, permitem que cada empresa seja comandanda de um modo direto e sem burocracias externas por seus próprios técnicos e trabalhadores, mas, por sua vez, criam canais solidários de redistribuição dos benefícios gerais para apoiar aquelas cooperativas operarias associadas que, por diversas razoes, tem que sofrer desvantagens objetivas alheias ao trabalho ou à gestão de seu coletivo de trabalho: implantação em províncias distantes do circulo comercial, os desastres naturais ...

Há que destacar que, como detalha Perón em 13 de outubro de 1952 em uma exposição ante representantes das cooperativas agropecuárias, essas Federações de Cooperativas não englobam só a um ramo econômico mas, ao contrário, participam de um modo direto em todo o processo produtivo e de comercialização. No caso das próprias cooperativas agrarias, Perón propunha concretamente os seguintes campos de ação. ‘’O governo aspira a que as cooperativas agropecuárias constituam as unidades básicas da economia social agrária e participem, primeiro: no processo colonizador e na ação estatal tendente a conseguir a redistribuição da terra em unidades econômicas sociais adequadas. Segundo: que participem no processo produtivo mediante a utilização racional dos elementos básicos do trabalho agropecuário: maquinaria agrícola, galpões ferroviários, silos, elevadores de grãos, sementes, etc, etc. Terceiro: que participem também no processo interno de comercialização das colheitas seus associados, para o que o Estado auspiciará o acesso dos produtores organizados aos centros de consumo, mercados oficiais, etc. Quarto: que participem no processo de industrialização regional primária da produção agropecuária de seus associados. Quinto: que participem na ação estatal para suprimir toda intermediação comercial desnecessária. Sexto: que participem na fixação de preços básicos e preços diferenciais que se fixarão a favor das cooperativas agropecuárias. Sétimo: que participem na redistribuição das margens de lucros que sejam obtidas com a comercialização. Oitavo: que participem da ação social direta a cumprir-se integralmente em benefício dos produtores agropecuários: e por último, o Estado auspiciará a organização de um sistema nacional unitário de cooperativas de produtores agropecuários que representem todos os produtores do país e defenda os seus interesses econômicos e sociais." [19]

Se trata, portanto, de uma estruturação integral da economia que, partindo das cooperativas autônomas e descentralizas, engloba o processo de produção em seu conjunto, racionalizando esse mesmo processo produtivo, abaixando custos e impedindo que cada setor da cadeia produtiva e da comercialização compita com os outros. Como disse o Líder Justicialista ‘’O Governo está disposto a prestar a ajuda mais extraordinária para que as cooperativas criem suas próprias fabricações de ferramentas e máquinas agrárias.’’ ,[20] está tudo dito. Cada Federação de Cooperativas ou ‘’Sistema Nacional Unitário de Cooperativas’’ além de englobar a todas as cooperativas desse setor econômico, coordena o processo de produção em seu conjunto: desde a produção propriamente dita à comercialização, passando pelo transporte e até a fabricação de bens e elementos necessários. 

Empresas Sindicais

As cooperativas federadas não são o único método de socialização impulsionado pelo peronismo. Na já citada entrevista concedida pelo General Perón a Carlos Maria Gutiérrez, o criador do peronismo menciona um tipo especial de cooperativas: a cooperativa de sindicatos. Nessas, a coordenação das distintas empresas cooperativadas se dá mediante uma organização sindical que, de um modo natural, alcança a todo o ramo de produção. Se alcança assim a velha tese do sindicalismo revolucionário, que tanto influência tivera no Movimento Operário pré-peronista, e que desde  a carta de Amiens (1916) havia proclamado que ‘’o sindicato atualmente nada mais é que um grupo de resistência, será no futuro responsável pela produção e distribuição, bases da organização social.’’[21] Como esse modelo de cooperativização sindicalista é mais fácil de aplicar na indústria, setor mais importante da economia argentina, e por isso mais lógico que seja esse mesmo modelo que tenda a predominar no ideal peronista de tal maneira que Perón chega a definir ao Estado Peronista futuro como um ‘'Estado Sindicalista’’ [22].


As cooperativas ou empresas sindicais tem sido às vezes denominadas também como ‘’Empresas Comunitárias’’. Em ‘’Fundamentos de Doutrina Nacional Justicialista’’, texto da ‘’Escola Superior de Condução Política Do Movimiento Justicialista’’ se define da seguinte forma a Empresa Comunitaria:

‘’Considerada em seu aspecto funcional, a empresa é uma comunidade hierarquizada de produtores, diversamente especializados, que mantem esforços para fabricar determinado artigo ou prestar determinado serviço, valendo-se para isso das ferramentas ou máquinas que impõe a técnica moderna. Considerada, pelo contrario, em seu aspecto legal, essa mesma empresa não passa, hoje em dia, de um mero capital que compra máquinas, matérias primas e trabalho. Pura ficção,. Pois se com um golpe de uma vara magica se suprimir os donos do capital, a empresa seguirá funcionando sem a menor perturbação, enquanto que ela pararia e desapareceria se fossem eliminados os produtores. Não basta, portanto, melhorar o nível de vida do proletariado. Não basta dar ao produtor o lugar que lhe corresponde na Comunidade. Não resolve nada mudar o sistema capitalista substituindo a oligarquia burguesa por uma oligarquia burocrática. O que faz falta é abolir o trabalho assalariado, devolvendo a empresa, apreendida em sua realidade orgânica, a possessão e, se possível, a propriedade de seu capital, assim como a livre disposição do fruto de seu trabalho. Qualquer ente social, indivíduo, grupo ou comunidade, tem o direito natural de possuir os bens que são imprescindíveis para subsistir e realizar-se plenamente. O município, por exemplo, tem naturalmente direito à propriedade da via pública ou da rede de iluminação. O municipio em si, não a soma de seus habitantes. Quando alguém vem instalar-se em uma cidade, não tem que comprar parte da rua ou da vizinhança, nem tem que vendê-la quando parte. A empresa é também um ente social independente de seus integrantes individuais do momento. É ela que tem que ser dona de seu capital, o qual encontrará e usufrutuará o produtar ingressante e deixará para um sucessor o produtor egressante. Isso vale tanto para a empresa industrial como para a empresa agropecuária. Os reformistas pequeno-burgueses que querem lotar as unidades orgânicas de nosso campo fomentam o minifundio e a miséria. A terra deve ser dos que trabalham nela, como as máquinas de quem trabalha com elas. Tal principio não supõe, em absoluto, o parcelamento da propriedade dos intrumentos de produção, mas a supressão da propriedade individualista dos bens que outros, indivíduos ou grupos, necessitam. Ou seja la supressão do parasitismo em todas as suas formas. Eliminando o parasitismo capitalista, as classes desaparecerão ‘ipso facto’. Não haverá mais burgueses nem proletários, mas sim produtores funcionalmente organizados e hierarquizados em suas empresas. O grêmio irá, em seguida, perder o caráter classista que impôs uma luta necessaria cuja responsibilidade não porta e voltará a se converter em uma federação de empresas comunitárias, com o patrimônio assistencial de que necessita e os poderes legislativo e judicial que definirão os seus foros. Em cada grêmio, um banco distribuirá o crédito entre empresas, no marco da planificação e da gestão econômica do Estado Nacional. A Revolução Justicialista não busca, pois, chegar a uma composição entre capitalismo individualista e o capitalismo de Estado, nem 'melhorar as relações entre capital e trabalho’. Repudia integralmente qualquer forma de exploração do homem pelo homem  e quer voltar, em todos os campos, à ordem social natural. Esse é o sentido de nossa terceira posição.’’ [23]

As cooperativas sindicais ou empresas comunitárias, portanto, coincidem com as cooperativas ‘’tradicionais’’ em que a propriedade não pertence a um capitalista individual burguês ou ao Estado-Patrão, mas, ao mesmo tempo, se diferencia dessas mesmas cooperativas no que a propriedade não é divisível porque ela pertence inteiramente à comunidade de trabalho de técnicos e trabalhadores que as compõem, Além disso, mais uma vez, voltamos a enfatizar isso, a solução peronista não é só a nível microeconômico (socialização da empresa), mas também ao nível macroeconômico (socialização global da economia).

Condução Econômica da Nação

O que denominamos socialização "global" ou "integral" da economia é outro dos traços que diferencia o peronismo tanto do capitalismo como do comunismo. Para o General Perón:

"A doutrina econômica que sustentamos estabelece claramente que a condução econômica de um país não deve ser realizada individualmente, que isso conduz à ditadura econômica dos trustes e monopólios capitalistas. Tampouco deve ser realizada pelo Estado, que converte a atividade econômica em burocracia, paralisando o jogo de seus movimentos naturais. O justicialismo, sempre em sua terceira posição ideológica, sustenta que a condução econômica da Nação deve ser realizada conjuntamente pelo governo e pelos interessados, que são os produtores, comerciantes, industriais, os trabalhadores e ainda os consumidores; vale dizer, pelo governo e pelo povo organizado! Enquanto isso não se realize plenamente, o governo cometerá os erros próprios de toda condução unilateral e arbritrária por mais boa vontade que tenha". [24]

Estas indicações, que se referem à etapa de transição do peronismo (quando ainda existe um importante setor econômico privado), não pressupõem, nem muito menos, que o Líder da Revolução Final argentine oculte o objetivo final anticapitalista de seu projeto. Daí que, em continuação ao anterior, esclareça:

"Nós queremos compartilhar com os interesses privados a condução econômica da República, mas exigimos que estes interesses se coloquem na linha peronista que aponta para nossos dois grandes objetivos econômicos: a economia social e a independência econômica, porque eles são mandato soberano que o povo nos impôs e que nós temos que cumprir de qualquer maneira: com a colaboração das forças econômicas se possível, ou enfrentando-as, se elas não quiserem compartilhar conosco o mandato do povo soberano. Nessa terra não reconhecemos, senhores, mais que uma só força soberana: a do povo. Todas as demais existem para servi-la. Qualquer um que tente inverter este valor fundamental está, só por isso, atentando contra o primeiro, básico e essencial princípio do peronismo; atenta, portanto, contra o povo e está, de outra parte, fora da Constituição Nacional que rege o rumo da República (...) É necessário que ninguém seja levado ao engano: a economia capitalista não tem nada a ver com nossa terra. Seus últimos redutos serão, para nós, objeto de implacável destruição". [25]

A conclusão é que, seja com a participação das organizações empresariais (na etapa de transição) ou sem elas (quando o peronismo tiver conquistado seu objetivo econômico de entregar os meios de produção aos próprios trabalhadores auto-organizados), existe uma planificação democrática e indicativa na qual participam o governo, os trabalhadores (mediante os sindicatos, federações de cooperativas e de empresas comunitárias), organizações de usuários de serviços e consumidores e todo tipo de organizações livres do Povo. Se evitam assim os erros burocráticos de uma planificação burocrática e ultracentralizada como a comunista e, por outro lado, se dá uma margem de manobra relativamente grande para o mercado. [26]

Estado Sindicalista

Mas não só o Estado Justicialista vai delegando gradualmente funções econômicas nas organizações de trabalhadores. De fato, o peronismo aponta para a socialização da economia e do poder através do que essas mesmas organizações de trabalhadores, federadas democraticamente desde a empresa até subir a nível nacional, acabam assumindo a representação e controle político gradual do país: "A representação política tem uma função essencial a cumprir no jogo da verdadeira democracia que nós defendemos. Mas também sustento, como um princípio indiscutível que emana da experiência política dos últimos tempos, entre nós e no mundo inteiro, que tão essenciais quanto as organizações políticas são, no jogo da verdadeira democracia, as organizações sindicais. Não existe contradição em nossa doutrina quando afirmamos que este indubitavelmente é um momento de transição dos Estados políticos para os Estados de estrutura sindical (...) A afirmação do direito à cooperação com o governo do país que nós reconhecemos, defendemos e realizamos para as organizações sindicais não exclui o direito de nenhum outro argentino; mas na mesma medida em que todos os cidadãos do país vão integrando a única classe de argentinos que deve existir nessa terra: a classe de homens que trabalham, a representação política deixará de sê-lo no antigo e desprestigiado sentido da palavra, para adquirir o novo sentido peronista de sua dignidade". [27]

A socialização da economia e do poder, portanto, vão intimamente ligadas e, como sagazmente afirmará Perón em um texto de 1968, ambos aspectos não se podem jamais desligar já que, em última instância, os partidos demoliberais (instrumentos burgueses de deformação e controle da vontade popular) são uma consequência do capitalismo e, portanto, sem acabar com o capitalismo é impossível substituí-los por um novo e mais efetivo tipo de democracia dos trabalhadores: "Os que sabem 'confundir alhos com bugalhos' e são partidários de erradicar a política, querem tentar fazê-lo por decreto, sem se tocar que é muito difícil 'não matar ninguém por decreto' quando as causas seguem gerando seus efeitos, porque pouca importância tem a existência legal quando está subjugada a existência real. Para que desapareçam as entidades demoliberais, é preciso que antes desapareça o demoliberalismo. No mundo de nossos dias, ao desaparecer paulatinamente o sistema capitalista, vem desaparecendo também os partidos demoliberais, que são sua consequência. Resulta o mais anacrônico quando se atenta contra essas formações políticas enquanto por outro lado se trata de afirmar por todos os meios o sistema que os justifica. A intenção de deixar aos povos sem nenhuma representação não é nova, nem é original, porque todas as ditaduras o tentam, mas a História demonstra eloquentemente que, quando isso se produz, as consequências acabam sendo funestas para as próprias ditaduras que o promovem". [25]

Ao contrário do demoliberalismo capitalista e burguês, o peronismo busca "uma democracia direta e expeditiva" [29], mas a ela não se chega por ditaduras totalitárias de tipo fascista ou marxista, senão pelo aprofundamento dessa mesma democracia política e sua extensão ao terreno econômico mediante a socialização direta (e não estatista) dos meios de produção. Se trata, evidentemente, de um processo longo, complexo e gradual o qual, com sincera modéstia, Perón reconhece ter iniciado apenas os primeiros passos: "Entre o político e o social o mundo se encontra em um estado de transição. Temos a metade sobre o corpo social e a outra metade sobre o corpo político. O mundo se desloca do político ao social. Nós não estamos decididamente nem em um cmapo, nem no outro; estamos assistindo ao final da organização política e ao começo da organização social (...) Quer dizer, todo este processo vai se realizando. Eu não posso abandonar o partido político para substituí-lo pelo movimento social. Tampouco posso substituir o movimento social pelo político. Os dois são indispensáveis. Se essa evolução continua, nós continuaremos ajudando à evolução. Quando chegue o momento propício faremos um enterro de primeira, com seis cavalos, para o partido político e chegaremos a outra organização. Mas estamos em marcha rumo ao Estado Sindicalista, não tenham a menor dúvida". [30]

A democracia fabril e a autogestão da economia irá, portanto, substituindo gradualmente aos partidos políticos que não tem porque ser proibidos ou ilegalizados já que, deixados de lado pelos cidadãos-produtores, fenecerão e desaparecerão como cascas vazias.

Utopia Peronista?

Até que ponto pode chegar essa socialização da economia e do poder defendida pelo peronismo? De fato o General Perón, e com ele a maioria dos teóricos justicialistas, se negaram sempre a elaborar complexíssimas elucubrações sobre serem revolucionários e não utopistas ou futurólogos. Ademais: "A apelação à utopia é, com frequência, um cômodo pretexto quando se quer fugir das tarefas concretas e se refugiar em um mundo imaginário; viver em um futuro hipotético significa abandonar as responsabilidades imediatas. Também é frequente apresentar situações utópicas para fazer fracassar autênticos processos revolucionários. Nosso modelo político propõe o ideal não utópico de realizar duas tarefas permanentes: aproximar a realidade ao ideal e revisar a validade desse ideal para mantê-lo aberto à realidade do futuro". [31]

Desde essa perspectiva, desde a visão de um modelo "ideal" ao qual aproximar a realidade e a revisar sob a luz dessa mesma realidade, pode ser de certo interesse a descrição que do socialismo nacional peronista faz, na década de 70, a hoje desaparecida "Tendência Nacional e Popular do Peronismo":

"O socialismo nacional é o projeto dentro do qual o povo argentino exercerá um poder decisivo por si e diante de si nos níveis do Estado, da empresa e da universidade através do controle operário dos meios de produção, da comunicação e da educação. É um socialismo de autogestão no qual cada fábrica, cada oficina, cada laboratório, sala ou biblioteca se transforma em uma célula política com poder de crítica e de controle sobre a planificação nacional e a ação política interior e exterior. O socialismo nacional é a democratização absoluta do aparato informativo e a abertura integral da capacitação técnica à massa operária. É a formação de um partido capaz de emitir todos os impulsos ideológicos necessários para que em cada momento do processo o povo esteja presente, real e intensamente, na elaboração das spremas decisões nacionais. É a assembleia do povo que transforma estes impulsos em leis populares. É o Estado técnico-planificador que concentra toda a atividade informativa e prospectiva desde e para as estruturas sociais e econômicas descentralizadas. Socialismo nacional significa plena vigência da opinião comunitária através de conselhos de produção, serviços e educação. É a empresa sob controle do coletivo operário. É a universidade governada por professores revolucionários, investigadores e estudantes. É a aliança da universidade e da empresa socializada e submetida ao regime de autogestão. Socialismo nacional é, em suma, participação total, justiça para os trabalhadores e domínio do povo de todos os impulsos de ação política". [32]

Peronismo dos Trabalhadores

Críticas detalhistas à margem, o texto anterior pode ser considerado uma interessante aproximação a uma economia peronista plenamente realizada ainda que, voltamos a repetir, se no peronismo não abundam descrições detalhadas desse tipo é porque, em imitação a seu fundador, a tarefa essencial é impôr na prática um modelo político, econômico e social que parta da realidade atual para criar essa nova realidade. Uma realidade que, em um princípio, não é ainda socialista mas sim nacional e popular já que a Argentina pré-peronista (como reconhece o próprio Lênin em seu célebre "O Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo" [33]) era uma virtual "colônia comercial" britânica. Por isso mesmo, e sem necessidade de se basear em textos estrangeiros, Perón afirma taxativamente que a tarefa prévia de qualquer revolucionário não era e não é outra que conseguir quebrar essas correntes imperialistas e recuperar a autodeterminação nacional, seja frente ao imperialismo inglês do passado ou ao imperialismo ianque atual, que recolonizou a Argentina precisamente a partir da derrocada militar do Governo Popular Peronista em 1955: "A felicidade de nosso Povo e a felicidade de todos os povos da terra, exigem que as nações cuja vida constituem sejam socialmente justas. E a justiça social exige, por sua vez, que o uso e a propriedade dos bens que formam o patrimônio da comunidade se distribuam com equidade. Mas mal pode distribuir equitativamente os bens da comunidade um país cujos interesses são manejados desde o exterior por empresas alheias à vida e ao espírito do Povo cuja exploração realizam. A felicidade do Povo exige, pois, a independência econômica do país como primeira e incontornável condição!" [34]

Consequência lógica do caráter anti-imperialista da revolução argentina durante sua primeira etapa é que a contradição central não é "socialismo ou capitalismo", mas "Pátria ou colônia", "Nação ou Império", "Liberação ou Dependência". Setores patrióticos e anti-imperialistas, ainda que não necessariamente defensores de um socialismo nacional tal como o entendia o General Perón, podem e devem participar ativamente nesse verdadeiro Movimento Nacional de Liberação que é o peronismo. Mais ainda, toda a história do peronismo pode se reduzir a um esforço duplo, genialmente exemplificado pela condução de Perón: de um lado ampliar ao máximo o peronismo e seu campo político e social de influência; de outro lado gerar os "anticorpos" organizativos e ideológicos de massas suficientes como para que essa mesma amplitude não acabe gerando desvios de "direita" ou de "esquerda", ou freando o impulso revolucionário do movimento de massas. E aqui vem como anel ao dedo recordar uma das mais reconhecidas cartas do General Perón à Juventude Peronista: "Não tentamos de nenhuma maneira substituir um homem por outro; mas um sistema por outro sistema. Não buscamos o triunfo de um homem ou de outro, mas o triunfo de uma classe majoritária, e que conforma o Povo Argentino: a classe trabalhadora. E porque buscamos o poder, para essa classe majoritária, é que devemos nos prevenir contra o possível 'espírito revolucionário' da burguesia. Para a burguesia, a tomada do poder significa o fim de sua revolução. Para o proletariado, a classe trabalhadora de todo o país, a tomada do poder é o princípio dessa revolução que desejamos, para a mudança total das velhas e caducas estruturas demoliberais. (...) Se realmente trabalhamos pela Liberação da Pátria, se realmente compreendemos a enorme responsabilidade que já pesa sobre nossa juventude devemos insistir em tudo o assinalado. É fundamental que nossos jovens compreendam, que devem ter semprep resenta na luta e na preparação da organização que: é impossível a coexistência pacífica entre as classes oprimidas e opressoras. Nos apresentamos a tarefa fundamental de triunfar sobre os exploradores, ainda que eles estejam infiltrados em nosso próprio movimento político". [35]

A Terceira Posição justicialista não é, portanto, um pálido capitalismo reformista "de rosto humano" nem uma mistura arbitrária de capitalismo e marxismo. É uma solução revolucionária e integral: "O objetivo central da 'Terceira Posição' pode ser resumida assim: 'Socializar sem dissolver a personalidade, socializar sem extinguir a independência da consciência individual frente ao Estado, socializar sem confundir totalmente indivíduo e sociedade, sociedade e Estado" [36]

O General Perón, com sua linguagem sempre mais simples e compreensível, saberá dizê-lo de outra forma: "Nem tudo é pão nessa vida. O trabalhador deve não só semear o trigo e produzir o pão, mas conquistar uma posição, desde a qual pode dirigir a plantação e a fabricação do pão" [37]

Vigência Revolucionária do Peronismo

Em 1983, pouco após recuperar a democracia política na Argentina, um estudioso do justicialismo assegurava com notável perspicácia sobre o Movimento Peronista:

"No aspecto ideológico se apresentam, em termos sintéticos, três grandes opções: a) a da diluição sob o modelo de um partido de inspiração social-cristã ou trabalhista, esta última com certa tradição no Movimento; b) a opção pelo partido de vanguarda, contida nas fomulações do projeto foquista guerrilheiro; c) a orientação rumo a uma democracia autogestionária dos trabalhadores que parte das experiências de luta do justicialismo para articular democracia, luta operária e questão nacional" [38]

Ditas opções, a grosso modo, correspondem a três interpretações históricas diferentes sobre a Doutrina Peronista:

a) Aqueles que se conformam com uma reedição mais ou menos atualizada do período 1944-55, quer dizer: um capitalismo nacional autônomo, independente em relação ao imperialismo, com fortes traços democrático-popilares e altamente distributivo. Nessa visão que poderíamos chamar de "histórica" ou "tradicional" do peronismo devem se situar não só as facções "social-cristã", "social-democrata" ou "trabalhista", mas também certas correntes "nacionalistas", inclusive "fascistizantes" (que desdenham os aspectos democráticos do pensamento de Perón) ou o autodenominado "nacionalismo popular revolucionário peronista", formalmente mais "esquerdista" e na prática mais combativo, mas que, em relação a seus objetivos finais, não supera os limites de todo este espaço peronista.

b) O peronismo fortemente "heterodoxo" continuador da pequena burguesia peronizada na década de 60 e que, em diferentes graus e proporções tenta misturar peronismo e elementos ideológicos estranhos à tradição justicialista: enfoque filocastrista ou maoizante, foquismo, "nova esquerda" dos anos 60, etc. Essa corrente, hoje muito enfraquecida após a derrota montonera, tenta ir mais além da experiência de 1945-55, mas o Socialismo Nacional que defende tem excessiva influência marxista, pelo que choca com a "lógica" do grosso do peronismo que, geralmente com razão, tende a visualizá-lo como excessivamente nas fronteiras do peronismo, com um pé dentro e outro em direção às seitas antiperonistas.

c) Os que entendem que o desenvolvimento natural do peronismo é uma "democracia autogestionária dos trabalhadores" surgida não por introdução de uma ideologia ou construção teórica alheia ao peronismo, mas como desenvolvimento dos enfoques teóricos do próprio General Perón e da experiência e memória histórica do conjunto do Movimento (e não só de facções internas "de vanguarda"). Essa corrente, por seu próprio apego ao "sentido comum" das bases e quadros históricos do peronismo e, ademais, diante da bancarrota histórica do marxismo (que salpica a "esquerda peronista") neo ou pós-moderno, é a única que, hoje, pode hegemonizar à militância mais combativa e consequente do Movimento, impedindo a reedição de enfrentamentos fratricidas internos como os da década de 70. Mais ainda, como essa corrente "revolucionária ortodoxa" ou "revolucionária terceirista" (por reivindicar explicitamente o anticapitalismo do peronismo, mas também seu antimarxismo) surge do "aprofundamento" do peronismo "tradicional" e não, como no caso do montonerismo, de sua negação, sua possibilidade de desenvolvimento é enorme; em especial porque diante de uma camarilha liberal que usurpa a condução do justicialismo, mas que nega todos os seus postulados históricos (nos referimos, obviamente, ao menemismo) todos os setores do peronismo podem atuar em conjunto durante um longo tempo mais além de suas matizes: "trabalhistas", "social-cristãos", "social-democratas", "nacionalistas", "nacionalistas populares revolucionários" e "terceiristas revolucionários". O crescimento dessa última tendência depende, portanto, mais que da pregação diferenciadora e ideologista, da condução prática de todas e cada uma das lutas e seu resultado organizativo.

1. Este Preâmbulo se pode consultar em Julio Godio, El Movimiento Obrero Argentino (1943-1955), Ed. Legasa, Bs. As., 1990, pp. 211 y ss.
2. Juan Domingo Perón, Mensagem do Presidente da Nação Argentina General Juan Domingo Perón ao inaugurar o 86º Período Ordinário de Sessões do Honorável Congresso Nacional, Subsecretaria de Informações da Presidencia da Nação, 1952, pp. 125-126.
3. Julio Meinville, Política Argentina 1949-1956, p. 284 (artigo de 29 de junho de 1951).
4. Juan Domingo Perón, op. cit., p. 47.
5. O termo "autogestão" foi introduzido na França ao fim dos anos 60 para designar um modo de socialismo no estatista, caracterizado pela "gestão direta" da empresa por seus próprios trabalhadores, e não pelos capitalistas privados ou o Estado. Junto a essa concepção "restrita" da autogestão (econômica e reduzida a nível de empresa) existe outra concepcão mais ampla, e tambem mais próxima ao pensamento d General Perón, que entende a autogestão não só no plano econômico mas tambem, e ao mesmo tempo, no terreno político; socialização da economia e do poder. A autogestão "integral" tem entre seus antecedentes diversas expressões no marxistas do Movimento Operário europeu (associacionismo de Proudhon, socialismo utópico de Fourier, anarcossindicalismo e sindicalismo revolucionário espanhol, italiano e francês, guildismo inglês), correntes marxistas diferenciadas do stalinismo e do trotskismo (conselhistas, "titismo" iugoeslavo), pensadores revolucionários cristãos (Mounier, Lebret) e certos Movimentos de Liberação do Terceiro Mundo (a Frente de Liberação Nacional argelino durante a etapa de Ben Bella, a "Ujamaa" de Nyerere na Tanzânia, a Revolução Nacional de Velasco Alvarado no Peru, determinados enfoques do General Torrijos no Panamá, etc.). Se tratam, em todo caso, de diversos modelos nacionais que, até o momento, no se consolidaram por razões de ordem política: relação de forças nacional e internacional, etc.
6. Cristián Buchrucker, Nacionalismo y Peronismo, Ed. Sudamericana, Bs. As., 1987, p. 318.
7. J.D. Perón, La Fuerza es el Derecho de las Bestias, 1958, p. 14.
8. Eva Perón, "Historia del Peronismo" (curso de 1951), en Clases y Escritos Completos (1946-1955), Ed. Megafón, Bs. As., 1987, Tomo III, p. 98.
9. Juan Domingo Perón, Breve Historia de la Problemática Argentina, Ed. Claridad, Bs. As., 1989, p. 151 (transcripción de una serie de entrevistas concedidas a Eugenio P. Rom en 1967).
10. Juan Domingo Perón en Carlos María Gutiérrez, Reportaje a Perón. Diálogo sobre la Argentina Ocupada, Schapire Editor, Bs. As., 1974, p. 79.
11. Juan Domingo Perón, Mensaje del Presidente..., op. cit., p. 83.
12. Ibid., pp. 82-83.
13. Ibid., p. 57.
14. Ibid., p. 38.
15. Juan Domingo Perón, discurso ante horticultores bonaerenses en la Casa de Gobierno, 21 de septiembre de 1951.
16. Juan Domingo Perón, Los Vendepatria. Las pruebas de una Traición, Ed. Freeland, Bs. As., 1974, p. 166 (la primera edición es de 1957)
17. 2º Plan Quinquenal, Subsecretaría de Informaciones de la Presidencia de la Nación, Bs. As., 1953, p. 89.
18. Juan Domingo Perón, discurso ante representantes de cooperativas agrarias, 13 de octubre de 1952. Reproducido íntegramente en Mundo Peronista, Bs. As., n. 33, 15 de noviembre de 1952, p. 44.
19. Ibid., pp. 44-45.
20. Ibid., p. 45.
21. La progresiva "nacionalización" del Movimiento Obrero Argentino en el periodo de la "Década Infame" y su posterior influencia en el naciente Peronismo puede comprobarse en Hiroshi Matsushita, Movimiento Obrero Argentino (1930- 1945), Hyspamérica, Bs. As., 1983.
22. Sobre la influencia de la doctrina sindicalista revolucionaria en el Peronismo y el concepto de "Estado Sindicalista" en el General Perón ver la segunda parte del presente estudio: Sindicalismo Revolucionario Peronista, Ed. Guerra Gaucha, Bs. As.
23. Escuela Superior de Conducción Política del Movimiento Nacional Justicialista, Fundamentos de Doctrina Nacional Justicialista, Eds. Realidad Política, Bs. As., 1985, pp. 103-104.
24. Juan Domingo Perón, Mensaje del Presidente..., op. cit., p. 67.
25. Ibid. pp. 68-69.
26. No se trata, obviamente, del delirio liberal-menemista de la "economía popular de mercado", versión disfrazada de la "economía social (?) de mercado" del infame Alsogaray. Sin embargo, en experiencias socialistas autogestionarias bastante desarrolladas, como es el caso de la Yugoslavia de Tito, la práctica demostró la imposibilidad de una planificación total y la necesidad, dentro de una planificación indicativa, de ciertas formas de mercado libre que, al no existir grandes monopolios ni diferencias económicas destacadas, es realmente eso: libre. Ver D. Bilandzic y S. Tokovic, Autogestión (1950-1976), El Cid Editor, Bs. As., 1976.
27. Juan Domingo Perón, Mensaje al Presidente..., op. cit.. pp. 122-123.
28. Juan Domingo Perón, La Hora de los Pueblos, Ed. Distribuidora Baires, Bs. As., 1974, p. 130 (la primera edición es de 1968).
29. "Por otra parte, la democracia de nuestro tiempo no puede ser estática, desarrollada en grupos cerrados de dominadores por herencia o por fortuna, sino dinámica y en expansión para dar cabida y sentido a las crecientes multitudes que van igualando sus condiciones y posibilidades a las de los grupos privilegiados. Esas masas ascendentes reclaman una democracia directa y expeditiva que las viejas ya no pueden ofrecerles", Ibid., p. 14.
30. Juan Domingo Perón, discurso ante escritores asociados a la Confederación Argentina de Intelectuales, reproducido por Hechos e Ideas, Bs. As., n. 77, agosto de 1950.
31. Juan Domingo Perón, Modelo Argentino para el Proyecto Nacional, Ediciones Realidad Política, Bs. Aires, 1986, p. 88 (esta obra es el discurso pronunciado el 1º de mayo de 1974 por el General Perón ante la Asamblea Legislativa al inaugurar el 99º periodo de sesiones ordinarias del Congreso, así como el proyecto que presentó al mismo).
32. Este manifiesto, de junio de 1972, se encuentra reproducido como anexo en varios autores, Peronismo: de la Reforma a la Revolución, A. Peña Lillo Editor, Bs. As., 1972, pp. 187 y ss.
33. "No sólo existen los dos grupos fundamentales de países -los que poseen colonias y las colonias-, sino también, es característico de la época, las formas variadas de países dependientes que desde un punto de vista formal, son políticamente independientes, pero que en realidad se hallan envueltos en las redes de la dependencia financiera y diplomática. A una de estas formas de dependencia, la semicolonia, ya nos hemos referido. Un ejemplo de otra forma lo proporciona la Argentina.", V. I. Lenin, El Imperialismo, Etapa Superior del Capitalismo, Ed. Anteo, Bs. As., 1975, pp. 105-106. La edición original es de 1916.
34. Juan Domingo Perón, Mensaje del Presidente..., op. cit., p. 31.
35. Carta de Juan Domingo Perón a la Juventud Peronista, octubre de 1965. Reproducida en Roberto Baschetti, Documentos de la Resistencia Peronista (1955-1970), Puntosur Eds., Bs. As., 1988, pp. 222-223.
36. Salvador Ferla, La Tercera Posición Ideológica y Apreciaciones Sobre el Retorno de Perón, Ed. Meridiano, Bs. As., 1974, p. 23.
37. Juan Domingo Perón, discurso ante representantes obreros, 24 de febrero de 1949. Citado en Habla Perón (selección de textos), Ed. Realidad Política, Bs. As., 1984, p. 106.
38. Jorge Luis Bernetti, El Peronismo de la Victoria, Ed. Legasa, Bs. As., 1983, pp. 210-211. Por "alverización" se entiende un proceso de "domesticación" e integración al Sistema, similar al que Alvear realizará con la Unión Cívica Radical a la muerte de Hipólito Yrigoyen.

19/02/2013

Perón e a Revolução Cubana

por Javier Iglesias e Juan Carlos Benedetti



Nota Prévia

O presente trabalho estuda um dos aspectos menos conhecidos da história do peronismo: a influência que o pensamento do general Perón teve sobre as forças revolucionárias cubanas das décadas de 40-50 e, em especial, sobre o jovem Fidel Castro e seu nascente movimento insurrecional. Nesse sentido, este escrito é a antecipação de um mais extenso que não só historiará esse influxo peronista sobre o castrismo, senão que, ao mesmo tempo, analisará seu complemento simétrico: a posterior gravitação do castrismo já triunfante (1959) sobre o peronismo da Resistência e o exílio.

Se bem o tema desse trabalho pode parecer histórico, nosso objetivo é, no essencial, político: queremos resgatar em toda sua integridade revolucionária, anti-oligárquica e anti-imperialista a esse verdadeiro gigante libertário que foi o general Juan Domingo Perón, cuja mensagem de Liberação transcendeu e transcende as fronteiras argentinas para alcançar dimensões continentais e terceiro-mundistas. Esse Perón, revolucionário histórico e real, nada tem que ver com o triste leão desdentado que nos pretendem vender os trânsfugas liberal-menemista a serviço desse mesmo imperialismo a que Perón combateu. Porém tampouco é o que fantasiam certos neoperonistas "rosas" e social-democratizantes que, se bem criticam a inegável traição menemista, coincidem finalmente com ela no reacionário intento de construção de um pseudo-peronismo pequeno-burguês, intelectualóide e amaneirado; castrado de todo conteúdo e potencial nacionalista, operário, popular, terceiro-mundista e revolucionário.

Frente a liberais comissionistas, do Império, a reformistas da eunuca centro-esquerda cipaia, ou a falsos "nacionalismos" anti-peronistas e em nada populares, levantamos cada vez mais a firme convicção nos valores revolucionários do terceirismo anticolonial peronista. A bancarrota das ditaduras burocráticas comunistas e a passagem sem dissímulos da ex-URSS ao bloco imperialista encabeçado pelos supercriminosos ianques, reafirma nossas mais claras teses fundacionais: o único anticapitalismo possível é o representado por Movimentos Nacionais e Populares de Terceira Posição. Já caiu o explorador sistema comunista, agora faz falta derrubar o ainda mais explorador sistema capitalista. Tão só a metade do caminho está feita.

Recordar a mensagem revolucionária do general Perón, é, pois, reafirmar sua vigência prática atual, da mesma forma que recordar a influência peronista na primeira etapa da Revolução casuísta cubana nos permite entender que como já escrevemos há mais de um ano atrás:

"O isolamento de Cuba pode levar a seu reencontro com a Pátria Grande Latinoamericana, prescindindo das velhas fórmulas marxistas e aderindo de novo ao nacionalismo revolucionário terceirista do castrismo inicial. O fim do Império comunista antecipa a derrubada do Império capitalista. Cada Povo deve lutar por sua Revolução Nacional ao tempo que se forjam laços de unidade, solidariedade e organização mundial de todas as nações oprimidas, contra os imperialismos, a injustiça e a reação".

Introdução

Em 26 de julho de 1953 o recém-nascido castrismo surge pela primeira vez à luz pública com o intento de tomada do Quartel Moncada; operação guerrilheira cujo fracasso serve de pretexto para que o ditador Batista massacre cerca de uma centena de combatentes revolucionários ou simples opositores. Fato geralmente esquecido: para se resguardar da cruel repressão são vários os guerrilheiros fidelistas que se refugiam na Embaixada da Argentina Peronista. Esse seria o caso, por exemplo, de Raúl Martínez Ararás e Antonio López, responsáveis pelo assalto simultâneo ao Quartel de Bayamo para impedir que sua guarnição - uns 400 soldados - acudisse em defesa dos de Moncada.

Na Embaixada Argentina em La Habana também encontra refúgio alguém sindicado pelo diário oficialista "Alerta" de 27 de julho como um dos responsáveis máximos de dita operação. Nos referimos a José Pardo Liada, dirigente do próprio Partido do Povo Cubano "Ortodoxo" ao qual ainda pertencia Fidel Castro; futuro combatente de Sierra Maestre e, ao mesmo tempo, um dos mais claros simpatizantes do Peronismo na ilha do Caribe, autor inclusive de diversas obras em defesa da Terceira Posição Justicialista.

A evidente atitude solidária do Governo Peronista em relação aos insurgentes anti-batistianos contrasta com as posições de alguns grupos supostamente "anti-ditadoriais", "anti-imperialistas" e "revolucionários". Os comunistas pró-soviéticos cubanos - Partido Socialista Popular - para citar um só caso, em sua "Carta da Comissão Executiva Nacional do P.S.P. a todos os Organismos do Partido" (30 de agosto de 1953) condenavam o castrismo definindo o assalto ao Moncada como uma tentativa "golpista, aventureira, desesperada, característica de uma pequena-burguesia sem princípios e comprometida com o gangsterismo". Recém em julho de 1958, poucos meses antes do triunfo final, os comunistas moscovitas mudaram essa estúpida e reacionária posição subindo ao carro do vencedor.

A vinculação da primeira guerrilha casuísta com a Argentina peronista não será, pelo demais nem esporádica nem assunto meramente anedótico.

O próprio Carlos Franqui - militante do castrismo desde sua fundação, combatente urbano e de Sierra Maestra, secretário de organização do Comitê do Exílio do Movimento 26 de Julho e após a vitória fidelista, diretor do diário oficial "Revolução" - em uma de suas obras recorda que, ao menos até princípios da década de 50, Fidel "simpatizava com um peronista anti-imperialista".

Se trata, como veremos, de uma atitude em nada "platônica" e que chegará a contatos orgânicos que analisaremos em continuação.

O Exemplo Revolucionário Peronista

Se bem não é nosso objetivo analisar em profundidade a natureza da Revolução Peronista em seu período 1945-55, ao mesmo tempo é certo que não pode se entender a influência desse Peronismo no castrismo inicial se não situamos a experiência argentina no contexto latinoamericano da época.

O Peronismo chega ao poder e consolida sua obra no marco fundacional de um enfrentamento total com o imperialismo ianque e a oligarquia local a ele associada. A disjuntiva "Braden ou Perón", com a que nasce o Movimento Nacional Popular liderado pelo então coronel Perón, marca profundamente esse Movimento e demonstra seu verdadeiro caráter anti-imperialista. Que esse anti-imperialismo não é retórico o demonstram algumas simples cifras: o capital estrangeiro que em 1945 era 15,4% do capital total, em 1955 já é só uns 5,1%. As saídas de capitais (lucros imperialistas) que no período 1940-44 supõem uma média anual de 382 milhões de dólares de 1950, no ano 1955 se reduzem a 34 milhões de dólares. A nacionalização dos meios de comunicação e transportes, sistema financeiro, seguros, comércio exterior, etc., são precisamente, os instrumentos que unidos a uma enérgica política industrialista e de substituição de importações, logram o aberto objetivo da Independência Econômica como base imprescindível para o desenvolvimento nacional e a justiça social.

Contradizendo aos que afirmam a necessidade de capitais estrangeiros - ianques principalmente - para os países "subdesenvolvidos" do Terceiro Mundo, a Independência Econômica se caracteriza no exemplo peronista por garantir um processo de crescimento jamais igualado em nosso país. Cifras contam: entre 1946 e 1955 a produção industrial a preços constantes de 1960 passou de 164 mil milhões de pesos a 277 mil milhões, com o que o crescimento supera em mais de 12% ao que se registrou na década de 1935-1945. No mesmo período também, o produto conjunto da indústria manufatureira, a construção e os serviços energéticos, de transporte e comunicações, passaram de 224,1 mil milhões a 324,5 mil milhões, o que significou um incremento superior em mais de 30% ao que se deu nos 10 anos precedentes. Isso explica o que na Argentina peronista, ao contrário que em todos os países capitalistas, se chegasse nesse período ao ideal geralmente inalcançável da plena ocupação laboral.

Independência econômica e desenvolvimento da economia, por outra parte, repercutem sobre tudo no Povo trabalhador, que acessa níveis de vida inéditos para nosso continente. A participação do setor assalariado na Renda Nacional passa de 44,1% em 1943 a 57,4% em 1954 (na atualidade não é muito mais do que 20%). Os salários reais sobem de um índice 100 em 1945 a um índice 164,7 em 1955. E tudo isso sem ter em conta benefícios indiretos porém não menos palpáveis: obras sociais, férias pagas, salário anual extraordinário, colônias de férias, assistência social direta mediante a Fundação Eva Perón, construção de novas escolas e hospitais (em 1946 só havia 15400 leitos nos hospitais públicos; em 1951 existiam já 114.000); educação gratuita, aprendizagem industrial, universidades nacionais operárias, habitação barata, queda do analfabetismo de 15 a 3,9%, etc.



Estado Sindicalista

Tudo isso, ao mesmo tempo, deslumbra mais a numerosos revolucionários e anti-imperialistas latinoamericanos pelo fato de que o próprio Perón insiste uma e mil vezes em que é tão somente "o início" de uma Revolução ainda mais profunda. Em 1 de maio de 1952 é assim como Perón manifesta publicamente que:

"Para o capitalismo a renda nacional é produto do capital e pertence ineludivelmente aos capitalistas. O coletivismo crê que a renda nacional é produto do trabalho comum e pertence ao Estado porque o Estado é proprietário total e absoluto do capital e do trabalho. A Doutrina Peronista sustenta que a renda do país é produto do trabalho e pertence, portanto, aos trabalhadores que a produzem".

E, para se ficasse alguma dúvida, acrescenta:

"Os trabalhadores adquirirão progressivamente a propriedade direta dos bens capitais de produção, do comércio e da indústria, porém o processo evolucionista será lento e paulatino".

Se trata, como escreverá um estudioso do fenômeno peronista, de proposições em certa medida relacionados com os do sindicalismo revolucionário:

"Mais que o socialismo clássico, o Peronismo em gestação adotou idéias fundamentais do anarco-sindicalismo hispano-francês, o qual já tinha uma tradição não desprezível no gremialismo argentino. Se trata aqui de duas exigências: a) o direto protagonismo político do sindicato (não por mediação do partido) sobre tudo através da greve geral como instrumento de ação; e b) o objetivo distante de uma administração dos meios de produção pelos próprios sindicatos. Já o Congresso Sindical de Amiens (1906) havia proclamado 'o sindicato atualmente nada mais que um grupo de resistência, será no futuro o responsável da produção e distribuição, bases da organização social'."

Essa semelhança é palpável quando Perón define o Estado Justicialista futuro como um "Estado Sindicalista" já que: "O que vem demonstrando como adiantamento, diremos assim, da teoria, é que entre o político e o social o mundo se encontra em um estado de transição. Nós estamos em dia com essa evolução, em meu conceito. Temos a metade sobre o corpo social e a outra metade sobre o corpo político. O mundo se desloca do político para o social. Nós não estamos decididamente nem em um campo nem no outro, estamos assistindo ao final da organização política e ao começo da organização social... Eu não posso abandonar o partido político para substituí-lo pelo movimento social. Tampouco posso substituir o movimento social pelo político. Os dois são indispensáveis. Se essa evolução continua, nós continuaremos ajudando à evolução. Quando chegue o momento propício lhe faremos um enterro de primeira, com seis cavalos, ao partido político e chegaremos a outra organização. Porém estamos em marcha ao estado sindicalista, não tenham a menor dúvida".

A importância da organização sindical no Estado e no Movimento Peronista, do qual se define como "coluna vertebral"; a existência de ministros, deputados e governadores operários; o papel dos sindicatos em constituições provinciais como a do Chaco; a sindicalização (entrega da propriedade aos sindicatos de trabalhadores) das cervejarias Bemberg ou do diário "A Imprensa", são sinais claros do que a partir da década de 1960 Perón começará a definir como "socialismo nacional, humanista e cristão"; quer dizer: um socialismo sindicalista autogestionário de liberação nacional e de Terceira Posição.

O Nacionalismo Revolucionário Cubano

Se grande é a influência da Revolução Peronista em toda a América Latina, mais o é ainda em Cuba, tanto que um informe de 1956 editado pela Revolução Libertadora chega a afirmar que: "Cuba tem sido o foco peronista no Caribe". Tal fato é devido à conjunção na ilha caribenha de dois fatores: a presença direta do prepotente imperialismo ianque unida ao caráter abertamente contrarrevolucionário do comunismo pré-castrista.

Em relação à presença ianque devemos recordar que Cuba é o último país latinoamericano em se livrar do domínio espanhol e que quando o faz (1898) é pela presença das tropas ianques, que com o pretexto da voadura de seu navio (Maine) invadem a ilha e derrotam os espanhóis. O caráter colonial dessa Cuba supostamente "independente" fica confirmado na própria Constituição "nacional" com a inclusão em junho de 1901 da chamada "emenda Platt" (pelo nome do senador Orviolle Hitchcock Platt, de Connecticut) que afirmava explicitamente: "Cuba consente em que os EUA possam exercitar o direito de intervir na defesa da independência cubana e na manutenção de um governo adequado para a proteção da vida, da propriedade e da liberdade individual".

Frente a esse expansionismo ianque já denunciado por patriotas como José Martí ("Tenho vivido dentro do monstro e conheço suas vísceras; minha funda é a de Davi"), surge um nacionalismo anti-imperialista cada vez mais intransigente que, como conta o professor Robert F. Smith, do Texas Ludieran College, em sua obra The USA and Cuba, faz com que em junho de 1922 (e não em 1959 ou em 1960) um diário de La Habana apareça com um título sobre oito colunas: "O ódio aos EUA será a religião dos cubanos".

Quando para conter esse pujante anti-imperialismo os EUA promovem a sangrenta ditadura do presidente do Partido Liberal, Gerardo Machado (1924-1933), a oposição patriótica e popular se vê obrigada a adotar como recurso de ação a resistência armada, o terrorismo individual, a sabotagem e a conspiração insurrecional. É nessa experiência de nacionalismo revolucionário armado não comunista onde se pode encontrar a origem histórica do primeiro castrismo.

Nacionalismo Revolucionário Frente a Comunismo

Em setembro de 1933 uma exitosa combinação de mobilização de massas, greve geral e sublevação cívico-militar, derruba a ditadura de Machado e entrega o poder a dois representantes desse nacionalismo revolucionário: Ramón Grau San Martín e, acima de tudo, Antonio Guiteras, partidário este último de uma Revolução Nacional Anti-Imperialista que culminasse em uma forma autóctone de socialismo que, de acordo com seu programa, não era uma "construção caprichosamente imaginada, senão uma dedução nacional baseada nas leis da dinâmica social". Tal governo se vê, sem embargo, atacado não só pelas forças pró-capitalistas e pró-ianques senão também pelo comunismo vernáculo que promove "sovietes" armados em diversos pontos distantes da ilha com a peregrina idéia de derrubar o governo "burguês".

O ultra-esquerdismo "combativo" pró-soviético contra um governo popular e anti-imperialista se entende ainda menos se se conhece o fato de que em plena insurreição anti-machadista (agosto de 1933) os dirigentes comunistas César Vilar e Vicente Álvarez "haviam prometido a Machado suspender a greve se lhes outorgasse o reconhecimento oficial das CONC" (sindicatos cubanos). Presos do esquema de "classe contra classe" que por aquele então propugnava a Internacional Comunista, os stalinistas caribenhos consideravam que tão "burgueses" eram Machado quanto os opositores de modo que preferiram sabotar a luta em troca de benefícios particulares e legalistas. Lastimosamente Fabio Grobart, fundador do PC, várias décadas depois afirmaria que a ordem comunista de romper a greve não teve o mínimo êxito já que "os operários de La Habana - que foram os únicos que se inteiraram dessa atitude - eliminaram, com sua firme ação, qualquer incompreensão sobre o caráter da greve geral, e o Partido e a CONC, retificaram o erro momentâneo, e, com os trabalhadores, adotaram a decisão unânime de não voltar ao trabalho enquanto Machado estivesse no poder". A emenda, não obstante, resultou pior que a conversa fiada já que, como vimos, do economicismo de direita frente a Machado passaram milagrosamente ao ultra-esquerdismo insurrecional contra um governo nacional-popular em uma estranha mistura de brandura com os cipaios e dureza contra os patriotas.



A Ditadura de Batista

Aproveitando a agressão em pinças (desde a direita e a esquerda) contra o governo Grau-Guiteras, o coronel Fulgêncio Batista se apodera do poder que controla, diretamente ou mediante presidências títeres, até, 1939. Isso obriga à oposição, geralmente armada. Assim Grau San Martín funda o Partido Revolucionário Cubano "Autêntico", que no ideológico alguns autores vinculam ao "varguismo, cardenismo, peronismo, aprismo, MNR (Bolívia), Acción Democrática (Venezuela), velasquismo (Equador) e liberacionismo (Costa Rica)"; Guiteras constitui a organização revolucionária político-militar "Jovem Cuba", com características socialistas e nacionalistas. O grupo nacionalista influenciado pelos fascismos europeus ABC (que já havia lutado com as armas contra Machado) segue operando militarmente, os setores insurrecionais do Partido "Autêntico" constituem diversas organizações de combate (União Insurrecional Revolucionária, Organização Autêntica, Movimento Socialista Revolucionário, etc.).

Desse bloco opositor, como era de esperar, não forma parte muito tempo o Partido Comunista que, a partir de 1938, e seguindo a nova linha "antifascista" da Internacional Comunista, considera a Batista como um possível "aliado". O raciocínio é até certo ponto lógico... para qualquer agente moscovita: na medida em que para a URSS o inimigo principal era a Alemanha de Hitler, os ianques eram possíveis aliados e, por conseguinte, os diferentes governos pró-ianques (como o de Batista) apoiáveis para os PC locais. No caso cubano isso se vê patentemente em uma série de fatos:

* No fim de 1938 é legalizado por Batista o PC.
* Em 25 de julho de 1940, o general Batista, apoiado ainda pelos comunistas, triunfa sobre o Partido "Autêntico" aproveitando que a nova constituição democrática não devia ser aplicada até 1943. O triunfo batistiano-comunista se obtém segundo o antigo método de escrutínio restritivo, que só permite votar à metade do eleitorado.
* Em 24 de julho de 1942, Batista fez entrar a dois ministros comunistas, Juan Marinello e Carlos Rafael Rodríguez em seu governo. Eram os primeiros comunistas no poder na América Latina. Rodríguez, paradoxalmente, com posterioridade também desempenharia um importante papel no governo castrista.

As primeiras eleições livres, em 1944, acabam com o cogoverno batistiano-comunista quando o Dr. Grau San Martón obtem uma maioria de votos (65%) sobre Salgarida, o candidato de Batista apoiado pelos comunistas. Isso supõe um evidente retrocesso para os stalinistas cubanos que, privados do apoio estatal, começam a ser deslocados por sindicalistas "autênticos" ou simplesmente anti-batistianos, ao mesmo tempo em que os antigos grupos insurrecionais anti-ditatoriais, com o apoio agora do governo, começam a atingir o alvo de seus atentados não com comunistas senão filobatistianos.

O Jovem Fidel Castro

Em 1945, ano da Revolução Peronista, Fidel Castro ingressa na Universidade de Havana e, mediante ela, na vida política. Sua natureza revolucionária lhe faz se aproximar aos grupos insurrecionais, ainda não desmobilizados, do Partido "Autêntico" que ainda mantinham certa imagem nacionalista revolucionária. É assim como se integra à União Insurrecional Revolucionária, de Emilio Tro, segundo afirmam alguns autores (Yves Guilbert, Pardo Liada) ainda que outros (K.S. Karol) sustentam que se se vincula à UIR é como "independente" e mais que nada para evitar a pressão do Movimento Socialista Revolucionário, grupo também "autêntico" mais inimigo da UIR e sob a condução de Mario Salabarría.

É Mario Salabarría, precisamente, quem em 1947 organiza um autodenominado "Exército de Liberação da América" que, dividido em quatro batalhões (denominados respectivamente: "Antonio Culteras", "Máximo Gómez", "José Martí" e "Augusto César Sandino") tenta a invasão de Santo Domingo de Trapillo para derrubar dita ditadura e, posteriormente, fazer o mesmo com a de Somoza na Nicarágua. Fidel Castro, que junto a Carlos Franque e outros revolucionários forma parte de dita expedição, é um dos poucos que consegue escapar quando após três meses de concentração em Cayo Confite, os revolucionários são detidos pelo exército cubano, temeroso das reais intenções do numeroso grupo armado. A primeira ação que poderíamos definir como "armada" de Fidel Castro, ainda que tão só seja um jovem recruta por aquele então, para alguns historiadores já tem relação com o Peronismo. K.S. Karol, por exemplo, ao falar da expedição assegura: "Esta já havia recebido do presidente argentino Perón um apreciável presente: 350.000 dólares em armas de diversos tipos". Ainda que não acreditemos que esse apoio fosse real - pois não existe nenhum documento ou testemunho argentino da época que o corrobore - a afirmação serve para ver como se considerava o Peronismo na época: um movimento revolucionário, anti-ditatorial e anti-imperialista.



Perón e Fidel Castro

O primeiro contato documentado entre Peronismo e castrismo se dá precisamente a princípios do ano seguinte. O dirigente peronista Antonio Cañero recorda que, nesse ano, depois de criar uma Federação Nacional de Universitários Peronistas:

"Tentei organizar um congresso, já não nacional senão latinoamericano de estudantes nacionalistas. Entrevistei Perón, logrei seu consentimento e acompanhado de um dirigente cubano, Santiago Touriño Velázquez, recorremos Santiago de Chile, Lima, Panamá e Havana. Os referentes políticos eram óbvios: Albizu Campos, Playa de la Torre, Arnulfo Arias. Em março de 1948 chegamos a Havana e a uma das reuniões assistiu Fidel Castro. Me preveniram meus amigos cubanos, em especial Touriño, sobre a atitude radicalizada de Fidel (...) Touriño, atualmente eexilado em Miami o descreveu como uma figura singular. Não tive tratos com ele porém aos poucos dias viajou a Bogotá e participou do bogotaço".

Sobre a participação de Castro nesse congresso latinoamericano de nacionalistas e peronistas, assim como sobre as reuniões prévias, dá também informação o já citado dirigente cubano Pardo Liada:

"A fins de março de 1948, chegou a Havana o senador argentino Diego Luis Molinari, utilizando Luis Priori, delegado operário da Embaixada argentina, estabeleceu contato com os principais dirigentes universitários cubanos, convidando-os a participar em uma conferência anti-colonialista em Buenos Aires, onde reclamariam a devoção das ilhas Malvinas.

O embaixador peronista se entrevistou ao presidente da FEU Enrique Olivares, e o secretário desse organismo, o comunista Alfredo Guevara, que acabava de chegar de Moscou, resposto de dores pulmonares. Ambos viajariam a Bogotá, aproveitando a 9ª Conferência Americana, para lhe fazer propaganda ao congresso anti-colonialista de Buenos Aires, convocado por Perón a princípios de maio.

Inteirado Castro da viagem de Ovares a Bogotá quis se unir à delegação. Ao saber que Molinari facilitava as passagens, me pediu que lhe conseguisse uma entrevista com o argumento, a quem viu no Hotel Nacional. Ao encontro com o embaixador de Perón acudiu Castro acompanhado por Rafael del Pino e o estudante pró-peronista Santiago Touriño. Castro fez a melhor impressão a Molinari. Desde muito jovem Castro tinha carisma de líder. E saiu da entrevista com a promessa do senador de convidá-lo a uma viagem com três escalas:

Panamá, Bogotá e finalmente, Caracas. Com passagens pagas por Perón viajaram a Colômbia Enrique Ovares, Alfredo Guevara, Fidel Castro e Rafael del Pino. Enquanto, outra delegação estudantil cubana, também respaldada pelo senador peronista, com os estudantes Touriño, Tabeada e Esquivel, visitaria vários países da América Central do proselitismo para a Conferência Anti-Imperialista de Buenos Aires".

A Ideologia do Jovem Castro

O Fidel que tem estes contatos e relações com a Argentina peronista não é já um "franco-atirador" dos grupos armados mais ou menos vinculados aos "Autênticos", senão um militante enquadrado no Partido do Povo Cubano "Ortodoxo". A "ortodoxia" surge precisamente como cisão dos "Autênticos" e em oposição à corrupção e abandono dos princípios nacionalistas revolucionários por parte dos governos de Grau San Martón e Pío Socarras, e a gangsterização delitiva de suas armadas colaterais. Com consignas centrais como "independência econômica, liberdade política e justiça social" claramente inspiradas nas Três Bandeiras Justicialistas, é lógico que a "ortodoxia" seja o lugar natural de militância dos filoperonistas cubanos, desde Pardo Liada a Fidel Castro.

Como o nove golpe de Batista, em março de 1952, tem por propósito explícito impedir o triunfo eleitoral desse Partido "Ortodoxo", seus militantes se veem obrigados a passar à luta armada. O grupo encabeçado por Fidel Castro que assalta o quartel Moncada ("Juventude do Centenário" ou "Movimento") tem por fim, como escreveu Fidel ao dirigente ortodoxo de Santiago Luis Conté Agüero: "por a ordem em mãos dos ortodoxos mais fervorosos. Nosso triunfo tivesse significado a subida imediata ao Poder da ortodoxia primeiro, provisoriamente e depois mediante eleições gerais".

Essa identidade ideológica com a ortodoxia continua já fundado o Movimento 26 de Julho. Na carta de Castro ao Congresso do Partido "Ortodoxo", em 16 de agosto de 1955, este afirma: "o Movimento 26 de Julho não constitui uma tendência no interior do Partido; é o aparato revolucionário do "chibasismo" enraizado em sua base da qual surgiu para lutar contra a ditadura quando a ortodoxia demonstrou ser impotente devido a suas mil divisões internas (...) uma ortodoxia sem direção de latifundiários do tipo Fico Fernández Casas; sem açucareiros do estilo de Gerardo Velázquez; sem especuladores da bolsa, sem magnatas da indústria e do comércio, sem os advogados das grandes fortunas, sem potentados provinciais sem politicalhos...". Recém em 19 de março de 1956 o M-26 rompe formalmente com o Partido Ortodoxo ainda que em plena luta insurrecional e até pouco antes de chegar ao poder os militantes e dirigentes da Ortodoxia: "como grupo se haviam convertido praticamente em um satélite da causa castrista, seguindo suas diretivas quase ao pé da letra. Pareciam convencidos de que o Movimento 26 de Julho era um ramo de seu próprio partido, e alguns consideravam Castro como um intrépido redentor que executava um ato heróico para o qual a eles faltava coragem". "Nossa Razão", Manifesto-Programa do Movimento 26 de Julho fechado em novembro de 1956, levanta consignas em grande medida identificáveis às da Ortodoxia (e ao Peronismo) como a luta pela "soberania política, independência econômica e cultura diferenciada" dentro de um "pensamento democrático, nacionalista e de justiça social".



Peronismo e Movimento Operário Cubano

A influência do Peronismo histórico não só se nota nas organizações políticas do nacionalismo revolucionário pré-castrista. Dadas as características nacional-proletárias e sindicalistas da Argentina Peronista é mais lógica que seu influxo maior se produz no Movimento Operário Latinoamericano. Cuba não seria uma exceção e é seu Movimento Operário a melhor prova da convergência entre terceirismo revolucionário pró-peronista e o nacionalismo revolucionário não marxista do castrismo inicial.

Em 20 de novembro de 1952, na cidade de México, representantes de organizações operárias de nosso Continente pertencentes a 19 países, convocados pela CGT argentina decidem constituir a Agrupação de Trabalhadores Latinoamericanos Sindicalistas (ATLAS). Se trata de uma central operária continental e anti-imperialista oposta tanto ao pseudo-sindicalismo amarelo da pró-ianque ORIT, como ao regimentado sindicalismo filo-soviético da CTAL.

Na constituição de ATLAS tem um papel destacável o dirigente sindical cubano do tran´sporte Fernando Pérez Vidal. Este militante, exilado pela ditadura batistiana e futuro dirigente sindical castrista, ocupa desde a fundação de ATLAS a Secretaria de Relações Exteriores, ainda que em 1953 chegaria a ser designado transitoriamente como Secretário Geral de dito organismo continental peronista.

Que a vinculação entre o Movimento Operário Peronista e o Movimento Operário Castrista cubano não é circunstancial e efêmero o prova a longa correspondência entre esses dirigentes operários castristas, já chegados ao poder, e o ainda Secretário Geral de ATLAS, o argentino (e peronista) Juan Garone. Assim, em 16 de fevereiro de 1960 Pérez Vidal solicita a aquele o envio "... do carnê como delegado de ATLAS no Carine ou só em Cuba" ressaltando que: "Hoje, graças à Revolução Libertadora que rege os destinos da nação e que encabeça esse invencível líder e grande estatista Fidel Castro Ruz, nossa pequena pátria, porém digna, tem um posto destacado nas nações livres do mundo. Exatamente o que logrou vossa grande pátria sob as bandeiras gloriosas do Justicialismo que fez possível Independência Econômica, Justiça Social e Soberania Política..." E acrescenta, caso ficasse alguma dúvida: "Muda nada mais que a forma, ou seja, não dizer ATLAS ou Justicialismo é um problema complexo de dirigentes pouco maduros e com muito escasso nível político que vem fantasmas onde só brilha o sol mais claro e melhor".

Em idêntico sentido se manifesta o também dirigente operário cubano José Gayoso em carta ao próprio Garone: "Enquanto aos fins que o governo cubano persegue são puramente nacionalistas (...) Quanto a ATLAS creio que seria conveniente que vocês se dirigissem ao companheiro David Salvador, Secretário-Geral da CTC para chegar a um fim prático na reorganização nessa de ATLAS (...) com homens que sentem os ideais do Justicialismo".

Para uma melhor compreensão do anterior esclarecemos que o citado David Salvador era um ex-dirigente comunista que em 1947 havia rompido com os pró-soviéticos locais para acabar se integrando no castrismo, do qual dirige durante a Revolução seu braço sindical: Seção Operária do M-26 de Julho, posteriormente conhecida por "Frente Operário Nacional Unido" (FONU) após a absorção da Seção Funcional de Trabalhadores da Ortodoxia História e da Seção Operária do Diretório Revolucionário. Salvador dirige numerosas greves durante a resistência anti-batistiana, geralmente combinadas com ações armadas. Após a chegada ao poder do castrismo o Primeiro Congresso Nacional da CTC (já convertida em central operária única) a lista de David Salvador e o M-26 obtém o 90% dos votos frente a só 5% dos "Autênticos" e outro 5% dos comunistas. A pressão do próprio Fidel para uma lista de unidade castrista-comunista é rechaçada, não por um anticomunismo de direita senão porque, como reconhece um marxista estudioso da Revolução Cubana durante a Revolução: "O PSP (pró-soviético) não via com bons olhos à Frente Operária Nacional, fundada pelos castristas e dirigida por David Salvador, antigo comunista; o PSP desconfiava simultaneamente das tendências anti-comunistas de uma certa propaganda do M-26 e de suas exaltações esquerdistas da luta armada. (...) Não se encontra nem uma só pista da participação dos comunistas nessa decisiva batalha da frente urbana" que foi a greve geral de 9 de abril de 1958, dirigida pelo FONU.

Síntese

Como uma Revolução Nacionalista e Terceirista, aparentada diretamente com o Peronismo histórico, pode acabar se convertendo em uma sistema marxista-leninista de partido único? De fato de Revolução castrista, até o 2 de dezembro de 1961, não se define como comunista senão como terceirista. Os carimbos cubanos dirigidos aos EUA dizem: "Nossa Revolução não é capitalista nem comunista, senão humanista". O próprio Fidel no diário "Revolução" de 17 de março de 1959 afirma: "Frente a ideologias que se disputam a hegemonia, surge a Revolução Cubana, com idéias novas e acontecimentos novos. Não vão confundir o Povo chamando-nos de comunistas". Também algo depois o próprio Che Guevara afirmaria em carta a "Bohemia", publicada em 14 de junho de 1959: "se fosse comunista não duvidaria em dizê-lo a vocês".

Essa Revolução Nacional, sem embargo, se vê cercada pelos ianques obrigando ao governo cubano a radicalizar cada vez mais suas posições. Quando a Revolução Cubana, por exemplo, decide importar petróleo russo e as três refinarias ianques em Cuba se negam a processá-lo, Fidel nacionaliza essas propriedades ianques. Os ianques contestam suspendendo a quota de açúcar. Castro contra-ataca rompendo relações com os ianques e obtendo um primeiro crédito soviético. Os ianques auspiciam o desembarque em Baía Cochinoss (abril de 1961), Castro se proclama "marxista-leninista". Se trata de uma radicalização em grande medida forçada pelos ianques como reconhece o Che em uma entrevista a L. Bergquist, "Look", novembro, 1960: "Exceção feita de nossa reforma agrária, que o povo desejava e havia iniciado espontaneamente, todos os procedimentos radicais que adotamos foram uma resposta direta aos atos de agressão por parte dos potentes monopólios dos que vosso país é o máximo expoente. Para saber até onde chegará Cuba, é necessário lhe perguntar ao governo dos EUA até onde ele quer chegar".

A estratégia de se apoiar nos russos para combater aos ianques não é aceita, de todos os modos, pela totalidade do velho castrismo. Franqui distingue nesse sentido pelo menos quatro correntes internas: os pró-ianques que se conformavam com uma "democratização" anti-batistiana, os nacionalistas democráticos, a corrente operária revolucionária socialista porém não pró-soviética (fundamentalmente os sindicatos casuístas) e, finalmente, uma corrente "pequeno-burguesa" autoritária aliada aos comunistas e que é a que acabou triunfando. Os simpatizantes do peronismo em Cuba, nacionalistas democráticos ou socialistas nacionais, acabaram exilados (Pardo Liada, muitos ortodoxos) ou presos (Salvador David, numerosos dirigentes sindicais) e o dilema parece ser, até há pouco, "democracia" pró-ianque ou pró-sovietismo casuísta.

O definitivo trânsito da ex-URSS ao bloco imperialista ocidental; seu abandono de Cuba, agora isolada e contando só com uma eventual ajuda dos Povos latinoamericanos, repropõe a questão e obriga ao castrismo a se basear em suas próprias forças, em um nacionalismo tão distante de ianques como de soviéticos. Poderá voltar o castrismo a um terceirismo revolucionário como o de sua etapa inicial? A História, enquanto criação livro dos Povos o dirá e, sendo assim, Cuba será uma trincheira mais no novo combate emancipador dos Povos da América Latina, com bandeiras nacionais e sociais, tão anti-capitalistas como anti-marxistas.