14/05/2026

José Luis Ontiveros - A Cultura e o Guerrilheiro

 por José Luis Ontiveros

(2011)


A cultura é um campo de batalha e sua conquista é uma necessidade que precede a tomada do poder. Tal afirmação baseia-se na revisão feita por Antonio Gramsci do materialismo dialético, quando ele passou, sem que seus críticos tenham percebido, de sua fase marxista-leninista para o atualismo do filósofo fascista Giovanni Gentile, autor da vertente hegeliana de direita do Estado Totalitário, alma da alma como o define.

Esta secreta conversão ideológica ocorre paradoxalmente quando Gramsci está recluso na Ilha de Útica e escreve seus "Cadernos do Cárcere", onde transpõe para o marxismo clássico os valores do fascismo revolucionário que haviam alcançado na Itália um desenvolvimento político próprio, como Lênin havia predito, ao afirmar que Mussolini era o único revolucionário capaz de tomar o poder na Itália.

Desta forma, o trabalho político do partido comunista e da ditadura do proletariado passa a ser descartado pela vanguarda de intelectuais em relação ao povo e seu ethos cultural (orientação ética de uma cultura).

Alain de Benoist adverte que Gramsci não chega a delinear a identidade profunda da mentalidade coletiva, embora desenvolva temas de interesse.

De Gramsci surge a diferença entre sociedade civil e política; a hegemonia ideológica; a organização do consentimento; o bloco histórico; a persuasão permanente; e o que poderia ser resgatável do marxismo, na medida em que não é seu derivado, mas sua réplica: Gramsci é assim um marxista filofascista, afirmação um tanto escandalosa que se funda na importância que dá à superestrutura ideológica e que corresponde ao atualismo do ato do pensamento de Gentile ou pensamento pensante, em que a ideia determina o mundo e não a realidade social.


Palavra fundante


A importância da cultura, de seus hábitos, da mentalidade coletiva, definiu uma esfera de hegemonia dos novos mandarins ou intelectuais orgânicos, que devem passar pelas vacinações que certifiquem sua correção política – que muitas vezes resulta em fazer parte do aparato da intelligentsia, não enquanto criadores de valores, mas em sua capacidade de reprodução dos paradigmas sistêmicos ou princípios comuns e implícitos que determinam a apreciação social sobre sua importância.

Por isso, requer-se revisar os conceitos fundamentais de Carl Schmitt em torno de sua Teoria do Guerrilheiro como forma de resistência e dissenso radical sobre os fundamentos da civilização demoliberal e de seu detrito marxista, na medida em que no mundo do “pluralismo” subsiste uma tirania do pensamento único.

A tarefa do guerrilheiro é a irregularidade perante as forças opostas esmagadoras e uniformizadas; sua mobilidade tática no ataque e no recuo, travando a luta em seu próprio terreno; a intensidade de seu compromisso ideológico perante uma sociedade cética sobre seus próprios princípios orientadores e o sentido de enraizamento e apego à terra e ao sangue, que define o sentido telúrico. O combate do guerrilheiro trava-se nos espaços em que vai afastando as forças adversárias de seu propósito de extermínio e de sua guerra total, perante o poder de inimizade declarado como ontologia e aniquilamento, o guerrilheiro cultural atua com precisão e inteligência. Sua vitória é a própria lealdade a uma ordem de valores e seu reconhecimento é travar com sentido heroico uma luta que poderá acarretar o descrédito e a maldição. Nesse sentido, seu papel é o de uma rebeldia irrevogável e uma exigência interna de autenticidade.

Tal desafio é o campo em que vive e morre o guerrilheiro sem depor sua postura crítica e seu radical inconformismo. Sua história é enfrentar no combate da invisibilidade sua própria sombra e erigir no deserto a palavra fundante.