22/03/2026

Geydar Dzhemal - Luta de Classes no Século XXI: Parte II - Os Senhores dos Clãs Burocráticos

 por Geydar Dzhemal

(2012)


Pela sua composição humana e de quadros, a burocracia internacional diferencia-se fundamentalmente das burocracias nacionais. Estas duas corporações diferenciam-se não só pela sua ideologia, objetivos históricos, métodos de governo e fontes de financiamento. Opõem-se também pela sua base antropológica: possuem diferente antropologia social.

Anteriormente dissemos que existem três tipos fundamentais de burocracia internacional: supraestatal, interestatal e não estatal. As fontes para o fornecimento dos quadros destes três contingentes também são distintas.

A mais democrática é a gênese dos burocratas interestatais. Geralmente, tratam-se de pessoas procedentes de pequenos partidos marginais, que nos seus estados obtiveram o estatuto de parlamentares, mas que não têm perspectivas de entrar na tendência majoritária. Normalmente, tratam-se dos partidos próximos aos social-democratas de esquerda ou aos “verdes”. Claro que os funcionários que chegam às estruturas de Bruxelas através deste canal representam um tipo especial de pessoas que querem fazer carreira, para quem as organizações políticas nacionais são um estorvo na luta pelo estatuto burocrático internacional.

Os funcionários que entram nas estruturas supraestatais, regra geral, possuem a experiência de trabalho nos organismos governamentais de tal ou qual estado e nos seus postos demonstraram ser os promotores do “governo mundial” (em fase de formação). Tratam-se dos funcionários que há muito traíram as suas corporações burocráticas nacionais, que demonstraram a sua lealdade ao establishment cosmopolita e que foram solicitados a nível da ONU ou das estruturas interestatais. Às vezes, abre-se-lhes a possibilidade de voltar ao formato da direção nacional – logicamente, para ocupar os máximos postos. Tal rotação não dilui a fronteira entre a burocracia nacional e os seus colegas-oponentes cosmopolitas. Trata-se mais da ruptura de uma burocracia nacional concreta, da sua submissão total ao “governo mundial”. É o que nos assinalam em particular as nomeações de Amr Moussa (ex-secretário da Liga dos Estados Árabes) e de Mohamed ElBaradei (ex-dirigente da Agência Internacional de Energia Atômica) ao posto de presidente do Egito. A clareza do caso potencia-se ainda mais se pensarmos que com Mubarak o Egito representava o exemplo da burocracia nacional clássica, estreitamente ligada aos republicanos dos EUA. A burocracia internacional, apoiada pelos democratas de esquerda com Obama à cabeça, tentou aproveitar o movimento anti-autoritário massivo no Egito para colocar os seus candidatos. Quando ficou claro que personagens tão odiadas do ponto de vista da corporação nacional-burocrática como A. Moussa e M. ElBaradei não tinham possibilidades, o establishment cosmopolita e a Casa Branca de Obama estavam dispostos a aceitar até o candidato dos Irmãos Muçulmanos, que lhes convém mais do que qualquer burocrata nacional do aparato de Mubarak. Como resultado, o Egito encontra-se à beira da guerra civil, que nos nossos dias é a forma mais frequente da luta entre a burocracia internacional e o funcionalismo nacional em cada país concreto.

A mais elitista dentro da corporação da burocracia internacional é a classe do funcionalismo não estatal. As suas estruturas, por um lado, estão estreitamente relacionadas com os clubes conceituais que representam as estruturas criativas reais do poder mundial. Por outro lado, precisamente as organizações internacionais não governamentais têm as possibilidades de colaborar com o crime organizado internacional. Através deles passa o dinheiro da máfia que deve ser lavado. Com frequência, justamente nessas “organizações não governamentais” – na sua direção, entre os seus fundadores – descobrimos os representantes da velha nobreza hereditária, que tem relação direta com o sistema do poder através dos clubes.

Aliás, as organizações internacionais não governamentais são as menos transparentes e menos controláveis perante os organismos de controle, sobretudo tendo em conta que estes organismos de controle, por sua vez, pertencem às estruturas corporativas internacionais. Qualquer tentativa por parte das burocracias nacionais de desafiar a autonomia das organizações não governamentais provoca, regra geral, um escândalo político.

A burocracia como corporação é um “animal” que sempre precisa ter dono. Tanto os burocratas nacionais como os internacionais têm os seus donos. Naturalmente, não só são distintos, como estão enfrentados.

Os senhores da burocracia nacional são os bons velhos liberais de formação clássica. É justamente aquela classe política que ascendeu para ter vida própria no século XVIII, preparou e levou a cabo a Grande Revolução Francesa e que, criando o socium político desta revolução, preparou e levou a cabo a liberação das colônias americanas da metrópole real britânica. O liberalismo clássico que se apoia nos três pilares da nova mentalidade ocidental – o protestantismo em qualquer das suas formas, o empréstimo bancário e “o império da lei”, ou seja, a “juristocracia” (o predomínio dos juristas) – é, no plano humano, um grupo de pessoas de profissões liberais (advogados, especuladores, boêmia artística, etc.) que estão unidos, por um lado, pela sua rejeição do regime feudal-monárquico, por outro – em não menor medida – pela sua oposição interior à burguesia industrial.

Quando falamos do “protestantismo em qualquer das suas formas”, não se trata unicamente do luteranismo, calvinismo e demais seitas moralizadoras, mas também das novas formas de “religiosidade laica”, inspiradas pelo cristianismo entendido através do humanismo. As versões laico-filosóficas do cristianismo, repensado fora do contexto eclesiástico, podem ter um quadro teórico muito amplo, até à filosofia do Iluminismo, cuja conexão com os huguenotes esmagados em França foi perfeitamente real. (Estritamente falando, o próprio marxismo, sendo a versão mais esquerdista do liberalismo clássico, também mergulha as suas raízes no protestantismo e inspira-se no seu pathos, sem falar de que, em perfeita correspondência com a lógica social da classe liberal, dirige-se em primeiro lugar contra o capital industrial. A mesma ideia socialista é, antes de mais, a subordinação do capital industrial ao financeiro que, por sua vez, se subordina à corporação burocrática do Estado).

O desenvolvimento da classe liberal no seu sentido clássico levou à criação e afirmação do sujeito de direito e ideológico chamado “estado-nação”. O liberalismo logrou submeter ao seu jogo não só a burguesia industrial, que em todos os países adquiriu a característica de “nacional” – os liberais impuseram a segmentação em estados nacionais até ao establishment monárquico. Como resultado, já na segunda metade do século XIX as monarquias perderam o seu traço importantíssimo: o aspecto sagrado sobre-humano, que convertia as monarquias num fenômeno, por princípio, supranacional. Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, as monarquias tinham-se convertido em liberais, “domesticadas”, em grande medida dependentes dos partidos parlamentares. Os observadores daquele tempo chamavam a estes partidos “burgueses”; na realidade, os verdadeiros jogadores no campo público não eram os capitalistas clássicos, mas as pessoas de profissões liberais: advogados, médicos, corretores da bolsa, que se tinham transformado nos demagogos profissionais. Precisamente esta classe de pessoas que vivia não tanto à custa da economia real do “intercâmbio dos elementos”, como à custa da economia dos serviços, ou seja, à custa da nascente sociedade civil com as suas novas necessidades – é a que se converteu no dono real (muito mais que as dinastias e as cortes) da corporação nacional-burocrática que acabava de ser criada. No período de pré-guerra, os burocratas da Europa monárquica eram em muito maior medida controlados pelos parlamentos que pelas chancelarias de suas majestades.

No século XIX, o liberalismo dividiu-se no campo da esquerda e da direita. O liberalismo de direita ganhou a guerra civil nos EUA, afirmando-se sob a forma do estado burocrático republicano. O liberalismo de esquerda venceu na guerra civil na Rússia de 1918 – 1921, criando nela a burocracia socialista do partido (nomenklatura). Com ela a coisa também não é tão fácil, porque protegendo-se durante muito tempo atrás das teses da ditadura do proletariado e, depois, da hegemonia da classe operária, a nomenklatura do partido em grande medida dependia da assim chamada “camada intermédia” – intelligentsia soviética.

A parte mais influente, mais “de clube” desta intelligentsia soviética eram os redatores de discursos (“referentura” em russo, encarregados de escrever os discursos e textos programáticos) dos órgãos do partido-governo, os “colarinhos brancos”. Sobre eles orientavam-se e deles dependiam as camadas superiores da intelectualidade criativa e científico-técnica. Foi essa “referentura” junto com as “pessoas de profissões liberais” que levou o regime ao desastre, já que ele se tinha convertido num obstáculo para os seus instintos predadores corporativos.

Hoje, os enclaves mais fortes da burocracia nacional no mundo são o Partido Republicano dos EUA e o Partido Comunista da China, os polos direito e esquerdo da corporação mundial nacional-burocrática.

De maneira que todas as burocracias nacionais que ainda não foram arrasadas pelo rolo compressor do funcionalismo cosmopolita têm que orientar-se para um deles. A maioria dos burocratas nacionais, por enquanto, está maioritariamente relacionada com os republicanos norte-americanos, mas ante os nossos olhos cresce o campo daqueles que veem a salvação na aliança da República Popular Chinesa com os burocratas estatais russos, representantes das estruturas de força (“órgãos e forças de segurança do Estado” – N. do T.).

Não em última instância, tal reorientação deve-se a que os republicanos estadunidenses, como resultado das ações aventureiras dos neoconservadores com Bush à cabeça, perderam a iniciativa política nos próprios Estados Unidos, pelo que dificilmente podem nas atuais circunstâncias de crise salvar as suas criaturas, que caem uma após outra sob o rolo compressor dos cosmopolitas que lograram dominar a onda da cólera da “rua mundial”.

A burocracia internacional como sistema expressa a vontade política das velhas elites, às quais as revoluções, guerras mundiais e demais comoções do século passado obrigaram a recuar temporariamente para a sombra.

O clube tradicionalista que reúne nas suas fileiras as camadas superiores do clericalismo multiconfessional – desde o Papa de Roma até ao Dalai-lama e aos sheikhs sufis – com as casas aristocráticas, algumas das quais continuam a ser dinastias reinantes, - é a base humana da dimensão significativa do tempo, na qual a história aparece como um guião religioso. Claro que este clube é apenas um dos principais protagonistas do megadrama histórico, mas pretende usurpar por completo o controlo sobre o curso da história e converter-se no único beneficiário do processo histórico.

Os monarcas já tinham planeado algum tempo atrás criar o governo mundial. Para isso, precisavam de libertar-se dos nacional-liberais e dos parlamentos criados por eles, acusar os partidos políticos dos sanguinários crimes cometidos com os seus próprios povos e conseguir que as massas mobilizadas obedecessem completamente à dimensão sagrada do poder. Coisa que devia ocorrer no transcurso de uma rápida guerra mundial, iniciada pelos parlamentos e detida pelos monarcas reinantes. Neste caso, os laços de parentesco entre os monarcas deviam transformar-se na garantia da paz eterna e aquele mesmo governo mundial benfeitor, sobre o qual ao longo de todo o século XIX pós-napoleônico têm estado a sussurrar os clericais de extrema-direita…

Não pôde ser! Os nacional-liberais ganharam aos monarcas, prolongando a guerra e convertendo o establishment aristocrático em odioso ante os olhos de milhões que durante os quatro anos estiveram a morrer nas trincheiras.

Mas para este círculo de pessoas que vive e pensa por muitas gerações e tem as premissas antropológicas constantes, um retrocesso temporal não é mais do que uma pequena interrupção, um estímulo para a revanche. A época de Lutero, as Guerras Camponesas representaram um desafio muito mais sério para a hierarquia sagrada, mas naquela etapa tudo terminou com a Contrarreforma. Na segunda metade do século XX, o Clube Tradicionalista logrou organizar a burocracia internacional, que já hoje representa o esboço do futuro governo mundial.