28/04/2026

Collin Cleary - O Homem Ausente na Cosmogonia Nórdica

 por Collin Cleary

(2011)




I


Introdução


Ao comparar um grande número de mitos indo-europeus, e usando indicações linguísticas, Bruce Lincoln reconstruiu o que ele acredita ser o mito de criação protoindo-europeu. Este envolve dois irmãos, um sendo um sacerdote chamado *Manu (Homem), o outro um rei chamado *Yemo (Gêmeo), que viajam juntos e acompanhados por um boi. Por alguma razão, eles decidem criar o mundo. Manu oferece Yemo e o boi em sacrifícios. Ele desmembra seus corpos e usa os pedaços para criar as diferentes partes do cosmos[1].

A cosmogonia nórdica expressa este protomito de maneiras evidentes. Yemo, claro, é Ymir. O boi torna-se Audumbla, a vaca cósmica. É o corpo de Ymir que fornece as partes do mundo. Mas um elemento importante está manifestamente ausente da versão nórdica. Onde está Manu, o sacerdote e irmão de Ymir? Afirmo que Manu pode ser encontrado, grandemente transformado, na versão nórdica.


II


A Cosmogonia Nórdica


Antes de mais, seria útil fornecer simplesmente um breve resumo dos principais elementos do mito de criação germânico, recolhidos a partir de todas as fontes.

No começo, havia apenas um enorme abismo chamado Ginnungagap. Ao norte ficava uma região enevoada e gelada chamada Niflheimr, a terra dos mortos. De Niflheimr fluía uma fonte, que se separou em onze rios. Ao sul ficava Muspellsheimr, uma região ardente guardada pelo gigante negro Surtr. O fogo e o gelo saíram dessas regiões e se encontraram. O resultado foi a criação da vida primordial. Dessa mistura nasceu Ymir, o primeiro ser.

De Ymir nasceram os "gigantes da geada". Do calor sob a axila esquerda de Ymir nasceram dois seres, macho e fêmea. Um de seus pés acasalou com o outro e produziu um filho. Do gelo derretido, outro ser surgiu ainda, uma vaca chamada Audumbla. Ymir alimentou-se de seu leite. Audumbla lambeu o gelo salgado ao seu redor, até que um homem se formou. Ele foi chamado Búri. Por sua vez, Búri gerou um filho chamado Borr, que se casou com Bestla, a filha de um gigante chamado Bölthorn (espinho mau). Juntos, eles tiveram três filhos: Odin, Vili e Vé.

Por razões que não são totalmente claras, os irmãos decidem matar Ymir. Todos os gigantes, exceto um, se afogam em seu sangue. Os irmãos levam Ymir para o meio do Ginnungagap e o desmembram. Seu crânio torna-se o céu, e nos quatro cantos dele eles colocam quatro anões: Nordhri, Austri, Sudhri e Vestri. No centro, os irmãos constroem Midhgardr (Domínio do Meio) a partir da testa de Ymir. Perto do oceano, em Midhgardr, Odin, Vili e Vé descobrem duas árvores: Askr (freixo) e Embla (olmo). Eles decidem fazer dessas árvores o primeiro casal humano.

Note que não há um ser primordial associado a Ymir para iniciar o assassinato de Ymir, nenhum irmão-sacerdote.


III


A Identidade de Manu


Manu é mencionado no Rig Veda e no Atharva Veda como o criador da humanidade. No Aitareya Upanishad, o cosmos é criado a partir do corpo de Purusha, que é desmembrado por Atman, o "primeiro eu". Aqui, Atman parece claramente ser equivalente a Manu – "Homem" –, pelo menos na medida em que o homem possui um eu consciente.

Se procurarmos um equivalente a este "primeiro eu" no mito nórdico, este deveria ser o trio Odin, Vili e Vé. Edred Thorsson sugeriu que estes três são, na verdade, aspectos de um único ser, e há de fato uma tradição muito antiga de interpretação a apoiar esta tese[2]. Os especialistas frequentemente notam que os mitos tendem a repetir certos padrões, seja para enfatizá-los, seja para desenvolver os diferentes "momentos" de um fenômeno complexo. As repetições ternárias são muito frequentes, particularmente na mitologia germânica[3].

Thorsson nos diz que os seres que vieram antes dos três irmãos não eram, propriamente falando, conscientes. Ou talvez conscientes de si mesmos seria um termo mais preciso. Por outras palavras, Odin-Vili-Vé é o primeiro eu. Odin-Vili-Vé juntos são Manu, o Homem. Mas onde está o estatuto de Manu como sacerdote e como irmão de Ymir? Como foi observado por Dumézil e seus alunos, Odin representa a "função sacerdotal" na ideologia tripartida indo-europeia. Note também que Odin-Vili-Vé são irmãos – mas não irmãos de Ymir. Sua relação mútua, em vez de ser dirigida para outro inconsciente, sugere a natureza ligada ao eu e refletida da consciência do homem. Nos Vedas, é interessante notar que Manu é representado não como um ser único, mas como um ser múltiplo[4].


IV


Odin, Vili e Vé


O fato de os três irmãos formarem o primeiro eu pode ser deduzido por uma análise da identidade de cada um. Os três juntos representam uma articulação dos diferentes aspetos da individualidade humana.

O nome Odin é derivado de odhr, que designa um estado de consciência extática. A palavra grega ekstasis significa literalmente "encontrar-se fora de si", e um estado extático é um estado pelo qual somos transportados para fora de nós mesmos, pelo qual nos tornamos mais do que somos. Nas discussões sobre a cultura e o mito germânicos, odhr é por vezes chamado wut ou wodh, exatamente pelas mesmas razões linguísticas que Odin também se encontra sob os nomes de Wuotan e de Woden ou Wodhanaz.

O odhr ocorre sob três formas, correspondentes às três "funções" dumézilianas. O odhr pode manifestar-se no êxtase religioso, no sentimento de ser transportado para fora de si mesmo e dirigido para o numinoso. O odhr manifesta-se também na fúria do guerreiro ou berserker, uma raiva ou frenesi guerreiro no qual se pode perder. Finalmente, o odhr pode manifestar-se numa forma de "terceira função", como o transporte extático por vezes sentido no trabalho manual, nos festivais agrícolas, nos ritos de fertilidade e nas relações sexuais. Estas formas de odhr existem, claro, numa hierarquia, o plano mais elevado e mais puro sendo o odhr religioso.

O odhr corresponde mais ou menos ao que Platão chamava de espírito (thumos). (Encontra-se também uma noção bastante similar em Hegel, o Geist, geralmente traduzido por espírito). O espírito de Platão é uma das três partes da alma discutidas em A República. As outras duas são a razão, e o apetite ou desejo. A razão é a parte dirigente da alma (ou a parte que deveria dirigir), e corresponde à primeira função de Dumézil. O apetite ocupa-se principalmente da satisfação dos impulsos físicos, e corresponde portanto à terceira função. O espírito é o que se manifesta nos "guardadores", os soldados da cidade de Platão. O espírito implica fidelidade a um ideal. Os homens possuidores de espírito levam a sério conceitos como a honra, e estão dispostos a morrer por eles. Em A Fenomenologia do Espírito, Hegel mostra que o cuidado com a honra é o primeiro e mais fundamental tipo de espírito, e que os modos de espírito mais elevados e mais refinados são aqueles em que somos dirigidos para um ideal religioso ou filosófico.

Para Platão e Hegel, como para muitos outros filósofos, ter espírito é a maneira mais fundamental pela qual nos distinguimos dos animais. Os animais não têm um ideal e não combatem por um ideal, ou princípio transcendente, e não "saem de si mesmos" (pois, de fato, eles não têm um eu). Assim, Odin, como deus do odhr, representa o que é mais humano. Isto não quer dizer que, no sentido próprio, Odin seja realmente homem, e que o homem seja Deus. Odin (ou antes Odin-Vili-Vé) reúne essas características que fazem de nós humanos, mas são características que devemos realizar em nós mesmos. Os cães não precisam esforçar-se para ser cães, eles já o são. Mas os humanos devem esforçar-se para ser humanos. A nossa natureza, num certo sentido, encontra-se fora de nós como algo que deve ser alcançado. Não se esqueça de que os humanos são criados a partir de Askr e Embla, pelo facto de certas propriedades lhes serem atribuídas por Odin-Vili-Vé.

Vili significa vontade, que é a capacidade do homem de modificar os dados de acordo com seus objetivos e ideais; sua capacidade de se impor ao mundo. Só os seres humanos têm esta vontade. Vé significa algo como "sagrado" ou "santo". É o terceiro aspeto do espírito humano que o torna particularmente humano. Vé representa a abertura dos seres humanos para o transcendente, ou o Absolutamente Outro[5]. Só os seres humanos possuem esta abertura, e o sentimento de uma divisão entre a natureza e a existência humana – uma divisão entre ideal e natureza, Deus e homem, sagrado e profano, etc.

Pode-se facilmente ver que estes três momentos do espírito humano estão ligados uns aos outros. A abertura divina, o sentido do Sagrado fornecido por Vé é necessário antes que as formas superiores do odhr possam ser conhecidas. É também através do odhr que frequentemente tomamos consciência da nossa capacidade de abertura ao divino. Sem a abertura ao divino, o odhr tornar-se-ia uma frenesi de aniquilação insensata, ou um impulso de sensualismo despreocupado. A vontade é a imposição dos nossos ideais ou dos nossos planos à natureza. No entanto, sem a abertura ao transcendente, a uma ordem eterna, a vontade tornar-se-ia um assunto puramente pessoal, e potencialmente destrutivo (ver capítulo 1, "Conhecer os deuses"). É difícil ver que a abertura ao transcendente precise de ser "moderada" de alguma forma, pelo odhr ou pela vontade, e assim o trio Odin-Vili-Vé emerge como aproximadamente análogo à tríade platónica Espírito-Desejo-Razão, onde a Razão "mede" ou ordena os outros dois.

No esquema de Platão, a Razão reina, mas no esquema germânico é Odin, não Vé. Isto significa que no esquema germânico o Espírito reina? Sim e não. O Espírito é soberano de facto, mas Odin, como chefe guerreiro, é também sacerdote. Ele combina as duas funções. A sua é uma vigor de espírito moderada por uma sabedoria transcendente obtida de diferentes fontes (as runas, o poço de Mimir, a cabeça de Mimir, Freyja, e o hidromel poético). Assim, num certo sentido, é a abertura ao Sagrado, Vé, que "reina" na realidade. A situação é precisamente análoga à descrição por Platão da timocracia [também chamada "timarquia", NT] em A República, que segundo alguns era a sociedade que Platão realmente recomendava. Na timocracia, o Espírito reina, ou antes os homens dotados de vigor de espírito ou guerreiros reinam – mas são guerreiros formados e moderados pelos filósofos, aqueles que contemplam a ordem eterna das coisas (o paralelo é muito preciso, especialmente porque a conceção germânica diz que a sabedoria vem da memória, Mimir, e Platão pensava que a verdadeira sabedoria estava ligada à recordação).

Tal como interpretei o mito, Odin-Vili-Vé é uma entidade ontologicamente distinta dos homens, mas que constitui as características que fazem de nós humanos. Como disse, o mito diz-nos que essas características encontram-se fora de nós como algo que devemos tentar realizar. A tentação, no entanto, é concluir que somos Odin-Vili-Vé; que nós e os deuses somos um só; que o homem é Deus. Esta conclusão tem sido irresistível para muitos. Ela manifesta-se na identificação do Atman e do Brahman no Vedanta. Entre os povos germânicos, ela manifesta-se em místicos como Eckhard e filósofos como Hegel. Mas esta interpretação anula a separação entre humano e divino (ou Sagrado) representada por Vé, e anula assim a abertura ao transcendente, que é a essência da religião. É, na verdade, um humanismo radical (os resultados práticos e tangíveis deste humanismo sobre a vida dos Indianos dispensam comentários). O resultado último da versão alemã deste humanismo foi a filosofia de Karl Marx, o adepto de Hegel, que rejeitou completamente o divino e que, essencialmente, fez do homem um deus (os resultados práticos e tangíveis deste humanismo sobre a vida dos povos da Europa, Ásia, Cuba e América Central e do Sul dispensam igualmente comentários).

Curiosamente, nenhum elemento desta tendência parece ter estado presente na tradição grega, ou na filosofia grega. Os mitos gregos abundam em advertências sobre a hubris do homem: a tendência dos homens para pensar que podem ser mais do que homens. As histórias de Ícaro e Dédalo, e de Aracne, são talvez os melhores exemplos. Os pensadores gregos viam o homem como a meio caminho entre a besta e o deus. O homem possui impulsos e necessidades físicas exatamente como uma besta, mas ao contrário de uma besta ele também possui a inteligência, que pode usar para contemplar o transcendente e o eterno. Há apenas um passo entre isso e a conclusão de que existe uma "centelha divina" no homem: que a inteligência é, pela sua natureza, uma coisa divina.

Em Aristóteles, encontramos uma conceção da relação humano-divino que não é muito diferente da descrição que fiz da relação dos homens com Odin-Vili-Vé. Para Aristóteles, Deus, que ele nomeia o Motor Imóvel, é uma espécie de puro eu. Ele é o pensamento nascido de si mesmo; o pensamento que se pensa a si mesmo. Todas as criaturas, incluindo o homem, esforçam-se de várias maneiras de "imitar" o Motor Imóvel: de ser tão independentes, tão autossuficientes, e tão imortais quanto Ele. A maioria das criaturas, incluindo a maioria dos homens, é inconsciente disso. Mas Aristóteles diz que este esquema explica por que o mundo é da maneira que é: por que as criaturas lutam para sobreviver e durar; por que elas destroem ou devoram o que ameaça a sua existência como entidades independentes; por que elas rivalizam para produzir descendência (uma tentativa imperfeita para alcançar a imortalidade), etc.

Só os humanos podem imitar o Motor Imóvel da maneira mais adequada. Os humanos possuem a inteligência, e o Motor Imóvel é uma pura inteligência. Os humanos podem envolver-se no pensamento nascido de si mesmo pela filosofia. Ora, quando os humanos se envolvem em tal reflexão, podem tornar-se idênticos ao Motor Imóvel? Em teoria, sim, mas apenas quando estão a refletir. A nossa natureza imperfeita e encarnada empurra-nos sempre a descer dessas alturas. Nunca nos identificamos perfeitamente com Deus. Sugiro que isto poderia ser, por alguns lados, um bom modelo a usar para entender o relato germânico.


V


Indicações Suplementares


A ideia de que Odin-Vili-Vé é Manu, ou o Atman do Aitareya Upanishad, pode também ser apoiada por uma comparação entre as cosmogonias nórdica e grega. O Aitareya Upanishad dá-nos razões para acreditar que estes relatos aparentemente muito diferentes poderiam estar relacionados. Quando Atman mata Purusha, o pénis de Purusha quebra-se. Dele vem a semente, e da semente as águas. O que é que isto nos pode lembrar senão a castração de Urano?

Um breve relato da história da criação por Hesíodo parece necessário. No começo, havia apenas o Caos (o Abismo), do qual saíram Gaia (a Terra) e Eros. Gaia dá à luz um ser que a cobre, Urano (o Céu), e que ela toma por esposo. Da sua união nascem os Titãs, incluindo Cronos (o Tempo), assim como as Titanides, que incluem Têmis (a Ordem). Urano odiava os seus filhos. Tendo ouvido falar disso, Gaia arranja para que Cronos mate o seu pai. Quando Urano, em estado de excitação, se aproxima de seguida de Gaia, Cronos castra-o. A semente do órgão cortado de Urano cria a espuma das ondas do oceano, e dessa espuma nasce Afrodite.

Este mito levanta muitas questões, mas uma questão crucial é esta: por que exatamente Urano odeia os seus filhos? Uma indicação pode ser encontrada numa fonte não indo-europeia, o mito de criação acadiano, que é similar ao relato de Hesíodo em vários pontos (suficientemente similar para nos fazer pensar que se não houve nenhuma influência histórica real, então os dois expressam provavelmente temas eternos).

De acordo com a história acadiana, Apsu e Tiamat nasceram do oceano primordial. Por sua vez, eles produziram Anu, o Deus do Céu, e Ea. No entanto, Apsu empreende matar os seus filhos porque eles perturbam o seu sono perpétuo. Felizmente, Ea consegue usar os seus poderes mágicos para fazer Apsu adormecer e depois destrói-o.

Apsu e Urano representam ambos a inconsciência (o "sono"). Urano está continuamente e maravilhosamente preso no abraço de Gaia. Os dois deuses machos parecem representar um estado de ser eterno, inalterado e inconsciente. Os produtos de Urano e Apsu são gerados ao acaso, fenómenos e monstros bizarros – como são os produtos de Ymir: gigantes, seres andróginos como Búri, etc.

O sacrifício de Apsu, Urano e Ymir representa a morte da inconsciência, e de uma fecundidade caótica e desordenada. O Tempo (Cronos) castra o inconsciente-eterno Urano e põe assim fim à sua procriação sem medida e monstruosa. A partir daí, todos os seres que nascerão serão gerados sob a égide de Têmis (a Ordem), a irmã de Cronos. Exatamente da mesma maneira, com a ascensão de Odin-Vili-Vé à supremacia, uma ordem ou um modelo racional e voluntário é imposto a todos os seres que virão. Esta ordem ou modelo não é inventado pelos deuses. É constituído das runas eternas. Os seres que vieram antes de Odin-Vili-Vé eram incapazes de se tornarem conscientes das runas, e portanto incapazes de ser (ou de dar à luz) algo que não monstros disformes. Thorsson escreve:


A tríade de consciência desintegra Ymir, e com a sua substância transforma o cosmos estático numa organização dinâmica, viva e consciente, de acordo com os modelos justos (isto é, inatos) já contidos na própria matéria (Ymir) e na semente primordial. … Eles modelaram esta substância primitiva em conformidade com a estrutura rúnica inerente[6].


Sobre este ponto – a criação do mundo de acordo com os modelos rúnicos – podemos encontrar ainda outro apoio a favor da identificação de Odin-Vili-Vé com Manu, desta vez nas doutrinas indianas védicas. Alain Daniélou escreve:


Diz-se que Manu, o Legislador, foi o primeiro a perceber as fórmulas-mentais das coisas e a ensiná-las aos homens. Ele explicou as relações dessas fórmulas com os objetos e criou assim a primeira linguagem. As fórmulas-mentais são consideradas como a forma subtil, o corpo subtil das coisas. Elas constituem esquemas abstratos, permanentes e indestrutíveis, dos quais as formas físicas podem sempre ser derivadas. A linguagem que Manu ensinou é a linguagem primordial, a verdadeira, a eterna linguagem da qual provêm as raízes das palavras (isto é, as monossílabas fundamentais) de todas as línguas. O sânscrito é a língua mais diretamente derivada desta fala originária da qual todas as outras línguas são formas mais ou menos corrompidas[7].


Assim, o Manu indiano desempenha um papel exatamente equivalente ao papel de Odin, semelhante a Hermes, como descobridor das runas, e professor das runas para a humanidade.

Finalmente, deve notar-se que Tácito relata que na sua época (primeiro século da era cristã) os Germanos adoravam um deus chamado Mannus: "Nos seus antigos cânticos, a sua única maneira de se lembrar do passado ou de o registar, eles celebram um deus nascido da terra, Tuiscon, e o seu filho Mannus, como sendo a origem da sua raça, como os seus fundadores. A Mannus eles atribuem três filhos, de acordo com os nomes dos quais, dizem eles, as tribos da costa são chamadas Ingvaeones; as do interior, Herminones; todas as outras Istaevones"[8].

Note que Mannus é aqui feito progenitor da humanidade, exatamente como o Manu védico, e como Odin-Vili-Vé. Mas há muitas outras coisas estranhas aqui. Por que é Mannus considerado o filho de Tuiscon? E quem é Tuiscon? Os três filhos de Mannus têm uma contraparte no relato nórdico? Há pelo menos duas interpretações possíveis das informações que Tácito nos dá.

(1) Tuiscon é Ymir. Mannus é Odin-Vili-Vé, e certamente estes três são descendentes (senão "filhos") de Ymir. Os "três filhos" de Mannus são na realidade as "três pessoas" de Mannus, chamados Odin, Vili e Vé no relato nórdico. Ou houve uma primeira separação de Mannus e dos três "filhos", ou talvez Tácito tenha entendido mal a história (isso seria particularmente provável se o que ele ouviu fosse um relato bastante filosófico sobre os "aspetos" de Mannus). O principal problema aqui é que não há nenhuma relação entre os nomes de Tuiscon e de Ymir. Mas depois não há "Mannus" no relato nórdico, e os três nomes dos filhos de Mannus também não podem ser encontrados.

H. R. Ellis Davidson defende a identificação de Tuiscon com Ymir, ligando Tuiscom com o sueco antigo tvistra, que significa "separado" (uma sugestão feita por outros)[9]. Isto sugere certamente o sentido do nome Ymir, "gêmeo", assim como a sua natureza andrógina ("separada" no sentido de separada, ou dual).

(2) Tuiscon é Tyr. Isto sugere-se facilmente simplesmente pela similaridade dos nomes de Tyr (ou Tiwaz, ou Tiu) e de Tuiscon. O primeiro problema com isto é que nenhum dos outros nomes corresponde a algo no relato nórdico, então por que deveria ser o caso para Tuiscon? O problema mais difícil, no entanto, é o da caracterização de Tuiscon como sendo "nascido da terra". Tyr, como deus do Céu, dificilmente pode ser uma divindade ctónica! Mas lembre-se de Hesíodo: Urano, o deus do céu, nasceu de Gaia, a Terra.

Ao raciocinar desta maneira (e em todas as páginas anteriores), faço a suposição de que havia um mito indo-europeu original do qual podemos encontrar diferentes "pedaços" no sistema nórdico, no sistema grego, no sistema indiano, e na religião relatada por Tácito. Talvez o relato de Hesíodo do casamento de Urano e Gaia tenha sido uma "corrupção" posterior, uma injeção de elementos não indo-europeus, mas talvez não. Talvez seja algo que foi "esquecido" pelos nórdicos.

Apesar das questões relativas a Tuiscon, o que parece claro – em particular quando tomamos as indicações vindas das tradições indiana e grega – é que Manu/Mannus tornou-se Odin. Como Manu, Odin é o assassino de Yemo (Ymir). Como o Manu indiano e o Mannus de Tácito, ele é o ancestral da humanidade. Como o Manu indiano, Odin é também o descobridor e o professor dos modelos eternos do real (isto é, ele é o primeiro "erudito"). E como o Mannus de Tácito, Odin está intimamente associado a um trio, Odin-Vili-Vé[10].


Notas


[1] Bruce Lincoln, Death, War, and Sacrifice  (Chicago: University of Chicago Press, 1991), p. 7.
[2] Edred Thorsson, Runelore (York Beach, Maine: Samuel Weiser, 1987), 146. H. A. Guerber, Myths of the Norsemen (Nova York: Dover Publications, 1992), 37.
[3] Axel Olrik falou de uma “lei dos três” no mito. Ver seu Epic Laws of Folk Narrative: The Study of Folklore, ed. Alan Dundes (Englewood Cliffs, N.J.: Prentice Hall, 1965), 131–33.
[4] Há quatorze Manus, para ser mais preciso. Cada um reina sobre um manvantara de 4.320.000 anos, que constitui um décimo quarto de um kalpa.
[5] Edred Thorsson, “The Holy”, em Green Rûna (Smithville, Tex.: Rûna Raven Press, 1996), 41–43.
[6] Thorsson, Runelore, 146.
[7] Alain Danielou, The Myths and Gods of India (Rochester, Vt.: Inner Traditions, 1991), 334.
[8] Tácito, Complete Works of Tacitus, trad. Alfred John Church e William Jackson Brodribb (Nova York: The Modern Library, 1942), 709. Os manuscritos de Tácito apresentam outras variantes do nome Tuiscon, incluindo Tuiston.
[9] H. R. Ellis Davidson, Gods and Myths of the Viking Age (Nova York: Bell Publishing, 1964), 199. O antigo inglês “twist” significa “trançar”, no sentido de duas fias trançadas juntas.
[10] Gostaria de agradecer a Edred Thorsson por algumas sugestões relativas à identidade de Tuiscon/Tuiston.