09/05/2026

Collin Cleary - Conhecer os Deuses

 por Collin Cleary

(2011)



I


Um Falso Conhecimento


Existem hoje aqueles que desejam trazer a humanidade (ou uma parte da humanidade) de volta a uma fé mais antiga, pré-cristã. Quase todos esses radicais religiosos afirmam que os deuses existem, mas que os seres humanos de alguma forma se "fecharam" a eles. A explicação mais comum para este "fechamento" é o desenvolvimento da inteligência: o cérebro grande do homem o separou da experiência do divino. Esta explicação é perigosa, pois leva ao anti-intelectualismo (ver, por exemplo, as obras de Jack London, D. H. Lawrence, e outros). É uma teoria que catalogou erroneamente todo uso da razão como "racionalismo", e então postulou que o único remédio é o erro oposto polar, o irracionalismo.

Se perguntarmos aos partidários desta opinião em que consiste a abertura aos deuses, geralmente nos é respondido que significa abertura a certas "forças" naturais que são reconhecidas e percebidas intuitivamente pelos seres humanos na forma de "arquétipos". Encontramos algo semelhante a esta ideia, por exemplo, em Julius Evola:


Diante dos altos cumes nevados, o silêncio das florestas, o fluxo dos rios, as grutas misteriosas, etc., o homem tradicional não sentia as impressões poéticas e subjetivas de uma alma romântica [moderna], mas sensações reais — mesmo que por vezes confusas — do sobrenatural, dos poderes (numina) que impregnavam esses lugares; essas sensações traduziam-se em várias imagens (espíritos e deuses dos elementos, das cascatas, dos bosques, etc.) frequentemente determinadas pela imaginação, mas não de forma arbitrária nem subjetiva: segundo um processo necessário. . . . [A faculdade imaginativa no homem tradicional] estava disposta de tal forma que podia frequentemente perceber e traduzir em formas plásticas impressões mais subtis do ambiente, que no entanto não eram nem arbitrárias nem subjetivas.[1]


Certas forças da natureza são simplesmente percebidas pelo homem como Thor, ou como Indra, da mesma maneira que uma certa configuração molecular da superfície dos objetos é percebida como vermelha, e outra como verde. O vermelho não é "subjetivo" no sentido de ser "inventado" pelo sujeito. Quando abro os olhos, não tenho outra escolha senão ver as asas de um cardeal [= ave americana, NT] como vermelhas. Mas o "vermelho" não existiria sem olhos capazes de registar as ondas de luz que emanam dessas asas, e um cérebro capaz de interpretar esses dados de uma certa maneira (A estrutura intrínseca do objeto existiria com ou sem observador, mas não a interpretação do "vermelho"). Assim, o vermelho não é subjetivo no primeiro sentido do termo — mas num sentido secundário é claramente subjetivo, já que sem observadores a cor vermelha não existiria.

Apliquemos este raciocínio aos deuses. As forças da natureza registadas pela imaginação (de acordo com processos determinados) existiriam com ou sem um sujeito. Mas não o registo desses processos como sendo deuses dados sensorialmente. Portanto, sem seres humanos não haveria deuses. Esta conclusão foi tirada pelo filósofo alemão G.W.F. Hegel no século XIX. Seu aluno Ludwig Feuerbach deu um passo mais adiante, com toda a lógica, e declarou que o Homem é Deus. Karl Marx, contemporâneo de Feuerbach, deu então o passo final ao declarar que, se esse fosse o caso, poderíamos então dispensar falar de Deus.

A teoria da "abertura aos deuses" exposta acima é parte integrante da perspetiva moderna, que é racionalista, redutora e antropocêntrica. Ela considera a experiência dos deuses como algo que pode ser "explicado" racionalmente. Analisa-a como uma "intuição imaginativa" de forças naturais, sentida de acordo com leis que devem ser fisiológicas. Reduz a experiência do divino a um epifenómeno neural. E assim declara implicitamente que sem os cérebros humanos, os "deuses" não existiriam mais do que a cor "vermelha". Se os partidários desta teoria estão mesmo só parcialmente certos ao pensar que o racionalismo moderno erradicou a abertura do homem aos deuses, por que então não pensam que a sua teoria poderia ajudar a restaurá-la?


II


Abertura ao Ser


O primeiro passo a dar para recuperar a abertura que descrevi é rejeitar a ideia de que devemos "explicar" os deuses, ou o conhecimento deles proclamado pelos nossos antepassados. Tal abordagem rejeita implicitamente a crença nos deuses; supõe que os deuses poderiam ser "reduzidos" a outra coisa. Em suma, tenta explicar os deuses à distância. Devemos abandonar todo o discurso sobre arquétipos e Mecanismos de Liberação Interna, os Espíritos Bicamerais e os poderes dos cogumelos – se quisermos nos abrir novamente aos deuses. A abertura deve ser abertura aos deuses… e nada mais.

Devemos nos abrir à possibilidade de que vivemos num mundo que pode conter mistérios insondáveis, e que entre eles podem estar os deuses. Devemos considerar a ideia de que a verdadeira racionalidade pode envolver o reconhecimento do fato de que certas coisas podem ser verdadeiramente inexplicáveis, e devem portanto simplesmente ser aceitas como tal.

Esta sugestão pode ser interpretada erroneamente como sendo a ideia de que deveríamos falar de acreditar nos deuses de uma maneira literal e impossível. Por outras palavras, acreditar, por exemplo, que encontrar Freyja significa encontrar uma verdadeira beleza loira numa verdadeira carruagem puxada por verdadeiros gatos. No entanto, não só não sugiro isso, como nem sequer penso que era dessa maneira que os nossos antepassados "primitivos" acreditavam nos seus deuses. O ponto de vista que proponho adotar pode ser considerado ingênuo – mas apenas no sentido em que rejeita todas as ideias preconcebidas sobre os deuses (e sobre a maneira como os nossos antepassados os conheciam). Ele rejeita todas as tentativas de mostrar de uma forma ou de outra que os deuses são realmente outra coisa (por ex., todas as tentativas de mostrar que o sagrado é realmente o profano!).

No entanto – e agora chego a um ponto de importância crucial –, a abertura ao divino é tornada possível por um ponto de vista mais fundamental: a abertura ao ser das coisas elas mesmas. Aqui inspiro-me em Heidegger, que entendeu que na nossa época estamos fechados ao ser das coisas, e que lhes impomos sempre uma certa forma ou um certo conceito (um ponto que tratarei mais longamente mais adiante neste ensaio). Como antídoto, Heidegger recomenda o ponto de vista da Gelassenheit (um termo que ele tira da tradição mística alemã), que é frequentemente traduzida por "deixar as coisas ser". Isto designa um estado de abertura onde permitimos que as coisas desdobrem o seu ser para nós, sem interferência; que nos revelem a sua verdadeira natureza.

A minha hipótese é que esta abertura é natural à humanidade, e é por isso que acredito que se pode reencontrar. É o nosso atual estado de "fechamento" que não é natural. Para voltar à abertura, no entanto, não basta compreender o conceito. O que é requerido é uma mudança radical na nossa maneira de nos orientarmos face aos seres, e isto deve começar por uma crítica radical e impiedosa de todos os aspetos do nosso mundo moderno.


III


Vontade


Uma lenda escandinava dos tempos cristãos diz que quando os deuses deixaram de ser venerados nos países nórdicos, os anões abandonaram esses países, pagando a um barqueiro para os fazer atravessar o rio uma noite e sair da terra dos homens. Ao chegar à outra margem, o barqueiro foi informado de que os anões "deixavam o país para sempre, devido à incredulidade das pessoas"[2].

Este conto fala do fechamento do outro lado: quando deixamos de acreditar neles, os deuses vão-se embora; eles fecham-se para nós. Mas, na verdade, a ação de fechamento é realizada pelo homem. Nós fechamo-nos aos deuses. Os deuses não fazem nada (e não esperamos que façam algo, pois são deuses). Os seres humanos têm uma capacidade notável para se fecharem à verdade. A natureza humana só é real nesta relação com o sobrenatural, mas esta relação é um canal que deve ser mantido aberto.

A natureza humana, como vida real na presença daquilo que é "superior" (o sobrenatural, o divino, o transcendente, o ideal), existe numa tensão constante entre dois impulsos gêmeos: o impulso para se abrir ao superior, e o impulso para se fechar a ele. Um é o impulso para alcançar uma coisa maior do que nós mesmos, deixando que ela nos dirija e (literalmente) nos inspire. O outro é o impulso para nos fecharmos a ela e para nos elevarmos nós mesmos acima de tudo. Por falta de uma palavra melhor, designarei esta última tendência pela palavra Vontade. As duas tendências – abertura e Vontade – estão presentes em todos os homens. Elas explicam a grandeza dos homens, assim como o seu lado mau.

A Vontade é um impulso para se "fechar" àquilo que não é o eu. É um fechamento que é ao mesmo tempo uma elevação e uma exaltação do Eu a um estatuto absoluto. A Vontade manifesta-se na sua forma mais básica como um desencadear-se contra tudo o que se opõe aos desejos do Eu. Na vida humana, isso começa como um choro ao nascer, mas assim que o organismo atinge uma certa força e uma certa destreza, passa a atos de destruição dirigidos contra o frustrador. Ele devora ou destrói o que se opõe a ele. Ao destruir constantemente aquele que limita os seus desejos ou ao rebelar-se contra ele, o organismo quer o princípio da existência sem limite. É por isso que a Vontade é uma exaltação do Eu a um estatuto absoluto. O telos (irrealizável) da Vontade seria uma condição na qual o organismo existiria sem oposição – e isso só poderia ser, claro, se o organismo fosse a única coisa existente. O desencadear da Vontade é também um fechamento ao outro, pois a busca da aniquilação da alteridade equivale a negar a sua realidade última.

Com base nesta descrição, pode-se facilmente ver que todos os organismos, não apenas o homem, manifestam Vontade. Só o homem, no entanto, pode completar a Vontade com a abertura ao superior. É também claro que todos os homens começam a sua vida como uma pura encarnação da Vontade, e o crescimento e a maturação envolvem uma moderação da Vontade. Se a Vontade pura – o fechamento absoluto a tudo o que é outro, incluindo o divino – é a natureza do mal, então os seres humanos começam a sua vida como um mal puro. A criança não reconhece nada superior a si mesma. Chora e bate os punhos contra o mundo logo que os seus desejos são frustrados. Os pais são "amados" (primeiro) apenas como intermediários para a satisfação dos seus desejos (e mesmo muito tempo após o nascimento, o limite psíquico entre a criança e a mãe permanece turvo – é o pai que é o outro problemático). O que chamamos de "egoísmo" é apenas Vontade, e é por isso que o consideramos mau.

Ao longo de toda a vida humana, a Vontade acaba por se manifestar sob formas diferentes e mais refinadas. Nas suas formas superiores, a Vontade manifesta-se não pela destruição mas por (1) a transformação do mundo segundo os desígnios humanos, e (2) o desejo de penetrar e dominar o mundo através do instrumento do espírito humano – pela exploração, análise, dissecação, categorização, observação e teoria. Na sua forma mais refinada, a Vontade torna-se no que se poderia chamar um "humanismo titânico": o desejo de fazer do homem a medida, de exaltar o homem como o objetivo e o fim de toda a existência, de dobrar todas as coisas aos desejos humanos. Não é por acaso que todos os planos grandiosos e todas as invenções da modernidade (o domínio tecnológico da natureza, o mercado mundial, o socialismo, o sistema de saúde universal, etc.) têm como fim exatamente o que a criança busca: a satisfação dos desejos, e a manutenção do conforto e da segurança. A idade moderna é a Idade da Vontade, a idade do Humanismo Titânico. A modernidade é única na história humana, porque em nenhuma outra época a Vontade triunfou tão completamente da abertura.

Esta descrição poderia fazer crer que uma grande parte do que consideramos humano deve ser atribuído à Vontade. Por exemplo, se a curiosidade científica é uma manifestação da Vontade, isso torna a ciência "má"? A resposta é um não, mas. Só uma Vontade ilimitada e não dominada é má – e portanto só uma curiosidade científica ilimitada e não dominada seria má. A Vontade é natural e necessária à natureza humana. Como qualquer outra coisa, porém, deve ser mantida dentro de limites. A natureza humana encontra-se na tensão entre Vontade e abertura, entre fechamento e abertura. Nós nos abrimos para receber a verdade – para receber o logos, para receber a vontade dos deuses – depois tomamos posse dessa verdade como sendo nossa e a projetamos no mundo, transformando o mundo, propagando a verdade que ganhámos pela abertura àquilo que está para além do humano. Agindo assim, o homem desempenha o seu papel de intendente da criação divina: ajudar a natureza a atingir a perfeição. A Vontade só se torna destrutiva quando está completamente desconectada daquilo que está para além do humano. Existe então, no ser propriamente humano, uma oscilação entre abrir-se para receber a verdade e fechar-se e absorver essa verdade, fazê-la sua própria, e querer que esta seja a verdade para todos.

Se os seres humanos começam na Vontade, como pode o homem então abrir-se àquilo que se encontra fora dele? As crianças são obrigadas a abrir-se por um poder mais forte do que elas, que lhes inspira um temor respeitoso: os seus pais, os seus professores, e (outrora) o clero. Se o homem antigo era mais aberto, é porque sentia temor face ao seu ambiente, à natureza, às provações da existência. O homem moderno está cortado deste sentimento de temor respeitoso por (1) a tecnologia, que lhe permite manipular o mundo natural e assim evitar confrontar o natural na sua forma pura, (2) por habitações inexpugnáveis que o abrigam da natureza, (3) por cidades que criam um mundo humano inteiro separado da natureza, e (4) pela ciência, a história que contamos concernente à natureza, e que nos deixa com a impressão de que os seus mistérios foram plenamente penetrados e neutralizados.

É pelas forças da natureza que nos obrigam a uma tomada de consciência de que somos lançados num mundo de factos: de seres e forças que não concebemos e que são na maior parte impossíveis de controlar. A abertura ao mundo da natureza, apreciada desta única maneira questionante, torna possível a abertura a um outro mundo de forças e poderes – um mundo que contém e que no entanto transcende a natureza. É o mundo dos deuses. Fecharmo-nos ao mundo natural significa inevitavelmente fecharmo-nos ao divino. Na verdade, não só estaremos fechados à crença nos deuses, como também à nossa própria natureza, já que a natureza humana (como exporei brevemente) é a abertura ao divino. Mas há mais: é por esta mesma abertura que recebemos os ideais e os padrões que nos têm tradicionalmente guiado. Ao nos fecharmos ao mundo natural, e ao mundo sobrenatural que o engloba, fechámo-nos à Tradição.


IV


A Idade da Vontade


Como mencionado acima, é durante o período moderno que a Vontade rompeu os seus laços e nos arrancou aos deuses. A forma tomada pela Vontade no período moderno é o ideal do humanismo, que é o projeto antropocêntrico, científico, materialista, racionalista de transformar o mundo e os seres humanos a fim de progredir para um estado no qual toda a resistência ao desejo é anulada e todas as frustrações melhoradas.

O projeto humanista moderno, como uma expressão de Vontade infantil, é uma tentativa de anular a alteridade da natureza. Isto é expresso muito bem na passagem de abertura de The Fountainhead de Ayn Rand:


Ele olhou para o granito. Para cortar, pensou, e para transformar em paredes. Ele olhou para uma árvore. Para cortar, e para transformar em vigas. Ele olhou para um veio de ferrugem na pedra e pensou no minério de ferro sob o solo. Para fundir para fazer vigas escalando o céu. Estas rochas, pensou, estão aqui para mim; à espera da perfuração, da dinamite e da minha voz; à espera de serem cortadas, rachadas, marteladas, e recompostas; à espera da forma que as minhas mãos lhes darão.[3]


Ao olhar para a natureza apenas como uma matéria-prima a converter segundo os nossos desígnios, os modernos adotam o ponto de vista de que, praticamente, a natureza não tem ser. Pelo contrário, ela espera que nós lhe confiramos um ser (ou uma forma, ou um sentido). Não reconhecemos qualquer limite ao nosso poder de manipular e controlar (quando encontramos o que parecem ser limites, salientamos que finalmente serão todos superados, com a marcha do Progresso). Pode-se ver facilmente que este desejo de refazer tudo, reordenar e aperfeiçoar – este desejo de colocar a nossa marca em tudo – equivale a uma espécie de desejo niilista de negar toda a alteridade e de tornar o Eu (ou o humano) absoluto.

Tal abordagem é uma receita para a loucura. A saúde mental depende do contato do ser do sujeito com o mundo exterior objetivo, que age como um travão face às nossas ideias e aspirações. Na verdade, é apenas pela interação com um mundo objetivo – aquilo que não somos nós – que a identidade humana se desenvolve; é ao interagir com um outro que traçamos os limites do Eu. Não deveria surpreender-nos que os modernos careçam de um forte sentido do Eu – que são narcisistas, inclinados a se "reinventarem" constantemente e a passar de uma moda a outra. Não reconhecemos qualquer limite natural, nada que não possa ser de uma maneira ou de outra, um dia ou outro, afinado ou reformado ou melhorado.

E quando formos "deixados sozinhos" conosco mesmos no universo, quando o universo não for de todo outro, e o Eu se tiver tornado absoluto, o que acontecerá? Para Hegel, a história está terminada, e os seres humanos encontram-se no seu zénite. Hegel pensava que para o homem aprender a sua verdadeira natureza, ele devia chegar à realização-de-si. Isso conduziria a uma experiência de exaltação. A verdade é bastante diferente, como descobrimos desde que o poderoso Prometeu foi abatido pela cólera em 1831[4]. A verdade, na verdade, está mais próxima do que o "Insensato" de Nietzsche nos diz em A Gaia Ciência. O Insensato vem à praça do mercado na clara manhã com uma lanterna, dizendo às pessoas que mataram Deus:

Nós o matámos – vós e eu. Todos nós somos os seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte inteiro? O que fizemos, ao desacorrentar esta terra do seu sol? Para onde ela roda agora? Para onde nos leva o seu movimento? Longe de todos os sóis? Não estamos a ser precipitados numa queda contínua? E isso para trás, para o lado, para a frente, para todos os lados? Ainda há um alto e um baixo? Não andamos errantes como através de um nada infinito? Não sentimos o sopro do vazio? Não está mais frio?[5]

O projeto humanista moderno de penetração, domínio e controle da natureza é a esponja que apagou o horizonte inteiro. Ele proibiu os seres de serem outra coisa que não aquilo que queremos que eles sejam, e assim eles se ocultaram de nós – e os deuses também se ocultaram de nós. A referência de Nietzsche ao sol faz pensar no sol da República de Platão, que representa a "Ideia do Bem", a fonte última de tudo, o ideal mais elevado, o ser dos seres. Nós "desacorrentámos esta terra do seu sol", diz Nietzsche. Desconectámo-nos do ideal, da Tradição. Já não há "nem alto nem baixo" porque não reconhecemos mais nada objetivo em relação ao qual nos poderíamos orientar neste universo. Tendo perdido esse sol, descobrimos que está mais frio.

Mas a "morte de Deus" de Nietzsche não foi um simples acidente, ocorrido quando as pessoas deixaram de ir à igreja. Dada a lógica do monoteísmo cristão, Deus tinha de morrer – e dar lugar ao novo deus do humanismo, que Freud chamou de "nosso Deus Logos"[6].


V

Modernismo & Monoteísmo


Para que os deuses nos apareçam novamente, devemos criar um "espaço" ou, segundo as palavras de Heidegger, uma "clareira" onde esta aparição possa ocorrer. Damos o primeiro passo para isso quando reconhecemos os limites inerentes ao nosso poder de compreender e modificar o mundo. Mais uma vez, o mundo moderno é construído sobre a rejeição de tais limites. Logo que abandonarmos este ponto de vista e aceitarmos o fato de que o universo é em última análise um sombrio mistério, a abertura tornará a ser possível.

Reconhecer que existem tais limites significa, na verdade, reconhecer e afirmar a existência dos seres. Devemos afirmar que o mundo nos confronta com naturezas que não escolhemos e que tentamos modificar por nossa conta e risco. Que este mundo seja, e que seja da maneira que é, confronta-nos então com um mistério sublime e impenetrável. É o começo da sabedoria (e o primeiro passo para invocar os deuses).

Os monoteístas poderiam aceitar tudo o que foi dito, mas claro que atribuirão o mistério ao Deus único. No entanto, isto é uma conclusão teórica abstrata (na realidade, um non sequitur) que está de fato muito distante da experiência de abertura que descrevi. Se conseguimos encontrar o divino ao nos abrirmos à multiplicidade de formas naturais que nos rodeia, é na verdade o politeísmo que vem à mente. Não vai longe entre a afirmação destas formas e a percepção de cada uma delas como a manifestação de uma divindade[7]. Além disso, estas formas estão nesta terra, não num além celeste.

O monoteísmo é movido não pela abertura ao ser, mas pela Vontade sob a aparência de "filosofia". O monoteísmo busca essencialmente ir por detrás dos fenômenos, e para além dos deuses, e pergunta: "Mas o que explica estes fatos brutos? Não basta atribuí-los simplesmente aos deuses. O que explica estes 'deuses'?". Num sentido, os monoteístas têm razão. Não há verdadeira explicação metafísica no politeísmo. Não há resposta à questão: "Por que há algo em vez de nada?"[8]. Mas os politeístas acreditam essencialmente que não pode haver resposta a esta pergunta, e que nenhuma explicação é necessária. A existência não precisa de nenhuma explicação — nem de justificação — fora de si mesma.

A "explicação" do mundo fornecida pelo monoteísmo é inepta: por detrás dos deuses, está… DEUS. Isto pode parecer uma maneira particular de descrever a transição entre politeísmo e monoteísmo, mas na verdade é exatamente dessa forma que isso acontece. Por um intermediário ou outro, um deus torna-se supremo. Outros tornam-se menos importantes, até que o seu culto desapareça finalmente, ou seja aniquilado.

Deus é uma deidade suprema, existindo fora do mundo, e que criou tudo no mundo. A pergunta do escolar: "Se toda a coisa precisa de um criador, quem fez Deus?" obriga o monoteísta a descrições cada vez mais abstrusas, filosóficas e vagas deste Deus. Entre as mãos de teólogos cristãos como São Tomás de Aquino, Deus torna-se essencialmente uma espécie de "princípio" que devemos pensar se quisermos pensar o mundo. Para Aquino, Deus é "o ato de existir" ele mesmo… e portanto Ele torna-se indiferenciável dessa facticidade bruta que Ele devia explicar. Em suma, Ele torna-se… um mistério!

No entanto, o que aconteceu à relação do homem com a natureza? O monoteísmo aspira todo o mistério para fora da natureza e injeta-o em Deus, que é a "explicação" da natureza. Enquanto o politeísmo, pelo culto de muitos deuses, afirma a vida e o mistério do mundo em toda a sua complexidade, o monoteísmo declara que o mundo é um simples objeto, o produto do trabalho de Deus, e portanto mais ou menos tão vivo e misterioso quanto um percevejo. A transição entre politeísmo e monoteísmo é a "des-deificação" dos diferentes aspectos do mundo.

Os monoteístas cedem portanto progressivamente a complexidade da criação à ciência natural. E o que acontece ao seu Deus em resultado disso? O cientista não precisa de nenhuma referência a Deus nas suas investigações sobre a natureza. O mundo material inteiro é (supõe ele) compreensível pela ciência por seus próprios meios. Finalmente, os cientistas e outros compreendem o quanto isso é o caso, e Deus torna-se essencialmente um deus otiosus. Deus torna-se uma "hipótese" de que se pode prescindir, que não funciona para explicar o mundo. O cientista empreende então tomar o lugar de Deus.

O cientista reconhece que o mundo apresenta uma ordem inteligível, mas se não há Deus para sustentar a criação, a natureza das coisas já não parece tão "assegurada". John Locke fundou a sua doutrina dos direitos individuais (vida, liberdade e propriedade) na ideia de que a natureza do homem é criada por Deus. Retirem a crença em Deus, e o estatuto da natureza do homem – e dos seus direitos – torna-se altamente contestável. Menos de duzentos anos depois, os adeptos de Marx (por ex. Trotsky) declararam explicitamente a sua intenção de mudar a natureza humana por meio do "socialismo científico". O resultado dos supostos "direitos" dos homens é bem conhecido.

Assim, na ausência de Deus (ou dos deuses), os cientistas acabam por acreditar que podem modificar radical e indefinidamente o que estudam. Uma vez que não há Deus, não há razão para acreditar na alma, ou em qualquer realidade não-física. Os seres humanos são portanto simplesmente uma forma altamente complexa de matéria, que pode ser estudada e manipulada usando os mesmos métodos que usamos para estudar e manipular outras matérias.

Uma vez que não há realidade não-física, não há ideais objetivos ou eternos. A verdade é "postulada" pelos seres humanos[9]. Isto deve então significar que o idealismo moral é uma ilusão. Os homens que apresentam a qualidade que Platão chamava "vigor de alma", os homens que estão prontos a combater por ideais, estão simplesmente doentes ou iludidos. Este ponto de vista foi explicitamente avançado no século XX pela denominada Escola de Frankfurt de sociologia[10]. O "humanismo" moderno – a ciência e a psicologia modernas – consideram uma pessoa como "normal" se as suas preocupações não se elevam acima do nível daquilo que Platão chamava "apetite": preocupação com a satisfação dos desejos e com a manutenção ou obtenção da segurança e do conforto. Daí o desaparecimento quase completo de termos como "honra", "nobreza" e "abnegação" no discurso moderno[11].

Aqui novamente, vemos a Vontade manifestada: o fechamento a tudo o que é "superior" ao Eu e a atribuição da realização dos seus desejos pessoais como objetivo da existência. Mas os seres humanos não podem viver inteiramente sem ideais, e assim um novo ideal é criado: a realização de uma sociedade na qual os desejos de todos serão satisfeitos, na qual a segurança física, o conforto e a saúde serão perfeitamente realizados. Tendo-se cortado de toda a aspiração superior, os cientistas correm a colocar-se ao serviço deste ideal.

E assim, para voltar ao começo, qual é o resultado último do monoteísmo? O ateísmo, a violação da natureza, a destruição dos ideais, a destruição da moral, a barbarização dos homens, a erradicação da dignidade humana, e a degradação geral da vida humana (o que é chamado de "materialismo").


VI


A Realização da Abertura


É apenas superando o que nos despojou da abertura que podemos esperar restaurá-la. Segue-se que é necessário criticar a modernidade – criticar a totalidade dos nossos ideais modernos, valores, modos de pensamento e maneiras de nos orientarmos no mundo. E devemos saber de onde esses vieram – como a modernidade veio a existir. Isto requer um conhecimento da história, e em particular da história intelectual. Alguém poderia notar que este ponto de vista "crítico" é essencialmente moderno. Isso é verdade – mas aqui devemos reter a lição de Julius Evola, e "cavalgar o tigre". No Kali Yuga, no período final, é permitido usar mesmo formas de decadência como meios de transcender a decadência moderna ela mesma.

Todos os nossos esforços para explicar o que os deuses são "realmente", ou o que os nossos antepassados conheciam "realmente", são inteiramente modernos. Isso faz parte da mentalidade moderna afirmando que tudo pode ser explicado, que tudo é penetrável e conhecível. Os deuses manifestam-se a nós, no entanto, na nossa experiência da facticidade bruta da existência ela mesma –, no nosso espanto de que este mundo, e tudo o que está nele, existe e é da maneira que é. Se uma coisa é da maneira que é, nenhuma "explicação" disso pode apagar o nosso espanto perante o simples fato de que essa coisa deve existir (os cientistas, por exemplo, dizem-nos que é a clorofila que torna a floresta verde – mas o facto de existir tal substância, que produz uma beleza tão incomparável, é uma ocasião de espanto, e a intuição de um deus). Os deuses encontram-se nos limites exteriores da nossa percepção da realidade, definindo o real para nós. A explicação tem lugar apenas dentro desses limites.

Os nossos antepassados acreditavam nos seus deuses, mas não tinham nenhuma "explicação" para o que os deuses eram, ou para a sua experiência dos deuses. Consequentemente, se adotarmos o ponto de vista moderno e se insistirmos na explicação, afastamo-nos ainda mais do ponto de vista dos nossos antepassados. Na verdade, negamo-lo, e garantimos que o nosso desejo de voltar aos deuses não será realizado.

Não só devemos abandonar todas as tentativas de explicar os deuses, como também devemos cessar de tentar explicar qual é o "objetivo" ou a "função" da religião. Mais uma vez, tal abordagem reflete a nossa distância crítica moderna face ao ponto de vista dos nossos antepassados. A abordagem moderna para compreender a religião consiste em tratá-la como uma das muitas atividades em que os homens participam – para além de fundar cidades, fazer música, dedicar-se à ciência, etc. Por outras palavras, a abordagem moderna trata a religião como uma simples característica humana entre muitas. A verdade, no entanto, é que é na religião que se encontra o próprio ser do homem.

Durante milhares de anos, os filósofos tentaram identificar o que nos torna essencialmente diferentes dos outros animais. Aristóteles diz que é o que "desejamos conhecer" (em particular conhecer as coisas mais fundamentais e mais importantes); Hegel diz que consiste na nossa capacidade de ter consciência de nós mesmos. Estas propostas são verdadeiras, mas não vão suficientemente fundo. O que torna possível a nossa busca do conhecimento das coisas mais fundamentais, e do conhecimento de nós mesmos e do nosso lugar no universo? É a abertura que descrevi – a abertura que, sob a sua forma mais elevada e mais sublime, torna possível o conhecimento dos deuses. Ao contrário de todas as outras criaturas, não somos apenas Vontade, somos esta abertura. Se o conhecimento dos deuses é verdadeiramente a coroação desta abertura, então podemos dizer que somos definidos pela nossa relação com o divino. Por outras palavras, somos definidos pela religião, e somos plenamente humanos apenas em vidas vividas em relação com o divino. Ao negar a abertura que torna a religião possível, a modernidade nega portanto a nossa própria natureza.

A nossa natureza é a abertura ao ser e, através disso, a abertura aos deuses. No entanto, só podemos estar abertos à presença dos deuses se existir uma ausência concomitante em nós. Mais uma vez, devemos ter dentro de nós um "espaço" ou uma "clareira" na qual, ou através da qual, o divino se possa manifestar. Num sentido, isso significa que somos para sempre incompletos, sempre em busca. Vivemos numa orientação constante para os deuses, mas nunca podemos satisfazer o nosso desejo de possuir ou compreender o divino. Mas o desejo nem sempre nos enche de frustração ou amargura. Por vezes pode elevar-nos e dar força e significado às nossas vidas. O verdadeiro infortúnio da vida moderna é que o nosso desejo está agora exclusivamente dirigido para objetos profanos que de modo algum nos podem permitir realizar-nos.

Neste momento, uma objeção poderia ser levantada por alguns. Esta descrição da abertura ao divino como sendo "incompletude" e "desejo" não será um tratamento bastante cristianizado, monoteísta? Isso não parece descrever a experiência religiosa dos nórdicos ou dos gregos, por exemplo.

O desejo é, aparentemente, um termo inadequado para um conceito muito difícil. Mas encontra-se o tipo de coisas de que falo nas descrições gregas do "temor respeitoso" com que os homens olham para o divino (ver em particular Homero). O "desejo" que descrevi não é realmente o desejo de se tornar um deus, nem claro o desejo de possuir fisicamente um deus. Para o descrever de outra maneira, é antes uma "atração" exercida pelo divino sobre o humano. O que o divino traz é um quadro de referência, uma ordem, uma estrutura para a existência, que fascina – e a natureza do fascínio não é redutível a estes termos apenas. A natureza humana é simplesmente esta tendência a estar orientada para o divino, a ser atraída ou a ser fascinada por ele.

A Vontade destrói a religião de duas maneiras relacionadas. A primeira é a maneira que já descrevi: o homem pode rejeitar o divino, declarar que não precisa dele. "Posso ficar sozinho. Não preciso de ti", declara o homem. Isto é o racionalismo e o cientismo modernos. A segunda maneira é tentar conceber um método especial para preencher o abismo que separa o homem do divino, sem negar a realidade deste último. Esta maneira é chamada misticismo. Os místicos pensam que se elevam até à união com o divino. Eles não veem que este processo poderia igualmente ser descrito no sentido inverso: o rebaixamento de Deus ao nível do homem. A divinização do homem e a antropomorfização de Deus são a mesma coisa. A ascensão do misticismo sempre sinalizou a corrupção ou a degeneração de uma religião. Os Upanishads foram o fim dos Vedas – a destruição da religião do guerreiro e a exaltação do sacerdote acima de tudo e mesmo acima dos deuses. O resultado deste humanismo titânico para a Índia dispensa comentários.


VII


Conclusão, com Algumas Sugestões Práticas


Disse que para restaurar a abertura ao divino, devemos extirpar e anular tudo o que provocou o fechamento. Isso significa que devemos envolver-nos numa crítica global da própria modernidade, e das maneiras como fomos moldados por ela. A abertura aos deuses ocorre apenas através da abertura ao ser das coisas elas mesmas. Os nossos antepassados possuíam esta abertura, e se conseguirmos reencontrá-la, podemos novamente encontrar os deuses.

Mencionei anteriormente que o homem moderno se separa do ser da natureza por quatro coisas fundamentais: (1) a tecnologia (que manipula o que existe), (2) as habitações independentes, autossuficientes e inexpugnáveis, (3) cidades ("mundos humanos" inteiros), e (4) a ciência (a história de como supostamente anulámos o mistério da natureza). Uma fórmula razoável para começar a recuperar a abertura seria portanto:


(1) eliminar tanto quanto possível a tecnologia da sua vida. Viver tão simplesmente quanto possível. Eliminar as "necessidades" criadas pela tecnologia (que são realmente necessidades desnecessárias). Viver diretamente da natureza (por ex., obter a própria comida, através do cultivo ou da caça).

(2) sair da sua habitação e encontrar a natureza tão frequentemente quanto possível.

(3) viver, idealmente, de modo a que a natureza possa ser encontrada diretamente, simplesmente saindo de casa; ou seja, não viver numa cidade.

(4) desenvolver um cepticismo saudável em relação às afirmações da ciência (uma excelente maneira de começar seria fazer um exame crítico da teoria da evolução, que é mais problemática do que fomos levados a crer, e que goza do estatuto de um substituto da religião entre os cientistas).


Através de uma tal separação física e mental da modernidade, pode-se esperar que uma meditação possa começar, e que esta meditação conduza a uma redescoberta desse espaço dentro de nós que é a condição prévia para a abertura. Numa oscilação entre, por um lado, o exame e a crítica da modernidade e da Vontade e, por outro, um encontro com o ser, a abertura torna-se novamente possível.

Um bom conhecimento das tradições politeístas dos nossos antepassados também seria útil, como uma espécie de mapa rodoviário para nos guiar na compreensão daquilo que entrará, assim que estivermos abertos.


Apêndice: Algumas Notas sobre uma Forma de "Terapia" para os Modernos[12]


Fiz acima sugestões sobre a maneira como se poderia começar a restabelecer uma abertura aos Deuses, e ao próprio ser. Se os meus leitores acharam a argumentação deste texto convincente no geral, provavelmente desejarão sugestões mais concretas e mais detalhadas. Este apêndice tenta fornecer algumas.

Compreendo este trabalho como uma espécie de terapia – não apenas para algumas pessoas infelizes ou "perturbadas", mas para todas as pessoas modernas. Porque estamos fechados ao ser, estamos, como disse, fechados a nós mesmos. Todos sofremos de uma crise de identidade e de uma crise de significado. "Agimos" compulsivamente de várias maneiras para compensar isso, e segue-se portanto que somos todos essencialmente neuróticos e que todos precisamos de alguma forma de terapia.

Proponho duas séries de atividades que podem (e devem) ser praticadas simultaneamente: as Atividades para Suprimir o Ego, e o que chamarei de Atividades "Primais". Algumas Atividades para Suprimir o Ego são também Atividades Primais.

As Atividades para Suprimir o Ego destinam-se a "abolir" momentaneamente o ego individual com toda a sua história, preocupações, idiossincrasias, "problemas", obsessões, medos e preferências. Isso permite que influências entrem, que de outra forma poderiam ser bloqueadas, e permite entrar em contacto com partes do Eu que se encontram "abaixo" do ego pessoal.


As Atividades para Suprimir o Ego dividem-se em três categorias:


(1) Induzir "experiências inefáveis" através do risco físico ou ao "empurrar-se" inexoravelmente (física ou mentalmente) para além dos seus limites conhecidos. Tais atividades incluem, por exemplo, escalar uma montanha, combater, fazer a guerra, fazer paraquedismo de queda livre, correr uma maratona, envolver-se numa maratona sexual, atravessar o Canal da Mancha a nado, etc. 

(2) A meditação ou outras formas de exercício mental em que os pensamentos normais ou terre-à-terre são "parados".

(3) O uso de drogas psicotrópicas que dão a sensação de transcender o ego pessoal.


As Atividades Primais são assim chamadas por três razões. Elas (a) envolvem contato com o não-humano; ou (b) envolvem contato com aspectos mais primais e mais fundamentais (não-refletidos, não-intelectuais) de nós mesmos; ou (c) são atividades praticadas pelos nossos antepassados mais simples e mais "autênticos". Tais atividades incluem:


(1) Atividades praticadas na natureza: caminhadas e acampamento, pesca, jardinagem, criação de animais, etc.

(2) Caçar, matar animais, praticar jogos ao ar livre, etc.

(3) Desporto ou outras atividades (físicas) de competição. Por exemplo, luta livre.

(4) Sexo.


Idealmente, deveria envolver-se num grande número destas atividades – tanto Atividades para Suprimir o Ego como Atividades Primais. Em particular, deveria envolver-se nas atividades que está predisposto a evitar. Deveria envolver-se em atividades que teme (por ex., paraquedismo de queda livre, se tem medo de alturas). Escusado será dizer, a mera prudência é aqui necessária. Mas a ideia é empurrar-se e desafiar-se a si mesmo. Isso abole a sensação que tem de si mesmo – mas de uma forma positiva, pois conduz a essa sensação de ser "reconstruído" sob uma forma mais forte e mais autêntica. Isso torna mais prováveis novas realizações, novas revelações. Isso abre-nos a novas influências.

Enquanto se envolve num programa regular destas atividades, deveria mergulhar no estudo da religião, da cultura e das tradições dos seus antepassados. Isso implica, idealmente, os seguintes componentes:


(1) Ler textos originais contendo mitos ou rituais.

(2) Ler estudos eruditos (mas acessíveis) sobre religião, mitos e cultura.

(3) Ouvir música tradicional.

(4) Aprender a língua ou línguas dos seus antepassados.

(5) Fazer peregrinações ao país dos seus antepassados.


Deveria aplicar um programa regular de estudo autónomo, e de "rituais" diários ou atividades diárias concebidas para se orientar cada dia para o mundo dos seus antepassados. É importante fazer algo ao acordar e logo antes de deitar (como ler algumas páginas da Edda Poética). Se as Atividades para Suprimir o Ego e as Atividades Primais atingirem o seu objetivo, isso torna mais provável que o que conheceremos quando formos para além do nosso ego pessoal moderno será o que os nossos antepassados conheciam. Isto é o que significava a minha observação anterior, ou seja, que o conhecimento das tradições dos nossos antepassados serviria "como uma espécie de mapa rodoviário para nos guiar na compreensão daquilo que entrará, assim que estivermos abertos".


Notas


[1] Julius Evola, Revolt Against the Modern World, trad. Guido Stucco (Rochester, Vt.: Inner Traditions, 1995), 150–51. Evola rejeitaria, naturalmente, meu uso do termo “arquétipo”, pois era muito crítico em relação a Jung.
[2] H. A. Guerber, Mitos dos Nórdicos (Mineola, N.Y.: Dover Publications, 1992), 243.
[3] Ayn Rand, The Fountainhead (Nova Iorque: Bobbs-Merrill, 1968), 4.
[4] Esta foi a versão oficial, mas tudo indica que Hegel provavelmente morreu de uma doença gastrointestinal aguda.
[5] The Portable Nietzsche, preparado e traduzido por Walter Kaufmann (Nova Iorque: Viking, 1968), 95–96. É preciso acrescentar que a resposta de Nietzsche à situação moderna é uma dose mais radical de humanismo. Falando sobre o assassinato de Deus, ele escreve: “Não devemos nos tornar nós mesmos deuses para parecermos dignos dessa ação? ”. A crença de Nietzsche é que os ideais que abandonamos são ideais vazios e que “Deus” na verdade nunca existiu. Tendo descoberto isso, devemos “inventar” novos ideais. Os “super-homens” de Nietzsche têm a força para fazer isso — e testar sua coragem lutando por esses ideais. Mas é psicologicamente realista pensar que alguém poderia lutar e morrer por ideais que simplesmente “fabricou” e nos quais não acredita realmente que sejam objetivamente verdadeiros? (Para mais informações, consulte meu ensaio “Paganismo sem deuses: Alain de Benoist e Como se pode ser pagão?”, capítulo 3 mais adiante).
[6] Ver Sigmund Freud, The Future of an Illusion, trad. James Strachey (Nova Iorque: W. W. Norton, 1961). Por Logos, Freud quer simplesmente dizer lógica ou razão. Ele não se refere ao “logos” no sentido em que Heráclito o utiliza — um uso do logos de que já falei.
[7] Ver capítulo 2, “O apelo aos deuses: a fenomenologia da Presença Divina”, para um aprofundamento deste ponto específico.
[8] Os mitos politeístas da criação nunca começam com um vazio literal.
[9] Finalmente, é claro, nas mãos de pensadores como Nietzsche, essa consequência lógica do humanismo científico é transformada em arma contra a própria ciência.
[10] Na verdade, ela está implícita nas obras do fundador da teoria política moderna, Thomas Hobbes.
[11] “Coragem” é um termo que ainda encontramos, mas raramente é aplicado ao homem que arrisca a vida em nome de um ideal. É aplicado a pessoas que se agarram desesperadamente à vida diante de uma doença debilitante ou terminal, ou a homossexuais que se assumem, ou a juízes da Suprema Corte que evoluíram para a esquerda durante a velhice.
[12] Este apêndice é publicado aqui pela primeira vez. Ele foi omitido quando “Conhecendo os deuses” foi publicado na TYR, vol. 1.