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26/07/2012

O Peronismo Será Revolucionário ou Não Será Nada

por Evita Perón



Em meu país o que se estava por fazer era nada menos que uma Revolução.

Quando a "coisa por fazer" é uma Revolução então o grupo de homens capazes de percorrer este caminho até o fim se reduz às vezes ao extremo de desaparecer.

Muitas revoluções foram iniciadas aqui e em todos os países do mundo. Porém uma Revolução é sempre um caminho novo cujo percurso é difícil e não é feito senão para os que sentem a atração irresistível das iniciativas arriscadas.

Por isso fracassaram e fracassam todos os dias revoluções desejadas pelo povo e ainda realizadas com seu apoio total.

Um dia me disseram que era demasiado peronista para que pudesse encabeçar um movimento das mulheres de minha Pátria. Pensei muitas vezes nisso e ainda que de imediato senti que não era verdade, tratei durante algum tempo de chegar a saber por que não era não era nem lógico nem razoável.

Agora creio que posso dar minhas conclusões.

Sim, sou peronista, fanaticamente peronista.

Demasiado não, demasiado seria se o peronismo não fosse como é, a causa de um homem que por se identificar com a causa de todo um povo possui um valor infinito. E ante uma coisa infinita não se pode levantar a palavra "demasiado".

Perón diz que sou demasiado peronista porque ele não pode medir sua própria grandeza com a vara de sua humildade.

Os outros, os que pensam, sem me dizer, que sou demasiado peronista, esses pertencem à categoria dos "homens comuns". E não merecem resposta!

Uns poucos dias ao ano, represento o papel de Eva Perón; e nesse papel creio que me desempenho cada vez melhor, pois não me parece difícil nem desagradável.

A imensa maioria dos dias sou ao invés Evita, ponte estendida entre as esperanças do povo e as mãos realizadores de Perón, primeira peronista argentina, e este sim me resulta papel difícil, no qual nunca estou totalmente contente comigo.

De Eva Perón não interessa que falemos.

O que ela faz aparece demasiado profusamente nos diários e revistas de todas as partes.

Em câmbio, sim interessa que falemos de "Evita"; e não porque sinta nenhuma vaidade em sê-lo senão porque quem compreenda a "Evita" talvez encontre logo facilmente compreensíveis os seus "descamisados", o próprio povo, e esse nunca sentirá mais do que é...nunca se converterá portanto em oligarca, que é o pior que pode suceder a um peronista!

Eu sei que quando eles me criticam no movimento, o que no fundo lhes dói é a Revolução.

Perón e Perón cumprirão com seu povo.

Enquanto isso possa ocorrer, eles não voltarão.

Por isso tratam de me destruir.

Sabem também que não trabalho para mim, não me verão jamais buscando uma vantagem pessoal e isso os sobressalta.

Desejariam ver-me cair no egoísmo e na ambição, para demonstrar assim ao povo que no povo busquei a mim mesma.

Sabem que assim poderiam me separar do povo. Não entendem que eu em meus afãs não busco outra coisa que o triunfo de Perón e de sua causa por ser o triunfo do próprio povo.

Nem mesmo quando me aproximo dos que trabalham ou dos que sofrem o faço buscando uma satisfação egoísta de quem faz algum sacrifício pessoal.

Eu me esforço todos os dias para eliminar de minha alma toda atitude sentimental frente os que me pedem.

Não quero ter vergonha de mim perante eles. Vou a meu trabalho cumprindo meu dever e para dar satisfação à justiça.

Nada de lirismo nem de charlatanismo, nem de comédias, nada de poses nem de romances.

Nem quando entro em contato com os mais necessitados ninguém poderá dizer que faço o papel da dama caridosa que abandona seu bem-estar por um momento para figurar que cumpre uma obra de misericórdia.

Do próprio Perón, que sempre costuma dizer: "o amor é a única coisa que constrói", eu aprendi o que é uma obra de amor e como ela deve ser cumprida.

O amor não é - segundo a lição que aprendi - nem sentimentalismo romântico, nem pretexto literário.

O amor é dar-se; e "dar-se" é dar a própria vida.

Enquanto não se dá a própria vida, qualquer coisa que se dê é justiça. Quando se começa a dar a própria vida então se começa a fazer uma obra de amor.

Para mim, por isso, descamisado é o que se sente povo. O importante é isso; que se sinta povo e ame e sofra e goze como povo, ainda que não vista como povo, que isso é o acidental.

Um oligarca empobrecido poderá ser materialmente descamisado porém não será um descamisado autêntico.

Aqui também me declaro inimiga das formas, segundo o que estabelece a doutrina peronista.

Para mim, os operários são por isso, em primeiro lugar, descamisados: eles estiveram todos na Praça de Maio aquela noite. Muitos estiveram materialmente; todos estiveram espiritualmente presentes.

Nem todos os descamisados são operários, porém, para mim, todo operário é um descamisado; e eu não esquecerei jamais que a cada descamisado devo um pouco da vida de Perón.

Em segundo lugar, eles são parte integrante do povo; desse povo cuja causa ganhou meu coração desde muitos anos.

E em terceiro lugar, são as forças poderosas que sustentam a estrutura sobre cujo esqueleto se levanta o edifício mesmo da Revolução.

O movimento peronista não poderia se definir sem eles.

Sou sectária, sim. Não o nego; e já o disse. Porém, poderá alguém negar esse direito? Poderá negar-se aos trabalhadores o humilde privilégio de que eu esteja mais com eles do que com seus patrões?

Se quando eu busquei amparo em meu amargo calvário de 1945, eles, somente eles, me abriram as portas e me estenderam uma mão amiga?

Meu sectarismo é ademais um desagravo e uma reparação. Durante um século os privilegiados foram os exploradores da classe operária. Faz falta que isso seja equilibrado com outro século no qual os privilegiados sejam os trabalhadores!

Quando passe este século creio que terá chegado o momento de tratar com a mesma medida aos operários e aos patrões, ainda que suspeito que já para então o Justicialismo terá conseguido seu ideal de uma única classe de homens, os que trabalham.

Um pouco é o inconsciente culpável que não os quer deixar ver bem e a fundo a realidade total.

E outro pouco é por aquilo que disse da própria pobreza que se esconde.

Os desprevenidos visitantes que passeiam por ali verão ranchos de palha e barro, casinhas de latão, alguns vasos de flores e algumas plantas, ouvirão algum canto mais ou menos alegre, o barulho das crianças bricando nos terrenos baldios...e por acaso lhes ocorrerá pensar que tudo isso é poético e talvez romântico.

Pelo menos frequentemente ouvi dizer que se trata de bairros "pitorescos".

E isso me pareceu a expressão mais sórdida e perversa do egoísmo dos ricos.

Pitoresco é para eles que homens e mulheres, velhos e crianças, famílias inteiras devam habitar casas piores que os túmulos de qualquer rico, medianamente rico!

Eles não veem jamais, por exemplo, o que ocorre ali quando chega a noite.

Ali onde quando há cama muitas vezes não há colchões, ou vice-versa; ou onde simplesmente há uma só cama para todos...! E todos sendo sete ou oito ou mais pessoas: pais, filhos, avós...!

Os pisos dos ranchos, casinhas e bordéis costumam ser de terra limpa.

Pelos tetos costumam infiltrar-se a chuva e o frio...! Não somente a luz das estrelas, que isso seria o poético e o romântico!

Ali nascem os filhos e com eles se agrega à família um problema que começa a crescer.

Os ricos todavia creem que cada filho traz, segundo um velho provérbio, seu pão debaixo do braço; e que onde comem três bocas há também para quatro. Como se vê que nunca viram de perto à pobreza!

O mundo tem riqueza disponível como para que todos os homens sejam ricos.

Quando se faça justiça não haverá nenhum pobre, pelo menos entre os que não quiserem sê-lo.

Por isso sou justicialista...

Por isso não tenho medo de que as crianças de meus lares se acostumem a viver como ricos, com tal de que conservem a alma que trouxeram: alma de pobres, humilde e limpa, simples e alegre...!

No que as obras são minhas é no selo de indignação perante a injustiça de um século amargo para os pobres.

Dizem por isso que sou uma "ressentida social".

E tem razão meus "super críticos". Sou uma ressentida social. Porém meu ressentimento não é o que eles creem.

Eles creem que se chega ao ressentimento unicamente pelo caminho do ódio... Eu cheguei a esse mesmo lugar pelo caminho do amor.

E não é um jogo de palavras. Não.

Eu luto contra todo privilégio de poder ou de dinheiro. Vale dizer contra toda oligarquia, não porque a oligarquia me tenha tratado mal alguma vez.

Ao contrário! Até chegar ao lugar que ocupo no movimento peronista eu não lhe dava mais que "atenções". Inclusive algum grupo representativo de damas oligarcas me convidou a integrar seus altos círculos.

Meu "ressentimento social" não me vem de nenhum ódio. Senão do amor: do amor por meu povo cuja dor abriu para sempre as portas de meu coração.

Ademais eu fui sempre desordenada em minha maneira de fazer as coisas; me agrada a "desordem" como se a desordem fosse meu meio normal de vida. Creio que nasci para a Revolução. Vivi sempre em liberdade. Como os pássaros, sempre me agradou o ar livre do bosque. Nem mesmo pude tolerar essa certa escravidão que é a vida na casa paterna, ou a vida - no povoado natal... Muito cedo em minha vida deixei meu lar e meu povo, e desde então sempre fui livre. Quis viver por minha conta e vivi por minha conta.

Por isso não poderei jamais ser funcionária, que é atar-se a um sistema, encadear-se à grande máquina do Estado e cumprir ali todos os dias uma função determinada.

Não. Eu quero seguir sendo pássaro livre no bosque imenso.

Me agrada a liberdade como ela agrada ao povo, e nisso como em nenhuma outra coisa me reconheço povo.

Não importa que ladrem.

Cada vez que eles ladram nós triunfamos.

O mal seria que nos aplaudissem! Nisso muitas vezes se vÊ todavia que alguns dos nossos conservam velhos preconceitos.

Costumam dizer por exemplo:

Não se dão conta de que aqui, em nosso país, dizer "oposição" significa ainda dizer "oligarquia". E isso vale como se disséssemos "inimigos do povo".

Se eles estão de acordo, cuidado, com isso não deve estar de acordo o povo.

Desejaria que cada peronista gravasse este conceito no mais íntimo da alma; porque isso é fundamental para o movimento.

Nada da oligarquia pode ser bom!

Não digo que possa haver algum "oligarca" que faça alguma coisa boa... É difícil que isso ocorra, porém se ocorresse creio que seria por equívoco. Conviria lhe avisar que se está fazendo peronista!

E conste que quando falo de oligarquia me refiro a todos os que em 1946 se opuseram a Perón: conservadores, radicais, socialistas e comunistas. Todos votaram pela Argentina do velho regime oligárquico, entreguista e vende-pátria.

Desse pecado não serão redimidos jamais.

A Razão de minha Vida.

A história é também criação dos povos, porque se os povos sem condutores quase não avançam na história, tampouco a história não avança nunca sem grandes povos, ainda que tenham grandes condutores, porque estes sucumbem por falta de colaboração, às vezes por covardia e às vezes por incompreensão.

Nós encontramos ao "homem"; não temos já mais que um só problema: que quando o homem se vá, como diz nosso Líder, a doutrina fique, para que seja a bandeira de todo o povo argentino.

Não há de ser a aspiração do povo argentino - e acima de tudo a nossa de peronista, a quem me dirijo ao falar nessa classe - a de trabalhar com roupa feita.

Nós queremos uma obra de arte, e as obras de arte não se vendem em série, senão que são obras de um artista que as criou. Portanto, não se podem comprá-las a mais, nem fabricá-las todos os dias.

Os críticos da história dizem que não se pode escrever a história nem falar dela se isso é feito com fanatismo, e que ninguém pode ser historiador se deixa-se dominar pela paixão fervorosa de uma causa determinada. Por isso eu me excluo de antemão. Eu não quero, em realidade, fazer história, ainda que a matéria se chame assim. Eu não poderia renegar jamais de meu fanatismo apaixonado pela causa de Perón.

Vocês terão visto que Eva Perón jamais fez uma questão pessoal.

E como sei que é desgraçado aquele que não se equivoca nunca porque não faz anda, quando me equivoquei reconheci imediatamente o erro e me retirei, para que não fosse eu a causa de um erro que pudesse prejudicar o movimento. Assim devem ser vocês, honrados para reconhecer quando se equivocam, e honrados e valentes para fazer chegar, em qualquer momento, a todos os peronistas, a voz sincera, valente e doutrinária de nossa causa. Há de ser grande a causa do General, quando nós, em lugar de nos submeter e nos conformar com os velhos "comitês" escutando a voz do Líder, formamos unidades básicas da Nova Argentina na vida política, tanto no que se refere aos companheiros como às companheiras. Porém não nos conformamos com isso, nós peronistas, porque o general Perón é homem de criações e realizações. É por isso que se criou essa Escola Superior Peronista, para estabelecer mentes, para que conheçam, sintam e compreendam mais ainda, se possível, essa doutrina, da qual alguns de vocês serão os realizadores, e outros, como disse nosso querido Presidente e Líder, os pregadores, que irão por todos os caminhos empoeirados da Pátria disseminando as verdades dessa Nova Argentina e de um gênio ao qual devemos aproveitar.

Não se esqueçam que - segundo disse Napoleão - os gênios são um meteoro que se queima para iluminar um século.

Em meio a esse mundo pleno de sombras em que se levanta essa voz justicialista que é o peronismo, parecerera que a palavra justicialista assusta a muitos homens que levantam tribunas como defensores do povo, muito mais que o comunismo. Eu pensava nesses dias, em uma conferência que me coube presidir, se o mundo quererá de verdade a felicidade da humanidade ou só aspira lhe fazer a jogada um pouco carnavalesca e sangrenta de utilizar a bandeira do bem para satisfazer interesses mesquinhos e subalternos. Nós temos que pensar, e chamar um pouco à reflexão à humanidade acima de tudo aos homens que tem a responsabilidade de dirigir os povos. Pelo que sei o carnaval não dura mais que três dias ao ano, e portanto, é necessário que retiremos as caretas e que olhemos bem para a realidade, não fechando os olhos para ela, e que a vejamos com os olhos que a vê Perón, com os olhos do amor, da solidariedade e da fraternidade, que é a única coisa que pode construir uma humanidade feliz. Para isso é necessário que não repitamos a sangrenta palhaçada que a fizeram os "defensores" do povo aos trabalhadores. Por exemplo, durante 30 anos se erigiram em defensores deles e estiveram seguindo um capitalismo cru, sem pátria nem bandeira; quando uma mulher da América levanta a voz para dizer a palavra justicialista, se escandalizam como se tivessem pronunciado a pior das ofensas que se possa dizer.

Quando olho para Perón me sinto povo, e por isso sou fanática do General; e quando olho para o povo me sinto esposa do General, e então sou fanática do povo.

O movimento popular dos descamisados do 17 de outubro não é grande somente por si mesmo, senão também por suas consequências.

Desde esse dia o povo tem consciência de seu valor e de sua força.

Sabe que ele pode impor sua vontade soberana em qualquer momento, sempre que mantenha organizados os quadros de seus agrupamentos sindicais. Porque essa é a única força com que o povo argentino poderá manter sua soberania frente qualquer eventualidade.

Porque Perón terá realizado a revolução por causas que não são as que perseguiam outros companheiros seus.

Os demais acreditavam que as causas da revolução eram a fraude e a imoralidade na administração pública, e os círculos políticos que não se ocupavam do país, senão de seguir no governo a qualquer preço e a qualquer custo.

Perón via mais além.

Se tudo tivesse consistido somente nisso, a revolução teria cumprido com o povo em muito pouco tempo. Com uma simples reforma política se consertava tudo.

Porém isso seria ver o problema muito superficialmente, pois se bem era um problema fundamental a fraude com que se teria enganado o povo por tanto tempo; se bem era um problema sério para os governos anteriores a imoralidade administrativa, o problema mais sério - e ainda o mais agravante para o povo - era a exploração do homem pelo homem e, por outra parte, a entrega constante da Pátria à potência estrangeira que pagasse mais.

Porém, para desgraça dos argentinos, não só se vendia a Pátria; se rendia fidelidade às potências com o só fim de ter amigos importantes no estrangeiro.

Isso era mais fundamental.

Por que temos os justicialistas tão fervorosa admiração, respeito e carinho pelos povos, qualquer seja sua raça, seu credo, sua bandeira?

Por várias razões, todas muito simples: porque os povos tem o sentido inato da justiça.

Por isso Perón sustenta que, para suprimir as guerras injustas, os governos devem consultar seus povos.

Se o povo fosse consultado não haveria guerras porque quase todas são injustas.

Nós, os justicialistas, não estamos contra as guerras quando se luta pela justiça. Porém, desgraçadamente, nesse mundo muito pouco ou nada se há lutado pela justiça.

Se há lutado sempre por interesses econômicos, e muitas vezes por imperialismos que são alheios a nós, já que somente nos interessa a justiça dos povos.

Os povos levam em si mesmos, todos sem exeção, sentimentos de generosidade, de amor, de altruísmo, de solidariedade. Daí o êxito que tem, nos povos, as doutrinas generosas.

Muitas vezes me ouviram falar de Perón nessas classes. Eu sei que tive que fazer sofrer o General em sua humildade, dizendo em sua presença coisas que dirão dele cem gerações de argentinos, bendizendo seu nome.

Me antecipei à história, nada mais, e interpretei nosso grande povo argentino, aos humildes.

Cheguei a dizer que Perón é o compêndio maravilhoso das melhores e mais altas virtudes que adornaram a alma de todos os gênios que teve a humanidade.

Talvez alguém haja pensado que eram exageros, produto de meu fanatismo - e isso entre nós - porque os de fora drião que estou a ponto de perder o equilíbrio, ou que estou completamente desequilibrada. Se o sábio não aprova, mal; porém se o néscio aprova, pior. Assim é que, quanto mais me combate ou nos combatem, mais seguro estamos de ir pela senda do bem e caminhando para um futuro melhor.

Sou jovem e com um marido maravilhoso, respeitado, admirado e amado pelo seu povo.

Me encontro na melhor das situações.

Esse é o caminho fácil, o de macadame.

Eu quero a selva e a incógnita.

Sabem por quê? Porque a selva e a incógnita é defender à Nação, ainda que nós caiamos. Poderão apagar o General e a mim, porém não poderão apagar com o tempo o fato de que, podendo escolher o caminho fácil e a porta larga da história, escolhemos a selva para abrir horizontes e caminhos com um afã extraordinário de unidade nacional.

Acima de tudo o dos peronistas, que é o da maioria do povo, queimando nossas vidas, deixando diariamente migalhas de trabalho, de esforço, de sacrifício e de amarguras.

É que creio que somente com fanáticos triunfam os ideais, com fanáticos que pensem e que tenham a valentia de falar em qualquer momento e em qualquer circunstância que se apresente, porque o ideal vale mais que a vida, e eqnaunto não se há dado tudo por um ideal, não se há dado nada.

E tudo é a vida mesma.

Demasiado intranscendente e medíocre seria viver a vida se ela não fosse vivida por um ideal.

Os homens de nosso tempo, mais que os de todos os tempos da história, necessitam de quem lhes assinale um caminho; porém exitem que quem os queira conduzir tenha algo mais que boas e grandes idéias.

Necessitam de um condutor extraordinário.

Os homens desse século, talvez por terem sido tão enganados, necessitam de gênios para crer, porque então eles verão os olhos de seu condutor e mestre, ouvirão pelos ouvidos dele e falarão por seus lábios.

E assim expressaremos ao mundo uma verdade justicialista, e muitas gerações, não já de argentinos, senão de homens de todas as latitudes, nos bendirão por termos tido nós a valentia de acompanhar um homem que nasceu nesse pedaço de terra argentina.


07/03/2012

Quarta Aula de Eva Perón - 12/04/1951

por Eva Perón


Em minhas aulas anteriores, falei da história universal, referindo-me às duas histórias: a dos homens e a das massas em seu afã por converter-se em povo, e a história dos grandes homens até chegar em Perón. Aqui paramos, como quem se detém logo de haver viajado à noite, contemplando nas estrelas a aurora que logo chega com o sol.

Fomos à história das massas, em seu afã para converter-se em povo, ou seja, em suas lutas de superação, até chegar ao 17 de Outubro, que talvez seja a história mais formidável de um povo defendendo seu próprio destino. O quê é um povo para um peronista? Eu acreditava que se havia esgotado o tema na classe anterior e havia me disposto hoje para falar da história do capitalismo, pensando que assim, por contraste de luz e sombras, nos entenderíamos melhor e entenderíamos melhor o peronismo, mas meditando sobre o tema de minha última aula, adverti que, todavia, não tinha terminado e que ainda havia muitos pontos, para mim, de fundamental importância. Não quero deixar de insistir sobre o tema das massas e dos povos na história, porque, para mim, quem não entende e sinta bem o quê é o povo, não poderá ser jamais um autêntico peronista.

Eu sempre digo que os três grandes amores de um peronista são o povo, Perón, e a Pátria, e vejam vocês, se um peronista pode ser um peronista sem entender estes três grandes amores, tal como o sinto, e não somente como uma linda palavra.

O amor é o sacrifício, e ainda que isso pareça um título de uma novela sentimental, é uma verdade grande como o mundo e a história. Não há amor sem sacrifício, mas nada se sacrifica por algo que não se quer, e nada se pode querer o que não se conhece. Nós dizemos muitas vezes que estamos dispostos a morrer pelo povo, pela Pátria e por Perón, mas quando esse momento chegar, se chegar – e não sejamos traidores, desleais e vendedores da pátria -, teremos que sentir verdadeiramente esses três grandes amores, e por isso devemos conhecê-lo íntima e profundamente.

É necessário conhecer, sentir e servir ao povo, para ser um bom peronista. Há muitos peronistas, já o são; mas nós queremos peronistas na prática e não na teoria.

É urgente que insistamos, dentro de nosso movimento, a necessidade que temos de fazer conhecer e amar ao povo – e vocês verão, mais adiante, porque é urgente, e ainda mais em nosso movimento – se é que não queremos perder e estragar esta maravilhosa doutrina que o General Perón nos deu. Talvez isto seja mais necessário para conhecer e querer mais profundamente Perón.

O General tem uma grandeza espiritual tão extraordinária que está sempre muito presente nos nossos sentimentos e no nosso coração; mas muito temo que não aconteça o mesmo com o povo, e as vezes penso que não são todos os peronistas que me entendem e me crêem quando digo que Perón é o povo.

Não se deram conta, todavia, do que isso significa; não hão advertido que isso significa que para querer Perón há que querer o povo; que não se pode ser peronista sem conhecer, sem sentir, e sem querer, o povo – mas querê-lo profundamente – e, sobretudo, servir a causa do povo. Um peronista que não conhece, não sente, e não serve ao povo, para mim, não é peronista.

Demonstrarei nesta aula de hoje que a melhor maneira de saber se um peronista é verdadeiramente peronista consiste em saber se tem um conceito peronista do quê é povo; se sente o mesmo em relação ao povo e não possui ambições de privilégios; se serve lealmente o povo.

Vocês dirão que no lugar de dar minha aula de história sobre o peronismo eu estou ditando meticulosamente a moral peronista. Não é o caso. Havia dito na aula anterior que iria falar sobre o capitalismo, mas primeiro acreditei ser melhor dar uma aula de ética peronista e, especialmente, sobre oligarquia, para depois passar ao capitalismo. E para não ser oligarca e ser um bom peronista, teremos que nos basear em um amor profundo pelo povo e por Perón, sustentando-se em valores espirituais e em um grande espírito de sacrifício e renúncia, não proclamamos senão profundamente sentidos.

Todas estas coisas não as digo por que sim, nem porque gosto do tema. Vocês sabem que dizer a verdade me custou muitas dores de cabeça, e posso dizer com orgulho que nunca fui desleal a quem foi leal à Perón.



Mas também posso dizer com orgulho que jamais tive mantida minha amizade em um círculo ou em um grupo, senão que nada mais do que a lealdade, e a lealdade não me compromete nada mais do que enquanto se é leal a Perón, se é leal ao povo e ao movimento.

Se falo dessas coisa, é porque sei que o General se preocupa com o tema, e deve nos preocupar à todos os que queremos profundamente o movimento, e ansiamos que seja um movimento permanente. Preocupa, sobretudo, que todavia há peronistas que, por seu afã de obter privilégios, mais bem parecem oligarcas. Meus ataques à oligarquia vocês conhecem bem, porque não ouviram só uma, mas muitas vezes em meus discursos.

E estou segura de que alguns de vocês têm pensado sobre o quê outros me hão dito tantas vezes: “por que se preocupa tanto, senhora, se essa classe de gente não voltará mais ao governo?”.

Não; já sei que a oligarquia, a de 17 de Outubro, a que esteve na praça San Martín, essa não voltará mais ao governo, mas não é essa que me preocupa. A que me preocupa é a que pode voltar. O quê me preocupa é que pode retornar ‘espírito’ oligarca em nós. É disso que eu tenho medo, muito medo, e para que isto não suceda hei de lutar enquanto tenho um pouco de vida – e hei de lutar muito – para que nada se deixe tentar pela vaidade, pelo privilégio, pela soberba ou ambição.

Eu tenho medo do ‘espírito’ oligarca por uma simples razão. O ‘espírito’ oligarca se opõe completamente ao espírito do povo. São duas coisas totalmente distintas, como o dia e a noite, como o azeite e o vinagre. Vamos demonstrar o ‘espírito’ oligarca na história, trazendo alguns exemplos. Eu, em minhas lutas diárias – e vocês as têm visto – para ser uma boa peronista, trato de ser mais humilde, trato de jogar fora de mim toda vaidade que pode tomar espaço no meu coração. Eu não podia ser a esposa do General Perón, nem boa peronista, se tivesse vaidade, orgulho, e, sobretudo, ambição, porque a ambição é o ‘espírito’ oligarca que botaria todo nosso movimento a perder.

Eu não sei o quê pensarão de mim os historiadores e os que comentam a história, mas creio firmemente – e desta idéia não me poderão pegar – que a causa de todos os males da história dos povos é, precisamente, o predomínio do espírito oligarca sobre o espírito do povo. Qual é o espírito oligarca? Para mim, é o afã do privilégio, a soberba, o orgulho individualista*, a vaidade e a ambição; digo, o quê fez milhares e milhares de escravos sofrerem no Egito, que viviam e morriam construindo as pirâmides; é o orgulho, a soberba, e a vaidade, de uns quantos privilegiados que faziam, em Grécia e Roma, sofrer os hilotas e escravos; o espírito oligarca é de uns poucos espartanos e aristocráticos e de uns poucos patrícios que governavam Esparta, Atenas e Roma; o sofrimento de milhões e milhões de hindus se deveu ao orgulho das seitas dominantes; a dor da Idade Média deveu-se à soberba dos senhores feudais, dos reis e dos imperadores ambiciosos, que só pensavam em dominar seus iguais; o sofrimento que provocou a rebeldia do povo francês em 1789, a Revolução Francesa, tem causa nos privilégios da nobreza e do clero; a Rússia dos czares, que fez nascer no mundo a revolução comunista, é outra expressão dos sofrimentos provocados pelo espírito oligarca, a vaidade, a ambição, o egoísmo, e o orgulho, de uns poucos, esmagando as massas.

O peronismo que nasce em 17 de Outubro é a primeira vitória real do espírito do povo sobre a oligarquia. A Revolução Francesa, tal como a história testemunha – e eu trato de aprofundá-la e de ler muito sobre o que se tem escrito não foi realizada pelo povo, mas pela burguesia. Isto, não recordamos muito frequentemente.

A burguesia se aproveitou da real loucura desse povo faminto, despossuídos, e é por isso que preferimos recordar da Revolução Francesa três palavras de seu lema: Liberdade, Igualdade, e Fraternidade, três belas palavras dos intelectualóides franceses, que diziam coisas muito belas, mas que realizavam muito pouco. E é por isso que nos esquecemos de algo extraordinário. Nos esquecemos de que a Constituição de 1789 proibia a sindicalização. Pode uma revolução ser do povo quando dita uma Constituição que proíbe a sindicalização?

O povo seguiu a burguesia, mas esta não respondeu honrada e lealmente ao povo, que jogou sua vida na vala.

A Revolução Francesa quis suprimir, e conseguiu, até com a guilhotina, ao privilégio aristocrático, mas trouxe ao mundo o conceito de liberdade individual absoluta, criando com esse conceito outros privilégios, como o da riqueza, que conduziu tudo rapidamente ao capitalismo.

A revolução russa também quis suprimir a oligarquia aristocrática, utilizando para ela o povo, cuja reação violenta também provocou a morte dos czares. Mas depois se criou na Rússia uma nova oligarquia: a de uns quantos homens que não consultam ao povo, senão que o levam aonde o querem. Eles não fazem o quê o povo quer, mas o povo tem que fazer o quê eles querem. Creio que há uma pequena diferença...

Tão oligárquico é o sistema feudal como o absolutismo dos reis, como o sistema de casta que imperou em nosso país, sistema fechado com a “Yale”, dos apelidos ilustres que conhecemos. Tão mais ilustres esses apelidos quanto mais tinham dinheiro no banco. Tão oligárquico o sistema capitalista que domina desde Wall Street até o sistema comunista que impera na Rússia.

Portanto, afirmo que o peronismo nascido em 17 de Outubro é uma vitória do povo autêntico sobre a oligarquia. E para que esta vitória não se perca, como se perdeu a Revolução Francesa e a revolução russa, é necessário que os dirigentes do movimento peronista não se deixem influenciar pelo espírito oligarca.

É necessário, portanto, que todas essas coisas que dizemos não caiam no vazio. Eu às vezes observo que quando se disse coisas importantíssimas, nos aplaudem, se temos razão, mas na prática fazem tudo o contrário. Há que aplaudir e gritar menos, e atuar mais. Claro que ao dizer isto, falo no geral.

Nosso movimento é muito sério, porque temos um homem, o General Perón, que está queimando sua vida para nos deixar consolidada sua doutrina e para entregar-nos e depositar em nossas mãos a bandeira da justiça e uma Pátria socialmente justa, economicamente livre e politicamente soberana.

Isso era para nós um sonho. Era um sonho para os argentinos, pensar que algum dia, em nosso país, um homem, com sentido patriótico, um homem extraordinário, e sobretudo com grande valentia, pudera anunciá-lo e realizá-lo.

Porém, há que reconhecer que o homem que há criado sua doutrina e que há realizado esta obra tão extraordinária, é um homem de valores morais extraordinários.

Nós vemos em Perón a humildade, um homem simples, sem vaidade ou orgulho, um homem que sente alergia pelos privilégios.

Então, nós, que desejamos Perón, tratamos de nos unir, tratamos de nos igualarmos a ele, tratamos de nos sentir humildes, de não sermos ambiciosos, de não sentir orgulho nem vaidade.

Nisto, é só o que podemos tratar de igualarmos a Perón, e, se conseguirmos, vai ser tão grandioso que teremos banido o peronismo do espírito oligarca, que, do contrário, terminaria conosco. Perón não veio montar outra casta; ele veio implantar o povo, para que seja soberano e governe. Por isso, temos que nos sentir humildes e consultar ao povo todo, mas consultá-lo também em sua humildade. Não sentirmos, quando o movimento nos chama a uma função, importantes nem poderosos.

A mim me preocupa extraordinariamente esta questão. Hei tido uma grande desilusão com gente a que aprecio, quando vi se esvanecer como pavões, quando vi sentirem-se importantes. Não há mais importância, nem mais privilégio, nem mais orgulho, que sentir-se povo. Mas alguns se sentem senhores; e o senhor não se sente, se nasce assim, ainda nos mais humildes! Quando vi em personagens, me entrou frio, medo, angústia, e uma profunda tristeza. Mas a força e a esperança me renasce quando vejo Perón trabalhando incansavelmente e o povo colaborando com ele.

Eu observo o General, porque não quero ser dentro do movimento nada mais que uma boa aluna sua; quero servir ao movimento e não servir-me dele. Se atuarmos assim sempre, a humanidade seria mais feliz e seríamos muito mais úteis ao povo.


O General Perón é humilde, apesar de todo seu poder, e não digo poder por ser o Presidente da República, mas do seu poder espiritual, pois o é muito mais poderoso que seus títulos, que seus galões e direitos, porque reina sobre o coração de milhões de argentinos.

Eu tenho visto o General não com essa embalagem humilde e fingida a qual vocês às vezes advertem sobre os homens, nos pequenos detalhes, mas que nos grandes, e que é o teatro que muitos políticos fazem, que parecem muito humildes para que os vejamos em grupo, mas que no fundo são déspotas, soberbos, vaidosos, e frios. A Perón, do contrário, que há feito obras extraordinárias, o vejo todas as manhãs ao chegar à Casa do Governo – para dar um exemplo, porque, como dizia Napoleão, com um exemplo se esclarece o todo – tocar o anel e dizer, sempre, à portaria que acude: “Bom dia, filho; quer fazer-me o favor de me trazer um cafezinho?”. E quando o trazem, assim seja com um embaixador, com um ministro, ou que o for, o dá um abraço, agradecendo-lhe; mas isso é normal nele, sai de dentro. Não é teatro: sai do coração. E eu penso, então, se todos os peronistas, seríamos capazes de fazer outro tanto. Não temos que ter privilégio de sermos gênios e grandes como Perón, mas podemos nos propor em ser bons como ele.

As pessoas se esquecem facilmente do povo, e nós, os peronistas, que dizemos que queremos Perón, que amamos profundamente sua figura, seu nome, sua doutrina e seu movimento, não podemos nem devemos esquecer jamais do povo, porque se traímos Perón, traímos sua maior preocupação. Não esqueçam que Perón trabalha, luta, sonha, e se sacrifica por um ideal: seu povo.



Alguns peronistas não se dão conta de que tudo o quê somos, devemos a Perón e ao povo, e às vezes não acreditamos que chegamos por nós mesmos, nos consideramos importantes e insubstituíveis, e até às vezes nos cremos diretores de orquestra. De qual orquestra somos diretores?

A humildade deve ser uma de nossas grandes preocupações, como a bondade, a falta de vaidade, e a ausência de ambição. Não devemos ter mais que uma só ambição: a de desempenhar bem nosso cargo dentro do movimento.

O General Perón disse faz alguns dias: não são os cargos que dignificam os homens, mas os homens quem honram seus cargos. Nós devemos aspirar a ocupar um cargo de luta, não importa qual for, mas cumpri-lo honradamente, com espírito de sacrifício e de renúncia, que nos traga ante nossos companheiros dignos do movimento e nos eleve em consideração de todos. Assim cumpriremos com o povo e com o movimento. Não esqueçamos do homem que trabalha até o sol se pôr, para construir a felicidade de todo o povo argentino e a grandeza da Nação, e nós, sob sua sombra maravilhosa, não devemos amargar seus sonhos de patriota, com ambições mesquinhas e desmesuradas como as que alguns peronistas que já se crêem dirigentes importantes.

A característica exclusiva do peronismo, a qual nenhum outro sistema tem feito até agora, é a de servir o povo, e, aliás, a de obedecer-lho. Quando em cada 17 de Outubro, Perón pergunta ao povo se está satisfeito de seu governo, talvez por ter Perón demasiado próximo, não nos detemos em pensar nas coisas tão grandes a que tem nos acostumados, a algo que não se passa na humanidade. Quando, algum governante, alguma vez no mundo, reuniu uma vez por ano o povo para perguntar-lhe se está satisfeito com seu governo?

Quando, algum governante no mundo, disse que não haverá nada senão o que o povo quer? Entretanto, Perón pode falar porque seu coração está junto ao do povo. A atitude argentina do General Perón na Conferência de Cancilleres: “Não se colocará tropas no exterior sem consultar ao povo!”, não se tem visto nunca no mundo, quando um governo tem perguntado, antes de enviar tropas ao exterior, se o povo está conforme? Nunca foi feito, porque quando hão querido, enviaram tropas ao exterior sem consultar jamais o povo.

Estes três exemplos nos demonstram a grandeza de Perón, a honradez de seus procedimentos, o amor profundo e querido que sente pelo povo e o respeito pelo “soberano”, que de soberano não tinha mais do que o nome, até que Perón chegou, porque o povo jamais tinha sido respeitado. Assim é o General Perón, e se o é, tratando de ouvir as inquietudes do povo, como nós peronistas, que o acompanhamos e pretendemos ajudá-lo, não vamos ao extremo com nossa energia e esforço para aproximarmo-nos em desejo de servi-lo leal, honrada, e humildemente?

Esse deve ser um dever dos peronistas. Devemos pensar sempre que o General Perón respeita o povo, não somente nas questões fundamentais, mas também nas pequenas.

Eu disse outro dia que a massa não faz mais do que sentir, que não pensa. Por isso os totalitarismos, sejam fascistas ou comunistas, organizam o povo como um treinado soldado militar, para que este sirva melhor à pátria. Perón, entretanto, favorece o sindicalismo e a organização do povo, não para que o povo sirva o peronismo, mas para que o peronismo sirva melhor o povo, entre os quais há uma grande diferença. A fim de que o povo conserve e conquiste seus direitos, Perón trata o povo, não como um militar aos seus soldados, mas como um pai aos seus filhos. Como Perón faz, servindo o povo, devemos fazer cada vez mais.

Eu quis que essa aula – e é um desejo fervente meu – vocês tivesse sempre muito presente em seus corações e em suas mentes para tratar todos os dias de incutir aos peronistas e nós mesmos adotá-la em nossos procedimentos, e assim nos sentiremos mais tranqüilos em nossa consciência de peronistas, de argentinos, de mulheres e homens do povo. Nossa consigna deve ser a de servir o povo e não nosso egoísmo, que no fundo todos temos, nem à nossa ambição, porque isso seria ter o quê eu chamo de espírito oligarca.

Vamos dar um exemplo de espírito oligarca, mesmo que eu já tenha dado muitos: o funcionário que se serve do seu cargo é um oligarca. Não serve ao povo senão que à sua vaidade, ao seu egoísmo, ao seu orgulho, e à sua ambição. Os dirigentes peronistas que formam círculos pessoais servem aos seus egoísmos e desmesurada ambição.

Para mim estes não são peronistas. São oligarcas, são ídolos de barro, porque desprezam o povo, ignorando-lhes e até compadecendo-lhes. A oligarquia de 17 de Outubro, a que derrotamos este dia, para mim está morta. Por isso que tenho mais medo da oligarquia que pode star dentro de nós, que a esta que vencemos em 17 de Outubro, porque aquela nós combatemos, arrolamos e vencemos. Entanto que essa pode nascer cada dia em nós. Por isso, os peronistas devemos tratar de ser soldados para matar e esmagar essa oligarquia onde quer que nasça.

Nós dizemos, com Perón, que não queremos nem reconhecemos mais que uma classe de homens: a dos que trabalham. Isto quer dizer que para nós não existe mais de uma só classe de argentinos, a que constitui o povo, e o povo é autenticamente trabalhador.

Quê diferença há entre esta nova classe e a classe oligárquica que governou até 1943? É muito fácil explicá-la.

A oligarquia era uma classe fechada, ou seja, como eu disse anteriormente, uma casta. Nada podia entrar nela. O governo os pertencia, como se nada mais que a oligarquia pudesse governar o país. Em realidade, como que a eles dominava o espírito da oligarquia, que é egoísta, orgulhoso, soberbo e vaidoso, todos estes defeitos e más qualidades os levaram pouco a pouco aos piores extremos, e terminaram vendendo tudo, até a Pátria, com tal de seguir aparentando riqueza e poder.

Quando vemos um político que não quer que nada mais que seus amigos entrem no círculo, pensamos que também é um oligarca. Esse também quer preparar outra casa para ele, mas se esquece que há muitos soldados e servidores do General, que o interpretamos, que o seguimos honradamente, que temos o privilégio de sermos os eternos vigias da Revolução.

Portanto, estaremos em guarda permanente para destroçar e esmagar esses senhores que vocês conhecem, como disse anteriormente. O peronismo é um movimento aberto à todo o mundo. Vocês vêem que qualquer que chega a mim, seja um dirigente deste ou de outro, sempre digo que ele, para mim, não é mais que um dirigente de Perón. Quando me dizem que Fulano é dirigente que responde a Mengano ou a Zutano, penso que não é um dirigente, mas um canalha, porque sob o lema da Justiça, o povo e a Pátria constituem uma grande família, na qual todos somos iguais, felizes e contentes, respondendo somente à Perón.

Dentro do nosso movimento não é necessário ter títulos universitários, ser intelectual, nem ter quatro apelidos, para integrar o governo de Perón. Ao lado dele há homens de todas as condições sociais: médicos, advogados, pedreiros, ricos e pobres, de todas as classes, mas sem esse espírito oligarca, que é a negação do nosso movimento. Pelo menos aspiramos a isso. Nesse sentido, temos uma árdua e longa tarefa para realizar. Qualquer peronista pode chegar a ocupar os mais altos cargos dentro do nosso movimento. Se trabalha honradamente, pode aspirar a qualquer, e nesse sentido devemos ter em conta uma frase do General Perón, que se deveria gravar no coração de todos os peronistas: “Sejam todos artífices do destino comum, mas nenhum instrumento de nenhuma ambição”.

Não sejam tontos, aqui não se necessita de padrinhos; aqui, o único que se valoriza é o sacrifício, a eficácia e o trabalho. Eu sempre senti alergia pelos recomendados.

Sempre os atendi muito bem e os solucionaram o assunto, mas sempre tive uma profunda pena de que essas pessoas não sabem que não necessitam a recomendação. No nosso movimento não há mais recomendação do que ser peronista. É por isso que qualquer peronista, por humilde que seja, pode aspirar, como hei dito, aos mais altos cargos, com somente tratar de interpretar as inquietudes do General Perón. Isto é fundamental para que nós possamos formar um governo permanente, consolidado no espaço e no tempo. Nosso movimento é o mais profundo e maravilhoso de todos, porque tem uma doutrina perfeita e um condutor genial como General Perón.

Eu, que tenho a debilidade de estudar profundamente todos os grandes da história, e vocês, que haverão feito tanto como eu, sabemos que em todos os grandes homens há erros e defeitos, que se perdoa por serem gênios, e aos gênios se perdoa tudo. Mas – às vezes, aos argentinos parece mentira – Perón é um gênio que não possui defeitos, e se tivesse um, seria um só: ter um coração demasiado grande, que seria o mais sublime de todos os defeitos, já que Cristo perdoou aqueles que o crucificaram. Nós devemos pensar nisso, na grandeza, nas virtudes, e nas condições morais do General Perón, e, sobretudo, em sua humildade, que é o que o torna maior.

Deveríamos, nós, elevar todos os dias nosso olhar e nossa memória, à figura patrícia do General Perón; seríamos, então, cada dia melhor. E ao deitarmo-nos, deveriamos realizar um balance do que temos feito, e ver se temos tratado bem um companheiro, se temos servido honradamente ao povo, se temos cumprido com humildade, com desinteresse e com sacrifício, nosso trabalho. Então, podemos nos deitar tranquilos, porque cumprimos com a Pátria, com Perón, e com o Povo.

Eu pretendi que meu escritório fosse o mais popular e o mais sem-camisa; não em suas paredes – porque não nos vestimos de trapos para receber o povo, mas nos vestimos de gala para receber-los com as melhores honrarias, como se merece - , mas sim sem-camisa pelo carinho, pelo coração, a humanidade e o espírito de sacrifício e de renúncia. Às vezes me parece que isto não é suficientemente grande para merecer ser, eu, a esposa do General Perón; mas penso que não posso me assemelhar ao General, porque Perón há somente um, mas trato, pelo menos, de merecer o carinho e a consideração do General e dos peronistas, trabalhando com um grande espírito de desinteresse, de sacrifício, de renúncia, e de amor. E é por isso que quando chegam ao meu escritório os ministros, eu me alegro, porque os vejo mesclados com os trabalhadores e com os pobres, quero dizer, com nosso povo autêntico. E creio que assim, me vendo trabalhar confundida com o povo, e vendo a maravilha que nosso povo é, não se farão oligarcas.

Isso significa que nós queremos uma só classe de argentinos. Não quer dizer que queremos que não haja ricos, e que não haja intelectuais e homens superiores. Bem pelo contrário: o grande do peronismo é que todos os argentinos podem chegar a ser o que querem, até Presidente da República.

Prova de que o peronismo quer isto, é que temos um ministro trabalhador, agregamos trabalhadores nas embaixadas, trabalhadores nas Câmaras, trabalhadores em todas as partes; e também no aspecto cultural temos o teatro trabalhador e os salões de arte trabalhadores, ainda que nesse aspecto temos muito, muito, o quê fazer, para cumprir com os desejos e com as inquietudes do General Perón.

Graças ao General Perón, nós logramos ter as universidades abertas a todo o povo argentino. Isso nos demonstra a preocupação do governo argentino por elevar a cultura do povo e porque nosso povo pode chegar às universidades, que já não estão reservadas a uns poucos privilegiados. Agora, os humildes podem ser advogados e médicos, de acordo com suas vontades.

Eles, com seu senso de povo, serão mais humanos, e as futuras gerações poderão nos agradecer de que os tornamos compreendidos e apoiados.

Ser peronista, para fazer a síntese de tudo que foi falado, requer ter os três amores a que eu fiz menção no início: o Povo, Perón, e a Pátria. O peronismo é a primeira vitória do povo sobre a oligarquia; por isso há que cuidá-lo e não desvirtuá-lo jamais. O peronismo só se pode desvirtuar pelo espírito oligarca que pode infiltrar-se na alma dos peronistas, e perdoem, meninas e meninos, que eu repita tanto isto, mas se assim o faço é porque quis que o levassem sempre profundamente gravado nos seus corações. É fundamental para nosso movimento.

Para evitar que se desvirtue o peronismo, há que combater os vícios da oligarquia com as virtudes do povo. Os vícios da oligarquia são: em primeiro lugar, o egoísmo, poderíamos tomar como exemplo o termo de Las Damas de Beneficencia.

Faziam caridade, mas uma caridade degradante. Para dar, há que se fazer perdoar o ter que dar. É mais lindo receber do que dar, quando se sabe dar, mas as damas tratavam sempre de humilhar aos que ajudavam. Depois da desgraça de ter que pedir, o humilhavam no momento de dar a esmola, com a qual nem sequer solucionavam o problema. Em segundo lugar, está a vaidade. A vaidade traz consigo a mentira e a dissimulação, e quando se entra na mentira e na dissimulação o homem deixa de ser construtivo, na sociedade. Em último lugar, temos a ambição e o orgulho, com os quais se completam os quatro vícios da oligarquia: egoísmo, vaidade, ambição, e orgulho.

As virtudes do povo são: em primeiro lugar, a generosidade. Todos vocês hão advertido o espírito de solidariedade que há entre os sem-camisa. Quando um companheiro de fábrica cai em desgraça, em seguida se faz uma coleta para ajudá-lo, coisa que não ocorre em outros ambientes. O mesmo é o caso dos trabalhadores e os da Fundação. Eles viram que a Fundação ia diretamente ao povo, diferente das ‘damas de benevolencia’ que guardavam oitenta e davam vinte, de cada cem que recebiam, com o quê o povo havia perdido a esperança e a fé. Como teria prestígio alguma coisa na qual o povo não acreditava? Quando viram que a Fundação realizava o caminho novo do peronismo, de ajudar e de defender os centavos como se fossem pesos, os trabalhadores se aglutinaram e desinteressadamente contribuíram a uma obra que vinha servir, honrada e lealmente, a seus próprios companheiros. É assim que foi feito o milagre de que as massas trabalhadoras sejam as verdadeiras criadoras da obra da Fundação.

Temos logo a sinceridade. A sinceridade é a virtude inata de nosso povo, que fala de sua franqueza. O desinteresse: vocês vêem que os sem-camisa são puro coração, são desinteressados. E a humanidade que devemos tê-la tão presente.

Portanto, as virtudes do povo são: generosidade, sinceridade, desinteresse, e humildade. A humildade deve ser a virtude fundamental do peronista. O peronista nunca diz “eu”. Esse não é peronista. O peronista diz “nós”. O peronista nunca atribui a si suas vitórias, mas as atribui sempre a Perón, porque se fazemos algo é pelo General Perón, não nos enganemos. E quando, no movimento, há uma fracasso, observamos freqüentemente – vocês que andam pela rua não têm notado melhor do que eu – que se diz: “E a culpa foi do Fulano”, sempre vem de “cima”. Os êxitos são deles, que tanto influíram e tanto fizeram, trabalharam tanto que conseguiram...o fracasso é sempre dos de cima, segundo eles. O fracasso, infelizmente, é devido ao mal-entendido, é produto da guerra, de que, todavia, ainda não fomos capazes da libertação peronista, mas de que nos libertaremos, custe o quê custar...

Não me refiro, portanto, a esses que dizem que o fracasso vem de cima, senão aos próprios peronistas. Os fracassos são nossos, infelizmente. Eu as vezes penso, quando me equivoco – também cometo grandes erros, já que nada está isento deles, pois o que não se equivoca é porque também não faz nada – penso o quanto de ruim faço ao General. Unicamente os gênios como Perón não se equivocam nunca. Mas o povo não está povoado de heróis nem de gênios, e menos de gênios do que de heróis. Repito que os fracassos são nossos. O peronista se deve atribuir sempre os fracassos, e ao dizer “peronista”, dizemos em todo sentido da palavra. As vitórias, diferentemente, são do movimento, ou seja, de Perón. Eu teria feito tudo que já fiz, na Fundação, se Perón não tivesse nos salvado da oligarquia? Eu teria feito todo o bem que faço aos humildes da Pátria, a colaboração aos sindicatos de todo o país, se Perón não tivesse feito em nosso país esta revolução social tão extraordinária, nos tornando independentes da oligarquia, nos dando, ademais, a justiça social, a independência econômica, a soberania política, e sua maravilhosa doutrina? Existiria Eva Perón se não tivesse existido o Perón? Não. Por isso digo que o peronismo começa com Perón, segue com Perón e termina em Perón.

Nem mesmo depois poderão mover o General, porque o General Perón não será movido jamais do coração do povo. O dia em que alguém, em sua ambição e interesse mesquinho e bastardo, pensar que poderá ser a bandeira do movimento, esse dia ele terá terminado.

Por isso digo que não temos nada mais que Perón, e nós, para consolidar e colaborar com sua obra, devemos ser bons pregadores de sua doutrina.

Quando alguém se enoja e se lamenta de erros, entre os católicos, e contesto que a doutrina católica é a maior que há, que os maus são os pregadores e não a doutrina. Aquilo é eterno. Nisso, que é terreno, temos que ter bons pregadores e também bons realizadores.

A doutrina de Perón é genial; os maus seremos nós, já que de barro somos feitos, mas temos que tratar de ser cada dia mais superiores e mais dignos do maravilhoso povo, e do ilustre apelido dos argentinos. Por isso que nós aspiramos, cada dia mais, ser bons e melhores pregadores da doutrina do General, mas não somente bons na pregação, mas também na prática. Para conseguirmos, o peronista deve ser sempre de uma grande humildade, reconhecer que ele não significa nada e que Perón e o Povo são tudo.

05/09/2011

Resignei-me em ser Vítima

por Eva Perón

Certo dia, movida pela curiosidade provinda das minhas inclinações, debrucei-me sobre as colunas da imprensa que se intitulavam do povo.

Andava à cata de companhia... Não é, porventura, verdade que, cada vez que, correndo os olhos pelas páginas de um livro, estamos, a rigor, procurando antes uma companhia do que um roteiro a seguir ou um guia que nos oriente?

Quem sabe se não foi por isso que corri os olhos pela imprensa esquerdista do País? Porém, não encontrei, nem companhia, nem roteiro e nem qualquer guria que me orientasse.

É bem verdade que os jornais do povo esbravejavam contra o capital e contra os capitalistas com o linguajar rude e forte, desmascarando as iniqüidades do regime social, que oprimia o País. Porém, nos detalhes e ainda no fundo da prédica, percebi sem dificuldades a influência de idéias remotas separadas do autenticamente argentino: sistemas e fórmulas alheias aos nossos pontos de vista, concebidas pelas mentes de homens estranhos à nossa cultura e sentimentos nacionais. Notava-se logo que eles desejavam para o povo argentino, não aquilo que ele aspirava. A constatação pôs-me em alerta. Havia outra coisa que ainda repugnava meu espírito: a solução para a injustiça social era a mesma para todos os povos e países do mundo. Eu, porém, considerava inconcebível que, para destruir esse grande mal, fosse preciso aniquilar, concomitantemente algo tão elevado como a Pátria.

Nesta altura, quero deixar claro que até alguns anos passados, muitos sindicalistas argentinos, patrocinados por organizações estrangeiras, consideravam a Argentina e seus símbolos, como meros preconceitos do capitalismo e da religião.

Mais tarde, comecei a desconfiar daqueles veementes defensores do povo. Pela leitura daquela imprensa deduzi que, em minha Pátria, a iniqüidade social só poderia ser banida por uma Revolução, por ventura, internacional, do exterior e conduzida por seres alheios à nossa cultura. Não cabiam, para mim, senão soluções nacionais, resolvendo problemas visíveis, com soluções simples, ao contrário das rebuscadas teorias econômicas. Isto é, optar por soluções patrióticas, próprias para remir o próprio povo. Assim, perguntava-me: Para que aumentar ainda mais os sofrimentos das vítimas dessa injustiça, tirando-lhes os anseios de Pátria e de Fé, a que estão acostumadas? Por conseguinte, seria como tirar da paisagem o firmamento que a emoldura.

Em vez de atacar a Pátria e a Religião, por que tais dirigentes não tratam de uni-las a favor desse mesmo povo? Suspeitei de que aquela gente trabalhava mais para o enfraquecimento da moral da nação do que pelo bem-estar do operariado. Por isso, não gostei da solução.

Embora sabendo pouco da situação global, tinha a orientação do coração e do sentido comum. Pesarosa, voltei às minhas meditações anteriores, convencida de que não possuiria lugar naquela luta inglória. Resignei-me a viver em minha revolta íntima e que, agora, se somava àquela outra, gerada no meu coração, oriunda da deslealdade daqueles pretensos condutores do povo, cuja traição acabara de descobrir. Resignei-me em ser vítima.