quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Marcelo Gullo - O Umbral do Poder

por Marcelo Gullo



O Conceito de Umbral de Poder

Para entender com maior precisão os fatores e elementos que marcam, compõem e modificam a situação dos Estados no âmbito internacional, tornando alguns Estados subordinadores e outros subordinados - uma situação que é relativa e, por natureza, cambiante - é necessário criar uma nova categoria de análise interpretativa. Essa categoria, que denominaremos "umbral de poder", não consiste em uma mera "invenção" - arbitrária ou caprichosa - mas sim um conceito operativo que nos permite expôr, de um modo sintético, uma série de parâmetros que existem e são realizados no curso da realidade histórica das nações e que determina sua situação perante outras nações.

Assim, por "umbral de poder", entenderemos de agora em diante uma quantidade de poder mínimo necessário abaixo do qual cessa a capacidade autonômica de uma unidade política. "Umbral de poder" é, portanto, o mínimo poder de que um Estado necessita para criar o estado de subordinação, em um determinado momento da história. A natureza "variável" desse umbral de poder deriva em seu momento de sua natureza histórica e relativa. Na interpretação do mundo feita a partir dessa postura do direito internacional, todos os Estados formalmente independentes são sujeitos de direito. Na Assembleia Geral das Nações Unidas, tanto a República Dominicana, Jamaica, Madagascar como Estados Unidos ou Chine tem um voto, são merecedores de um voto. Não obstante, dentro da mesma instituição que consagra a igualdade jurídica dos Estados, emerge o Conselho de Segurança para nos recordar que todos os Estados são iguais, mas que há uns que são mais iguais que outros. Diferentes do "mundo imaginado" por alguns professores de direito internacional, na área da realidade internacional - onde o poder é a medida de todas as coisas - só aqueles Estados que alcançam o umbral de poder que é utilizável nesse momento da história são verdadeiros "sujeitos" da política internacional. Os Estados que não alcançam o umbral de poder, ainda que possam alcançar grande prosperidade econômica, tendem a se converter, inevitavelmente, em "objetos" da política internacional, significando que são Estados subordinados.

O umbral de poder necessário para que um Estado não caia no estado de subordinação sempre está relacionado com o poder gerado por outros Estados que compreendem o sistema internacional. Quando uma ou várias unidades políticas incrementam consideravelmente seu poder, provocam mudanças substanciais no umbral de poder de que outras unidades necessitam para não caírem no estado de subordinação. Nesse sentido, quando a formação dos grandes Estados nacionais se produziu, Espanha em 1492, França em 1453 e Inglaterra em 1558, estes elevaram o umbral de poder, e as unidades políticas que não foram capazes de se converter em Estados nacionais, como as cidades-Estado da península italiana, progressivamente se converteram em Estados subordinados. Ao mesmo tempo, quando a Grã-Bretanha se converteu no Estado-Nação que produziu plenamente a revolução industrial - inaugurando a categoria do Estado-Nação industrial - se incrementou o umbral de poder de que outros Estados necessitavam para manter sua capacidade autônoma, isto é, para não caírem sob a subordinação britânica. As quedas de Espanha e Portugal tiveram sua origem fundamentalmente na incapacidade dessas duas unidades primeiro, em se converterem em produtores de manufaturas, e depois, em completar suas próprias revoluções industriais [1].


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Alain de Benoist - Jünger & Drieu La Rochelle

por Alain de Benoist



Nos seus Pariser Tagebücher [Diários Parisienses], Ernst Jünger se refere a seus encontros na Paris ocupada com Pierre Drieu La Rochelle (por exemplo, em 11 de outubro de 1941 e em 7 de abril de 1942). Drieu era então o editor-em-chefe da revista La Nouvelle Revue française, publicada por Gallimard. Às quintas-feiras, Jünger usualmente ia ao salão literário de Florence Gould, ao qual ele foi introduzido por Gerhard Heller, e onde ele conheceu Paul Léautaud, Henry de Montherland, Marcel Jouhandeau, Alfred Fabre-Luce, Jean Schlumberger, Jean Cocteau, Paul Morand, Jean Giraudoux, e muitos outros. Depois, Jouhandeau se lembraria dele como "um homem muito simples, de aparência muito jovem, com rosto delicado, e que usava roupas civis, com gravata borboleta". [1]

Em 16 de novembro de 1943, Jünger notou em seu diário que ele havia visto novamente Drieu La Rochelle no Instituto Alemão de Paris, então dirigido por Karl Epting. Ele lhe disse que eles haviam "trocado fogo em 1915. Foi perto de Godat, a aldeia em que Hermann Löns caiu. Drieu também recordou o sino que soava as horas ali: nós dois o havíamos ouvido". Muitos anos depois, em suas discussões com Antonio Gnoli e Franco Volpi, Jünger, agora já com 100 anos de idade, recordou essa memória novamente: "Quando nos encontrávamos, nós usualmente falávamos sobre nossas experiências da Primeira Guerra Mundial: nós havíamos combatido na mesma zona do front, ele do lado francês, eu do lado alemão, e ouvíamos, em lados opostos, o som dos sinos da mesma igreja". [2]

Não deveria surpreender que estes dois homens haviam se aproximado de início por suas memórias da Grande Guerra. Ela marcou ambos mais profundamente que qualquer outra coisa, como com muitos homens de sua geração. Mas entre Jünger e Drieu La Rochelle, houve muitos outros pontos em comum. Profundamente impressionados com a leitura de Nietzsche, ambos aspiravam a uma aventura africana em suas juventudes: Jünger se alistou na Legião Estrangeira Francesa, enquanto em 1914 Drieu requisitou ser designado para os rifleitos marroquinos (em ambos os casos, a experiência foi breve). Acima de tudo, ambos os homens foram teóricos políticos além de escritores, simultaneamente no caso de Drieu, sucessivamente no de Jünger. Ambos poderiam ser justificadamente descritos, em um ponto ou outro de suas vidas, como "nacional-revolucionários". Ambos, finalmente, foram incontestavelmente conservadores revolucionários, ávidos por salvguardar valores que eles consideravam eternos, mas ao mesmo tempo conscientes de que o advento do mundo moderno criou abismos através dos quais era impossível retornar. Ainda assim, apesar de tudo isso, muitos coisas os separavam.


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Julius Evola - Teologia do Estado Nacional

por Julius Evola



(1935)

Resulta conhecido o nome de Wilhelm Stapel. O mesmo publicou recentemente um ensaio muito agudo em relação à crítica da teoria racial (janeiro de 1935). Acreditamos ser interessante dar a conhecer agora algo desse pensador. Ele é o autor de muitas obras de filosofia política e religiosa, conjuntamente com A.E. Günther dirige a revista Deutsches Volkstum e é por certo uma personalidade de primeiro plano na Alemanha contemporânea. A corrente à qual ele se remete tem um caráter espiritual e tradicional, e isso a distingue claramente daquelas formas em grande medida exaltadas e desequilibradas do nazismo racista e paganizante. Recentemente Stapel entrou na luta e demonstrou coragem na defesa da figura de Carlos Magno. Quiçá nem todos os leitores sabem que na Alemanha se desencadeou um processo verdadeiro e próprio contra Carlos Magno, ao qual se acusa de ter traído a causa nórdica, de ter submetido a ideia nórdica à romana, de ter massacrado os núcleos mais puros dos nórdicos, os saxões, em razão de seu fanatismo religioso, e assim sucessivamente: de modo tal que na Alemanha não se diz mais Carlos Magno, mas Carlos o Franco. Se bem vários professores se viram destituídos de sua cátedra por terem defendido Carlos Magno, ainda assim Stapel não hesitou em tomar parte em tal polêmica se declarando positivamente a favor dessa grande figura histórica.

Dar a conhecer as ideias político-espirituais de Stapel é interessante a fim de que na Itália se saiba a respeito do que existe ao lado das formas mais teatrais, bem como mais superficiais e frívolas, do pensamento político alemão: e de que forma se apresenta acima de tudo o problema de conciliar a ideia cristã com o nacionalismo e de dar uma justificativa antissecular e metafísica seja à ideia de Estado, como à de Império. Nós nos referimos ao livro de Stapel, Der christliche Staatsmann - Eine Theologie des Nationalismus (Hamburgo, 1935), que segue sendo sua principal obra.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Esaúl Álvarez - Metapolítica e Tradição: Por uma Ciência Tradicional da Política

por Esaúl R. Álvarez



Com certa frequência se ouve dizer que a Tradição, qualquer que seja, como caminho espiritual de realização deve estar separada da política. Muitas vezes, esta posição é defendida com um argumento de conveniência: quem segue um caminho espiritual não deve 'se meter' na política, mas deve tratar exclusivamente de sua realização pessoal.

Às vezes, se vai ainda mais longe na defesa da incompatibilidade entre os dois campos, sob a idéia geral de que a Tradição não pode desempenhar um papel político de algum tipo sem degenerar e trair a si mesma, o que resulta algo paradoxal, pois a Tradição trata precisamente de criar um quadro abrangente para a existência humana em que todo o humano fique incluído e seja harmonioso.

No fundo nós acreditamos que essas atitudes vêm de um duplo erro:


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Andrew Korybko - A América do Sul na Ordem Multipolar Emergente

por Andrew Korybko



A Nova Rota da Seda

A China avança com seu plano de construir a primeira Ferrovia Transoceânica (TORR [Trans-Oceanic Railroad]) entre o porto atlântico brasileiro de Santos e sua contraparte pacífica peruviana de Ilo, e visualiza-se que este projeto formará a medula do futuro geopolítico sul-americano na Ordem Mundial Multipolar emergente. O continente está separado da Afro-Eurásia pelos Oceanos Atlântico e Pacífico, diminuindo assim a prioridade imediata que os motores multipolares da Rússia e da China dão a essa massa terrestre. É verdade que o Brasil é o único membro hemisférico ocidental do BRICS e que isso proporcionou um novo impulso para o envolvimento de Moscou e Pequim com Brasília, mas as distâncias geográficas que separam o Estado sul-americano de seus homólogos eurasianos sempre serão um obstáculo para relações comerciais mais próximas. A Rússia não tem a capacidade de satisfazer as expectativas econômicas do Brasil a esse respeito, mas a China é uma história completamente diferente e está muito mais em sintonia para abraçar novos parceiros neste setor.

A visão da China de Um Cinturão Uma Estrada (OBOR [One Belt One Road]), popularmente conhecida como Nova Rota da Seda, é uma política inovadora de investimentos globais em infraestrutura projetada para amarrar o resto do mundo mais perto da economia chinesa, abrindo assim novos mercados para todos os países conectados. Isto é especialmente importante para a China na medida em que ela procura novos parceiros para comprar os bens extras que são produzidos como resultado de sua crescente capacidade. O dilema da China é que sua industrialização historicamente rápida nos últimos 30 anos tem sido quase bem sucedida demais no sentido de que a estabilidade do país inteiro seria abalada se esse processo desaelerar ou desastrosamente reverter seu impulso. A República Popular não tem como suportar o grande descontentamento social que poderia explodir em Revoluções Coloridas ou pior no caso de milhões de chineses estarem sem trabalho e desempregados nas maiores megacidades do mundo. Portanto, a China é obrigada a manter a produção em seus níveis padrão como a maneira mais estável de enfrentar a crise econômica global, esperando que as novas rotas comerciais que se abrem nos próximos anos como parte do projeto OBOR compensem qualquer excesso de capacidade que inadvertidamente resulte durante este tempo.