quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Javier Esparza - Revisar Spengler: Da Filosofia da Vida à Filosofia da Crise?

por Javier Esparza



Quando a sombra de um autor (um filósofo, um político, um poeta...) gravita sobre a alma de uma época que não é a sua, as razões podem ser de dois tipos. Um, o interesse dos mandarins do poder cultural por reatualizá-lo, relê-lo e interpretar suas ideias de acordo com a ideologia social oficial: lhe serão dedicados seminários na Universidade, artigos nos jornais de grande circulação, programas biográficos na televisão, etc., e finalmente será adaptado (digerido) pelo sistema; dois exemplos recentes: Ortega e Unamuno. O outro tipo de razões pelas quais um autor pretérito pode permear o ânimo de uma época determinada é a vigência de suas ideias, a retidão de suas intuições, a presença molesta de sua concepção do mundo nos foros onde se ventila qual há de ser o pensamento oficial: ele será ignorado, não se escreverá sobre ele nos jornais, nem se falará dele na televisão, mas suas ideias, como uma sombra fatídica, acompanharão os oradores do pensamento oficial obrigando-os a criticar continuamente as posições desse autor. Tal é o caso de Spengler, mais conhecido em nossos dias pelas críticas que dele se fazem do que pelas coisas que disse e pensou. Não obstante, é precisamente em seu pensamento que se encontra a chave de sua vigência, da pós-modernidade à epistemologia moderna, e passando pela literatura de antecipação. É neste marco que conceitos tipicamente spenglerianos como decadência (a da Europa), homem felash (o homem ocidental) e pessimismo (o nosso) encontram sua melhor acomodação. 

domingo, 11 de novembro de 2018

Alberto Buela - Nem Direita, Nem Esquerda

por Alberto Buela



O lúcido pensador italiano Marcello Veneziani começa um belo artigo sobre o antiglobalismo com a seguinte observação: 

“Se você prestar atenção neles, os anti-G8 são a esquerda em movimento: anarquistas, marxistas, radicais, católicos rebeldes ou progressistas, pacifistas, verdes, revolucionários. Centros sociais, bandeiras vermelhas. Com o complemento iconográfico de Marcos e do Che Guevara. 

Logo te dás conta de que nenhum deles põe em discussão o Dogma Global, a interdependência dos povos e das culturas, o caldeirão e a sociedade multirracial, o fim das pátrias. São internacionalistas, humanitários, ecumenistas, globalistas. Mais: quanto mais extremistas e violentos são, mais internacionalistas e antitradicionais resultam”. [1]

Toma-se consciência de que a oposição a partir da esquerda à globalização é só uma postura que se esgota em uma manifestação. Seattle, Gênova, Nova Iorque, Porto Alegre, mas não acontece nada, “o mundo segue girando”, como dizia Discepolín. É que a política do “progressismo”, como observou argutamente o filósofo, também italiano, Massimo Cacciaria, ordena os problemas mas não os resolve. [2]

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Alfredo Abad - Nicolás Gómez Dávila: Um Interlocutor de Nietzsche

por Alfredo Abad



"Ler Nietzsche como resposta é não entendê-lo. Nietzsche é uma imensa interrogação". (Gómez Dávila, 2005c, 162)

Entre os livros da biblioteca gomez-daviliana(1), os de Nietzsche possuem uma presença definitiva. Encontramos a obra completa em sua antiga edição Musarion que inclui as obras de Nietzsche e suas cartas. Esta presença do autor alemão dentro das preferências de Dom Nicolás é significativa, não necessariamente pela presença física de seus livros na biblioteca, mas antes de tudo pela presença de seu pensamento na obra do colombiano.

As alusões diretas a Nietzsche ao longo dos escritos gomez-daviliana são muito escassas. Não obstante, o pensamento do exegeta é uma clara conversação que se enfrenta com a imanência contida na finitude estabelecida pelo filósofo de Röcken. Gómez Dávila dialoga com Nietzsche porque ambos autores de enfrentam com o mesmo problema: a transcendência e seu papel dentro do horizonte humano. A arremetida de Nietzsche frente à tradição confronta de forma indefectível Deus enquanto conceito central da metafísica do Ocidente, e certamente, as derivações que dele se desprendem, entre elas a subjetividade, a moral, a verdade. Não se trata só de um aspecto no qual dois pensadores assumem uma mesma ideia e cheguem a resultados distintos a partir de suas apreciações. Como Nietzsche, Gómez Dávila centra sua atenção sobre o Ocidente, ambos oferecem um panorama propício para identificar a sua origem, seu percurso, seu legado e certamente, seus resultados.

domingo, 4 de novembro de 2018

Aleksandr Dugin - Sobre os Significados da História

por Aleksandr Dugin



Falemos sobre a História.

Em nossa sociedade, a crença mais comum acerca da História é de que esta se trata do conhecimento dos fatos passados. No entanto, essa não é só uma definição incorreta, como também completamente falsa: na realidade, não se trata nem de conhecimento, nem de fatos, nem do passado. O âmago da questão reside em outro lugar.

O homem vive no Tempo e, simultaneamente, em meio a um nexo de pensamentos. Pensamento e Tempo estão estreitamente vinculados, inextricavelmente entrelaçados entre si, de modo que são inseparáveis. Em outras palavras, todo pensamento (em um sentido lógico ou em um sentido geral) necessariamente se constrói a partir de um eixo princípio-e-fim, da premissa à conclusão. Logo, qualquer raciocínio, qualquer pensamento, é na verdade uma micro-história, caracterizada por um início, um processo de resolução, um resultado final e − o que é mais importante − um significado. O pensar pressupõe significado.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Guillaume Durocher - Sugimoto Goro e o Zen do Soldado

por Guillaume Durocher



O ascetismo geralmente tem uma má reputação nos círculos vitalistas. A idéia do monge assexuado, desapaixonado, passivo e rejeitador do mundo parece evidentemente desadaptativa, um beco sem saída evolutivo, como Nietzsche e Savitri Devi supuseram. No entanto, o fato é que monges muitas vezes também foram guerreiros, e os monarcas das religiões ascéticas, como o cristianismo e o budismo, foram muitas vezes grandes conquistadores. As ordens monásticas cristãs contribuíram grandemente para a luta contra a agressão muçulmana na Idade Média e provaram ser capazes de exterminar os últimos redutos pagãos na região do Báltico.

No Japão, o zen budismo era a religião dos samurais, que desenvolveram um ethos guerreiro, o Bushidō, que foi um dos mais profundos e espirituais do seu tipo em todo o mundo. Enquanto o budismo hoje é frequentemente associado a uma espécie de pacifismo desenraizado e confortável, na primeira metade do século XX, as escolas zen do Japão Imperial apoiaram entusiasticamente o poderio militar nacional e o serviço altruísta ao imperador como a incorporação divina de sua nação. Os monges e líderes zen desenvolveram o chamado “zen do soldado” (gunjin-zen) e apoiaram fortemente o Japão durante a Segunda Guerra Mundial, tanto em suas ambições imperiais quanto em sua resistência aos Aliados. Nos anos do pós-guerra, muitos ocidentais convertidos ao zen ficaram chocados ao descobrir que seus mestres "iluminados" haviam apoiado o militarismo autoritário e o imperialismo.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Tomislav Sunic - Heidegger Autêntico vs. "Fake News" Inautênticas

por Tomislav Sunic



O problema com Martin Heidegger, o filósofo ocidental amplamente aclamado, não é apenas como interpretar corretamente seus textos, mas também como interpretar corretamente as obras de seus intérpretes. A partir de uma infinidade de livros e artigos de centenas de críticos de Heidegger, dificilmente podemos distinguir dois críticos que se pareçam um com o outro. Cada crítico, ou melhor, qualquer suposto perito em Heidegger, costuma manusear várias palavras de Heidegger, apenas para interpretar essas palavras de acordo com suas próprias conclusõs prévias. No estudo tradicional alemão, esta compartimentação obsessiva das ciências sociais, que salta sobre um contexto social, racial, literário, histórico, etc., mais amplo, foi rotulada com um substantivo "Fachidiotismus", isto é, "idiotice especializada". Este tipo de abordagem compartimentalizada nas ciências sociais hoje é bastante difundido entre os acadêmicos liberais e os autoproclamados especialistas da mídia.

domingo, 11 de março de 2018

Marcelo Gullo - O Peronismo: Uma Tentativa de Insubordinação Fundadora

por Marcelo Gullo



Introdução

Na história das relações internacionais, a primeira unidade política a utilizar, conscientemente, sistematicamente e premeditadamente, o imperialismo cultural [1], isto é, a subordinação ideológico-cultural como instrumento fundamental da sua política externa, para impor a sua vontade às outras unidades políticas, foi a Grã-Bretanha, exportando o livre-comércio como uma ideologia de dominação.

Através das lojas, a Inglaterra exportou, para converter as jovens repúblicas hispano-americanas em semicolônias, as idéias do livre-comércio. Ideia que se cuidou bem para não aplicar em seu próprio território.

Um dos problemas mais marcantes, mas, ao mesmo tempo, mais ignorados na história das relações internacionais, refere-se ao fato de que, desde a sua industrialização, a Grã-Bretanha começou a agir com duplicidade deliberada. Uma coisa era o que era efetivamente realizado em matéria de política econômica para se industrializar e progredir industrialmente e outra, o que era ideologicamente propagado, com Adam Smith e outros porta-vozes.

A Inglaterra, apresentada ao mundo como a pátria do livre-comércio, como o berço da não-intervenção do Estado na economia quando, na realidade, tinha sido, em termos históricos, a pátria do protecionismo econômico e do impulso estatal. [2]

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Alain de Benoist - O que é Soberania?

por Alain de Benoist



O conceito de soberania é um dos mais complexos na ciência política, com muitas definições, algumas totalmente contraditórias.[1] Geralmente, a soberania é definida de uma entre duas maneiras. A primeira definição se aplica ao poder público supremo, que tem o direito e, em teoria, a capacidade de impor sua autoridade em última instância. A segunda definição refere-se ao titular do poder legítimo, que é reconhecido como tendo autoridade. Quando a soberania nacional é discutida, a primeira definição se aplica, e se refere em particular à independência, entendida como a liberdade de uma identidade coletiva para agir. Quando a soberania popular é discutida, a segunda definição aplica-se e a soberania está associada ao poder e à legitimidade.

Soberania e Autoridade Política

A nível internacional, a soberania significa independência, ou seja, não-interferência de poderes externos nos assuntos internos de outro Estado. As normas internacionais baseiam-se no princípio da igualdade soberana dos Estados independentes; o direito internacional exclui a interferência e estabelece regras universalmente aceitas. Assim, a soberania é eminentemente racional, se não dialética, uma vez que a soberania de um Estado depende não apenas da vontade autônoma de seu soberano, mas também da sua posição em relação a outros Estados soberanos. Nesta perspectiva, pode-se dizer que a soberania de um único Estado é a conseqüência lógica da existência de vários Estados soberanos.[2]

É, portanto, um grave erro assumir que a soberania é possível apenas no âmbito do tipo clássico de Estado, ou seja, um Estado-nação, como fazem os representantes da escola "realista", como Alan James e F.H. Hinsley, ou teóricos neomarxistas como Justin Rosenberg.[3] Não se deve confundir os conceitos de nação e Estado, que não necessariamente caminham juntos, ou assumir que o conceito de soberania foi formulado claramente apenas nos termos da teoria do Estado. Mais perto da verdade, está a afirmação de John Hoffman de que "a soberania tem sido um problema insolúvel desde que se associou ao Estado".[4] Mesmo que um conceito de soberania não existisse antes do século 16, não se segue que o fenômeno não existia na realidade política, e que ele não poderia ter sido conceitualizado de forma diferente. Por exemplo, Aristóteles não menciona a soberania, mas o fato de que ele insiste na necessidade de um poder supremo mostra que ele estava familiarizado com a idéia, uma vez que qualquer poder supremo -  kuphian aphen com os gregos; summum imperium com os romanos - é soberano por definição. A soberania não está relacionada a nenhuma forma particular de governo ou a qualquer organização política particular; pelo contrário, é inerente a qualquer forma de autoridade política.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Aleksandr Dugin - Multipolaridade: A Definição e a Diferenciação entre seus Significados

por Aleksandr Dugin



Mais e mais obras sobre relações exteriores, política mundial, geopolítica, e atualmente, política internacional, são dedicadas ao tema da multipolaridade. Um número crescente de autores tentam compreender e descrever a multipolaridade como um modelo, fenômeno, precedente ou possibilidade.

O típico da multipolaridade foi tocado, de uma maneira ou de outra, nas obras do especialista em relações internacionais David Kampf (no artigo, "A Emergência de um Mundo Multipolar"), do historiador Paul Kennedy da Universidade de Yale (em seu livro, "A Ascensão e Queda das Grandes Potências"), do geopolítico Dale Walton (no livro, "Geopolítica e as Grandes Potências no Século XXI: Multipolaridade e a Revolução em Perspectiva Estratégica"), do cientista político americano Dilip Hiro (no livro, "Após o Império: Nascimento de um Mundo Multipolar"), e outros. O mais próximo da compreensão do sentido da multipolaridade, em nossa opinião, foi o especialista britânico em RI Fabio Petito, que tentou construir uma alternativa séria e substanciada ao mundo unipolar com base nos conceitos legais e filosóficos de Carl Schmitt.

sábado, 6 de janeiro de 2018

René Guénon - O Simbolismo Solsticial de Jano

por René Guénon



Acabamos de ver que o simbolismo das duas portas solsticiais, no Ocidente, existia entre os gregos e mais em particular entre os pitagóricos; ele é encontrado igualmente entre os latinos, onde está essencialmente vinculado com o simbolismo de Jano. Como já fizemos alusão a este e a seus diversos aspectos em muitas ocasiões, não consideraremos aqui senão os pontos referidos mais diretamente ao que expusemos em nossos últimos estudos, ainda que, por outra parte, seja difícil isolá-los por completo do conjunto bastante complexo de que formam parte.